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terça-feira, 31 de julho de 2012

SAGRADA FAMÍLIA

Sagrada Família, o último romance de Zuenir Ventura, deve ter causado calafrios em alguns jovens escritores brasileiros. Como é que o velho conseguiu manejar com tamanha leveza um tema tão áspero? − devem ter se perguntado os ressentidos. No mesmo coro, os incompetentes.

Nos anos 40, em uma cidade fictícia, Florida, situada na região serrana do Rio de Janeiro, Sagrada Família relata alguns episódios da vida sexual de algumas mulheres. Família comum – mas não muito. Manuéu (assim mesmo, com "u" final), o narrador, inicia o relato aos nove anos. Depois há um interregno. O texto é retomado quando ele está com 13 anos. O desfecho da história ocorre muitos anos depois.

Todo esse distanciamento temporal possibilita um dinamismo muito interessante, concentrando a narrativa na essência e, com precisão cirúrgica, descartando todos os detalhes assessórios. Essa estratégia poderia resultar em texto seco, árido. Poderia. Felizmente isso não aconteceu. Apesar do tom de drama, a mão narrativa não descartou o humor. Algumas cenas (Viuvinha, noite de núpcias), retratos de época, são impagáveis – e hilárias.

O enredo principal focaliza inicialmente Tia Nonoca, mãe de Cotinha e Leninha, mulher ressentida que gasta a existência pregando a moral e os bons costumes. Pura fachada. No final de algumas tardes, a viúva relaxa com a injeção na Pharmacia Canuto. Depois, como se fosse uma câmera de cinema, a narrativa se desloca para outras tragédias humanas. Talvez a mais impressionante seja a que envolve Cotinha e Douglas Kendery. O sujeito é policial, alcoólatra, mulherengo, e, seguindo a regra não escrita do comportamento social brasileiro, adora demonstrar o seu amor marital batendo na esposa.

Tamanho afeto não poderia resultar em final feliz. Estranhamente, esse é apenas um item menor de uma desgraça maior. Quando os fios soltos da narrativa são amarrados no último capitulo, o leitor percebe que o horror é muito mais terrível do que qualquer expectativa. A morte de Douglas, depois de três anos de casamento, ocorre por motivos alheios ao ambiente familiar. Isso não impede que o número de mulheres frustradas afetiva e sexualmente continue a se multiplicar como se isso fosse natural.

É isso que o livro quer mostrar. É isso que o romance quer denunciar. Esse painel provinciano (repleto de intrigas sexuais), montado diante dos olhos do leitor, permite que o narrador conduza dezenas de personagens: que entram e saem de cena com rapidez − coadjuvantes não devem atrapalhar o desempenho dos protagonistas.

Antes do término da narrativa, há a incrível história de Leninha e Tony. Impedidos de levar adiante o relacionamento quase adolescente, eles se reencontram em 1996 – cerca de 50 anos depois. Velhos e apaixonados, eles se casam – metáfora otimista do amor que vence todos os obstáculos.

Dominando os pormenores históricos e sociais, pincelando o texto com detalhes e produtos comerciais característicos da era Vargas, Zuenir Ventura não negou prazer ao leitor. Narrativa saborosa, Sagrada Família, como se fosse uma metáfora da redenção familiar, possue sabor de quero mais.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

CINQUENTA TONS DE CINZA

O romance pornográfico (ou erótico) está esgotado. Ou melhor, morto. Nos últimos dois séculos foram poucas as novidades no front. George Bataille, Boris Vian, Anaïs Nin, Pauline Réage e Henry Miller são exceções. Inclusive porque muitas das travessuras sexuais foram descritas pelos libertinos dos séculos XVIII e XIX. Além disso, raras são as safadeza que não estão descrita em manuais sexuais clássicos como o indiano Kama Sutra e o árabe O Jardim Perfumado do Xeque Nefzaui. 

Tentativas mais recentes, de cunho autobiográfico, como Cem Escovadas Antes de Ir Para a Cama (Melissa Panarello), A Entrega – memórias eróticas (Toni Bentley), A Vida Sexual de Catherine M. (Catherine Millet) e os brasileiros O Garçom B (Alma de Assis) e O Doce Veneno do Escorpião (Bruna Surfistinha) não passam de pálidos simulacros de clássicos como Teresa Filósofa (Anônimo), Os 120 Dias de Sodoma e Escola de Libertinagem (Marquês de Sade), Fanny Hill (John Cleland).  


Cinquenta Tons de Cinza, primeiro volume da trilogia escrita pela inglesa Erika Leonard, mais conhecida como E. L. James, ambiciona provar que esses livros que se lêem com uma só mão" (na saborosa – e verdadeira − expressão criada por Jean−Marie Goulemot) são uma forma de resistir ao marasmo que devora a literatura mundial. Obviamente, por melhores que sejam as boas intenções, a autora não obteve o sucesso ambicionado. O livro que ela escreveu, para dizer o mínimo, é chato. E repetitivo. Pouco criativo.

Como o público distante do mundo literário adora um bom escândalo, a narrativa, que os britânicos apelidaram de mommy porn (pornô para mães), vendeu dez milhões de cópias nos países de língua inglesa. Em Estados Unidos, a trilogia é responsável pelas vendas de 25% do mercado de ficção adulta. A editora que publicou Cinquenta Tons de Cinza no Brasil aposta em igual popularidade, tanto que a tiragem inicial foi de 200 mil exemplares.

Cinquenta Tons de Cinza, recuperando parte da tradição romanesca, é uma narrativa burguesa, daquelas que estão visivelmente preocupadas em glorificar as vantagens do dinheiro, do poder e do bom gosto. Em algumas cenas, a narradora não economiza nas descrições sobre locais paradisíacos, carros velozes, música clássica, comidas e bebidas sofisticadas, objetos de arte, livros raros (Ana Steele é presenteada com um exemplar da primeira edição de Tess of the d’Urbervilles, de Thomas Hardy. Valor aproximado: 14 mil dólares).

Simultaneamente, o livro não esconde a proposta de ser o retrato deslumbrado de uma mulher carente, Anastacia (Ana) Steele, com visíveis problemas de auto−estima, e que se apaixona pelo primeiro sádico com quem vai para a cama – literalmente. Nenhuma novidade. A virgem deflorada pelo pornógrafo e que expõe − com pormenores impressionantes − o aprendizado sexual não é sequer um tema original.

A estratégia literária que envolve o estilo hard porn (pornografia pesada) está no relato da dor. Seja física, seja psicológica.

O prazer do dominador está na dor que inflige no dominado (muitas vezes tentando impedir que o dominado obtenha prazer). O dominado sente prazer no prazer do dominador. E goza no gozo que supostamente deveria lhe ser negado. Essa não é a regra geral, obviamente. Em muitas circunstâncias, seguindo um princípio elaborado pelo Marquês de Sade, gozar está necessariamente vinculado com a dor. Após a degradação da parte submissa, cabe ao torturador oferecer alguma espécie de recompensa. Então, o gozo sexual se torna a forma mais sublime de integração entre as partes envolvidas, asseguram os sado-masoquistas. Acredite se quiser.

A história que (des)une Ana Steele e Christian Grey, como todo texto pornográfico, não se caracteriza pela boa construção literária. O texto não passa de uma espécie de pré−roteiro, desses que sonham em se transformar em filme de sucesso (nenhuma surpresa: o livro foi comprado por uma subsidiária da Universal Pictures por 5 milhões de dólares).

Os diálogos ágeis, bem estudados, quase inteligentes, procuram encobrir os clichês. Procuram esconder os lugares-comuns que caracterizam a literatura pornográfica. Mesmo quando a narrativa parece ser mais contemporânea, mimetizando mensagens eletrônicas (uma forma moderna de diálogo), há visível incentivo ao bocejar. Inacreditavelmente, a protagonista, 21 anos, estudante universitária, nunca, repito, nunca tinha recebido um e-mail. São deslizes desse calibre que destroem o texto. Em compensação, a quantidade − meticulosamente calculada – de descrições sexuais não permite que o leitor durma. Pelo contrário, estimula sensações e fantasias.

Ana Steele (de steel, aço) não está preparada para ser dobrada no fogo siderúrgico de Christian Grey (grey, cinzento). Talvez seja esse o seu páthos (paixão, sofrimento, doença), talvez seja essa a sua vocação. A história que ela conta, na primeira pessoa, repleta de sentimentalismo barato, parece ser uma forma de resistência contra o estilo de vida do amante. Pura ilusão. Somente os leitores politicamente corretos caem nesse conto do vigário. Ela, depois de (a)provou a forma de tratamento que recebe do amante, descobre que gosta de ser humilhada - embora, por diversos motivos, resista a essa aviltação. Em outras palavras, embora adore o sexo selvagem praticado com o amante, possui restrições morais contra o espancamento. Ao mesmo tempo, em estratégia de encolhimento emocional, tenta evitar o conflito. Aguenta o quanto é possível. E gosta. E goza. Diversas vezes.

Ana Steele suporta a humilhação imposta pelo predador sexual porque o prazer que obtém nessas sessões de violência se assemelha às delícias obtidas no uso de alguma droga poderosa. Ou melhor, de algum afrodisíaco muito potente. Poucos viciados conseguem aceitar que estão doentes, que precisam de tratamento. Sou mesmo uma marionete e ele é o titereiro, confessa Ana Steele, quase ao final do livro.

Christian Grey, protótipo do macho autoritário, maníaco por controle, adora bater. Ele goza com a submissão feminina. Nada de novo, mais uma vez. A literatura está repleta de personagens fisicamente poderosos e paupérrimos emocionalmente.

Estranhamente, algumas mulheres imaginam a possibilidade de transformar esse tipo de fascista em príncipe encantado. Algumas conseguem. E vivem felizes para sempre. Pelo menos, em sonhos.

Leitores sádicos ou masoquistas encontrarão em Cinquenta Tons de Cinza algum divertimento – a masturbação (física, intelectual) é uma possibilidade quase incontrolável nesse tipo de literatura.

A atriz Selena Gomes não se intimidou com a controvérsia e posou de leitora voraz dos livros escritos por E. L. James!!!



sexta-feira, 27 de julho de 2012

ANTONIO CALLADO: ENTRE A DOÇURA E A DENÚNCIA

Bons escritores são dinossauros, animais extintos. Os livros que eles escreveram são carcaças, esqueletos enterrados no solo, marcas de um passado que não pode mais ser reconstruído pelos arqueólogos – exceto como ficção.

Apesar de saberem disso, de saberem que o horror e a barbárie destroem a sensatez e a coerência, alguns indivíduos insistem em tentar (con)viver dessa arte tola e fútil que, na falta de um palavrão mais adequado, os críticos de arte chamam de literatura.

Antonio Callado era uma dessas pessoas.

O câncer que resultou na sua morte, em 1997, colocou em xeque a inteligência na literatura brasileira. Callado pertencia a uma geração que não teve sucessores. E os poucos remanescentes (Rubem Fonseca, Carlos Heitor Cony, Ligia Fagundes Telles, Manoel de Barros) logo se transformarão em saudade.

Mas não é somente isso. Não se trata da perda física, da ausência perpétua de crônicas, romances, poemas, denúncias. A morte leva um pouco mais do que um corpo.

Quando Callado morreu, perdemos um dos mais importantes interpretes da história recente da República. Perdemos um gentleman, um homem educado – qualidade cada vez mais rara em um país dominado por trogloditas e predadores.

Nascido em Niterói, no dia 26 de janeiro de 1917, Antonio Carlos Callado, tão logo chegou à idade adulta, precisou enfrentar com uma das contradições fundamentais de sua época: aceitar a luta política (era simpatizante do Partido Comunista, mas nunca se filiou) ou as amarras da religião católica. Em alguns de seus romances (Madona de Cedro, Quarup, Bar Don Juan, Sempreviva) esse tormento é nítido.

Apesar de todos esses bloqueios e medos, exemplificado, por exemplo, no martírio do padre Nando (em Quarup), Callado conseguiu, qualitativamente, vencer a paralisia intelectual e produzir uma literatura política, comprometida em mostrar a verdadeira identidade do terror.

Em Reflexos do Baile, um livro infelizmente pouco valorizado pela crítica, a máscara da hipocrisia é retirada da face do marionete em que o Brasil se transformou após o "glorioso" golpe de Estado em 1964.

Esse proceder já estava delineado em livros como Quarup e Bar Don Juan e foi reafirmado posteriormente com Sempreviva. Infelizmente, nesses três romances, há um humor ácido, quase cínico, uma seriedade desnecessária, preocupada em criticar a esquerda festiva, os desacertos da luta armada, a tragicomédia burguesa de resistência ao estupro da nação. Além disso, Quarup (talvez o romance mais conhecido de Callado) é pura metafísica, um texto voltado aos problemas da consciência, da interioridade espiritual. De certa forma, é um acerto de contas particular, entre o que poderia ter havido e aquilo que aconteceu.

Reflexos do Baile tem outra proposta. Com narração epistolar, o romance transcorre em torno de uma festa realizada em uma embaixada. Durante o evento, ocorre uma queda de energia e uma enchente – situações provocadas por um grupo armado que pretende seqüestrar o embaixador. O plano fracassa. A polícia chega antes e mata vários dos envolvidos na ação – inclusive a filha de Rufino, um diplomata aposentado, que enlouquece quando lhe informam os acontecimentos.

Como a velocidade da narração é muito intensa, em alguns momentos o leitor impaciente se sente induzido a elaborar conclusões falsas ou confusas. A imagem total só se torna nítida ao final da narrativa, pois as informações são repassadas de forma fragmentária, através de bilhetes e cartas trocadas entre os seqüestradores, entre os policiais, entre os integrantes do corpo diplomático e suas famílias.

Reflexos do Baile é um quebra−cabeças. No entanto, encaixar as peças e descobrir qual é o desenho se revela angustiante. A imagem que vai se formando, na medida em que a razão substitui o tatear e os espaços vazios, nada tem de agradável. O mundo da corrupção, da tortura policial, das fraquezas humanas e da covardia é descrito sem piedade, sem subterfúgios, sem alusões. Não há elipses ou alegorias – apenas a vida pulsante, que leva o leitor a descobrir, através de pequenas pistas, de detalhes quase imperceptíveis, o quanto vivemos em torno da realidade falsificada, grotesca.

Ao final da narrativa, o leitor precisa aprender a conviver com o que foi revelado. E isso não é tarefa fácil.

Paralelo, a sua especialidade, o romance, Callado escreveu alguns contos. Eles estão reunidos no volume O Homem Cordial e Outras Histórias – um volume tão marginalizado que raramente é incluído na bibliografia. Parece até que Callado queria esconder que o publicou.

Ele não gostava de narrativas curtas. Dizia que não se sentia à vontade com o pouco espaço, com a síntese. Apesar disso, escreveu várias histórias acima da média. Um exemplo é O Homem Cordial, texto centrado em vários momentos de tensão e dramaticidade.

O professor Jacinto assiste ao desmoronamento do mundo. Cordato, ingênuo, otimista, tem os seus direitos políticos cassados pela ditadura, assiste a uma passeata de protesto, vê uma das filhas se envolver no movimento de resistência contra os militares e, por fim, literalmente, vomita todos os sentimentos que até então estavam represados.

A catarse de Jacinto é uma metáfora da vida, uma espécie de proposta de luta contra a opressão – não só a externa, política, mas, basicamente, a interna, espiritual, imobilista.

Não eram apenas os personagens de Antonio Callado que tinham dificuldade com a vida. Apesar de cultivar a doçura, ele era um homem de opinião. Muitas vezes entrou em desacordo com os magarefes do golpe de 1° de abril. Foi preso diversas vezes. Sempre esteve em excelente companhia: Ferreira Gullar, Caetano Veloso, Paulo Francis, além de outros menos votados.

Profissionalmente, Antonio Callado foi um jornalista magnífico. Assistiu de perto a II Guerra Mundial (foi funcionário da BBC, entre 1941 e 1944. Depois trabalhou no Serviço Brasileiro de Rádio – Diffusion Française). Em 1968, foi correspondente de guerra no Vietnam. Foi um dos primeiros jornalistas a se interessar pelas questões indígenas. Participou da expedição que tentou encontrar os restos mortais do lendário Coronel Fawcett. Foi redator−chefe do Correio da Manhã e do Jornal do Brasil. Escreveu um livro−depoimento sobre Miguel Arraes. Publicou diversos volumes de reportagens. Escreveu várias peças de teatro.

Enfim, era um desses homens que não se fabricam mais

Morreu em 28 de janeiro de 1997, dois dias depois de seu aniversário de 80 anos.

terça-feira, 24 de julho de 2012

POESIA MARGINAL. POESIA MAGISTRAL

Era uma vez um bando de poetas. Um monte de profetas. Gente fina. Gurizada carioca. Quase todos. Todos mergulhando de cabeça no caminho aberto por Oswald de Andrade, o santo padroeiro daquela temporada. No meio da turba alegre e alcoolizada, "emaconhada" e enamorada, um ou outro riquinho fazendo pose de rebelde. Sabe como é que é, a praia nivela, todo mundo é brother, apesar das visíveis distinções expostas pelo trademark dos calções, bermudas e biquínis que encantam as sombras e as sobras produzidas por aquele abraço do Cristo Redentor, retentor de uma série de questiúnculas e sentimentos.

Relax total entre o sol abrasador e os grãos de areia. Brasil, considerando que não queres mostrar a cara, teu nome é ilusão. De qualquer forma, como essa hora não é hora de papo sério, vamos deixar essa história para outra história. Os jornais e as televisões estão em outra. E, cara, o Rio de Janeiro é uma festa. Solta o som, DJ!

O Bernardo Vilhena tem um poema que fala que a cana tá brava a vida tá dura / Mas um tiro só não dá pra derrubar (Lobão musicou esses versos uma eternidade depois). Pois é, vida bandida essa de quem rabisca palavras versos lágrimas delírios sonhos – e não consegue o básico: publicar. Como é de conhecimento amplo, geral e irrestrito, a poesia não suporta a clausura das gavetas. Assim como todos os seres humanos, a poesia adora a liberdade de ser recitada, lida, manuseada, acariciada, chupada, fudida no meio do parque ou num beco sujo e escuro. A poesia quer ser objeto das taras mais perversas e das loucuras mais escusas. A poesia é sentimento e sabor (suco de fruta exótica, surpresas para o paladar e o cérebro).

A poesia vive a invadir a vida do leitor – apesar de alguns chatos a confundirem com lucro, política e sacanagens (aquelas que não geram gozo, que não permitem prazer).

Como o capitalismo sempre sustentou, poesia não dá camisa para ninguém. Poesia não produz dinheiro. O mercado quer investir em alguns produtos que possibilitem retorno financeiro rápido. Quimera pretender que poesia e comercio sejam aliados. Livros de poesia são inúteis. Não devem ser publicados.

Bela contradição: uns escrevendo, outros recusando publicar. Confusões no meio de campo exigem meio de campo criativo. Doses maciças de criatividade, muita vontade de brincar. É isso daí: brincar. Bola pra frente!

Quem primeiro engravidou da idéia a história não registrou o nome. Faz mal não. Original é quem plagia primeiro, nas sagradas palavras de Miguel Reale. Ou, em versão mais adequada aos fatos, que não seja o medo da loucura que nos obrigue a baixar a bandeira da imaginação (Guilherme Mandaro dixit).

A solução foi simples (como todas as boas idéias). Algumas resmas de papel em branco, várias folhas de papel pardo (ou de uma textura maior), tinta, mimeógrafo (daqueles que existiam, na época, em cada colégio) e um pouquinho de talento e inspiração. Um amigo artista plástico, quando não o próprio autor, desenhava a capa. Depois era só grampear tudo, fazer as aparas, dar um formato, digamos, mais convencional e ir à luta. Ou seja, aceitar (em termos) o pacto econômico e, misturado à missão civilizatória de divulgar a poesia entre os ímpios, promover o escambo sempre necessário à sobrevivência física dessa figura anacrônica, o poeta.

Livros mimeografados: tatuagem poética invadindo o espaço urbano. Bares, ruas, portas de igreja, shows musicais, saraus, vernissages. A invasão foi completa. Nem Átila, o rei dos Hunos, conseguiu fazer tanta bagunça. O velho ritmo desafinar o coro dos contentes, ta sabendo?

Mas, como dizia aquele sábio (às vezes não muito sábio), na prática, a teoria é outra. Os tempos eram bicudos. Pô, anos 70. Puta repressão. Não bastasse o reacionarismo da tradicional família brasileira, ainda tinha os milicos nas ruas. Crises políticas a toda hora, seqüestros de embaixadores, Araguaia, Apiúna, os melhores amigos no exílio ou mortos. Barra pesada, pesadíssima. AI−5, toque de recolher, ufanismo estúpido e analfabeto (Brasil: ame−o ou deixe−o), o tricampeonato mundial de futebol. Pura adrenalina.

Nesse cenário, a poesia era uma viagem, "a" viagem. Drogas pesadas iluminando a noite. E como em qualquer barato, cada usuário sente o efeito de forma diferente. De um lado, o romantismo meio careta de quem estava a fim de extrair sons e perfumes (paz e amor, bicho!). de outro, correntes e algemas. Maior loucura, experiências radicais (na forma, no conteúdo, na linguagem, nas discussões). Teatro de horrores, desmistificação da alienação que acompanhava a geração alucinação total. Por ultimo, efeito típico de um país sem tradições revolucionárias, a turma do deixa−disso. Aquela gente que procura aliar um pouco daqui, um pouco dali. Equilibrados no muro da mediocridade eles querem salvar, sim senhor, salvar a poesia (e a própria pele). Bobagens, é claro. Como diria Nelson Werneck Sodré, o Brasil está cheio de travestis intelectuais: aqueles que adoram estar à esquerda da esquerda para melhor servir a direita.

E assim, entre gregos e goianos, persas e fariseus, a vida cumpriu com o seu inexorável tropeçar. E o nome dos artistas ficou para sempre fixado entre as estrelas. Ou vai dizer que você nunca ouviu falar em Cacaso, Chacal, Charles, Ana Cristina Cesar, João Carlos Pádua, Chico Alvin, Eudoro Augusto, Afonso Henriques Neto, além de outros menos votados? Não acredito. Tá bom, acredito sim, a falta de conhecimento e memória são os nossos maiores patrimônios e as escolas estão superpreocupadas em ensinar macetes mnemônicos para quem quer ascender na escala social, sobra pouco tempo para a diversão.

Outra coisa: a poesia praticada, multiplicada, nos anos 70 recebeu vários apelidos, alguns até interessantes. Os principais são dois: poesia mimeógrafo e poesia marginal (Quampérios, personagem criado por Chacal, discorda enfaticamente dessa última conceituação e dispara: ah... a poesia. A poesia é magistral. Mas marginal pra mim é novidade. Você que e bem informado, me diga: a poesia matou alguém, andou roubando, aplicou algum cheque frio, jogou bomba no Senado?)

Então tá: vamos combinar que esses caras, malucos de carteirinha, escrevendo versos e vendendo os livros nas ruas, modificaram a paisagem. Deram um pouco mais de cor aos anos sombrios da repressão militar. Ou seja, para não dizer que não falei de flores, a poesia dos anos 70, marginal ou não, respirava política o tempo todo – como, aliás, é dever de toda manifestação artística e intelectual.

CINCO POEMAS DOS ANOS 70

(Neysa Campos)
um dia pronto
bato na tua porta
atiro na tua cara
o meu amor
e desço esta ladeira
assoviando


(Cacaso)
e com vocês a modernidade
meu verso é profundamente romântico
choram cavaquinhos luares se derramam e vai
por ai a longa sombra de rumores e ciganos.

ai que saudade que tenho de meus negros verdes
anos!


(Torquato Neto)
Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos segredos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desaferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.


(Eduardo Kac)
para curar um amor platônico
só uma trepada homérica


(Luis Olavo Fontes)
Propriedade Privada
não tenho nada comigo
só o medo
e medo não é coisa que se diga.


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Nas fotos: Ana Cristina César, Cacaso, Chacal, Mário Faustino, Torquato Neto e Eduardo Kac.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

INQUIETOS, UM FILME DE GUS VAN SANT

Um dos grandes entraves da indústria cinematográfica está na dificuldade de contar uma história com final infeliz. Cinema é um processo artístico muito caro e as regras formuladas pelo capitalismo determinam, como prioritária, a necessidade de recuperar o investimento – ou parte substancial. Ninguém quer assistir um filme que se pareça com a vida. Qualquer sucesso de bilheteria está conectado com a ilusão.

Mesmo assim, alguns (poucos e raros) corajosos insistem em caminhar na contramão. Um deles, Gus van Sant, se tornou famoso por trabalhar temas pouco ortodoxos, muitas vezes beirando o escândalo, quase todos em produções de baixo orçamento. Filmes como My Own Private Idaho (1991), Gerry (2002), Elefante, (2003, Palma de Ouro no Festival de Cannes, prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes), Last Days (2005), Paranoide Park (2007), entre outros, ganharam bons prêmios em festivais independentes – o que garantiu fama ao diretor e a possibilidade de filmar outros projetos alternativos como Milk (2008). Infelizmente, esse tipo de cinema, que carrega o estigma de ser intelectual (seja lá o que isso quer dizer) ou de estar fora dos padrões da normalidade hollywoodiana, não consegue obter boas bilheterias.

Gus van Sant também dirigiu alguns sucessos comerciais como Drugstore Cowboy (1989, Prêmio C.I.C.A.E. no Festival de Berlim), Gênio Indomável (Good Will Hunting, 1997, Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para Robin Williams e Oscar de Melhor Roteiro Original), Psicose (1998, remake do clássico de Alfred Hitchcock) e Encontrando Forrester (Finding Forrester,2000).

A última aventura de Gus van Sant, Inquietos (Rentless, 2011), está centrada na figura de Enoch Brae (interpretado por Henry Hooper), um pós−adolescente que abandonou a escola e que, talvez como uma válvula de escape das tensões emocionais, joga batalha naval com um amigo imaginário − Hiroshi Takahashi.

Com o cabelo eternamente despenteado, Enoch costuma freqüentar funerais. Em um desses "eventos sociais", ele conhece Annabel Cotton (interpretada por Mia Wasikowska).

Ela está doente, um tumor cerebral. Ele está amarrado ao acidente de carro que matou os seus pais. Ela espera alegremente pela morte. Ele percebe que existem outras coisas além do ressentimento. Ela é delicada e perene como um por−de−sol. Ele não entende porque precisa sobreviver a outra perda. Ela o ensina que é imprescindível se libertar dos fantasmas para aprender a morrer – ou viver. Ele descobre que morrer é fácil, difícil é amar.

Com diálogos que, em alguns momentos, se aproximam do non−sense, o filme explora, com habilidade, situações características do humor negro. A perda e o luto ganham outras cores – tarefa que o diretor de fotografia (Harris Savides) conseguiu realizar com competência.

Dependendo do ângulo de análise, e das devidas diferenças temporais, Inquietos lembra um clássico cinematográfico dos anos 70 do século passado: Ensina−me a viver (Harold and Maude. Dir. Hal Ashby, 1971), que também aborda a ritualização da morte. Além disso, o comportamento mórbido dos personagens masculinos (Harold e Enoch) e a abordagem romântica sobre o amor com prazo de validade prestes a vencer (Maude e Annabel) são semelhantes. Há, inclusive, uma encenação de suicídio em Inquietos (recurso utilizado obsessivamente por Harold em Ensina−me a Viver).

Seja uma reatualização de um filme antigo, seja uma forma simpática de tratar o páthos (paixão, sofrimento, doença), Inquietos é um filme lírico, sensível, com um belo final infeliz.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

RICARDO LÍSIAS E O CÉU DOS SUICIDAS

Ricardo Lísias é um escritor singular no monótono panorama em que a literatura brasileira está assentada, sentada e feliz, sem a mínima intenção de se movimentar, certos exercícios cansam, o horizonte está longe e em time que está ganhando não se mexe, costumam dizer aqueles que – cheios de certezas – sabem das coisas.

Aqueles que nada sabem, provavelmente souberam que alguma coisa estava acontecendo com Ricardo Lísias quando ele publicou dois textos autobiográficos na revista Piauí: Divórcio (novembro/2011. p. 66-67) e A Corrida (Fevereiro/2012. p. 56-58).

Ao escrever, com pouco pudor, sobre a morte de um amigo e sobre o desmoronamento do casamento (talvez um tema a ser explorado mais tarde), Lísias deu ares de ficção à própria vida. Pode não ser o método terapêutico mais indicado por nove entre dez estrelas de cinema, mas funciona (em alguns casos).

A novela O Céu dos Suicidas, 186 páginas hipervalorizadas por generosa diagramação, foi composta com frases rápidas e capítulos curtos (um procedimento bastante comum na prosa de Ricardo Lísias, basta folhear Duas Praças ou os textos reunidos em Ana O. e outras novelas). Cada capítulo, duas páginas, é de fácil leitura, em alguns momentos leitura fácil, nada de muito impactante ocorre, a ação efetiva é mais psicológica do que concreta, como convém a quem adota o minimalismo narrativo.

São poucos os personagens, sombras que deslizam pelo papel, o narrador prefere se concentrar em si mesmo, no exercício de contrição quase religioso, no aceitar a culpa que sente por não ter conseguido evitar o suicídio do amigo, no autoengano e na depressão – temas que estão tão encadeados que parecem indissolúveis.

Ricardo, o narrador, homônimo daquele que ostenta o nome na capa de O Céu dos Suicidas, é um colecionador. Tampinhas de garrafa, selos, moedas. Entre tantos elementos catalisadores de energia, o que lhe falta é amigos. O único que é mencionado com algum afeto, André, no meio de violenta crise depressiva prefere abandonar o barco e se enforcar.

Tamanho pessimismo está potencializado na linguagem utilizada pelo narrador-protagonista. Profecias do apocalipse. Ou, na melhor das hipóteses, insinuações sobre o fim das ilusões – o que, de uma forma ou de outra, é uma espécie de fim do mundo.

Outras características presentes no texto: a insônia do personagem, os acessos de fúria (quando distribui vá tomar no cu com impressionante regularidade) e uma estranha busca de redenção afetiva. Somados, esses elementos ajudam a reafirmar o caráter desesperado da narrativa – que termina em anestesia farmacológica.

Depois da internação hospitalar, dos psicotrópicos e das dores terem sido sedadas, sobraram as lembranças do amigo morto. Escrever é uma forma de impedir que a amizade desapareça no vazio que constitui a vida. O Céu dos Suicidas é isso.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

VINTE E CINCO FRASES SOBRE A SOLIDÃO


Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite. (Clarice Lispector)

Se você tem medo da solidão, não se case. (Anton Pavlovitch Tchekov)

O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão. (Gabriel Garcia Marquez)

Livros e solidão: eis o meu elemento. (Benjamin Franklin)

Todo o inferno está contido nesta única palavra: solidão. (Victor Hugo)

É a solidão que inspira os poetas, cria os artistas e anima o gênio. (Henri Lacordaire)

Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas... (Mário Quintana)

A mais feliz das vidas é uma solidão atarefada. (Voltaire)

(Ter) uma carreira é maravilhoso, mas você não pode enrolar-se com ela em uma noite fria. (Marilyn Monroe)

A solidão é o preço que temos de pagar por termos nascido neste período moderno, tão cheio de liberdade, de independência e do nosso próprio egoísmo. (Natsume Soseki)

Solidão não mata. Mas maltrata! (Tyta Torres)

A verdadeira liberdade é um ato puramente interior, como a verdadeira solidão: devemos aprender a sentir-nos livres até num cárcere, e a estar sozinhos até no meio da multidão. (Massimo Bontempelli)

A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais. (Arthur Schopenhauser)

Quem encontra prazer na solidão, ou é fera selvagem ou é Deus. (Aristóteles)

Quem tem um amigo, mesmo que um só, não importa onde se encontre, jamais sofrerá de solidão; poderá morrer de saudades, mas não estará só. (Amir Klink)

Saudade é solidão acompanhada, é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já... (Pablo Neruda)

Sozinho mas não solitário, quem tem fé nunca está sozinho. (Thomas Carlyle)

Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão. (Vinícius de Morais)

Jamais encontrei companheiro que me fosse mais companheiro que a solidão.
(Henry David Thoreau)

Solidão: um lugar bom de visitar uma vez ou outra, mas ruim de adotar como morada. (Josh Billings)

Há momentos infelizes em que a solidão e o silêncio se tornam meios de liberdade.
(Paul Valery)

A timidez é uma condição alheia ao coração, uma categoria, uma dimensão que desemboca na solidão. (Pablo Neruda)

A liberdade é algo maravilhoso, mas não quando o preço que se paga por ela tem de ser a solidão
. (Bertrand Russell)

Se sigo a neutralidade, condeno-me a viver sozinho, pois o neutro não é bom para amigo nem para inimigo. (Pedro Calderón de La Barca)

Por mais que a alma lide, não rompe a sua solidão, e caminha com ela, como formiga num deserto perdido. (Gustave Flaubert)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

EU SOU UM GATO

No vasto mar chamado literatura, timoneiros de frágeis naus raramente escapam do naufrágio – conclusão inevitável para quem está prestes a se afogar. Durante anos, ignorei a qualidade literária de Natsume Soseki. Quem? Aquele escritor japonês que nasceu Natsume Kinnosuke, e, que, aos vinte anos de idade, adotou o pseudônimo Soseki (incômodo ou estorvo, em chinês). Um ilustre desconhecido - pelo menos para mim, que não recordo sequer ter lido ou ouvido alguma referência ao autor de Eu Sou um Gato. Recentemente alguém me alertou que ignorar esse autor era uma grave falta e uma irreparável falha. Comprei um exemplar de Eu Sou um Gato na Estante Virtual.

Eu Sou um Gato é uma espécie de autobiografia felina – refletindo com humor e ironia a vida humana. O gato, que não possui nome, e que se refere a si mesmo como Gato, é um narrador antropomorfo. Ou seja, se comporta e pensa como se humano fosse.

Morando com a família do professor Kushami (espirro, em japonês) e sendo maltratado por todos (inclusive pela empregada), Gato está condenado a ser um espectador passivo dos acontecimentos. Não lhe cabe agir – em muitos momentos, imita a indolência de seu dono, um homem sem grandes habilidades diante do mundo concreto. Em compensação, misto de jornalista tagarela e filósofo cético, Gato tudo vê, tudo relata, tudo delata. É um narrador descritivo, desses que juntam detalhes e mais detalhes para compor o quadro onde as ações se desenvolverão. Depois, com clareza analítica e riqueza enciclopédica, não deixa que nada do que ocorre diante de seus olhos escape de alguma observação crítica. As principais vítimas dos comentários mordazes são a família que o abriga e alimenta (Kushami, a esposa e as três filhas) e os três principais amigos do professor: Kangetsu, Meitei e Dokusen.

Kushami gosta de dormir, mas precisa fingir que é um intelectual. Está sempre tentando ler, mas depois de duas ou três páginas cai no sono. Ensina inglês, mas tem dificuldades de entender o que não consta do livro−texto que usa. É um homem irritadiço e confuso − como pode ser comprovado em algumas das anotações que faz em seu diário. As mulheres aparecem pouco na narrativa, reduzidas que estão a figurar secundariamente na vida de um Japão quase feudal. A exceção é a esposa de Kushami, que domina sem piedade o marido. As crianças são pequenos monstros, de hábitos tirânicos, capazes de crueldades indescritíveis.

Kangetsu está concluindo estudos em física. Prestes a defender o doutorado, efetua estudos sobre a dinâmica do enforcamento. Uma vizinha de Kushami pretende casá−lo com a filha, desde que defenda a tese. Meitei é a figura mais divertida. Com um senso de humor peculiar, não leva nada a sério e gosta de confundir as pessoas. Conta histórias cheias de detalhes e surrealismo. Dokusen estuda zen−budismo, tem pensamentos profundos (que ninguém compreende) e prega o pacifismo.

Em outros momentos, comprovando que as palavras são o playground do escritor, Gato faz longas descrições sobre as artes de caçar ratos, andar em cima de cercas de bambu, ir à sauna masculina para matar as pulgas que o incomodam ou desprezar adolescentes provocadores. Nesses trechos, a narrativa se torna hilária.

Gato despreza olimpicamente o ser humano. E a melhor maneira de provar isso está nas histórias que conta sobre aqueles que almejam garantir a aceitação social a qualquer preço. A vida (e, provavelmente, os livros que o professor possui em casa) lhe ensinou alguns valores, que, paradoxalmente, os homens e as mulheres não utilizam.

Ao final da narrativa, 485 páginas de humor e criatividade, a maneira estóica com que Gato narra a própria morte se assemelha com uma folha que se desprende da árvore e, ondulando no vento, vai deitar no gramado, junto com outros detritos da natureza.

terça-feira, 17 de julho de 2012

MARILYN MONROE


Na certidão de nascimento ela está registrada como Norma Jeane Mortenson. Mas, todos a conheceram como Marilyn Monroe (Los Angeles, 1 de junho de 1926 — Los Angeles, 5 de agosto de 1962). Ícone da identidade estadunidense, e, por extensão, da cultura pop mundial, a atriz se tornou o sonho de consumo de nove entre dez homens e mulheres. Quem não pensou em desfrutar de seus aromas e humores, provavelmente sonhou em substituí−la em algum filme. Em compensação, Marilyn, que era uma espécie de animal agonizante, passou parte de sua vida desejando ser outra pessoa.

Sete dias com Marilyn (My week with Marilyn. Dir. Simon Curtis, 2011), baseado em trechos dos diários de Colin Clark (publicados como The Prince, The Showgirl and meO Príncipe, a Vedete e Eu), é um filme agradável. Desses que ajudam a alimentar o mito e não deixam ninguém passar fome. Ao mesmo tempo, é quase bobinho, feito para ser assistido no sábado à tarde, de preferência com pipoca e refrigerante.

No ensolarado verão inglês de 1956, Colin Clark (Eddie Redmayne), rebelando−se contra a proteção familiar, aceita trabalhar na indústria cinematográfica como assistente no set de filmagem de The Sleeping Prince. Dirigido e protagonizado por Laurence "Larry" Olivier (Kenneth Branagh) e Marilyn Monroe (Michelle Williams), o filme é um entretenimento quase musical, mistura de um roteiro pouco crível e cenas de dança.

Marilyn, que gosta de chegar várias horas atrasada ao estúdio, se revela uma prima donna insegura e frívola. Quando seu terceiro marido, Arthur Miller, resolve voltar para Estados Unidos, e Marilyn entra em depressão, cabe a Colin Clark a tarefa de mostrar para a celebridade que é possível se divertir em solo britânico. Visitam museus, castelos, tomam banho em lagos gelados e trocam beijos quase castos.

O primeiro amor é um doce desespero, ensina para Clark uma das atrizes que trabalham em The Sleeping Prince. Para o rapaz (23 anos), aqueles dias com Marilyn se assemelham com um conto de fadas, repleto de promessas de felicidade eterna, e que quase se transforma em realidade. A atriz, por sua vez, encontra uma forma menos tediosa de aguentar as filmagens e a ausência do marido.

Em determinado momento, Clark diz para Marilyn: Você devia sair mais. Ver a paisagem. Marilyn responde: Eu sou a paisagem. O que pode ser comprovado diversas vezes, quando o assedio dos fãs impede que a estrela possa usufruir de uma vida "normal".

O rapaz, como estivesse sob o efeito de alguma miragem, se apaixona pela imagem de Marilyn. E, envolvido por uma rede de falsificações e logros, passa a viver uma tensão sexual atordoante – que, obviamente, não encontrará alívio no corpo da mulher provocadora, visto que ao retirar a capa protetora que a envolve, ela se revela completamente alheia aos sentimentos humanos.

Na cena final, como que a concluir toda essa comédia, Laurence Olivier recita uma fala de Próspero, personagem de A Tempestade, peça de teatro escrita por William Shakespeare: Alegre−se, senhor. Nossa diversão chegou ao fim. Nós somos a matéria da qual são feitos os sonhos. E nossa curta vida está envolta pelo sono.



Michelle Williams (tristemente conhecida como a viúva de Heath Ledger) é uma atriz com carreira sólida. Desde os tempos em que interpretou Jennifer (Jen) Lindley, uma personagem tempestuosa no seriado televisivo Dawson’s Creek, até a mãe do menino morto no filme Incendiário (Incendiary. Dir. Sharon Maguire, 2007), poucas vezes foi apanhada em algum tipo de deslize profissional.

Eddie Redmayne, apesar das sardas, possui talento. Basta lembrar a sua performance em Pecados Inocentes (Savage Grace. Dir. Tom Kalin, 2007), onde atuou ao lado de Julianne Moore ou na adaptação televisiva (minissérie) do romance Pilares da Terra (The Pillars of the Earth. Dir. Sergio Mimica-Gezzan, 2010)

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A SEPARAÇÃO – UM OLHAR SOBRE O DESMORONAMENTO FAMILIAR

Há quem defenda a idéia de que – provavelmente − o cinema iraniano é o último sopro de criatividade em uma forma de representação artística desgastada pela irracionalidade capitalista. Difícil concordar, difícil discordar – embora a beleza proposta pelo olhar iraniano sobre alguns temas não seja parâmetro para colocar em xeque as ruínas que caracterizam o Ocidente contemporâneo. Apesar disso, ou talvez por isso, não é acidente que esse passeio pelo Oriente sirva como uma espécie de renascimento para quem quer fugir das fórmulas gastas do cinema hollywoodiano.

A Separação (Jodaeiye Nader az Simin. Dir. Asghar Farhadi, 2011), filme vendedor do Oscar na categoria Melhor Filme Estrangeiro, narra a história quase kafkaniana de um rompimento familiar. Depois de 14 anos de casamento, Simin (Leila Hatami), a esposa, quer migrar para o exterior. Nader Lavasani (Peyman Maadi), o marido, prefere ficar no Irã. Alega, entre outros motivos, a necessidade de acompanhar os últimos dias de seu pai – que está com grau bastante avançado de Alzheimer.

No meio desse impasse está Termeh (Sarina Farhadi), a filha do casal, 11 anos. Quando a mãe sai de casa, a menina decide ficar com o pai – provavelmente imaginando que os adultos, em algum momento, resolverão o conflito. No seu entendimento, isso significa que tudo voltará a ser como antes. Esse raciocínio se desintegra rapidamente, pois aquilo que é perdido (objeto ou sentimento) só pode ser recuperado como diferença, como fratura.

Comprovando que existem momentos em que, por diversos motivos, a atitude mais fácil é fechar os olhos para o perigo, Razieh Asneqi (Sareh Bayat), que está grávida de cinco meses, aceita o emprego de acompanhante do velho. A necessidade de ganhar algum dinheiro se mostra mais forte do que os impedimentos religiosos e sociais. Cuidar de um doente com Alzheimer é trabalho pesado, mal remunerado, difícil de ser realizado. No caso de Razieh ainda mais árduo, pois ela também precisa tomar conta de sua filha pequena, Somayeh (Kimia Hosseini).

Um dia, ao voltar mais cedo para casa, Nader encontra seu pai sozinho no apartamento, amarrado na cama. Quando Razieh e a filha reaparecem, Nader, transtornado, despede a mulher. Segue−se uma discussão horrível, dessas em que a razão não está com nenhuma das partes. Nader empurra Razieh, ela cai da escada e acaba em um hospital, onde aborta.

Hodjat (Shahab Hosseini), o marido de Razieh, é um homem instável emocionalmente. Além disso, está desempregado e falido. O tribunal se transforma em campo de batalha. Acusado de assassinato, Nader é preso. Liberto sob fiança, descontente por estar no meio de tamanha complicação, inicia investigação sobre os acontecimentos que resultaram no aborto. Sob a ameaça de cumprir prisão por três anos, acoberta algumas pistas.

São esses elementos subtraídos de cena que despertam a atenção de Termeh. Ciente de que as leis propostas pelo Corão não atendem as complicações causadas pela espiral de loucura, a menina fica perplexa quando descobre que seu pai, sua mãe e o marido de Razieh estão manipulando as sutis diferenças que existem entre a verdade e a mentira.

Como se não bastasse, alguns dos momentos mais cruciais do andamento narrativo ocorrem fora do alcance das câmeras. São as confissões íntimas, as conversas especulativas, o somar disso com aquilo, que possibilitam o entendimento. E a frustração – como naquela troca de olhar entre Termeh e Somayeh, quase ao final do filme, quando Nader concorda em pagar uma indenização para Razieh e Hodjat.

Na cena final, Nader e Simin voltam ao tribunal. É hora da partilha, de saber quem ganhou a partida. Em jogo está a guarda de Termeh. O juiz pergunta para a garota se ela já tomou uma decisão. Ela responde que sim, mas não esclarece nada. O pai e a mãe saem da sala. No corredor, separados por uma porta de vidro entreaberta, aqueles que um dia moraram juntos, geraram uma filha, e se mostram leais ao pesadelo que escolheram encenar, olham um para o outro, cheios de medo − como se a vida fosse uma ferida que não cessa de sangrar.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

JEFFREY EUGENIDES E A TRAMA DO CASAMENTO

(...) os depressivos [constituem], em seu silencio e seu recolhimento, um grupo tão incomodo e tão ruidoso quanto foram as histéricas no século XIX, afirma Maria Rita Kehl, sem esquecer-se de pontuar que os depressivos, além de se sentirem na contramão de seu tempo, vêem sua solidão agravar−se em função do desprestígio social de sua tristeza.

Em outras palavras, a depressão aponta para os párias da modernidade capitalista, na medida em que eles se recusam a conviver com a vertigem tecnológica, com a euforia prêt−à−porter (muitas vezes, farmacológica), com o culto exibicionista do corpo e com a ambivalência resultante do pacto da mediocridade trabalhista (acumulação monetária e consumo desenfreado).

Sintomaticamente, esse espelho comportamental está cada vez mais presente no imaginário literário estadunidense. Basta lembrar alguns personagens de Jonathan Franzen (As Correções, Liberdade), Paul Auster (Sunset Park) ou Jeffrey Eugenides.

Eugenides é, guardadas as devidas proporções e pretensões, um estudioso da depressão na literatura. Iniciou com Virgens Suicidas, uma história assustadora sobre repressão sexual e tedium vitae, situada nos anos 70. Com um narrador que parece estar contando para os amigos uma dessas histórias engraçadas sobre o amor e as mortes (aparentemente sem sentido) das várias integrantes da família Lisbon, Virgens Suicidas continuará intrigando os leitores até o dia do juízo final. Por trás do tom leve, quase corriqueiro, a tragédia é que fornece o tom mais significativo. A adaptação cinematográfica (com menos humor, com mais psicologia) foi dirigida por Sofia Copolla, em 1999.

O segundo romance de Eugenides, Middlesex, segue em tom leve e engraçado. É uma espécie de flerte com o glosar/gozar os horrores do hermafroditismo e dos conflitos que rondam aqueles que transitam entre os gêneros sexuais. Embora seja, segundo a crítica, um livro "menor", a história de um menino criado como se fosse menina não foge aos ditames do horror e do isolamento físico e afetivo.

Com A Trama do Casamento, terceiro romance de Jeffrey Eugenides, a mão do escritor ficou mais pesada. Não há humor. O que há é horror. O triângulo amoroso (Mitchell Grammaticus, Madeleine Hanna, Leonard Bankhead) retrata/relata/delata um daqueles momentos que ninguém quer participar. Precisando escolher, Madeleine faz a sua escolha – e, com tal decisão, arrasta todos os três à infelicidade.

Grammaticus é o bom moço, afetuoso, amoroso. Bankhead é quase grosseiro, tem posições sólidas sobre o mundo e consegue chamar a atenção das mulheres. Madeleine prefere o segundo. E isso significa que o primeiro não vai desaparecer de cena. Mitchell Grammaticus é uma espécie de cachorro sem amor-próprio - sempre está por perto apesar das botinadas que leva amiúde. No intervalo, Mitchell vai para a Europa, numa dessas peregrinações típicas de pós−adolescente. Mochila nas costas, e acompanhado de um amigo, viaja por França, Grécia e Índia. Em contato com outros povos, descobre que deixou para trás a única pessoa que poderia fazê−lo feliz.

Enquanto isso, a vida de Madeleine e Leonard atinge as profundezas do inferno - destruição mútua através de agressões psicológicas e descompassos emocionais.

Mitchell volta, se declara e recebe outro monumental pé−na−bunda. Gesto que, ó vida, ó azar, como dizia aquele personagem de desenho animado, se repete um pouco mais tarde, quando Leonard, em crise de lucidez ou de loucura extrema,abandona Madeleine.

Entre crises afetivas, doses cavalares de lítio e recaídas amorosas, o dramalhão se desenvolve por 438 páginas. Se não fosse o talento narrativo de Eugenides, que domina como poucos a carpintaria literária, era livro para abandonar nas primeiras cinquenta páginas.

Desencanto, antirromantismo e desperdício de talento são os temas principais dessa narrativa pessimista. Ou melhor, depressiva. Três almas perdidas, condenada à infelicidade – eis a receita amorosa que Eugenides ensina aos seus leitores.

P.S: Para quem quiser conhecer os aspectos mais significativos dos estudos teóricos e clínicos sobre a depressão, um bom roteiro de pesquisa pode começar com um dos textos escritos por Maria Ritha Kehl, O Tempo e o cão – a atualidade das depressões, de onde foram retiradas as citações utilizadas no primeiro parágrafo.