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segunda-feira, 29 de abril de 2013

MEU QUERIDO CANALHA

Não há mais canalhas como antigamente. Essa constatação elementar não é fruto do saudosismo. Tampouco serve de alívio. Por diversas razões – nenhuma delas digna de mérito – o romantismo se tornou decadente e saiu de moda. O refinamento, a criatividade e a sutileza não mais constituem elementos valorizados pela modernidade. Assumiu o  proscênio desse teatro pouco crível que chamamos de vida a selvageria, a grosseria, a inconveniência e a maldade (de acordo com as regras mais elementares do realismo). 
 
Segundo o dicionário Aurelião, canalha é sinônimo de vil, reles, infame, velhaco. São bons adjetivos. Quase invejáveis. Embora não sirvam para explicar que a canalhice, por definição, não precisa – digamos – ser cruel ou perversa. Apenas mal-intencionada. O suficiente para praticar amiúde atos pouco dignos do que se convencionou chamar de elevado comportamento social.
 
Se alguém, por exemplo, cometer a imprudência de esquecer a carteira (com documentos e dinheiro) em lugar próximo de mãos leves e rápidas, qualquer queixa posterior será inútil. O canalha possui raciocínio instantâneo, é um mestre prestidigitador – desses que dominam a doce arte da ilusão. Com um amplo arsenal de truques (ópticos, emocionais, físicos), o canalha mostra que nasceu para seduzir, iludir, enganar. Não é pouca coisa. Ou coisa pouca. Que, diga-se de passagem, não lhe interessa. O bom canalha – ou o canalha do bem – não possui escrúpulos, sempre está com disposição para saquear o que for possível ou o que estiver ao seu alcance. Nunca deixa passar uma oportunidade.
 
Em um mundo que idolatra o bom-comportamento e a vigilância intensiva, muitos desses episódios raramente terminam bem. Na verdade, o mais frequente é acabar mal. Que a desgraça atinge a todos os espertos com enervante suplício democrático. O destino inglório não serve de lição ou impedimento para que surja no horizonte um novo espécime dessa fauna maldita. No mundo dominado pelos processos de reprodução técnica, a todo instante surge alguém com a pretensão de ser mais astuto do que os seus semelhantes.
 
Ao mesmo tempo, o canalha, assim como a onça-pintada não consegue esconder a cor de sua pelagem, não logra encobrir suas características mais patéticas. Ou hilárias. A cada instante, como se estivesse predestinado ao farsesco, produz material capaz de garantir as mais estrondosas gargalhadas.
 
Cinco narrativas de seis escritores constituem a coletânea Meu Querido Canalha, editada em 2004. Não são histórias edificantes. Muito pelo contrário. E estão centradas em uma espécie particular de canalha: o conquistador barato. Mais do que atletas sexuais, esses personagens não economizam lascívia, volúpia, infâmias e outras sem-vergonhices. Azar de quem estiver próximo.
 
O texto de Ruy Castro, La Petite Mort, está centralizado na história de Guilherme, uma espécie de Casanova carioca. Enquanto relembra as aventuras picarescas do conquistador, o narrador transporta as cinzas do amigo. O sujeito sofreu um ataque cardíaco enquanto realizava o ato. O ato sexual. O orgasmo (la petite mort, segundo os franceses) se transforma em morte gloriosa (la grand mort). Entre um evento e outro, milhares de peripécias, inclusive a inevitável extorsão policial.
 
A Ave-Maria de Schubert, de Carlos Heitor Cony, como cabe a um texto escrito por ex-seminarista, trabalha com questões básicas: virgindade, sedução, culpa. A descrição que faz de certos ambientes sórdidos, onde a juventude e os casais unidos pela infidelidade conjugal costumavam resolver problemas básicos nos anos 50 do século passado, é surpreendente. Quase um tratado antropológico. Mas, essa parte da narrativa não passa de um preâmbulo para um desfecho hilário.
 
O Bom Canalha foi escrito por Geraldo Carneiro, a partir de uma sinopse de Bráulio Pedroso. Entre o mito do filho pródigo e o golpe do baú, muitas trapaças são possíveis. A história (que talvez não seja verdadeira) de Luís (ou Alberto) transita por terreno pantanoso. Ele ambiciona enganar Matilde e Adriana. Enquanto articula tomar o dinheiro da primeira, frequenta a cama da segunda.
 
Aldir Blanc é um dos melhores humoristas brasileiros. Infelizmente, poucos sabem disso. Alguns de seus contos e crônicas, que retratam de forma primorosa a vida suburbana, são antológicos. Homem que é Homem não é exceção. O narrador conta um episódio cheio de detalhes acessórios ocorrido no governo Getúlio Vargas. Cafajestada. Das boas. Envolvendo fêmea. Linda de merecer adoração, uma verdadeira musa de letra do Orestes Barbosa. Como compete ao tema, o inevitável final infeliz dá o ar da graça, perdão, da desgraça.  
 
O capítulo final coube ao Marcelo Madureira – que não negou fogo e seguiu os preceitos do que há de mais escroto na malandragem carioca. O narrador em primeira pessoa, sem economizar detalhes (os piores), relata, em Agnus Dei, uma história de sedução. Sem a mínima piedade encantou a viúva do General. Aproveitou a carência e mandou ver. Ou melhor, fez coisas do arco da velha – na velha. Inacreditável. O remorso no dia seguinte – da senhora. No intervalo da narrativa, o garanhão ainda teve cinismo suficiente para contar outra aventura sexual ocorrida em casa de suingue. Maluquices de quem sempre disse a quem quisesse ouvir Eu sou do bem. Bem canalha.
 
Meu Querido Canalha é livro para ler em final de semana. Como diversão. Sem pretensão de ensinar coisa alguma. Apenas uma fonte para grandes gargalhadas. Afinal, dentro de cada um de nós (homens e mulheres) habita um canalha - que sempre arranja uma desculpa esfarrapada para não pagar o aluguel. 
 
 
(P.S: pela ordem, fotos de Ruy Castro, Carlos Heitor Cony, Aldir Blanc, Geraldo Carneiro e Marcelo Madureira)

quarta-feira, 24 de abril de 2013

A BELEZA: TRINTA E DUAS FRASES IMPERTINENTES


A beleza é a melhor carta de recomendação. (Aristóteles)

A beleza é um reino muito curto. (Sócrates)

A beleza é o esplendor da verdade. (Platão)

A beleza desaparece na vida, mas é imortal na arte. (Leonardo da Vinci)

Cada coisa possui beleza, mas nem todos conseguem vê-la. (Confucio)

O espetáculo da beleza, qualquer forma que se apresente, eleva a mente às mais nobres aspirações. (Gustavo Adolfo Bécquer)

A beleza salvará o mundo. (Fiodor Dostoiévski)

A beleza, como a dor, causa sofrimento. (Thomas Mann)

Beleza é o poder pelo qual uma mulher encanta o amante e aterroriza o marido. (Ambrose Bierce)  

A beleza é o acordo entre o conteúdo e a forma. (Henrik Ibsen)

A beleza das coisas existe no espírito daquele que a contempla. (David Hume)

Se a beleza constituísse o único mérito das mulheres, às feias só restaria enforcar-se. (Theophile Gautier)

A beleza é o inteligível sem reflexão. (André Maurois)

Se tens a beleza simples e mais nada, tens quase tudo o que Deus fez de melhor. (Rudyard Kipling)

Devem-se escolher os amigos pela beleza, os conhecidos pelo caráter e os inimigos pela inteligência. (Oscar Wilde)

A beleza é o acordo entre o conteúdo e a forma. (Henrik Ibsen)

A beleza provoca o ladrão mais do que o ouro. (William Shakespeare)

É a beleza que começa a agradar e a ternura completa o encanto. (Bernard Fontenelle)

O amor construído sobre a beleza morre com a beleza. (John Donne)

Quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece. (Franz Kafka)

A modéstia está para a virtude como o véu está para a beleza. (Philip Dormer Stanhope)

Num mundo sem beleza e infeliz, o que o mais rico dos homens pode comprar é apenas feiúra e infelicidade. (George Bernard Shaw)

A beleza é uma contradição velada. (Jean-Paul Sartre)

Ainda não vi ninguém que ame a virtude tanto quanto ama a beleza do corpo. (Confúcio)

Ó beleza! Onde está tua verdade? (William Shakespeare)

 O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos (Eleanor Roosevelt)

A verdade esbarra na inteligência; a beleza penetra no coração. (Henri Lacordaire)

O amor conserva a beleza assim como o rosto das mulheres se nutre de carícias – o mesmo vale para as abelhas, que se alimentam de mel. (Anatole France)

A beleza do rosto é frágil, uma flor passageira. A beleza da alma é firme e segura. (Molière)

A beleza em uma mulher é igual ao dinheiro para o homem: uma força. (Georges Clemenceau)

É terrivelmente triste que o talento dure mais do que a beleza. (Oscar Wilde)

A beleza do corpo é um viajante que passa. (Diego de Saavedra Fajardo)


(Todas as imagens são pinturas do artista plástico holandês Pieter Cornelis Mondriaan, conhecido como Piet Mondrian,  1872-1944)  

sexta-feira, 19 de abril de 2013

TRINTA E NOVE FRASES SOBRE O CINEMA


O Sétimo Selo (Dir. Ingmar Bergman, 1956)


O cinema não tem futuro comercial. (Auguste Lumière)

O cinema falado nunca dará certo. É barulhento demais e impede que as pessoas durmam durante o filme. (Adolph Zukor)

Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação. (Charles Chaplin)

O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho. (Orson Welles)

Cinema-verdade? Prefiro o cinema-mentira. A mentira é sempre mais interessante do que a verdade. (Federico Fellini)

Casablanca (Dir. Michael Curtiz, 1942)

Cinema é a fraude mais bonita do mundo. (Jean-Luc Godard)

Cinema não é para entreter, é para fazer sonhar. (Win Wenders)

O cinema possibilita o contar histórias diferentes por mais que o tema seja o mesmo: flagrar o movimento do homem rumo à redenção. Há sempre uma alegoria por trás da história. (Rob Cohen)

Hollywood é um lugar onde eles te pagam mil dólares por um beijo e cinquenta centavos por seu talento.
 (Marilyn Monroe)

Depois de passar anos em Hollywood, convenci-me de que os verdadeiros heróis do cinema estão na platéia. (Wilson Mizner)


Manhattan (Dir. Woody Allen, 1979)

Adoro a televisão. Antes dela, sempre dizia que o cinema era a arte mais vagabunda que existia. Agora já estamos em segundo lugar. (Billy Wilder)

Filmes que são entretenimento dão respostas simples, mas acho que isso é, em última análise, mais cínico, já que nega ao espectador espaço para pensar. É dever da arte fazer perguntas, não fornecer respostas. (Michael Haneke)

Faço cinema como faço amor: buscando satisfação. (Roman Polanski) 

O que entra para a história é quanto o filme faturou e não aquilo que ele traz de reflexão. (Murilo Salles)

O bom cineasta já começa a dirigir quando põe palavras no papel. (Joseph Mankiewicz)

Guerra nas Estrelas (Dir. George Lucas, 1977)

Deus fez o mundo em seis dias. No sétimo, Stanley Kubrick mandou tudo de volta, para modificações. (Rex Reed)

É agradável, de tempos em tempos, tentar imaginar o que teria sido a existência se Deus tivesse conseguido um orçamento e roteirista melhores. (Woody Allen)

Se eu filmasse “Cinderela”, a plateia pensaria que havia um cadáver na carruagem. (Alfred Hitchcock)

O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais um vilão do cinema mudo proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota. (Nelson Rodrigues)

No cinema americano, drogado de tantos efeitos especiais e violência, pode-se colocar a metade de um filme em outro filme qualquer e ninguém vai perceber. É tudo igual. (Lina Wertmüller)
 

Laranja Mecânica (Dir. Stanley Kubrick, 1971)

O cinema é uma maravilhosa máquina do tempo: é possível apresentar aos jovens de hoje os jovens da década de 60 que tinham um objetivo pelo qual lutar. (Bernardo Bertolucci)

Se se ganha dinheiro, o Cinema é uma indústria. Se se perde, é uma Arte. (Millôr Fernandes)

“Cleópatra” foi os três piores filmes que já fiz. (Joseph Mankiewicz)

Às vezes mando filmar algumas cenas fora de foco. É a única maneira de ganhar o prêmio de melhor filme estrangeiro. (Billy Wilder)

O cinema deve exprimir as linhas de força da existência e se preocupar menos em ser cópia da realidade. (Claude Chabrol)


O Dólar Furado (Dir. Giorgio Ferroni, 1965)

O cinema brasileiro é feito com dinheiro público. Com o dinheiro de um curta se fazem quatro casas populares, com o dinheiro de um longa dá para fazer um hospital. Cinema, no Brasil, é feito para os ricos com dinheiro dos pobres. (Jorge Furtado)

A maioria dos homens se apaixona por Gilda, mas acorda comigo. (Rita Hayworth)

[Humprey] Bogart é um sujeito genial até 11h30min da noite. Depois desse horário, ele começa a pensar que é Bogart. (Mike Romanoff)

Cineastas sempre mentem quando falam de seus filmes: ocultam quais as cenas que tiveram de cortar para o resultado ser razoável e quem são os atores errados que escolheram. (Bertrand Blier)

Aquilo que, bêbados, vemos em outras mulheres, vemos em [Greta] Garbo sóbrios. (Kenneth Tynan)

2001 - Uma Odisséia no Espaço (Dir. Stanley Kubrick, 1968)

Qualquer idiota consegue decorar um texto. Mas era preciso ser uma grande artista para chegar ao estúdio sem saber uma linha e dar a “performance” que Marilyn Monroe dava. (Billy Wilder)

Atores são lixo. (John Ford)

Na vida real, a maioria dos atores de cinema é uma decepção. Eu, por outro lado, sou melhor na vida real do que no cinema. (Marlene Dietrich)

Eu nunca disse que os atores eram gado. Disse apenas que deveriam ser “tratados” como gado. (Alfred Hitchcock)

Às vezes as pessoas que ganham o Oscar me fazem pensar que algo não está certo. (Bill Murray)

Encouraçado Potemkim (Dir. Sergei Mikhailovich Eisenstein, 1925)

É nos cinemas que se realiza o único mistério totalmente moderno. (André Breton)

A violência é um dos aspectos mais cômicos que você pode colocar na tela. (Quentin Tarantino)

O cinema é o modo mais direto de entrar em competição com Deus.
 (Federico Fellini)

Estou aguardando o fim do cinema com otimismo. (Jean-Luc Godard)



quinta-feira, 18 de abril de 2013

MACHU PICCHU

Escritor que começa “mais ou menos”, em algum momento pode inverter o jogo e escrever alguma narrativa acima da média?  Talvez. Embora isso não seja muito provável. As chances são remotíssimas. Gênio não nasce embaixo de pé de alface. Ou por intermediação do Divino Espírito Santo.
 
O dublê de músico, apresentador de televisão e escritor Tony Bellotto iniciou a carreira literária com três romances policiais (Belini e a Esfinge, Bellini e o Demônio e Bellini e os Espíritos). Apesar de boa recepção por parte de alguns leitores e a adaptação do primeiro para o cinema, nenhum deles pode ser considerado obra-prima. Inclusive porque especialistas nesse gênero literário detectaram significativas influências de Raymond Chandler e Dashiell Hammett – o que indica que Bellotto parece ter dificuldade para perceber que a narrativa de mistério evoluiu e, mais importante, superou algumas fórmulas prontas.

Seja porque o filão esgotou, seja porque preferiu explorar novas possibilidades, Bellotto mudou a trajetória de trabalho – e investiu em outro tipo de abordagem narrativa. Para surpresa geral, a comédia (ou tragédia) de costumes Machu Picchu possui aspirações elevadas. Com bisturi afiado pelas sutilezas técnicas (capítulos curtos, que entrecortam a narrativa, controle descritivo, poucos diálogos e narradores alternados), quer dissecar o drama familiar.
 
O texto flui suavemente. Tão suave que até engana. Como a mentira possui perna curta, a ilusão não consegue chegar até a esquina. Uma leitura mais atenta desfaz a cortina de fumaça e restabelece o básico. Ou melhor, revela o artificialismo. O domínio da carpintaria narrativa não é suficiente para efetivar um salto de qualidade – aquele plus que separa o talento do esforço. Inclusive porque (como é de conhecimento amplo, geral e irrestrito) o inferno está repleto de escritores esforçados.
 
O nome famoso na capa aveludada e ilustrada por montagem fotográfica modernosa agrega valor às 114 páginas da narrativa – que está concentrada em um único dia. Dia de cão. Desses que, ao longo do lento escorrer dos minutos, acumulam desacertos e revelações absurdas. E permitem que o insuportável assuma a cena.
 
A substância narrativa vai sendo diluída pelo superficial, pelo anedótico. Zé Roberto e Chica se conhecem durante a ECO-92, comprovando o quanto é caricata a história desses personagens que recusam aceitar a vida adulta, que preferem (re)viver a história de Peter Pan – através da ecologia ou do infantilismo ideológico.
 
Alguns dos defeitos do texto são encobertos por palavrões e cenas picantes. Chica não poupa a si mesma ao relatar que Helinho, o amante, prefere a sodomia. Zé Roberto, apaixonado por uma fantasia sexual (W19), é fotografado se masturbando diante do computador. Rodrigo (filho do casal, maconheiro profissional) constrói paraísos artificiais. O quarto personagem da trama, Claudinha (filha de Zé Roberto e da ex-top model Beti Schnaider, namorada de um pagodeiro), não passa de um elemento decorativo – cuja participação no enredo serve apenas para exemplificar o eterno preconceito das elites contra os negros.
 
Diante da impossibilidade de enumerar todos os clichês, resta o espanto proposto pelo desfecho inverossímil. A catarse coletiva – que imita as novelas radiofônicas dos anos 50 – não esclarecer a trama, não propõe algo novo. Não produz humor ou inteligência. Apenas encerra, de maneira grotesca, Machu Picchu.
 
 

TRECHO ESCOLHIDO

 

Tenho chegado a algumas conclusões sobre congestionamentos. O apocalipse, o juízo final, o “turning point”, o nirvana, o ponto ômega, a apoteose, o xis do problema, chame como quiser, a solução da equação está nos congestionamentos. A civilização, na ânsia obsessiva por mobilidade e velocidade, acabou dando na imobilidade total, atolada num congestionamento monstruoso. Agora precisamos aprender como sair dessa. Talvez a primeira medida seja simplesmente abrir a porta do carro e cair fora. Eu adoraria fotografar um imenso cemitério de automóveis, o museu a céu aberto de uma civilização extinta, uma Machu Picchu de alumínio e combustível fóssil.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

JUAN JOSÉ BIGAS LUNA (1946-2013)

O cineasta catalão Juan José Bigas Luna morreu em 05 de abril de 2013. Tinha 67 anos. Leucemia, dizem os jornais. Imediatamente entrei em estado de respeitoso luto. Bigas Luna foi – de certa forma – responsável por alguns momentos divertidos da minha vida adulta. Herói? Anti-herói? Nenhum dos dois. Mesmo assim um personagem importante. Desses que a gente somente percebe a falta quando não mais podem estar presentes.

Devo ter visto quase todos os seus filmes. Quer dizer, aqueles que foram lançados no Brasil em vídeo e DVD. Não foram muitos, claro. Muitos deles lançados vários anos depois da estréia em Espanha. Assisti – várias vezes – As Idades de Lulu (Las edades de Lulú, 1990), Jamón, Jamón (1992), Ovos de Ouro (Huevos de Oro, 1993), A Teta e a Lua (La Teta y La Luna, 1994), A Camareira do Titanic (La Camarera del Titanic, 1997) e Juani (Yo Soy La Juani, 2006). Talvez tenha visto outros.  Não recordo. Ele dirigiu cerca de vinte filmes. Só se salvaram, no meu arquivo mental, uma ou outra cena. E nenhuma pode ser considerada cinematograficamente importante. No básico, mulheres seminuas, lindíssimas, forças da natureza.

Bigas Luna defendia uma espécie peculiar de cinema. Aquele em que o sexo heterossexual atua como força-motriz da vida. O destino dos indivíduos decidido na cama – ou no banco traseiro do carro. No limite entre a pornografia e a poesia em estado bruto, não deixava espaço para flores e amores corteses. Defendia a tese de que a vida está repleta de prazeres – que devem ser consumidos imediatamente. Abominava o moralismo católico e as lições politicamente corretas. Era um provocador profissional.

E isso quer dizer que alguns dos seus filmes flertam com questões complicadas. Desde os dramas psicológicos não-resolvidos (A Teta e a Lua) até as fantasias sexuais mais secretas (As Idades de Lulu). Manejou, com perícia de cirurgião, os perversos mecanismos de sedução amorosa (Jamón, Jamón) e a volúpia de contar algumas das histórias que mexem com o imaginário do espectador (A Camareira do Titanic). Também discutiu a forma corruptora com que o capitalismo predador altera o comportamento social (Juani).

Fotógrafo profissional, encontrou no cinema uma forma de “dominar” as imagens em movimento. Experimentou essa ilusão entre 1974 e 1977, com vários documentários e curtas-metragens. Em 1978, decidiu dar um passo no escuro. Encontrou terra firme. Tatuagem, baseado em um romance de Manuel Vásquez Montalbán, foi o seu primeiro longa-metragem. O segundo, Bilbao, participou do Festival de Cannes de 1979. O reconhecimento demorou um pouco, mas não muito. Jamón, Jamón ganhou o Leão de Prata do Festival de Veneza, em 1992.

Embora fossem contemporâneos, Bigas Luna divergia frontalmente de Pedro Almodóvar – por motivos ideológicos, culturais e sexuais. No entanto, os dois cineastas comungavam do talento de diversos atores, sendo os mais famosos Javier Bardem e Penélope Cruz.

Transitando entre o real e o imaginário, Bigas Luna sabia misturar erotismo e boas histórias da vida privada. Apesar do olhar reprovador das mentes mais obscuras, que imaginam o sexo como um tema proibido, atrás da câmera ele era um mestre – eternamente encantado com a beleza da mulher espanhola. Fará falta.    

segunda-feira, 8 de abril de 2013

O CROCODILO

Milhares de componentes do brinquedo Lego estão espalhados pelo chão do apartamento. Os meninos Andrea (nove anos) e Giacomo (sete anos) estão procurando por uma peça minúscula – que não está lá.


Essa aparente trivialidade talvez seja uma das muitas metáforas que estruturam o magistral O Crocodilo (Il Caimano. Dir. Nanni Moretti, 2006), filme-síntese de um país, a Itália, que, como diz um dos personagens, Jerzy Sturovski (interpretado por Jerzy Stuhr), é um povo dividido entre o horror e o folclore.


A estrutura narrativa de O Crocodilo, um filme dentro de outro filme, tem como fio condutor Silvio Berlusconi – político que pode ser definido através da mistura do horror com o folclore.

O protagonista de O Crocodilo, Bruno Bonomo (Silvio Orlando), embora seja um “bom homem”, não passa de um produtor de cinema patético, vivendo grandes crises. Completamente falido, se alimenta do passado, de um tempo que nunca mais se repetirá. O seu casamento está desmoronando. Com a mesma violência de uma cadeira que cai e assusta a todos com o barulho, não consegue controlar a obsessão amorosa. A falta de esperança tornar-se visível a todo instante.

Esse comportamento descompensado é que o faz voltar os olhos ao presente e à vida. Certo dia, quando comparece à exibição de um dos seus filmes, recebe um roteiro. Impossibilitado de filmar uma das histórias de terror que adora, sem vontade de produzir um script sobre Cristóvão Colombo, lê algumas páginas do texto e decide levar adiante o projeto. Por diversos motivos, inclusive a falta de percepção política, não entende que está trocando a ficção pela realidade. Quando descobre o tema que movimenta o novo empreendimento, além de provocar um acidente de trânsito, fica histérico e diz para Teresa (Jasmine Trinca), a jovem diretora que lhe entregou o manuscrito: Filme político, de esquerda. Há 30 anos eu odiava isso, imagine agora. Falta convicção nesse argumento – sobra medo de se comprometer com alguma observação crítica.

Os tempos são outros. A corrupção tomou conta da Itália. As atividades políticas, econômicas e sociais de Berlusconi representam a decadência do país. Controlando emissoras de televisão, rádios e jornais, ele se julga acima do bem e do mal. Uma nova forma de fascismo se estrutura, corrompe e seduz – evidência comprovada pelos resultados de inúmeras eleições. 

O cinema se transforma em elemento de redenção emocional. Bruno, enquanto enfrenta os múltiplos problemas que acompanham a produção cinematográfica (financiamento, estrelismo dos atores, mentiras, crises criativas), vai adquirindo consciência de que a vida dos indivíduos está atrelada ao mundo exterior.

Por conta dos problemas financeiros, Bruno transformou algumas dependências da produtora em residência provisória. Quando precisa passar algum tempo com os filhos leva-os a um hotel. Pai amoroso, ajuda nos deveres escolares, conta histórias de terror antes dos meninos dormirem, joga futebol com eles, monta barraca de acampamento no meio da sala, leva-os ao set de filmagem. Estabelece uma cumplicidade inquebrantável.

Assim como o brinquedo das crianças fica inacabado por falta de uma peça, a vida dos adultos também precisa de algum elemento que está perdido. Talvez seja a política, talvez seja a fantasia. O Crocodilo ajuda a entender essa carência.
Nanni Moretti dirigiu, entre outros filmes, Caro Diário (1994), Abril (1998), O Quarto do Filho (2000) e Habemus Papam (2011).

sexta-feira, 5 de abril de 2013

PAULO LEMINSKI: O SAMURAI DA POESIA




A publicação de Toda Poesia, livro que reúne (até prova em contrário) todos os poemas de Paulo Leminski, reacendeu as holofotes sobre um dos mais impressionantes personagens da história da literatura brasileira.

O espírito ambulante da contracultura (segundo definição de Luiz Carlos Maciel) foi um homem inquieto, menino prodígio, judoca, músico sofrível, barulhento professor de literatura e história em cursinho pré-vestibular, monge zen-budista, eternamente sem-dinheiro, indivíduo difícil de ser definido - dividindo a vida entre a poesia e as drogas, a incontornável vontade de agitar os macaquinhos do sótão.

apagar-me

diluir-me

desmanchar-me

até que depois

de mim

de nós

de tudo

não reste mais

que o charme


A suavidade dialética do haicai: fruta agridoce que destrói o convencional ao revelar sabor surpreendente no terceiro verso. A irreverência do prazer, como recomendava o senhor Bananeira, mestre que subverteu certezas, comportamentos, miragens. Perder tempo com quimeras desabonadoras equivale ao desperdício da vida.

para fazer uma teia
a aranha cobra pouco
apenas um mosquito


Entre o alfabeto e a zetética, entre gregos e latinos, dialogando com Petrônio e Beckett, Leminski sempre esteve atento ao arrebatamento amoroso e às mulheres. Mesmo quando se envolveu em romances complicados, fez pouco caso de cenas românticas ou dos oásis de sedução: o pecado não é original: aliciamento: o intimo e o ínfimo alimentando tensão e tesão: excitação: toda a questão se concentrava em saber errar o alvo – como o arqueiro zen – com a máxima precisão (como escreveu o José Miguel Wisnik). 


ARTE DO CHÁ

ainda ontem

convidei um amigo

para ficar em silencio

comigo


ele veio

meio a esmo

praticamente não disse nada

e ficou por isso mesmo


Oscilações do existir.  As coisas que sentimos e não compartilhamos. As artimanhas da ideologia. O instante em que a lâmina da espada corta o ar, colocando em xeque a transitoriedade da vida ou estabelecendo o horizonte poético prometido para muitos e encontrado em poucos. A honra do samurai, a suave continuação do caminho sem fim.

en la lucha de clases

todas las armas son buenas

piedras

noches

poemas


Catatau. Provocações joyceanas, velozes insights. A poesia concreta esticada no varal da prosa, secando palavras-valises, valises cheias de palavras, basta retirá-las do esquecimento e pendurá-las ao sol, ao vento, fluem o saber e o sabor com a mesma intensidade de uma folha que cai da árvore, o chão se aproximando lentamente. Revelação. Revolução. A insanidade da poesia e a implosão da prosa. Explosão de sons e fonemas. Música urbana, delírio. Laser e satori.   

o pauloleminski

é um cachorro louco

que deve ser morto

a pau a pedra

a fogo a pique

senão é bem capaz

o filhodaputa

de fazer chover

em nosso piquenique


Agora que São Elas. Mistura fina de paródias, citações, ironias, sarcasmos. A norma culta miscigenada com o coloquial. Palavrão e amenidades. Túnel que une a Casa Grande com a Senzala.  Tramas. Ramas. Ramos. Folhagem. Floresta. Labirintos. Minotauros. Significados ocultos. Significantes explícitos. Insignificantes e irrelevantes - como qualquer coisa que não sejam versos. (...) cair de pé e sair correndo como um alucinado desses lugares perigosos que o acaso coloca no nosso caminho. Nada pode ser sem ser nada. Ou tudo. Ex-tudo. Estudo.

dia

daí-me

a sabedoria de caetano

nunca ler jornais

a loucura de glauber

ter sempre uma cabeça cortada a mais

a fúria de décio

nunca fazer versinhos normais


As Parcas cortaram o cordão que unia a vida de Paulo Leminski Filho com o mundo. A vida iniciada em 24 de agosto de 1944 encerrou-se em 07 de junho de 1989. Cirrose hepática. Parada cardíaca. Encarar o fim como sinônimo do início.




quinta-feira, 4 de abril de 2013

A ARTE DE ESCREVER OBITUÁRIOS

A Sibéria do jornalismo contemporâneo é a coluna dos obituários. Pior do que isso somente o instante em que a vida do jornalista responsável pelo setor se transforma no texto publicado. Esse é um dos riscos da profissão. Essa é uma das ironias da vida – que muitas vezes prefere “publicar” a piada em detrimento da sobriedade das relações sociais.

Para quem quer construir uma carreira profissional no jornalismo, escrever comentários fúnebres (também conhecidos como necrológios) se assemelha ao garimpar ouro em mina de sal. Publicado em locais inóspitos, muitas vezes ao lado de anúncio publicitário ou calhau, correndo o risco de sequer ser percebido pelo leitor, esse tipo de texto exige um redator com algum talento literário e que seja capaz de resumir a história de uma vida em poucos parágrafos.

Há quem goste. Mais do que isso, transforme a considerada pouco nobre função em texto de qualidade. Afinal, como disse alguém (ou, se não disse, deveria ter dito), o destino da literatura é a vida eterna – mesmo quando se trata da morte. O Livro da Vida (obituários do New York Times), volume organizado por Matinas Suzuki Jr., e que integra uma coleção voltada ao Jornalismo Literário, ambiciona alcançar esse patamar.

Em 310 páginas estão espalhados 57 obituários, alguns textos assessórios e um inspirado posfácio (A pauta de Deus). Para surpresa de muitos leitores, a coletânea (que aparentemente destaca um aspecto menor do jornalismo) deve ser vista como um manual indispensável para quem vive e sobrevive nas redações dos jornais e revistas. Estudantes incluídos nesse pacote. 

Entre os muitos personagens retratados há uma fauna singular, dezenas de vidas impressionantes, quase inverossímeis. Para todos os gostos – ou desgostos. Desde Jerry Siegel (o homem que criou o Super-homem e vendeu os direitos autorais por míseros 130 dólares) até Nguyen Ngoc Loan (o general vietnamita que ficou famoso ao ser fotografado executando um preso em 1968).

Um dos momentos mais interessantes remete a um episódio da históriado aviador Douglas Corrigan. Em Nova Iorque, ele pediu permissão para um voo experimental, sem escalas, para Los Angeles, Califórnia. Aterrissou 28 horas depois em Dublin, Irlanda. Passou a vida inteira sustentando que havia feito uma curva errada e se perdera por causa de uma bússola defeituosa.

Com carinho e talento, o livro celebra a existência humana – como comprova o texto fúnebre em homenagem a Robert McG Thomas Jr., o homem que praticamente inventou a fórmula jornalística utilizada nas páginas de obituários.

Para Matinas Suzuki Jr., Os melhores obituaristas desempenham o papel de pequenos deuses ao dar o sopro de novas vidas, pelo curto espaço da leitura (...). Quando um obituarista acerta a mão, chega a dar imortalidade a certas coisas que, sem ele, seriam singelamente irrelevantes. São os detalhes que fornecem valor à existência humana, que nos distinguem em um universo de mesmices.