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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O ELEFANTE

Às árvores pintadas não caem as folhas, diz o narrador intrometido de A Viagem do Elefante, romance de José Saramago, e que talvez seja uma demonstração elementar daquilo que, em tempos distantes, as más línguas, digo, as deliciosas línguas, chamavam de o canto do cisne, a antevisão da finitude da vida, o último degrau na direção da biblioteca eterna (como gostava de brincar o Jorge Luis Borges) ou do encontro com a indesejada das gentes (como gostava de brincar o Manuel Bandeira).

Talvez seja pouco alvissareiro mencionar esse assunto, visto que o português já nos deixou e antes dessa derradeira aventura perpetuou um livro ruim, Caim, mas fazer o quê? Daqueles a quem admiramos sempre há esperança de poder arrancar da cornucópia criativa um novo manancial, aquele que somente conseguimos encontrar quando passeamos no bosque da ficção, água límpida a escorrer pelo riachinho na direção exata de nossa sede, outras trezentas ou quatrocentas páginas em que a beleza estará eternizada como resistência contra a desintegração do intelecto ou da vida, o mundo que se desfaz por entre os dedos como farelos, embora a vida e a morte sejam a mesma coisa ou coisa nenhuma. De qualquer forma, creio ser preferível pensar nele, Saramago, vivo, cheio de energia, a escrever livros bonitos como A Viagem do Elefante, último ato de resistência de quem está cansado de ver diariamente a insensatez humana, exemplo mais do que expressivo da paisagem vista do alto do Himalaia.

Às árvores pintadas não caem as folhas, diz o inverossímil narrador, pouco preocupado em produzir um trompe-l’oeil, ou melhor, um curto-circuito no fluxo narrativo, o absurdo se instalando como ponto de inflexão para a cena, o inútil deslocar de um elefante pela Europa, consequência tola dos capricho da coroa portuguesa, que ofertou o animal ao arquiduque de Áustria. Paradoxalmente, algumas folhas caem, como metáforas das páginas pintadas com tinta e que, de uma forma ou de outra, compõem a narrativa, o livro aberto nas nossas mãos, forma moderna e modernosa com que o leitor compartilha dessa aventura, a viagem do elefante, glorioso paquiderme que poucos conhecem ao vivo e em cores, o normal é vê-los em gravuras ou em filmes ou então, gloriosa exceção, em uma dessas poucas e rápidas visitas ao zoológico, as feras em jaulas, isoladas de uma vida que poderia ter sido e que não foi, como diria, outra vez, o Manuel Bandeira, esse pescador de ilusões, que elaborou toda uma fauna, mas, dói constatar essa desgraça poética, falta-lhe um elefante em Pasárgada, lá onde ele, Bandeira hasteada sobre a imensidão humana, era amigo do rei.

Pois é, quem andou a escrever, em terras tupiniquins, sobre essas massas imensas e brutas, que provavelmente seriam mais felizes se continuassem vivendo na savana africana ou nas lonjuras de Índia, foi o Carlos Drummond de Andrade, um daqueles poema que as vezes pesam sobre os ombros dos estudantes secundaristas, amostra inevitável de um ensino pouco preocupado com o exercício do livre arbítrio na leitura e que prefere impor um gosto, uma estética, afinal de contas quem é que leva em conta as preferências do povo, essa gente acostumada a se curvar ao catálogo do refinamento aristocrático da insuperável perversidade que nos oprime e redime a cada instante, seja com elefantes ou com os cassetetes policiais?

Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirada a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.


Eis a primeira estrofe do poema, forma criativa e lúcida de construir e desconstruir esse elefante em que amo disfarçar-me, como diz o poeta umas duas páginas depois em contracanto com o Fernando Pessoa, esse heterônimo fingidor, que finge que é dor a dor que finge, ex-finge, esfinge, o segredo talvez esteja em perceber que ao fim e ao cabo,

A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.


E se isso não bastar, pois, como constata o narrador de A viagem do Elefante, Somos, cada vez mais, os defeitos que temos, não as qualidades, então há que se reconhecer que a solução do enigma talvez seja mesma o que prenuncia o último verso do poema do Drummond de Andrade: Amanhã recomeço.

Infelizmente, o elefante que é conduzido por Subhro (mas que, no meio da narrativa, foi denominado Fritz por ordens de Sua Majestade, o arquiduque Maximiliano, que considerava impronunciável o nome com que o cornaca recebeu ao nascer) não pode ser desmontado e colocado em uma caixa ao final do dia, como um brinquedo ad hoc. O elefante, levando o cornaca em seu dorso, precisa continuar sua esfalfante caminhada na direção das tirolesas terras geladas, bem longe de Índia e Portugal. É preciso continuar a viagem, inclusive se ajoelhando diante da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana, que vive sonhando com milagres, forma sobrenatural de recuperar o poder que um dia fez a glória do Vaticano, mas que há muito entrou pelo cano, os tempos e a moral são outros, ninguém mais está interessado em correr perigo roubando vinho doce nas sacristias: E então é provável que algum dos que ali vão reconheça, finalmente, que o pobre elefante não passa de um cúmplice inocente neste grotesco episódio da história contabilística da igreja e que o cornaca não é mais do que um produto insignificante dos corrompidos tempos que nos calharam viver. Adeus, mundo, cada vez a pior.

É preciso continuar a viagem, um pé diante do outro, toneladas se deslocando pelo chão sem fim, como se fossem ondas que mergulham na direção da praia, o desejo sempre frustrado de que acabe o suplício. Como o nome do elefante não é Sísifo, um dia, depois de muito tempo, diante do desconhecido, uma festa antecipa que a viagem terminou, Viena é o novo sinônimo de lar, a Índia se tornou apenas um retrato dolorido, colorido, na parede, ou, em uma outra versão, esta mais prosaica, portanto mais passional, toda viagem, mesmo quando as folhas caem dos quadros, é mais bonita que a [história] de Robinson Crusoé.

José Saramago e Jorge Amado, comentando dias que nunca mais retornarão.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

VOZES DA SOLIDÃO, VOZES DA ILUSÃO


Uma das matérias-primas da literatura é a dor. Ou melhor, a manipulação sofisticada do sofrimento. E o uso das palavras manipulação e sofisticada na mesma frase não é acidente ou descuido. Seguindo o conselho clássico de André Gide, não se faz literatura com boas intenções, em alguns momentos (ficcionais ou não) há a necessidade de inventar incômodos, inquietações e suplícios. Mesmo nos casos em que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, como cantou Caetano Veloso, parte da tarefa literária consiste em transitar por patamares resultantes de situações limítrofes. Essa é uma das muitas formas com que o ser humano contorna a repressão emocional e transforma o tédio e a mediocridade em aventura épica.

Histórias felizes raramente resultam em literatura de boa qualidade. Por outro lado, finais felizes são aceitáveis (de vez em quando). Como sabe qualquer aprendiz de filósofo, a infelicidade está rodeada pela esperança: mesmo que o refresco não dure mais do que um abrir e fechar de olhos, é com esse cobertor que se atravessa o inverno/inferno formado pelo medo.

O romance Sinuca embaixo d’água, de Carol Bensimon, descreve as nuanças de um desses momentos cruciais: a impossibilidade de superar o luto. Apegados a um contexto que foi subtraído pela morte, todos os personagens da narrativa alimentam visões deformadas de um passado insepulto. Como se estivesse cultivando jardim, para poder brincar de esconde-esconde entre as muitas adversidades do existir, o romance coloca em destaque a precariedade da vida, o mundo em ruínas, lugar onde todos se sentem desprotegidos. E isso resulta em um texto emocionalmente ambíguo, incapaz de atrair simpatia do leitor: ao enfatizar o significado da perda, Sinuca embaixo d’água potencializa a inutilidade de procurar por algum alívio.

Carol Bensimon (que havia publicado, em 2008, um livro de contos muito acima da média nacional, Pó de parede) provavelmente se sentiu desconfortável para contar uma história longa, dessas que precisam ter começo, meio e fim (não necessariamente nessa ordem). Seja como fuga, seja como esforço criativo, escolheu um formato pouco ortodoxo de estrutura narrativa para o seu primeiro romance. Com a ajuda de sete narradores diferentes (Bernardo, Camilo, Polaco, Helena, Gustavo, Lucas e Santiago), que se alternam nas chamadas dos capítulos, alguns aparecendo um pouco mais do que outros, a narrativa reconstrói o entorno de Antônia e o acidente automobilístico que a vitimou. O romance é construído por depoimentos em primeira pessoa, muitas vezes na forma de monólogo interior. Desta forma, o empilhamento de detalhes pessoais dos personagens/narradores não ajuda no desenvolvimento do tema. Muito pelo contrário, o tom adotado por todos os personagens/narradores é sombrio, pesado, cheio de autocomiseração, como se a própria dor anulasse o sofrimento. O que deveria ser intensidade, em alguns momentos é apenas deprimente.

Além disso, o fluxo contínuo de lembranças, tentativa pífia de fornecer alguma explicação para a insensatez da morte, se assemelha a uma redoma de vidro, construída para separar mundos ou histórias. O envenenamento progressivo da mente faz com que cada um dos personagens/narradores centralize a sua visão no mundo alienado da perda. Solitários, sem nenhuma disposição para a solidariedade ou para a ternura, concluem que não há possibilidades de redenção e que a dor é um sentimento intransferível. Sintomaticamente, os personagens/narradores raramente conversam entre si. Como se estivessem jogando sinuca contra o destino, os personagens/narradores matam as bolas em caçapas inexistentes.

Evocando posturas filosóficas antagônicas, o existencialismo (diluído em doses maciças de niilismo) e o sadomasoquismo, Sinuca debaixo d’água não consegue obter empatia: é difícil gostar da dor em excesso. Entre o flagelo masoquista das recordações e o olhar desesperançado dos personagens/narradores, o leitor precisa sobreviver a uma narrativa desconectada com qualquer coisa que não seja o sofrimento.

No plano teórico, o romance de Carol Bensimon contém um problema significativo: embora o livro esteja divido em capítulos, onde personagens/narradores diferentes apresentam ou complementam o enredo, quase todos eles possuem formação intelectual da classe burguesa, discutem a razão afetiva com argumentos similares e, salvo em questões muito pontuais, são todos a mesma pessoa. Falta diversidade entre os personagens, falta uma marca que os diferencie. Todos os personagens/narradores cospem frases elaboradas (inclusive Lucas, que é um menino de menos de dez anos: Todos os pais adoram praticar o famoso toque de recolher, e óbvio que são eles que controlam a hora e os filhos nunca ganham relógio de pulso no Natal, o que me faz pensar que os pais trapaceiam o ano inteiro), pequenas jóias espalhadas pelo texto como se fossem banalidades que fornecem um novo colorido ao real, esse mesmo que a narrativa persegue, imaginando-o fotográfico, verossímil, mas que não se completa, porque não é a peça que está faltando no quebra-cabeça narrativo.

Mas não é apenas a questão da verossimilhança que está em discussão. Sinuca debaixo d’água é incapaz de resolver uma das questões elementares da Teoria da Literatura: a posição do narrador. Para o leitor que não se deixa manipular pela pirotecnia técnica, a estrutura escolhida não passa de puro artifício/artificialismo de carpintaria literária. A escolha de vários narradores para o andamento textual, em lugar de apresentar um posicionamento oblíquo para o enredo, mascara a existência de um super-narrador, escondido por trás das diversas vozes (os personagens/narradores), e que, semelhante a um deus onipresente, onipotente e onisciente, manipula a vazão do fluxo de informações.


Como o livro foi financiado pela Bolsa Funarte de Estímulo à Criação Literária, a necessidade de cumprir prazos talvez não tenha contribuído para um acabamento mais preciso/precioso. Se a escritora tivesse deixado o romance dormir na gaveta por uns seis meses (no mínimo), provavelmente o texto ganharia uma boa revisão, e isso resultaria em substancial diferença – para melhor! Da forma com que foi publicado, o que deveria ser um romance polifônico se transformou em algarávia romanceada.

De qualquer maneira, voz literária com timbre diferenciado, Carol Bensimon encanta. E promete. Ao lado de Ana Paula Maia, Paloma Vidal, Beatriz Bracher, Tatiana Salem Levy, sem esquecer Zulmira Ribeiro Tavares, Elvira Vigna (que é ótima, apesar de quase desconhecida!), Ana Miranda, Nélida Piñon, e outras, participa da revolução que está ocorrendo na literatura brasileira. Aguardar – com ansiedade – por novos livros, por novas surpresas, não será tempo perdido.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A PREGUIÇA COMO MALDIÇÃO DIVINA

De todos os pecados capitais, a preguiça deve ser o que possui maior número de adeptos. Talvez por ser um delito "menor", talvez porque ninguém consegue escapar dos seus mecanismos de sedução.

Um dos romances de João Gilberto Noll, Canoas e Marolas, aborda o tema com segurança. Escrito a mão, em diversos cadernos escolares − durante pouco mais de seis meses, quando o escritor morou na Costa da Lagoa, em Florianópolis –, não é um texto destinado ao leitor médio, especialmente aquele que gosta de confundir entretenimento com literatura.

Quase nada acontece nas 105 páginas do romance. Essa lentidão constitui, no entanto, a melhor qualidade do livro. Noll faz parte daquele grupo de escritores que defendem a tese de que não se deve dar muita importância ao enredo, visto que todos os temas se repetem e não há nenhuma novidade no horizonte depois que a cultura grega catalogou todos os mitos ficcionais. Resta então, como tábua de salvação da literatura, a arte sempre deficitária de contar a mesma historia de forma diferente. Não é tarefa fácil.

Carregado de ambigüidades, tensões mal resolvidas, entrelinhas, parágrafos longos, poucos diálogos, Canoas e Marolas é um texto denso, complexo, desses que exigem duas ou três releituras – única forma de se aproximar do que está escondido na indeterminação geográfica que Umberto Eco chamou de o bosque da ficção.

Ao contar a historia de um homem que procura por sua filha (Marta) e, com isso, a si mesmo, Noll parece brincar de esconde−esconde com o leitor, construindo uma atmosfera onde o existir não tem serventia e a vida se resume ao discurso, essa névoa incandescente de palavras e mal entendidos. É o relato da fragilidade humana, instante em que as sobras e sombras travam uma batalha agônica pelas poucas coisas que restaram para lembrar e as muitas que devem ser esquecidas – o que, de certa forma, remete a Samuel Beckett.

Mas, ao contrário de Beckett, que projeta um mundo abjeto, quase sem perspectivas, Noll contempla a placidez dos acontecimentos como se deles esperasse, no último momento, uma reviravolta. Só assim justifica o esforço que é enfrentar os desafios propostos pela narrativa e extrair o máximo da linguagem, mostrando que o desassossego pode ser enunciado como se fosse poesia.

O protagonista de Canoas e Marolas vive em um mundo inercial, onde a vontade de nada fazer impera. Inventando o próprio cenário e estabelecendo as regras do labirinto ficcional, deixa que os acontecimentos se desenvolvam diante dos seus olhos. A ilha, onde ele foi procurar Marta, é um recorte, um pedaço de terra pinçado do continente, uma forma de se isolar, de fugir das perguntas, de negar as respostas.

É com o nascimento do neto que o desequilíbrio se produz: uma nova vida colocando em xeque o torpor. Mas há pouco para fazer. Os sentimentos, infelizmente, estão mineralizados, assim como o corpo e a alma. Depois da leitura de Canoas e Marolas, a preguiça, apesar de prometer uma redoma de tranqüilidade, se revela como a forma com que Deus condenou o homem ao sofrimento.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

SYLVIA PLATH: BREVE CAMINHO ANTES DO FIM




A melancolia costuma aparecer nos finais de tarde, naquela hora em que todo mundo está fragilizado, sem forças para resistir às dores do mundo. Simultaneamente, como amigas inseparáveis, a ausência de objetivos e a depressão sussurram no ouvido de suas vítimas que nada mais tem sentido, que é preciso dar um fim à angústia. É hora de tomar uma decisão.

Frieda (três anos) e Nicholas (um ano) foram colocados a salvo, no andar de cima. A janela do quarto ficou entreaberta, apesar da neve torrencial que caia lá fora. As frestas da porta foram vedadas com alguns panos. Junto da cama das crianças, pão e leite.

A porta da cozinha também foi vedada. Lentamente, para cumprir as muitas mortes que haviam sido anunciadas pelos versos tristes e complicados de sua poesia, Sylvia Plath abriu o forno do fogão. Colocou dentro um pano dobrado. Provavelmente se ajoelhou, como a verificar se alguma coisa poderia estar errada. Depois, deitou−se – a cabeça sobre o pano, dentro do fogão. Abriu a torneira do gás. E esperou, com resignação, o fim de todos os problemas.

Na manhã seguinte, quando os bombeiros arrombaram a porta do número 23 da Fitzroy Road, as crianças estavam com muito frio.


Sylvia Plath nasceu em 2 de outubro de 1932, em Boston (EUA) e suicidou−se no dia 11 de fevereiro de 1963, em Londres (Inglaterra). Era loura, alta e tinha o hábito de sentar−se com as pernas cruzadas, balançando impacientemente os pés enquanto as mãos faziam evoluções sobre o colo, os dois polegares apunhalando−se com as unhas.

Trinta anos de existência foram suficientes para inscrever o seu nome, de forma definitiva, no confuso e sempre antagônico mundo literário que, separado pelo Oceano Atlântico, chamamos de anglo−estadunidense. No entanto, o grande debate que motiva sua notoriedade não está relacionado com aquilo que seu conterrâneo, Henry James, havia, um século antes, chamado de tema internacional – verdadeira contramão da história, sair de casa e conviver com o auto−exílio europeu. Não, não é nada disso.

O interesse pela vida do Outro está intimamente relacionado com a cultura do espetáculo, momento em que algum bisbilhoteiro, na esperança de embarcar na fama que não lhe pertence, não poupa esforços para contar intrigas e fofocas. No mercado internacional estão disponíveis pelo menos umas dez biografias de Sylvia Plath. A mais interessante foi escrita por Anna Stevenson − o titulo, Bitter fame, remete a dois versos de Anna Akhmatova (outra mulher talentosa e complicada): Se não podes dar amor e paz / Dá−me então amarga fama.

Outro detalhe que aguça a curiosidade pública é o silêncio obsessivo dos filhos e de Ted Hughes. Como bons ingleses, movidos pelo distanciamento educado, enquanto puderam eles se abstiveram de comentar qualquer detalhe a respeito da vida e morte da mãe e ex−esposa. Mas esse comportamento não se ateve apenas ao respeito à memória. Há outros ingredientes a azedar o drama. Alguns anos depois da morte de Plath, a "outra" também se suicidou. Na imprensa inglesa, onde a piedade é apenas um adjetivo educado, não faltou quem lembrasse um verso famoso da titular: Every woman adores a Fascist (Toda mulher adora um fascista). Em seguida, o rosário de acusações emendou o poema que fez as delícias dos freudianos, Daddy, (...) the brute / Brute heart of a brute like you ([...] o bruto / Bruto coração de um bruto como você). Golpe baixo, soco no fígado, risadas diante da dor causada no adversário.

A questão básica é que quando uma mulher bonita e sensível se suicida, seis meses depois de ter se separado tempestuosamente do marido, fica para sempre fixada no tumulto (como escreveu Janet Malcolm). E é esse tumulto (rancor, histeria, tristeza, traição, neurose, filhos pequenos e acusações irrefletidas) que tem sido explorado por todos aqueles que sentem algum tipo de frenesi diante da possibilidade de olhar pelo buraco da fechadura e descobrir quais sórdidos segredos estão escondidos dentro da vida de alguém famoso. Sylvia Plath foi um prato cheio para os adeptos desse tipo de tara sexual.

Sylvia tinha oito anos quando seu pai, o professor Otto Plath (entomologista, especialista em abelhas) faleceu. Essa perda produziu muitas cicatrizes, como comprovam os poemas Daddy, Electra on Azalea Path, The Arrival of the Bee Box, entre outros. Para alguns biógrafos foi nesse momento que o desejo suicida se pronunciou pela primeira vez.

Durante a temporada que Sylvia cursou o Smith College, a sua vida foi dividida entre os muitos namorados, as sucessivas crises de depressão e a pretensão de seguir a carreira literária. Conseguiu publicar vários contos. Como alguns foram recusados e Sylvia era incapaz de suportar a rejeição, tentou suicídio. Ingeriu razoável quantidade de barbitúricos. Sem conseguir reverter o quadro de instabilidade emocional, a família resolveu interná-la, durante quatro meses, no Hospital McLean, em Belmont (Massachusetts). Entre outras delícias terapêuticas, eletrochoques.

Recuperada, voltou à universidade. Namorou bastante. Graduou−se com um estudo sobre o duplo em Dostoievski. E foi para a Inglaterra. Em Cambridge, escandalizou os ingleses, pois conseguiu colocar em xeque aquele mundinho aparentemente seguro. Freqüentou aulas, conheceu muita gente, fez teatro e foi visitar a França. Quando retornou, nova crise nervosa e a inevitável visita ao psiquiatra.

No final de fevereiro de 1955, na festa de lançamento da Saint Botolph’s Review, conhece Ted Hughes. Foi amor à primeira vista, atração fatal, cena de conto de fadas. Em carta para a mãe, relata a impressão que o jovem inglês lhe causou:

A coisa mais dilacerante é que nos últimos dois meses eu me apaixonei terrivelmente, o que só pode levar a muito sofrimento. Conheci o homem mais forte do mundo, ex−Cambridge, poeta brilhante cuja obra eu já adorava antes de conhecê−lo, um Adão alto, forte e saudável, meio francês, meio irlandês, com uma voz que lembra a trovoada de Deus – cantor, contador de histórias, leão e viajante, um vagabundo que jamais vai parar.


A fúria da paixão foi tão avassaladora que decidiram casar quase seis meses depois. A escolha do dia 16 de junho, conhecido como Bloomsday, foi proposital, uma espécie de homenagem ao mundo literário em que eles viviam.

O que aconteceu depois é apenas a repetição monótona do velho drama que atinge jovens casais: como colocar alguma comida na mesa? Enquanto procuravam emprego, mudaram várias vezes de endereço. Finalmente, em marco de 1957, Sylvia foi aceita como professora auxiliar no Smith College.

O retorno aos Estados Unidos coincidiu com o fracasso literário. Enquanto Ted Hughes recebia prêmios, resenhas favoráveis e publicava em todas as revistas possíveis, Sylvia acumulava ressentimentos: vários contos e poemas foram devolvidos pelas comissões editoriais de publicações e concursos.

Essa crise somente foi superada em janeiro de 1959, quando eles voltaram para a Inglaterra. Foi o início de uma série de bons acontecimentos: a carreira literária de Ted deslanchou, Frieda Rebecca nasceu em abril e o primeiro livro de Sylvia, The Collossus and Others Poems foi publicado.

Em 1960, novos problemas: aborto, apendicite e a suspeita de que Ted estava cometendo adultério. Sylvia se aproximou do colapso mental – foi salva por intensa atividade poética.

A mudança para Court Green, em North Devon, determinou o início do fim. Nessa casa isolada, precisando cuidar sozinha de duas crianças pequenas (Nicholas nasceu em janeiro de 1961), pois Ted raramente estava em casa, Sylvia flertou com a loucura – outra vez. A descoberta que Ted estava tendo um caso com Assia Wevill não ajudou em nada.

Como todo british gentleman, Ted chegou a sugerir uma separação civilizada. Sylvia não permitiu que isso acontecesse. A raiva e o rancor passaram a fazer parte do dia−a−dia do casal. Em setembro de 1962, Ted abandonou a esposa e os filhos e foi morar em Londres.

Logo em seguida, Sylvia e os filhos também foram para Londres. Depois de alugar um apartamento em 23, Fitzroy Road (Yeats também morou nesse endereço), ela continuou escrevendo. Com o pseudônimo de Victoria Lucas, o romance The Bell Jar (A Redoma de Vidro, no Brasil) foi publicado na Inglaterra no início de 1963.

Nesse período, as crises nervosas se sucederam com mais freqüência, com maior intensidade. Por recomendação médica, contratou uma enfermeira, Myra Norris.

Na manhã do dia 11 de fevereiro de 1963, quando chegou ao trabalho, Myra sentiu um cheiro muito forte de gás. Pediu ajuda. A porta foi arrombada. As crianças estavam com frio e fome.



A importância da poesia de Sylvia Plath está no tom confessional de seus versos, no "eu" dividido, nas imagens tormentosas, caudalosas, no strip−tease da alma, lamentos em forma de versos. O seu discurso poético remete ao inferno interior, à amargura, ao desespero e a todos aqueles sentimentos que alfinetam o existir humano. Não é uma poesia fácil, agradável, para ser lida em saraus ou no ouvido da namorada. Por outro lado, é de uma riqueza imagética impressionante, cheia de energia e, sobretudo, agressiva como um desabafo ou um tapa no rosto.

Há quem sustente a tese de que Sylvia Plath foi uma espécie de mártir do feminismo estadunidense. Besteira. Ela não estava interessada nesse tipo de ativismo político, inclusive porque suas neuroses não a deixavam em paz. A força de sua poesia brota espontaneamente do seu estar−no−mundo e não do mundo que nela deveria estar.

Em 1965, Ted Hughes permitiu a publicação do volume póstumo Ariel, que reúne o melhor de sua produção poética. E, em 1998, talvez para comemorar os 35 anos de morte da esposa, publicou um volume com 88 poemas confessionais. Birthday Letters concilia uma espécie de declaração de amor tardio e o reencontro com o passado. Com uma linguagem que mistura o fervor religioso da paixão com o entusiasmo juvenil, Hughes derrama em versos o desespero de quem quer que o leitor acredite que ele sempre esteve apaixonado por Plath. Uma tarefa árdua e, provavelmente, tardia.


No Brasil, a poesia de Sylvia Plath precisa conviver com várias traduções esparsas. Uma boa introdução a esse universo pode ser Poemas de Sylvia Plath, tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça.

PALAVRAS


Machados

Que batem e retinem na madeira

E os ecos!

Ecos escapam

Do centro como cavalos.


A seiva

Mina em lágrimas, como a

Água tentando

Repor seu espelho

Sobre a rocha


Que cai e racha

Crânio branco,

Comido por ervas daninhas.

Anos depois eu

As encontro no caminho –


Palavras secas, sem destino,

Incansável som de cascos.

Enquanto

Do fundo do poço, estrelas fixas

Governam uma vida.



(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça)



AUGE


A mulher está perfeita.

Morto,


Seu corpo mostra um sorriso de satisfação.

A ilusão de uma necessidade grega


Flui pelas dobras de sua toga.

Nus, seus pés


Parecem nos dizer:

Fomos tão longe, é o fim.


Cada criança morta, uma serpente branca

Em volta de cada


Vasilha de leite, agora vazia.

Ela abraçou


Todas em seu seio como pétalas

De uma rosa que se fecha quando o jardim


Se espessa e adores sangram

Da garganta profunda e doce de uma flor

Noturna


A lua não tem nada que estar triste.

Espiando tudo de seu capuz de osso.


Ela está acostumada a isso.

Seu lado negro avança e draga.


(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça)


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

ENTRE A INFÂMIA E A INTERNET

Para quem acredita que a internet é a salvação do mundo, uma notícia simpática: não o é. Muito pelo contrario. Entre os inúmeros problemas (dificuldades de acesso, ausência de confiabilidade, carência de profundidade nas informações, terrorismo virtual, etc.), é necessário acrescentar mais uma: fofoca. Yes, em português castiço: gossip.

Espalhar informações (falsas) sobre a vida alheia não depende dos avanços tecnológicos ou da ajuda dos computadores para sua divulgação. Qualquer conversa de rua resolve o assunto. A novidade é que, unindo o ficcional e a imaginação, a internet tem contribuído para colocar na "rede" uma série de textos apócrifos. Isto é, que não são autênticos. Além disso, conseqüência de algum mecanismo psíquico torto, esses textos são atribuídos a autores que não os escreveram.

Um caso clássico ocorreu com Jorge Luis Borges. Em determinado momento, atribuíram−lhe a autoria de um texto piegas chamado Instantes (vide abaixo). A situação se tornou tão constrangedora que Maria Kodama (viúva de Borges) precisou acionar a Suprema Corte da Argentina para que ficasse claro que aquilo não tinha sido escrito por Borges. Essa intervenção judicial tinha dois objetivos: recusar dinheiro advindo de direitos autorais e evitar que os herdeiros de Borges fossem processados pelo verdadeiro autor de Instantes.

O que poucos sabem é que o poema tem origens nebulosas. Por exemplo, foi publicado, em inglês, em uma antologia de textos sobre a terceira idade (Papier Mache, Bantam Books, 1993), com o título If I had my life to live over (Se eu ainda tivesse minha vida para viver). A sua autora, Nadine Stair, óbvio, ninguém nunca viu ou ouviu falar. O jornalista brasileiro Wladir Dupont encontrou no jornal mexicano La Reforma uma referencia de autoria mais remota: o poema teria sido publicado, pela primeira vez, em 1953, na revista Seleções de Readers Digest e o seu autor seria o chargista americano Don Herold.

Como escreveu o jornalista José Nêumanne, "Seja ou não de Herold, tenha ou não existido a Sra. Stair, a verdade é que Borges nunca escreveu aquela porcaria, mas ela continua circulando pelo mundo e apontando−o como autor".

Outro exemplo famoso envolveu o escritor estadunidense Kurt Vonnegut Jr. Circula na internet um discurso que ele não escreveu. Mais, foi divulgado que a leitura desse texto ocorreu em uma faculdade que ele não visitou e que está localizada em uma cidade que ele sequer sabia que existia.

Na virada do século, a vítima foi o colombiano Gabriel Garcia Márquez. Atribuíram ao Prêmio Nobel de Literatura, como se fosse um testamento literário (pois ele estaria com câncer linfático), um texto choroso e ridículo chamado Marionetes. Garcia Márquez ficou tão irritado com essa estupidez que convocou a imprensa para uma entrevista coletiva e declarou, entre outras coisas, "o que pode me matar não é o câncer, mas a vergonha de ter escrito uma coisa tão ruim".

O verdadeiro autor de Marionetes é o mexicano Johnny Welch, que o publicou em 1996, em um livrinho quase desconhecido: Lo que me há enseñado la vida (O que a vida me ensinou). Welch assumiu a autoria e pediu desculpas – embora ressalte que não foi ele quem iniciou a divulgação do texto na internet.

Qual é a lição que fica de tudo isso? A de sempre: o mundo está cheio de espertinhos. Com o que é publicado na internet é necessário desconfiar sempre.

De qualquer forma, quem conhece com profundidade Borges e Garcia Márquez sabe que eles seriam incapazes de "cometer" esses lixos que lhes são atribuídos.



INSTANTES

Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais. Seria mais tolo ainda do que tenho sido.
Na verdade, bem poucas coisas levaria a serio. Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, mais rios.
Iria a lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e comeria menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua vida: claro que tive momentos de alegria. Mas, se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos: não percas o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda−chuva e um pára−quedas; se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais o amanhecer, brincaria mais com crianças...
Se tivesse outra vez a vida pela frente.




MARIONETES

Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente, pensaria tudo o que digo. Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria enquanto os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e gozaria um bom sorvete de chocolate.
Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida, me vestiria da forma mais simples, me jogaria de bruços no solo, deixando a descoberto não apenas meu corpo como minha alma.
Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas um poema de Mario Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à lua. Regaria as rosas com minhas lágrimas, para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo de suas pétalas.
Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida. Não deixaria passar um só dia sem dizer às gentes – te amo, te amo. Convenceria cada mulher e cada homem que são os meus favoritos e viveria enamorado de amor. Aos homens, lhes provaria como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar. A uma criança, lhe daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha. Aos velhos, ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi com vocês, os homens... Aprendi que todo mundo quer viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade esta na forma de subir a escarpa. Aprendi que, quando um recém−nascido aperta com a sua pequena mão pela primeira vez o dedo de seu pai, o tem prisioneiro para sempre. Aprendi que um homem só tem direito de olhar um outro, de cima para baixo, para ajudá−lo a se levantar.
São tantas coisas que pude aprender com vocês, mas, finalmente, não poderá servir muito, pois quando me olharem, infelizmente estarei morrendo.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

CONTRA O BRASIL, A FAVOR DA LITERATURA


Nunca, em toda a historia da cultura brasileira, a idolatrada salve salve foi tão maltratada. Nunca. Inclusive porque do ponto de vista literário, cuspir no prato em que comeu é um sentimento novo. Na terra em que o bispo Sardinha foi deglutido por motivos mais fúteis, a tônica sempre foi a da louvação, do sabujismo e do delirante ufanar. Ofender a pátria−mãe gentil configura crime inafiançável, digno de degredo e ostracismo (intermediados por sessões disciplinadoras no pau−de−arara mais próximo. Chibatadas em praça pública também podem ser consideradas como um exercício pedagógico. Urge impedir que os abusados não repitam o atrevimento).

Diogo Briso Mainardi não embarca na canoa dos contentes. O seu lema pessoal é baixar a ripa no lombo daqueles que considera medíocres − uma categoria animal abundante em nossas desmatadas florestas tropicais. Coerente com os conceitos literários que procura defender, imaginou que o paraíso terrestre está na contracorrente. Tanto em teoria como na prática. Quem lê as resenhas literárias ou as crônicas que publicou na revista Veja enche os olhos de divertimento e deboche. Esses textos, escritos com a tinta do mais puro fel, vão espargindo pelas páginas um solene e solerte desprezo pelas literatices e vaidades pequeno−burguesas. A alegria do enfant terrible está em delícias como entre mortos e sobreviventes saldo zero. E dá−lhe tiro de canhão (algumas vezes contra passarinho). Batalhas ganhas em uma guerra perdida? Talvez. Mesmo assim, o ilustre escritor, ao apontar defeitos e deslizes, vai criando uma legião de inimigos (e, não poderia ser diferente, um exército de fãs. Meno male).

Atualmente, nas horas de folga, o ilustre escritor vai levando a vida de gôndola – quase feliz na segunda dentição de seu auto−exílio em Veneza. Quase, pois alguns problemas familiares estão atrapalhando a vida. Embora tenha jurado nunca mais escrever ficção, vai levar para o túmulo uma pequena bagagem literária (quatro romances, alguns livros de crônicas e dois roteiros cinematográficos). Como bônus por tanto esforço, a crítica (e os adversários) normalmente torcem o nariz para tudo o que ele escreveu. Petulante é uma palavra sagrada quando Diogo Mainardi é o verbete consultado na enciclopédia dos insultos da vaidade brasileira.

Contra o Brasil, o seu último filho ficcional, foi publicado em 1998. Como de costume, poucos foram os que renderam homenagens ao escriba. Ressentido, Narciso acha feio tudo o que não é espelho. Caetano dixit.

O problema é que essa rejeição não se restringe, basicamente, à estética do umbigo. Nada disso. O buraco é muito, muito mais embaixo. Literal e literariamente.

Assim como Ulisses, de James Joyce, foi escrito para acabar com todos os romances, guardadas as devidas proporções e qualidades, Contra o Brasil queria mudar os cânones tupiniquins, mostrando um pouco do lado obscuro da lua. É uma proposta audaciosa e arrogante, como tudo o que caracteriza o estilo Mainardi. Estranhamente, se, porventura, o livro não causou a ruptura definitiva, inegavelmente chegou perto. Escandalosamente perto.

Pimenta Bueno, o protagonista de Contra o Brasil, é, na falta de um termo mais adequado, admirável. Seguramente, já garantiu o seu lugar no panteão da imortalidade, pois faz oposição direta aos ideais estupidificantes do nacionalismo brazuca. Sem qualquer psicologismo ou profundidade, e se exprimindo em ritmo afetado, pseudo−teatral, Pimenta Bueno adora enumerar citações venenosas contra esse pedaço de terra que os portugueses adoravam saquear na época da colonização. Parece uma metralhadora giratória. Entre o drama e a comédia, entre o desprezo e a esculhambação, Claude Lévi−Strauss, Giuseppe Ungaretti, August de Saint−Hilaire, Charles Darwin, Gilberto Freire, Joseph Arthur de Gobineau, Albert Camus, Jean−Paul Sartre e outros menos votados aparecem saltitantes no texto, em forma das frases que disseram ou escreveram contra o Brasil. Obviamente, algumas só são imagináveis na ficção. É o horror, o horror!

Com a falta de caráter típica do brasileiro que adora dar um jeitinho toda vez que se encontra em dificuldades, Pimenta Bueno quer mais é vencer na vida. Se alguém estiver no meio do caminho, ele pisa por cima e, logo em seguida, reclama da falta de competência dos governantes que não providenciaram estradas mais confortáveis para a sua trafegabilidade. Remorso? Jamais. Para quê? Como um personagem de opereta bufa, o sujeito se alimenta de desprezo absoluto. E para justificar o paradoxo que o cerca, arremata: O Brasil é o reino da impunidade.

Contra o Brasil foi construído sobre um conjunto de citações enciclopédicas, o que lembra (de longe, muito longe) o pós−modernismo. Ao mesmo tempo, remete ao humorismo (e, óbvio, ao humanismo) de autores como Jonathan Swift, Voltaire, Miguel de Cervantes. A idéia é satirizar, desmistificar, mostrar que somos reféns de uma ideologia nacionalista hipócrita que dispensa a crítica e a razão. O ufanismo modelar da dupla caipira Conde Afonso Celso e Policarpo Quaresma somado ao pavoroso e antigramatical slogan Brasil: ame−o ou deixe−o (entre outras manifestações de apreço e puxa−saquismo) transformaram o país do carnaval em uma terra sem máculas, sem defeitos, sem pecados.

Diogo Mainardi, maître à penser extemporâneo, cheio de deboche e força, mostra em Contra o Brasil, como naquela fábula de Hans Christian Andersen, que o rei está nu.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

PLÍNIO MARCOS, O ÚLTIMO INTELECTUAL MALDITO


Sem palavrão não há solução. A frase é de Leila Diniz, mas poderia ter sido pronunciada por Plínio Marcos. Poderia – não pode mais. Plínio Marcos, o dramaturgo que melhor entendeu a alma proletária do Brasil, tinha 64 anos quando morreu, em 1999.

Há algo de estranho na pátria amada, idolatrada salve salve: a morte costuma diminuir seus personagens mais interessantes. Os noticiários, precisando atender aos eventos corriqueiros do dia−a−dia, reduzem tudo ao patamar do rés−de−chão (o espaço geográfico onde a reflexão é apenas um verbete no dicionário). Assim, quando acontece algo significativo, a tendência é passar batido, como se fora um nada (exceção, é claro, aos eventos produzidos, editados e falsificados pela matriz globalizada da cultura).

No caso da morte de Plínio Marcos, essa constatação foi flagrante. Tivesse nascido em solo mais culto, figuraria na pauta dos cadernos culturais − que dedicar−lhe−iam, todos os anos, tonéis de tinta, análise e lamento. Como nasceu, viveu e morreu nesse solo esplêndido que alimenta seus filhos com desprezo, amargor e bordoadas da polícia, houve quem suspirasse de alívio quando soube que o desbocado havia partido desta para uma melhor.

Essa tese encontra a sua comprovação com o caso de Paul Bowles. O estadunidense morreu um dia antes de Plínio Marcos. Os jornais mais importantes do Brasil deram destaque, manchetes e páginas inteiras – lembrando, inclusive, que um de seus livros foi filmado por Bernardo Bertolucci. No dia seguinte, de volta ao tédio pátrio, somente alguns destacaram a morte do dramaturgo brasileiro. Esse tipo de bobagem, dessas que nada provam e, ao mesmo tempo, provam toda a futilidade do mundo, caracteriza um tipo muito freqüente de ação cultural em Pindorama.

Entre os lugares−comuns que iluminam a história do teatro brasileiro, um é imbatível: durante uns 20 anos (décadas de 70 e 80 do século passado) quase todos os grupos de teatro amador montaram (ou planejaram montar) uma das peças escritas por Plínio Marcos. Passar em branco por essa experiência era o equivalente à incompetência.

E essa brincadeira, que misturava qualidade e resistência, não se dava no terreno da superação das dificuldades técnicas ou presença/ausência de talento. O buraco era mais embaixo: a área perigosa e escorregadia da política. Aquele teatro agressivo, que muitos afirmavam ser escrito por um sub−Brecht tupiniquim, habitualmente só servia para afastar o público das salas onde era exibido. No entanto, talvez por teimosia, os espetáculos continuavam acontecendo – e com uma freqüência enervante. O valor da denuncia social superava, naqueles tempos heróicos (em que lutar com palavras era mais do que uma luta vã), a estética duvidosa que, nos dias de hoje, não mede esforços para agradar.

Navalha na carne, Quando as maquinas param, Dois perdidos numa noite suja, Barrela (provavelmente um dos textos mais agressivos da dramaturgia brasileira), Abajur Lilás, Querô, além de mais duas dezenas de outras peças, são alguns dos ícones de um teatro comprometido fundamentalmente com o ser humano. E o que isso significa? Simples: em um país cheio de contrastes e excluídos sociais, omitir que algumas coisas não estão indo bem significa negar os direitos que regem a vida.

Plínio Marcos, como todo bom intelectual forjado na luta contra a ditadura militar, acreditava que somente através da denúncia ostensiva, brutal, muitas vezes desagradável, é que se conseguia deslocar o olhar do público – a idéia era se afastar das futilidades e encontrar o que é realmente importante. E nada é mais importante que o exercício da cidadania – valor que precisa ser defendido diariamente, inclusive para que aqueles que dormem com o poder tenham um mínimo de preocupação e insônia.

Os personagens criados por Plínio Marcos sempre estiveram na beira do precipício, entre a queda e a vertigem: prostitutas, bandidos, todos os tipos de marginais, o lado escuro da lua, onde tudo acontece. Definitivamente, a estética que ele defendia estava muito distante de qualquer visão do paraíso. Pelo menos do paraíso burguês, aquele que adota o manual hollywoodiano de felicidade (mil confusões e eletrizante happy end).

Plínio Marcos tinha estilo. Ah, isso ele tinha! Não é qualquer um que consegue enfileirar dezenas de palavrões sem parecer grotesco. Ou artificial. O grande desafio que a literatura enfrenta nos dias de hoje não é o exercício da linguagem de um, digamos, James Joyce − coisa que qualquer pseudo−intelectualzinho de província consegue realizar sem muito esforço. A prova dos nove é transcrever a linguagem coloquial, é mostrar a vida como ela é.

Na hora em que o leitor (escritor, jogador) precisa bater o pênalti (ou um escanteio, como preferia Nelson Rodrigues), Plínio Marcos tinha consciência de que muitos são os chamados e poucos os escolhidos. Quem duvidar que leia alguns dos artigos que ele publicou na revista Caros amigos, onde tinha uma coluna muito divertida. Entre pequenos "causos" e algumas espinafrações mal−comportadas, a poesia era uma constante. Escrevendo sobre futebol, viagra (há uma crônica genial, dessas que nos faz rolar no chão de tanto rir), os amigos, pequenas histórias teatrais e outras banalidades do cotidiano, esbanjava alegria. Claro, a vida é uma festa.

Nestes tempos neobobos e insípidos, a morte de Plínio Marcos parece acenar que o início do milênio também marca o fim da inteligência. Sentiremos saudades.


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

ALGUMAS ANOTAÇÕES SOBRE UM ROMANCE DE ISMAIL KADARÉ


A história da Albânia é rica e confusa. O país foi invadido centenas de vezes. Os inimigos se instalaram na vasta geografia de seus vales e planícies. Dos homens fizeram escravos. Das mulheres e crianças se apossaram. Depois, como todos os outros invasores, foram expulsos. Os albaneses nasceram para ser livres. Nem mesmo o ar pretensioso do rei Zog I, o último representante de uma monarquia cambaleante, conseguiu controlar os súditos. O único que conseguiu moderar esse temperamento libertário foi Enver Hoxcha: os fuzis dos soldados, sob as ordens do ditador comunista, calaram qualquer resistência.

Esporadicamente, a Albânia contribui com os noticiários. Além das inúmeras disputas políticas internas, de alguns litígios não−resolvidos com Israel, ainda há a xenofobia italiana. Esse último problema não é novidade. A costa italiana tem sido, ao longo da história albanesa, uma projeção do paraíso. Quem sonha em fugir do horror instituído pelo comunismo se aventura no mar. No filme La nave va (Dir. Federico Fellini, 1983), além do rinoceronte, há o anacronismo de um bando de albaneses à deriva no Adriático.

Mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, muitos albaneses imigraram. O Brasil, de norte a sul, recebeu alguns deles – quase todos se tornaram comerciantes. Os países europeus também receberam a sua cota. O escritor Ismail Kadaré se exilou na França, em outubro de 1990.

Sujeito singular esse tal de Ismail Kadaré. Integra, nos últimos quinze anos, as listas (mais otimistas) dos candidatos ao Prêmio Nobel. Entre os seus inúmeros livros há um ensaio sobre Ésquilo, o celebre dramaturgo grego. Também escreveu poesia. Mas, quem consegue explicar os desatinos literários?, ficou famoso pelos romances. Quer dizer, "famoso" em termos. O grande público brasileiro desconhece olimpicamente os livros que escreveu.

O mais famoso deles, Abril despedaçado, quase foi destruído pela adaptação cinematográfica feita pelo diretor brasileiro Walter Salles, em 2001. A história que margeia o código de honra albanês resultou em um filme de gosto travado, característico do delírio de quem acredita que a poesia pode superar a linguagem. O filme não é ruim, mas o romance avança em outra sintonia e foi isso que Walter Salles não conseguiu entender.

Abril despedaçado é um desses romances que conseguem superar as particularidades regionalistas de um país quase bárbaro. Na região de rrafsh (assim mesmo, com dois "erres"), entre o Kossovo e a Albânia, vigora um rígido estatuto tribal. É o Kanun. Essa espécie de lei não escrita determina as normas de honra para o comportamento de duas famílias inimigas. Por alguma razão distante da memória, em tempo imemorial, houve uma morte. A partir desse dia, matar todos os membros do clã inimigo se tornou o objetivo da existência da outra família. Um sistema de assassinatos consentidos.

O romance inicia quando Gjorg Berisha dispara contra Zef Kryeqyqe – a quadragésima quarta morte dessa luta fratricida. Cabe decidir entre os membros da família do morto aquele que vai vingá−lo. Em seguida, será a vez de alguém da outra família resgatar a dívida de sangue. E esse círculo vicioso se repetirá, infinitamente, até o último homem das duas famílias.

Paradoxalmente, depois de cada morte, há uma liturgia. Quase uma comemoração. Várias ações são deflagradas. Todas minuciosas: o anúncio da morte, a posição do cadáver, o velório, o banquete fúnebre, o sepultamento, os prazos, tréguas e tabus da vingança, o pagamento do "imposto de sangue" (para cada morte, o Estado recolhe uma taxa), a humilhação que sofre a família enquanto não "recuperar o sangue", a obrigação de refazer o percurso da morte.

Paralelo a essas informações, uma carruagem atravessa a geografia e o texto. Um casal está se dirigindo para a Kulla (uma espécie de castelo) do príncipe de Orosh. Vão se casar.

Um problema: a noiva não está muito feliz. Suas dúvidas a respeito do casamento são grandes. Em uma estalagem, na beira da estrada, troca olhares com Gjorg – após ter quitado o "imposto de sangue", ele está voltando para casa. No rosto pálido do rapaz, Diana, a noiva, encontra uma série de perplexidades. Fica impressionada. Provavelmente, apaixonada. É um amor platônico, com requintes de masoquismo.

Nessa perversa metáfora de duas pessoas prestes a morrer (Gjorg será vítima do Kanun; Diana, do casamento), um vínculo sem densidade se estabelece entre eles. Uma espécie de paixão. Apesar disso, cada um deles segue o seu caminho, o seu destino.

Em dado momento, há uma tentativa de fornecer algum sentido para esse non−sense. Tudo em vão. É tarde demais. "Abril é mais cruel de todos os meses" (April is the cruellest month). No momento em que a bessa (a trégua) se esgota um tiro de fuzil corta o ar, lâmina implacável a destruir todos os sonhos.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

HENRY JAMES E AS LIÇÕES DO EXÍLIO


Henry James, um dos maiores escritores da língua inglesa, nasceu em 15 de abril de 1843, em Nova Iorque, e morreu em 28 de fevereiro de 1916, em Londres. Segundo uma grande parcela dos estudiosos de sua obra, quase nada aconteceu entre uma data e outra. Um evidente exagero. Os vinte e um romances, as 112 narrativas curtas (contos e novelas) e os inúmeros e trágicos fracassos como dramaturgo desmentem essa "blague".

Filho de um milionário esclarecido, cujo ideal era aproveitar as boas coisas da vida, Henry James (júnior), desde a infância, freqüentou ambientes intelectuais de primeira grandeza. Ralph Waldo Emerson costumava comparecer aos eventos sociais e literários realizados na mansão da família James.

Durante a adolescência e a vida adulta, Henry viajou inúmeras vezes para a Europa, inclusive na companhia de seu irmão mais velho, o filósofo William James. Ao contrário dos dois irmãos mais novos não lutou na Guerra de Secessão (a desculpa foi um acidente, que o deixou com problemas nas costas pelo resto da vida). Nunca precisou trabalhar, no sentido mais grosseiro da palavra. Há quem diga que foi feliz.

Na Inglaterra e na França fez amizade com Ivan Turgueniev, Gustav Flaubert, Emile Zola, Guy de Maupassant, George Eliot, Robert Louis Stevenson, Joseph Conrad, H. G. Wells, e os estadunidenses Stephen Crane e Edith Wharton. Com esse currículo pode−se perceber que ele não foi "qualquer um".

Como ninguém é perfeito, alguns pontos ainda hoje perturbam a fortuna critica de Henry James. O fato dele nunca ter tido algum tipo de relação afetiva pública (seja feminina, seja masculina) tem sido desculpa para que, volta e meia, os professores de literatura gastem baldes e baldes de tinta tentando explicar porque se supõe que ele morreu virgem. O que isso pode contribuir para aumentar ou diminuir a grandiosidade de Os embaixadores ou Retrato de uma senhora ninguém ainda conseguiu explicar direito.

Por outro lado, foi surpreendente a decisão de morar em definitivo na Inglaterra, a partir de 1876. Cultivando uma espécie de auto−exílio, verdadeira contramão da história (naquela época o normal era atravessar o Atlântico na direção dos Estados Unidos), esse fato é de suma importância para se entender o que ele chamou de "tema internacional" – o conflito de viver em uma cultura que não é a de origem, mas que também não aceita a "nacionalização" do meteco. E isso fez com que ele se sentisse, muitas vezes, duplamente discriminado. Segundo os desafetos, ele não era nem americano nem inglês.

O que ocorreu com duas novelas publicadas em 1878 é típico desse período. Daisy Miller foi considerada "um insulto às moças americanas" e o seu autor um ingrato, um traidor da pátria. Tudo isso porque a personagem principal pareceu – para alguns leitores menos perspicazes – um estereótipo da jovem estadunidense mal−educada. No caso de Um incidente internacional, os ofendidos foram os ingleses. Algumas personagens são nitidamente caricatas e a intenção satírica nem tentou ser disfarçada. Todas essas brigas resultaram em tragicomédia, onde Henry James foi o único perdedor – apanhou dos dois lados, literária e literalmente.

Henry James sobreviveu − inclusive ao descaso que o conjunto de sua obra sofreu ao longo de sua existência. O reconhecimento merecido só ocorreu nos anos 40 do século XX. Críticos do porte de Edmund Wilson, W. H. Auden e F. O. Mathiessen escreveram diversos artigos e ensaios, mostrando o quanto a ficção produzida por James havia contribuído qualitativamente para a evolução da narrativa. Depois disso, não houve mais discussão. Infelizmente, como sempre acontece, a glória apareceu tarde demais.

Alguns dos romances jamesianos são quilométricos, onde "quase" nada acontece. Quase. Ler Henry James exige paciência. Sem isso não é possível entrar em um mundo povoado por imagens surpreendentes, "desenhos no tapete", as entrelinhas gritando no meio das frases, como se o que é sugerido fosse muito mais importante do que o que está escrito. Os enredos evoluem lentamente, quase em "slow motion", repletos de sutilíssimas filigranas, rios que escorrem pelo texto através de frases longas, caudalosas, cheias de parênteses e metáforas surpreendentes. Fica a impressão de que o texto – contraditoriamente – constitui alguma tentativa estranha de fuga, tantas são as digressões que o compõem.

Assim como Henry James, todas as suas personagens estão isentas de preocupações financeiras. Raras são as que exercem alguma ocupação trabalhista. Na maioria das vezes, constituem um grupo de privilegiados que gastam dias e noites pela Europa (Paris, Londres, Veneza...) – e sem o menor constrangimento. O que as atormentam são as questões morais e emocionais. A diferença entre o certo e o errado, em determinada situação, é motivo mais do que suficiente para o escritor escreva no mínimo umas 300 páginas. E o que surge dessa inquietação não é exatamente um panorama da sociedade ociosa do século XIX, mas um painel corrosivo da alma humana e de suas fraquezas.

Quando, por fim, nada mais pode ser acrescentado ou omitido, quando todas as incertezas são nomeadas, quando o mundo interior das personagens é recriado à imagem e semelhança do deus−narrador, é que surge a cena final. Quem a vê, quem a lê, descobre, neste instante, a celebração de algum tipo de ritual pagão: a revelação de tudo o que até então tinha sido negado ostensivamente. Para Henry James, a verdade narrativa é irmã da decepção. Junto com o naufragar das esperanças, ele acrescenta uma lição de dignidade: a contenção dos sentimentos mais primários. Não basta sofrer, é necessário fingir que o dilaceramento não atingiu os órgãos vitais. Como se fossem constituídos de algum material nobre, capaz de suportar os piores revezes (inclusive os amorosos), os personagens jamesianos sofrem sem perder a pose ou a educação. Gritos e lamentos são raros – e quando acontecem é em quarto fechado, longe do público. O usual é − o coração em chamas − um sorriso de alívio por tudo ter terminado (Os Embaixadores, A Fera na Selva, Daisy Miller,...). Não é uma imagem bonita.

Ao leitor, aquele leitor que resistiu a todos os obstáculos propostos pela narrativa, que - por curiosidade ou insanidade - conseguiu chegar ao final do texto, resta a sensação de que se equilibrou em uma teia de aranha quase imperceptível e que, página a página, viu os personagens e os acontecimentos se transformando, comungando uma mistura de fascínio, sentimentos ambíguos e desfechos trágicos. Nada é explicito. Nada agride diretamente. O que há é um delicado embate de emoções. Uma contida colisão de emoções – que não mede esforços para atingir os abismos que dilaceram a alma, que retratam a perversidade que é o viver.


Se ler Henry James não é uma tarefa fácil, traduzi−lo é muito mais problemático. A belíssima versão de A fera na selva, realizada por Fernando Sabino, é um "tour de force" que precisa ser comemorado. Paulo Henriques Britto, nos contos que compõem A morte do leão, não só recria o ambiente narrativo original como torna o escritor mais acessível para as novas gerações de leitores.

A novela A volta do parafuso (The turn of the screw) é o texto mais conhecido de Henry James no Brasil. Por isso mesmo é o que possui o maior número de traduções comerciais: dez.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

LÉXICO FAMILIAR


Em determinada ocasião um comentário despretensioso (ou a citação de uma frase ou a recordação de alguma palavra) aciona algum tipo de gatilho emocional, despertando lembranças que estavam escondidas nas fendas da memória. Desta forma, o que estava destinado a desaparecer, envolto em poeira e abandono, ressurge como se tivesse ocorrido em passado próximo. É nesses momentos – constituídos pelas filigranas afetivas e pela lembrança de algumas histórias aparentemente sem importância – que surge o vocabulário da intimidade familiar, o glossário das minúcias que trafegam entre a leveza e a exaustão da vida diária.

Com esse propósito instigante Natalia Ginzburg relatou parte da história do clã Levy no depoimento autobiográfico Léxico familiar. E, para que não haja nenhum tipo de confusão, para que o espectro ficcional não contamine a narrativa, a voz da autora informa aos leitores: "Neste livro, lugares, fatos e pessoas são reais. Não inventei nada: e toda vez que, nas pegadas do meu velho costume de romancista, inventava, logo me sentia impelida a destruir tudo o que inventara".

Tudo é verdade. Por mais inverossímil que possa parecer. As idiossincrasias do pai, Giuseppe (Beppo ou Beppino), são hilárias. Difícil aceitar que aquele mau humor não foi inventado. Também é difícil acreditar nos dramas gerados pela guerra. São episódios que provavelmente teriam melhor recepção se estivessem localizados no interior de algum romance. Mas, infelizmente, não estão. A vida é muito mais cruel do que a ficção. E, talvez seja esse o grande charme do livro de Natalia Ginzburg: combinar o pouco crível com o real.

Natalia descreve a aparente fragilidade de Lídia, a mãe. Com lentidão, sem precisar fazer grande esforço, vai mostrando a determinação dessa mulher (aparentemente submissa) que conseguiu criar filhos e netos, que conseguiu sobreviver ao horror da guerra. Entremeando esse relato, outras cenas, outros episódios. São registros descontínuos, cheios de hiatos − lugares e lembranças que a autora não quis preencher.

Ao dar um tratamento literário ao "vivido", Natalia, com discrição e timidez, adotou a posição de coadjuvante. Os acontecimentos mais importantes de sua vida (casamento, filhos, morte do primeiro marido) estão lá, mas foram narrados de forma tão superficial que parecem acessórios. Seguindo um conceito político, fruto de uma militância de resistência ao governo de Mussolini, o que importa são as histórias dos outros, dos irmãos, dos vizinhos, dos amigos da família. O que importa é registro social daqueles tempos sombrios em que o fascismo e o nazismo quase destruíram a civilização. Pareceu−lhe mais significativo relatar a iniqüidade, o anti-semitismo, a arbitrariedade jurídica, as mortes na prisão. No entanto, executa essa tarefa com bom gosto, sem exigir compaixão.

Depositária das histórias que constituem o inventário familiar, Natalia Ginzburg escreveu um belissimo depoimento memorialista, agradável de ler, sem compromissos com o discurso piegas, sem amarras sentimentalóides.