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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O LUGAR DA CRÍTICA


Certa vez, lá por 2000, um dos meus colegas do Doutorado entrou em sala de aula com uma pilha de livros debaixo do braço. Exemplares de sua última publicação. Um romance. 250, 300 páginas. Alegre e saltitante, o autor distribuiu a obra−prima entre os colegas. Fiquei contente por não ter sido agraciado com a honra.

Infelizmente, a história não termina aqui. Infelizmente, houve continuação. E não foi o que se poderia chamar de happy end. Depois do turno da manhã, fui almoçar com vários colegas de turma e uns dois professores. Estávamos terminando quando o escritor apareceu e começou a conversar conosco. Nada importante. Trivialidades acadêmicas.

Em algum momento, ele se virou para mim e, com a voz trêmula, disse:

− Espero que você não tenha ficado zangado por não ter recebido um exemplar do meu livro.

− Nenhum problema.

− É que você não gosta de nada e achei melhor evitar constrangimentos.

Evitar constrangimentos, disse ele. Demorei uns dois ou três segundos para entender a que ele estava se referindo. Embora aquele você não gosta de nada fosse uma boa dica. Se o sujeito não tivesse comentado o assunto, a vida continuaria em tranqüila monotonia. Aquela justificativa tola, própria de quem tem problemas para administrar a paupérrima auto−estima, me obrigou a reagir desproporcionalmente.

− Muito obrigado! Não é todo dia que alguém me poupa de vários constrangimentos. Você me poupou do constrangimento que é ler essas porcarias que você escreve. Você me poupou do constrangimento de emitir uma opinião publica sobre esse lixo que você chama de literatura. E, principalmente, impediu que eu me constrangesse ao ter que jogar na tua cara o quanto você é insignificante. Muito obrigado!

Nesse momento, uma amiga puxou o meu braço, lembrando−me que a vida social implica em limites e hipocrisia. Virei o corpo para poder falar com ela. Foi o suficiente para que a vítima desaparecesse de cena.

Como nunca mais conversei com aquela celebridade do mundo literário catarinense, provavelmente fiz mais um inimigo. Embora não esteja orgulhoso com o desfecho do episódio − nem poderia estar −, nunca o esqueci porque constitui um divisor de águas na minha vida.

Estou a recordar essa história porque a partir daquele instante, utilizando as mínimas ferramentas que disponho, optei por me divertir com os medíocres.

Recentemente, como se tivesse acertado o primeiro prêmio da loteria, ganhei mais um punhado de desafetos. Incapazes de entender que as relações humanas azedam na indiferença, alguns humilhados e ofendidos fizeram beicinho quando escrevi e publiquei diversos textos ácidos. Provavelmente, sonhavam com tapinhas nas costas e elogios de primeira grandeza. Interessante. Como dizia um dos meus santos de devoção, mestre Paulo Francis, A carência sexual das pessoas não cessa de me espantar.

Historicamente, a tarefa da crítica cultural está ligada intelectualmente ao estabelecer o lugar adequado para um objeto, distinguindo-o entre outros objetos de mesmo valor. Essa postura amplia a compreensão, os níveis de comparação e fornece, sobretudo, uma opinião técnica sobre o que está sendo analisado.

Embora esse ordenamento seja discutível, assiduamente frágil, não é possível ignorar que, em condições ideais, deveria estar longe do comprometimento passional. Muitas vezes não atinge esse objetivo. O critico é humano – passível, portanto, de ser influenciado por milhares de fatores externos.

Ao mesmo tempo, quando comete excessos (e eles acontecem com maior freqüência que o desejado), é parte da tarefa crítica saber pedir desculpas. Não é nenhum desastre. Melhor se retratar do que se omitir.

Isso posto, nunca é demais lembrar que a crítica não deve compactuar com os sinônimos da destruição. A crítica não é (e nunca foi) o contrário do elogio.

Se concordamos ou não com essa postura é outra conversa. Ou melhor, é motivo para que a conversa continue – é o diálogo que estabelece o entendimento. Desta forma, a crítica está vinculada à existência, na outra ponta, da recepção. É o leitor e a sua reação ao texto crítico que valorizam ou desqualificam o trabalho de análise. Nestes tempos a−pós−o−moderno, seja através de alguma mensagem eletrônica, seja por meio de algum artigo contestando ou acrescentando argumento(s), o ciclo intelectual se completa.

Quanto aos elogios, se é que alguém está realmente interessado nisso, recomenda−se o abandono dos artigos de opinião. Melhor concentrar a leitura nas colunas sociais – que estão aí exatamente para isso (desde que, óbvio, sejam bem remuneradas. Nada é mais inútil do que o puxa−saquismo gratuito).

terça-feira, 29 de novembro de 2011

DE MÃOS DADAS COM NABOKOV


Eu soube que poderia ficar nesta cidade quando encontrei a panela azul esmaltada no lago. A panela me levou à casa, a casa me levou ao livro, o livro me levou ao advogado, o advogado me levou ao bordel, o bordel me levou à ciência e, a partir da ciência, eu ingressei no mundo.

Raramente um texto ficcional apresenta um resumo tão objetivo no primeiro parágrafo. O romance Em casa com Nabokov, escrito por Leslie Daniels, não é uma obra−prima, tampouco possui qualidades suficientes para obter considerável destaque no universo dos milhares de livros publicados anualmente. No entanto, por um desses mistérios que somente a vida consegue instaurar, está envolto por algum tipo particular de charme. O leitor perde a resistência e é fisgado pelo texto depois do segundo ou terceiro capítulo (todos muito curtos, centrados em situações cotidianas, jogando com a – falta de – paciência de um público que não gostaria de se deter em questões complicadas ou de difícil digestão).

Junto com essa particularidade, entra em cena outro predicado: a capacidade de driblar o peso histórico da tradição literária. Ninguém acrescenta impunemente ao título de um livro o nome de um autor consagrado. Ao contrário do que seria possível imaginar, os leitores mais refinados não se decepcionam ao perceber que esse pequeno truque publicitário não está muito distante do estilo sofisticado de Vladimir Nabokov (autor de Fogo pálido, Coisas transparentes, Gargalhada no escuro, Lolita, entre muitos outros). A história da mulher que encontra um manuscrito em uma gaveta, na casa que foi (alguns anos antes) habitada pela família do mestre russo, não está afastada dos temas (duplo, identidade, ruptura) que atormentaram Nabokov. Manipulando a dúvida gerada pela possibilidade do texto descoberto ser algum trabalho inacabado e inédito, a protagonista, Barbara (Barb) Barrett, adentra, elegantemente mal-vestida, em um cenário novo: o mundo editorial, as conferências universitárias e as relações confusas que envolvem as publicações literárias.

O romance acena para o dramalhão quando Barb perde a guarda dos filhos para o ex−marido canalha. Casamento sem amor raramente resulta em diferente desfecho. Felizmente, a tragédia se dilui no tom ligeiramente ingênuo, quase humorístico, que o texto vai adquirindo aos poucos. A narrativa em primeira pessoa (manejando as nuances que unem e separam o trágico e o farsesco) caminha − suavemente − na direção de uma solução que, inicialmente, não parecia ser possível. É uma jornada confusa, um pouco inverossímil, que talvez fosse mais plausível como componente do enredo de algum filme água−de−flor−de−laranjeira (esses que sempre são prazerosos de assistir no meio da tarde de sábado, na companhia da namorada).

A influência de Nabokov na narrativa é nula. Ele é apenas uma referência, um acidente de percurso, uma ponte ligando um estágio a outro. Essa característica deve ser entendida como mais uma vantagem em favor de Em casa com Nabokov. A literatura que transita pela metalinguagem sempre corre o risco de querer emular o estilo daquele que está sendo "homenageado" – inevitavelmente, esse esforço resulta em desastre.

Desastre não é uma palavra válida para definir Em casa com Nabokov. Agradável talvez seja uma escolha melhor. Divertido também é uma opção válida.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

TRINTA FRASES SOBRE CULTURA, ARTES E OUTRAS INSIGNIFICÂNCIAS


1 – Quando ouço a palavra "cultura", saco o meu revólver. (Hermann Goering) [OBS: Segundo Newton Silva, essa frase é Hanns Johst (1890-1978), teatrólogo nazista. A versão original é Wenn ich Kultur höre ... entsichere ich meinen Browning]

2 – Quando ouço a palavra "revólver", saco minha cultura. (I. J. Good)

3 – Não há cretinice que já não tenha sido escrita por um filósofo. (Cícero)

4 – Toda arte é absolutamente inútil. (Oscar Wilde)

5 – Um amador pensa que é engraçado vestir um homem como uma velhinha, sentá−lo numa cadeira e dar um empurrão na cadeira, para que ela desça uma ladeira feito uma bala e se esborrache contra um muro de pedra. Um profissional sabe que isso tem de ser feito com uma velhinha de verdade. (Groucho Marx)

6 − Nunca houve uma ideia nascida do espírito humano que não tenha feito correr sangue sobre a terra. (Charles Maurras)

7 – Um intelectual é um sujeito que não sabe estacionar uma bicicleta. (Spiro Agnew)

8 – A publicidade pode ser descrita como a ciência de prender a inteligência humana o tempo suficiente para lhe arrancar algum dinheiro. (Stephen Leacock)

9 – O dicionário é o único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho. (Ambrose Bierce)

10 – A televisão matou a janela. (Nelson Rodrigues)

11 – Qualquer idiota é capaz de pintar um quadro. Mas só um gênio é capaz de vendê−lo. (Samuel Butler)

12 – A marca do verdadeiro gênio é que ele não se deixa estragar pelo sucesso. (Martin Esslin)

13 – Às vezes mando filmar algumas cenas fora de foco. É o único jeito de ganhar o prêmio de melhor filme estrangeiro. (Billy Wilder)

14 – Os cisnes cantam antes de morrer. Algumas pessoas deveriam morrer antes de cantar. (Samuel Taylor Coleridge)

15 – Não existem livros morais ou imorais. Livros são bem ou mal escritos, nada mais. (Oscar Wilde)

16 – Só os idiotas da classe média acreditam que ficar em dia com a última novidade em literatura melhora o seu status no mundo (Mary McCarthy)

17 – Karl Marx não era marxista o tempo todo. Também costumava tomar os porres no pub da esquina. (Michael Foot)

18 – Esse não é um romance para ser posto casualmente de lado. É para ser atirado longe com toda a força. (Dorothy Parker)

19 – Rodei um filme na Inglaterra. Fazia tanto frio que quase me casei. (Shelley Winters)

20 – As palavras são pistolas carregadas. (Jean−Paul Sartre)

21 – Só há uma coisa mais rara do que uma primeira edição de certos escritores: uma segunda edição. (Franklin P. Adams)

22 – Quando se rouba de um autor, chama−se plagio; quando se rouba de muitos, chama−se pesquisa. (Wilson Mizner)

23 – Os cenários da peça eram ótimos, mas os atores ficavam na frente deles o tempo todo. (Alexander Woollcott)

24 – As armas da civilização são o álcool, a sífilis, as calças e a Bíblia. (Havelock Ellis)

25 – Se eu filmasse Cinderela, a platéia pensaria que havia um cadáver na carruagem. (Alfred Hitchcock)

26 – A arte abstrata é um produto dos incompetentes, vendida pelos inescrupulosos e comprada pelos imbecis. (Al Capp)

27 – Um editor de jornal é alguém que separa o trigo do joio – e imprime o joio. (Adlai Stevenson)

28 – Quando se corta a cabeça de um intelectual, ele morre. (Francis Picabia)

29 – Na Califórnia não se joga o lixo fora. Eles o reciclam na forma de programas de TV. (Woody Allen)

30 – O homem é um animal esperto que se comporta como um imbecil. (Albert Schweitzer)


sexta-feira, 25 de novembro de 2011

ANOTAÇÕES SUPERFICIAIS SOBRE A PAISAGEM LITERÁRIA DO BRASIL

Ventos alienados e alienígenas hasteiam bandeiras na idolatrada salve salve, como se os caminhos adotados pela literatura brasileira contemporânea (salvo melhor definição) fossem uma cicatriz que dói no peito a cada ameaça de tempestade. Simultaneamente, a prostituição, perdão, o positivismo dos profissionais especializados em quaisquer coisas (também chamados de cri-cri-ticos literários), trêmulos e faceiros, caprichando na elaboração da perplexidade, perguntam: está acontecendo alguma coisa significativa com a lixeratura brasileira?

Depende. Sim, queridinho(a), depende. Primeiro, é preciso definir o básico: de que lado você está? Se a sua resposta for aquela que agrada o mercado de consumo, provavelmente ninguém discordará que a crise é mínima, que estamos em plena expansão criativa e que a vida é bela. Se por outro lado, você é daquele grupo que acredita que os otimistas sempre estão mal informados, então o buraco é mais embaixo e o gozo, lamento afirmar, está suspenso até segunda chamada.

Pois é, o retrato da geração zero zero (ou 2.0 ou século 21 ou qualquer outro qualificativo que for aplicado para vender um pouco daquela mercadoria que, de outra forma, mofará estocada no quartinho dos fundos) está além/aquém/acolá do que, em grandes manchetes, é (ou não é) notificado, resenhado, publicado nos jornais, revistas e internet.

É phoda, meu/minha camarada, basta fazer um rápido resumo da história literária (recente ou pré-diluviana) para concluir que, em um país onde a história política está completamente alijada da constructo literário, um sorriso irônico deveria estar desenhado na face dos críticos das belas-letras. Sintomaticamente, ele sequer existe. Todos se julgam sérios, catedráticos da mesmice, carregadores do turíbulo encantado pelas espórtulas do capitalismo.

Antes que aceitemos que a literatura brasileira se decompõe em anedotas de (des)gosto duvidoso, por favor, no entrecruzamento entre política e literatura, alguém poderia esclarecer qual foi a herança que recebemos dos anos 60? Qual é o romance (a novela, o conto, o ensaio) representativo dos anos de chumbo (também chamados, pela Folha de São Paulo, de ditamole)? Claro que não vale citar meia dúzia de volumes semi-autobiográficos ou semi-ficcionais (Fernando Gabeira, Alfredo Sirkis, Roberto Campos, Silvio Frota, Carlos Chagas, Elio Gaspari), e uma meia dúzia de narrativas muito contidas, repletas de parábolas, elipses e auto-censura (Reflexos do baile, do Antonio Callado, A festa, do Ivan Ângelo e Zero, do Ignácio de Loyola Brandão). Mas, aos olhos de hoje, que é que se salva literariamente nesse amontoado de fofocas e calúnias e difamações? E o governo Collor de Mello? Onde é que está escondida a literatura cara-pintada? E, por favor, se alguém tentar citar o José Nêumanne ou o Luiz Gutemberg, com aquelas bobagens pseudo-besta-sellers, arremedos de posicionamento político-literário, me segura que eu vou ter um troço! O romance escrito pelo Edney Silvestre, A Felicidade é Fácil, apesar do tom modernoso, vamos denunciar o arbítrio, também não diz o que deveria dizer. Os governos Fernando Henrique e Lula, mostrando que conhecem o tamanho do bolso (da bolsa) dos escritores, negociaram um pouco de silêncio artístico. Nenhuma novidade, basta seguir a tradição herdada do colonialismo português, parte do funcionalismo público adora escrever para fora, digo, para alegrar os chefes e o povo.

Como se isso não bastasse, é preciso/precioso consultar o tarô ou o I-ching para descobrir em que lugar a literatura brasileira escondeu os negros, os índios, os trabalhadores (Luis Ruffato é a exceção que confirma a regra) e, principalmente, os pobres (por favor, neste item, evitem citar Ferréz, porque o cara, desculpem fãs da marginalidade, o cara não conhece o mínimo da técnica literária!).

Por outro lado, relatos sexuais vendem como pão quente. Embora constituam prova de indigência literária, quem é que não quer saber o que acontece na cama ao lado? Você, ilustre leitor(a), vai negar que nunca imaginou a Bruna Surfistinha, doida entre lençóis de linho egípcio, prometendo loucuras que mimetizam aventuras que nenhum de nós viverá?

Outra característica se soma a esse contexto: o Brasil literário não gosta de mostrar a sua cara – a verdadeira, é claro. O Brasil é o Outro, no outro lado do mundo, bem longe, bem longe dos problemas – e pouco importa se o Haiti é aqui. No início era só o Bernardo Carvalho (fazendo pose de Bruce Chatwin ou Cees Nooteboom ou J. M. G. Le Clézio) que mostrava distanciamento ao solo pátrio. Escrevendo romances pretensiosos, ambientados em lugares exóticos como o Xingu, a Mongólia ou o Japão, Bernardo Carvalho, em versão farsesca, reproduz Carlota Joaquina, que, antes de embarcar no navio de volta à Europa, limpou os sapatos e disse: desta terra não quero levar nem o pó. Atualmente, em agradável surpresa para a globalização, uma editora está pagando os nossos melhores (sic!) talentos para escrever "histórias de amor”. Seria divertido se não fosse o espelho de nossa miséria.

Somando erros e acertos, sacanagens e pilhérias, alguns “ishpertos” conseguiram encontrar uma solução para parte dos problemas que afligem a literatura brasileira: sob o escudo da metalinguagem, o mercado está cheio de livros que “plagiam”, desculpe, plágio é uma acusação leviana, é preciso pegar mais pesado, compõem uma nova versão de algum dos temas machadianos, na vã esperança de que o bruxo do Cosme Velho esteja acima do bem e do mal, imune às críticas invejosas e ao humor pouco espesso daqueles que, incompetentes para criar, denigrem o trabalho alheio!

Noves fora, na República do Bananão, o único setor que avançou em coragem e qualidade foi o da literatura escrita por mulheres. Sem exagerar, mas forçando um tantão, Carola Saavedra, Ana Paula Maia, Paloma Vidal e Tatiana Salem Levy, entre outras, estão encabeçando uma revolução silenciosa, ninguém está percebendo o perigo, quando a turma que acredita ser a dona do campinho abrir os olhos será tarde demais.

Enfim, para não me alongar muito nessas considerações absolutamente desnecessárias, esta é – reconheço - sem muita profundidade, a minha visão de como tropeça a literatura brasileira. Enquanto algumas almas mais puras sonham com a retomada de um tempo que já se esgotou, os que estão ancorados na mothernidade, demonstram absoluta falta de coerência, postura política e, nas horas vagas, caráter (É preciso viver malandro / a cana tá brava a vida tá dura, dizia o Bernardo Vilhena em priscas eras, mas com uma atualidade estonteante). Para não se comprometerem com certas questões (ou será, com as questões certas?), olham para o lado, fingindo (fugindo?) que a consciência de classe, de raça e de sexualidade não são bons temas literários. In other hands (como diriam o Conselheiro Acácio e/ou o José Dias, abusando de escorreito português castiço), ideologia, eu quero uma para viver.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

JÔ SOARES FOI ESMAGADO PELOS DETALHES


O barroco está morto. O único escritor brasileiro que desconhece esse fato singular é Jô Soares. Sem saber escolher entre contar uma história e soterrar o leitor em miríade de detalhes supérfluos, aquele que um dia acreditou que o humorismo é uma forma de redenção da humanidade preferiu que a sua mais recente brochada, digo, brochura, As Esganadas, se transformasse em aborrecidíssimo depósito de penduricalhos da cultura inútil (ineficaz até para ajudar na solução de problemas de palavras cruzadas). Nenhuma novidade. No decadente e (cada vez mais) aborrecido programa de televisão que José (Eu/gênio) Soares apresenta nenhum convidado se importa de ter a palavra caçada para que o "gordo" possa o sufocar no exibicionismo produzido por micro−camada de verniz enciclopédico (provavelmente adquirida nas páginas inestimáveis do Almanaque Biotônico Fontoura).

As Esganadas é um texto mixuruca e que foi esticado até a exaustão. Se tivesse se contido entre 50 e 60 páginas estaria de bom tamanho. E, provavelmente, seria aceitável como peça literária. Infelizmente, o seu autor, emulando algumas das personagens que copiou de outros romances medíocres, não se conteve diante das guloseimas e multiplicou a área em que o tecido adiposo se concentra. Na hora da publicação, faltou um médico (ou um editor) para recomendar uma lipoaspiração básica.

A história de Caronte, o proprietário da funerária Estige, ambiciona ser o enredo de um thriller (para poder disfarçar o amontoado de lugares−comuns). Fracassa redondamente nos dois propósitos. Na impossibilidade de vingar as atrocidades maternas, um ridículo agente funerário estereotipado de seriado cinematográfico dos anos 30, no intervalo entre cigarros de haxixe e auto−aplicações de alucinógenos, resolve livrar o mundo de algumas gordas. E as entope de comida. Comprovando que sexo e gastronomia estão intimamente ligados, o orgasmo perverso do perverso impotente somente se realiza no momento em que as bem−nutridas vão comer capim pela raiz. Enfim, uma tara tão nojenta quanto qualquer outra.

E é isso. Ou deveria ser. Porque o autor, incapaz de se conter, acrescentou diversas histórias paralelas, quase todas dispensáveis. O detetive português é um personagem tão mal construído que parece ser semelhante a blefe de principiante. Além disso, serve como gancho para que o narrador possa contar o histórico trambique armado pelo bruxo inglês Aleister Crowley e o poeta lusitano Fernando Pessoa. O que isso tem a haver com a trama principal ninguém sabe ninguém quer saber.

Depois há uma transcrição da narrativa radiofônica do jogo de futebol entre Brasil e Itália, pela Copa do Mundo de 1938. Até mesmo como contraponto para mais um crime o episódio falha. Falta tempero – ou talento.

A aparição de algumas figuras históricas (Filinto Müller e Lourival Fontes, principalmente) beira o ridículo, tamanho o artificialismo que as envolve.

Por último, há Diana, repórter e fotógrafa da revista O Cruzeiro, que nada de muito importante faz na trama, exceto – talvez – contribuir com o charme. O fato de a moça terminar entre lençóis com o português só serve para reforçar a suspeita de machismo explicito.

Sem conseguir controlar o exibicionismo intelectual, o narrador (impessoal, em terceira pessoa) não economizou citações em latim, palavras em alemão, citações poéticas, descrições rebuscadas de ambientes (similares ao preciosismo defendido por Emile Zola) e informações acessórias. É o tédio! Somente superado quando o autor e o narrador perdem a direção e, imersos em confusão e non−sense, infiltram na narrativa o ridículo: Numa conversa animada digna da torre de Babel, os brasileiros apresentam a nossa cachaça ao alemão. Nossa? Nossa Senhora, como é que esse pronome denunciador apareceu do nada? Uma narrativa em terceira pessoa (ou seja, equidistante, sem envolvimento emocional com o que está sendo descrito) que não recebe filtro suficiente para evitar esses deslizes provavelmente é fruto de algum ego inflado, inflamado pela vaidade infantil.

Igualmente tolo é considerar As Esganadas como um texto engraçado. O humor não se fez presente nesse pastiche de narrativas policiais.

Salvo engano ou algum mecanismo psicológico perverso de consumo desenfreado, gastar R$ 36,00 com esse livro é jogar dinheiro fora.

P.S.: José (Eu/gênio) Soares já cometeu outros romances policiais. O Xangô de Baker Street é mediano. Os outros dois, O Homem que Matou Getúlio Vargas e Assasssinatos na Academia Brasileira de Letras são ruins.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

LITERATURA MUSICAL, MÚSICA LITERÁRIA

(...) faço versos porque não sei fazer música. Foi dessa forma singela, confessional, como se estivesse jogando conversa fora, que Manuel Bandeira, no Itinerário de Pasárgada, colocou em cena um dos problemas mais perturbadores do mundo artístico. (Perturbador no bom sentido, se é que existe essa "enrolação" que chamam de “bom sentido”).

Evidentemente, o mestre não estava a dizer que música e literatura são formas artísticas excludentes. A questão fundamental é de outra ordem. Bandeira era um melômano (expressão antiga, definitivamente fora de moda), basta lembrar as diversas parcerias com Jaime Ovalle, Heitor Villa–Lobos, Camargo Guarnieri e Francisco Mignone. Além disso, como possuía excelente senso crítico, aceitou o fato que a poesia possui limitações e, em alguns momentos, se distancia do sonho utópico (e, portanto, irrealizável) de conter/compor todos os sentimentos que movem o mundo. Isso não impede, entretanto, que - em algumas dessas tentativas - ocorra uma espécie de milagre, instante em que a poesia se aproxima da música como se quisesse tocá–la (nos dois sentidos). É o que se percebe em alguns versos de John Donne, Jean–Arthur Rimbaud, Anna Akhmatova e Konstantin Kaváfis, por exemplo. No Brasil, a cadência proposta por Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, Manoel de Barros e Adélia Prado dispensa a companhia dos sons instrumentais.

Na outra ponta da confusão, a prosa – quando muito – se contenta em retratar as tensões, as brigas que destoam o ensaio de orquestra que compõe o mundo real. E isso significa que – seja para o bem, seja para o mal – ela está, paradoxalmente, mais próxima da música do que a poesia.

Essa tese (tão discutível como qualquer outra) encontra alguns pontos de correspondência quando percebemos que, atualmente, vários músicos estão caminhando na contramão. Por diversas razões e loucuras, muitos daqueles que ganham a vida namorando a grandiosidade sonora estão colocando no papel, ops, na tela do computador, algumas idéias, quase todas em prosa. Sem ligar para a sensação de peixe fora d’água, assentaram a bunda em uma cadeira (como recomendava William Faulkner aos novos escritores) e contaminaram a festa com outro tipo de beleza.

O resultado desse esforço pode ser comprovado nas crônicas de Aldir Blanc – que oscilam do lirismo mais sublime até o escracho total – ou nos diversos romances escritos por Chico Buarque de Hollanda e Tony Bellotto. Outro estranho no ninho, que resolveu invadir o quintal alheio, foi Zeca Baleiro − que sempre aparece na mídia escrita com algum artigo fantástico (no mais impressionante deles, vários anos atrás, deu uma ”taquarada” no aburguesamento de Luciano Hulk).

O engraçado é que a música está quase ausente nos textos dos "novos" escritores (a exceção está nos primeiros romances de Bellotto, onde o protagonista, Remo Bellini, passa grande parte do tempo ouvindo blues).

Para aqueles que gostam da música e literatura, mas não possuem o ouvido apurado de Arthur Nestrovski (autor de Ironias da Modernidade – ensaios sobre literatura e música,1996) ou de José Miguel Wisnik (que escreveu O Som e o Sentido, 1989), o desafio alcança outro nível, mais complexo, menos evidente.

Esse impasse ajuda a explicar o porquê de algumas antologias de contos sobre música terem sido publicadas recentemente. Mais do que ações compensatórias para o ego debilitado daqueles que desafinam tocando triangulo ou caixa de fósforos, esses livros abordam a música como elemento integrado aos relacionamentos humanos.

Mas, por que contos? Será que os romances não são musicais?, alguém há de perguntar, ansioso para esgrimir diante de olhos hereges exemplares de Doutor Fausto e Morte em Veneza (Thomas Mann), O Náufrago (Thomas Bernhard) e Variações Goldman (Bernardo Ajzenberg).

Entre as múltiplas possibilidades de explicação para esses dois fenômenos (a publicação dos livros e dos contos), a resposta talvez esteja no ritmo contemporâneo, rápido, que não permite espaço para o conjunto de sutilezas que integram as sinfonias, por exemplo. Além disso, o conto é uma peça ligeira, sem muitos preconceitos com o andamento (oscila entre o pianíssimo e o allegro vivace).

Particularmente interessantes, como exemplos da interseção entre música e literatura, são as antologias Contos Para Ler Ouvindo Música (organização de Miguel Sanchez Neto, 2005), Aquela canção – 12 contos para 12 músicas (diversos autores, 2005 – acompanha CD), Como se Não Houvesse Amanhã (organização de Henrique Rodrigues, 2010), Essa História Está Diferente (organização de Ronaldo Bressane, 2010) e O Livro Branco – 19 contos inspirados em músicas dos Beatles + bônus track (organização de Henrique Rodrigues, 2012).

Com exceção do primeiro, que é uma espécie de "pot–pourri", ou seja, reúne diversos textos esparsos, escritos ao acaso em diferentes tempos e espaços (Siempre en la barca pra Paquetá, de Aldir Blanc; Noites de Bogart, de Luis Fernando Veríssimo; O moço do saxofone, de Lygia Fagundes Telles; Show Business, de Tony Bellotto), os outros livros estão conectados com uma proposta muito específica: interpretar por meio da ficção algumas canções gravadas no imaginário popular. Mas não é somente isso, há outra diferença: enquanto Aquela canção trabalha sem limitações a música popular brasileira (MPB, para os íntimos), a área de abrangência dos outros dois é diferente.

Como se Não Houvesse Amanhã é uma espécie de passeio sentimental da geração coca–cola, a gurizada que passou a adolescência ouvindo a poesia dissonante daquele que deve ter sido o último Peter Pan brasileiro: Renato Russo. Em busca da aquisição de uma linguagem que dissecasse elementos que, de uma forma ou de outra, estavam interditos, a Legião Urbana cantou músicas com a qualidade de Eduardo e Mônica, Faroeste Caboclo e Pais e Filhos. Tendo como tema esses, digamos, novos clássicos, o livro subverte o contexto que gerou as canções e possibilita, através da ficção, outras leituras – mais enriquecedoras, menos dogmáticas. Particularmente criativas são as narrativas escritas por Daniela Santi (Será), Tatiana Salem Levy (Tempo Perdido) e Nereu Afonso (Ainda é Cedo).

O mesmo propósito está em todas as páginas de Essa História Está Diferente, que virou do avesso a obra de Chico Buarque. Contando com a colaboração de alguns estrangeiros (Mia Couto, Mario Bellatin, Alan Pauls e Rodrigo Fresán), escritores que forneceram um olhar diferenciado para o universo chicobuarquiano, as versões literárias de Ela Faz Cinema (Alan Pauls), As Vitrines (João Gilberto Noll) e Folhetim (Xico Sá) são, para deixar no barato, da mesma qualidade que as canções que as inspiraram.


O imaginário musical, proposto pelos Beatles, se renova e se multiplica nos 19 contos que integram O Livro Branco. Imperdível para aqueles que são fanáticos pela banda inglesa.

Como se estivesse simultaneamente tangendo/agenciando abismos e concertos de câmara, a literatura e a música formam um dupla (sertaneja ou de cordas?) capaz de trabalhar em conjunto para escrever/descrever esses afetos que transformam parte da vida em prazer e alegria. Afinal, como canta Zeca Baleiro, solidão não cura com aspirina.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O CORAÇÃO DE LAGES PULSA DENTRO DO NOSSO PEITO

Para se perder em Lages é necessário instruções. Ao contrário dos geógrafos, que esquartejam o mundo para poder brincar com os pedaços, só é possível se perder em uma cidade quando a conhecemos completamente: mapas, livros, fotografias, relatos, lembranças e vozes – que nos alcançam em cada esquina, lembrando que ruas são rios escorrendo pelo corpo da cidade.

Para poder se perder nos labirintos que formam o Continente das Lajens é necessário mais do que uma vida, essa incerteza menor. No distante ano da graça de hum mil setecentos e sessenta e seis, Antônio Corrêa Pinto de Macedo (um homem de mau gênio, como dizem serem todos os lageanos), nas veredas que entrelaçam os rios Carahá e das Caveiras, no alto da serra dos Certões de Curitiba (a denominação da época), fundou a póvoa de Nossa Senhora dos Prazeres das Lajens. Era um lugar habitado por animais selvagens e aborígenes (que se não são a mesma coisa, causaram igual temor), e, no interesse da colonização da terra e da salvação das almas, resultou aos ilustres bandeirantes aniquilá-los – tarefa que foi cumprida com denodo e lhaneza. Ultrapassados esses tristes percalços, coube aos escravos, sob supervisão dos colonizadores, edificar as primeiras benfeitorias. E assim foi feito.

Para se perder nos prazeres dessa cidade espalhada pelo centro de Santa Catarina é necessário querer ouvir os tropeiros conduzindo as manadas de muares, os carros-de-bois carregados de charque, a vida transportada de lá para cá, o entreposto que sempre ficava para trás. Para se encontrar com Lages urge caminhar pelas avenidas, morar em suas casas (antigas, novas, imaginárias), desviar o olhar quando alguma ex-namorada passar no outro lado da rua, sorrir para o gato que dorme na janela, conviver com a chuva entranhada na alma e o olhar bocejante do mendigo – cabides onde penduramos nossas emoções e perdas.

Lages mudou muito nesses 247 anos de existência – menos a cor. A cidade é, e sempre foi, plúmbea. Contra o verde dos vastos pastos que a circundam, há o cinza. O céu, os paralelepípedos, o rosto desconfiado das pessoas: tudo parece fadado a ter essa cor melancólica, mistura de saudade com invenção, descompasso de quem ainda vai descobrir a utilidade dos mistérios.

Para se perder em Lages é fundamental ter calor no inverno e paciência durante o outono, é preciso saber que o verão dura uma fração (talvez umas duas horas, lá pela metade de janeiro) e que a primavera é tão linda quanto uma daquelas histórias contadas diante do fogão de lenha, relembrando os tempos de antigamente.

Sabores e aromas estão presentes em cada canto da cidade. Maçã, ameixa, pêra, pêssego, goiaba, gila, pero-figo, um mundo colorido e gostoso. E as “frutas de passarinho”? Figo, amora, uva, pitanga, butiá, são joão, araçá, guabiroba, uvaia. Houve um tempo em que o café-com-mistura era servido às quatro horas da tarde: pão feito em casa, bolos, cucas, rosquinhas de coalhada, sequilhos, broas de fubá, queijos, mel, nata, requeijão, “schimias” variadas, leite gordo, a xícara de café bem forte (torrado no pilão, no fundo de casa). Se tudo isso não bastasse, havia pinhão assado na chapa.

Para se perder em uma cidade é sempre bom ter o que lembrar (a melhor forma de manter aquecidos os afetos): sanduíches e crush (ou capilé) nos piqueniques no Guará, no Salto, na gruta de São Bom Jesus, passeios no Tanque, colheitas de macela no Morro Grande, as ruas sempre iguais no caminho diário até a escola. Um dia, sentado na soleira da casa grande, lá em Morrinhos, no interior da Coxilha Rica, um menino tentou entender a amplidão do horizonte, enquanto tomava “camargo” e comia um pedaço de pão – ao fundo, o capataz gritava com o gado. Depois, em outras circunstâncias, o menino cresceu, mudou e envolveu-se com os contrastes do mundo: a cidade como parte de seu existir. Para que isso acontecesse fez-se necessário encontrar a si mesmo nos confins do Santa Helena, na Brusque, no Coral, na Ferrovia, no Morro do Posto, no Batalhão, no Aeroporto Velho.

Para poder se perder em Lages é condição mínima ter saudades dos domingos de fartura: matinê no Tamoio ou no Marajoara (só tinha graça se fosse “farveste”!), Diamante Negro, Mentex, pirulitos Zorro, balas azedinha. Depois da sessão, comprar gibis.

Em outro capítulo dessa busca: a pedagogia do desaprender o que parece ser invisível aos olhos e ao paladar. Intermináveis oceanos de cerveja: Marrocos (I e II), Casa da Sopa, PX (o famoso “Bar do Alencar”), Pharaphernalia, Lennon’s (I e II), Maria Maria, Gato de Botas, 900 (I e II), Bolicho, Cisne Branco. Quem conseguirá apagar da memória a mesa n° 4 do Marrocos II, o Marroquinhos, onde a alegria era uma constante e as garrafas navegavam pelas mãos de Heitor (o célebre herói troiano que acumulava as funções de dono de bar, garçom e amigo)?

Para se perder em Lages: apreender as sutilezas que amarram o mundo rural e a ilusão urbana. A Rua Hercílio Luz é uma imensa planície que esconde a alma dos lageanos. Rua-síntese, quase tudo está lá, uma brincadeira a unir o sagrado com o profano, um tapete de variedades. Entre a igreja do Conventinho e o rio Carahá: hospital, mercado público, auto-escola, museu, farmácia, ótica, prédios, garagens, bares, banca de jogo do bicho, revendedores de automóveis, salão de beleza, prostíbulo. E as lojas? Roupas, calçados, produtos umbandistas,... têm de tudo!

Para se perder em Lages: em que gavetas da memória estão o Bazar Danúbio, as Lojas Hoepcke, o banco Inco, o Kanto Jovem das Lojas A Barateira, o Five O’Clock, o Café Ouro, A Sua Livraria e mil outros lugares, versos de um poema incrustado na pele?

Para se perder alguma coisa, necessário é tê-la possuído um dia. Então cabe mergulhar nos momentos de glórias e decadência de uma cidade que foi corroída por seus personagens flamejantes, por suas idiossincrasias muitas vezes incompreensíveis, pelas fortunas que se perderam entre pinheirais, carreiradas e mulheres bonitas. As profecias de são João Maria, as lendas da serpente do Tanque e do tesouro enterrado no morro do Juca Prudente encontram complemento nas histórias dos “irmãos” Canozzi, da menina Aline, do General Leandrinho e da “tia Consu”. Como ninguém é lageano impunemente, é necessário conhecer Nereu Goss, Rogério Castro, Licurgo Costa, Cesar Sartori, Nereu Ramos, Malinverni Filho, Tiuzico, Clênio Souza, Morô, Al Netto, Estevam Borges.

Para se perder em Lages é preciso ouvir o silêncio, se embriagar com a água e o vento. E sentir o coração da cidade pulsando dentro do nosso peito.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

MÚSICA AO ENTARDECER


No palco, em frente ao lago do Tanque, o som das cordas do violão alterou o ordenamento que rege o mundo.

Fim de tarde. Céu plúmbeo. A umidade aumentando a cada instante, ameaçando se transformar em garoa. Vento fraco, desses que − incapazes de produzirem algum estrago significativo − causam arrepios na superfície da água. O frio também queria estar em cena. Tanto que invadiu o palco sem fazer alarde, convidado inesperado. Quem estava agasalhado não se sentiu molestado. Aos outros, a súbita mudança de clima serviu de aviso sobre a forma com que o planalto acaricia a pele e os ossos de quem se deixa contaminar pela doce ilusão de que o verão está se aproximando.

As cores do mundo ficaram mais luminosas, grandiosas, quando som da gaita acrescentou um pouco mais de força à música − lembrando que a criatividade e a beleza gostam de namorar os timbres mais selvagens.

Depois, apareceu o outro violão. Um pouco mais de emoção. Modesto, menos ostensivo, voz sonora em segundo plano, acrescentou encanto ao que parecia estar próximo da perfeição.

Os três instrumentos em ritmo de festa. Uníssonos. Complementares. Abraçando o mundo com elegância e equilíbrio. Surpresas a cada acorde, sorte de quem estava ali a sonhar com o prazer, a se perder na fantasia sonora. Sedução e poesia desmanchando a vida. Vertigem e desatino, viagem sem destino ou fim.

O concerto se estendeu por cerca de hora e meia, talvez um pouco mais. Revezaram−se as canções em alegres combinações melódicas, ora líricas, ora complicadas, algumas vezes tempestuosas, outras mais calmas, todas harmoniosas. Os dois violões ponteando aqui e ali, a gaita despontando acolá, duelos sem vencedor, esplendor e enlevo, viver sem peso ou dor.

Quando tudo terminou, a escuridão tinha tomado conta de tudo.

Imersa no silêncio, a cidade percebe que um dos sinônimos da felicidade é a música.


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

OS ESPIÕES, de Luis Fernando Veríssimo

A frase inicial de uma narrativa é tudo – ou nada. O leitor, se gostar da frase ou se for motivado pelas questões que o início do texto desperta, dificilmente abandonará o livro – sejam 50 ou 800 páginas. Se a abertura for insípida ou tola, o livro será fechado rapidamente, condenado a acumular mofo e poeira pelo resto de seus dias, provavelmente em alguma caixa, depositada no fundo da garagem, ao lado de outros objetos que ninguém quer.

Considerando-se algum possível valor para essa tese, Os espiões, o último romance de Luis Fernando Veríssimo, está fadado a se tornar um best-seller. E isso quer dizer que não será surpresa se camelôs e donos de sebos começarem a vender cópias piratas, multiplicando o acesso do povo letrado à essa, na falta de melhor expressão, obra-prima. Além disso, como um pequeno acréscimo na mecânica comercial, há o risco de Paulo Coelho se fechar em copas, recusando doutos comentários sobre tão expressivo sucesso – inveja, pura inveja!, dirão os jornalistas culturais, pagos para comentar essa nova e importantíssima polêmica literária!

Os espiões começa assim: Formei-me em letras e na bebida procuro esquecer. Paráfrase escrachada de um verso de O ébrio, música de Vicente Celestino, a engraçadíssima declaração, além de revelar que o narrador está embebido em ressentimento profissional, também identifica o público a que se destina.

Depois de ler 142 páginas, o leitor se pergunta: o que sobra além da primeira frase? Pouco, muito pouco. Exemplo típico de narrativa que não consegue superar a primeira frase, Os espiões resiste ao senso crítico se escondendo atrás de uma daquelas fórmulas mágicas que caracterizam o romance policial de “grife” (Raymond Chandler, Dashiell Hammett). Como essa esperteza não possibilita o resultado esperado, em ritmo gourmet das letras, o autor temperou o texto com o que imagina ser o azeite extra-virgem do thriller modernoso (John le Carré, por exemplo). Como o texto ainda continuava insosso, o toque final, ou melhor, o toque que deveria ser “genial” está na salada que resulta das várias formas narrativas articuladas com lugares-comuns, frases coloquiais, diálogos televisivos e texto profissional.

Sobre esse último item, convém lembrar que Veríssimo é um escritor talentoso, que não poupa esforço criativo em seus textos. Mas..., desta vez, o resultado final está escorado em uma série de personagens caricatos (muitos aparecem e desaparecem sem muita explicação), que se movem de maneira insensata no meio de uma série de bobagens – e que não dizem nada ao leitor mais exigente, exceto que deve fechar o livro em qualquer página e ir fazer algo mais produtivo.

Veríssimo é um escritor datado, que escreve para a classe média média, quase envelhecida, e que ainda mostra pretensões em ascender aos paraísos do consumo capitalista. Pensando especificamente nos leitores dessa faixa etária e social, Luis Fernando costuma rechear os seus textos com citações superficiais, gotículas de “alta cultura”, momento mágico de cumplicidade com um leitor que (nesses tempos em que o Google e a Wikipedia achatam a cultura) abastece a sua ignorância “pesquisando” na Barsa ou no Tesouro da Juventude. Referências sobre Henry James, Sylvia Plath ou os mitos gregos fazem parte do arsenal de truques com que o ilusionista literário diverte a platéia. E assim, embriagado por imaginária cumplicidade intelectual, o leitor devora o texto rapidamente, sem perceber a manipulação, ou se sentindo “o rei da cocada preta” porque está entendendo “tudo”.

Os espiões é apenas mais um texto de entretenimento, cujo maior defeito está em se parecer com o que Veríssimo faz melhor: crônica. No meio da narrativa, o leitor é tomado pela sensação de dèjá vu, o retorno a algo que é familiar e que, por alguma razão inexplicável, não se consegue identificar com claridade. Talvez isso seja uma tradução da evidente frustração do Luis Fernando Veríssimo: a incapacidade para escrever um romance policial “sério”. Como se estivesse condenado ao sofrimento de Sísifo (carregar eternamente uma pedra morro acima), Veríssimo repete ad aeternum temas que ele desenvolveu anteriormente (O jardim do diabo, Clube dos anjos, Borges e os orangotangos, além de centenas de textos ligeiros, com ou sem o Ed Mort).

Além disso, como uma falha grosseira em um escritor que ganha o pão com as risadas de seus leitores, falta humor. Contrastado com o romance mais divertido lançado nos últimos anos, Pornopopéia, do Reinaldo Moraes, Os espiões não passa de tolice infanto-juvenil. Enquanto o texto de Reinaldo Moraes é iconoclasta, politicamente incorreto e agressivo, o texto escrito por Veríssimo é quase carola, como se flertar com fantasias amorosas, mitos de salvar a dama em perigo, resultasse em algo engraçado – esquecendo que outros humoristas (ou o próprio Veríssimo) trabalharam essas situações em outras oportunidades, e de uma forma mais interessante.

Os espiões atinge o seu ponto máximo de inconsistência quando, sem nenhuma explicação razoável, o narrador resolve cultivar uma inoportuna abstinência alcoólica – mostrando que “a sério” o mundo não tem graça!

A grande lição que surge ao final da leitura é fornecida por um dos inúmeros personagens de Os espiões, o professor Fortuna: (...) em vez de endeusar escritores, deveríamos louvar os milhões que resistem e não escrevem, e cuja grande contribuição à literatura universal são as folhas que deixam em branco.

Resumo da ópera: presentearei algum desafeto com o meu exemplar de Os espiões.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

CLUBE DE LEITURA JANE AUSTEN E A MÃO ESQUERDA DA ESCURIDÃO


Algum tempo atrás, re-vi o filme Clube de Leitura Jane Austen (The Jane Austen Book Club. Dir. Robin Swicord, 2007), baseado no romance de Karen Joy Fowler (texto que li trechos em espanhol, pois desconheço tradução ao português do Brasil).

O desdobramento das várias histórias relacionadas com um grupo de amigos reunidos em um clube de leitura ocorre de forma intensa, interessante. Unindo o entorno físico e psicológico das personagens com o modelo comportamental sugerido pelos romances de Jane Austen, o filme (apesar da superficialidade imposta pelo cinema comercial) propõe a literatura como instrumento de análise social. Uma das cenas é bastante significativa nesse aspecto. Diante da escolha entre o marido troglodita e o jovem amante, Prudy se pergunta: o que Jane Austen faria? A resposta, apesar de dolorosa, mostra que a sensatez é inimiga do ressentimento.

Por diversos motivos e circunstâncias, quando revi o filme, ainda não havia lido dois dos romances de Jane Austen: Mansfield Park e Persuasão. Então, os acrescentei à minha lista de "lições de casa" para 2011. Parte dessa tarefa já cumpri. Mansfield Park é sensacional, como todos os livros aparentemente água-com-açucar de Jane Austen. Por trás daquela suavidade de lago tranquilo, onde as mulheres fingem estar prontas para agarrar o bonitão mais próximo, há um oceano recheado de tubarões!

O problema de uma das edições brasileiras de Mansfield Park é de outra ordem: é um livro horrível, com um preço absurdo para uma edição tão descuidada. Além da tradução duvidosa (o que pode ser confirmado no ato, pois é edição bilíngue), o volume está cheio de erros gráficos, dezenas de "gatos" atrapalhando a leitura. As edições da Martin Claret e da L&PM são um pouco melhores.

Há um outro tipo de convite literário no filme Clube de Leitura Jane Austen: a ficção científica. Dois dos personagens do filme se envolvem em um relacionamento afetivo complicado. Em determinado momento, Grigg usa o argumento definitivo: como está lendo os livros que agradam a Jocelyn, insiste para que ela leia os livros que o agradam. Sugere, entre muitos títulos, A mão esquerda da escuridão, escrito por Ursula K. Le Guin.

Na adolescência, li muita ficção científica. Começando com Júlio Verne e Emílio Salgari (na famosa coleção terra­mar­e­ar), passando por Isaac Asimov e Arthur Clarke, terminei nas discussões sobre o autoritarismo político: 1984 (George Orwell) e Fahrenheit 451 (Ray Bradbury).

Com o surgimento de novos interesses, principalmente o realismo e a teoria literária, fui me desvencilhando de algumas fantasias. Inclusive aquelas relacionadas com a construção (real ou imaginária) de outros universos.

Logo após o término do filme, fui até a estante onde habitam as minhas cópias dos romances escritos por autores nascidos nos Estados Unidos. Rapidamente localizei o exemplar de A mão esquerda da escuridão, intocado, como se estivesse a me esperar: livro bonito, edição de 2008, capa branca, bom designe (para o título, para o nome da autora, para a ilustração que somente se percebe quando a luz incide adequadamente).

Nas primeiras páginas, a qualidade literária se destaca, a curiosidade invade o leitor, a vontade de mergulhar na leitura se impõe. Foi o que aconteceu comigo. O interesse na história de terráqueo Genly Ai, enviado da Federação Galáctica (Ekumen) ao planeta Gethen, se mantém pela constância do estranhamento, uma surpresa narrativa atrás da outra. Além disso, o tom descritivo (comum na ficção científica) não abusa da paciência do leitor e não há tramas paralelas ao enredo principal.

Outra questão também contribui para manter o interesse: o texto esta recoberto por leve tom erótico, muito discreto, quase indelével, a sussurrar no ouvido do leitor que discutir certas questões (apesar das negações do inconsciente) implica em construir um mundo aberto à diversidade, ao convívio com o estranho, com o Outro.

Fazia algum tempo que não obtinha tamanho prazer com leitura descompromissada com os afazeres profissionais.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

NÃO QUERO MAIS SABER DO REALISMO QUE NÃO É LIBERTAÇÃO


Apesar das tapeações contemporâneas e/ou dessa coisa amorfa que é o a-pós-o-moderno, o realismo ainda está vivo. Sim, o bom e velho realismo, com os seus melhores vícios e virtudes, ainda consegue enganar muita gente fabricando contextos, descrevendo em grandes detalhes da terra devastada, aplicando todas as suas forças em enredos cheios de ausências (sim, ausências de ternurinhas familiares, ausências de amores/dores, ausências de estímulo para aqueles que estão em conflitos, ausências de histórias que terminam em sucesso profissional), como que a dizer o que não diz, sabedor de que não pode estar onde jamais esteve, mas, como sempre, como é de costume entre criminosos, deixa pistas, provas esquecidas na local do crime, evidências de que algo não está a ocorrer com a adequada dinâmica.

Enfim, não mais é possível negar o óbvio: o realismo ainda está ditando moda nas passarelas brazucas (entre as múltiplas e siliconadas Fashions Weeks e as private partys em Paraty Beach, uma chusma de pedintes, todos na busca de um autógrafo redentor, prova inequívoca do eu estive lá).

Driblando as puxadas de tapete que a vida presenteia aos incautos e o esforço sobrenatural de alguns coveiros (que gozam – literalmente – ao manipular pás e enxadas do politicamente correto, do feminismo militante e dos livros de colorir prêt-à-porter), o gênero mais nocivo (há quem discorde, fazer o que?) da literatura brasileira conseguiu resistir bravamente ao seu destino histórico (a lata de lixo) e (feito uma fênix extemporânea ou um zumbi gótico) nunca deixou de induzir a crença de que nosso acesso ao real e à realidade somente se processa por meio de representações, narrativas e imagens, como afirma, catedrática, parecendo séria, Beatriz Jaguaribe.

Foi nos tempos em que Machado de Assis sonhava escrever com o mesmo estilo e qualidade dos ingleses e franceses que o realismo (auxiliado por seu primo enfermiço, o naturalismo) aportou em solo brasileiro, mala na mão, olhos cheios de esperança e a vontade de viver os novos tempos. Como um imigrante ingênuo, desses que acreditam na felicidade ou no Papai Noel, ele veio para ficar. Ficou. Fincou estandarte no Pico da Neblina, aproveitando o fog tropical e as chuvas que, pela graça divina de Tupã, são espargidas sobre a terra em que se plantando tudo dá. Fez mais: siderado pelas explosões de magnésio, posou para a fotografia que, logo depois, com moldura vagabunda, foi pendurada na parede da sala, ao lado do calendário com a imagem do sangrento Sagrado Coração de Jesus. Abençoado pelo sincretismo religioso e pela amarga, digo, doce constatação de que não existe pecado ao sul do Equador, o realismo-naturalismo foi desbravando território, engravidando nativas e fugindo da responsabilidade de prover os bastardinhos que foram nascendo ao largo (felizmente, muitas vezes estreito) caminho que leva ao prazer total, digo, tropical. Como sói acontecer em terras brasilis, a (ir)real Academia Brasileira de Letras o aceitou como manifestação legítima da literatura nacional.

Depois de algum tempo, por diversos motivos, nenhum particularmente importante, o realismo quase foi retirado de cena. Resistiu através de um de seus sucessores, o chamado realismo socialista, que era de uma chatice espetacular. Mesmo assim, ao longo da aventura, houveram picos de audiência, basta lembrar, entre tantos exemplos, o ciclo nordestino (em que a descrição emocional, fundamentada nas diferenças sociais, políticas e econômicas, fez o país chorar uma Foz do Iguaçu de culpa e sofrimento). Na mesma época, o menos amado dos jorges, quando não estava deitado na rede, vítima de alguma recaída de romantismo tardio (por exemplo, sonhando que era ele, Jorge, e não Nacif, quem estava dormindo com Gabriela), escreveu algumas narrativas interessantes (Cacau, Suor, Capitães da Areia).

O chamado realismo mágico, que é super mágico e pouco realista, fez menos sucesso. Enquanto o mundo era varrido pelo boom lat(r)ino-americano, no Brasil somente o Murilo Rubião e o José J. Veiga conseguiram extrair ouro desse filão. As outras tentativas foram pífias, escoradas no propósito de criar cortinas de fumaça, o velho esquema de fugir da responsabilidade na denúncia ou na sátira, por isso usaram e abusaram, se lambuzaram com metáforas, metonímias, eufemismos, elipses, fábulas e outras variações, o usual nessas circunstâncias, sabe como é que é, falar daquilo mas escrevendo o contrário, e todos foram infelizes para sempre.

Foi lá pelos anos 60 do século XX que o Rubem Fonseca (ironicamente, um egresso das forças policiais que oprimiram o país depois da quartelada de meia-quatro) forneceu um up grade no panorama. Talvez cansado da inércia daqueles que não gritavam ah... que preguiça! por preguiça, talvez para impor a presença concentrada de todas as ausências de que ainda hoje se ressente a literatura brasileira, talvez aproveitando o momento histórico para dar um golpe (mais um!) literário, Rubem Fonseca encontrou a fórmula mágica, garantia de sucesso imediato, milhares de exemplares vendidos em segundos, uma máquina de fazer dinheiro. Bastou fingir que a violência urbana era o seu Santo Graal, o tema maior de uma vida, a oportunidade de colocar o preto no branco, o branco no preto, a suruba racista/fascista/positivista que todos nós compartilhamos e negamos (pelo menos, em público). Centrado nas classes baixa ou média baixa (como que a dizer que os ricos estão imunes a esses desvios de comportamento) e mostrando as maravilhas dos aparelhos repressores do Estado (um eufemismo educado para o exercício diário da truculência da polícia, esse braço incansável da Lei!), Rubem Fonseca retrata, em contos e romances (em que se misturam o mais abjeto dos moralismos provincianos com espo[r]rádicas descrições gráficas de sexo), as anomalias humanas, as promiscuidades portáteis e os sado-masoquismos compensatórios (despidos de qualquer roupa ou análise sócio-política). Todos esses excelentes artigos de consumo passaram a ser servidos no sempre interessante embrulho da linguagem coloquial, cheia de palavrões, mediocridades e carências.

Para alguns “chutadores”, perdão, “especialistas”, essas cenas e diálogos (que antecipam um provável roteiro cinematográfico) das personagens de Rubem Fonseca apenas tornam público o que nós, os leitores, dizemos e sentimos diariamente na intimidade. Pura bobagem, baseada na conversa “pra-boi-dormir” de que a prosa precisa ser verossímil, crível, plausível, momento em que todos se reconhecem como seres humanos ou como personagens.

Comprovando mais uma epidemia da síndrome me engana que eu gosto, professores universitários, jornalistas, leitores e lacaios diversos se curvaram ao estupro intelectual, ignorando uma outra lição da Beatriz Jaguaribe: o paradoxo do realismo consiste em inventar ficções que parecem realidades.

Na mesma direção, e sempre guiados pela necessidade de integrar o país através da literatura, algumas almas bem-intencionadas, porém sem muito talento, usaram a receita de bolo fornecida por Rubem Fonseca e começaram a dar voz aos despossuídos, aos humildes, aos marginalizados pelo sistema (e, portanto, sem assistência ou proteção social), aquela coisa judaíco-cristã-ocidental da responsabilidade social com o sal da terra. O que ocorreu então foi uma epidemia de narrativas comprometidas com “a causa”, embora poucos soubessem determinar o que era “a causa” – e a sua legitimidade.

Em outras palavras: a mistura de ideais políticos de quinta categoria com ingenuidade literária resultou em um estrago monumental. Nos anos seguintes, a literatura nacional foi invadida por centenas, ou melhor, milhares de romances em que o histerismo semi-analfabeto faz parceria de sucesso com sangue e porrada na madrugada (nos versos imortais de Bernardo Vilhena). Além disso, essa literatura, se é que podemos chamá-la assim, conseguiu (de forma muito competente, é necessário observar e elogiar) amalgamar muitos sentimentos e ações nobres (desrespeito à vida, misoginia, homofobia, além de saudável culto aos carros e às armas). Freud explica.

Rubem Fonseca, eleito o santo protetor do realismo nacional, tornou-se um ponto de referência, o divisor de águas, o maior de todos, o fodão. E esses elogios sempre estão destacados nas orelhas dos livros, nas contracapas ou nas resenhas fáceis que as revistas semanais publicam para encantar os olhos dos leitores fáceis. Ou seja, a razão capitalista (que sempre está a espreita de uma oportunidade para faturar) aproveitou o momento favorável e garantiu uns trocados com um grupo de escritores da menor qualidade: Patrícia Melo, Paulo Lins, Ferréz, Luis Alfredo Garcia-Roza, Joaquim Nogueira, Nelson Motta, Jô Soares, Tony Bellotto (para citar os mais óbvios, aqueles que, de uma forma ou de outra, um pouco mais um pouco menos, prestam vassalagem, digo, tributo ao estilo comercial criado pelo Mestre).

Pois é, então ficaremos nesse cenário desgraçado (literal e literariamente: sem a menor graça), como se o mundo estivesse em crise ou às avessas, condenados a beber o veneno que o “mercado” fornece como se fosse remédio? NÃO! Não, senhor! Um punhado de escritores, dispensando a usual requisição em momentos de crise, isto é, o surgimento de um “salvador da pátria” (talvez um novo Pedro de Alcântara, nossa versão tragicômica de Dom Sebastião, aquele mesmo que desapareceu em Alcácer Quibir), está reagindo contra esses parasitas da literatura.

É possível (sem a menor sombra de arrependimento!) afirmar que ainda há vida inteligente no realismo brasileiro. Sim, temos escritores fantásticos e livros de boa qualidade! Entre alguns nomes e textos (há outros, muitos outros!) que, contemporaneamente, desafinam o coro dos contentes, seja porque trabalham com uma outra estética realista, seja porque se opõem a tudo que não seja libertação: Luiz Ruffato (Eles eram muitos cavalos), Francisco Dantas (Coivara da memória, Os desvalidos), Zulmira Ribeiro Tavares (O nome do bispo, Jóias de família), Ronaldo Correia de Brito (Faca, Livro dos homens, Galiléia), Milton Hatoum (Relato de um certo Oriente, Dois irmãos), Ivana Arruda Leite (Falo de mulher, Ao homem que não me quis), Bernardo Carvalho (Nove noites, Mongólia, O filho da mãe), Marçal Aquino (Faroestes, O amor e outros objetos pontiagudos), Nelson de Oliveira (Naquela época tínhamos um gato, A maldição do macho), João Anzanello Carrascoza (Duas tardes), Antonio Carlos Viana (O meio do mundo, Aberto está o inferno).



O bom leitor é aquele que lê além do que está posto diante de seu olhar. E o realismo precisa desses leitores para separar a “qualidade literária” (seja lá o que isto for!) dos livros de auto-ajuda, dos besta-selleres pasteurizados e do exercício das vaidades dos escritores medíocres.