Páginas

terça-feira, 28 de maio de 2013

A FILOSOFIA DE MAE WEST (1892-1980) EM 40 FRASES



O amor tudo pode, exceto contra a pobreza e a dor de dentes.

Ama o teu próximo – e, se ele for alto, moreno e bonitão, será muito mais fácil.

Quando sou boa, sou ótima. Mas, quando sou má, sou muito melhor.

Um homem de quarenta é que está no ponto: tem mais educação, mais charme, mais postura – e mais dinheiro.

Entre dois males, escolho sempre o que ainda não experimentei.

A melhor forma de se comportar é se comportar mal.

Errar é humano – mas parece divino.

Não são os homens em minha vida que importam, mas a vida em meus homens.

Isso é uma arma no seu bolso ou você está entusiasmado em me ver?

Já estive em mais colos do que um guardanapo.

Eu nunca iria para a cama com um perfeito desconhecido, a menos que este desconhecido fosse perfeito.

Quando uma mulher erra, os outros homens acertam o passo atrás dela.

Já fui tão pobre que nem sabia de onde viria o meu próximo homem.

Eu costumava ser a Branca de Neve – mas acabei desistindo.

Tenha um namorado para um dia chuvoso e outro, caso não chova.

O beijo de um homem é a sua assinatura.

Encontrei homens que não sabiam como beijar. Sempre achei tempo para ensiná-los.

Só se vive uma vez, mas se você fizer tudo certinho, uma vez é o bastante.

Os diamantes são as minhas medalhas de guerra.

Mantenha um diário, querida, e um dia ele a manterá.

A virtude tem suas vantagens, mas não dá bilheteria.

Mais vale um homem em casa do que dois na rua.

As coisas chegaram a tal ponto hoje em dia que, se um homem abrir a porta para você passar primeiro, ele deve ser o porteiro.

Já tive tantos homens na vida que às vezes acho que o FBI devia me procurar, quando quisesse comparar suas impressões digitais.

Nunca amei outra pessoa do modo que amei a mim mesma.

Você nunca é velho demais para rejuvenescer.

Ela é o tipo de garota que deu certo na vida.

Sempre se precisa de dois para encrencar um.

Nunca pergunte a um homem por onde ele andava. Se não estava fazendo nada errado, não precisa de álibi. E, se estava, a culpa é sua, minha filha.

Não sou um modelo de mulher. Um modelo não passa de uma imitação da realidade.

Deus deu curvas às mulheres. Mas os costureiros efeminados acabaram com elas, desenhando roupas que só podem ser usadas por mulheres parecidas com espantalhos. Bolas, uma mulher pode ser fina e ter curvas!

Digam o que quiser sobre vestidos longos, mas eles cobrem uma multidão de pernas.

Mulher é como um chá, nunca se sabe o quão forte ela é até colocá-la na água quente.

Uma enorme fatia de algo bom é maravilhoso.

Eu mesma escrevi a história. É sobre uma menina que perdeu a reputação e jamais sentiu falta dela.

- Qual é a sua altura, cowboy?
- Dois metros e dezoito centímetros.
- Bem, esqueça os dois metros e vamos falar sobre esses dezoito centímetros. 
(Diálogo do filme Myra Breckinridge)

- Meu Deus, que diamantes lindos?
- Deus não teve nada a ver com isso, queridinha.

O casamento é uma grande instituição, mas eu não estou preparada para as instituições.

Sou a favor da censura. Afinal, fiquei rica por causa dela.

Um centavo economizado é uma garota perdida.


sexta-feira, 24 de maio de 2013

IMPASSES ENTRE GIRONDINOS E JACOBINOS



As revoluções começam com insatisfação e terminam com frustração. Qualquer manual de política ensina essa verdade básica – provavelmente com outras palavras. Exemplos não faltam. Basta escolher aquele que melhor lhe aprouver. França, Rússia, Brasil (Independência, República, Getúlio Vargas em 1930). Em determinado instante histórico, algum país ou região oprimida inicia algum tipo de clamor público por mudanças. Segue um período turbulento, onde ações e reações trocam tapas e promessas vazias. A situação inicial se modifica, embora isso seja imperceptível para quem está envolvido na luta. No estágio seguinte (apesar dos muitos cadáveres que apodrecem na planície – ou por isso mesmo), o passado se perde, o presente se torna incerto e a loucura costuma devorar o futuro. É nesse momento de confusão e indefinições que algum oportunista toma conta da brincadeira e expulsa as outras crianças do parque de diversões. O ciclo subversivo se completa, mas com interesses exponencialmente diferentes daqueles que haviam sido idealizados. Cabe às viúvas da revolução derramar lágrimas amargas por algo que nunca existiu ou que não deveria ter acontecido.

Um dos mais interessantes textos alegóricos sobre os acontecimentos que ocorrem no período pós-revolucionário foi escrito pelo inglês Julian Barnes. Escrito em 1992, e publicado no Brasil em 1996, O Porco-espinho relata o julgamento político de Stoyo Petkanov.

– Atanas, eu gostaria que você fosse sério. Uma vez na vida.

– Pensei que fizesse parte das coisas, Vera.

– Parte de quê?

– Da liberdade. Liberdade de não ser sério. Jamais de novo, jamais, jamais, se não corresponder à sua vontade. Não será um direito meu ser frívolo pelo resto da vida, se é isso que eu quero?

– Atanas, você já era tão frívolo quanto agora antes das mudanças.

– Mas na época era um comportamento antissocial. Vandalismo. Agora é meu direito constitucional.


Petkanov liderou a revolução que resultou na deposição e morte de Nicolae, o último rei de um país fictício na Europa central .Esse conjunto de dados, somado com um pouco de especulação, talvez permita uma leitura pouco ortodoxa: O Porco-espinho é uma espécie de biografia não-autorizada de Todor Khristov Zhivkov (1911-1998), líder comunista da Bulgária.  

Depois que assumiu o poder, a nova classe política afastou todos aqueles que lhes podiam fazer sombra, controlou a inflação e instituiu uma ditadura socialista. Entre o terror e ações sub-reptícias conseguiram eliminar a oposição – inclusive diversos membros do governo. Durante 33 anos, a República se tornou sinônimo de um governo ditatorial.

O responsável por formular as acusações contra Stoyo Petkanov, o procurador-geral Peter Solinsky, filho de um dos homens que lutaram para que Petkanov assumisse o poder – e que, no tempo adequado, foi expurgado – está tomado pelo furor moral. Quer fazer justiça. Mais do que obter a punição, quer provar a culpa. Embora não saiba exatamente como isso se tornará possível.


Esbanjando bom-humor, Petkanov aguarda o julgamento. Espadachim das sutilezas semânticas, sente indescritível prazer quando acerta diversos golpes em Stolinsky. Infelizmente, nenhum se mostra suficiente para causar dano. Ou novos ferimentos. O estreitamento ideológico funciona como couraça e anestésico. E isso significa que, independente do esforço para provar o ridículo da situação, Stolinsky conseguirá condená-lo. O Estado, repetindo a imagem protagonizada por Saturno, costuma devorar seus filhos mais amados. It's nothing personalit's just business – como costumam dizer os cínicos.

Independente do que os livros de História registram, o caráter de girondinos e jacobinos se confunde na palheta de cores que a política utiliza para desenhar o horror. Enquanto, no proscênio,  alguns atores valorizam um papel bem ensaiado, a equipe técnica esconde a sujeira nos bastidores. O Porco-espinho conta – de maneira sutil, com ironia e sarcasmo – parte da farsa em que bandidos e heróis revelam ser “farinha do mesmo saco”.

TRECHO ESCOLHIDO

– Baseado em que leis está me acusando, Peter? As leis de vocês ou as minhas?

– Ah! As suas leis. A sua constituição.

– E de que me achará culpado? – O tom era vigoroso e, não obstante, conspiratório.

– Eu deveria achar você culpado de muitas coisas. Roubo. Desvio de verbas estatais. Corrupção. Especulação. Crimes monetários. Enriquecimento ilícito. Cumplicidade no assassinato de Simeon Popov.

– Eu nem sabia disso. Aliás, pensei que tivesse morrido de um ataque do coração.

– Cumplicidade de tortura. Cumplicidade na tentativa de genocídio. Várias conspirações para distorcer o cumprimento da justiça. As acusações levantadas de fato contra você serão anunciadas nos próximos dias.

Petkanov grunhiu como se tivesse avaliando uma oferta de negócios.

– Nenhum estupro, pelo menos. Pensei que fosse esse o motivo da manifestação daquelas mulheres, já que, segundo o procurador-geral Solinsky, eu as estuprei todas. Mas, pelo que percebi, protestavam apenas contra o fato de haver agora menos comida nas lojas do que durante qualquer período anterior, sob o Socialismo.

– Não estou aqui – respondeu asperamente Solinsky – para discutir as dificuldades inerentes à mudança de uma economia controlada para uma economia de mercado.

Petkanov deu um risinho.

– Parabéns, Peter. Dou-lhe os meus parabéns.

– Por quê?

– Por essa frase. Ouvi a voz de seu pai falando. Tem certeza de que não quer voltar para nossa rebatizada organização?

– Voltarei a falar com você diante do tribunal.

Petkanov prosseguiu com sua risadinha enquanto o procurador juntava seus papéis e se retirava. Em seguida, aproximou-se do jovem miliciano que estivera presente durante toda a entrevista.

– Gostou, meu jovem?

– Eu não ouvi nada – respondeu o soldado, da maneira mais improvável possível.

– Existem dificuldades que são inerentes à mudança de uma economia controlada para uma economia de mercado – repetiu o ex-presidente. – Não há comida na porra das lojas. 


terça-feira, 21 de maio de 2013

POR ACASO, ESTAMOS VIVENDO O OCASO DO LIVRO FÍSICO?


Que os vendilhões do templo a-pós-o-moderno (embriagados pelas doces ilusões e alusões fornecidas pela voracidade do capitalismo) perdoem aos românticos, entre os quais me incluo, mas o livro físico – assim como a beleza – ainda é fundamental. Ainda. Não se sabe por quanto tempo será possível resistir ao canto da sereia. Com uma voz melíflua e persuasiva, a revolução digital se apossou da reprodutibilidade técnica. Inventou quimeras, blefes e engôdos. E, em qualquer situação que se apresente, apregoa a derrubada das bibliotecas, meros depósitos inúteis de toneladas de papel pintado com tinta preta (na maior parte das vezes). Por que cansar o corpo, carregando centenas de volumes, quando o mercado está vendendo diversos modelos de dispositivos eletrônicos para leitura? Basta escolher o que mais se adapta às necessidades. Leitores eletrônicos para 500 livros? Temos. 1000 livros? Moleza. Cada um deles está repleto de surpresas. Novidades inesquecíveis. Preços irresistíveis. Alguns, inclusive, permitem acesso à Internet. Quem poderia recusar tamanha facilidade? Quem poderia manifestar obstáculos ao futuro? Ou ao progresso?
Ninguém - embora assuste a velocidade com que o descartável, sem descanso, descarta o que não deveria descartar. De posse da maquininha fantástica, o indivíduo perde a noção de que o ato físico da leitura é uma experiência sensorial intensa. Desconhece o valor do contato de pele com pele, a mão naquilo e aquilo na mão. Gadgets se multiplicam através de algum método de reprodução assexuada, provavelmente imitando a experiência exponencial dos automóveis (os novos veículos, lançados a cada ano, muitas vezes diferem do modelo anterior por um parafuso cromado na lateral inferior do pára-choque). Basta conectar o fio na tomada. O mundo tecnológico não eletrocutará ninguém, afirmam. Pode ser. Inclusive porque faltará luz. Apesar das baterias. Ou similares. O combustível fóssil é finito, mas quem quer discutir essas bobagens nos novos tempos? Ou tempos novos? O que importa é oportunizar (oportunizar? chibata em quem usar esse tipo de expressão!), oportunizar a leitura de qualquer texto em qualquer lugar. Quem vai discordar desse tipo de argumento? Embora, cabe lembrar que, se os defensores da modernidade tecnológica descerem do salto alto onde estão encastelados e dedicarem uns dois minutos para acessar a Wikipédia (ou sítio similar), descobrirão que o mesmo ponto de vista foi defendido por Johannes Gensfleischzur Laden zum Gutemberg, em algum momento entre 1440 e 1450, quando elaborou o sistema de tipos móveis e a impressão em série. E permitiu que o códice evoluísse para o formato livro. Isso pouco importa, dizem.  
Depois de quase 600 anos de história estamos vivendo o momento de substituir o suporte que consagrou o livro físico como a mais importante ferramenta de transmissão do conhecimento. É o que dizem. Sem remorsos, sem noção de que queimar a História equivale destruir a humanidade, flertar com a frivolidade, negar que a vida é um continuum de aprendizagem. Nenhum problema, dizem. Ler um romance de 500 páginas na forma física ou na tela exige tempo e reflexão crítica. Elementos opostos ao time is money que corrói o conhecimento, transformando-o em sinônimo de comercio. Ou outdoor da propaganda ideológica. Ou qualquer outra porcaria. Que aqueles que não são adeptos da leitura perderam o olfato, não conseguem distinguir entre uma coisa e outra. Jamais saberão o quanto é bom o cheiro de livro novo. Nunca admitirão que o conhecimento não é asséptico e, entre outras surpresas, carrega quilos de poeira em suas páginas. Ignoram que cada livro possui peso e que é bom carregá-lo debaixo do braço ou nas mãos. Não percebem que o som de folhear um volume equivale a uma sinfonia. E que livro exposto na vitrine de livraria se assemelha às tentações mais irresistíveis. Tão irresistíveis como algumas palavras que, a cada dia, se tornam estranhas. Iluminuras, incunábulos, códices, brochuras, alfarrábios. Palavras que perderam os sentidos. Desmaiaram diante da avassaladora presença da linguagem utilizada pelos dominadores. E-book, E-reader, E-bullshit. Parte da poesia que emana do viver está desaparecendo diante do ocaso do livro físico – que é o mesmo da cultura e da civilização. 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

O FASCISMO NA TELA DO CINEMA


Nojento. Não há outra definição para sintetizar o filme A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, Dir. Kathryn Bigelow, 2012). Por diversos motivos, não o vi quando passou no cinema. Deveria ter permanecido na ignorância. Mas, ao ver o DVD na locadora, imaginei que se tratava de algo interessante. Mero engano. Mera representação do fascismo imperialista – sem conteúdo, exceto o esforço publicitário de que a luta contra o terrorismo perdoa todos os pecados. Em síntese, lixo.

A versão cinematográfica do assassinato de Osama Bin Laden começa com um recurso tipicamente canalha. Com a tela escura, o espectador ouve algumas vozes desesperadas de vitimas do 11 de setembro tentando se despedir de parentes ou suplicando por ajuda. Ou seja, determinado o crime, urge punir o suposto criminoso. São esses poucos segundos que estabelecem o tom ideológico do filme.

A cena seguinte complementa o esquema: um muçulmano está sendo interrogado por agentes da Central Intelligence Agency (CIA). Agressões físicas, amarrar as mãos do prisioneiro e pendurá-lo no teto, privação de sono e alimentação, encarceramento em locais minúsculos – todas essas ações educadíssimas são atos preparatórios para o "grand finale": waterboard – a técnica de tortura favorita dos campeões da Democracia". Consiste em simular um afogamento – a água lançada sobre a face e para dentro das vias respiratórias daquele que está sendo “interrogado”. O propósito dessa selvageria é destruir psicologicamente o prisioneiro. Nesses momentos, a Convenção de Genebra e os Direitos Humanos se transformam em obras de ficção. A terra de ninguém (reverberando o horror de Abu Ghraib e Guantánamo), onde a razão ética desapareceu, nivela o terrorismo e a civilização pelos fundamentos da barbárie. Em outras palavras, são esses elementos de loucura que abrem um precedente para permitir o entendimento de que todas as ações são permitidas, são legais, são justas. Para todos os lados. 

Os diálogos do filme (seja no dia-a-dia dos personagens, seja nas salas de tortura) estão conectados com um propósito educativo: repetir mil vezes a mensagem para que todos (personagens e espectadores) se convençam que a diferença entre a verdade e a mentira depende de um slogan midiático: tornar o mundo mais seguro para a Democracia (uma forma de governo submissa aos mecanismos de manipulação da informação). 
Depois de expor a barbárie, o filme se concentra na descrição de Maya, personagem interpretada por Jessica Chastain. Ela não tem amigos, ignora os relacionamentos afetivos, não perde o foco quando o assunto é trabalho. Como todo carrasco, não possui humor. Confunde determinação com obsessão. E, nesse andamento, incomoda os colegas, faz pressão, não esconde que gosta de resolver os problemas pela força. Traduzindo: um caso típico de frustração sexual.

A soma de todos esses elementos comprova a demência ocidental. A direita mais reacionária – destilando o medo a cada instante – conduz os acontecimentos na direção do horror. E despeita a soberania de países como o Afeganistão e o Paquistão – não bastasse ter alimentado a imagem publicitária de que todos os seus habitantes são terroristas.

A doutrina militar estadunidense shock and awe (choque e pavor) se revela instrumento de força desproporcional  quando, cinematograficamente, um grupo de extermínio invade a casa onde estão morando os vários suspeitos. Embora a ação se mostre, em vários momentos, como exemplo de visível incompetência (desde a falta de coerência na decisão para invadir a casa até um helicóptero que cai), a carnificina ocorre. Em ritmo Counter Strike, o uso da força avassaladora resume a diferença entre a vida e a morte em uma partida de videogame. Somente mulheres e crianças são poupadas. Todos os homens são fuzilados.

A cena final mostra o ridículo multiplicado pelo ridículo: Maya, ao descobrir que sua vida não possui mais nenhum sentido, pois seu inimigo foi destruído, cai em choro compulsivo. Algum cretino há de considerar que ela foi tomada de emoção e pelo alívio. Mentira. Chora por si mesma. Incapaz de entender o que aconteceu. O fascismo se descobre ignorante e inútil – exceto como instrumento de opressão.

terça-feira, 14 de maio de 2013

E SE VIVÊSSEMOS TODOS JUNTOS?

São sete personagens: dois casais, um solteirão, um rapaz bem mais novo e um velho segredo. O cenário em que se movimenta a comédia da vida real espelha uma amizade que ultrapassa quatro décadas. Todos estão esperando pela indesejada das gentes – metáfora utilizada por Manuel Bandeira para denominar a morte.

Parte da riqueza do cinema francês está em abordar alguns assuntos espinhosos com leveza, graça e bom humor. O filme E se vivêssemos todos juntos? (Et si on vivait tous ensemble? Dir. Stéphane Robelin, 2012) não foge dessa espinha dorsal. Aliás, a referenda – e sem o menor esforço. 

Quando Claude (Claude Rich) cai de uma escada (estava tentando chegar ao apartamento de uma prostituta), a ideia de todos morarem juntos se concretiza. Foi Jean (Guy Bedos), apesar dos protestos iniciais de sua esposa, Annie (Geraldine Chaplin), quem sugeriu essa possibilidade. Estão todos na faixa dos 70 anos, os filhos criados (malcriados?), morando longe – o que está próximo é a amizade. Cabe então cultivá-la – mesmo que seja por pouco tempo.

Morarem todos juntos se mostra um conceito interessante. Na teoria. Na prática, nem tanto. Albert (Pierre Richard) está caminhando a passos largos para a insanidade. Alterna momentos de lucidez e de demência – por isso anota em um caderno os fatos mais relevantes. Sua esposa, Jeanne (Jane Fonda), cultiva um câncer – que está se alastrando rapidamente.

Como um observador da decadência física e mental do grupo, surge em cena Dirk (Daniel Brühl, de Adeus, Lenin! e Os Edukadores), um estudante alemão que é contratado inicialmente para passear com o cachorro de Albert – e que depois transforma a vida comunitária dos amigos em objeto de estudo para o seu mestrado.

Filme sem pretensões de retratar os elementos dolorosos da velhice, E se vivêssemos todos juntos? desliza pelos olhos do observador como se fosse um poema. Alternando simplicidade e simpatia, relata trivialidades e segredos. São as trapalhadas de Albert que permitem os momentos cruciais do filme. Ele esquece a torneira da banheira aberta e provoca um alagamento. Com a ajuda de Dirk, arromba um baú e encontra as cartas apaixonadas que as mulheres, Jeanne e Annie, enviaram ao amante das duas. Logo depois, sem medir as consequências, como se fosse um dever moral, conta para Jean que Annie o traiu com Claude.

Claude é uma figura. Sem se importar com a idade, freqüenta prostitutas. Assiduamente. Depois do acidente, fica momentaneamente impotente. E isso o deprime. Muito. Pede ajuda para Dirk. Quer uma caixa de Viagra. Dirk, obviamente, fica constrangido com tal pedido. Mas o atende. Causa alegria ao velho libertino. Permite uma das cenas mais engraçadas do filme.

 Por fim, há Jeane – provavelmente o personagem melhor elaborado. Estadunidense vivendo na França desde a adolescência, professora aposentada de filosofia, seus últimos dias reproduzem um arguto exercício estóico. Poucas vezes o cinema (e a literatura) conseguiu mostrar a morte com tamanha dignidade – nobreza que se multiplica no presente que deixou para Dirk (com quem compartilhou alguns dos diálogos mais interessantes do filme).

E se vivêssemos todos juntos? não é obra-de-arte. Provavelmente, muitos espectadores o considerarão como descartável. Nenhum problema. É apenas um filme – desses que fornecem um pouco de lirismo ao peso que a vida coloca sobre os ombros humanos.  

segunda-feira, 13 de maio de 2013

IDEOLOGIA E PUBLICIDADE NO CHILE


Os avanços da modernidade tecnológica glorificam a liberdade total, a experimentação sem limites e o consumo desenfreado. Simultaneamente, esse “progresso” despreza quaisquer oportunidades em que a palavra não se apresente em público. Ou seja, as variações do eternamente simpático sim abrem as portas da percepção para o desconhecido e o novo (independente de que, em muitos casos, aquilo que se apresenta como novo seja apenas uma fantasia – o velho vestindo uma embalagem diferenciada e atraente transforma-se em novo). 

Diante desse quadro histórico, para alterar o sentido do que não parece ter sentido necessário se faz transitar pelos caminhos da exceção. O filme chileno NO (dir. Pablo Larraín, 2012), indicado ao Oscar 2013 na categoria Melhor filme estrangeiro, retrata um desses momentos.

Baseado na peça teatral El Plebiscito, de Antonio Skármeta (autor de O Carteiro e o Poeta), com roteiro de Pedro Peirano, o filme se concentra em um episódio da história chilena. Depois de quinze anos ditatoriais, pressionado pela comunidade internacional, o General-Presidente Augusto Pinochet convocou um plebiscito,em 1988, para determinar o futuro político do país. A população deve decidir se o seu mandato se estenderá por mais oito anos ou se haverão eleições.

Durante cerca de um mês houve uma disputada campanha televisiva. O programa da oposição foi coordenado pelo jovem publicitário René Saavedra (Gael Garcia Bernal) – que precisa utilizar de extrema criatividade para compensar a precariedade de recursos técnicos e o discurso da vitimização ideológica. A campanha oficial, chefiada por “Lucho” Guzman (Alfredo Castro), patrão de René na agência publicitária, conta com diversas facilidades institucionais – e a “garantia” de que não perderá. O governo militar ambiciona se perpetuar no poder.

René Saavedra sugere uma linha publicitária diferenciada. Em lugar de denunciar as arbitrariedades, as sessões de tortura e as centenas de desaparecidos (provavelmente mortos no cárcere) sugere usar a leveza, o humor e, em certo sentido, o entretenimento. Quer promover uma revolução silenciosa – sem derramar uma gota de sangue. Essa ingenuidade política não leva em consideração os policiais rondando o estúdio de gravações, as invasões de domicílio, as ameaças veladas e explícitas. Enfim, omite a pressão psicológica e bélica que os milicos exercem contra aqueles que ousam discordar da ditadura.

No entender de vários correligionários – principalmente os mais velhos e influentes –, a campanha da oposição deveria utilizar uma abordagem mais direta, mais agressiva, mais envolvida com quinze anos de opressão política e social. Querem que não restem dúvidas sobre o que sentem a respeito do horror tentacular do Estado. Exigem a denúncia pura e sangrenta. Qualquer alternativa diferente significa cooperar com o jogo de cartas marcadas que todos imaginam envolver o plebiscito.

A proposta de Saavedra – apesar da acusação de anti-esquerdismo – recebe o apoio de José Tomás Urrutia (Luis Gnecco), um dos mais influentes lideres da oposição. E isso é suficiente para que parte da resistência interna diminua. No entanto, somente depois de muitas edições do programa, e a constatação de que a estratégia está funcionando, é que todos os partidos e facções políticas de oposição aderem de fato à campanha.  

NO, como muitas vezes ocorre em estruturas híbridas, se utiliza de uma estratégia que agrega dinamismo e verossimilhança ao enredo. Ou seja, preenche os espaços narrativos vazios com trechos de documentários e notícias televisivas. De certa forma, nas entrelinhas, o filme sugere que tramas subversivos necessitam de fórmulas inovadoras – ou que (nos padrões da modernidade) pareçam ser revolucionárias quando conectam a carpintaria ficcional à realidade que o filme ambiciona representar. Como disse alguém, cujo nome se perdeu nas trevas do conhecimento, original é quem copia primeiro.

Apesar dos pesares e pensares, e um (in)certo cinismo nas cenas finais, quando o certo e o errado se confundem nas malhas da publicidade capitalista, NO é um bom filme político - inclusive porque remete o olhar do espectador para o diferente, para o que poucas vezes interessa ver.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

GATOS: QUARENTA FRASES ESCOLHIDAS


Ernest Hemingway
Gatos são poemas ambulantes. (Roseana Kligerman Murray)

Um cão, eu sempre disse, é prosa; um gato é um poema. (Jean Burden)

Não existem gatos comuns. (Colette)
João Guimarães Rosa
O gato possui beleza sem vaidade, força sem insolência, coragem sem ferocidade, todas as virtudes do homem sem seus vícios. (Lord Byron)

Os gatos inventaram a auto-estima. (Erma Bombeck)

O tempo gasto com os gatos nunca é desperdiçado. (Sigmund Freud)

Duas coisas são esteticamente perfeitas no mundo: o relógio e o gato. (Emile Auguste Chartier)

Gato. Um autômato flexível e indestrutível, fornecido pela natureza para ser chutado quando as coisas vão mal no círculo doméstico. (Ambrose Bierce)

É fácil entender por que os gatos despertam sentimentos de antipatia nas pessoas. Um gato se mostra sempre bonito; sugestionando idéias de luxo, limpeza, e prazeres voluptuosos. (Charles Baudelaire)

O gato é o único animal que conseguiu domesticar o homem. (Marcel Mauss)


Júlio Cortázar (e Flanelle)

Tem maior presente que o amor de um gato? (Charles Dickens)

Se você é digno de seu afeto, um gato será seu amigo, mas nunca seu escravo. (Theophile Gautier)

Você não pode possuir um gato. O melhor que você pode fazer é ser parceiro. (Sir Harry Swanson)

Yukio Mishima
O gato pode muito bem ser o melhor amigo do homem, mas nunca irá inclinar-se para admiti-lo. (Doug Larson Revisar)

O menor de todo os felinos é uma obra de arte. (Leonardo da Vinci)

Há poucas coisas na vida mais emocionantes do que ser recebido por um gato. (Tay Hohoff)

Se você gritar com um gato, você é o único que está fazendo papel de bobo. (Autor desconhecido)

Eu conheci muitos pensadores e muitos gatos, mas a sabedoria dos gatos é infinitamente superior. (Hippolyte Taine)

O gato é apenas tecnicamente animal, visto que é um ser divino. (Obert Lynd)

No princípio, Deus criou o homem, mas ao vê-lo tão fraco, deu-lhe o gato. (Warren Eckstein)

 Jack Kerouac

A veneração dos egípcios pelos gatos não era nem tola nem infantil. Por meio do gato, o Egito definiu e refinou sua complexa estética. (Camille Paglia)


Há dois meios de refúgio contra as misérias da vida: música e gatos. (Albert Schweitzer)

De todas as criaturas de Deus, somente uma não pode ser castigada. Essa é o gato. Se fosse possível cruzar o homem com o gato, melhoraria o homem, mas pioraria o gato. (Mark Twain)

Wystan Hugh Auden
Os gatos foram colocados no mundo para refutar o dogma de que todas as coisas foram criadas para servir ao homem. (Paul Gray)

Gatos não morrem: mais preciso - se somem - é dizer que foram rasgar sofás no paraíso e dormirão lá, depois do ônus de sete bem vividas vidas, seus sete merecidos sonos. (Nelson Ascher)

O gato é um ser essencialmente livre e essa liberdade desafia o homem. (Nise da Silveira)

Ninguém em toda natureza aprendeu a bastar-se a si mesmo como o gato. (Artur da Távora)

Se um gato faz alguma coisa, nós chamamos de instinto, se fazemos a mesma coisa, pelo mesmo motivo, nós chamamos de inteligência. (Will Cuppy)

Mulheres e gatos agem como bem entendem. Homens e cães deveriam relaxar e acostumar-se com isso. (Robert A. Heinlein)

Georges Perec
Um gato tem honestidade emocional absoluta: os seres humanos, por uma razão ou outra, pode esconder os seus sentimentos, mas o gato não. (Ernest Hemingway)

Gatos amam mais as pessoas do que elas permitiriam. Mas eles têm sabedoria suficiente para manter isso em segredo. (Mary Wilkins)

Observe um gato quando entra em um quarto pela primeira vez. Procura cheiros, não fica quieto um momento, não confia em nada até que examinou e travou conhecimento com tudo. (Jean-Jacques Rousseau)

Elizabeth Bishop

Os gatos sempre sabem se as pessoas gostam ou não gostam deles. Eles nem sempre se importam o suficiente para fazer qualquer coisa sobre isso. (Winifred Carriere)

Meu desejo maior é ter em casa uma mulher razoável, um gato a passear entre meus livros e, a todo tempo, amigos. Sem tais prazeres eu não viveria. (Apollinaire)

Os gatos são mais espertos do que cães. Você nunca irá conseguir colocar oito gatos para puxar um trenó na neve. (Jeff Valdez)

Albert Camus
O ideal da tranqüilidade é um gato sentado. (Jules Reynard)

Dá alimento a um gato, e logo aparece um segundo. (De um texto budista)

Gatos são criaturas bastante delicadas e estão sujeitos a uma série de doenças, mas eu nunca ouvi falar de algum que sofreu de insônia. (Joseph Wood Crutch)

Se eu prefiro os gatos aos cães é porque não existem gatos policiais. (Jean Cocteau)

E no oitavo dia, Deus criou a cerveja, a sinuca e o churrasquinho de gato. (Alan Barra)

Jean-Paul Sartre (e Nada)