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quarta-feira, 31 de julho de 2013

ESCRITORES – QUARENTA FRASES SOBRE O OFÍCIO

Karl Kraus
É preciso sempre escrever como se fosse a primeira e a última vez. Dizer tanto como se fosse uma despedida e tão bem como se fosse uma estreia. (Karl Kraus)

– A primeira condição de quem escreve é não aborrecer. (Machado de Assis)

A maior parte do tempo de um escritor é passado na leitura, para depois escrever; uma pessoa revira metade de uma biblioteca para fazer um só livro. (Samuel Johnson)

– Só se pode julgar um escritor depois de terem morrido todos os críticos de sua época. (Sofocleto)

Há escritores que escrevem literatura. Outros só conseguem escrever escrita. (Raymond Chandler)

Alain Robbe-Grillet
– É a maior satisfação que um autor pode ter, um diálogo intimo com um leitor desconhecido. É o que sinto em passagens de Joyce, Dostoiévski e outros favoritos, a impressão de que eles escreveram aquilo exclusivamente para mim. (Paulo Francis)    

O verdadeiro escritor não tem nada a dizer. O que conta é o modo que ele diz. (Alain Robbe-Grillet)

– Quando os escritores morrem, eles se transformam nos seus livros. O que, pensando bem, não deixa de ser uma forma interessante de reencarnação. (Jorge Luis Borges)

Ultimamente, as palavras estão tomando uma surra dos escritores. (John Fowles)

Mikhail Bulgakov
Se um escritor quisesse demonstrar que a liberdade não lhe é necessária, pareceria um peixe querendo convencer-nos de que a água não lhe é útil. (Mikhail Bulgakov)

– Quando comecei a escrever ficção, não levava o menor jeito para a coisa. Não sabia como fazer uma personagem entrar ou sair de uma sala. Se ela tirava o chapéu ao entrar, esquecia-se de pegá-lo ao sair. Se eu pusesse duas pessoas para conversar em um quarto, uma delas não podia sair viva. (Raymond Chandler)

– Se quiser ficar rico escrevendo, escreve o tipo de coisa que é lida por pessoas que movem os lábios ao ler. (Don Marquis)

– Se um jovem escritor conseguir abster-se de escrever, não deveria hesitar em fazer isso. (André Gide)

– Conhecia as regras de escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias de latim e era virgem de mulheres. (Machado de Assis)

Virginia Wolff
Um escritor chega à velhice quando suspeita que o artigo que está a escrever já tinha sido escrito por ele no passado. (R. Gómez de la Serna)

O escritor está sempre trabalhando em um livro, mesmo quando não está escrevendo. (Antonio Callado)

Um grande escritor sempre traz consigo seu mundo e sua prédica. (Albert Camus)

Quase sempre os escritores descrevem ações brilhantes com versos lamentáveis. (Horácio)

O mais belo triunfo do escritor é fazer pensar os que podem pensar. (Eugène Delacroix)

– Quando se diz que um escritor está na moda, isso quer dizer que ele é admirado por menores de trinta anos. (George Orwell)

Algumas pessoas escrevem tão bem que eu tenho vontade de devolver minha pena para o ganso. (Fred Allen)

– Na literatura, convém acautelar-se contra os charlatões da construção da frase. Suas casas recebem primeiro janelas e depois paredes. (Karl Kraus)

– Alguns escritores costumam levar um não de inúmeros editores antes de decidir que vão escrever para a posteridade. (George Ade)

– Quando um escritor se transforma num clássico, já não há necessidade de lê-lo: basta citá-lo. (R. Gervaso)

Os grandes escritores nunca foram feitos para se submeter à lei dos gramáticos, mas para imporem a sua. (Paul Claudel)

Thomas Mann

– A felicidade do escritor é o pensamento que consegue transformar-se completamente em sentimento, é o sentimento que consegue transformar-se completamente em pensamento. (Thomas Mann)

O escritor original, enquanto não está morto, é sempre escandaloso. (Simone de Beauvoir)

– Não há ninguém que abomine mais um autor do que outro autor. Um autor só é solidário com outro no velório do concorrente. (Nelson Rodrigues)

Os escritores superficiais, como as toupeiras, julgam frequentemente serem profundos, quando estão, no entanto, demasiadamente perto da superfície. (William Shenstone)

– O escritor escreve porque não pode agir, e assim vive as experiências de forma indireta – vicária. (Mário Vargas Llosa)

Utilizar palavras incomuns é uma descortesia literária. Só se deve colocar no caminho do público dificuldades intelectuais. (Karl Kraus)

Paulo Francis
– O ego dos escritores é muito maior do que o dos atores, porque atores são humilhados em ensaios e, no seu egoísmo, repassam um pouco do ego na camaradagem dos companheiros. Ao passo que o escritor trabalha sozinho. Apanha também, mas a sós, é uma experiência masturbatório-masoquista. E, no fim das contas, é o maior confronto que se pode ter com a realidade. (Paulo Francis)   

O escritor original não é aquele que não imita ninguém, mas sim aquele que ninguém pode imitar. (François René)

 Escrever não é propriamente um sofrimento, mas uma obrigação. A literatura me sustenta não apenas no sentido econômico, mas também existencial. Só atinjo a minha verdadeira dimensão, e presto contas a deus, através da literatura. (Fernando Sabino)

Instruir e divertir os povos deve ser o empenho dos escritores; os mais hábeis são os que instruem divertindo. (Marquês de Maricá)

Um escritor não lê os seus colegas: vigia-os. (Maurice Chapelan)

– As passagens dos textos de Shakespeare em que a linguagem é áspera, vulgar, exagerada, fantástica e mesmo obscena – e há muitas – devem-se inteiramente ao fato de que a vida exige um eco para a sua própria voz e recusa a intervenção do estilo bem-construído a que ela precisa se submeter para encontrar expressão. (Oscar Wilde)

Raymond Chandler
– James Joyce escrevendo me lembra um colegial repugnante espremendo espinhas. (Virgínia Wolff)

– Solzhenitsyn escreve mal e é um idiota. Uma combinação irresistível para torná-lo popularíssimo nos Estados Unidos. (Gore Vidal)

–  A melhor literatura é sempre produzida por quem não depende dela para viver: a mais elevada forma de literatura, a poesia, não enriquece quem a escreve. (Oscar Wilde)



terça-feira, 30 de julho de 2013

O PASSADO SEMPRE VOLTA

Robert Redford (nascido Charles Robert Redford, Jr.), 77 anos, continua em forma. E, para o bem ou para o mal, mais próximo do Sundance Film Festival do que da cerimônia de entrega do Oscar. Ou seja, segue pensando politicamente. Coerência, dizem ser a expressão adequada para qualificar esse tipo de situação. O tempo não para – as ideias permanecem.

Seu último filme, o thriller Sem Proteção (The Company You Keep. Dir. Robert Redford, 2012), baseado em um romance de Neil Gordon, não possui, por exemplo, a importância de Todos os Homens do Presidente (All the President`s Men, 1976) ou Leões e Cordeiros (Lions for Lambs, 2008), mas serve de lembrança – para quem gosta de cinema – de que a bandeira política ainda está tremulando, desafiando o vento, marcando território.

Segredos são coisas perigosas, alerta James “Jim” Grant, ou melhor, Nicholas “Nick” Sloan (Robert Redford) em uma conversa com Benjamin Sheppard (Shia LaBeouf), um jornalista sem muitos escrúpulos. O que ele quer dizer é que não existe mais segurança depois que alguém decide abrir as portas da História. Ruínas passam a ocupar o lugar daquilo que havia antes, embora o antes também não fosse algo digno de confiança – mas, por diversos motivos estava escondido, hibernando. A questão nevrálgica, então, está em compreender que o passado está predestinado a retornar e incomodar – porque, como uma criança mimada, dessas que ficam criando joguinhos maldosos, só se satisfaz quando recria tragédias.

A verdade (seja lá o que isso possa ser) não consiste em somar dois eventos e uma conclusão. Poucos “leitores” conseguem perceber que a História, aquela com “H” maiúsculo, está repleta de sutilezas. Em outras palavras, no a-pós-o-moderno predomina a volatilização. Tudo que é sólido desmancha no ar, dizia Marx, em um de seus momentos profetas do Apocalipse, lá no cada vez mais distante século XIX. Pode ser, mas uma das formas de reagir contra o horror do esvaecimento está em perceber que ideias (e ideais) não são sólidas, não se desmaterializam.

O enredo de Sem Proteção parte de um tema crucial: na década de 70 do século XX, o grupo político “Weather Underground”, contrário à intervenção estadunidense na Guerra do Vietnam, realizou diversos atos violentos contra o governo, inclusive assaltos bancários. Muitas vezes essas ações resultaram em desastres e mortes.

A estrutura narrativa do filme revela que, em um desses assaltos a banco, ocorreu uma fatalidade: a morte de um guarda. Esse fato desencadeou uma série de ações igualmente violentas. Talvez a mais significativa seja que todos aqueles que participaram do assalto foram caçados pelo Federal Bureau of Investigacion (FBI).

Assumindo novas identidades, eles conseguiram evitar a prisão durante trinta anos. Quando Sharon Solarz (Susan Sarondon) foi presa, o passado voltou à tona. Quem realiza a intermediação entre as diferenças temporais é um jovem jornalista. Ambicioso e sem escrúpulos, além de ter faro para encaixar as peças do quebra-cabeça, Benjamin Sheppard consegue estabelecer as ligações capazes de elucidar a história. Com isso arrasta diversas pessoas e interesses para o olho do furacão. Nicholas “Nick” Sloan (que durante anos se escondeu atrás de um nome falso: James “Jim” Grant), injustamente acusado de ter participado do assalto, inicia uma fuga insana. Quer encontrar um velho amor de juventude, Mimi Laurie (Julie Christie), a única pessoa no mundo capaz de inocentá-lo. 

Durante cerca de 90 minutos desfilam pela tela inúmeras discussões: obtusidade política, abandono familiar e culpa. Em contrapartida, a amizade se projeta como um dos grandes escudos contra o horror. Mas, mesmo aqueles que conseguem sobreviver aos danos promovidos pelos acontecimentos, precisam sobreviver ao passado. A política ensina que nem sempre isso é possível.

Robert Redford, ao lado de Paul Newman, em Butch Cassidy and the Sundance Kid 
(Dir. George Roy Hill, 1967)

segunda-feira, 29 de julho de 2013

AS SESSÕES

Se um olhar for capaz de definir tudo, então dois momentos de dois dos personagens de As Sessões (The Sessions. Dir. Ben Lewin, 2012), o padre Brendan e o atendente oriental do hotel, traduzem o sentimento que toma conta do expectador logo depois que termina a projeção do filme: espanto. Uma história como essa, repleta de bom humor, não parece ser possível. E, no entanto, contra todos os prognósticos, recuperando a inocência de quem se alimentam com sonhos, alguém a viveu – e nela foi feliz. Não é pouco.

Baseado no artigo On seeing a sex surrogate ("Consultando uma substituta sexual"), escrito por Mark O`Brien, As Sessões conta a história de um homem que teve poliomielite na infância. Seu corpo ficou paralisado. Quer dizer, partes de seu corpo não se movem. Outras partes, bem... funcionam. E é esse o problema – ou a solução. Evidentemente, alguns detalhes precisam ser equacionados antes. O mais importante é que, para continuar vivendo, Mark (John Hawkes) precisa da ajuda de uma máquina. Fora do “pulmão de aço”, ele consegue sobreviver apenas três horas. Essa limitação, além da dependência de empregados como Rod (W. Earl Brown) e Vera (Moon Bloodgood), o deveria destruir emocionalmente. Não é o caso. Parte da tragicomédia está conectada com um fato insólito: como um bom descendente de irlandeses, Mark é católico. Daqueles que vão à missa, se confessam e ambicionam um lugar no céu.

Na igreja, entra em cena um personagem fundamental, o padre Brendan (William H. Macy). Que fica horrorizado ao descobrir que um dos seus paroquianos, tetraplégico, 38 anos, quer fazer sexo. E, surpreendente, pela primeira vez na vida. E, ridículo, fora do casamento. E, visível contrassenso, com uma terapeuta sexual (que, na pobre imaginação do padre, talvez seja eufemismo para prostituta). Mas, isso não é o mais terrível. Há coisas piores. Mark, sem amigos e com pouca, quer dizer, sem nenhuma experiência no assunto, procura o padre para pedir conselhos sobre o significado de perder a virgindade. A incredibilidade toma conta da situação. O padre emudece. Ele também tem limitado conhecimento sobre o tema. E, mais importante, como é possível responder a esse tipo de questão? Que Deus transite por misteriosos caminhos, tudo bem, mas será possível que seus servos mais devotos precisam superar as situações mais absurdas para provar que possuem fé? 

Sacerdotes menos liberais provavelmente ameaçariam de excomunhão o herege que tivesse a ousadia de propor algo remotamente parecido. Não é isso que acontece. Diante da imagem de Cristo, o padre Brendon percebe que situações inusitadas exigem soluções inusitadas. A união entre o sagrado e o profano serve de ponto de partida para uma jornada de redenção. Essa é a melhor cena do filme. Inclusive porque a narrativa cinematográfica, ao mesmo tempo em que reflete o olhar perplexo do padre, mostra que existem alternativas para o despropósito. Go for it!, exclama, resignado, o padre (talvez imaginando, por algum motivo alheio ao entendimento humano, que a “fornicação” não se realizará).

Cheryl (Helen Hunt) especializou-se em atender sexualmente deficientes físicos. Durante seis sessões, apenas seis, procura satisfazer os desejos mais primários (ou secretos) de quem possui algum tipo de limitação motora. Simultaneamente, de forma paradoxal, recusa qualquer tipo de envolvimento emocional com os clientes. Quer manter sossegada a vida que leva ao lado do marido e do filho adolescente.

As primeiras duas sessões ocorrem na casa de uma amiga paraplégica. Rápidas e intensas. Muita ansiedade, pouca diversão. A terceira quase não se realiza. Ocorre um desacerto de horários. Surgem alternativas. Vera leva o casal até um hotel nas proximidades. No hall, o atendente da portaria, ao ver o homem na maca e a loura, pergunta para Vera o que está acontecendo. Vera explica que é um encontro sexual. O homem fica perturbado. Não acredita. O seu rosto denuncia isso.

No quarto, Cheryl mostra para Mark o que há de surpreendente na geografia corporal. Lugares que ele nunca visitou, experiências avassaladoras – é isso que Mark conta para o Padre Brendan. Surpreendentemente, confundindo o sacramento da confissão com alguma conversa masculina em mesa de bar, o religioso sente prazer em saber que o amigo está sentindo prazer. E gosta de ouvir os detalhes – que Mark não economiza.

Depois de quatro sessões, os encontros terminam. O envolvimento afetivo estava acenando perigosamente na esquina. A linha que separa a prudência da loucura poderia ser ultrapassada a qualquer momento. Melhor evitar.

Em compensação, surgiram compensações. Depois do primeiro passo, a sedução da caminhada. Até o dia de sua morte, Mark aproveitou as delícias da vida – como se fosse um libertino do século XVIII.

Fugindo dos estereótipos da autoajuda, do lacrimejar e da comiseração pelos horrores da vida, As Sessões aposta na diversão. Excelente programa para as tardes de sábado. Principalmente se estiver chovendo.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

WILLIAM FAULKNER E OS DESAFIOS DO ESCRITOR

– Eu estava vivendo em New Orleans, fazendo todo tipo de serviço para ganhar algum dinheiro de vez em quando. Conheci Sherwood Anderson. Costumávamos andar pela cidade durante a tarde, conversando com as pessoas. De noite nos encontrávamos de novo e nos sentávamos diante de uma garrafa ou duas, enquanto ele falava e eu ouvia. De manhã eu nunca o via. Ele ficava fechado, trabalhando. No dia seguinte, repetíamos tudo. Concluí que, se aquela era a vida de um escritor, tornar-me escritor era o que me convinha. Comecei então a escrever meu primeiro livro. Descobri imediatamente que escrever era divertido. Já tinha me esquecido que não via o sr. Anderson havia três semanas até que ele me entrou pela porta, era a primeira vez que vinha me ver, e disse: O que está havendo? Está zangado comigo?. Eu lhe disse que estava escrevendo um livro. Meu Deus!, exclamou, e saiu. Quando terminei – era Soldier’s Pay –, encontrei a sra. Anderson na rua. Ela me perguntou como ia o livro, e eu disse que o tinha terminado. Sherwood diz que fará um trato com você. Se ele não tiver que ler o manuscrito, dirá ao seu editor para aceitá-lo, disse ela. Eu respondi: Feito, e foi assim que me tornei escritor.


– (...) o melhor emprego que já me foi oferecido foi o de zelador de um bordel. Na minha opinião, é o ambiente perfeito para um artista trabalhar. Proporciona ampla liberdade econômica. Ele se vê livre do medo e da fome; tem um teto seguro e nada para fazer, exceto cuidar de umas poucas contas e ir uma vez por mês pagar à polícia local. O lugar é quieto de manhã, que é a melhor hora do dia para se trabalhar. Há bastante vida social à noite, se ele quiser participar, para impedi-lo de se aborrecer; isso lhe dá uma certa posição em sua sociedade. Não tem nada a fazer, já que a madame controla a contabilidade. Todos os moradores da casa são mulheres, e o respeitariam e o chamariam de “doutor”. Todos os contrabandistas de bebidas da região também o chamariam de “doutor”. E ele poderia tratar os policiais pelo primeiro nome.

De modo que o único ambiente de que o artista necessita é qualquer lugar onde possa obter paz, solidão e prazer a um preço não muito alto. Tudo o que o ambiente inadequado lhe proporcionará é pressão alta; ele passará mais tempo se sentindo frustrado ou ressentido. Minha própria experiência tem me mostrado que as únicas ferramentas de que preciso para o meu ofício são papel, tabaco, comida e um pouco de uísque.



– (...) os livros que leio são aqueles que conheci e amei quando era moço e aos quais volto como se volta aos velhos amigos: o Antigo Testamento, Dickens, Conrad, Cervantes – Dom Quixote. Leio-os todos os anos, como alguns leem a Bíblia. Flaubert, Balzac – ele criou um mundo intacto próprio, uma corrente sanguínea que flui através de vinte livros –, Dostoiévski, Tolstói, Shakespeare. Leio Melville ocasionalmente, e dos poetas Marlowe, Campion, Jonson, Herrick, Donne, Keats e Shelley. Ainda leio Housman. Já li esses livros tantas vezes que nem sempre começo na primeira página ou leio até o fim. Leio apenas uma cena, ou o tocante a uma personagem, assim como você se encontra e conversa com um amigo por alguns minutos. 


– Um artista é uma criatura arrastada por demônios. Não sabe por que o escolheram e normalmente está ocupado demais para se perguntar isso. É totalmente amoral, pois irá roubar, mendigar, pedir emprestado ou furtar de quem quer que seja para ver o seu trabalho realizado. 

– Os dois grandes homens do meu tempo eram [Thomas] Mann e [James] Joyce. Deveríamos nos aproximar do Ulisses, de Joyce, como o pregador batista analfabeto se aproxima do Antigo Testamento: com fé.  

– Suponho que, enquanto as pessoas continuarem a ler romances, outras continuarão a escrevê-los, ou vice-versa; a menos, é claro, que as revistas ilustradas e as histórias em quadrinhos finalmente atrofiem a capacidade do homem de ler, e a literatura realmente estará em seu caminho de volta à escrita pictórica das cavernas de Neanderthal.

– Um escritor é alguém congenitamente incapaz de dizer a verdade. Por isso, o que ele escreve chama-se ficção.

 O sexo e a morte  a porta da frente e a porta de trás do mundo.   



P.S: Algumas dessas citações estão em uma entrevista concedida a Jean Stein Vanden Heuvel, para a Paris Review, no inicio de 1956, em New York. 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

ANNA KARENINA, O FILME

As muitas qualidades da última adaptação cinematográfica de Anna Karenina (Dir. Joe Wright, 2012) não podem ser negadas. Mas, o filme, simultaneamente, constitui um exemplo singular das limitações que envolvem a transição entre as linguagens. A adaptação criativa de Tom Stoppard sequer se aproxima do caudaloso (e escandaloso) romance de Liev Nicoláievitch Tolstói (1828-1910). As  mais de 900 páginas (dois volumes na edição da Editora Abril) estão em dimensão oposta daquela que é proposta por duas horas de projeção na tela grande. O cinema, quando adapta os clássicos literários, (re)corta diversos elementos na sala de montagem. Apenas a espinha dorsal sobrevive – muitas vezes nem isso.

Os detalhes e as cenas que constituem o romance, e que estão ausentes do filme, foram substituídos pelos mecanismos de sedução do teatro. A adaptação cinematográfica aposta em um grande espetáculo coreográfico – reforçado pelos figurinos e pelo constante abrir e fechar de portas. Os cenários, que se movimentam com a mesma intensidade dos personagens, mudam a todo instante e, além de contribuírem para a reconstituição de época, introduzem na carpintaria dramática uma maleabilidade esplendorosa. Esse efeito está refletido, de maneira complementar, no ballet das câmeras (principalmente nos travellings). A fotografia induz o espectadora participar do jogo de faz-de-conta que caracteriza as mimeses artísticas.

Anna (Keira Knightley), esposa de Alexei Alexandrovitch Karenin (Jude Law), mora em São Petersburgo, capital do Império Russo. Mulher enérgica, que tem tudo (beleza, riqueza, um filho), atenta aos perigos sociais que envolvem os desacertos familiares, resolve salvar o casamento do irmão, que foi flagrado pela esposa com a amante. 

Na estação ferroviária de Moscou, Anna conhece o Conde Alexei Kirilovitch Vronsky (Aaron Taylor-Johnson), que está cortejando a Princesa Ekaterina Alexandrovna Shcherbatskaya (Alicia Vikander) – a grande paixão de Konstantin Dmitrievitch Levin (Dumhnall Gleeson).

O conflito amoroso estabelece a contradição matrimonial. Anna não percebe que salvar o casamento do irmão implica em destruir o próprio. Por isso, falha em encontrar antídoto para os sentimentos que a atormentam. Com a fome de um predador impiedoso, desses que medem o sucesso pessoal pela quantidade de mulheres que sucumbem aos prazeres sexuais que oferece, Alexei Vronsky, com a prepotência dos que estão acostumados a vencer, cerca a presa e a deixa sem saída.

Anna não demora a se entregar – tão logo percebe quão patética se mostra a resistência que esboça. A luxúria da traição dissolve escrúpulos. E o caso extraconjugal, que deveria ser apenas um episódio sem muita importância na vida deles, se transforma em uma paixão tórrida.

Primeira edição (1878)
Karenin, ao perceber, depois de uma corrida de cavalos, que a mulher está se envolvendo em complicações amorosas, com o estoicismo dos cornos mansos, faz um alerta para que as aparências sejam mantidas. Infelizmente, por diversos motivos, inclusive uma gravidez do amante, o caso se torna público. Algum tempo depois de dar a luz, Anna resolve abandonar o marido (que exige ficar com a guarda dos filhos) para ir viver com Vronsky – que também está mortalmente apaixonado.

Os consequentes desdobramentos dessa decisão, coerentes com os preceitos morais do Império Russo, deságuam em tragédia. Anna, advertida por Vronsky que não deve ir ao teatro, resolve contrariá-lo. A reação pública à sua presença está expressa em uma frase, pronunciada por uma ex-amiga: Eu a visitaria se tivesse infringido apenas a lei. Mas ela infringiu as regras. Em outras palavras, a sociedade perdoa a traição conjugal, mas não aceita que o amante substitua publicamente o marido.

O restante da história segue o figurino do romantismo que está se transformando em realismo. Em síntese: Anna fica doente, volta para a casa do marido, retoma o caso com o amante, pede o divórcio, não consegue aplacar a alma torturada e, na estação ferroviária, se joga na frente de um trem.

Para não se afastar muito do enredo original, o filme também relata, em paralelo, a história amorosa entre a Princesa Ekaterina e Konstantin. Ironicamente, são os personagens secundários que encontram a felicidade.


P.S: A suntuosidade cinematográfica de Anna Karenina não diminui o grande sacrilégio que é ver personagens russos falando a língua inglesa. Esse tipo de crime jamais deveria ser permitido.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

ITHACA ROAD

Estranhamento constante, amparado no espelhamento grego, mostrando-se insuficiente para garantir os pés no chão. Ruas de Sidney, Austrália, outro lado do mundo, passeio conforme algum mapa turístico. O encontro entre o passado e o presente dissolvendo dias de sol e afetos.

A aventura de produzir parágrafos longos – caudalosos, vinte, trinta frases separadas por vírgulas, invadindo o espaço da página em branco até encontrarem algum ponto, obstáculo gráfico intransponível, o fluxo interrompido provisoriamente, pausa breve, momentânea, até que uma nova frase se reinstale vorazmente, impulsionando a continuação narrativa – não podem ser considerados como tarefa trivial, ao alcance de qualquer um. O ritmo acelerado que acompanha a selvageria das orações descontinuas que constituem o parágrafo impede o nexo imediato do pensamento, que, na contramão, vai se (de)formando aos poucos, várias camadas se sobrepondo, umas em cima das outras, como um depósito desorganizado. O leitor perde o fôlego diante de tamanho atordoamento. Nada que lembre as proezas feéricas propostas por José Saramago, Marcel Proust e James Joyce. Nessa planície textual, há recusa das amarras da pertença. Embora sinta prazer em devorar miragens, referências e apropriações indevidas. Antropofagia básica. Base para a reinvenção. Solução para os impasses da estrutura narrativa. Alternativa contemporânea para esse beco sem saída em que deságuam todas as histórias de amor.

Ao mesmo tempo, cabe perguntar: a forma é mais importante que o conteúdo? Provavelmente, não. O contrário também não corresponde ao que importa. A intensidade de Ithaca Road impressiona. Fenômeno raro em romance brasileiro. Poucos conseguem avançar nas duas direções. Simultaneamente. Ao mesmo tempo, assusta. A brevidade do texto, 110 páginas, impede que determinadas demandas sejam contempladas. Inquietante volatilidade que poderia ter mais substância. As lacunas que povoam o enredo lembram imagem de meteoro que desaparece no horizonte. Bonito durante cinco segundos. Nada mais do que isso. Entrou em cena para semear dúvidas, sombras, instabilidades.

Paulo Scott
Mulher independente, que não conhece barreiras geográficas, um dia em Londres, outro em Dublin, namorado austríaco, Jörg, que está no Brasil, jornalismo investigativo, outra falcatrua terceiro-mundista a ser denunciada, Narelle, neozelandesa, mestiça de maori com europeu, sabe que não há futuro em esperar (vinte anos?) pela volta do irmão desaparecido. Não tem vocação para encenar a farsa de Vladimir e Estragon. Não nasceu para bordar colchas mortuárias – prefere comprá-las prontas em feirinhas de bairro. Não possui estoicismo suficiente para acumular noites de castidade – qualquer guerreiro viril ao alcance de seu corpo serve para aliviar tensões e tesões, e pouco se importa com sentimentos descartáveis logo depois de saciar a sede, tchau, foi bom, gostei (gozei) muito, amor é outro departamento.

Anna surge como um anjo da anunciação, a possibilidade de subverter o previsível. Espaço para inúmeras perguntas e alguns desenhos – vaticínios a respeito da maldição divina, oráculo que decifra a maldade humana, desumano horror que denuncia as falhas que acompanham o existir. Resistir, estratégia de sobrevivência, também se mostra um exercício de teimosia. 

Em um mundo que abomina o diferente, que exclui qualquer coisa que não siga padrões de comportamento ou de bons modos, Ithaca Road, apesar de não resolver algumas questões, se assemelha a uma ilha paradisíaca, perdida em um mar de tolices. A literatura brasileira agradece.   

terça-feira, 16 de julho de 2013

1Q84 (PARTE II)

Será que estou no mundo da ficção?, perguntou Tengo. Será que, de alguma forma, deixei o mundo real e entrei no mundo de Crisálida de ar, como Alice após cair na toca do coelho? Ou será que o mundo real é que se transformou no mundo de Crisálida de ar? Será que o mundo original – onde só existe a nossa única e habitual lua – não existe mais?

São muitas as perguntas e quase nenhuma resposta no segundo volume da trilogia 1Q84, de Haruki Murakami (o mais importante escritor japonês da atualidade). Evidentemente, esse tipo de estratégia narrativa contribui para aumentar a curiosidade do leitor. O pouco que o romance revela parece indicar que o livro apresentará um grand finale. Mas, talvez essa seja uma tese difícil de sustentar, pois a história está muito distante do que poderia ser considerado um texto “normal” (independente do parâmetro utilizado para estabelecer o conceito de normalidade).

O desencontro entre Aomane e Tengo (que perderam o contato quando tinham dez anos de idade e frequentavam a mesma turma escolar) continua a incomodar o casal vinte anos depois. Ele ganha o sustento como professor de matemática. Nos momentos livres, escreve. Ela, professora de educação física, trabalha em uma academia com musculação e artes marciais. Nas horas vagas, assassina homens que maltratam mulheres. Contingencialmente, habitam mundos paralelos – e que, pelos princípios que norteiam a lógica, nunca deveriam se encontrar. Exceto se houver alguma ajuda externa do destino, que é o nome que a ficção utiliza para justificar o injustificável e, simultaneamente, esconder diversos defeitos do(s) narrador(es) – a onipresença, a onipotência e a onisciência são os principais, mas não são os únicos, visto que, seguindo a tradição grega (que inventou a Teoria da Literatura), para não perder a verossimilhança, nunca se deve dispensar os elementos comuns ao padrão antropomórfico.

Esse determinismo (que se alimenta de algumas ideias religiosas) está presente em cada frase de 1Q84 – texto que flerta com a paranoia política proposta por George Orwell, as situações kafkanianas, a ficção científica e diversos estilos musicais (clássico, pop, jazz). Enfim, se assemelha a uma salada duvidosa, onde os ingredientes não combinam, o molho deveria ser outro, o gosto não agrada. Pelo menos, em teoria. Na prática, o estranhamento se mostra interessante. E, para surpresa geral, encaixa com alguma facilidade.

No primeiro volume, Aomame (ao som da Sinfonietta de Janáček) atravessa o portal que liga mundos especulares. O real se dissolve – para que o simulacro adquira consistência. A imagem, resíduo suficiente para preencher o imaginário, assume o proscênio e elimina outras possibilidades. Essa experiência se repete no segundo volume. Tengo, ao visitar a Cidade dos Gatos, também migra para o outro lado. Mas, ao contrário da mulher, está protegido por uma espécie de redoma de vidro. As crueldades que o afetam estão em outro nível.

Na segunda parte da trilogia, são as minucias que contam. Peças do quebra-cabeça que se juntam lentamente, sem permitir que o desenho final seja esboçado. Sem esse trabalho intermediário, não será possível prosseguir na leitura, não será possível descobrir – como sempre – que por trás de toda violência há sempre uma fantasia romântica.    


TRECHO ESCOLHIDO (ou uma fábula kafkaniana)


– Um rato deu de cara com um gato bem grande no sótão. O rato ficou acuado em um canto, sem ter para onde fugir, e disse: “Por favor, senhor gato, não me coma. Preciso voltar para junto de meus familiares. Meus filhos estão com fome, à minha espera. Deixe-me ir.” O gato respondeu: “Não se preocupe. Não vou te comer, não posso falar muito alto, mas, na verdade, sou vegetariano. Não como carne. Sorte sua ter me encontrado.” O rato disse: “Que dia maravilhoso! Sou um rato afortunado. Encontrei um gato vegetariano.” No instante seguinte, o gato atacou o rato, fincou a unha no corpo para imobilizá-lo e mordeu seu pescoço com os dentes afiados. O rato, em agonia, indagou, momentos antes de morrer: “Você não disse que era vegetariano, senhor gato, que não comia carne? Era tudo mentira?” O gato lambeu os beiços e respondeu: “Pois é... Eu realmente não como carne. Quanto a isso, não menti. Vou levá-lo comigo e trocá-lo por uma alface.” 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

CÃES – VINTE E SEIS FRASES


Se tenho alguma crença sobre a imortalidade é a de que certos cachorros que conheço irão para o céu, mas poucas, pouquíssimas pessoas. (James Thurber)

– A liberdade é um cachorro vira-lata. (Millôr Fernandes)

Felizes os cães, que pelo faro descobrem os amigos. (Machado de Assis)

– Os cães nunca me mordem. Só os humanos. (Marilyn Monroe)

Os cães. São encantadores porque, além de nos permitir bancar o idiota com eles, sem que reclamem de coisa alguma, ainda bancam os idiotas conosco. (Samuel Butler)

– Quando se ama um cachorro e ele o ama, a infelicidade está na falta de sincronia entre a vida humana e a vida animal. (Roger Grenier)

Eu não teria nenhum prazer em viver em um mundo onde os cães não existissem. (Schopenhauer)

– É melhor ter um cachorro amigo do que um amigo cachorro. (Provérbio popular)

Quando o melhor amigo do homem é seu cão, o cão tem um problema. (Edward Abbet)

– Os cães são melhores que os seres humanos porque eles sabem, mas não contam. (Emily Dickinson)

Eu li a Odisséia porque é a história de um homem que voltou para casa depois de estar ausente por mais de 20 anos e foi reconhecido apenas por seu cão. (Guillermo Cabrera Infante) 

Se você apanha um cachorro faminto e torná-lo próspero, ele não te morderá. Esta é a principal diferença entre um cachorro e um homem. (Mark Twain)

O dinheiro lhe comprará um lindo cão, mas jamais comprará o abanar do seu rabo. (Henry Wheeler Shaw)

Cães amam seus amigos e mordem seus inimigos, bem diferente das pessoas, que são incapazes de sentir amor puro e têm sempre que misturar amor e ódio em suas relações. (Sigmund Freud)

Ninguém pode queixar-se da falta de um amigo, podendo ter um cão. (Marquês de Maricá)

Existem três cachorros perigosos: a ingratidão, a soberba e a inveja. Quando mordem deixam uma ferida profunda. (Martinho Lutero)

Os cães são o nosso elo com o paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde, é voltar ao Éden onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz. (Milan Kundera)

– As histórias têm muito mais exemplos de fidelidade dos cães do que dos amigos. (Alexander Pope)

Se excluirmos o fumo e o jogo, veremos com surpresa que quase todos os prazeres de um homem podem ser, e quase sempre são, compartilhados com seu cão. (George Bernard Shaw)

– Em algum lugar, sempre haverá um cãozinho abandonado me impedindo de ser feliz. (Jean Anouilb)

Quem dorme com cachorros, acorda com pulgas. (Ditado popular)

– Nos muros das casas de subúrbio, ao lado do nome: Retiro tranquilo ou Lar, doce lar, frequentemente encontramos a placa: Cão feroz. Nunca Homem feroz, o que é, no entanto, bem mais comum. (Roger Grenier)

Era uma vez duas pulguinhas que passaram a vida inteira economizando e compraram um cachorro só para elas. (Mário Quintana)

– Que os animais mereçam tratamento mais humano, ainda é discutível; nós é que não podemos continuar nessa vida de cachorro. (Millôr Fernandes)

O melhor amigo do homem é o uísque. O uísque é o cachorro engarrafado. (Vinicius de Moraes)

– O mais nobre de todos os cachorros é o cachorro-quente: ele alimenta a mão que o morde. (Laurence J. Peters)