Páginas

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

CINEMA ARGENTINO: ALEGRIA E TALENTO


Enquanto o cinema brasileiro corre para um lado e outro, feito barata tonta, com uma câmera na cabeça e nenhuma idéia na mão, o cinema argentino assombra o mundo com talento e engenhosidade. Lembrar que "los hermanos" ganharam o Oscar de melhor filme estrangeiro duas vezes (História Oficial. Dir. Luis Puenzo, 1985; El secreto de sus ojos. Dir. Juan Jose Campanella, 2009) somente valoriza os argumentos dos pessimistas – que desprezam com força e nojo as comédias fáceis, dirigidas e protagonizadas pelos canastrões que integram o elenco da Globo.

Outro fato: não temos, nunca tivemos, um Ricardo Darin - o maior e o mais importante ator do cinema latino-americano!

Enquanto o Brasil não conseguir um cinema plural, livre e com diversificação nas fontes de financiamento, não será possível sair do atoleiro. Atualmente, inexistem condições para o surgimento de outro Humberto Mauro ou Glauber Rocha.

Para quem duvidar do talento argentino, recomenda−se, entre tantos, dois filmes mais ou menos recentes.

O Homem do lado (El hombre de el lado. Dir. Mariano Cohn e Gastón Duprat, 2009) é uma comédia sombria, pendendo para o drama. Quase todo centrado nas figuras de Leonardo Kachanovsky (interpretado por Rafael Spregelburd) e Victor Chubello (interpretado por Daniel Aráoz), o filme retrata um dos grandes problemas contemporâneos: o vizinho.

Leonardo é designer de moveis, professor na universidade, adora musica instrumental de vanguarda, bons vinhos e mora em La Plata, na Casa Curutchet (o único trabalho de Le Corbusier na América Latina).

Victor é o oposto. Mora na casa ao lado. Grosseiro, intrometido, violento. E quer abrir uma janela em uma parede que, de certa forma, invadirá a privacidade da família de Leonardo. Além disso, incidirá na alteração inadequada da estética arquitetônica proposta por Le Corbusier.

Seguem−se conversações inúteis. Em todas Victor obtém vantagem, seja intimidando, seja forçando intimidades. Atitudes mais drásticas são tomadas, mas não resolvem o problema. A figura do vizinho passa a ser um contrapeso no delicado equilíbrio familiar.

O desfecho é cruel, revelando o quanto há de complexidade nos relacionamentos humanos. Nas histórias de mocinhos e bandido, ninguém é inocente.

Um conto chinês (Un conto chino. Dir. Sebastian Borensztein, 2011) inicia com uma imagem inusitada: uma vaca caindo do céu. Logo depois, vemos um chinês sendo assaltado por um taxista argentino. Roberto de Cesare (interpretado por Ricardo Darin) socorre a vítima. E só consegue se livrar de Jun Hio (interpretado por Ignacio Huang) no final do filme.
Roberto é o dono de uma casa de ferragens. Cultiva hábitos metódicos, como apagar as luzes do quarto exatamente às 23 horas ou contar os parafusos das caixas que vende. E fica furioso quando descobre que estão faltando um ou dois. A única coisa que destoa um pouco de sua rotina é o estranho hobby de colecionar notícias insólitas. Mas, mesmo assim, criou uma liturgia diária para ler os jornais e selecionar o material. Nada abala o seu dia−a−dia, nem mesmo o interesse de Mari, a irmã de um amigo.

Em uma cena emblemática, Mari comenta:

− Você é rabugento, eremita, sensível, bom e corajoso. Além disso, tem esse olhar que me mata.

E o que Roberto faz, diante dessa declaração de amor? Fica em silêncio, a remoer os pensamentos. A única coisa que consegue dizer, depois de vários segundos de silêncio, é:

− Você é muito gentil.

Sem sentimentos pelo outro, pode−se dizer. Jun Hio é quem altera toda essa desordem afetiva. Sem falar uma única palavra em espanhol, está procurando por um tio que não vê há muitos anos. Roberto, que não fala chinês, o acolhe e enlouquece com a presença do estranho. Quer se livrar da visita incômoda. Ao mesmo tempo, não consegue conviver com a culpa. É divertido ver o quando cada um dos personagens administra essa situação. Visitas à embaixada, passeios pelo bairro oriental, a ajuda de um tradutor (um motoboy do restaurante chinês). Todos esses elementos vão acrescentando camadas de humanidade ao desencontro afetivo e lingüístico.

Quando o parente de Jun Hio é encontrado, as relações entre os dois homens é de outra ordem. E é o presente de despedida de Jun (a pintura de uma vaca, na parede) que une as pontas desencontradas dessa aventura.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

MELANCOLIA, UM FILME DE LARS VON TRIER

Que os defensores dessa coisa amorfa que alguns críticos chamam de "cinema de arte" me perdoem: prazer é fundamental. Filme chato será eternamente filme chato, seja "artístico" ou "trash". Adaptando essa proposta para os dias de hoje, cada uma das partes da pavorosa e reacionária série Crepúsculo merecia ganhar uma dúzia de Palmas de Ouro do Festival de Cannes se o padrão de comparação fosse o "cult" Melancolia (Melancholia. Dir. Lars van Trier, 2011). Bocejos e vontade de desligar o DVD foram os efeitos mais suaves (e constantes) em um filme que conseguiu a proeza herética de transformar Kristen Dunst e Charlote Gainsbourg em mulheres feias.

O enredo da película é ridículo. A primeira parte (Justine) conta a história confusa de um casamento confuso. E que não se concretiza. O noivo e a noiva chegam atrasados, em uma limusine enorme. Parecem felizes. Só parecem. Despido o véu diáfano da fantasia, como diria o Conselheiro Acácio, as máscaras mostram as más caras, tão "reais" quando a quantidade de sentimentos ruins que logo em seguida são jogados na tela e, conseqüentemente, no expectador que teve a péssima idéia de assistir essa bobagem.

Além da visível dissintonia entre as irmãs Justine e Claire, o noivo parece figurante de pantomima. John, o cunhado de Justine, pagou todas as despesas da cerimônia e pressiona para que tudo se resolva em bom termo, como mandam as regras da civilidade social. Entre os demais integrantes da festa, o único que merece algum destaque é o pai da noiva, uma figura, e que chama todas as mulheres por um único nome, redução explicita da feminilidade, como se elas não tivessem identidade ou livre arbítrio.

Para arrematar o festival de clichês deprimentes, algumas cenas com câmera de mão acenam para uma fotografia modernosa, lembrança nostálgica do extinto e enterrado movimento Dogma 95 – e constantemente exumado por tolices de teatro filmado como Dogville (Dir. Lars van Trier, 2003).

Quando a câmera se fixa, o casamento desanda. E, enquanto foge do noivo e do patrão (que quer um slogan para uma campanha publicitária), a noiva − demonstrando todo o mal−estar que a reveste − faz sexo com outro homem. Nada demais. Apenas tédio. Ou um elemento tolo de um roteiro que beira o non−sense. Há pouca amarração entre as cenas. O desespero artificial pontua cada fotograma.

Depois de um pouco mais de uma hora, inicia a segunda parte (Claire) – que consegue ser mais deprimente. Justine está catatônica; Claire, histérica. Enquanto isso, John (interpretado por Kiefer Sutherland) brinca de astrônomo. Um planeta errante está se aproximando da Terra. Segundo cálculos matemáticos, não há perigo de colisão.

O final é apocalíptico – e previsível. Todas as almas desesperadas são destruídas pelo choque planetário. Ridículo. E chato.

Nos blockbusters catástrofes (Armageddon, O dia depois de amanhã, 2012, Guerra dos mundos, Independence day, A estrada, e mais uma centena de outras bobagens de igual quilate) essas fantasias são mais divertidas. E, de certa forma, esperançosas. Sempre sobra alguém na cena final para dar continuidade à saga. Lars Von Trier, patético, não concede redenção. Na sua ânsia de brincar de deus vingativo, quer é destruir o mundo. Provavelmente, o mundo que o obrigou a dirigir um filme tão chato.

Framboesas de Ouro (Razzie Awards) para Melancolia e Lars Von Trier.


(Kristen Dunst e Charlote Gainsbourg, belas e formosas, em uma sessão de entrevistas para promoção de Melancolia).


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

JEROME DAVID SALINGER

Todos nós, nos moldes daquela velha seção daquela velha revista, possuímos um tipo inesquecível. O meu era um escritor que não publicou uma única linha em muitos anos e que morava em Cornish, no interior de New Hampshire, no interior de Estados Unidos. Era. Porque, de acordo com o anúncio de seus filhos, ele faleceu no dia 28 de janeiro de 2010, aos 91 anos.

Jerome David Salinger ou J. D. Salinger, como era conhecido, publicou quatro volumes e ameaçou uma edição capa dura de Hapworth 16, 1924. Em gesto caritativo com a humanidade (que ele detestava amorosamente), resolveu permitir a edição de conto antigo, originalmente publicado na revista The New Yorker, em 1965. Escolheu uma editora pequena, quase de fundo de quintal, a Orchise Press, localizada em Alexandria, Virginia. Depois, por um desses tumultos que afligem os corações ofegantes, retirou a permissão.

O grande problema de Sonny (como era conhecido na juventude) era simples: ele odiava publicidade. Recluso, defendendo o direito de ser esquecido, ficava furioso quando via o seu nome emparedado nas páginas das revistas e dos jornais – outdoors da notoriedade de que sempre procurou fugir, barulho a constranger o silêncio que ele construiu nos últimos 55 anos de sua vida. Uma síntese para isso tudo poderia ser uma das frases pronunciada por Teddy (no conto homônino): Depois que eu sair por essa porta talvez eu só exista na mente das pessoas que me conhecem. Ou, em outra versão, digo, aversão a jornalistas, escritores, ensaístas, biógrafos e outros abelhudos, Salinger talvez ambicionasse uma vida similar a de Seymour Glass (See more glass?, pergunta a menininha em O dia ideal para os peixes−bananas), um cara complicado que, desprezando o suicídio lento que é o corpo se arrastando pela vida, gotas e mais gotas de sangue perfurando a pele a cada instante, prefere o encontro imediato com a morte.

Comprovando que a vida é diferente da ficção, o escritor viveu até os 91 anos e, nesse tempo, precisou esperar pelo fim de algumas batalhas. Ex−combatente da guerra de 1939−1945, Salinger sabia o valor dessas histórias narradas nas matinês das tardes de domingo, os carroções da caravana em chamas, cercados pelos índios, na hora H ouve−se o clarim proclamar a boa nova, na frente da cavalaria surge o herói, carne e osso, coração e mente, contradição e coerência, uma versão mitológicas do semi-deus, Holden Caulfield, um guri furioso com as injustiças do mundo e metido a filósofo nas horas vagas (ou seja, todas), e que é o protagonista de O Apanhador no Campo de Centeio (aquele livro de triste memória, que um sujeito muito confuso, Mark Chapman, carregava em uma das mãos, numa dessas manhãs muito malucas de Nova Iorque, quando pediu autógrafo ao John Lennon e, depois, meio assim de bobeira, como para não perder a viagem, em lugar de cantar alguma canção − I shot the Sheriff, de Bob Marley, por exemplo – resolveu, lentamente, mover um dedo e acionar o gatilho do revólver e ouvir e ver (ever, forever) o disparo, o sangue escorrendo pelo corpo do ídolo, a vida perdendo o jogo. Nada demais, só mais uma dessas histórias horríveis que decoram os programas de televisão, e que a gente torce para ser ficção e, claro, nunca são).

No meio dessas neuroses que constituem a tessitura do existir estava J. D. Salinger, tentando fugir de todas essas pequenas tragédias burguesas que atingem as pessoas através das horas e dos sonhos.

Apesar do barulho ao redor, ele sempre tentou permanecer em silêncio. Razões ele teve, basta lembrar dois episódios horríveis. Joyce Maynard, uma ex−namorada, publicou livro contando a história amorosa que eles viveram. A moça não escreveu elogios. Em outro livro, Margaret, uma de suas filhas, não poupou ressentimento em um desses desabafos cruéis contra o pai ausente, pouco amoroso.

Além disso, há o episódio do incêndio. Em 1993, parte de sua casa foi destruída. Enquanto ele acompanhava o trabalho dos bombeiros, talvez chorando pelos inúmeros manuscritos que talvez foram devorados pelas chamas, dezenas de jornalistas lhe faziam perguntas estúpidas sobre isso e aquilo. Ele se controlou para não ver a cor do sangue daqueles idiotas movidos a hambúrguer e coca−cola. Será que não conseguiam ver a dor que estava estraçalhando a alma do velho escritor?

Adianta alguma coisa ter sentimentos? Sei lá! O fato é que nada incomoda mais o mundo que um homem que prefere ouvir, sozinho, o barulho de apenas uma mão aplaudindo, o eterno "koan" ecoando na mente daqueles que nunca souberam entender o que ele estava pensando e por isso mesmo fizeram acampamento em frente de seus livros, de sua casa, de sua família. Urubus sentindo a carniça, acenderam fogueiras em homenagem aos deuses de barro da literatura. Esforço em vão. Invejosos do seu talento e não podendo escrever tão bem, tão limpidamente quanto ele, o perturbaram e inventaram coisas que ele não fez e que, verdadeiramente, nem importantes eram. Por essas e outras, de vez em quando aparece um (ou mil, é a mesma coisa) desses universitários chatos que − na falta do que fazer − relacionaram Salinger com ícones da mídia, Elvis Presley, Marlon Brando, Thomas Pynchon. Houve comparações com Don DeLillo, embora esse seja de outra estirpe, e também um tímido, e parece até sacanagem, um dos romances de DeLillo, Mao II, é baseado em Salinger – o suficiente para mostrar que o mundo é cruel e quer devorar tudo aquilo que não consegue entender ou corromper.

Nenhuma novidade. A vida adora pregar peças em seus filhos, algumas sem a menor graça. A questão é que – diante dessas histórias – algumas pessoas passam a acreditar na própria genialidade e começaram a criar fantasias e tolices e nem sequer perceberam que o ponto fulcral é outro.

Outro? Sim, outro. Qual? Difícil dizer. Talvez nem Salinger soubesse. De qualquer forma, em determinado momento, ele deu um basta nesse conto de fadas que é ficar distribuindo sorrisos protocolares ou freqüentar a mediocridade dos saraus literários, explicitando a hipocrisia social e essas coisas medonhas do elogio mútuo, "Você é ótimo", "Você também", a farsa do talento escondida no reino da mentira.

Solitário em seu descompasso, Salinger preferiu se recolher (encolher), fornecer alguma tranqüilidade para os dias que lhe restavam sobre a Terra, essas sutilezas de quem já viu tudo e não gostou das imagens. Claro que, nesses tempos de fúria narcisista, fica difícil entender aquele que decide esconder o rosto e que, a sua maneira, tem procurado ser contra toda essa lengalenga tipo David Copperfield − embora seja necessário lembrar que foi uma escolha, a sua escolha.

Por outro lado, a publicação (perdão, a não publicação) de Hapworth 16, 1924 está longe dessas histórias (feitas exclusivamente para vender jornais e revistas) de que Salinger cansou do ostracismo e resolveu dar um alô cheio de saudades para os bobos que adoram a sua literatura. Não há motivos para perguntar por que ele resolveu sair da toca depois de 34 anos sem publicar. Em 1974, ele declarou ao New York Times: Há uma paz maravilhosa em não publicar. É pacífico. Publicar significa uma horrível invasão de minha privacidade. Gosto de escrever. Adoro escrever. Mas escrevo apenas para mim e para meu próprio prazer. Enfim, um escritor vive de escrever ou daquilo que escreveu. E publica quando quer, porque quer. Um livro é um livro é um livro, letras e mais letras descrevendo os sonhos que foram pendurados na página, emoção em forma de poesia, e mesmo quando alguém diz que é prosa, prosa não há, o que há é erro de interpretação, tudo é verso, um único verso, universo, enorme poema, declaração de amor, ilusões que vão sendo reunidas – seja para o escritor, seja para o leitor – para, quem sabe, formar uma biblioteca muito especial, aquela que nos retrata fielmente, mesmo que seja apenas em ficção. Ou, como escreveu Virgílio, em outro contexto, mas que tem a ver, tem um haver, com este: Navegar é preciso. Necessário e exato, ler Salinger é uma viagem, "a" viagem.


(Versões pré−históricas deste texto foram publicadas em vários jornais, em diferentes circunstâncias. Conservei a essência, mas mudei a forma. Espero não ter cometido estragos irrecuperáveis.)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

SÓ GAROTOS


Na longa e esburacada estrada que liga o desassossego à loucura, o livro de memórias de Patti Smith, Só garotos (Just kids), é parada obrigatória. Basta estacionar na vaga destinada aos curiosos e Un Chant d’Amour será encenado imediatamente. Coisa fina. Dessas que ensinam que muitas vezes a contradição é o caminho mais claro para a verdade. Embora − como é fácil de comprovar − ninguém saiba exatamente o que deve ser essa tal de "verdade".

A história da artista plástica − depois, cantora − Patti Smith com o artista plástico − depois, fotógrafo − Robert Mapplethorpe não foi constituída por brincadeiras de criança. Barra pesada. Sexo, drogas e rock and roll, como manda o manual das contravenções. Afinal, a juventude na beira do abismo − protegida pelos espíritos de Arthur Rimbaud e William Blake – costuma escolher qual é o seu medo favorito: cair ou pular.

Eles eram quase crianças quando se conheceram, namoraram um pouco e dividiram a vida como se fosse dádiva divina. Diversão não faltou. Houve excesso de lágrimas, fome nos momentos mais difíceis, alegria descontrolada nos melhores períodos. Muita droga e álcool. Além disso, independente das preferências, bastante sexo. Entre eles e com outras pessoas.

Com uma linguagem contida, dessas que ficam devendo os detalhes mais sórdidos, Patti Smith preferi contar alguns dos principais acontecimentos na vida do casal de forma poética. Evidentemente, como compete a quem controla a voz narrativa, usou constante e continuamente das elipses. Esse recurso não compromete o ordenamento do relato, embora contribua para deixar sem preencher algumas lacunas importantes.

O que Patti Smith não omitiu foram algumas descrições pitorescas sobre o período em que, na companhia de Robert, morou no lendário Hotel Chelsea – toda a história da contracultura nova-iorquina, em algum momento, esteve hospedada naquele local. Também não economizou detalhes sobre como e porque migrou das artes plásticas para a poesia e depois para a música.

Em relação a Robert, fez diversos comentários sobre alguns de seus tormentos de identidade, inclusive a fixação no sadomasoquismo homossexual. Foi com a ajuda de Samuel Jones Wagstaff Júnior (25 anos mais velho), provavelmente o mais importante dos amantes de Robert, que a carreira de fotógrafo se tornou conhecida. Ao mesmo tempo, as exposições dessas fotos produziram muitos escândalos – que Patti Smith não menciona, pois o seu depoimento não ambiciona a polêmica ou a discussão ideológica sobre alguns conceitos conservadores de arte.

Allen Ginsberg e Patty Smith
Nomes de celebridades escorrem limpidamente pelo leito do rio narrativo: Bob Dylan, Jimi Hendrix, Sam Sheppard. Andy Warhol, Janis Joplin, Peggy Guggenheim, Allen Ginsberg, Gregory Corso e milhares de outros menos cotados na bolsa de valores da cultura pop.

Nas últimas páginas, Patti redige uma espécie de elegia: a morte de Robert. Não são paginas alegres, a Aids corroendo aquele que um dia fora um homem bonito e que, naquele momento, estava estirado em um leito de hospital.


TRECHO ESCOLHIDO 


Eu estava dormindo quando ele morreu. Telefonei ao hospital para dar boa−noite outra vez, mas ele já estava embalado, sob camadas de morfina. Segurei o telefone e fiquei ouvindo sua respiração ofegante, sabendo que nunca mais o veria de novo. 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

UM SONHO DE AMOR


Os filmes italianos sobre os conflitos familiares são imbatíveis. Rocco e seus irmãos (Rocco i suoi fratelli. Dir. Luchino Visconti, 1960), Teorema (Teorema. Dir. Pier Paolo Pasolini, 1968), Feios, Sujos e Malvados (Brutti, Sporchi e Cattivi. Dir. Ettore Scola, 1976), La luna (La luna. Dir. Bernardo Bertolucci, 1979), Parente é serpente (Parenti serpenti. Dir. Mario Monicelli, 1992) e O quarto do filho (La stanza del figlio. Dir. Nanni Moretti, 2001) são exemplos de um cinema que nunca teve medo de transitar entre temas tão difíceis como a fraternidade, as relações entre os pais e os filhos, a perda, a velhice.

O belíssimo Um sonho de amor (Io sono l’amore. Dir. Luca Guadagnino, 2009) é um filme marcado pela influência dos clássicos. A forma sensível com que a narrativa se concentra na implosão familiar poderia ter sido elaborada por Vittorio de Sica ou Michelangelo Antonioni ou Federico Fellini. Cada um desses diretores, é claro, acrescentaria um olhar pessoal, um enquadramento único, mas nenhum deles ignoraria o que a narrativa tem de singular: o mundo italiano.

O enredo é construído com paciência. Soma de detalhes. Um daqueles momentos em que o cinema flerta – amorosamente – com a lentidão, com os sentimentos mais íntimos, com a serenidade. Durante quase uma hora quase nada acontece. A câmera, sem pressa, procura revelar ao espectador que conflito está germinando, mas também procura mostrar o quanto será difícil identificar o momento em que irromperá.

Quando o patriarca da família Recchi decide se aposentar, delega ao filho, Tancredi, e a um dos netos, Edoardo (interpretado por Flávio Parenti), a responsabilidade pelos negócios familiares. Em tempos de crise econômica, faz−se necessário tentar driblar as diversas formas de pressão do mercado internacional. Os conceitos mais idealistas são arremessados na lata de lixo. Edoardo, que tem noções muito claras de justiça social, não concorda com um sistema econômico que dá mais valor ao dinheiro do que ao bem−estar dos empregados.

Nesse momento de transição social, Edoardo se torna amigo do jovem chef de cuisine Antonio Biscaglia (interpretado por Edoardo Gabbriellini). Embora seja um personagem que vive marginalmente aos dramas da família Recchi, Antonio, em determinado momento, se transforma em uma reencarnação do anjo da anunciação. E, desta forma abrupta, rompe com o muro de contenção que garante a estabilidade narrativa.

Emma (interpretada por Tilda Swinton) é uma imigrante russa, mãe de Edoardo, Gianluca e Elizabetta, os três filhos de Tancredi, e encarna o estereotipo da esposa passiva e insatisfeita emocionalmente.

Essa síntese parece igual à de dezenas de outros filmes. Não é. Primeiro porque a carpintaria cinematográfica está expressa em um andamento muito diferente daquele que é proposto pelo cinema comercial. Segundo, porque Um sonho de amor é um filme admiravelmente erótico. Cada cena é a "essência do sabor", um elemento do jogo amoroso. As refeições, preparadas por Antonio, simbolizam as preliminares, aquele momento sublime que antecede ao sexo. É durante as primeiras carícias, quando os corpos vão descobrindo um ao outro, percebendo texturas e sabores, que a excitação alcança o seu degrau mais alto. Nesse momento mágico, o desejo se bifurca entre o êxtase resultante da união dos corpos ou a frustração. Ou uma coisa ou outra. Não há meio termo.

A conquista amorosa se efetiva em uma refeição. Emma, na companhia da sogra, Rori, e de Eva, a noiva de Edoardo, vai ao restaurante em que Antonio trabalha. Ele prepara pratos especiais para cada uma delas. Para Emma, camarões com ratatouille e molho agridoce. A ligação entre o prazer sexual e o prazer gastronômico se efetiva no momento em que o garfo transporta a comida até a boca. A porta de entrada para o prazer sexual é rompida pela excitação, pela possibilidade da entrega. No encontro entre a mulher e o amante, as tentações mais perversas – e, inevitavelmente, as mais deliciosas – estão metaforicamente simbolizadas pelas cores que compõem a comida, pelo formato dos camarões, pelo sabor que embriaga o paladar, pelo enquadramento fotográfico: são sinais de que o orgasmo se aproxima, atingindo com furor a personagem e o espectador. É uma cena emblemática. Extremamente excitante. E que é interrompida abruptamente, como convém ao retratar o proibido. O interdito se pronuncia mais alto, calando qualquer forma de contestação.

O destino de Emma não pode mais ser corrigido. A frustração sexual precisa ser anulada. A libido exige outra fonte alimentar. E isso acontece um pouco mais tarde. Mas, em lugar de se sentir saciada, Emma quer mais. Muito mais. É o corpo sexual que passa a estabelecer as regras do jogo de cartas marcadas. Emma se entrega – apaixonadamente. Sem medir as conseqüências. Em cenas de grandiosa plasticidade, relacionando o ato amoroso com flores e frutos, com as forças da natureza, nada é excesso, apenas bom gosto.

O que Emma não percebe é que a traição amorosa não suporta a honestidade, não admite que alguém reclame.

Em um jantar na mansão Recchi, Edoardo percebe a traição da mãe. E sem saber se a dor que o atinge é provocada pela quebra do amor materno ou pela traição da mãe com o amigo, entra em conflito. Sintomaticamente, como que a religar o presente italiano com o passado russo da mãe (que Edoardo adora), na hora da crise, mãe e filho discutem em russo − não em italiano. O calor da paixão está ligado às estepes, à necessidade de sobreviver ao gelo siberiano, não à serenidade dos vinhedos ou das praias do Adriático.

O resto do filme é apoteótico e previsível. A contenção, a leveza, a paciência do início, tudo o que havia sido construído lentamente, naufraga com o desaparecimento da união familiar. Com rapidez, com furor, o mundo ordenado da família Recchi desmorona. Nada sobra − exceto desespero, perda e luto.


P.S: Também está disponível em DVD outro filme sobre gastronomia: Receitas de amor (Love’s kitchen. Dir. James Hacking, 2011). É uma historinha leve, sem muita substância. Na melhor das hipóteses, uma espécie de conto de fadas ambientado no interior da Inglaterra.

Chef talentoso perde a esposa em um acidente de trânsito e entra em depressão. A vida de todos os envolvidos muda de figura quando ele compra um pub em uma vila do interior da Inglaterra e o transforma em um restaurante acima da média. Além da participação especial do Super chef Gordon Ransey, não se deve desprezar o charme e a graça de Claire Forlani. No mais, um saco de pipocas de micro−ondas e um bom sofá serão o suficiente para enfrentar esse festival de lugares−comuns e uma fotografia culinária bastante apetitosa.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A HISTÓRIA INCERTA DOS CINCO REIS MAGROS (versão 2)

−Três reis magros?

A voz enrolada de Antenor só servia para confirmar o óbvio: estava na "maior água". Bêbado como um gambá, embora ninguém tenha certeza de que os gambás gostam de entornar um monte de cerveja e incontáveis "dois−dedinhos" (o mínimo e o polegar abertos no máximo!) de uma amarelinha especial, puro artesanato, modelo exportação, made in Luiz Alves, lá no interior de Santa Catarina. O fato é que Antenor gostava. De uns tragos. Muitos! A vida como transfusão de delírios, o contentamento é a prova dos nove, dos dez e, se bobear, dos onze, time de futebol, foi feito para dar espetáculo, qualquer alternativa significa perda de tempo.

− Eu disse magros? Hic! Os caras não eram reis ou magros, hic!, no máximo viajantes pelo deserto, nômades, sei lá, nunca consegui entender o que acontece com aquela gente.

Eduardo, o compositor oficial da escola de samba do bairro estava tentando explicar, sem muito sucesso, para alguns amigos a idéia que estava desenvolvendo para o próximo carnaval. Interrompido por Antenor, ficou furioso. Com um tom de voz nervoso fez a pior pergunta possível naquela situação:

− Desde quanto você entende desse assunto?

− Eu? Hic! Eu sei tudo! Tudo!

E, para espanto geral, se aproximou do grupo, puxou uma cadeira de metal, dessas que são propaganda de cerveja, pediu para o dono do boteco outra dose "daquela que matou o guarda", e começou a contar a sua versão da história.

− No princípio era, o que era mesmo?, ah, sim, era o verbo, hic, e a verba, que sem algum dindim num dá pra continuar a brincadeira, dez por cento é o de praxe, pode perguntar pra qualquer um, esse é o país da propina, difícil discordar. Mas, perdão, estou indo na outra direção, hic, o que importa aqui é o verbo e o verbo se fez noite de lua cheia, um gato preto cruzou a estrada quando aquele bando de amigos, cinco, entendeu?, cinco, esqueça essa história de trindade ou tridente, isso é lenda, daquelas que algum assessor de imprensa costuma plantar na imprensa livre e independente que costuma vender a alma por algum anúncio de meia página. Eram cinco e eram gordos, gordíssimos, íssimos, íssimos, mas, como sempre acontece nessas paradinhas, eram gentes finas, finérrimas, érrimas, érrimas! Eles saíram de uma daquelas famosas tendas no meio do deserto, sabe?, uma daquelas, luzinha vermelha e tudo. Cara, foi uma festa bárbara, Atila, o Huno, provavelmente se multiplicaria em dois, três, quatro, sei lá quantos, depois de uma noitada daquelas. Hic! O mínimo que rolou foi o super−strip−tease de Sherazade, que deu o bolo no sultão. Naquela noite a gatinha não estava com vontade de ficar sussurrando fábulas bobas no ouvido de um velho senil.Hic! Preferiu construir fantasias eróticas na cabeça dos freqüentadores daquele
antro. Corpaço! Como se viu depois da dança dos sete véus, quando desvendou até a alma, uma loucura! Espetáculo do ano! No mínimo! Depois, duvido que vocês adivinhem o que aconteceu, essa vou contar com a boca cheia d’água, quero um copo de cerveja, isso, assim mesmo, colarinho, ah, delícia, delícia, quando morrer quero passar o resto da eternidade dentro de uma cervejaria, já imaginaram? Tá certo, voltar ao que interessa. Vou. Pô, cara, Mary Madelane era afamada nas sutilezas do negócio, alegrava corações (ou equivalentes) e esvaziava bolsos (ou equivalentes) e às vezes fazia ponto naquele oásis, os beduínos assanhados com aquele material de primeira, hic, que a moça não descuidava da forma física, banquete pra quinhentos talheres e algumas centenas de dinheiros (no mínimo), o prazer de ter prazer custa caro e esse é barato. Impossível não querer provar daquela cachaça! Pois bem, não vamos muito longe nessa lengalenga, to vendo que tem gente irritada, virgem santíssima, desmanchem essa cara feia! Como eu estava contando, hic, a turba, digo, a turma saiu da tenda, logo depois do show da pop star Salomé, que cantou uma seleção dos seus últimos sucessos, inclusive o clássico inesquecível "Quero brincar com a cabeça de João Batista". Isso foi lá pelas cinco da matina, hic, se é que podemos confiar no urro matinal do camelo−despertador. Claro, o quinteto já tava pra lá de Marrakesh (uma grande cidade, se me permitem a observação), e estava vendo as coisas meio assim em duplicata, tá me entendendo?, tudo multicolorido, mor festerê. Alegria, alegria. E não adianta me olhar com essa cara de incrédulo, como se eu estivesse a contar um novo samba do crioulo doido, hic, viu a sutileza, cri−ou−lo, a porra da norma culta, a inculta e bela também gosta de carinhos, chamegos, cafunés e outros parangolés, tá ligado?Onde é que eu tava mesmo?
Na saída da zona, hic, zona do agrião, um silêncio inconveniente atravessou a madrugada, seguido do choro de uma criança. Todo mundo olhou na direção da estrela do Oriente. Belchior, que vários séculos depois será conhecido como um grande cantor nordestino, era quem estava em melhores (ou piores) condições para avaliar a situação. Por essas e outras, hic, foi nomeado embaixador plenipotenciário. O idiota ali, com aquela cara de sonso, não acreditou que eu pudesse falar ple−ni−po−ten−ci−á−ri−o. Acha que bêbado é burro, o burro. Embaixador plenipotenciário. Foi lá ver o que estava acontecendo. No meio do caminho encontrou o grande campeão do rali Paris−Dakar, Frederick Ali−Babá, que estava combinar uma pequena transação afetivo−sexual com Savannah, bela garota!, bela garota!, depois desses treinos se transformou em grande atriz do cinema pornô, dessas que freqüentam as manchetes das revistas Rostos e Faces. Os amigos dividiram uma garrafa de hidromel, apalparam a mercadoria (que soltou gritinhos histéricos!) e se separaram. Enquanto entoava um mantra contra o medo, o nosso anti−herói se aproximou da estrebaria e espiou lá pra dentro, esperando encontrar as piores coisas e tudo o que viu foi uma criança deitada na anjedoura, digo, manjedoura.Também viu várias pessoas e alguns animais (ou será que foi o contrário?)que estavam se aquecendo ao redor de uma pequena fogueira.Foi recebido por diversos
e variados gritos de entusiasmo: Paz e amor, bicho!, Qualéquiera, bróder?, Chega mais!... Como, naquela tchurma, corria de mão−em−mão um vinho maneiro, hic, não houve como resistir, um gole é sempre um gole e quem há−de resistir às tentações da sede? E assim como quem não quer nada, pintou um lance legal, a gente tá prisso ai memo, tá sabendo, mermão? Pois é, enquanto o resto do pessoal ficou a esperar por novas que não vieram, novas ou velhas. Melquiades, que era de pavio curto, foi lá ver o que estava acontecendo. Acompanhado de Mohamed, que estava vestindo uma camiseta de futebol, provavelmente a do Ibis, encontrou o desaparecido dormindo em decúbito dorsal, vestindo organdi azul. Hic! Viadagem pouca é bobagem, dizia minha saudosa avó, que o Senhor a tenha ao seu lado, hallelluiah! Epa, acabei embolando o meio−de−campo, o jogo é outro, goleadas da seleção são peças de ficção, vamos voltar ao que deixamos para trás, apaga essa história de organdi azul e laços de fita cor−de−rosa, detalhes do que acontece entre as quatro paredes de motel vagabundo não interessam para essa crônica dos meus, teus, nossos equívocos. Belchior estava lá, alegre e faceiro, tomando uma taça de Chateau Rothschild, safra nobre, numa fina taça de cristal fino, italiano, lapidado, cantarolando o seu medo de avião. Hic! Por isso mesmo é que quase foi lapidado, o tijolo passou raspando, uns cinco milímetros da orelha esquerda, a big shot, ou melhor, head shot, como dizia o menino, campeão de counter strike, filho do coronel estadunidense, especialista em insegurança nacional e que ancorou em Pindorama,hic, sutilezas do final dos anos 60,
hic, repressão também é cultura, hic, manjou o potencial do potentado? Não sei não, acho que o cara devia se inscrever em um desses concursos institucionais de tiro ao marginal, ganhava fácil the first prize, não tenho duvidas. E, se corresse algum por fora, sabe?, uma gorgetinha, quem sabe salvasse um pouco das nossas, perdão, das minhas dívidas, hic. Pô, cara, tô de garganta seca, desce mais uma gelada, que essa conversa está muito quente e, pô, preciso de combustível para continuar nessa estrada. Viver é perigoso, já anunciava um personagem do velho Guima, cês tão lembrado? Tá certo, o incerto é lembrar dessas coisas! E, por falar em lembranças, onde é que estava na historia dos gordos? Os cinco reis gordos. Ho, ho, ho! Hic, hic, hic! Ah, sim, o tijolaço, another brick in the wall. Gato que levou tijolada não dorme perto de olaria. Pois é, seu Mané, o Belchior havia se enturmado, uma odalisca aqui, uma musiquinha ali, bandejas de quibes e esfihas sendo servidas para os convivas, e como já estava meio chumbado, hic, ou melhor, hip−hip−hurra!, foi ficando pelos cantos do recinto, mamando o seu alcoólico suquinho de uva, sem lembrar daqueles que haviam ficado a esperar por alvíssaras. Baita irresponsabilidade, concordo. Só voltou ao mundo real quando sentiu o tijolo raspando a orelhinha que mamãe (a dele!) beijos e passou talquinho. Na hora que entendeu que o que estava acontecendo não era nenhum afago amoroso, sentiu frio na barriga, aquela sensação só possível em quem chega atrasado ao cinema, o filme já começou e é preciso um dez minutos para tomar pé dos acontecimentos narrados na tela. Entre uma coisa e outra, Melquiades encontrou um velho conhecido, o ceguinho Aderaldo, célebre cantador da famosa banda de punk rock Philatu’s Guilt. Trocaram figurinhas e fofocas. Hic.
Mais fofocas que figurinhas, if you understand me? Hic! Saíram coisas do balacobaco, podes crê!, inclusive as últimas da corte de Herodes, o Patético Antipático, que agora estava imerso em medo pânico de que as profecias de Nostradamus se cumprissem. Como o final do mundo ainda vai demorar, houve alguma irregularidade na licitação, hic, e eles não estavam com pressa, o melhor caminho para a felicidade foi chamar o resto da cambada, estava quase iniciando outra rodada de tragos e Zorba, a cueca, ia fazer uma performance artística. Delírios espartanos, o seu último show de ballet estava bombando na internet, milhares de acessos ao incrível talento desse grego falsificado, porém autêntico, como mandam as regras da globalização capitalista. Happy hour às seis da manhã, vê se pode? Pode e phode. E não ligue, pois si non é vero, é bene trovatto. O desconto fica por conta dessas bossas de fusos horários, hábitos culturais e a vontade incansável, insaciável de acabar com o gosto de guarda−chuva que fica na boca depois de uma noite de tragos, tragada como se fosse um montecristo ou uma dose de courvoisier, depois de uma sessão intima de suores e gemidos. De qualquer forma, a desumanidade está três doses abaixo do normal eo motivo daquela reunião social era o nascimento de
uma criança,que parecia estar gostando do agito, havia parado de chorar e até acenava os bracinhos, como se quisesse sair dançando, pois é, naquela hora a criança devia estar dormindo, felizmente o Conselho Tutelar estava tutelando outras coisas mais importantes, a criança estava acordada, talvez pela algazarra, talvez por não ter nada melhor a fazer, a roda gigante e o balanço estão estragados. Nesse momento os cinco bêbados, hic, êta, essa cervejinha é boa pra afinar o verbo e a língua, eu disse cinco bêbados? Hic! Errei. Cinco gordos. Cara, só de pensar em transportar aqueles caras os dromedários estavam pedindo aposentadoria, sem se importar se o INSS exige comprovação de tempo de serviço! Os cinco gordos ao sentirem o cheiro de churrasco no ar, alguns pombos e o filho de Isaac estavam sendo imolados em augúrio ao parto bem sucedido, resolveram fazer algumas oferendas ao rebento que havia rebentado naquele lugarejo ermo. Belchior entregou um CD com os seus maiores sucessos. Melquiades, uma cópia pirata de algum jogo de computador, desses em que matar se transforma em sinônimo de sucesso. Ananias entregou uma bandeira da Palestina, lembrando que um irmão não deve oprimir o outro. François, que ainda não havia entrado nessa história,
entrou de forma triunfante e propôs mais um brinde, dessa vez com cachaça, mas, infelizmente a mente humana é uma caixinha de surpresas e não foi dessa vez que recebeu o Oscar. Retirou−se constrangido. Antes, entregou aos pais do menino uma caixinha de cobre com enfeites de jade. Recomendou que somente fosse aberta quando o menino atingisse a maioridade (duas semanas mais tarde, quando todos foram viver na Galiléia, a caixa desapareceu e o mistério de seu conteúdo perdura até hoje). Findo o cerimonial, o sol rompeu lá fora, conclamando outros excessos. Como havia acabado o estoque de energéticos, a sede era inesgotável, a solução foi chamar vários taxis e partir para Jerusalém, onde a festa continuou por mil e uma noites.




(Estou republicando esse texto, por diversos motivos. O mais fácil é a data. Embora nada tenha a ver, tem com o haver tudo com esse nada. Depois, fiz várias mudanças, repaginei o texto, talvez tenha ficado pior, a vida é assim mesmo, uma fieira de equívocos. E quem está na chuva corre o risco de ficar com cara de bobo. Tomara que seja esse o caso!)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

MÁQUINA DE PINBALL


Quem é que leu a novela Máquina de Pinball, de Clarah Averbuck? Você? Apesar das possibilidades de cometer algum tipo de engano, a bola de cristal está no conserto, não é difícil fazer previsão. Na república do bananão, onde a canalha se orgulha do que não leu, os índices de audiência são ridículos e arrisco palpite que quase ninguém saboreou desse néctar. Nenhum esforço desumano, somente 72 páginas. Nitroglicerina pura. Em alguns momentos, o livrinho imita o sentido sem sentido daqueles carinhas sem carinho que enlouqueciam on the road, rota 66, praias da Califórnia, fronteiras com o México, novas formas de alcançar os paraísos artificiais que acenam alegremente daqui e dali com bandeirinhas de siga em frente, os semáforos do prazer liberando o tráfego, digo, o tráfico. Em outras ocasiões, o nariz empinado, blasé, de quem escorregou pelo tobogã europeu na direção do delírio, algo entre cool, pretensioso e equivocado, com algumas coisas legais e outras de dar pena. A educação refinada e o refinado desprezo pela working class. As chuvosas e geladas ilhas britânicas. O país da rainha velha e perfumada. Nenhum desprazer consegue conter o prazer de ter prazer.

Usei dos benefícios da Internet, Estante Virtual, nem lembro mais quanto precisei desembolsar por uma cópia que, francamente, já teve dias melhores, ou melhor, um dono menos cuidadoso. Agora protegido de maus−tratos, ao lado de outros livros, o exemplar acusa não ter sido amado por leitor apaixonado, ajoelhado diante do texto, a pedir mais, a querer mais, prometendo coisas impossíveis, por exemplo, bom comportamento. Mentira, claro! No transcurso sem recurso da vidinha mais ou menos o procedimento recomendado por nove entre dez estrelas de cinema é negar a paz, namorar a guerra, gostar da narrativa escrita por Clarah, publicada em 2002, fulgor a incendiar as trevas que envolvem a literatura brasileira (depois, muito depois, reunião com parte de Vida de gato resultou em filme, Nome próprio, Leandra Leal dando ou negando as histórias clarificadoras de desatinos amorosos, se não assistiu, por favor, passe na locadora mais próxima e exija o filme, mande óliudi pra... prá lá de Bagdá, porque essa festa é nossa e os urubus não foram convidados).

Camila Chirivino, 22 anos, largou a faculdade de Jornalismo e de Letras pela metade, gosta de gatos, chocolate, vodca, homens magros e sem pêlos, olhos escuros, jazz e rock. Por enquanto, é tudo que você precisa saber.

Camila Chirivino: uma transfiguração das "forças da natureza". Abalo sísmico, tsunami, catástrofe apocalíptica, sinônimos por conta e risco de quem conta e risca. Personagem de estrutura camaleônica, dessas que mudam de humor e domicílio a todo instante. Corroída pelas urgências da carne, pelo narcisismo desvairado da juventude, pela ausência de medo quando experimenta novos pecados. Sem perder tempo com os espaços físicos que freqüenta, segue em frente, mapas rasgados jogados pelo chão, bússolas arremessadas nas paredes. Quem se importa com o que não importa? Porto Alegre, Rio de Janeiro, Londres, São Paulo. Suas necessidades mais imediatas estão em outra dimensão: a intensidade das paixões que consegue extrair dos homens que "come". E ela come a todos os que caem em suas garras, tesão de predadora, vampira insaciável, depois do banquete abandona os corpos esquálidos e cansados, sem utilidade imediata para uso, é hora de buscar outra vítima, o orgasmo é sempre uma meta, um alvo a ser atingido. Disse o meu nome e encheu minha boca de porra. Mas não era qualquer porra, daquelas que têm gosto de cola tenaz com água sanitária e farinha. A porra dele era doce. Doce mesmo, de verdade, gosto bom. Até me deixou sóbria. Eu, que tinha bebido sei lá quantas doses de uísque, fiquei sóbria quando o rapaz de olhos rasgadinhos gozou na minha boca.

Conjugando os verbos da fúria amorosa, Camila abandonou a província sulista e foi conhecer as cariocas folias canibalescas: O Rio é uma mulata gostosa que fode tão bem a ponto de deixar os homens todos loucos e eles largam suas mulheres e filhos e empregos e vão pra lá comer camarão e tomar caipirinha. Lindo. Tudo lindo demais. Não deu certo. Nem mesmo pro cara errado. Essa beleza toda não paga as contas que o amor cobra a todo instante, as faturas não se cansam de chegar pontualmente, um monte de papéis coloridos amontoandos debaixo da porta, a lembrar o quanto a vida é torta, daquelas sem merengue, sem cereja em cima, apenas um gosto amargo, estrago que não quer acaba mais.

Fudida estava, fudida embarcou para London London. Foi bom. Enquanto durou. O dinheiro que tinha levado. Menina levada tentou acertar as carências (afetivas, econômicas) na flauta, não colou, aquela gente − mestres na retenção anal − não conhece a ginga de corpo, não relaxa nem goza, as regras em primeiro lugar, isso não se faz, mamãe não gosta, papai não deixa. Um saco. De qualquer forma, afinou os caninos em alguns pescoços ingleses. Todos gostosos, gozosos, a vida é diversão, nada mais resta senão soltar as emoções e deixar outra música do The Stokes compor a trilha sonora desse episódio pouco valoroso. Essa sensação de conseguir o que quer é divina. Especialmente quando é na medida certa. Muito não é tudo. E tudo não é demais. Demais é quando enche o saco.

Sem mais nada de melhor a fazer, eis que volta à realidade, ou seja, ao Brasil varonil, céu anil. Sem preocupações com a transitoriedade do mundo ou saudade de amores londrinos ou posturas políticas ou o lirismo tropical, Camila soltou um valoroso focof para o que tinha ficado para trás e decidiu que já era hora de iniciar outras aventuras, outros romances. São Paulo, terra da garoa, da garota sapeca, a lubrificar a perereca em paus paulistas, hedonistas. O que posso fazer agora além de esperar sentada, comportada, com as pernas cruzadas e um cigarro na mão? O velho Lucky a dar sorte, faca de corte afiado na garganta, repartindo fumaça entre os clichês ambulantes e a música que ensurdece a cidade. Ô cidadão, troca o disco, coloca Ween ou PJ Harvey!

Camila é personagem emblemático de uma geração que vive em função dos prazeres imediatos. Também simboliza a mulher independente − que não fica restrita às limitações sentimentais quando precisa ultrapassar barreiras interpostas em seu percurso. Colchão vagabundo, estendido na sala, horas de sono inquieto enquanto o sol se espicha lá fora. Dona de casa jamais, que não foi feita para esparramar prantos enquanto lava pratos. Nas horas vagas, vagabundas, quando não está bêbada e falando merda, escreve uns textinhos legais, abissais, frilas, jornalismo alternativo nem sempre remunera, muitas vezes renumera a longa fila dos desesperados.

Camila, a que não tem medo. O passaporte ligando passado e presente, terra e história. Sofrer não é coisa simplória, então coloca ai mais uma dose de vódega, um novo disco de rock, um cigarro na boca, loucura na veia, foda−se o drama, que mais um garoto bonito se aproxima, beija bem, bom pra caralho, caralho bem−bom, arrepios e gula. Disse que queria sair com ele limpinha e sóbria, mas ele disse que sujinha e bêbada também era bacana. Bacana. O problema era esse, tudo era bacana. (...) E bacana é mediano. E mediano não me interessa. Extremos, quero extremos. A platéia, siderada por esse misto de espanto e escândalo, se ajeita na poltrona, arruma os óculos, bebe um gole de suco, sabe que o melhor ainda está por vir, no porvir, pardos são todos os animais noturnos, caçadores de emoções e sensações. Homens, eu os amo mas eles fodem com a minha cabeça. Não entendo. Entendo, claro. Mas não entendo. Ou entendo e quero tornar as coisas mais fáceis e perdoáveis para mim mesma. Argh. Preciso é dar um jeito de arrumar o caos que sou.

Arrumar. Desarrumar. Deixar andar, seguir em frente, sem amarras, a vaticinar que amarás a quem estiver por perto, incerto é viver sozinho e infeliz. Socorro. Homem, preciso de homem. Carinho. Foder até pingar de suor. Carinho. Socorro. Qualquer semelhança com a realidade nunca será mera coincidência.


Ele tinha cheiro de Xs. Meu perfume preferido. Olha o nome: Excess, Pronto, dez minutos de conversa e lá estava eu babando por um tal de Daniel. Daniel que era lindo e tinha gostos iguais aos meus. Lindo e cheiroso. Putz. Depois ainda perguntam por que fico na defensiva. Olhaí o que acontece: fico boba, babando, mocoronga olhando para a boca dele. Meu deus, que boca tinha aquele Daniel. Que boca. Que lábios. Que...
− Camila?
− Hmmm oi. Tava aqui fazendo as contas.
− Hein?
− As contas. Me perdi nos pontos, sou um verdadeiro lixo em matemática.
− A conta do bar?
− Não, a minha.
− Como assim?
− Eu sou uma máquina de pinball.
− Ah...
Ah?
− Tem que apertar os botões certos na hora certa pra ganhar?
Sim!
− Sim! Meu deus, você entendeu.
− Entendi.
− Quer casar comigo?
− Que horas?
− Agora.
− Beleza.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

QUAL É O TEU POEMA FAVORITO?

Outro dia, precisando responder uma pergunta incomoda, Qual é o meu poema brasileiro favorito?, quase perdi a voz. Não houve afasia clínica ou psicológica. Foi indecisão. As alternativas são tantas que nada me restou senão o silêncio. Fez−se o desconforto, desses que colocam em xeque nossas convicções e medos. Depois de alguns segundos constrangedores, desconversei – que é um sinônimo refinado para fugir. Não fui capaz de assumir a responsabilidade de cravar no livro das ignorãças o nome do meu poema preferido como se fosse uma certeza.

Em um primeiro momento, quase respondi ao questionamento com algum poema de Manuel Bandeira. Consegui me conter. Gosto tanto da poesia de Bandeira que... O exemplar de Estrela da vida inteira está precisando visitar algum encadernador, as páginas soltas, algum dia vou perder alguma e conseqüentemente o volume. Não que deseje essa desgraça, mas é fato comprovado que livro maltratado perde o respeito por seu proprietário.

Poderia citar Poema só para Jaime Ovalle, Tragédia brasileira ou Momento num café. São escolhas sensatas. Ninguém poderia me condenar. Mas, como ignorar essa maravilhosa síntese trágica que é Poema tirado de uma notícia de jornal? Ou o momento plástico, esplendoroso, retratado em A realidade e a imagem? E os "achados" que são Antologia e Poética (I e II)? Não consigo dizer qual é o melhor. Se acaso, em momento de embriaguez ou insensatez, cometer esse desatino, arrepender−me−ei segundos depois.

Definitivamente, não vou estabelecer preferências. E essa resolução vale para todos os outros poetas e poemas. Carlos Drummond de Andrade? Poema das sete faces, Confidência do itabirano, A máquina do mundo ou Áporo? Maravilhas assim ninguém consegue produzir da noite para o dia.

João Cabral de Melo Neto? Toda vez que alguém lê Psicologia da composição ou Educação pela pedra ou Uma faca só lâmina ou Tecendo a manhã ou Catar feijão, o desacerto acerta o peito, como que a dizer que jamais será possível escrever poesia tão bonita.

O lado romântico, aquele que roça o enlouquecimento amoroso que herdamos de Portugal, não pode desprezar Vinícius de Moraes. Receita de mulher, Poética, Balada das meninas de bicicleta, Soneto da separação, Soneto da fidelidade? Um melhor do que outro − e é preciso escolher? Nunquinha!

Ora (direis) ouvir Estrelas (Olavo Bilac), Psicologia de um vencido (Augusto dos Anjos), Romanceiro da Inconfidência (Cecília Meireles), Invenção de Orfeu (Jorge de Lima), Cobra Norato (Raul Bopp), estou perdido entre tantos poemas plantados no bosque chamado poesia. Então, ó desatino, não consigo recitar os versos que foram impressos carinhosamente na mente − ao longo do tempo e da vida −, sem perder o rumo, o prumo, os sentidos e a razão.

Infelizmente, cada vez que penso no assunto, descubro que nessa conversa não é suficiente nomear poemas, há poetas que nos encantam de outras maneiras. Como esquecer a vida – pura poesia em movimento! − de gênios como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Mário Quintana, Ana Cristina Cesar ou Paulo Leminski? Como ignorar movimentos estéticos e políticos como a poesia concreta, a poesia marginal ou sei eu lá que maravilhas que (por ventura ou desventura) estão sendo escritas pelos integrantes das comunidades marginalizadas que compõem o Brasil?

Toda vez que cito Hilda Hirst, Adélia Prado, Ferreira Gullar, Manoel de Barros e Cacaso, estou esquecendo centenas de poetas e poemas de qualidade. Minha ignorância soterra qualquer esforço de parecer bem informado. Quase todos os dias encontro na Internet alguma idéia interessante, um ou outro verso invejável, vários poemas acima da média. Como posso − diante desse volume de informações − emitir alguma declaração de favoritismo? Não, não tenho um poema de que gosto mais do que os outros. Não posso ter.

Talvez tenha sido Vinicius de Morais quem estabeleceu o parâmetro a ser seguido: (...) porque a poesia foi para mim uma mulher cruel, em cujos braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei. Independente dos interesses pessoais do poeta, mulheres e poemas pedem abraços e beijos, encantam olhares, estabelecem pulsares, derrubam pilares. E qualquer um que queira estabelecer hierarquias está – poeticamente − condenando ao descrédito, ao ridículo.

Esses três (Drummond, Rosa e Bandeira) sabiam que tudo é poesia, não importa a melodia, não importa se alguém confunde prosa com rosa ou carícia, delícia em forma de versos diversos, dispersos pelo mundo que nos protege e agride.