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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

IN VINO VERITAS – QUARENTA FRASES EMBRIAGADORAS


Um bom vinho é poesia engarrafada. (Robert Louis Stevenson)

– Os homens são como os vinhos: a idade azeda os maus e apura os bons! (Cícero)

Cristo não consagrou a água, o leite ou a coca-cola: consagrou o pão e o vinho como alimentos do corpo e do espírito. (Fernando Sabino)

– Ouço dizer que os amantes do vinho serão castigados no inferno. Se os que amam o vinho e o amor vão para o inferno, o paraíso deve estar vazio. (Omar Khayyan)

Quando se trata de vinho, eu tenho gosto muito simples: sempre escolho o melhor. (Oscar Wilde)

– O vinho e a música sempre foram para mim um magnífico saca-rolhas! (Anton Tchekhov)

O vinho alegra o coração do homem; e a alegria é a mãe de todas as virtudes. (Johann Wolfgang von Goethe)

– Eu beberei leite no dia que as vacas comerem uvas. (Jean Gabin)

Toma conselhos com o vinho, mas toma decisões com a água. (Benjamin Franklin)

– A penicilina cura os homens, mas é o vinho que os torna felizes. (Alexander Flemming)

Boa é a vida, mas melhor é o vinho. (Fernando Pessoa)

– No banquete da vida a amizade é o pão, e o amor é o vinho! (Pailo Mantegazza)

A vida é como o vinho: se a quisermos apreciar bem, não devemos bebê-la até a última gota. (Lord Byron)

– Existem mais de mil anos de história em uma velha garrafa. (Paul Claudel)

O problema é que preciso beber para suportar as pessoas – e nesse momento as pessoas não conseguem me suportar. (Ring Lardner)

– Com o passar dos vinhos, os anos ficam melhores. (Anônimo)

Existe mais filosofia em uma garrafa de vinho do que em todos os livros. (Louis Pasteur)
Agora que a velhice começa, preciso aprender com o vinho a melhorar envelhecendo e, sobretudo, a escapar do terrível perigo de, envelhecendo, virar vinagre. (Dom Helder Câmara)

Embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia e com virtude. (Charles Baudelaire)

– Deve-se usar da liberdade, como do vinho, com moderação e sobriedade. (Marquês de Maricá)

O vinho é um composto mágico: mata a sede, mata a vontade, mata a saudade. Faz nascer o calor, acende a paixão, desperta o amor. Traz luz para a vida, sabedoria, bom gosto, desejo. Alegra a mesa, acorda o homem, solta a mulher... (Carolina Salcides)

– Uma barrica de vinho produz mais milagres que uma igreja cheia de Santos. (Provérbio Italiano)

Na água refletimos nossa própria face. No vinho visualizamos a alma de outrem. (Provérbio Francês)

– O pobre prefere um copo de vinho a um pão, porque o estômago da miséria necessita mais de ilusões que de alimento. (George Bernanos)

Saboreiem do amor tudo o que um homem sóbrio saboreia do vinho, mas não se embebedem. (Alfred de Musset)

– A juventude é a embriaguez sem vinho... (Johann Goethe)

Deus apenas fez a água, mas o homem fez o vinho. (Victor Hugo)

– Nada embriaga como o vinho da infelicidade (André Gide)

Eu considero a amizade igual ao vinho. Bruta no início, e então amadurecendo com os anos. (Thomas Jefferson)

– Boa comida e bom vinho é o Paraíso na Terra (Henry IV)

Eu percebi que eu tinha concordado em não ser imortal quando comecei a beber meus velhos Bordeaux. (Philippe Bouvard)

– O vinho é a parte intelectual de uma refeição, as carnes e os legumes são apenas a parte material. (Alexandre Dumas)

O vinho estimula o apetite e dá sabor aos alimentos. Ele promove as discussões, a euforia e transforma uma simples refeição em um evento memorável. (D. Cooper)

– Qualquer homem inteligente pede um vinho que agrada as mulheres. (Miguel Torres)

O vinho é um prova constante de que Deus nos ama e deseja nos ver felizes. (Benjamin Franklin)

– Tirei mais proveito do álcool do que o álcool tirou de mim. (Winston Churchill)

Os que bebem vinho vivem mais do que os médicos que proíbem o vinho. (Benito Mussolini)

– Comer é uma necessidade do estômago, beber é uma necessidade da alma. (Claude Tillier)

Bebe vinho, ele te devolverá a mocidade, / a divina estação das rosas, da vida eterna, / dos amigos sinceros. Bebe, e desfruta / o instante fugidio que é a vida. (Omar Khayyam)

– Eu só bebo vinho. E de preferência sozinha, que é pra ninguém me encher com o fato de eu ficar muito filosófica e um pouco tarada (não necessariamente nessa ordem) com meia taça. (Tati Bernardi)

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

OS FANTASMAS DO 11 DE SETEMBRO


 As feridas ainda não cicatrizaram – doze anos depois da queda das torres gêmeas do World Trade Center. A nação que sente prazer perverso em fazer violentas demonstrações de força e atacar territórios estrangeiros, principalmente os indefesos, acumula um interminável ressentimento por ter sido agredida pela primeira vez na história. A retaliação que se seguiu ao ataque terrorista, inclusive inventando ameaças e perigos para justificar o massacre que promoveu no Iraque e no Afeganistão, mostra que o ego estadunidense é proporcional ao instinto predador.

Como a contemporaneidade estava carente de “grandes narrativas”, a literatura e o cinema encontraram no 11 de setembro um terreno fértil para a produção artística. Histórias de amor, thrillers políticos, loucura social, crueldade humana, teoria da conspiração – a lista de abordagens possíveis beira o interminável. Em contexto paralelo, diversas histórias (filmes, romances, contos) abordam os acontecimentos (reais ou fictícios) que sucederam a tragédia.

Amy Waldman, no romance A Submissão, conseguiu encontrar um ângulo interessante – e, aparentemente, inédito. Vários projetos concorrem para construir um memorial em homenagem às vitimas do 11 de setembro. Ao ser aberto o envelope que identifica o autor da ideia vencedora, descobre-se que o arquiteto é de origem muçulmana. Esse fato surpreendente possibilita diversas reviravoltas na narrativa. Quem defendia o “jardim”, passou a atacá-lo. Quem era contrário, reclama da não observância do regulamento. Associações de defesa das vítimas do World Trade Center entram em choque com organizações de proteção dos muçulmanos que possuem cidadania estadunidense. Entre idealistas e oportunistas, todos lutam por demandas que, em muitos momentos, divergem do ponto principal. Como somente é possível nesse tipo de situação, há quem manipule o momento traumático e a dolorosa lembrança dos mortos para obter algum tipo de benefício.

Típico romance de entretenimento, desses que “grudam” na mão do leitor, A Submissão aborda com alguma profundidade a crueldade, o racismo, a intolerância política e religiosa, o oportunismo jornalístico e o fascismo político – alguns dos temas mais relevantes da modernidade. Ao mesmo tempo, o enredo está centralizado nos sentimentos (amor, ambição, dúvidas, coragem, covardia) que (des)unem Claire Burwelll, Paul Rubin, Mohammad Khan, Alyssa Spier e Sean Gallagher, além de outros personagens menores. São esses momentos “humanos” que convencem o leitor que é necessário continuar a leitura.

Reunindo algumas das principais características de um pré-roteiro cinematográfico (linearidade narrativa, diálogos significativos, elementos psicológicos e contundentes mudanças na ação dramática), provavelmente será adaptado à tela grande. Enquanto isso não acontece, A Submissão é uma leitura interessante – talvez em algum final de semana na praia, talvez para fingir que nos importamos com o mundo.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

LIGUE OS PONTOS



Quando Oswald de Andrade escreveu, entre tantos outros poemas geniais,

Amor 

Humor



provavelmente não imaginou que estava desbravando o sertão em que o romantismo e o parnasianismo haviam escondido a poesia brasileira. Como ares de bandeirante, o paulista mostrou aos embasbacados leitores da época que era possível se distanciar da seriedade e, ao mesmo tempo, se aproximar da essência poética. Mais do que isso, revelou – de maneira surpreendentemente lúcida e lúdica – que é possível rejeitar essa futilidade que é o rimar flor e dor. Disse, com todas as letras que, na melhor das hipóteses, esse tipo de desacerto deve ser aceito apenas como pirraça ou o efeito de várias doses de cachaça.

Como o Brasil sempre está uns dez anos atrasado com qualquer coisa que signifique modificar o conservadorismo, demorou um pouco para que a circunspecção e a prudência fossem abatidas em pleno voo por versos espirituosos, estrofes inteligentes, gags que se somam umas às outras. E foi na esteira dessa explosão de inventividade que – algum tempo depois – surgiram diversos poetas magistrais, em diversos momentos denominados marginais. Ao mandar a seriedade para a puta-que-a-pariu sem o menor constrangimento, convidam o leitor para contemplar a vida como se fosse algo engraçado. Felizmente. A poesia brasileira não precisa de gente besta. 

As situações divertidas que estão escondidas em Ligue os Pontos, de Gregório Duvivier, constituem uma lâmina especular para o lirismo subversivo que não se contenta em – apenas – expor emoções ou algumas ideias. Inclusive porque o poeta tem dicção própria docemente embriagada pela tradição pouco comportada de uma poesia  que quer mais, muito mais. Quer agrupar afeto, tesão, cotidiano e vida.

se o leite desnatado por acaso caísse

da sua mão no chão da seção de laticínios

bastava eu perguntar seu nome e fazer

alguma piada envolvendo a expressão chorar 

pelo leite derramado e nós dois teríamos

uma longa-vida eu e você mas você já está

no setor de limpeza e eu penso que se a água

sanitária espirrasse no seu vestido eu poderia

dizer sou advogado e isso vale um processo 

ou se você tivesse dúvidas quanto à validade

de um queijo minas eu sei tudo sobre queijo 

minas ou à madureza de um abacaxi basta 

puxar uma folha da coroa mas agora

é tarde você já está no caixa passando produtos

que apitam como um eletrocardiograma.   



Nas urgências propostas pelo a-pós-a-moderna-idade, o desencontro amoroso passa lotado como se fosse um ônibus urbano no final de tarde. O poeta não pensa assim. Ciente que a trivialidade diária está composta por inúmeras histórias, quer encontrar o invisível aos olhos e, como se fosse uma brincadeira de criança, vincular uma narrativa com outra. Um exemplo dessa tese está presente na imagem surpreendente, ou melhor, extraordinária, que aparece no poema Ligue os Pontos:

enquanto você dormia liguei 

os pontos sardentos das suas 

costas na esperança de que 

a caneta esferográfica revelasse 

a imagem de algum ser mitológico 

de nome proparoxítono o mapa 

detalhado de algum tesouro 

submerso formasse quem sabe 

alguma constelação ruiva oculta 

na epiderme e me deparei 

com o contorno de um polígono 

arbitrário que não me fornecia 

metáforas que não apontavam direções 

simplesmente dizia: você está aqui.


Gregório imagina, em Gênese II, uma versão personalíssima da criação humana, mistura de piada e verdade gramatical. Tomando como base a linguagem coloquial, recusa os excessos mentais. E se aproxima do leitor, com a mão estendida, oferecendo amizade e poesia de excelente qualidade.

no princípio era o verbo 

uma vaga voz sem dono 

vagando pela via láctea.



depois veio o sujeito 

e junto com ele todos 

os erros de concordância.


Infelizmente, nem tudo é festa, alegria ou deslumbramento. Atrás das gargalhadas, a vida costuma se apresentar com os trajes da melancolia, como Gregório anota ao escrever que todos / seguem carregando suas tristezas / dentro de sacolas de plástico. No único poema com dedicatória (p/ rafael mascarenhas), a ausência recebe um tratamento especial, forma criativa de exorcizar o luto.

quando se perde um braço ou uma perna 

o membro perdido continua a coçar, reza

a lenda e a revista superinteressante, e eu

que nunca amputei um braço ou uma perna

sinto dia sim dia não a gangrena dos amigos

que eu perdi de vista porque foram morar longe

cansaram-se de mim ou morreram de desastre


Ligue os Pontos une engenhosidade e humor, lirismo e alguns achados de excelente qualidade. Enfim, como compete aos livros de poesia, um exercício de paixão.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

TODOS NÓS ADORÁVAMOS CAUBÓIS

A maturidade literária é um estágio difícil de ser alcançado. Somente os “eleitos” (seja lá o que isso possa significar) conseguem chegar lá. São muitas as barreiras, são muitas as promessas – que não se cumprem. Muita gente fica pela beira do caminho. Nenhuma novidade.

Não levei a sério o texto da Carol Bensimon, Faíscas, publicado naquela edição pouco séria da revista Granta (que perdeu o rumo e a sensatez tentando nomear os melhores escritores brasileiros abaixo dos 40 anos). Pareceu-me uma bobagem. Duas meninas em um road book, preenchendo os espaços vazios com diálogos sobre a cor ideal para pintar os cabelos? Nonsense. Além disso, há um visível ar de drama besta, típico dessas historinhas pequeno-burguesas, em que os personagens descobrem a Europa antes do que o próprio país. A isso se acresce o fato de que perdi meu tempo lendo o romance anterior da Carol, Sinuca Embaixo d`Água (aqueles narradores múltiplos, todos iguaizinhos, aquela tristeza exagerada, depressiva). Tô fora!, disse para mim mesmo.

Tô dentro!, disse para mim mesmo, aceitando o fato de que o primeiro capítulo de um romance está longe de representar o conteúdo todo. De qualquer forma, a vida está repleta desse tipo de tropeção, faz parte do show. Como exercício cristão, essas coisas de mea culpa e tolices correlatas, só me sobra contar que comprei um exemplar de Todos Nós Adorávamos Caubóis. Comprei desconfiando. Será que o terceiro livro (os contos do primeiro, Pó de Parede, são sensacionais) acerta na mosca ou é mais um caso de mosca na sopa? Então, antes de adquirir o livro, pensei: vai que a guria melhorou e eu estou patinando no pré-conceito? Mais ou menos uns dez dias depois o livro estava em mãos. Li, de um fôlego só, absolutamente surpreso, as primeiras cem páginas. Narrativa esteticamente encorpada, repleta de nuances e revelações, Todos Nós Adorávamos Caubóis é um texto límpido, bonito, que flui mansamente pelo olhar do leitor. Contra fatos não há argumentos ou remendos, dizia minha avó. Então, nada mais me restou senão entregar os pontos. Está cada vez mais difícil encontrar na literatura brasileira contemporânea alguém que escreve assim, como estivesse bebendo água. E que consegue misturar à qualidade o insuperável gostinho de quero mais.

A história que une Cora (personagem e narradora) e Julia Ceratti não é muito diferente de outras narrativas em que o afeto dá as cartas (marcadas) em um jogo que nenhum dos participantes conhece as regras. Alguma coisa parecida com erro e acerto, cada uma das duas mulheres tateando no corpo da outra os elementos que compõem a liberdade. Comprovação elementar de que não é fácil criar uma receita fashion wear que combine Penélope Charmosa com botas Doc Martens.

Bastava olhar para mim com alguma atenção. Aos dezesseis anos, eu ainda era o que os falantes de inglês chamariam de tomboy. Em outras palavras, digamos que as tias e as tias-avós adoravam me puxar em um canto a fim de sugerir mudanças drásticas na minha aparência, afinal eu ficaria tão bem com um vestidinho estampado e uma sandalinha, e por que eu não soltava o cabelo?, cabelos soltos valorizariam muito os traços delicados do meu rosto.


Outra coisa bacana no texto da Carol é o uso do dialeto regional. Embora não seja algo inovador, constitui uma forma de dizer não à tese de que o Brasil foi unificado pela língua portuguesa. Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, como escreveu o Mário de Andrade, alertando para os perigos do reducionismo cultural. De qualquer forma, seria um despropósito narrar uma longa viagem pelo interior do Rio Grande do Sul (uma espécie de dívida moral do tempo da faculdade) e, no meio de um diálogo, alguém pronunciar alguma(s) das palavras que caracterizam o insonso linguajar que corrói o eixo Rio-São Paulo das telenovelas, conforme determina o Padrão Globo de achatamento linguístico.

Julia me esperava ao lado de uma dessas palmeiras. Usava uma jaqueta jeans com os botões fechados até em cima e uma calça skinny bordô. Tinha mudado o cabelo de forma radical; levemente ondulado, ele caía até os ombros, e sobre a testa havia uma franja considerável, que chegava quase a cobrir suas sobrancelhas. Nem com um milhão de chances seria possível adivinhar que essa garota tinha crescido no interior do Rio Grande do Sul.


O homossexualismo feminino é um tema delicado. Não faltarão piadinhas a respeito do amor que não diz o nome, versão Lesbos. Nenhuma graça ou desgraça. Todos Nós Adorávamos Caubóis, definitivamente, não é uma narrativa que defende bandeiras ou comportamentos. Não quer discutir o outro lado da lua. A transgressão está em contar uma história de amor enviesada, ligeiramente diferente dessas que estão amontoadas nas prateleiras das livrarias. Nada mais. É o que basta.

Acompanhei a viagem das duas mulheres (Porto Alegre, Antônio Prado, São Marcos, São Francisco de Paula, Cambará do Sul, Caçapava do Sul, Minas do Camaquã, Bagé, Soledade) com o mapa do Rio Grande do Sul aberto, imaginando caminhos, desenhando rotas, descobrindo uma parte do Brasil. Foi bom. Foi muito bom.

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P. S.) Carol cultiva o estranho (e delicioso) hábito de escrever frases inesperadas, dessas que modificam o olhar do leitor, impondo um novo ritmo narrativo ou permitindo um breve instante de interrupção na leitura – um ou dois segundos de intervalo em que o mundo adquire novas cores:  

– Era realmente devastador chegar atrasada na minha própria vida pessoal.

– Tudo tão quieto que dizer alguma coisa em voz alta parecia um crime ambiental hediondo.

– O teu sentimento de superioridade é tipo uma etiqueta pra fora da blusa.

– Mulher submissa abraça qualquer culpa sem hesitar. 

– (...) me transformando em alguma coisa entre a vítima de violência doméstica e a supermodelo viciada em tranquilizantes.