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quinta-feira, 31 de maio de 2012

WILLIAM SHAKESPEARE EM TRINTA FRASES

Triste a sorte de quem depende da vontade dos príncipes! (Henrique VIII)

− Nenhum poeta deveria escrever sem que, primeiro, a tinta temperasse nos suspiros do amor. (Trabalhos de Amor Perdidos)

Quem tem trigo e quer fazer um bolo precisa esperar pelo tempo da moagem. (Tróilo e Cressida)

− O que há em um simples nome? O que chamamos de rosa, com outro nome não teria igual perfume? (Romeu e Julieta)

Mais cedo ou mais tarde, a gente sempre paga pelo prazer. (Noite de Reis)

− A paz só serve para enferrujar o ferro, engordar os alfaiates e aumentar o numero dos cantores de baladas. (Coriolano)

Palavras não são atos. (Henrique VIII)

− Palavras não pagam dividas. (Tróilo e Cressida)

Palavras são palavras. Pelo ouvido jamais o coração será atingido. (Otelo)

− Ficou noivo depressa e agora pretende casar−se com vagar. (A Megera Domada)

A sabedoria grita pelas ruas, mas ninguém lhe dá ouvidos. (Henrique IV)

− A virtude nunca é expulsa da corte a chibatadas. Por lá tratam−na muito bem, com o intuito de retê−la o máximo possível. No entanto, está sempre de passagem. (Conto de Inverno)

Um cetro arrebatado com violência precisa ser mantido com processos iguais aos da conquista. (Vida e Morte do Rei João)

− Dois guardarão segredo, quando um nada souber de todo o enredo. (Romeu e Julieta)

A verdade ama a linguagem rude. (Henrique VIII)

− O verdadeiro valor não se revela em causa ruim. (Muito Barulho por Nada)

É pena que os tolos não possam − com sabedoria – falar daquilo que os sábios fazem com tão grande tolice. (Como Gostais)

− A razão foge de tudo que nos pode causar dano. (Tróilo e Cressida)

Somos feitos da matéria dos sonhos. Nossa vida pequenina é cercada pelo sono. (A Tempestade)

− O ser grande não é empenhar−se em grandes causas: grande é quem luta até por uma palha, quando a honra está em jogo. (Hamlet)

É do espinho do perigo que se colhe a flor da segurança. (Henrique IV)

− Não poucas vezes vemos a indigente sabedoria depender em tudo da tolice suntuosa e exuberante. (Bem Está o que Bem Acaba)

Assim como aperta o coração ver mal casado um belo rapaz, mata de tristeza ver um rústico sem chifres. (Antônio e Cleópatra)

− O rosto dos homens é sempre honesto, façam as mãos o que fizerem. (Antônio e Cleópatra)

Sangue chama sangue. (Macbeth)

− Mais nobre é o perdão que a vingança. (A Tempestade)

O néscio se julga sábio, mas o sábio se reconhece néscio. (Como Gostais)

− Só escuta de bom grado uma sentença quem em proveito próprio nela pensa. (Otelo)

As mais belas jóias, sem defeito, com o uso o encanto perdem. (A Comédia dos Erros)

− É mais vantagem fazer uso de armas partidas do que das mãos vazias. (Otelo)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

UMA VIDA MELHOR

O exílio é uma fratura incurável entre um ser humano e um lugar natal, entre o eu e seu verdadeiro lar: sua tristeza essencial jamais pode ser superada. E, embora seja verdade que a literatura e a história contêm episódios heróicos, românticos, gloriosos e até triunfais da vida de um exilado, eles não são mais do que esforços para superar a dor mutiladora da separação.

A citação é de Edward W. Said e serve de epígrafe para o filme Uma Vida Melhor (A Better Life. Dir. Chris Weitz, 2011).

Carlos Galindo (Demian Bichir, indicado para o Oscar de melhor ator em 2012) é um imigrante mexicano ilegal em Los Angeles, Califórnia. Trabalha o dia todo como jardineiro e, quando chega à casa em que vive com o filho, dorme no sofá. Luis (José Julián), 14 anos, não gosta de ir à escola e dorme na única cama que eles possuem. Enquanto o pai está ligado umbilicalmente com o México, com a situação socioeconômica dos "chicanos", o filho – que nasceu em Estados Unidos – vai descobrindo os valores impostos pela sociedade de consumo.

A distância (física, emocional) entre o pai e o filho aumenta exponencialmente a cada dia.

A chance de mudar esse panorama surge rapidamente − para os dois. Carlos pode comprar uma caminhonete e gerenciar a própria empresa de jardinagem. Luis pode entrar para uma pandilla e se afirmar diante da namorada (irmã de um dos chefes da gangue). As duas situações se apresentam como irresistíveis. No entanto, somente a primeira se concretiza. Mas não por muito tempo. No primeiro momento de descuido, a caminhonete é roubada. Paradoxalmente, é isso que salva Luis da vida criminosa.

Há algo de devastador na cena em que a caminhonete é roubada. O carro não é apenas um bem material. É uma metáfora da esperança, de uma vida melhor, do construir o futuro. O que parece ser uma homenagem ao neo-realismo italiano (Ladrões de Bicicleta, Dir. Vittorio de Sica, 1948, é uma das várias referências), também é o ponto fulcral da narrativa.

Juntos, pai e filho passam o sábado juntos, tentando recuperar o carro. Enquanto está junto do pai, pela primeira vez, a raiva do menino é amenizada (apesar de pequenos incidentes). Pela primeira vez, o pai torna público que vê no filho um companheiro. Enquanto aguardam pela abertura de um restaurante, onde trabalha o ladrão da caminhonete, eles vão até uma festa popular da comunidade mexicana. O pai fica melancólico por lembrar-se da vida deixada para trás, o filho tem dificuldades para entender o espanhol. São as lembranças de uma história borrada pelas necessidades econômicas que revelam o quanto o filho e o pai estão unidos e separados.

A cena em que recuperam a caminhonete lembra os filmes de ação – e, pela primeira vez, o filho olha com orgulho para o pai. Infelizmente, como cabe às histórias protagonizadas pelos perdedores, a jornada termina em visita às profundezas do horror. O pai é preso e deportado.

A perda do pai engrandece o filho, torna-o homem. Estar ausente da vida do filho estimula Carlos para voltar. O exílio é o cenário do heroísmo.

terça-feira, 29 de maio de 2012

HISTÓRIAS CRUZADAS

A barbárie e o preconceito (racial, econômico, social, sexual) costumam andar de mãos dadas – chutando, sem a mínima piedade, os conceitos civilizatórios, a democracia e a paz social.

Histórias Cruzadas (The Help. Dir. Tate Taylor, 2011) é um filme raro no cenário hollywoodiano. Baseado no romance de Kathryn Stockett, narra uma série de abusos raciais, ocorridos na década de 50 do século passado, em Jackson, Mississippi, Estados Unidos.

Centrado na relação trabalhista entre donas de casa e empregadas domésticas, o filme fornece um retrato realista de como esse horror estava perpetuado na classe dominante. Aos brancos, ou melhor, às mulheres brancas cabia administrar mansões, promover chás sociais, angariar recursos para os famintos de África e oprimir, sempre que possível, as serviçais. Patroa boa era aquela que maltratava melhor. Obviamente, encasteladas na prepotência, muitas dessas senhoras, educadas nas melhores escolas para moças que o dinheiro familiar podia pagar, faziam questão de esquecer que a cada ação corresponde uma reação de igual força e sentido contrário. O momento mais emblemático dessa circunstância ocorre com a personagem Minny Jackson (magistralmente interpretada por Octávia Spencer, o que lhe valeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante). A torta de chocolate que ela oferece à ex−patroa simboliza, simultaneamente, a revolta pacífica e a recusa violenta de se submeter à brutalidade dos tiranos.

Eugênia Skeeter Phelan (excelente interpretação de Emma Stone), ao voltar para casa, para cuidar da mãe, que está doente, como convém a uma mulher branca, feminista avant la lettre, procura um emprego. Encontra−o no jornal local. Em lugar de grandes entrevistas ou de matérias sensacionais, passa a dirigir a coluna de conselhos domésticos. Não é o que gostaria de fazer, mas serve de exercício para os futuros romances que pretende escrever.

Como quase nada sabe sobre a vida doméstica, pede ajuda à empregada de uma amiga. Desta forma, entra em contato com Aibileen Clark (interpretação perfeita de Viola Davis). Enquanto vai aprendendo truques domésticos, como tirar manchas de camisa ou fazer tortas de maçã, descobre que está havendo ao seu redor todo um ritual de segregação racial. Não bastasse as escolas e os ônibus destinados apenas aos negros, também há uma preocupação muito acentuada em construir banheiros que deveriam ser usados apenas pelas empregadas.

Skeeter, diante da forma sádica com que as empregadas são tratadas por suas patroas, começa a imaginar a possibilidade de denunciar esse absurdo. Com a consciência de uma intelectual da primeira metade do século XX, imagina poder mudar o mundo através de um livro−depoimento. De uma forma ingênua e heróica, quer relatar as relações sociais e trabalhistas do ponto de vista dos negros. As duas primeiras mulheres entrevistadas, Aibileen e Minny, mostram−se reticentes. O medo da retaliação e anos de subserviência pesam como se fossem grilhões escravagistas.

Com paciência, Skeeter consegue vencer as barreiras e obtém os primeiros depoimentos. É Aibillen quem inicia os relatos. Depois de muito sofrimento, consegue superar as pressões físicas e psicológicas. Depois, há a adesão de Minny (que, entre outros martírios, é vítima de violência domestica). Aos poucos, outras empregadas vão aderindo à causa. O livro vai tomando forma.

O excesso de crueldade produz a revolta, é o que Skeeter aprende, ao ouvir, incrédula, os relatos de agressões. Cada história de abuso e sevícia reproduz a banalidade do mal.

Enquanto Skeeter e Aibileen vão escrevendo The Help, o mundo se transforma. As lutas pelos direitos civis (Martin Luther King) e os irmãos Kennedy (John e Robert) modificam a paisagem até então aparentemente plácida. Esse mundo novo, que produz a decadência da nobreza provincial, promete dias mais democráticos, menos preconceituosos, mais próximos da igualdade social.

Histórias Cruzadas é um filme de mulheres, para mulheres. A história escrita a contrapelo, como dizia Walter Benjamin. Poucos homens aparecem em cena. E quando o fazem, não passam de meros objetos de decoração ou símbolos da opressão.

Belíssimo.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

FILHO DIANTE DA MORTE DO PAI

Algumas pessoas só conseguem entender o verdadeiro significado da morte quando perdem alguém próximo. O vazio que se estabelece com a ausência, em diversos graus e perspectivas, nunca mais vai ser preenchido. Bom é estar vivo − embora cada história humana seja constituída pela morte dos outros. Lembrar a ausência é amarrar a saudade com as histórias comuns, com as imagens de alguém que não existe mais. É construir depósitos de emoções. É amordaçar a noção de que a vida é transitória.

A morte é isso: o dano irreparável. La commedia è finita.

Não vi meu pai nos seus últimos meses de vida. Internado em um hospital, o corpo sendo destruído lentamente por um câncer horroroso, deixei que sofresse sozinho. Provavelmente, foi o ato mais cruel que pratiquei em toda a minha vida, conseqüência do prazer perverso que era imaginar que ele estava morto há muitos anos. Mesmo quando ele estava vivo, éramos estranhos. O pouco que tínhamos em comum eu não queria lembrar. Quando, na manhã de 10 de dezembro de 1989, fui comunicado de que a vida dele havia terminado, reuni todas as forças possíveis e decidi seguir em frente, sem choro, sem lamúrias. Não fui muito longe. Alguns meses depois, ao perceber que a historia que une a nossa família foi construída por desencontro, ressentimento e mágoa, tive uma crise emocional. Comprovando a incapacidade de resolver sozinho, e de forma adequada, os sentimentos represados, durante horas mergulhei em uma espécie de exercício de contrição tardio, a percepção de que nunca mais seria possível reatar os laços de sangue. Todo esse drama não melhorou minha vida, mas me fez ver algumas nuances que, por diversos motivos, sempre tentei ignorar.

Esses sentimentos cuidadosamente escondidos na mais escura das gavetas da memória voltaram à tona com a leitura de um texto autobiográfico de Philip Roth, Patrimônio.

(...) este livro, que, confirmando a falta de decoro de minha profissão, eu vinha escrevendo enquanto ele estava doente e morria, é dolorosamente bem escrito, assustadoramente amoroso. Ao contar os últimos dias de Herman Roth, o filho também descreve um pouco da própria vida, conforme é profetizado em Mortes Imaginárias, o belíssimo livro de Michel Schneider: o escritor é alguém que passa a vida a morrer, nas frases longas e nas palavras curtas.

Infelizmente, com frases curtas e palavras longas não é possível descrever as idiossincrasias de um homem lúcido e teimoso. Como se dizia em outros tempos, Herman foi uma figurinha carimbada. Entre dezenas de cenas divertidas, Philip conta que o seu pai, depois da morte da esposa, mudou−se para um conjunto residencial para idosos e não encontrara dificuldades em convencer as viúvas ricas do prédio (...) que acabara de fazer setenta anos, embora toda a família houvesse se reunido no verão anterior em minha casa de Connecticut para comemorar seus oitenta anos.

Aos 86 anos de idade, cheio de forças para continuar a diversão, Herman descobre que tem um tumor cerebral – que não tarda a se manifestar fisicamente. Em nenhum momento o doente se deixa esmagar pelo horror, embora esteja ciente de que não conseguirá escapar do abatedouro. O que pede é mais algum tempo de vida. Para poder usufruir dessa migalha, aceita o martírio que se estende por salas de espera de consultórios médicos, exames dolorosos e diagnósticos contraditórios. Philip o acompanha em quase tudo. E sofre junto. Sandy, o irmão mais velho, que mora longe, também compartilha do martírio.

A morte do pai é, guardada as devidas proporções, a comprovação de que ninguém está preparado para a perda. Seguindo uma tradição familiar, assim como Herman fez com o seu pai, Sender, Philip fez com Herman. Acompanha a chegada da morte. Sentado ao lado da cama de hospital, aguarda o desfecho inevitável.

O episódio relativo à tigela de barbear de Sender Roth, que Philip pede para Herman como herança familiar, estabelece a ligação atávica entre as gerações. Infelizmente, esse ritual de transmissão do conhecimento e da amizade familiar nunca mais se repetirá. Philip não tem filhos. Somente os filhos de Sandy é que poderão ter esse prazer. De qualquer forma, é um momento impar, onde o pai e o filho se reconhecem como cúmplices e participes da aventura humana.

Mas, a verdadeira revelação, aquele ponto que determina o andamento inexorável da degradação existencial, é muito mais desagradável. Como conseqüência de uma biópsia, Herman passa algum tempo com prisão de ventre. Durante um almoço familiar, Herman se retira abruptamente da mesa. Philip, logo depois, vai procurar pelo pai e o encontra imerso na imundície. Deplorável o corpo do pai, o banheiro sujo, a merda contaminando tudo. Com paciência, o filho acalma o pai, diz que não aconteceu nada importante e o leva para debaixo do chuveiro.

Herman fica no quarto, vestido com roupas limpas e em estado de vergonha infinita. Philip volta ao banheiro e termina a faxina. Nesse momento, como um insight inoportuno, descobre a chave para o entendimento:

Levei a fronha fedorenta para baixo e a pus num saco de lixo preto que fechei bem fechado, jogando−o no porta−malas do carro para deixar mais tarde na lavanderia. E, agora que a tarefa fora concluída, não podia estar mais clara para mim a razão pela qual aquilo era certo e era o que tinha de ser. Aquilo era o patrimônio. Não porque limpá−lo simbolizasse alguma outra coisa, mas porque não simbolizava nada, porque era nada mais, nada menos do que a realidade existencial nua e crua.
Ali estava o meu patrimônio: não era o dinheiro, não os tefilins, não a tigela de barbear, mas a merda.



P.S.: Para quem tem interesse em narrativas relacionadas com a decadência física dos pais, narradas pelos olhos dos filhos, imperdível é O Lugar Escuro, de Heloisa Seixas, que narra a história de sua mãe, vítima do mal de Alzheimer.


TRECHO ESCOLHIDO

Pedi ao médico que me deixasse a sós com meu pai, ou tão a sós quanto era possível em meio à azáfama da sala de emergência. Sentado ali e observando o seu combate para continuar a viver, tentei me concentrar no que seu tumor já lhe causara. Isso não era difícil, porque naquela maca ele parecia ter lutado cem assaltos com Joe Louis. Pensei nos horrores que inevitavelmente viriam pela frente, mesmo supondo que ele pudesse ser mantido vivo num pulmão de aço. Vi tudo, tudo, e mesmo assim tive de continuar sentado lá por um longo tempo antes de chegar o mais perto dele que pude e, com os lábios quase tocando o seu rosto encovado e arruinado, finalmente encontrar forças para sussurrar: Papai, vou ter que deixar você ir embora. Ele já estava inconsciente havia horas e era incapaz de me ouvir, mas, em choque, aturdido, chorando, repeti aquilo muitas e muitas vezes até eu mesmo acreditar no que dizia.

Depois disso, só me restou seguir sua maca até o quarto onde o puseram e me sentar ao lado da cama. Morrer dá trabalho, e ele era um trabalhador. Morrer é pavoroso, e papai estava morrendo. Peguei sua mão, que ao menos eu ainda sentia como sendo sua mão, afaguei sua testa, que ao menos ainda parecia ser sua testa, e lhe disse todo o tipo de coisas que ele não podia mais registrar. Por sorte, de tudo que eu lhe disse nessa manhã, nada havia que ele já não soubesse.



Por ordem cronológica, os três homens da casa: Herman, Sandy e Philip Roth

quinta-feira, 24 de maio de 2012

TRINTA E TRÊS FRASES SOBRE DINHEIRO

Quando o queijo e a goiabada se encontram na mesa do pobre, devemos suspeitar dos três: do queijo, da goiabada e do pobre. (Barão de Itararé)

Não existe o almoço grátis. (Milton Friedman)

Os pobres herdarão a terra. Sete palmos dela, pelo menos. (James Thurber)

Recessão é quando o seu vizinho perde o emprego; depressão é quando você perde o seu. (Harry S. Truman)

O futuro é a única propriedade que os senhores concedem de boa vontade aos escravos. (Albert Camus)

Quando alguém lhe disser, "Não é uma questão de dinheiro, mas de princípios", trata−se de uma questão de dinheiro. (Kim Hubbard)

Os ricos podem não ir para o céu, mas os pobres já estão cumprindo pena no inferno. (Alexandre Chase)

Os ricos teriam que comer dinheiro, se, por sorte, os pobres não fornecessem a comida. (Provérbio Russo)

A diferença entre o divórcio e a separação legal é que a separação legal dá ao marido tempo para esconder o dinheiro. (Johnny Carson)

O dinheiro é melhor do que a pobreza, nem que seja por razões financeiras. (Woody Allen)

A mulher e o dinheiro são as únicas coisas sérias da vida. (Noel Rosa)

O dinheiro não compra a felicidade. Mas pode pagar os salários de uma enorme equipe de pesquisadores para estudar o problema. (Bill Vaughan)

Ao contrário das outras meninas, minha diversão em criança era brincar de pobre. (Princesa Carolina de Mônaco)

Não é verdade que me casei com ele porque ele tinha quatro milhões. Teria me casado do mesmo jeito, se ele tivesse apenas dois milhões. (Zsa Zsa Gabor)

Se as mulheres não existissem, todo dinheiro do mundo não teria o menor significado. (Aristóteles Onassis)

Há virtudes que só se pode exercer quando se é rico. (Antoine de Rivarol)

É difícil dizer o que traz a felicidade: tanto o dinheiro como a pobreza fracassaram. (Kim Hubbard)

... Marcela amou−me durante quinze meses e onze contos de réis... (Machado de Assis)

Um ladrão roubou o cartão de crédito de minha mulher. E quer saber de uma coisa? Está gastando menos que ela! (Henny Youngman)

O homem que se vende recebe sempre mais do que merece. (Barão de Itararé)

Nunca tive dinheiro até que arriei as calcinhas. (Sally Rand)

Dinheiro traz alguma felicidade. Mas, depois de certo ponto, ele só traz mais dinheiro. (Neil Simon)

Nunca tive amor pelos homens com quem vivi. Com eles só fiz negócios. (Dercy Gonçalves)

Se quiser aprender o valor do dinheiro, peça algum emprestado. (Benjamin Franklin)

Costumamos chamá−la de economia política, porque não tem a ver nem com economia, nem com política. (Stephen Leacock)

Já fui tão pobre que nem sabia de onde viria o meu próximo homem. (Mae West)

Já estive duro, mas nunca fui pobre. A pobreza é um estado de espírito e a falta de dinheiro é apenas temporária. (Mike Todd)

Dinheiro é um feitor cruel, mas um ótimo escravo. (Alexandre Dumas, filho)

A diferença entre um assaltante e um homem de bem é que o assaltante rouba dos ricos. (George Bernard Shaw)

Quando se trata de dinheiro, todo mundo é da mesma religião. (Voltaire)

Quando eu era jovem, acreditava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje, tenho certeza. (Oscar Wilde)

Com dinheiro no bolso você fica sábio, charmoso, e até canta bem. (Provérbio iídiche)

Escritor discute dinheiro. Quem discute literatura é o leitor. (João Ubaldo Ribeiro)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A DAMA DE FERRO

Será Meryl Streep a melhor atriz da atualidade? Difícil responder. Sua espetacular atuação em The Iron Lady (Dir. Phyllida Lloyd, 2011) acaba com parte da resistência. Somente uma atriz da velha escola, com muitos anos de experiência e talento, seria capaz de interpretar com tamanho brilho uma das mulheres mais ambiciosas e arrogantes da história política mundial.

No dia 04 de maio de 1979, Margareth Tatcher, depois de dez anos como deputada do Partido Conservador, foi eleita para ocupar (e essa não é uma palavra excessiva) um dos endereços emblemáticos do governo inglês: 10, Downing Street − a residência oficial do Primeiro−Ministro do Reino Unido da Grã−Bretanha.

Essa mulher, que era avessa aos serviços domésticos e familiares, tanto que disse que não posso morrer lavando uma xícara, foi responsável por alguns dos anos mais difíceis da história inglesa. Durante o período que liderou a nação houve recessão econômica, desemprego, privatizações, greves, manifestações populares. Além disso, o Irish Republican Army (IRA) não deu trégua e realizou alguns dos ataques mais devastadores contra o opressor. Foram tempos de pânico e terror. O colapso total do governo só não aconteceu por milagre. Surpreendentemente, um milagre que durou onze anos e meio.

A espinha dorsal do filme está concentrada na velhice senil de Margareth Tatcher, uma mulher que foi tão importante quanto alguns homens. No jogo especular, onde os papeis e os gêneros estão invertidos, Tatcher se mostra mais poderosa, mais prepotente, mais masculina do que aqueles que deveriam se comportar como homens. A disputa com a Argentina pelas Falklands Islands, embaralhando uma das questões mais canalhas que envolvem o jogo democrático - o patriotismo -, mostra o quanto a obstinação e a liderança ditatorial podem manipular o eleitor, transformando índices de impopularidade e complicações econômicas em benefícios políticos.

Na companhia imaginária de Denis, o marido morto muitos anos antes, Margareth relembra alguns dos seus melhores momentos. Alguns dos piores também. Entre estes, o mais visível é o distanciamento afetivo dos filhos (gêmeos, Mark e Carol). Ou seja, a mulher que colocou a carreira política como propósito de vida não colheu, em troca, amor filial – sentimento que ela, como determina o conjunto de regras da asséptica educação britânica, nunca demonstrou ser importante.

Depois que deixou o poder, Tatcher teve dificuldades para administrar a nova situação. Um dos primeiros problemas que descobriu é que ficou cada vez mais complicado levar o navio em segurança até o cais. O narcisismo contemporâneo se espalhou pelo tecido social como se fosse metástase. Ao final de um encontro social, uma mulher tenta lhe agradar afirmando que inspirou a sua (dela) vida na ex−primeira−ministra. Sem temor de ofender brios ou vaidades, Tatcher, com a rispidez que lhe era peculiar, diz: Costumava ser sobre tentar fazer alguma coisa. Agora é sobre tentar ser alguém.

Mesmo senil, Tatcher se mostra lúcida. Em determinado momento, liga todos os aparelhos eletrodomésticos, procurando causar o máximo de barulho possível. Envolta no desespero, quer evitar ouvir as vozes das alucinações, quer resistir ao chamado da loucura.

É uma luta inglória, sem esperanças. O passado e o presente desaparecem da memória, projetando um futuro inexistente. Acabou, parece dizer Margareth Tatcher, na última cena, enquanto lava uma xícara.

Margareth Tatcher e a rainha Elizabeth II, em 1979.

terça-feira, 22 de maio de 2012

DALTON TREVISAN E O PRÊMIO CAMÕES

O júri do prêmio Camões de 2012 (Rosa Martelo, Abel Barros Baptista, Ana Paula Tavares, João Paulo Borges Coelho, Alcir Pécora, Silviano Santiago) decidiu premiar Dalton Trevisan, popularmente conhecido no mundo literário como o Vampiro de Curitiba.

Os míseros 100 mil euros (cerca de 260 mil reais) não serão suficientes para adquirir um castelo em ruínas na Transilvânia, mas provavelmente permitirão que o genial e genioso escritor compre alguns quilos de chocolate belga − reconhecidos internacionalmente como melhores do que os suíços (que parecem ser os da preferência do escritor, conforme menciona o Miguel Sanches Neto naquele romance bem tolinho, Chá das Cinco com o Vampiro, típica reação de ex−aluno ingrato travestido de Édipo).

Segundo Francisco José Viegas, secretário de Estado de Cultura de Portugal, a decisão foi unânime, visto que Dalton Trevisan é o maior contista moderno do Brasil. Viegas, que escreveu vários romances policiais (inclusive o interessante Longe de Manaus), provavelmente não imaginou estar cometendo algum crime literário com essa declaração, no mínimo, discutível. Também não ignorou o fato de que Ruben Fonseca já ter sido contemplado com a honraria (e o dinheiro) alguns anos antes – o que, obviamente, coloca o ex−funcionário do DOPS na classe dos hors concours.

Diversos brasileiros foram contemplados com o prêmio (e o cheque): João Cabral de Melo Neto, Raquel de Queiróz, Jorge Amado, Antonio Candido, Autran Dourado, Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, João Ubaldo Ribeiro e Ferreira Gullar. É um time de primeira classe, embora não seja forte o suficiente para ganhar a Copa do Mundo. Segundo alguns comentaristas esportivos e repórteres de emissoras televisivas, em 2014 o bruxo Paulo Coelho vai arrebentar como centroavante – quem viver, verá!

Dalton Trevisan, que nasceu em Curitiba (PR), em 1925, guardadas as devidas proporções, idiossincrasias e esquisitices, adora brincar de esconde−esconde com leitores e jornalistas. Prefere viver em reclusão, tanto que são raros os que conhecem o número do seu telefone. Detesta visitas. Quando quer encontrar alguém, combina algum lugar público – onde acredita passar despercebido. Provavelmente obtém prazer em fingir que é algum genérico do Jerome David Salinger ou do Thomas Pynchon.

Formado em direito, trabalhou durante algum tempo na fábrica da família. Lá sofreu um grave acidente. Dessa experiência sobraram duas lembranças pavorosas: um mês de hospital e a sensação de estar próximo da morte. Foi o impulso necessário para transformar o horror em estímulo.

Escrever tornou−se a prova inequívoca desse auto−engano. Embora, alguns anos depois, Trevisan tenha voltado ao "normal" e renegado os primeiros livros. Na maior cara−de−pau, determinou Novelas Nada Exemplares (uma glosa do título usado por Miguel de Cervantes), publicado em 1959, como marco inicial de seu talento.

Depois da porteira arrombada, vários livros de sucessos: Cemitério de Elefantes (1964), Vampiro de Curitiba (1965), A Guerra Conjugal (1969), Abismo de Rosas (1976), Lincha Tarado (1980), Pico na Veia (2003), 99 Curruíras Nanicas (2002), O Anão e a Ninfeta (2011).

Todos esses livros de contos, além dos não mencionados, comprovam o talento e a qualidade de Dalton Trevisan. Seu único romance, A Polaquinha, foi publicado em 1985. Guerra Conjugal foi adaptado para o cinema (Dir. Joaquim Pedro de Andrade, 1975).

Foi um dos editores da revista Joaquim (1946-1948).

Os personagens de Dalton Trevisan, Joões e Marias, são seres famintos de sexo, amor, glória, tesão, ódio e violência. Ávidos para fugir do enfado e do tédio que corrói a vida medíocre que lhes coube por desígnio sócio−econômico convivem entre o grotesco e o sublime. Normalmente, eles são flagrados em momentos de intimidade. Embora tenham muitos nomes e personalidade, são uma só pessoa, uma só vítima, um só torturador. E enquanto não se confundem com a multidão urbana, vão retratando com poesia, humor e crueldade o que ocorre diariamente dentro das casas, nos quartos dos motéis vagabundos, nos becos sujos, nas praças escuras.

Nelsinho, o arquétipo desses monstros humanos, é branco, magro, de bigodinho aparado, bem vestido (paletó e gravata), aparentando ser um anjo de candura. Entre quatro paredes se transforma em um sádico, desses que fazem as delícias de qualquer narrativa psiquiátrica. Mestre na profanação, sempre está solicitando a proteção divina. Claro que isso não impede que alguma coisa saia errada e ele se transforme em vítima – o que não lhe causa (muito) desprazer.

Com o passar dos anos e dos livros publicados, o texto de Dalton Trevisan foi encolhendo, eliminando os adjetivos e ampliando o poder dos substantivos. Assim como o haicai economiza o verso para poder explorar as múltiplas facetas da síntese, Dalton Trevisan ampliou o significado e o significante de cada uma de suas narrativas.

Provavelmente só se sentirá feliz no dia em que obter a síntese perfeita; ou seja, publicar, depois de muito esforço técnico, uma página em branco.


segunda-feira, 21 de maio de 2012

NÊMESIS, UM ROMANCE DE PHILP ROTH

Discutir com os deuses nunca foi boa idéia. Vingativos, coléricos e insensatos – a soma dessas qualidades humanas significa que eles costumam reagir violentamente toda vez que se sentem ofendidos. Qualquer atitude que vá em direção contrária ao seus desígnios necessita ser ponderada, analisada como se fosse lance decisivo em partida de xadrez. O mínimo descuido resulta em condenação individual ou em graves consequências coletivas.

Philip Roth talvez seja o escritor mais importante da atualidade – apesar do prêmio Nobel o ignorar ano após ano. Preocupado em apenas contar boas histórias, dessas que misturam enredos verossímeis e questões essenciais, Roth, aos 79 anos, ainda continua na ativa, produzindo livros interessantes e criativos.

Uma de suas últimas produções, a fábula Nêmesis, foi composta por diversos elementos cruzados, mas – de uma forma ou de outra – se concentra na morte, tema que Roth, de forma obsessiva, também desenvolveu em seus últimos livros: O Animal Agonizante (2001), Homem Comum (2006), O Fantasma Sai de Cena (2007), Indignação (2008), Humilhação (2010).

O narrador, Arnold Arnie Mesnikoff (que somente se identifica na página 80 e tinha 12 anos na época retratada) conta para os leitores uma história de queda moral. No ano de 1944, parte da costa leste de Estados Unidos foi vítima de grave epidemia de poliomielite. Eugene Bucky Cantor, 23 anos, deveria estar na Europa combatendo as forças alemãs. Deveria. Ele foi rejeitado pelo exército por causa de forte miopia. Professor de educação física, promove atividades esportivas durante as férias de verão no pátio de recreio da South Side High School, em Newark, New Jersey. Aos poucos, assiste os seus melhores alunos serem devorados por uma doença cruel, para qual não havia (na época) cura. Os que sobreviviam precisavam conviver com graves seqüelas físicas.

Bucky é namorado de Marcia, filha do médico Steinberg. Naquele período do ano, ela estava trabalhando em um acampamento juvenil nas montanhas Poconos, na Pensilvânia, área livre da doença. Ao telefone, Marcia sugere que Cantor substitua um dos monitores, que havia sido convocado pelo Exército. Eis o dilema. Abandonar os seus alunos do pátio de recreio ou ficar até o fim, solidarizando-se com os menos afortunados. Diversos motivos concorrem para resolver a questão. Os dois mais importantes são sexo e teologia. Apaixonado por Marcia, Bucky não se mostra forte o suficiente para resistir à imagem idealizada pelas delícias da vida a dois. Ao mesmo tempo, se deixa consumir pelo rancor e pela impotência da crueldade divina. O narrador sintetiza a questão de forma eficiente: Algumas pessoas têm sorte, outras não. Toda biografia é uma questão de chance e, a partir do momento da concepção, a sorte – a tirania da contingência – comanda tudo. acredito que era isso que o sr. Cantor se referia ao condenar o que chamava de Deus.

Mesmo sabendo que estava agindo errado, Bucky aceita o novo emprego e foge para longe da epidemia de pólio. Nas montanhas, em meio a grave crise existencial, onde valores e sentimentos são discutidos internamente até a exaustão, Bucky demora para decidir se deve ficar ali ou regressar para os seus alunos. Enquanto insiste nesse ritual de autoflagelação, recebe a notícia de que todas as atividades sociais coletivas foram proibidas em Newark. Não há mais alternativa. Não há mais porque voltar. A sua vida foi destruída pela nêmesis (situação negativa que ocorre depois de um período particularmente favorável, como ato de justiça compensatória).

O primeiro caso de poliomielite do acampamento (um dos monitores, Donald Kaplow, 17 anos), assim como castelo de cartas que desmorona, anuncia novas vítimas da doença – inclusive uma das irmãs de Marcia. As atividades são canceladas, as crianças enviadas para casa, o desespero toma conta de todos.

Bucky descobre que está doente e que provavelmente foi ele o vetor de contaminação para o acampamento. Se tivesse ficado em Newark, o acampamento não teria sido afetado pela doença.

O resto da narrativa está diluída em autocomiseração, vidas desperdiçadas, o horror de sobreviver à agonia. Acompanha tanto sofrimento a sensação de que Deus desconhece o perdão.

Na cena final, em 1971, o encontro nostálgico entre o narrador e Bucky, vinte e sete anos depois da tragédia. Sobrou pouco para ser comentado e nada para ser comemorado. Bucky é um farrapo humano, paralisado em parte do lado esquerdo (braço, mão), usando suporte para o perna esquerda e prestes a voltar a usar cadeira de rodas. Arnie caminha com dificuldades, utilizando suporte para as duas pernas, além de bengala. Parecem sobreviventes de guerra – o que, guardadas as devidas proporções, eles são.

Enquanto Arnie constituiu família, dois filhos, Bucky consumia os seus dias com autocomiseração: ele projetava uma aura de fracasso inerradicável ao falar sobre tudo que mantivera em silencio durante anos, não apenas aleijado fisicamente pela poliomielite, porém ainda mais desmoralizado por uma vergonha permanente.

Toda a dor de querer alcançar a salvação está expressa no rancor trágico: "Deus matou minha mãe no parto. Deus me deu um ladrão como pai. Quando eu tinha pouco mais de vinte anos, Deus me deu a poliomielite, que transmiti a pelo menos uma dúzia de crianças, talvez mais – incluindo a irmã de Marcia e muito provavelmente você. Incluindo Donald Kaplow. Ele morreu num pulmão de aço no hospital de Stroudsburg em agosto de 1944. Devo estar muito amargo? Me diga você." Afirmou isso de modo cáustico, no mesmo tom em que proclamava que o Deus de Marcia um dia a trairia e enfiaria um punhal também em suas costas.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

DINHEIRO QUEIMADO, DE RICARDO PIGLIA

Alguns livros iluminam os olhos e a mente do leitor. E, simultaneamente, revelam o gosto amargo da vida. Dinheiro Queimado (Plata Quemada), romance escrito por Ricardo Piglia, é um exemplo.

Edificado na fronteira intangível entre a ficção e a realidade mais crua, Dinheiro Queimado revela aspectos e espectros da crueldade humana como se fosse um espelho desconfortável, um refletor das sujeiras e iniqüidades que o ser humano gostaria de esconder debaixo do tapete.

Tendo como base um fato real, um assalto a banco em San Fernando, província de Buenos Aires, em 1965, Piglia escreveu um romance vertiginoso, daqueles que se lê de um fôlego só, como se fosse uma aventura ou um thriller.

O assalto foi realizado com relativo sucesso. O início da tragédia veio depois, quando os integrantes da quadrilha liderada por Enrique Mario Malino resolvem que não vão dividir o dinheiro do roubo com os informantes, com os políticos corruptos e, sobretudo, com a polícia. Essa atitude (que constitui uma evidente infração ao código de honra da bandidagem) resulta em perseguição implacável a todos os participantes do assalto (e aos que os ajudaram).

Quarenta dias depois, os três últimos fugitivos são encurralados em um insólito apartamento de Montevidéu, Uruguai. O quarto sobrevivente, Malino, desaparece sem deixar rastro.

Durante umas quinze horas eles ensaiam a resistência. Contra trezentos policiais uruguaios (e alguns argentinos), Nene Brignone, Gaúcho Doda e Corvo Meireles escrevem com sangue a palavra luta.

Dinheiro Queimado é a reconstrução dessa história. Ricardo Piglia que leu sobre o assalto na época em que ocorreu. Depois se ocupou de outras coisas e acabou esquecendo o assunto. Um dia, em abril de 1966, conheceu Blanca Galeano, a namorada de Corvo Meireles. A garota, com uma linguagem que soava hostil, como costuma soar a linguagem quando e usada para contar uma derrota, fez um relato dos acontecimentos (ou, pelo menos, do que imaginava ter acontecido). Piglia se sentiu contagiado. Escreveu uma primeira versão da história. Não gostou muito do resultado. Por isso, o manuscrito ficou guardado durante muito tempo. No verão de 1995, durante uma mudança, Piglia encontrou o texto original e, conforme ele mesmo conta no Epílogo de Dinheiro Queimado: Essa distância (mais de trinta anos) me ajudou a trabalhar a história como se se tratasse de um sonho. Reescreveu tudo, procurando ser fiel aos acontecimentos. Quando não pude comprovar os fatos em fontes diretas, preferi omitir, explica.

O título do livro faz referência a um dos momentos cruciais da história (ver trecho abaixo). Acossados no apartamento, os três assaltantes, sem perspectivas ou esperanças, decidem vender caro suas vidas. Para eles, a rendição é pior do que a morte (e mofar em uma cela de prisão não constitui uma espécie de morte dolorosa?). Por algum mecanismo intelectual difícil de ser compreendido, os ladrões concluem que essa opção está condicionada à quebra dos laços sócio−econômicos que os levaram até aquela situação.

Trocando em miúdos: é o dinheiro (cinco milhões de pesos – quinhentos mil dólares) o agente causador de todas as mortes, instrumento da degradação humana e da violência gratuita. Quando começam a queimar as cédulas e a jogar esse papel em chamas pela janela estão decretando (através de um ato anárquico − puro sacrilégio, esbravejam os capitalistas) os ideais de uma liberdade impossível. Desfazer−se do dinheiro não diminui o cerco policial; ao contrário, o intensifica. Ao mesmo tempo, estabelecem conceitualmente o rompimento definitivo entre a loucura e a sanidade. Obviamente, aqueles que queimam dinheiro, consomem barbitúricos e cocaína e resistem à truculência policial mostram mais coerência e racionalidade do que aqueles que confundem justiça com proteção à propriedade burguesa. Queimar dinheiro, nesse contexto, tem o valor filosófico da contestação social – apesar de sua evidente ingenuidade.

Dinheiro Queimado é um livro fantástico. Escrito em ritmo de romance de entretenimento, mas com uma estrutura narrativa da melhor literatura contemporânea, o texto de Ricardo Piglia consegue contar a história de forma linear. O que, em uma leitura despretensiosa, parece ser simples, constitui uma trama extremamente elaborada. A questão do narrador diluído, atuando através de diversas vozes, basta para configurar o nível de complexidade narrativa proposto por Piglia.

Outra qualidade que merece ser destacada é o relato ficcional de acontecimentos reais. Tudo o que está descrito em Dinheiro Queimado aconteceu. Como um arqueólogo, a tarefa de Piglia foi recuperar os fatos e trazê−los à luz. Algo que lembra, guardadas as proporções, um axioma de Walter Benjamim: Nada que um dia aconteceu pode se considerado perdido para a História. Partindo dessa tese, talvez seja essa uma das funções da literatura: juntar, entre as ruínas da civilização, os fragmentos da História e oferecê−los ao leitor como uma narrativa ficcional. Não é uma tese nova. José Saramago, por exemplo, praticou bastante esse expediente.

Uma curiosidade muito interessante: Dinheiro Queimado recebeu o prêmio Planeta de 1997. Muitos dos concorrentes protestaram. Um personagem está sempre presente em todas as narrativas de Ricardo Piglia. É uma espécie de alter−ego. Emílio Renzi também dá o ar da graça em Dinheiro Queimado. As más línguas dizem que... que conceitos fluídos como ética e honestidade perdem um pouco da força quando estão em jogo 40 mil dólares. Conta o folclore que Piglia não gostou desse falatório (e quem gostaria?). Por essas e outras é que, quando foi à Argentina receber o prêmio (na época lecionava literatura em Estados Unidos), alugou uma mansão nos arredores de Buenos Aires e promoveu uma festa imensa, dessas que duram vários dias. Literalmente, queimou o dinheiro.

A versão cinematográfica de Plata Quemada foi dirigida por Marcelo Piñeyro, em 1998.


TRECHO ESCOLHIDO

Depois, a certa altura se soube que os delinqüentes estavam queimando cinco milhões de pesos que lhes restavam do assalto à Prefeitura de San Fernando, de onde, como é sabido, levaram sete milhões.
Começaram a jogar notas de mil em chamas pela janela. Do postigo da cozinha conseguiram que o dinheiro queimado voasse para a quina da parede. Pareciam vagalumes, as notas queimando.
Um murmúrio de indignação fez a multidão rugir.
− Estão queimando.
− Estão queimando o dinheiro.
Se o dinheiro é a única coisa que justificava as mortes e se fizeram o que fizeram por dinheiro e agora o queimam, isso quer dizer que eles não têm moral, nem motivações, que agem e matam gratuitamente, pelo gosto do mal, por pura maldade, são criminosos natos, criminosos insensíveis, desumanos. Indignados, os cidadãos que observavam a cena davam gritos de horror e ódio, como num conciliábulo de bruxos da Idade Média (segundo os jornais), não podiam suportar que diante de seus olhos se queimassem cerca de quinhentos mil dólares numa operação que paralisou de horror a cidade e o País e que durou exatamente quinze intermináveis minutos, que é o tempo que se leva para se queimar essa quantia astronômica de dinheiro, essas notas que por motivos alheios a vontade das autoridades foram destruídas sobre uma placa que no Uruguai se chama "patona" e que é usada para remover a brasa nas grelhas das churrasqueiras. Numa folha de lata "patona" foram queimando o dinheiro e os policiais ficaram imóveis, estupefatos.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

AS FOTOS DE CAROLINA DIECKMANN

A polícia brasileira é mais competente do que a polícia estadunidense. Essa conclusão elementar resulta de comparação entre dois casos similares. A polícia federal estadunidense (Federal Bureau of Investigation − FBI) sofreu para identificar o responsável pela subtração e divulgação de algumas imagens (todas muito comportadas) de atriz hollywoodiana Scarlett Johansson. Vários processos judiciais ainda estão em curso, a título de compensação financeira e punição dos criminosos. Ao mesmo tempo, para alegria dos tarados, esse material (que foi publicado em diversos veículos de comunicação − jornais, revistas, internet) ainda pode ser encontrado em alguns sítios do mundo virtual.

Em terras tupiniquins, causou espanto a presteza com que foi resolvida a circunstância que envolveu uma dessas celebridades descartáveis sem grandes atributos (físicos, artísticos, intelectuais). Como se fosse um caso de segurança nacional o aparato policial não mediu esforços para elucidar rapidamente o crime. Alguns dias depois que o fato se tornou público, vários "culpados" foram apresentados à mídia − que gastou dezenas de baldes de tinta com esse imbróglio.

A coleção de fotos saiu do computador da moça. Dizem que ela, comprovando ter quociente de inteligência menor que zero, preencheu − de livre e espontânea vontade − o formulário anexado a uma mensagem eletrônica enviada por destinatário suspeito. Ou seja, abriu as portas dos arquivos e disse: Sirva−se, senhor cracker (não confundir com hacker, que é outra coisa). Um vírus espião se instalou na máquina e "surrupiou" diversos arquivos privados.

Como sempre acontece nessas situações, não satisfeito com o resultado da traquinagem, um dos envolvidos no furto pensou (ou "não pensou") que poderia ganhar uns trocados – e mudou a tipificação criminal do evento.

A chantagem não teve sucesso, um dos advogados mais espalhafatosos e caros do Brasil (segundo a revista Piauí) foi contratado, a polícia não perdeu a chance de conseguir alguma publicidade positiva, a emissora que emprega a atriz fez várias matérias "jornalísticas" sobre o caso. Enfim (como em uma daqueles folhetins televisivos em que rostos anódinos costumam executar singulares canastrices em horário pobre), todos foram felizes para sempre.

Apesar desse carnaval (em que a indústria de marketing que cerca os ávidos por fama momentânea forneceu assessoria inestimável), o principal motivo de assombro com o sucesso da operação policial foi outro: no Brasil em que os órgãos de proteção da ordem e do progresso do Estado atiram primeiro e perguntam o que aconteceu depois, a integridade física da gurizada (um bando de amadores inofensivos) que invadiu o computador da loura aguada foi preservada. Tanto que um deles, quando identificado, foi filmado por uma equipe "jornalística" especialmente contratada para documentar a festa. A cordialidade desse encontro era tamanha que o acusado quase ofereceu cafezinho ao esquadrão fortemente armado que o estava visitando.

Não tenho certeza se essa encenação seria possível se o suspeito tivesse acentuada dose de melanina, fosse desprovido de fontes financeiras e com baixa escolaridade. Há a possibilidade das manchetes dos tablóides, na manhã seguinte, o descreverem como traficante morto ao resistir à prisão.

Também não tenho certeza se a mídia desfrutaria de todo esse desfile de egos ávidos por atenção se a vítima fosse mulher moradora da periferia, dois ou três filhos, renda mensal igual (ou inferior) ao salário mínimo. Possivelmente o inquérito mofaria em alguma gaveta de delegacia − há diligências mais importantes para serem atendidas pelo serviço policial nacional do que chilique histérico de alguma mal−amada.

Em contrapartida, a atriz atroz (humilhada e ofendida por tanta maldade "gratuíta") não hesitou em desfilar na avenida. Concedeu várias entrevistas ao seu canal de televisão favorito e, com voz melíflua, se declarou indignada. Exigiu medidas enérgicas contra quem ousou tornar públicas algumas de suas fotos de estimação. Tamanho pudor seria irônico, não fosse ridículo. A moça já posou para a revista Playboy - e isso significa que o país inteiro já conhece, em detalhes maquiados pelo photoshop, as suas qualidades mais louváveis.

Apesar de toda a "seriedade" da situação, a Prima Donna esqueceu de mencionar que fração dessa repulsa estava dividida em duas quantias. A primeira (e mais importante) é que as suas fotos insípidas (algumas não conseguem excitar nem mesmo um monge trapista, tamanha é a ausência de sensualidade e erotismo) não resultaram em qualquer acréscimo na sua conta bancária. No mundo em que as imagens dos corpos estão à venda nas bancas de revistas, desnudar a carcaça gratuitamente equivale ao desvalorizar a si mesma. A segunda é conseqüência da primeira, salvo algum equívoco publicitário, ninguém vai querer pagar para ver um corpo que está exposto na internet.

Resumo da ópera: a estrelinha sem brilho, que não mais cozinha na primeira fervura (a idade promove estragos irreparáveis!), conseguiu obter alguma vantagem com esse episódio. Provavelmente, a título de compensação por "tamanha dor", estragará a próxima novela das oito (aquela que começa às nove e meia).

P.S: Apesar das regras que envolvem o politicamente correto, não é possível ignorar que o sobrenome da ex-Teodora (personagem televisiva que provavelmente nunca foi chamada de Carol−linda) ecoa como propaganda duvidosa: dick man.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

CARLOS FUENTES (1928 − 2012)

Deve−se ter muito medo de escrever. Não é um ato natural como comer ou fazer amor, é de certa forma, um ato contra a natureza. É dizer à natureza que não se basta a si própria, que precisa de outra realidade, da imaginação literária. Com essas palavras agudas, Carlos Fuentes, em 2008, comprovando que não gostava de blefar, mostrou as cartas que tinha na mão.

Ao lado de Juan Rulfo e Octávio Paz, Carlos Fuentes era uma espécie de mosqueteiro da literatura mexicana. Dono de inesgotável e insuperável senso de humor, Fuentes esgrimia diariamente contra a mediocridade, contra o atraso social, econômico e político que caracteriza o México. Além disso, como convém a um bom pai, mostrou aos novos escritores (Xavier Velasco, David Toscana, Ignácio Padilla,...) que era possível viver de (e para a) literatura.

Alguns de seus livros, como A Região Mais Transparente, A Morte de Artêmio Cruz, Gringo Velho e A Cadeira da Águia, são impressionantes exercícios de criatividade e talento – e foram traduzidos para mais de vinte idiomas.

Tendo como tema a luta dos camponeses indefesos contra as injustiças sociais, Fuentes retratou, em sua ficção, uma região inóspita, repleta de mercenários e coronéis políticos. Sem perder de vista as motivações políticas, nunca se esconder de assuntos espinhosos. O México, guardadas as devidas proporções, é uma representação moderna do inferno.

Basta lembrar que um de seus livros, Aura, publicado em 1962, se tornou mundialmente famoso quase 40 anos depois, quando o Ministro do Trabalho proibiu que sua filha adolescente lesse uma cena erótica que faz parte do enredo do romance.

Foram Edmundo de Amici (Cuore) e Mark Twain que abriram os olhos e a imaginação de Carlos Fuentes. Depois vieram Alexandre Dumas, Pablo Neruda, Jorge Luis Borges e Miguel de Cervantes. Era um admirador fanático de Dom Quixote.

Carlos Fuentes foi embaixador mexicano na França (1972-1976) e professor de inúmeras universidades estadunidenses e europeias. Ganhou o prêmio Cervantes (1987) e o prêmio Príncipe de Astúrias (1994). Parte de seus ensaios sobre literatura estão reunidos em Geografia do Romance.

Morreu em 15 de maio de 2012, vítima de hemorragia interna. Tinha 83 anos.