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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

TORCENDO CONTRA

Gosto de futebol. Moderadamente. Nas tardes de domingo, uma partidinha na televisão não é mau programa. Sofá, cerveja, pipoca. Se o jogo for bom, motiva−se o destampar de algumas muitas ampolas de pão líquido. Em caso contrário, aproveita−se o sofá para colocar o sono em dia. Exigir mais do que isso me pareceu inadequado. Desafortunadamente, há quem discorde. Algumas pessoas consideram que vinte e dois marmanjos correndo atrás de uma bola têm o mesmo valor de um ritual religioso. Nesse cenário, o grito de gol equivale ao clímax, ao orgasmo. Bobagem. De minha parte, um grito de gol é apenas barulho irritante. Quando o gol é contra o Santos, muito mais irritante.

O fanatismo, que é um fenômeno trivial no mundo esportivo, costuma gerar episódios excessivos. Um conhecido, depois de assistir − pela televisão − a derrota do time de sua devoção, chamou a família para uma solenidade no quintal de casa. Enquanto um dos filhos, clarim em punho, executava (literalmente) o "toque de silêncio", ele, lágrimas escorrendo pelo rosto, hasteou a meio−pau a bandeira da agremiação esportiva.

O único momento em que considero o futebol como algo sério é nos jogos da seleção brasileira. Independente dos jogadores convocados, do técnico ou da importância do jogo, minha função nessa situação é simples: torcer contra. Não é uma posição cômoda. Certa vez, na casa de amigos, quase fui atingido por uma panela de pipocas. Era uma partida contra um país africano, não lembro qual. Fiz algum comentário sobre a incapacidade intelectual dos jogadores nacionais. A namorada de um amigo tomou as dores dos ofendidos. E... Transformou o utensílio doméstico em tacape. Se não a contivessem a tempo, provavelmente me presentearia com uns quinze pontos na cabeça.

Em ocasiões similares, o tribalismo esportivo se faz acompanhar de agressões verbais. Como a seleção é considerada símbolo nacional, torcer contra é anti−patriotismo. Esse pensamento nacionalista, herdado das ditaduras militares, habitualmente é seguido por simpáticos elogios a respeito de minha masculinidade. A honra da senhora minha mãe também costuma ser mencionada com carinho. Fofo, muito fofo.

O aspecto sócio−político do esporte, por sua vez, ninguém quer abordar. Torcedores, atletas e jornalistas preferem a abstenção. Ou melhor, a neutralidade. Vigora o comportamento alienado de que "em boca fechada não entra mosca". Em outras palavras, as relações com o mundo objetivo estão sob o controle dos dirigentes, que as podem usar como melhor lhes for convenientes. E, claro, eles as usam politicamente, inclusive para constituir patrimônios incompatíveis com a renda salarial.

Na "pátria de chuteiras", segundo a histriônica definição de Nelson Rodrigues, muitos torcedores andam descalços. E com fome. E com frio. E com sede. Sede de justiça – aquela que todos conhecemos por tardar e falhar, sem constrangimentos, sem pedidos de desculpas. No país onde o drible, a firula, o passe de letra, o deixar o "João" da vez sem fôlego são qualidades indiscutíveis, a política esportiva incentiva a "estética da mendicância": os jogos do campeonato brasileiro, nas quartas−feiras e domingos, aliviando as dores dos outros dias da semana. Na nação futebolística, a Copa do Mundo é a Disneylândia dos pobres. É o parquinho de diversões, onde a política e o futebol andam de mãos dadas, enganando os trouxas.

Futebol é política, é ação política. Como tudo na vida. Mas, para que se possa enfrentar um adversário prepotente, acostumado a vencer, precisamos reforçar a defesa, posicionar os nossos melhores jogadores no meio−de−campo. Somente quando for possível distribuir a bola para os atacantes é que haverá equilíbrio no placar. Em outras palavras, é preciso fazer uma escolha política: ou acordar para a vida ou continuar sonhando sonhos que não são os nossos. Por enquanto, seja como uma forma de protesto, seja para não ser pisado pela multidão, vou continuar torcendo contra a equipe que – dizem – representa o Brasil.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

VINTE E OITO FRASES PARA LER ANTES DO INÍCIO DA PRIMAVERA

Que as pulgas de mil camelos infestem os teus sovacos! (Maldição árabe)

Todos têm dó dos povos do terceiro mundo. Ninguém tem dó de mim, que vivo em um quarto imundo. (Nereu de Lima Goss)

Fazer amor com uma mulher que não nos agrada é tão triste quanto trabalhar. (Jean Anouilh)

A morte não é o fim. Sempre resta a briga pelo espólio. (Ambrose Bierce)

Deus, dá−me a castidade – mas não agora. (Santo Agostinho)

A virgindade é curável, se detectada cedo. (Henny Youngman)

Há homens que não perdem uma oportunidade de perder uma oportunidade. (George Bernard Shaw)

A diferença entre sexo pago e sexo grátis é que o sexo pago costuma sair mais barato. (H. L. Mencken)

Escrever é transformar os seus piores momentos em dinheiro. (J. P. Donleavy)

Mostre−me um herói e escreverei uma tragédia. (Scott Fitzgerald)

No Brasil o político é viado, corno ou ladrão. A mim, escolheram como ladrão. (Paulo Maluf)

Um mau acordo é melhor do que um bom advogado. (Provérbio italiano)

Nunca nos damos conta de como um mês é curto até que começamos a pagar pensão à ex−mulher. (John Barrymore)

Um homem bem−sucedido é aquele que ganha mais dinheiro do que sua mulher consegue gastar. Uma mulher bem−sucedida é aquela que encontra esse homem. (Lana Turner)

Deus está morto. Calma, a Virgem Maria está esperando outro. (Grafite francês, maio de 1968)

O importante não são as flores, mas o cartão. Inclusive o de crédito. (Washington Olivetto)

Não existe educação sem afeição. (Daniel Piza)

Conselheiro impudente é aquele que alerta a mulher sobre o perigo. (Karl Kraus)

Quando fiz quinze anos, ganhei um relógio de pulso e cinco mil réis. Olhei os ponteiros, vi que era hora de fazer uma besteira e entrei no botequim. (Antonio Maria)

Se as lembranças puderem ser enlatadas, espero que venham sem prazo de validade. (do filme Amores expressos)

Na maré alta, o peixe come as formigas. Na maré baixa, as formigas comem o peixe. (Provérbio tailandês)

No final não nos lembramos tanto das palavras de nossos inimigos, senão do silêncio de nossos amigos. (Martin Luther King)

Uma feijoada só é realmente completa quando tem uma ambulância de plantão. (Stanislaw Ponte Preta)

Sexo é o único esporte que não é cancelado quando falta luz. (Lawrence J. Peter)

O Rio de Janeiro é a cidade mais segura do mundo. Pergunte a qualquer bandido. (Anônimo)

Não grite por socorro à noite. Pode acordar os vizinhos. (Stanislaw J. Lec)

Aprenda a não se apaixonar por coisas pesadas, em um sábado pela manhã. (do filme Blow up)

As mulheres são umas chatas. A gente leva pra passear, leva pra dançar, leva ao zoológico, leva ao cinema e, mesmo assim, vivem reclamando que nós nunca as levamos a esse tal de orgasmo. (Angeli)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

MEIA−NOITE EM PARIS

Owen Wilson, com aquela voz esganiçada, que alterna graves e agudos com espantosa facilidade, é um ator simpático − desses que parecem destinados à mediocridade das comédias escrachadas (Wedding Crashers, 2005, Drillbit Taylor, 2008, Marley and me, 2008). E é, provavelmente, a maior (e melhor) surpresa de um dos filmes dirigido por Woody Allen: "Meia−noite em Paris".

O personagem que Owen Wilson interpreta, Gil Pendler (roteirista de filmes "adoráveis, mas esquecíveis"), está em Paris na companhia da família de sua noiva, Inez. Ele sonha em se mudar para a capital francesa, escrever um romance e viver uma vida intelectual intensa. O mundo idealizado é o motor que o empurra na direção da vida. Como contrapartida, a vida que destrói o sonho está bem representada na sátira ao estadunidense medíocre e que se projeta na tela do cinema em diversas situações – uma das mais divertidas: durante degustação de vinhos, o pai de Inez lembra as qualidades vinícolas do Vale do Napa.

O gatilho que elimina as distâncias que existem entre o real e a fantasia ocorre quando, ao sair de restaurante, completamente bêbado, Gil se perde nas ruas da "cidade luz". Logo depois de ouvir as doze badaladas de uma igreja próxima, embarca em um Peugeot antigo, que o leva para uma festa na casa de Jean Cocteau. Ao som das canções de Cole Porter, os anos 20 em Paris se materializam. Na companhia de Scott e Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway, Gertrude Stein, Pablo Picasso e outros ícones, Gil repete essa experiência non−sense diversas vezes. Esquizofrenicamente, o personagem constrói a negação da realidade: durante o dia cumpre com as obrigações sociais (visita museus e restaurantes), durante as noites se transforma em ativo participante de uma vida cultural que não existe mais.

Misturando elementos cinematográficos presentes em trabalhos anteriores, principalmente Manhattan (1979) e Rosa Púrpura do Cairo (The purple rose of Cairo, 1985), Woody Allen não poupa elogios à Paris: a cena inicial, em que a câmera desliza pela cidade, ao som de Sidney Bechet, misturando afeto e chuva, é um tributo à eternidade da beleza. Sem a ajuda do diretor de fotografia Darius Khondji (que também filmou Beleza Roubada e Ladrão de Sonhos, entre outros) esse poema amoroso não seria possível.

Ao escolher um personagem ingênuo e desajeitado para protagonizar a fábula do desejo que somente se torna possível na ficção, Woody Allen confeccionou um alter−ego bem estruturado, capaz de discutir politicamente a função da arte e a inutilidade da nostalgia. Contra todas as receitas propostas pela ideologia da auto−ajuda, que dita a glamorização de alguns períodos da história, Gil Pendler descobre o óbvio: aquele que abdica da vida concreta em nome de valores abstratos ou idealizados, também fecha os olhos para o jogo de interesses que os constituem. Se Paris é uma festa, de acordo com a célebre definição de Hemingway, também é necessário admitir que, no país dos sonhos, sempre é meia−noite.

P.S.1: Para o espectador que possui algum conhecimento cultural mais aprofundado (principalmente literatura, cinema e artes plásticas), há um aspecto que não é agradável. A insegurança de Scott Fitzgerald, a loucura de Zelda, o comportamento falastrão de Hemingway, o anti−convencionalismo dos surrealistas (Salvador Dali, Man Ray, Luis Buñuel), a masculinidade de Gertrude Stein estabelecem a ligação histórica, mas de forma caricatural. Falta substância, sobra superficialidade.
P.S.2: Sessão lotada: três pessoas. O projetista e dois pagantes (eu e outra pessoa!).

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

DESEMPACOTANDO MINHA BIBLIOTECA

Quando o homem entrou no apartamento e viu os livros na estante, sua primeira reação foi a de pronunciar, em alto e bom tom, sonoro palavrão.

−São esses?

Olhei para ele, olhei para os livros.

−Na outra sala tem mais.

Outro palavrão. Outro elogio às virtudes da senhora minha mãe.

−Para que alguém quer tanto livro? Garanto que o senhor nem leu tudo isso!

Fiquei esperando, calado. Ele trabalhava com mudanças e estava ali para fazer um orçamento.

− Livro é pesado. Não sei não, vai precisar de muita gente para transportar tudo isso.

Ele caminhou até a outra sala, fez uma avaliação rápida, balançou a cabeça, como que a dizer: o mundo está cheio de malucos.

− E os móveis?

− Não é muita coisa: cama, armário, geladeira, fogão, sofá.

− Estou vendo. O que mais tem aqui é livro.

Ele ficou lá, no meio do apartamento, olhando para aquele mar de papel.

Dois dias depois, a tropa de choque chegou carregando vários caixotes. Deixei−os entrar e fui arrumar as malas, lá no quarto. Não demorou muito e precisei voltar rápido. O barulho dos livros sendo jogados dentro das caixas estava me deixando em pânico.

− O que é isso? Que história é essa? Ficaram loucos?

− Moço, num vai dá pra levá essa livraiada toda duma veiz só!

− Se vocês vão levar em duas ou trinta vezes não me interessa. O que interessa é a falta de respeito com os livros. E, olhe só, essa sujeira. Vocês não limpam os caixotes?

Um deles me olhou durante uns dez segundos, coçou a cabeça, parecia que iria dizer alguma coisa.

− O que o senhor quer que a gente faça?

A voz veio do outro lado da sala. O chefe dos carregadores fez questão de marcar posição. E se assim era, também me foi necessário ser enérgico.

− O que é que eu quero? Quero que limpem essas porcarias. Livros e sujeira não combinam! E outra coisa, e se vocês estivessem carregando esses caixotes com cristais? Vocês iriam jogar tudo dentro dos caixotes? Duvido. Então, pensem no seguinte: esses livros são os meus cristais!

Foi com delicadeza que vi os livros serem depositados no chão do novo apartamento. Aqueles que foram empilhados nas paredes me lembraram episódios dos romances do Luiz Alfredo Garcia−Roza. Só faltava o inspetor Espinosa para completar o cenário. Creio que demorei mais de uma semana para colocar todos nas estantes, para estabelecer aquilo que Walter Benjamin chamou de suave tédio da ordem.

Agora, vários anos depois que essa história ocorreu, preciso trocar alguns livros de lugar. A literatura brasileira precisa de mais espaço. Olho para os livros e perco a coragem. Carregar um ou dois debaixo do braço é fácil, mudar quatrocentos ou quinhentos me causa dores psicológicas. Não sei se vou conseguir. Enquanto isso não se resolve, vou comprando outros livros, ampliando o problema.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

216

ele sabia que o teu nome tem sabor de pergaminho
&
que todas as vezes que se apaixonou
esteve perto de arar os ossos da terra,
mesmo sem perder ou ganhar um ramo de acácias
&
A fotografia na carteira nunca passou de uma lembrança absurda
&
havia suor incrustado no desejo
como se fosse uma identificação
ou
um bilhete de adeus
&
olhar para o mar
ou
para as lágrimas
como um resumo simplório
de uma parte de uma parte que não possui importância
&
os dedos entrelaçados na manhã ensolarada de dezembro,
casal de namorados atravessando o parque
&
o deslumbramento é só um travelling emocional,
infindável – como uma mentira
&
amor e intriga são sinônimos
assim como um rosto que se esconde na névoa
&
teve aquele dia em que tudo foi desencontro
exceto lábios, línguas, dentes, saliva
&
uma dor abissal precisa
de um poema,
ou de algo decantável:
você brincando de esconde−esconde na floresta
&
todas as paixões se vestem de ausências
&
a imagem gravada na memória
aquele momento
em que a porta se abriu,
a casa vazia,
os moveis relatando o infortúnio
&
então,
ele,
na varanda,
sentado na cadeira,
construiu castelos de plástico,
esperando pela fuga dos dias
ou
pelos rituais sagrados da noite
&
por você
&



OBS: Gravuras de Pierre Bonnard (1867 - 1947)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

EMIL CIORAN: QUARENTA E UM SILOGISMOS DA AMARGURA

Um monge e um açougueiro brigam no interior de cada desejo.

Todo pensamento deveria lembrar a ruína de um sorriso.

Um livro de guerra – o de Clausewitz – foi o livro de cabeceira de Lênin e de Hitler. E ainda se pergunta por que este século está condenado!

Há almas que nem o próprio Deus poderia salvar, ainda que se pusesse de joelhos e rezasse por elas.

O espermatozóide é o bandido em estado puro.

Quem não conhece a humilhação ignora o que é chegar ao último grau de si mesmo.

Quem não viu um bordel às cinco da manhã não pode imaginar para que lassitudes se encaminha o nosso planeta.

Cada dia é um Rubicão no qual desejo me afogar.

O Real me dá asma.

Se Noé tivesse o dom de prever o futuro, teria certamente naufragado.

Somos todos farsantes: sobrevivemos a nossos problemas.

Todas as águas são cor de afogamento.

Em contato com os franceses se aprende a ser infeliz gentilmente.

O erro da filosofia é ser demasiado suportável.

Fracassar na vida é ter acesso à poesia – sem o suporte do talento.

Só os espíritos superficiais abordam as idéias com delicadeza.

Por necessidade de recolhimento, livrei−me de Deus, desembaracei−me do último chato.

A insônia é a única forma de heroísmo compatível com a cama.

Só enlouquecem os tagarelas e os taciturnos: os que se esvaziam de todo mistério e os que o acumulam demasiado.

Nos momentos mais cruciais da vida, a ajuda do cigarro é mais eficaz que a dos Evangelhos.

A morte se espalha tanto, ocupa tanto lugar, que não sei mais onde morrer.

Como todo iconoclasta, destrocei meus ídolos para consagrar−me a seus restos.

A história das idéias é a história do rancor dos solitários.

Só se entregam ao tédio as naturezas eróticas, decepcionadas de antemão pelo amor.

Onan, Sade, Masoch, que felizardos! Seus nomes, assim como suas proezas, não envelhecerão jamais.

Quem se mata por uma mulherzinha vive uma experiência mais completa e profunda do que o herói que altera a ordem do mundo.

Há dois mil anos que Jesus se vinga de nós por não haver morrido em um sofá.

A dignidade do amor consiste no afeto desiludido que sobrevive a um instante de baba.

Quando nem sequer a música é capaz de salvar−nos, um punhal brilha em nossos olhos; nada mais nos sustenta, a não ser a fascinação do crime.

Ser um Raskolnikov – sem a desculpa do homicídio.

Temo um homem político que não dá sinal de caduquice.

Quanto maior é minha intimidade com os crepúsculos, mais me convenço de que os únicos que compreendem algo de nossa horda são os humoristas, os charlatões e os loucos.

Feliz no amor, Adão teria nos poupado da História.

O segredo de minha adaptação à vida? Mudei de desespero como quem muda de camisa.

Evolução: Prometeu, hoje em dia, seria deputado da oposição.

A criação foi o primeiro ato de sabotagem.

Algumas gerações mais e o riso, reservado aos iniciados, será tão impraticável como o êxtase.

Chopin elevou o piano à condição da tuberculose.

A carne é incompatível com a caridade: o orgasmo transformaria um santo em lobo.

Macbeth: um estóico do crime, um Marco Aurélio com um punhal.

Prolixa por natureza, a literatura vive da pletora de vocábulos, do câncer da palavra.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

BIUTIFUL

Biutiful. Filme cheio de dor. Repleto de personagens desagradáveis. Ausência de zona de conforto. A tristeza marcando cada cena. Mal−estar. Estômagos delicados sentem o incômodo. Claustrofobia. Quase duas horas e meia de duração. Para o espectador, é fácil renunciar a tanta tristeza, basta desligar o DVD, abandonar o sofrimento, fingir que não incomoda.

Biutiful Javier Bardem. A difícil arte de interpretar um personagem ambíguo. Uxbal. Subornar policiais. Explorar imigrantes ilegais. Conversar com os mortos. A ausência do pai. O irmão cretino. A ex−esposa bipolar. Os dois filhos pequenos, Ana e Mateo. Câncer de próstata. Impotência (em vários níveis). Urina e sangue se misturando. Ritual de despedida. Os mortos sofrem se deixam dívidas para trás, observa – inutilmente − um dos personagens. Os vivos também sofrem. Também fazem sofrer aqueles que estão próximos.

Biutiful cinema. Recorte dos nós que nos atam, que atam a todos nós. A outra face de Barcelona. Aquela que desmente as imagens decorativas dos cartões postais. Aquela que desconhece Gaudi. Que suprime as cores. Que reprime a alegria. Ruas escuras. Atividades escusas. Lixo espalhado nas calçadas. Sujeira. Mau cheiro. O bolor no teto do apartamento. Cadáveres boiando na praia. A decomposição da vida.

Biutiful. A fonética superando a gramática. A letra da filha no desenho fixado na porta da geladeira. Cinema em ritmo coloquial. Sem igual. Um exercício poético sobre a desgraça, versos naturais, goles d’água, o ar que respiramos. Viver é conviver com a angústia, sobreviver às ilusões da ilusão. Culpa. Muita. Dessas carregadas de amargura. E que resultam em confusão. Nenhuma desculpa. Não daqueles que transgridem. Não daqueles que se descobrem inúteis para corrigir o rumo dos acontecimentos. Se eu fecho os olhos, os pensamentos começam, confessa Marambra, a mãe das crianças. Ausência de sintonia entre os personagens.

Biutiful. Vários núcleos narrativos. Melhores condições de vida deslocam homens e mulheres para outras formas de inferno. Os imigrantes chineses e o trabalho escravo. Os negros que vendem produtos piratas e drogas. Conflitos que se entrelaçam. A luta pela sobrevivência gritando quadro−a−quadro. A metástase da exclusão. A esperança esfarelada pelas sentenças de morte instituídas pelo colonialismo, pelo capitalismo.

Biutiful obra−prima. Sincera até a medula.

Alejandro Gonzáles Iñárritu: Amores perros (2000), 21 gramas (2003), Babel (2006), Biutiful (2010).

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O ÚLTIMO CAPÍTULO DA NOVELA


A chuva e o frio eram intensos. Além disso, como ainda não resolveram um problema elementar de física − estar em dois lugares ao mesmo tempo −, precisei fazer uma escolha desagradável: atormentar alguns alunos ou assistir o último capítulo da novela. Optei por ministrar péssima aula. E vários motivos concorreram para essa calamidade. Além de ter apresentado texto inapropriado para o público daquela noite, precisei superar alguns problemas técnicos: desconforto estomacal, que – em alguns instantes – importunou bastante, e uma pane no PowerPoint. O que deveria ser uma coisa se tornou outra. E pior. Aliás, o pior não foi isso, foi não ter pedido desculpas aos alunos pelo desastre.

Então, enquanto torturava alunos e sentia frio, estive impossibilitado de assistir – em tempo real − as claudicantes "lições de moral" que costumam acompanhar os desfechos narrativos promovidos pelos folhetins televisivos. Não fui tragado pela vertigem que devora o senso critico do espectador. Poupei a mim mesmo da soma do ridículo com o lamentável. Ignorei aqueles diálogos de história em quadrinhos. Perdi esse engodo pseudo−ético que é a punição dos culpados – momento em que "a" virtude é exaltada de forma maniqueísta. Fiquei sem ver o happy end, a fórmula mais ridícula de anestesiar a vida.

E isso foi bom. Não, foi mais: foi excelente. O cinismo que cultivo desde a infância já é suficiente para minhas necessidades básicas.

Término de uma etapa, início de outra. Outra novela. Entre um não−lugar e outro, nenhum comprometimento com o mundo "real". Talvez seja esse o destino da ficção: atrair olhares para o lado, enquanto a vida atropela todos nós na estrada principal.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

TRINTA FRASES PARA SEREM LIDAS EM UMA TARDE DE AGOSTO

Viver bem é a melhor vingança. (Provérbio basco)

Nada mais perigoso do que ser demasiado moderno: corre−se o risco de sair de moda muito rapidamente (Oscar Wilde)

Um dia, quando Rosemary Savage Samarco estava para morrer (pela quinta vez, de um total de dez), confiou à sua filha, Celeste Boyle: - Juro por Deus, o único prazer que tive em minha vida foi o de encher o saco de seu pai.
(Dennis Lehane: Sobre meninos e lobos).

O casamento é a única guerra em que se dorme com o inimigo. (Provérbio mexicano)

A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo planos. (John Lennon)

Detesto tanto esse tormento enfadonho chamado vida social que não estranharia se, depois de minha existência pecaminosa, em vez de ir para o inferno me condenassem a um coquetel... (Fernando Savater: Desperta e lê).

Two most dullness (crushing) things in life: moving house and divorce. Duas das coisas mais cansativas da vida: mudanças e divórcio. (Do filme The Browning version).

As paixões mais violentas por vezes nos dão folga; a vaidade, nunca (La Rochefoucauld)

Me ame quando eu menos merecer, porque é quando eu mais preciso (Provérbio chinês).

Escritor discute dinheiro. Quem discute literatura é o leitor. (João Ubaldo Ribeiro)

O outro, mesmo quando não se trata de um inimigo, só é visto como alguém para ser visto, e não como alguém (como nós) que também vê. (Susan Sontag: Diante da dor dos outros).

Quem não sabe dançar culpa o assoalho (Provérbio Hindu)

Meu irmão diz que as mulheres deveriam vir com manual de instruções. Assim não haveria problema ao usá−las. Eu acho que deveriam ter uma lista de contra−indicações: essa garota pode causar efeitos colaterais, manter longe das crianças... (do filme Los peores años de nuestras vidas)

Me distraiam mil encantamentos. Mas as belezas se subtraem: a gente vê a borboleta e esquece a flor. (Mia Couto)

A idade ensinou−lhe a pintar amores−perfeitos de péssima qualidade. (Inês Pedrosa: A instrução dos amantes)

Detesto discussões. São sempre vulgares e, muitas vezes, convincentes. (Oscar Wilde)

Desejei duas coisas – uma dose de Bourbon e sabedoria para ter feito tudo de modo diferente. Mas estava no lugar errado para uma, e era tarde demais para a outra. (John Dunning: Impressões e Provas)

Casamento é como caipirinha de boteco: todo mundo sabe que dá dor de cabeça, mas todo mundo quer experimentar. (Do filme Pequeno Dicionário Amoroso)

Com dinheiro no bolso você fica sábio, charmoso, e até canta bem. (Provérbio iídiche)

Nunca se diga que o amor é fácil, antes de vivê−lo como um vício. (Antonio Maria)

A sociedade não deve continuar dando aos burocratas o poder de distribuir riquezas. (Karl Popper)

Quer saber de uma coisa? Sou igual aos outros. Só que preciso mais de você do que eles. (Do filme Things to do in Denver when you’re dead)

Meu pai já dizia: Gabriel, não casa! Não casa, porque mulher é por um tempo e ex−mulher é para o resto da vida. (Do filme Pequeno Dicionário Amoroso)

Londres está cheia de mulheres que confiam no marido. São reconhecidas com grande facilidade: todas parecem extremamente infelizes. (Oscar Wilde)

As mulheres possuem duas armas terríveis: cosméticos e lágrimas. (Napoleão Bonaparte)

Se pelo menos não vivêssemos tentando ser felizes, até poderíamos nos divertir bastante (Edith Wharton)

Se a minha presença a incomoda, senhora, não preciso que mo diga, e acto contínuo saí−se pela porta fora, sem olhar para trás, olhar para trás é risco tremendo, pode a pessoa transformar−se em sal e ficar para ali à mercê da primeira chuva. (José Saramago: O homem duplicado)

É impossível amar uma segunda vez quem verdadeiramente deixamos de amar (La Rouchefoucauld).

Uma vez Margot me dissera: - Quando você pensa ou sente alguma coisa importante, você escreve em vez de falar. Eu adoraria que chovesse no seu computador! (Hanif Kureishi: O corpo e outras histórias)

Estamos todos na sarjeta, mas alguns estão olhando para as estrelas. (Oscar Wilde)

terça-feira, 16 de agosto de 2011

SUSAN SONTAG EM SARAJEVO

Em abril de 1993, David Rieff fez um pedido singular à sua mãe. Nessa época ele estava escrevendo um livro sobre uma guerra insana e que quase destruiu parte do território que o passado cada vez mais distante um dia chamou de Iugoslávia (Slaughterhouse: Bosnia and the Failure of the West, 1995). O que David pediu para Susan Sontag era simples: deixar o conforto de Nova Yorque e encarar a guerra como metáfora da vida – ou a vida como metáfora da morte. Em outras palavras, ela estava sendo convidada para visitar Sarajevo, a cidade em que bombas, granadas e morteiros matavam diariamente dez a quinze pessoas; o número de feridos ultrapassava o dobro. Sitiados pelo exército sérvio, os 350 mil habitantes de Sarajevo estavam sendo vítimas da violência gerada pela conjunção incestuosa entre história, geografia, religião e ressentimento.

Durante duas semanas, uma escritora americana excêntrica que nas horas vagas dirige peças de teatro, como Susan Sontag definiu a si mesma, foi espectadora privilegiada dessa tragédia contemporânea.

Como as atividades culturais em Sarajevo somente eram exercidas durante a tarde (para evitar o desperdício de energia elétrica, para não se tornarem alvos fáceis durante os bombardeios noturnos), Susan Sontag escondeu o medo assistindo diversos espetáculos teatrais na companhia de alguns amigos. Ao final de uma das apresentações de Grad (Cidade), uma colagem de textos de Kostantinos Kavafis, Zbigniew Herbert e Sylvia Plath, o diretor de teatro Haris Pašović lhe perguntou se estaria interessada em voltar à Sarajevo, alguns meses depois, para dirigir algum trabalho. Sontag, sem pensar muito, respondeu: Mais do que interessada. Sem permitir que ela tomasse fôlego ou acrescentasse alguma ressalva, Pašović lançou a isca: Que peça?

Surpreendida pelo inconsciente (ou por seu representante, Pašović), cheia de coragem e energia, Susan Sontag não compactuou com o maior dos pecados intelectuais: a indiferença.

Em depoimento sobre o episódio, Sontag escreveu: Eu não tinha a ilusão de que ir à Sarajevo dirigir uma peça faria de mim uma pessoa útil, da maneira como eu poderia ser útil se fosse médica ou engenheira hidráulica. Seria uma contribuição pequena, mas era a única das três coisas que faço – escrever, filmar, dirigir peças de teatro – que poderia produzir algo que só existiria em Sarajevo, algo que seria feito e consumido lá mesmo.

Sabedora de suas limitações, ou melhor, das limitações da cultura, além da extensão do poder publicitário de certos eventos, Sontag decidiu contribuir. Isto é, além de montar um espetáculo para o público de Sarajevo, parte de sua proposta era atrair o olhar mundial à encenação. E à estupidez da guerra. Então, ela fez uma opção emblemática: Esperando Godot. Somando a fala inicial, Nada a fazer, o cenário mínimo (metonímia da cidade despojada) e o pessimismo da dramaturgia de Samuel Beckett, o palco se tornou uma representação do campo de batalha, o desespero controlado de Vladimir e Estragon contra o reacionarismo político, as angústias de uma cidade que procurava esquecer a guerra indo ao teatro assistir um espetáculo angustiante.

A montagem proposta por Sontag se caracterizou por uma leitura bastante diferente da idealizada originalmente por Beckett. Além de suprimir o segundo ato, sob a alegação que o desespero beckettiano já estava representado no primeiro ato, um rodízio multi−étnico entre os atores contribuiu para que as sessões (quatro a cinco apresentações por semana, em ocasiões especiais duas vezes ao dia) fossem consideradas como um convite à volta do público ao teatro, a necessidade psicológica de ver as outras variações da mesma comédia.

Infelizmente, a imprensa internacional não entendeu a proposta. Com o mesmo poder de destruição da artilharia sérvia, criticas e ofensas se espalharam em jornais e revistas. No contra−ataque, Godot comes to Sarajevo (publicado no Brasil, na coletânea Questão de Ênfase), Sontag tentou explicar o porquê de ter escolhido o texto de Beckett. Não convenceu. Além dos danos físicos na cidade, o fascismo embotou a inteligência.

A temporada de Esperando Godot em Sarajevo iniciou em uma terça−feira, dia 17 de agosto de 1993. Enquanto o público dentro do teatro esperava por um personagem que nunca chegaria, lá fora os tiros efetuados por franco−atiradores lembravam que a destruição da vida estava cada vez mais próxima.


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

QUE LINDOS SÃO OS JAPONESES

Parte da literatura brasileira sofreu grande influência da cultura japonesa. Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Décio Pignatari (criadores da Poesia Concreta) por um lado, e Paulo Leminski de outro, todos admiradores fervorosos de Bashô, estreitaram laços afetivos com algumas palavras: haicai (que alguns grafam haiku), waka, tanka, koan e satori. A prosa, em compensação, não fez muito esforço nessa direção. Com exceção de Mongólia (Bernardo Carvalho, 2003), O sol se põe em São Paulo (Bernardo Carvalho, 2007), Rakushisha (Adriana Lisboa, 2007) e Nihonjin (Oscar Nakasato, 2013), em pouco ou quase nada forneceu cor ao cenário em que movimentam alguns personagens de descendência oriental. Ou seja, a literatura discursiva se contentou em ler a produção dos escritores do arquipélago. E é preciso fôlego de Musashi para dar conta dessa turma toda.

A literatura japonesa recebeu duas vezes o prêmio Nobel. O primeiro foi concedido em 1968 a Yasunari Kawabata. O segundo foi entregue a Kenzaburo Oe em 1994. Enquanto Kawabata sentia prazer em trabalhar temas psicológicos e eróticos, Oe enfrenta corajosamente a modernidade com os referenciais do após−guerra. Com estilos distintos – e inconfundíveis –, eles são as vigas mestras que sustentam essa construção multifacetada chamada de prosa nipônica. Os valores da sociedade feudal (honra, coragem, bravura e respeito às tradições sociais e políticas) aparecem nos romances e contos de Ryunosuke Akutagawa, Nagai Kafu, Natsume Soseki, Akira Yoshimura e Yukio Mishima.

Depois de 1945, ocorreram muitas mudanças no Japão. A influência do Ocidente transformou o país. Essa transição está delineada com precisão nos livros de Yasushi Inoque e Junichiro Tanizaki.

Contemporaneamente, os escritores japoneses que são publicados no Ocidente, mostram preocupação com os conflitos familiares e as questões sexuais. Textos como Kitchen (Banana Yoshimoto, 1995), Miso soup (Ryu Murakami, 2005), Sayonara, gangster (Genichiro Takahashi, 2006), Cobras e piercings (Hitomi Kanchara, 2007) e Quinquilharias Nakano (Hiromi Kawakami, 2010), entre outros, transitam por essas áreas turbulentas, deixando rastros de destruição e prazer por centenas de páginas.

No romance policial Do outro lado (Natsuo Kirino, 2009) ocorre um fenômeno curioso: um dos personagens secundários é brasileiro (acusado de estuprar funcionárias da fábrica em que trabalha). Enquanto aqui há reverência ao "Império do Sol Nascente", a visão antípoda parece não acompanhar o idealismo. E, como sempre acontece, a realidade se mostra muito mais cruel do que é possível imaginar.

Com a habilidade e a precisão de um arqueiro zen, Haruki Murakami é o escritor japonês contemporâneo mais surpreendente. Fã fanático do jazz, ex−dono de bar, sua escrita oscila entre a ficção científica e os dramas afetivos com igual competência e talento. A relação que estabelece com o Ocidente é de tal ordem que a balada amorosa Norwegian Wood (2005), por exemplo, poderia ter sido ambientada em qualquer lugar da Europa (trocados os nomes dos personagens e dos lugares).

Apesar de estar do outro lado do mundo, editoras como a Estação Liberdade (responsável pela publicação de alguns dos nomes e livros citados acima) vivem a nos lembrar que o Japão é aqui!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

DIZZY GILLESPIE, LONDRES E EU


Em novembro de 1990, portanto, no século passado, por uma dessas felicidades que o tempo não permite repetição, Londres era uma festa. Pelo menos era o que me parecia. Surpresas todos os dias. Boas surpresas. Havia entusiasmo até em ir à lavanderia da esquina. Enquanto as roupas ficavam girando sem parar na maquina, enfileirávamos no meio−fio da rua as latinhas vazias de Foster’s, uma cerveja australiana bem forte, comprada no pub ali ao lado. Nossa sede, a minha e a da futura mãe do meu filho, era interminável.

A imagem de Londres que guardei na memória se confunde com livros e jazz. Na Charing Cross Road comprei quase uma biblioteca. Quando voltei ao Brasil, o funcionário da alfândega perguntou se eu era comerciante de livros. Tive vontade de dizer que sim, mas não era verdade. Nas lojas de discos, adquiri dezenas de fitas cassetes, Miles Davies, Chet Baker, Art Tatum, Bill Evans, diversas coletâneas, sons que me ajudaram a enlouquecer um pouco mais. Enquanto a cidade encantava meus olhos, o jazz fornecia a trilha sonora. Deveria ter adquirido CDs, mas, naqueles tempos, a velocidade da tecnologia não era muito rápida e, comprovando o meu pessimismo com a modernidade, imaginei que seriam inúteis no Brasil. Seis meses depois estava arrependido. Então só me restou, na medida do possível, nos anos seguintes, substituir algumas daquelas fitas por CDs.

Fomos visitar a Saison Poetry Library, que fica no Southbank Centre. Difícil esquecer aquele ambiente, livros de todas as partes do mundo. Iluminações poéticas misturadas com a beleza daquele final de tarde. Também não consigo apagar da memória outra coisa. Uma banda americana estava se apresentando ali perto da biblioteca. Jazz de primeira classe. Sentados bem em frente aos músicos, ligeiramente decepcionados pelo bar não ter Foster’s, aceitamos que várias garrafas de Heineken (ou será que foi de Stella Artois?) substituíssem o precioso néctar. Durante um dos intervalos, empolgado com tudo aquilo, diante do band leader, um sujeito de quase dois metros de altura, venci a timidez e deixei escapar um Congratulations, wonderful music!  Ele apertou minha mão e disse alguma coisa, não entendi o quê, meu inglês era horrível (depois desses anos todos, continua risível). Balbuciei algum grunhido em resposta e nos separamos. No bar, a cerveja ajudou a diminuir a tensão.

Alguns dias depois, não lembro se foi em algum jornal ou nas páginas da Time Out, li uma notícia espetacular: Dizzy Gillespie estava se apresentando no Ronnie Scott΄s Club, lá no SoHo. Cheio de esperanças, comecei a fazer planos, era a minha chance de estar na presença de uma lenda viva. A possibilidade de ouvir, entre outros clássicos, A Night in Tunisia e Groovin’ High me alegraram. Muito. O delírio foi de tamanha dimensão que imaginei ser possível conseguir um autografo do trompetista.

Fui bloqueado. Vinte zagueiros impedindo o avanço do atacante. Foi feio. Frases enérgicas − onde expressões estúpidas como sold out e fully booked se destacavam − me fizeram voltar à realidade. Não bastasse, o massacre se completou diante da calculadora. O preço do ingresso e a tabela de câmbio revelaram que o inferno está escondido em alguns números. Não houve jeito, tive que abandonar a ideia. Não consegui ver um dos caras que preencheram o silêncio com música. Gillespie cumpriu esse doce desvario ao lado de gênios como Cab Calloway, Charlie Parker, John Coltrane e Lalo Schifrin.

Alguns dias depois, voltamos para casa. No avião, sintonizei o canal de jazz. Pura decepção. Ninguém consegue se entusiasmar com música de elevador. Queria algo com alma, com mais tempero. Queria swing. Então, retirei da mochila o walkman e permiti que o fraseado surpreendente de Manteca, Salt Peanuts e Anthropology aliviasse o estresse da viagem.

P.S.: John Birks Gillespie, vítima de câncer no pâncreas, faleceu em 06 de janeiro de 1993. Tinha 76 anos.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

CENAS TEATRAIS


O pior teatro sempre será bom teatro. Foi com esse pensamento (ingênuo) que desembolsei R$ 40,00 para assistir Balaio de gatos – uma comédia de peso, com Fabiana Karla e Leandro da Matta. Não é toda semana que a aldeia recebe uma atriz global, dessas que preenchem a telinha com algum talento, mesmo que seja em ritmo de “Zorra Total”.

Teatro lotado. Muitas figurinhas carimbadas posando de coadjuvantes no espetáculo paralelo que a platéia encena nessas ocasiões. Parte da diversão está no observar o exibicionismo social. Enquanto aguardavam pelo início da peça, vários bustos plastificados desfilaram alegremente pelo foyer. Alguns estavam cobertos por casacos de grife. O ambiente contaminado pela exótica mistura de naftalina e perfume contrabandeado do Paraguai causou espirros veementes nos narizes mais sensíveis. Ao fundo, fingindo discrição, meia dúzia de pequenos−burgueses falava em voz alta, na vã tentativa de exibir a cultura que não possuem. O de sempre. Sem tirar nem pôr, que a novidade não costuma passear por esses ambientes, nem mesmo nos dias em que há convidados.

Pontualidade britânica. A peça começou no horário programado, nem um minuto de atraso. A província reagiu adequadamente a esse profissionalismo: nos quinze primeiros minutos, várias pessoas atrasadas. Sussurros fingidamente constrangidos encobriram o espetáculo principal, aquele que estava tentando se desenvolver em cima do palco. Tentando é a forma educada com que devemos tentar esconder as deficiências. A soma da acústica sofrível do teatro com a falta de extensão de voz de Fabiana Karla resultou em grande prejuízo auditivo para quem estava interessado no ato cênico. Em alguns momentos, muitos alguns momentos, parte das falas soaram como murmúrios, sons longínquos.

Para compensar, Leandro da Matta, um ator de verdade, em nenhum momento comprometeu o seu papel de "escada". Como possui uma voz adequada para esse tipo de encenação e estava ciente de que a "estrela" da noite era de outra grandeza, coube-lhe a ingrata tarefa de ajudar no possível − tentativas trôpegas de corrigir o andamento trôpego de sua companheira de palco.

Comédia rasgada, dessas que não se constrangem de repetir os chavões, Balaio de gatos – uma comédia de peso está escorada em um propósito elementar: arrancar risadas do público. A qualquer custo. "Cacos" incluídos no preço do ingresso – e foram muitos, muitos. O bom desses momentos é que o público não se fez de rogado, como se costuma dizer no Planalto Catarinense. O riso foi farto. Sem constrangimento.

O espetáculo durou uma hora e meia. Na saída foi possível assistir outras cenas igualmente hilárias. Alguns espectadores mais entusiasmados prometiam voltar em todas as ocasiões. Em alto e bom som proclamavam que “teatro é cultura, precisamos apoiar mais esse tipo de iniciativas”. Como a noite era de comédia, o bom-senso recomendou esquecer essa tragédia.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

RÁPIDAS ANOTAÇÕES SOBRE O CINEMA BRASILEIRO

Ficar em casa ou sessão de cinema? Não foi possível resistir à segunda opção. Principalmente em um sábado à tarde. Estar diante da tela grande (acompanhado por refrigerante e pipocas) é uma forma de dizer (para si mesmo) que a sanidade só se mantém quando estamos afastados do estresse que vigora lá fora, lá naquela parte da realidade que os chatos chamam de responsabilidade ou trabalho. É com ajuda da arte (em muitos casos, de algo que não é arte, mas parece ser arte) que é possível ampliar o prazer de viver. Há uma deliciosa tranqüilidade quando damos vazão a essa insensatez que é o deixar o mundo ser embalado pelo compasso de espera.

Para quem mora na província, uma das boas coisas das sessões no sábado a tarde é a sensação de isolamento. Geralmente a sala de projeções está vazia. Durante uma hora e meia ou duas a penumbra não se dissolverá em outras atividades. Nenhum pré−adolescente carente fará algazarra. Lá nos fundo não estarão sentados os casais de namorados sedentos de saliva. As vozes de quem escolheu o cinema para colocar em dia as fofocas da semana não interromperão o filme. Não há chances de algum jogador de basquete estar sentado exatamente na nossa frente. Parece até mágica: somente freqüentam esses horários aqueles que vão ver o filme!

O cinema nacional contemporâneo melhorou muito. Principalmente quando deixou de lado a seriedade. Felizmente, aqueles que a crítica considera os "melhores" diretores brasileiros pararam de tentar imitar a genialidade de Glauber Rocha. Não é possível suportar pseudo−intelectual discutindo a luta de classes no país dos cafajestes. Essa coisa pedante que eles chamam de "cinema verdade" ou, sei lá, qualquer outra classificação igualmente medíocre, não sabe se divertir. Aliás, eles desconhecem a diversão. Qualquer tipo de diversão. O espectador que assistiu aos últimos trabalhos de Fernando Meirelles, José Padilha ou Arnaldo Jabor provavelmente perdeu a fé na existência de uma cinematografia que não esteja comprometida com a chatice. Não bastasse isso, cinema não é (ou não deveria ser) uma luta enraivecida por recordes de bilheteria.

Fui assistir Cilada.com (Dir. José Alvarenga Júnior, 2011). Não é bom. Nem mediano. Protagonizado por Bruno Mazzeo, o filme está estruturado em alguns lugares−comuns do universo masculino. E parte do problema é exatamente esse. Em alguns momentos parece ser apenas um capítulo ruim do seriado que fez sucesso no canal a cabo Multishow. Sem a descontração do programa de televisão, auxiliado por um roteiro fraco e piadas ruins, o que sobra é a falta de identidade. Ou melhor, a falta de humor. Principalmente aquele mau humor, aquela rabugice, que o espectador esperava encontrar na franquia "Cilada". O resultado desse blefe é um trabalho melancólico, ridiculamente patético. Nem mesmo a belíssima Fernanda Paes Leme ajuda a salvar o desastre.

Em contrapartida, nas locadoras é possível encontrar cópia de Desenrola (Dir. Rosane Svartman, 2011), uma comédia adolescente sem grandes pretensões, exceto reinterpretar nova velha versão de uma historinha bem conhecida, a da crise de identidade dos jovens que estão procurando pela porta de entrada no mundo adulto. Ajudado por um roteiro bem estruturado, o filme desliza tranquilamente até o desfecho. O excelente Lucas Salles responde por parte dessa ausência de atrito.

Nesse ritmo de semi−dramas adolescentes, misturando lirismo, rituais de passagem e a aquisição do conhecimento, o mercado brasileiro foi abastecido, recentemente, com algumas produções de boa qualidade. Não são filmes para ganhar festivais ou arrecadarem fortunas. Antes de qualquer coisa, esses trabalhos estão comprometidos com o entretenimento. E isso, inquestionavelmente, é uma qualidade. Exemplos dessa tendência são, entre outros, Antes que o mundo acabe (Dir. Ana Luiza Azevedo, 2009) e As melhores coisas do mundo (Dir. Lais Bodanzky, 2010)

Misturando diversas situações, Cinco vezes favela – agora por nós mesmos (Dir. Manaíra Carneiro e Wawá Novais, Rodrigo Felha e Cacau Amaral, Luciano Vidigal, Cadu Barcelos, Luciana Bezerra, 2010) lança um novo olhar de esperança para o cinema brasileiro. Mesmo sendo um filme de episódios, onde alguns estão melhor resolvidos do que outros, o conjunto revela sensibilidade, talento e um gostinho de quero mais. Quantos filmes são capazes de fornecer essa sensação?

E, para não dizer que não falei de flores, na primeira fila da frente do renascimento desse cinema mais solto, menos comprometido com o sensacionalismo, não se deve esquecer que ainda há espaço para o humor escrachado, non−sense, do ótimo De pernas pro ar (Dir. Roberto Santucci, 2010), onde a genial Ingrid Guimarães mostra com quantas piadas se constrói uma comédia. Uma excelente comédia.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

OUTRAS TRINTA FRASES DE MACHADO DE ASSIS

1) Nada há mais feio que dar pernas longuíssimas a idéias brevíssimas.

2) A esposa é apenas uma casaca, traje comum; a hetaira é uma farda agaloada de ouro.

3) Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito.

4) Eu sei que Vossa Excelência preferia uma delicada mentira; mas eu não conheço nada mais delicado que a verdade.

5) O infeliz namorado tinha o sestro, aliás comum, de querer ver quebrada ou inútil, a taça que ele não podia levar aos lábios.

6) A vida é uma ópera bufa com intervalos de música séria.

7) Vão esforço, inútil esforço. Mergulhava naquele Jordão sem sair batizado.

8) A gratidão de quem recebe um benefício é sempre menor que o prazer daquele que o faz.

9) Se a missão do romancista fosse copiar os fatos, tais quais eles se dão na vida, a arte era uma coisa inútil; a memória substituiria a imaginação.

10) A História é pessoa entrada em anos, gorda, pachorrenta, meditativa, tarda em recolher documentos, mais tarda ainda em os ler e decifrar.

11) Antes do poeta mostra−se o homem, antes do talento o caráter.

12) José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental as idéias; não as havendo, servia a prolongar as frases.

13) Todo aquele castelo de vento, laboriosamente construído nos seus dias de ilusão, todo ele se esboroava e desfazia, como vento que era.

14) A irmã olhou silenciosamente para ele, e admirou consigo mesma a ventura daqueles para quem as tempestades do ar importam mais que as tempestades da vida.

15) Quando a gente não pode imitar os grandes homens, imite ao menos as grandes ficções.

16) Era vaidoso como um tolo e tolo como um vaidoso.

17) Dizem que cozinha e política não devem ser feitas às claras, porque faz perder o gosto... Do jantar.

18) Não há mal que não traga um pouco de bem, e por isso é que o mal é útil, muita vez indispensável, alguma vez delicioso.

19) Ia cheia de perfumes e bálsamos; o rapaz respirou−lhos sem querer, e pela primeira vez sentiu a vertigem que pode causar uma mulher quando sabe escolher os aromas do seu uso.

20) A paciência é a gazua do amor.

21) Há casos em que a indignação silenciosa é o mais eloqüente comentário.

22) Felizes aqueles cujos dias correm com a insipidez de uma crônica vulgar. Geralmente os dramas da vida humana são mais toleráveis no papel que na realidade.

23) O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado.

24) Viver é lutar; e morrer é acabar lutando, que é outro modo de viver. Não sei se me entendem. Eu não me entendo. Digo coisas assim, à laia de trocado engenhoso, para tapar o buraco de uma idéia. É o nosso ofício de pedreiros literários.

25) Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola−se mais ou menos das pessoas que perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.

26) Há um bom costume na Índia, que eu quisera ver adotado no resto do mundo, ou pelo menos aqui no Rio de Janeiro. A visita não é que se despede; é o dono que a manda embora.

27) Não é mal esse costume de escrever o que se pensa e o que se vê, e dizer isso mesmo quando não se vê nem pensa nada.

28) Não era magro nem gordo, alto nem baixo; mediano em tudo, exceto na inteligência, que era ínfima.

29) Como vês, Capitu, aos quatorze anos, tinha já idéias atrevidas, muito menos que outras que lhe vieram depois; mas eram só atrevidas em si, na prática faziam−se hábeis, sinuosas, surdas, e alcançavam o fim proposto, não de salto, mas aos saltinhos.

30) Leio por instruir−me; às vezes por consolar−me. Creio nos livros e adoro−os.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

TRINTA FRASES DE MACHADO DE ASSIS

1) Os adjetivos passam, os substantivos ficam.

2) Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular.

3) Marcela amou−me durante quinze meses e onze contos de réis.

4) Sua alma era uma fonte de duas bicas, vertia mel por uma e vinagre por outra.

5) Coelho tinha mais ambições que dinheiro, e não há pior situação que a de um homem cujo espírito está acima das algibeiras.

6) Que importa o tempo? Há amigos de oito dias e indiferentes de oito anos.

7) O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino, corte−dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabéns quando se lê, carta de pêsames quando se acabou de ler.

8) O amor contrariado, quando não leva a um desdém sublime da parte do coração, leva à tragédia ou à asneira.

9) As aparências enganam; foi a primeira banalidade que aprendi na vida, e nunca me dei mal com ela.

10) A beleza é como a bravura; vale mais se não a mentem à cara dos outros.

11) Só a beleza intelectual é independente e superior. A beleza física é irmã da paisagem.

12) Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.

13) O melhor dos bens é o que se não possuí.

14) É que o boato – não me refiro ao boato das simples notícias que envolvem caráter público e interesse comum – é uma das mais cômodas invenções humanas, porque encerra todas as vantagens da maledicência, sem os inconvenientes da responsabilidade.

15) Miloca não era cruel; pelo contrário, tinha sentimentos caridosos; mas, como ela mesma disse um dia ao pai, nunca se deve dar esmolas sem luvas de pelica, porque o contato da miséria não aumenta a grandeza da ação.

16) Então considerou que esse coração abandonado, tiritando de frio na rua, podia ela recebê−lo, agasalhá−lo, dar−lhe o principal lugar, numa palavra, casar com ele.

17) Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocados jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê−los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitações ou de agradecimento.

18) Tinha cóleras, que duravam o tempo das opiniões; minutos apenas.

19) Na escola não briguei com ninguém, ouvia o mestre, ouvia os companheiros, e se alguma vez estes eram extremados e discutiam, eu fazia de minha alma um compasso, que abria as pontas aos dois extremos.

20) A consciência é o mais cru dos chicotes.

21) Um contador de histórias é justamente o contrário de historiador, não sendo um historiador, afinal de contas, mais do que um contador de histórias. Por que essa diferença? Simples, leitor, nada mais simples. O historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado, humanista; o contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio, e entende que contar o que se passou é só fantasiar.

22) Tinha o coração disposto a aceitar tudo, não por inclinação a harmonia, senão por tédio à controvérsia.

23) O coração humano é a região do inesperado.

24) O destino, como todos os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho. Eles chegam a seu tempo, até que o pano cai, apagam−se as luzes, e os espectadores vão dormir.

25) A diplomacia me ensinou a aturar com paciência uma infinidade de sujeitos intoleráveis que este mundo nutre para os seus propósitos secretos.

26) Caí da poltrona; não me dividi fisicamente, como me parecera em criança; mas moralmente desdobrei−me em dois, um que imprecava, outro que gemia.

27) O ruído não é a eloqüência.

28) Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.

29) Escrevi−a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio.

30) Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

HERÓIS DEMAIS, UM ROMANCE DE LAURA RESTREPO

Parte da história latino−americana pode ser resumida no parágrafo final do conto A herança de Matilde Arcángel, de Juan Rulfo:

Quando parecia que já tinha terminado o desfile de figuras escuras que mal se distinguiam na noite, começou−se a ouvir, primeiro mal e depois mais clara, a musica de uma flauta. E dentro de poucos momentos, vi chegar meu afilhado Euremio montado no cavalo do compadre Euremio Cedillo. Vinha na garupa, com a mão esquerda pegando firme na flauta, enquanto a direita sustinha, atravessado na sela, o corpo de seu pai morto.

A força da metáfora (o filho carregando o corpo do pai) remete ao período colonial, quando, abusando da autoridade paterna, Portugal e Espanha reprimiram quaisquer desobediências de seus filhos bastardos d’além−mar. Saqueando as riquezas do novo continente, impingindo a religião católica aos nativos, instituindo um regime autoritário de governo, também gestaram o ressentimento, o rancor e o afastamento. As lutas de independência caracterizam o momento em que o filho rompe com o pai. No entanto, toda ação traumática exige uma reconciliação traumática. Morto o pai arquétipo urge encontrar quem o substitua. O desejo caminha na direção do refazer o percurso, corrigir as injustiças, estabelecer um patamar igualitário. Há quem diga que essa tarefa é utópica, que não há mais como restaurar os cristais quebrados.

Heróis demais, oitavo romance de Laura Restrepo, caminha na direção oposta. Otimista, misturando a história política latino−americana com humor de fina sensibilidade, a narrativa vai avançando no trabalho de autópsia do corpo em decomposição. A união da colombiana Lorenza com o argentino Ramón Iribarren vai sendo recuperada lentamente, entremeada por histórias de militância política, ilusões amorosas e amadurecimento intelectual. O elemento catalisador dessas lembranças é o filho, Mateo, 16 anos. O rapaz quer conhecer o pai. Ou melhor, reconhecer o pai. A distância física e afetiva criou um vazio e o filho quer saber a extensão do buraco. E enquanto esse personagem não entra em cena, Mateo e Lolé (que é a forma intima com que o filho denomina a mãe) vão passear, de mãos dadas, pelo passado.

Lorenza o esteve observando todos esses dias; seu filho se preparava para o encontro com o pai como para uma cerimônia. Ou um duelo.

Como convém a um bom suspense cabe esperar pela última cena para ver se o bandido é punido. Talvez não exista bandido. Ou herói. Na história de alguém ansioso por estabelecer suas origens, talvez, desta vez, não seja necessário ver o filho carregar o corpo morto do pai.

− Te liguei por isso, Lolé. Quem sabe é melhor você ir sozinha pra Bogotá, que acha?
− Hein? O que está dizendo?
−Eu fico com Ramón. Já está tudo acertado.
− Como?
−A boina basca é pra você. Te dou ela.
− Espere aí, Mateo. Isso é sério? Como assim, ficar com Ramón? Você não pode tomar uma decisão dessas sozinho, já sabe que eu...
− Duas ou três semanas apenas, até que acabem minhas férias do colégio.
− Mas, Mateo...
− Não se preocupe, eu não tenho dois anos e meio. Se eu cheiro uma ramonada, dou o fora e esse Ramón não me alcança nem nas curvas. Total, tenho a metade do peso dele e sou uma cabeça mais alto. Confie em mim, Lorenza. Vou ver quem é esse homem e volto quando souber.



A metáfora do conflito entre o pai e os filhos se repete na história da literatura colombiana. Depois que Gabriel Garcia Márquez ganhou o Prêmio Nobel, escrever se tornou difícil. A sombra do gigante determinou a escuridão. Mesmo assim, inclusive para estabelecer outros parâmetros, alguns novos talentos estão tentando usufruir um pouco do sol. Ao lado da prosa límpida de Álvaro Mutis (nascido em 1923), diversos romances colombianos foram publicados (sem muito sucesso) no Brasil: Impávido Colosso (Daniel Samper Pizano, 2006), Técnicas de Masturbação entre Batman e Robin e Era uma vez o amor mas tive que matá−lo (Efraim Medina Reyes, 2004 e 2006), A síndrome de Ulisses (Santiago Gamboa, 2006), A virgem dos sicários e O despenhadeiro (Fernando Vallejo, 2006 e 2008), entre outros.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A FITA BRANCA ENVOLVE O OVO DA SERPENTE

Michael Haneke é um moralista radical. Ou seja, diante do mundo contemporâneo, é um provocador, um desses caras que adoram caminhar na contramão. E sem medo de ser atropelado. Ao contrário, quer atropelar. Alguns críticos o consideram um mestre do cinema da crueldade. Quem assistiu Violência gratuita (1997, refilmado em 2008), A professora de Piano (2001, baseado em romance de Elfriede Jelinek) e Caché (2005) provavelmente concorda com essa classificação. Inclusive porque o filme mais recente do diretor austríaco, A fita branca (Das weiße Band), vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes, em 2009, não desmente a tese.

Filmado em preto−e−branco, recurso estético que estabelece proposital distanciamento temporal e afetivo com o espectador, A fita branca trata de alguns eventos pouco usuais em uma aldeia alemã alguns meses antes do início da Primeira Guerra Mundial. Os acontecimentos externos (o acidente com o medico, o incêndio no celeiro, as duas crianças torturadas) e os episódios intramuros acrescentam substância à narrativa. É no ambiente familiar (onde a coerção e a religião se aliam com a sevícia) que o ovo da serpente germina.

Na cena inicial, a narração em off alerta que "depois de tantos anos ainda restam alguns mistérios e inumeráveis perguntas continuam sem resposta". Em outras palavras, o filme está preocupado em contar a história, mas não em terminá-la. O final "aberto", desses que deixam as conclusões para o espectador, estabelece o distanciamento. "Eis os fatos, faça com eles o que quiser", diz Haneke, abusando do método socrático de ensino. Principalmente porque não é difícil encontrar a resposta que ele não procurou esconder.

Para ajudar, ou atrapalhar, a fotografia do filme explora a profundidade de campo de maneira exemplar: as plantações de trigo engolindo o espaço e refletindo a luz. Em sintonia, os planos lentos − muitas vezes através de câmera parada (os personagens entrando e saindo do "frame"). O andamento não se afasta da linearidade, a voz do narrador conduzindo a seqüência narrativa, acrescentando elementos, marcando os avanços temporais.

Enquanto quase todos os homens adultos (a exceção é o professor) são violentos, repressores e maníacos sexuais, as mulheres são submissas, carentes e dependentes da autoridade masculina. Mesmo a Baronesa, quando confessa interesse em outro homem, não consegue romper com a estrutura repressiva. É um mundo ordenado por regras punitivas e disciplinadoras. E que se estende aos filhos através da violência física. Os filhos do pastor, quando transgridem o ordenamento doméstico, são obrigados a usar a fita branca (metáfora da estrela de Davi − usada pelos judeus durante o Terceiro Reich). O branco é a cor da inocência e ajuda "a evitar o pecado, o egoísmo, a inveja, a indecência, a mentira e a preguiça", como discursa o pai das crianças.

Esse homem voltado aos “valores superiores”, e que desempenha um papel fundamental no ordenamento social da vila, esquece de mencionar que o mundo adulto é hipócrita. E que as qualidades que exige nos filhos raramente são obedecidas pelos adultos. Omite que sente prazer em bater nos filhos. Não entende como agressão o amarrar as mãos do filho adolescente na cama para impedir que o menino se masturbe. Nada observa sobre a maneira com que o Barão explora os empregados. Finge desconhecer que o médico é o pai do filho deficiente da empregada – além de, nas horas vagas, molestar a filha.

Entre o mundo das aparências (habitado pelas crianças) e o mundo real (dominado pelos adultos), as vítimas se transformam em algozes. É isso que o professor desconfia quando vai falar com o pastor, ao final do filme. Ao revelar as suas suspeitas, não o faz por ter certeza de que os crimes foram cometidos pelas crianças, mas sim por não acreditar que sejam obras dos adultos. Envolto no idealismo fácil de que os adultos sabem distinguir entre o certo e o errado, prefere apostar no óbvio.

Independente de quem praticou a ignomínia − e as cenas finais não ajudam no esclarecimento do enigma −, o filme alerta para uma verdade atemporal: os bárbaros estão prestes a arrombar as portas da civilização.