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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

SAUDADES


Ao olhar para trás, numa espécie de retrospectiva de minha infância e adolescência, descubro que estar vivo (depois de ter passado a barreira do meio século) implica em se alimentar de uma série de lembranças – e que essa, digamos, nostalgia não têm a menor importância no mundo em que vivo.

Lembrar o passado é compreender o significado da orfandade – e, paradoxalmente, do contentamento.



Sinto falta das garrafas que – para desespero de meu pai – troquei por picolé e sorvete.

No armário da cozinha não encontro a caneca "esmaltada", onde costumava beber água e/ou leite.

No guarda−roupa, faltam−me calças de "brim curinga".

Nunca mais vou ver aquela professora do primário, o primeiro anjo a povoar os meus sonhos inquietos.

O mundo estava dividido em dois grupos: de um lado "colorados"; do outro, "Guarani até debaixo d’água".

Capilé, groselha, gasosa, Crush – bebidas que não existem mais.

Não é mais possível brincar de faroeste, momento em que imitava os caubóis da matinê do cinema, no domingo.

Plínio Luersen era o "ás do volante" da época. Seus adversários "comiam poeira".

Nunca mais serei atormentado pelos fantasmas da Emulsão Scott (óleo de fígado de bacalhau) e das pílulas de vida do Dr. Ross. No armário de remédios, a pomada Minancora prometia nunca nos abandonar.

Ainda não sei qual é a diferença entre os fermentos Fleischmann e Royal – que eram comprados "na caderneta", lá na mercearia da esquina.

Piquenique era no Salto ou na Gruta de São Bom Jesus – incluía cesta de lanches, toalha xadrez, formigas variadas e garoa.

Tenho saudades dos presentes de aniversário – e, por extensão, de minha madrinha.

Doce de gila, pêssego em calda, butiá colhido na árvore – sabores e aventuras que perdi.

Amargarei até o fim de minha vida não ter aprendido a nadar.

Neil Armstrong pisou na lua e os meus olhos, diante da televisão, não acreditaram.

Sinto falta da bicicleta que nunca tive.

Gostaria de reencontrar aquelas meninas que, nas manhãs de domingo, freqüentavam a missa das dez. (Ir à missa não era questão de fé: elas iam namorar; eu, na doce ilusão de que uma delas namoraria comigo).

Cinema precisava estar acompanhado por Diamante Negro, Mentex, Pirulito Zorro e balas azedinhas. Depois da "fita", era imprescindível comprar revista em quadrinho (Batman, Super−Homem, Pato Donald).

Ninguém lamenta o desaparecimento do salão de sinuca do Clube 14. Pelo mesmo caminho, sem choro nem vela, seguiram o Café Ouro, o Lanchik e todos os "inferninhos" que forneciam (por preço a combinar) alivio à opressão do mundo.

O paraíso tinha nome: Bazar Danúbio.

Nas festinhas, a radiola portátil tocava – sem parar − Jerry Adriani, Wanderléia, Os Mutantes e outros menos cotados pela "Contigo" e pela "Sétimo Céu". Todo garotão que quisesse estar "na moda" precisava usar calça boca−de−sino e camisa volta−ao−mundo. Tênis de lona, cano alto, All Star, também fazia parte do figurino – mas só nos finais de semana, porque o calçado do dia−a−dia era conga ou kichute.

Os irmãos e amigos mais velhos (acima de 17 anos) dirigiam Karmann Ghia e bebiam "Cuba Libre", "Hi−fi" ou "Porta aberta". Enquanto ouviam Rick Wakeman, Pink Floyd e Janis Joplin, acendiam uns cigarrinhos da "erva maldita".

Não tive canivete (muitos anos depois comprei um Vitorinox – que perdi em situação muito tola).

Meu avô, lá na Coxilha Rica, contava dezenas de "causos" de assombração – momentos em que o terror e o lúdico se confundiam. Jamais vou recuperar essa alegria.

O sonho de todo motorista era dirigir um Fenemê.

"Dijáoji", "trezontonte", "bombiá", "vará" e outras palavras que não constam dos dicionários eram pronunciadas sem constrangimento (acentuando tonicamente a última sílaba)

Meu pai fumava duas carteiras diárias de Continental (sem filtro).

Quem, nos dias de hoje, consegue aquilatar o prazer que senti ao ler as aventuras de Winnetou e Mão−de−Ferro, heróis literários criados por Karl May?

Meu reino por um pedaço de pão "feito em casa"!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

VINTE E CINCO FRASES PARA SEREM LIDAS NA PRIMAVERA

− Certa vez, em Hollywood, eles pensaram em fazer um filme inteligente, mas controlaram−se a tempo. (Wilson Mizner)

O prazer é o grande incentivo para o mal. (Platão)

− Um bom político é tão inconcebível quanto um ladrão honesto. (H. L. Mencken)

É contra a lei matar uma mulher que nos traiu, mas nada impede de saborear o fato de que ela está envelhecendo a cada minuto. (Ambrose Bierce)

− Se você disser umas verdades a uma pessoa pela frente, ela só as ouvirá de você. Mas, se você disser pelas costas, ela as ouvirá de outras quinze ou vinte pessoas. (Fran Lebowitz)

Quando comecei a escrever, tentei vender a história de minha vida sexual para uma editora. Eles a compraram e a transformaram num joguinho de armar para crianças. (Woody Allen)

− Uma vara de pesca é um instrumento fino, comprido e roliço, com um idiota numa ponta e uma minhoca na outra. (Samuel Johnson)

Os fracos herdarão a terra, mas não os direitos sobre o subsolo. (J. Paul Getty)

− A política é a arte de impedir as pessoas de participar de assuntos que são do seu interesse. (Paul Valery)

Levei quinze anos para descobrir que não sabia escrever, mas aí já não podia parar – tinha ficado famoso demais. (Robert Benchley)

− Você tem dezoito filhos? Puxa! Eu também fumo charuto, mas costumo tirá−lo da boca de vez em quando. (Groucho Marx)

Adoraria ir, mas não posso jantar com vocês. Esta é a noite de folga das crianças e eu tenho de ficar em casa com a babá. (Ring Lardner)

− Algumas pessoas são tão discretas quanto uma tarântula numa fatia de pudim. (Raymond Chandler)

A virtude não passa de tentação insuficiente. (George Bernard Shaw)

− É difícil acreditar que um homem esteja dizendo a verdade, quando você sabe muito bem que mentiria se estivesse no lugar dele. (H. L. Mencken)

Todas as minhas tentativas de suicídio foram um fiasco. Eu vivia abrindo as janelas e fechando o gás. (Woody Allen)

− Uma mulher é ocasionalmente um bom substituto para a masturbação. Claro que ela exige muito mais imaginação de nossa parte. (Karl Kraus)

Tanto o sucesso como o fracasso são difíceis de levar. Com o sucesso vêm as drogas, divórcio, sexo, arrogância, viagens, remédios, depressão, neurose e suicídio. Com o fracasso, vem mais fracasso. (Joseph Heller)

− Hipocondria é a única doença que eu não tenho. (Oscar Levant)

O sexo é uma das nove razões para a reencarnação. As outras oito não têm importância. (Henry Miller)

− Muitas mulheres não sossegam enquanto não mudam o seu homem. E, quando o conseguem, ele perde a graça. (Marlene Dietrich)

Fui criado para parecer com meu pai, falar com meu pai, ter a postura de meu pai, andar como meu pai, pensar como meu pai e desprezar meu pai, como minha mãe. (Jules Feiffer)

− O único casamento capaz de durar para sempre é aquele entre uma mulher cega e um marido surdo. (Montaigne)

Entre dois males, escolho sempre o que ainda não experimentei. (Mae West)

− A maior sensação que já tive na vida – vestido – foi quando ouvi Charlie Parker e Dizzy Gillespie pela primeira vez. (Miles Davis)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

MÁRCIO CAMARGO COSTA (1939 − 2011)


Márcio Camargo Costa nasceu em Florianópolis, mas foi no Planalto Catarinense que constituiu família, teve filhos. Nos Campos das Lajens foi agrônomo, professor e amigo. Na lonjura dos sertões escreveu centenas de contos, poemas e letras de música. Distante cerca de 800 km do mar, recriou (misturando história e ficção) um mundo idílico, onde os interesses políticos, "as mulheres ligeiras e os cavalos lentos" fornecem cor e sabor à construção literária. Entre a planície sem fim e as araucárias precisou ter forças para sobreviver ao rótulo redutor de regionalista – ciente de que isso significava a condenação eterna ao que escrevia.

Escritor de histórias curtas e poemas narrativos, dominava com grande técnica a arte literária. Ao ler as primeiras frases de seus textos, o leitor percebe a facilidade com que conseguia montar o cenário e a maneira com que o andamento narrativo induz rápida identificação com as personagens. O texto flui naturalmente, sem impedimentos, sem amarras.

Instrumentado pela ficção, articulando o imaginário e os acontecimentos históricos, traçou um retrato ácido e impiedoso da classe dirigente do Planalto Serrano de Santa Catarina, nos anos 40 e 50 do século passado: homens indolentes e ignorantes, que esbanjaram o patrimônio familiar com a prostituição. E fez isso com tal habilidade que parece estar compartilhando com o leitor o mais importante dos segredos.

Mestre na arte de contar "causos", entrelaçava suas narrativas com referências e alusões da alta cultura. Não é raro encontrar personagens dizendo frases inesperadas, citando algum clássico literário. Insights improváveis também são constantes. A erudição embaralhada com o chulo e o patético permitem contrastes de rara qualidade. Para o leitor, essa é a melhor parte, seja porque sugere diversão, seja porque convida para outras leituras. E uma vez aberta a porta do esclarecimento, as gargalhadas se tornam incontroláveis.

O humor está presente em todos os seus textos. E serve de tempero (e têmpera) para explicar a experiência humana. Ao apontar o ridículo, o tragicômico e a falta de sensatez, tornou esses elementos a matéria−prima indispensável para gerar o encantamento somente possível na literatura.

Os seus contos caracterizam interessante exercício da resistência – mesmo que essa seja uma guerra perdida. Contra a globalização, sugere o regionalismo. Contra a linguagem científica, ataca com erros gramaticais e expressões quinhentistas. Contra o politicamente correto, relata os conflitos humanos resolvidos na ponta da adaga. Contra as conquistas espaciais, incentiva as cavalgadas pela planície.

De uma maneira muito particular, vivendo em um mundo de contradições, conflitos e situações mal resolvidas, Márcio Camargo Costa transformou a literatura no seu campo de batalhas pessoais. Ciente que entre o regionalismo e a modernidade, o homem serrano pouco ou nada pode fazer para salvar a identidade que está a lhe escapar pelo meio dos dedos, aceitou a tarefa de tentar conciliar o presente com a carga dramática inscrita no passado. E cumpriu com esse propósito da melhor maneira possível.

Nos últimos anos pouco ou nada publicou. Mesmo assim, reclamando muito de certas "panelinhas", mantinha viva a chama literária. Pretendia escrever um romance sobre a cultura quíchua argentina (de que era admirador) e vários contos sobre os áureos tempos da "zona do meretrício". Provavelmente não teve tempo (ou paciência) para concluir esses projetos.

As coletâneas de contos O Gaudério de Cambajuva (1986), A Caudilha de Lages (1987) e Qüeras (1994), além do folheto Adeodato (um longo poema sobre um dos personagens mais emblemáticos da Guerra do Contestado, publicado em 1985), constituem a parte mais significativa da sua produção literária. O escritor também gravou, em edição limitada, uma coletânea musical: "Márcio Camargo Costa, composições".

Márcio Camargo Costa faleceu no dia 25 de setembro de 2011, em Lages, Santa Catarina.


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ENQUANTO EU IA, ELVIRA VINHA


Demorei mais de mês para ler Nada a dizer, o último romance de Elvira Vigna. Um mês para apenas 161 páginas. Claro que li outras coisas nesse período – alguns ensaios literários e dois dos livros das Crônicas de gelo e fogo. Somando tudo, foram quase 2000 páginas. O último volume das aventuras escritas por George R. R. Martin, 880 páginas, li em menos de três dias. É muito. Ou o suficiente para concluir que algo está errado com o tratamento homeopático que dispensei para o livro da Elvira − algumas páginas em filas bancárias, outras enquanto esperava ser atendido em uma repartição pública. Na maior parte do tempo, Nada a dizer ficou em cima de uma mesa, a esperar por atenção e leitura.

Quais foram os bloqueios que impediram uma leitura mais fluída? Difícil precisar essa imprecisão. A linha−mestra do romance é simples: esposa descobre que o marido está tendo um caso rápido com uma mulher um pouco mais nova ("Porra, logo eu, com uma biografia impoluta, virei a esposa traída dessa novela de quinta categoria!"). Com a obsessão feminina por detalhes, pelo meter o dedo na ferida e ouvir – com prazer, com imenso prazer – os gritos de dor, a narradora, em primeira pessoa, escolhe um tom de autocomiseração, de vitimização: "No olhar dos outros, inscrito o que minha mãe chamaria de destino de mulher. Nasceu com boceta? Vai ser enganada. Traída, humilhada."

Inventário rancoroso de perdas e danos é perfeito em bolero, mas pouco palatável na literatura contemporânea. Repetindo incansavelmente os elementos que caracterizaram a traição (e−mail com senha, chato, fotografia no pen drive, iPod), o samba de uma nota só cansa o ouvido do leitor. Há trechos discursivos, meras repetições do que já havia sido dito antes. Ao mesmo tempo, somente depois de transpor esse redemoinho é que a narradora encontra o esclarecimento. Claro que não há motivos que justifiquem a traição, porque traição é apenas traição, um desrespeito pelo Outro. O que surge desse monólogo histérico (que lembra cena de filme do Ingmar Bergman), como se fosse possível aquilatar o tamanho do engano de uma vida, é o alento para continuar. E, paradoxalmente, continuar junto com o marido.

A dor narrativa é muito pessoal – quase que a dispensar complemento. A amante é descrita como uma ninguém, um nada, uma mulher medíocre a quem a narradora subtrai qualidades, multiplica os defeitos – e que, através de um recurso estilístico, é nomeada apenas pela letra "N". Nas ultimas páginas, a comborça recebe uma última gentileza: a suspeita de ser uma assassina.

Relato extremamente doloroso, repetitivo (que pode ser assim sintetizado: "O meio e o fim das noites eram ocupados com choros, berros e, com sorte, conversas e trepadas".), Nada dizer quer dizer o que é possível dizer sobre o que está reprimido nesse desconforto afetivo que não possui equivalente na relação amorosa. Como em todo lamento de corno, o outro lado não possui voz. O marido é apenas o pai dos filhos, alguém que é citado aqui e ali. Mas, ao mesmo tempo, também é uma sombra retentiva clássica. A narradora o descreve como um adepto natural da traição e do silêncio. Quando ele prefere omitir o relacionamento com a outra, o faz de caso pensado – colocar as cartas na mesa é aceitar a impotência no casamento. Ele não quer enfrentar essa situação, nenhum homem quer. Por isso, e por outros motivos, inclusive o orgulho machista, pouco ou nada diz sobre os acontecimentos. Ciente de que a fala se transforma em ação do falo, o seu silêncio é, antes de tudo, uma forma de preservação física. Sabe que será (metaforicamente, no mínimo) castrado no momento em que assumir, sem qualquer tipo de vergonha, o sexo extra−conjugal. Sem opção, cala. A única voz que o leitor de Nada a dizer consegue ouvir é a voz rancorosa da vítima, a repetir que a vida está repleta de "amores vagabundos".

Neste romance, a esposa é a parte ativa, dominante.

E, como sempre acontece, não é possível ler Elvira Vigna e sair impune. Demorei na leitura por puro medo. Um medo estranho, desses que somente cabe aos homens: o de ser delatado, o de ver no texto o relato das ciladas geradas pelo apêndice masculino. Nem sempre o pênis é motivo para orgulho.




P.S 1) Elvira Vigna escreveu O assassinato do Bebê Martê, Coisas que os homens não entendem, Deixei ele lá e vim, entre outros romances.

P.S 2) O trocadilho do título acima é ruim, mas inevitável. Como dizia meu amigo João Rath: Se perco uma situação dessas, fico sem dormir à noite.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

PRIMAVERA


Começou a primavera. Bem−vinda. O ano passou rápido. Três trimestres foram embora. Velozes como um cometa. Um daqueles bem luminosos, alegria de astrônomos e astrólogos, impressionante em sua grandeza, trinta segundos de beleza plástica transformada em espetáculo.

O inverno ficou para trás. Felizmente. Escapamos de um ano terrível. Frio e chuva. Muita chuva, muito frio. A velha coberta de guerra, feita com pena de ganso, fez parte da vida durante mais de três meses. Como alguns são mais felizes do que os felizes, quem dispôs de "cobertor de orelha" sobreviveu melhor a esse inferno que nos retira o calor.

Setembro está terminando. Seus últimos dias − plúmbeos e feios – serão substituídos pela luz do sol e pelo pulsar cromático das folhas e das flores. O guarda−chuva (o mais infiel dos animais domésticos, como gostava de dizer Mário Quintana) deve ser jogado dentro de algum armário. Assim como as diversas camadas de roupas. Vestindo camisetas, bermudas, calças leves e folgadas é hora de viver a vida no que ela tem de melhor.

Depois, o verão. Depois. Agora é tempo de primavera. O equinócio (do latim aequinoctium) nos garante que a duração dos dias e das noites será igual, nos garante que nada mais será igual. Agora é tempo de descobrir as sensações e as belezas que o inverno escondeu. Agora é hora de encontrar os amigos, jogar conversa fora, contar piadas politicamente incorretas, jogar futebol, namorar, beber suco de açaí no meio da tarde, jogar sinuca, ouvir jazz, tomar sorvete, saborear comidas exóticas. Com o inicio da primavera está liberada a temporada de churrascos e cervejas. Agora é tempo de traçar planos mirabolantes sobre as melhores formas de invadir e conquistar o litoral.

Na primavera é possível acreditar na felicidade. O renovar da paisagem renova os sentimentos. As pessoas ficam mais bonitas, mais alegres. O prazer de viver embriaga. A temperatura aumenta – o sangue também fica quente. As trocas de olhares são mais intensas. Olho no olho e a confusão está formada. Doce confusão. Daquelas que ninguém quer fugir. É a libido dando as cartas e as caras. É a primavera (ou alguma outra prima: Solange, Tatiana, Helena, Alessandra...).

Na primavera não há lugar para o pecado. É tempo de sair de casa, encontrar o sol, adquirir uma nova cor de pele, demarcar os contornos geográficos do olhar, revelar as tentações do desejo. É hora de trocar de paixões. É o momento de telefonar ao mundo e anunciar que o inverno terminou.

Basta de ficar em casa, vendo o musgo crescer e as teias de aranha se formarem no teto. As folhas que começam a brotar nas árvores nos convidam para um longo passeio pelas ruas da cidade. No horizonte surgem vontades de singrar as praças, os sonhos e os encantos. Convites e promessas. Com um pequeno empurrão da sorte, o que é bom nos abraçará – suave e gostoso como um beijo.

O inverno acabou.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

PAULO FRANCIS EM TRINTA CITAÇÕES


− Escrevo romances para me perpetuar, para ter fama, glória, dinheiro, amor, essas coisas comezinhas da vida.

− A ignorância é a maior multinacional do mundo.

− Não é a infidelidade, ou a separação, que azedam o amor. É a indiferença.

− Jornalismo é a segunda mais antiga profissão.

− Não levaria Ulisses para uma ilha deserta. Uma vez basta. Levaria Guerra e Paz, porque dá para ler todo ano. Levaria também O morro dos ventos uivantes e levaria Hamlet, porque diz tudo muito bonito.

− Simplicidade verbal não é sacrifício de complexidade.

− Meu desprezo pela humanidade nada tem de solene. É sadio e franco. Acho chato ouvir gente chata falar. Acho agradável todo tipo de pessoa que não pretende ser aquilo que não é. O orgânico, o verdadeiro, sempre encantam. A impostura é que me entedia.

− Acho Kafka mais difícil de ler do que Joyce.

− Minha conclusão, de resto antiga: os médicos permanecem precisamente no nível mental em que Molière os encontrou no século XVII, mais ralo que café americano servido nos botequins daqui.

− Meu talento, nessa terra de capachos, se manifesta contestando. Aparece fácil. Não há praticamente competição.

− Quem−o−que−quando−onde−como continua o abc do jornalismo. O fino trivial é bem servido se seguindo essa regra. É o que a maioria das pessoas quer. Notícias, escritas de maneira clara, com descrição específica do que possa interessar. Mas jornalismo cultural são outros quinhentos mil−réis. Requer expertise.

− As amizades mais profundas vêm desse sofrimento a dois, ou a três. Nunca dizemos nada de importante, mas criamos uma ponte emocional, subterrânea, com os amigos da infância, que, em geral, sobrevivem às intempéries e à corrosão do tempo.

− A aristocracia nunca usa eufemismos. A burguesia e pequena burguesia, sim, porque querem ser "finas".

− Poesia, em última análise, tem apenas a verdade que cria.

− As pessoas querem acreditar. O pessoal sempre triunfa sobre o racional.

− Leio mais de cem livros ao ano. Não digo que termino todos. Ao contrário, termino raros e pulo passagens que não me interessam em quase todos.

− Não posso acreditar que quem goste de rock seja animal vertebrado.

− Estamos sempre em guerra. Apenas não percebemos algumas...

− Greta Garbo era única, não há e nunca houve atriz de cinema que se lhe comparasse. O mais importante é que tinha um quê indefinível que fez dela a estrela absoluta do cinema durante duas décadas, uma qualidade na pessoa que mesmeriza o espectador. Garbo enchia uma tela e varria com quem contracenasse.

− Gênio é a capacidade de expressar as grandes emoções e sensações que não conscientizamos. O consumidor é a bela adormecida. O gênio, seu príncipe. Seu beijo, como o de Nietzsche, às vezes é mortal.

− É só ver [Kenneth] Branagh (em Henrique V, Henry V) discursar às tropas: We few, we happy few, we band of brothers, para se sentir com toda a força terrível o prazer que os homens derivam de se matarem uns aos outros. Minha impressão é que trinta ou quarenta anos de veadagem e feminismo não vão alterar esse impulso biológico guerreiro.

− Durante alguns anos fiz vista grossa às implausibilidades e desconversa das esquerdas. Até que achei que não era compatível com quem toma banho todo dia. Nunca apoiei governo algum. Acho que é um dever do jornalista adotar o moto dos anarquistas. Hay gobierno, soy contra. Adios.

− Tudo que James escreveu tem o sabor de invenção, de novidade, porque pouco sabia da vida real, solteirão virgem, protegido por uma renda que o tornava independente e deixava sua imaginação correr, criando literalmente um mundo novo em cada ficção. Henry James é um dos prazeres da vida.

− Tom [Jobim], brasileiríssimo, mas embebido em criança em compositores americanos (Cole Porter, Jerome Kern, Rodgers, Gershwin e Berlin), conseguiu criar uma música nacional simbiótica ao som que ouvíamos e víamos no cinema de Hollywood, nosso divertimento e fantasia de infância e adolescência. Melhor ainda, Tom não tinha agenda ideológica. Fez bem. Causas de hoje são o tédio de amanha. Tom é romântico, essencialmente. Enquanto houver uma menina ou menino inocentes no bestiário ideológico da guerra entre os sexos, sua música terá o apelo certo.

− Em As ligações perigosas, de Choderlos de Lacros, de 1782, na famosa carta 81, Merteuil conta a Valmont como aos quinze anos se casou sem querer e aprendeu a conviver com a rejeição e a gelatinosa moralidade do ser humano. É muito mais subversivo do que o marquês de Sade. Não acredita em nada e é capaz de tudo. Se diz, a Valmont, vingadora do meu sexo contra o seu. A beleza sinistra de suas maquinações, descrita na linguagem elegante de Lacros, foi o que levou Platão a condenar toda a arte, por sua falta de senso moral no êxtase dionisíaco que nos dá. A natureza humana, que tanto desprezam, acaba com eles. Valmont se apaixona por sua vítima. Não pode controlar o sentimento. Merteuil fica profundamente ofendida com a traição de seu companheiro. Casal maldito não pode ter sentimentos como os de Valmont. Ela o conduz à destruição, também, e morre bexiguenta, em ostracismo social. Flaubert e Proust seriam inimagináveis sem Lacros, de quem pouco se sabe que explique seu gênio, indecifrável.

− Sem dúvida, qualquer roupa ou acessório ajuda a compor deduções que fazemos sobre a pessoa. As gravatas, por exemplo, estão na linha de frente da personalidade.

− Fui olhar a Mona Lisa. Continua rindo, apesar de agora protegida por uma parede transparente à prova de balas e de loucos. Ela deve ter sido a precursora de Mae West, quando dizia: Come up and see me sometime.

− Ninguém diz nada contra Montaigne. É o único escritor dessa grandeza que escapa de contestação. Bom, é. O ensaio A apologia é insuperável como contestação da primazia da razão no ser humano. Talvez o que atraia no seu gênio é que rompeu com a tradição de Platão e Cícero de que filosofar é aprender a morrer, escrevendo que aprender a viver é o importante e a vida toda está contida no momento em que a vivemos. É moderníssimo.

− Vinicius [de Moraes], toda vida, carregou a descrença do jansenista das coisas do mundo. Seu único estado de graça era etílico.

− A morte deve ser como a anestesia geral. Estamos aqui um dia e de repente apagamos. That’s all, folks.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

MULHER COM SORVETE

Meio da tarde. Estava indo para o subúrbio. Ia visitar uma feira de livros. Foi de ônibus. Poderia ter ido de taxi. Mas − como convém aos bons moços, aqueles que se preocupam com o meio ambiente e com o planeta −, preferiu o transporte coletivo. Depois de ter sido extorquido pelo cobrador, encontrou um lugar vazio ao lado de uma mulher. Um menino a estava acompanhando. No colo da mãe, a criança manipulava um boneco "transformer". Ele se sentou. E rapidamente se desligou do mundo objetivo. Esqueceu a falta de conforto e o "tleque, tleque" irritante do brinquedo.

A cidade mudou. Enquanto as ruas estavam sendo engolidas pela velocidade, ele olhou pela janela. Foi a maneira que encontrou para se distrair. Ao lembrar a última vez que havia feito aquele passeio, a mais de dois anos, constatou que as casas estão desaparecendo naquela região. Envoltos em nuvens de poeira e barulho ensurdecedor, os prédios em construção estão verticalizando a geografia urbana.

O ônibus parou diversas vezes. Passageiros entraram e saíram. Todos pareciam estar com pressa. Em um dos pontos, uma senhora teve dificuldades para pagar a passagem. Deveria ter mais de 50 anos. Como ele sempre teve dificuldade em calcular a idade dos outros, concluiu que ela deveria ter uns, sei lá, 55 anos. Mais ou menos. Elegante, estava usando um vestido floral (ligeiramente desbotado pelo uso) que provavelmente não faria sucesso em alguma Fashion Week. As suas mãos estavam ocupadas. A mão direita carregava diversas sacolas. Se houvesse algum shopping naquela região, seria fácil especular sobre o que ela estava carregando. Não havia. Mistério.

Na mão esquerda da mulher, sorvete. Daqueles de casquinha. Enquanto o ônibus acelerava, a senhora se equilibrava. Parecia artista circense. Seu maior problema era a dificuldade em ultrapassar a catraca. Um solavanco mais intenso sacudiu o ônibus. A mão que segurava o sorvete construiu uma parábola no ar. Ele, que estava olhando para a cena com curiosidade, imaginou algum desastre. Nada de excepcional aconteceu. A senhora, finalmente, conseguiu ultrapassar a barreira – que fez um barulho metálico. Segurando firmemente as sacolas e o sorvete, avançou para o meio do ônibus.

Ele pensou em se levantar e oferecer o lugar. Não teve tempo de unir pensamento e ação. Alguém foi mais rápido. Em um segundo a mulher estava sentada, devorando alegremente o sorvete.

Logo depois, ele desembarcou − enquanto o ônibus se perdia na distância, foi garimpar, na feira de livros, outras histórias. Talvez para − quem sabe? − encontrar outros flagrantes da vida.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

INTERLÚDIO


Adoro música. Infelizmente, ela não gosta de mim. Quer dizer... Há algum tipo de incompatibilidade entre nós. Mesmo assim, sinto prazer na melomania. Melomania é palavra antiga, dessas que foram aposentadas por falta de uso. Ou por ignorância. Significa, de forma genérica, paixão exagerada pela música.

Outra questão: sou músico frustrado. Ou melhor, sou frustrado. Porque nunca fui músico. Falta−me ritmo, talento e paciência. Não consigo sequer obter um único som aproveitável de caixa de fósforo.

Certa vez, comprei violão. A idéia era freqüentar algum curso básico. Ambicionava aprender dois ou três acordes. Na pior das hipóteses, qualquer "dó−de−gavetão" bastava. Nunca me matriculei. O instrumento passou anos pendurado na parede, como se fosse objeto de decoração. Em determinado momento, as finanças ameaçando o colapso, o vendi – juntos foram vários discos, alguns livros e um pouco da esperança.

Manuel Bandeira − que certa vez escreveu Faço versos porque não sei fazer música – foi parceiro de Jayme Ovalle, Heitor Villa–Lobos, Camargo Guarnieri e Francisco Mignone em diversas composições. Tentei seguir a lição do mestre. Também nisso fracassei. Não nasci para exercer a melopéia, que é a arte de compor melodias. A exceção ocorreu quando um amigo me pediu ajuda. Escrevi meia dúzia de versos (em espanhol!). Nada muito criativo. Ele conseguiu realizar o milagre. Ficou bonito. Nossos nomes estão lá, no disco que foi gravado naquele festival de segunda classe.

No peito dos desafinados também bate um coração, canta João Gilberto, lembrando que o mundo está cheio de desafinados. Também sobram corações partidos. Ou canções destinadas ao aliviar dores e temores. Basta colar o ouvido no rádio para confirmar que o ritmo musical que melhor define a brasilidade é o bolero. A música brasileira é uma ilha: está cercada por todos os lados pelos praticantes das dores−de−corno.

Detesto barulho ao vivo. Dizem que é música ao vivo. Não é. Música precisa estar em sintonia com a acústica, com a qualidade da aparelhagem de som. Salvo raríssimas exceções, isso não acontece. Se puder evitar, não freqüento bares ou restaurantes em que há exibições públicas desse triste espetáculo. Nunca entendi o raciocínio dos empresários que, contratam um pobre coitado – ou vários – para se esgoelarem em cima de um palco. Na platéia, a clientela faz de conta que o ruído não está atrapalhando a conversa.

Música de qualidade exige atenção e em volume moderado. Os vizinhos não são surdos. E podem ter gosto musical diferente do teu. Somente adolescentes com problema de carência afetiva é que procuram chamar a atenção erguendo o volume a níveis absurdos. O dia−a−dia não é deve ser transformado em competição de som auto-motivo.

Como gosto se discute, considero insuportáveis aqueles ritmos baianos que surgem de seis em seis meses para tentar ensurdecer o mundo. Péssima música não deveria ser sinônimo da alegria carnavalesca.

Música é uma forma de escrever/descrever o viver com sons. E, em algumas oportunidades, consegue ser mais bonita do que a vida.



sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A NUDEZ DE SCARLETT JOHANSSON


Algumas fotografias da atriz Scarlett Johansson foram roubadas por um hacker – e agora estão à disposição do público voyeur que freqüenta a internet. Como ninguém é de ferro (e a carne é fraca) também fui dar uma olhadinha no material. Aos 26 anos, depois de dois anos de casamento com o ator Ryan Reynolds − somados com o atual namoro com Sean Penn (que, entre outras, já "pegou" a Madonna) −, foi possível constatar que a atriz está em boa forma. Banquete para trezentos talheres.

Não há nada de extraordinário nas fotografias: "artísticas", posadas, pesadas. Falta aquele je ne sais quoi (como se dizia antigamente) que altera a temperatura dos corpos e produz pensamentos – digamos − impróprios para menores de 18 anos. Algumas mulheres são mais excitantes vestidas. E é o desfolhar (mental, físico) das camadas de roupas que festejam o império do olhar, que garantem o interesse e, conseqüentemente, a fruição do gozo.

Scarlett reagiu mal à publicação das imagens: chamou o Federal Bureau of Investigation (FBI). Em USA, atividades ilícitas na internet são consideradas crimes federais. Além disso, prometeu processar todas as publicações (virtuais ou físicas) que divulgarem as fotos. Com essa atitude mal humorada, garantiu publicidade suficiente para incentivar a curiosidade pública, para realimentar a crueldade dos tablóides estadunidenses. É sempre assim: quem faz tudo para preservar a privacidade, se expõe integralmente.

No escurinho do cinema, chupando dropes de anis, minha primeira lembrança de Scarlett Johansson remete ao filme Moça com brinco de pérola (Girl with a pearl earring. Dir. Peter Webber, 2002), uma fábula sobre a vida do pintor flamenco Johannes Vermeer. Misturando ingenuidade e humildade (o rosto ligeiramente curvado, olhando para baixo), a personagem interpretada pela atriz parece uma corça assustada, prestes a ser abatida por algum caçador malvado. Prato cheio para quem possui um imaginário perverso.

Antes − embora ninguém tenha percebido − Scarlett havia filmado algumas tolices como Esqueceram de mim 3 (Home Alone 3. Dir. Raja Gosnell , 1997) e Encantador de cavalos (The horse whisperer. Dir. Robert Redford, 1998). Bobagens, dessas que ninguém quer assistir uma segunda vez, exceto para vê−la na fase Lolita.

Foi ao protagonizar Encontros e desencontros (Lost in translation. Dir. Sofia Copolla, 2003), ao lado de Bill Murray, que Scarlett garantiu um lugar ao sol. O filme é genial, e trata de um tipo particular de curto-circuito que acontece quando certas coisas não podem ser “traduzidas” adequadamente. Scarlett e Bill formam um casal muito estranho, a solidão do estrangeiro contraposta com o parque de diversões fornecido pelas ruas de Tóquio. É cinema de estranhamento, a colisão emocional dando as cartas e mostrando o quanto o jogo é viciado.

Scarlett também contribuiu com um ciclo Woody Allen: Match point (2005), Scoop: o grande furo (Scoop, 2006) e Vicky Cristina Barcelona (2008). No primeiro, interpreta uma "femme fatale", daquelas que conseguem misturar o primeiro prêmio da loteria com um barril de pólvora. O segundo é filme menor. No último, ao lado de Javier Barden, Rebecca Hall e Penélope Cruz, está quase irresistível. Quase. Ao ritmo das travessuras de Woddy Allen, a vontade do espectador é a de invadir a tela e (se ela permitir) lhe oferecer prazeres inesquecíveis.

Na segunda vez que olhei as fotografias daquela que a revista Esquire elegeu como a mulher mais sexy de 2006, fui tomado por uma sensação de incompletude. O rosto da atriz está sério, carrancudo. A ausência de leveza assusta, produz mal−estar. Essa é uma parte do problema. Contemporaneamente, o erotismo e a pornografia se confundem e se dissolvem nos espetáculos descartáveis, um escândalo substituindo o outro. Por isso - mas não só por isso - não é possível deixar de perceber que falta algo nas imagens. O quê? Difícil precisar. Outra particularidade está relacionada com a exposição pública. Em um mundo onde atrizes e modelos divulgam os filmes pornográficos caseiros que "estrelaram", a negação de algo mais safado, mais provocante, não produz energia sexual, não excita – decepciona.

O espelho social em que nos projetamos está embaçado – basta olhar para o reflexo produzido pelas fotos proibidas de Scarlett Johansson para descobrir que queríamos ter algo que não está lá, que não deveria estar lá.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

DIVAGANDO, BEM DEVAGAR, COM OS ROMANCES POLICIAIS

O romance policial é o patinho feio da literatura contemporânea. Leitores "sérios" (seja lá o que isso for) costumam torcer o nariz empinado quando encontram apreciadores dessas narrativas de entretenimento. Em seguida, fazem alguma comparação absurda entre este e aquele autor, normalmente destacando as qualidades de seus favoritos (Joyce, Proust, Faulkner, Beckett...).

Ou então mencionam que, no romance policial tradicional, nada é mais chato do que encontrar, logo nas primeiras páginas, um ou vários cadáveres. O que se segue é a velha e tradicional briga entre o gato e o rato – o autor e o leitor disputando uma corrida idiota para provar quem é o mais inteligente. O escritor induz raciocínios, espalha pistas falsas, acrescenta detalhes absolutamente dispensáveis. O objetivo é um só: dificultar a solução do enigma – o nome do criminoso só deve aparecer na última página. O leitor, por sua vez, tenta separar o joio do trigo. Seu propósito é encontrar o(s) culpado(s) e o(s) motivo(s), antes do final da narrativa. Como sempre acontece nesses casos, não há vencedores, não há prazer, não há sentido. É uma proposta inútil.

Lá pelos anos 20 e 30 do século passado, alguma coisa mudou. Foi como descobrir que é possível iluminar o outro lado da lua. Os responsáveis por essa mudança de curso foram Dashiel Hammet e Raymond Chandler. Como eles sabiam escrever, foi possível dar uma dimensão mais literária ao texto, acentuando a ação e os diálogos e eliminando, na medida do possível, as descrições. Além disso, pela primeira vez nesse tipo de texto, os protagonistas demonstram sentimentos e emoções. Sam Spade (protagonista dos romances de Hammet) e Philip Marlowe (criado por Chandler e interpretado, no cinema, por Humphrey Bogart) são detetives deselegantes, desleixados, cheirando cigarro e uísque barato, e, de vez em sempre, namorando uma loura suspeita. Muito diferentes, por exemplo, do fleumático, asséptico e assexuado Sherlock Holmes, que – esbanjando aristocracia decadente – se isola do mundo através de um verniz intelectual típico de leitores de almanaque. Holmes (assim com Hercules Poirot, criado por Agatha Christie), não é verossímil.

Outra característica estilistica que se acrescentou foi o uso frequente do coloquialismo e do tom cortante, onde os "achados" são quase que uma regra na estrutura literária. No início de A irmãzinha, Chandler, ao descrever o ambiente onde está situado o escritório de Marlowe, salpica o texto com frases ácidas: "Casas especializadas em virgens de dezesseis anos faziam uma atualização completa em seus cadastros." E o livro segue em frente, nesse mesmo tom, misturando ironia e crueldade, despreocupado com o mal−estar dos leitores mais sensíveis.

Essa proposta fez escola. Muita imitação e pouca qualidade. Nas décadas seguintes, o romance policial se transformou em mercadoria. Mercadoria descartável. Dessas que ocupam lugar nas prateleiras das livrarias. Livros para serem lidos nas férias, sem compromisso. Diversões baratas para corações inquietos.

E atrás da banda, veio a crítica literária – proclamando que o romance policial e um "gênero menor". Foram vaiados. Não há literatura "maior" ou "menor". O que há é boa ou má literatura. Literatura ou lixeratura. Alem disso, os "especialistas" fazem questão de esquecer que romances "maiores" como Santuário (William Faulkner) e O Estrangeiro (Albert Camus) são romances policiais disfarçados. Outra coisa que muita gente esquece é que Jorge Luis Borges também escreveu narrativas policiais. Mas deixe isso pra lá, cada um escolhe o engano que quer levar para casa.

Entre os escritores contemporâneos (e publicados recentemente no Brasil) vale citar dois em especial: John Dunning e Lawrence Block. São a água e o azeite. Mais diferentes impossíveis. Melhores não há. Cada um na sua e nós, os leitores, olhos colados em seus textos, sorvendo do mais puro e delicioso néctar.

John Dunning, através de seu personagem Cliff Liberty Janeway, renova a tradição do detetive durão, que se envolve em situações complicadas, namora moças bonitas (às vezes, muito carinhosas, apesar da péssima fama) e que precisa conviver com um código de ética muito particular. É que muitas vezes não é possível engolir o orgulho e evitar um soco na cara do desafeto. Janeway é diferente dos demais detetives por uma característica muito especial: ele é um alfarrabista. Isso mesmo, um apaixonado por livros. E protagoniza uma combinação rara: sangue e bibliotecas. O cara, que já foi policial, é proprietário de uma livraria e coleciona obras raras. Volta e meia, assim como o mel atrai as moscas, Janeway se envolve em alguma confusão típica de bibliófilo. E dá−lhe alegrar o ambiente com alguns tiros – o suficiente para manter o legista ocupado.

Lawrence Block tem proposta completamente diferente. É um escritor cool. Nunca usa frases de efeito. Quer − apenas − contar uma história. Uma boa história. Possui um estilo de quem gosta de contar "causo" ao redor da fogueira (ou do fogão de lenha), numa dessas noites calmas de inverno. Matthew (Matt) Scudder, o protagonista de muitos de seus romances, é um ex−policial que namora uma prostituta e que, nas horas de folga, frequenta as reuniões dos Alcoólicos Anônimos. Café é a sua bebida favorita. E, assim, de "cara limpa" vai tentando resolver as complicações que surgem pelo caminho. E sempre surge um caso escabroso para investigar.




P.S.: No Brasil, o melhor escritor de romances policiais, Rubem Fonseca, fez mais estragos do que benefícios. Pioneiro, ele também criou uma tropa de puxa−sacos, que o imitam − sem nenhuma vergonha de não terem voz própria.
Aqueles que não seguem a cartilha fonsequiana carecem de consistência. Luiz Alfredo Garcia-Roza (com o detetive Espinosa) e Tony Bellotto (pela trilogia Bellini) são exceções – embora nenhum deles consiga esconder que beberam (e muito) na fonte dos mestres Hammet e Chandler.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

TRINTA FRASES PARA LER EM UM DIA DE SOL

− (...) porque a poesia foi para mim uma mulher cruel, em cujos braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei. (Vinícius de Moraes)

− Democracia é o nome que costumamos dar ao povo sempre que precisamos dele. (Robert de Flers)

−O dinheiro é melhor do que a pobreza, nem que seja por razões financeiras. (Woody Allen)

− Muitos homens devem seu sucesso à primeira mulher – e sua segunda mulher ao sucesso. (Jim Backus)

− Quando um filósofo completa uma resposta, ninguém mais se lembra de qual foi a pergunta. (André Gide)

− Nunca tive problema com drogas. Só com a polícia. (Keith Richards)

− Salve as árvores – mate um castor. (Grafite. Londres, 1970)

− (...) as velhas histórias são como velhos amigos. Temos que visitá−las de vez em quando. (George R. R. Martin)

− Um homem beijar a sua mão pode ser uma delícia, mas uma pulseira de safiras e diamantes dura para sempre. (Anita Loos)

− Todos os cafajestes que conheci na minha vida eram uns anjos de pessoas. (Leila Diniz)

− Adoro crianças, principalmente quando choram – porque aí alguém as leva dali. (Nancy Mitford)

− Há momentos em que a mais dedicada das feministas precisa do ombro de um machista no qual se apoiar. (Clive Cussler)

− Rabo e conselho só se deve dar a quem pede. (Stanislaw Ponte Preta)

− James Joyce escrevendo me lembra um colegial repugnante espremendo espinhas. (Virgínia Woolf)

− Escrever é transformar seus piores momentos em dinheiro. (J. P. Donleavy)

− Alguns livros são do tipo que, quando você os larga, não consegue pegar mais. (Millor Fernandes)

− Se me derem o luxo, posso passar sem o indispensável. (Oliver Wendell Holmes)

− As pessoas nunca mentem tanto quanto depois de uma caçada, durante uma guerra ou antes de uma eleição. (Otto Von Bismarck)

− A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística. (Joseph Stalin)

− A mulher ideal é sempre a dos outros. (Stanislaw Ponte Preta)

− A força da música vagabunda é extraordinária. (Noël Coward)

− As noivas modernas preferem conservar os buquês e jogar seus maridos fora. (Groucho Marx)

− A vida não é tão ruim assim, desde que você tenha sorte, saúde e pouca imaginação. (Christopher Isherwood)

− A democracia é a arte e a ciência de administrar o circo a partir da jaula dos macacos. (H. L. Mencken)

− Infelizmente devo declinar do seu convite, devido a um compromisso assumido posteriormente. (Oscar Wilde)

− Para vencer na vida, não basta ser estúpido. É preciso também ser bem educado. (Voltaire)

− Uma vida inteira de felicidade! Nenhum homem vivo conseguiria suportá−la. Seria o inferno. (George Bernard Shaw)

− A primeira metade de nossas vidas é arruinada por nossos pais; a segunda, por nossos filhos. (Clarence Darrow)

− Case−se com uma mulher que goste da vida ao ar livre. Assim, se você a atirar pela janela de madrugada, ela sobreviverá. (W. C. Fields)

− A confortável perspectiva da viuvez é a única coisa que mantém uma esposa feliz. (John Gay)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

11 DE SETEMBRO E O CINEMA


Seja pela vontade de pegar o real pela mão e conduzi-lo até o banco dos réus, seja pela morbidez de quem sente prazer em ver, sentir e alimentar o voyeurismo, foi o cinema – depois da televisão – quem assumiu a responsabilidade imediata de expor publicamente os aspectos macabros resultantes do 11 de setembro. Convictos, segundo Beatriz Jaguaribe, “que nosso acesso ao real e à realidade somente se processa por meio de representações, narrativas e imagens”, a teoria cultural foi povoada por defensores da tese de que o cinema se tornou uma forma de representação impiedosa e absolutamente realista do mundo exterior. Em outras palavras, se transformou em uma das ferramentas mais eficazes para conectar o real, para o relato das minúcias que compõem a trajetória épica da humanidade.

No entendimento de Susan Sontag, “existe [na sociedade norte-americana] uma curva ascendente da violência e do sadismo aceitáveis na cultura de massa: filmes, programas de tevê, quadrinhos, jogos de computador”, além da vontade oportunista e compulsiva de transformar o sofrimento em lucro. Foi em decorrência desse pensamento que surgiram filmes "realistas" (e ruins) como World Trade Center (As Torres Gêmeas, Oliver Stone, 2006) e Flight 93 (Vôo United 93, Paul Greengrass, 2006). Um pouco mais significativos são os documentários Fahrenheit 9/11 (Michael Moore, 2004) e National Geographic: Inside 9/11 (2005). Como não é possível separar a sociedade estadunidense dos musicais, a tragédia do 11 de setembro está retratada em Clear Blue Tuesday (Elizabeth Lucas, 2010).

A filmografia que aborda os aspectos assessórios, secundários ou complementares do 11 de setembro é bastante extensa. Ignorando as barreiras geográficas e culturais, esses trabalhos apresentam diferentes graus de qualidade ou de discussão ideológica: In the valley of Elah (No Vale das Sombras, Paul Haggis, 2007), Rendition (O Suspeito, Gavin Hood, 2007), Lions for lambs (Leões e Cordeiros, Robert Redford, 2007), Incendiary (Incendiário, Sharon Maguire, 2008), Jean Charles (Henrique Goldman, 2009), Green Zone (Paul Greengrass, 2010), The hurt locker (Guerra ao Terror, Kathryn Bigelow, 2010, Oscar de melhor filme), Essential Killing (Jerzy Skolimowski, 2010), Farewell Baghdad (Mehdi Naderi, 2010) e Fair game (Jogo de poder, Doug Liman, 2010), entre outros.

Transitando entre o andamento ficcional e a discussão política e moral, o espetáculo cinematográfico (exposição iconográfica a 24 quadros por segundo) que está atrelado ao 11 de setembro não está preocupado, em alguns momentos, com diversas questões críticas. Procurando saciar a curiosidade pública, o cinema segue um tipo particular de realismo – cujos alicerces são a verossimilhança e a permuta das grandes narrativas pela exposição patológica da crueldade.

Provavelmente essa abordagem (reatualização dos valores jacobinos, julgamento sumário, recusa da mediação para equacionar conflitos), característica do (pior) cinema de ação, não esteja distante do unilateralismo, da perversidade que é o tentar impor (a qualquer custo) ao Outro o que ao Outro não corresponde.

No jogo político, onde os interesses ideológicos e capitalistas nunca são clarificados adequadamente, onde a farsa substitui compulsivamente o real, imagens também podem ser interpretadas como instrumentos de segregação do real. E isso significa que o cinema também é utilizado, mesmo quando aparenta estar comprometido, como um instrumento alienante. A história do 11 de setembro ainda está em aberto. Faltam muitos elementos para serem esclarecidos. No entanto, qualquer análise crítica precisa considerar que isso somente será possível quando o real e a realidade deixarem de ser substituídos por simulacros, por elementos de compensação − introduzidos no campo de atuação humana por ações pouco convergentes com o real.

Enquanto isso não acontece, para quem está interessado no 11 de setembro, In the valley of Elah (No vale das sombras) e Lions for lambs (Leões e cordeiros) continuam representando o farol que todos precisam ver nessa tempestade em que estamos quase naufragando.

(P. S.: Uma versão mais complexa desse texto integra um longo ensaio que está sendo escrito sobre as relações entre literatura, cinema e 11 de setembro e que deverá, até o final do ano, ser publicado em revista especializada.)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

11 DE SETEMBRO E A LITERATURA


Dez anos atrás, pela primeira vez na história, o realismo entrou em curto−circuito. A difícil arte de contar uma boa história momentaneamente pareceu insuficiente para conter uma "grande narrativa" como o seqüestro de quatro aviões e a colisão de dois deles contra as torres gêmeas do World Trade Center. Na luta sempre agônica entre o coletivo e o particular, o 11 de setembro desencadeou uma onda de histerismo social, político e religioso − que, além de modificar as relações geopolíticas em algumas regiões do mundo, também forçou a literatura repensar várias demandas estéticas.
Um novo cenário surgiu na geografia literária. E isso teve conseqüências imediatas, inclusive afetando literaturas regionais. Algumas discussões sobre as formas e fórmulas para representar o "real" (ou aquilo que a ficção considera "o" real) concluíram que a literatura estava precisando recompor a sua estratégia narrativa. Na tentativa de superar o descompasso entre a ficção e a realidade, foi necessário buscar novas forças para transmitir a sua versão do real. Em diversos momentos essa procura resultou em fracasso. O tom épico utilizado em romances como Homem em queda, de Don DeLillo, Terras baixas, de Joseph O’Neill, e Deixe o grande mundo girar, de Colum McCann, se cumpre com grande habilidade, embora isso não evite a sensação de que falta algo. Não se sabe exatamente o quê. Por outro lado, em Extremamente alto & incrivelmente perto, de Jonathan Safran Foer, e Windows on the world, de Frédéric Beigbeder, a abordagem temática sofreu o acréscimo de alguns recursos estilísticos e gráficos. Também não foi suficiente – ou convincente. Em todos esses textos, onde a qualidade literária prevalece, há uma incompletude, um vazio. O grande problema da contemporaneidade é a não utilização de uma linguagem contemporânea. Diante de uma tragédia que ultrapassou os limites da capacidade ficcional, a literatura convencional corre o risco de parecer muito convencional quando confrontada com a cobertura televisiva − que mostrou, ao vivo e em cores, algumas das cenas mais chocantes do 11 de setembro. É difícil compor um enredo que, mimeticamente, consiga comportar 2.996 mortos (contagem oficial para o 11 de setembro), além de centenas de milhares de soldados e civis que perderam a vida no Afeganistão e no Iraque.

Beatriz Jaguaribe afirma que O paradoxo do realismo consiste em inventar ficções que parecem realidade. Ironicamente, a ação de alguns ativistas políticos contrários ao imperialismo estadunidense gerou um novo campo temático a ser desenvolvido literariamente. A densidade dramática do conto The mutants, de Joyce Carol Oates, que narra a história de uma mulher presa em um apartamento naquele momento trágico, não tem equivalente em outras situações de crise política. A necessidade psicológica de criar um mundo paralelo como negação do real, como está descrito em Homem no escuro, de Paul Auster, mostra o quanto é difícil contemplar os escombros da crueldade humana. O ponto de vista do discriminado está amplamente contemplado em Terrorista, de John Updick, e Encontro, de Claire Tristan. Até mesmo em textos pouco afeitos ao caráter histórico, como Reconhecimento de padrões, de William Gibson, o 11 de setembro está presente.

Todo e qualquer contato humano deixa um rastro de sangue. Seguindo os versos de T. S. Eliot, "Após a rubra luz do archote sobre suadas faces / Após o gelado silêncio dos jardins / Após a agonia em pedregosas regiões", qualquer leitura sobre o que se escreveu (ficção, depoimento, análise) a respeito do 11 de setembro, apesar de não revelar “a luminosidade de um amanhecer depois de uma vida inteira passada no escuro” (como propõe o narrador de Um lugar chamado Brick Lane, de Mônica Ali), estabelece as bases para doloroso passeio sentimental entre os escombros que constituem aquilo que, em tempos remotos, foi chamado de civilização (metáfora apocalíptica levada às últimas conseqüências por Cormac McCarthy no romance A estrada).

Ao fundo, como se integrasse a trilha sonora que une os nossos corações com o som dos dois aviões se chocando contra as torres gêmeas, há o desespero daqueles que não conseguem esquecer os versos que a voz de Billie Joe Armstrong transformou em profecia: Summer has come and passed / The innocent can never last / Wake me up when september ends. ("O verão chegou e foi embora / O inocente nunca fica para trás / Acorde-me quando setembro acabar").