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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O ABALO SÍSMICO E OUTROS ABALOS



Quando o livro é difícil de classificar, cabe arriscar. O Abalo Sísmico e Outros Abalos, de Flávio Fernando Cordeiro, assemelha-se a um rio de águas paradas. Na aparente tranquilidade escondem-se perigos. Uma leitura despreocupada indica versos inofensivos – se é que algum poema pode ser chamado de inofensivo. Um ou outro texto chama a atenção, mas... nada muito expressivo. Mesmo assim, há quem arrisque uma releitura, imaginando que não haverá contratempos. Como se estivessem escondidas na vastidão dos sentimentos, aparecem sutilezas, perspicácias, filigranas. Campos minados / num labirinto / de bonecas russas. O leitor teve sorte de escapar impune na primeira leitura. Agora não há mais volta.

esse vazio na alma

mil caminhões não aterram

pontos finais não encerram

nenhum lexotan acalma  


A poesia, metáfora do que há de lírico e subversivo no homem e na mulher, costuma se exibir – sem pudores ou temores – para quem mergulha em seu corpo. Amante exigente, dessas que sentem prazer em extrair a carne e o sangue de suas vítimas, amplia o seu prazer quando descobre que emoções colidem com outras emoções, quando amplia inevitáveis confusões, a bagunça de sempre.

Construir a sensatez como quem destrói paredes.

A poesia é o legado de quem se aventura nessa (des)ventura pouco charmosa que é sobreviver às provações propostas pela existência humana. Os versos escorrem pela correnteza do olhar, dialogando com a arquitetura textual e com o não-dito. Todas as palavras são importantes, assim como todos os espaços em branco. Todos os sons são necessários, assim como o silêncio. 

Estar à beira do abismo e contemplar a beleza desse momento.

deito em silencio litúrgico

de quem guarda atrás da orelha

em segredo

o medo de tanto querer


Os sonhos se abastecem de poesia. Alimentam-se de delírios e fantasias, detalhes, minúcias, pormenores. Abrem e fecham portas. Possibilitam escolhas. Semeiam o medo de errar. Assustador. E tão bom. 

O inesperado se mistura com o esplendor de novas cores, novas tessituras.

atualmente

vivo fase de grande produtividade:

escrevo dez poemas por dia

e já acerto nove

na lata de lixo


A leveza se transforma em alegria. Alquimia espontânea. Elegância. Reflexões sobre as grandes questões do mundo: concisão, revelação, serenidade. Como uma fotografia escondida dentro de um livro – para que possamos encontrá-la muito tempo depois. Surpresa.

todo maconheiro

tem cachorro viciado em maresia

sol a pino, onda a mil

e os dois passeando ao meio dia


Ao mesmo tempo, não há porque esquecer – independente dos golpes de sorte ou da cólera divina – que em algum momento a vida retorna ao escombro. Administrar as porções do cotidiano. Então,

que a poesia

 

seja jogada pro santo

matada no peito

chutada de bico


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O DRIBLE

Ao contrário do que o marketing editorial está anunciando aos quatro ventos, O Drible, de Sergio Rodrigues, não é exatamente um romance sobre futebol. No máximo, o jogo atua como catalisador de uma história perversa sobre as arestas emocionais que arranham a paternidade e a filiação.

O filho, depois de 26 anos sem ver o pai, recebe um telefonema: Estou à sua espera, Tiziu. Estou morrendo. Ele sabe que não deve ir, mas não resiste, são muitas as pontas soltas, a história comum exige explicações. Então, sem entender se foi movido pela curiosidade ou pela possibilidade de comprovar que o inimigo está morrendo, viaja quase cem quilômetros até um sítio no interior do Rio de Janeiro. Encontra um velho, quase 80 anos, aparentemente inofensivo. O filho tenta conversar, quer entender o passado; o pai, foge. Em lugar de explicar as razões do suicídio da esposa ou os diversos atos de crueldade que praticou contra o filho, substitui a história familiar por dezenas de histórias sobre o futebol.

Esses momentos monotemáticos servem de base para uma metáfora cruel sobre a vida – que o filho se mostra incapaz de compreender. O pai inicia a algaravia com alguns comentários sobre o drible de Pelé sobre Mazurkiewicz, goleiro do Uruguai na Copa do México, em 1970. Depois, recorda jogadores que obtiveram algum destaque entre o final dos anos 60 e o início dos anos 70. O filho não consegue entender onde tamanho desvario vai desaguar. São muitas histórias. Um catálogo de nomes, lugares e situações. Lá vinham em seu socorro Canhoteiro, Ademir da Guia, Gentil Cardoso, Neném Prancha, arrepios de outro tempo, guerreiros mortos. Era como se o cérebro do pai houvesse reduzido o mundo às quatro linhas do campo de futebol. Por isso não há surpresa quando, Na luz roxa do fim de tarde, à mesa da varanda, Murilo contou que passara dez anos enfiado naquele mato escrevendo um livro – a história de Peralvo, um craque hipoteticamente superior ao Pelé.

Ao entregar ao filho uma cópia do texto, o pai abre a guarda: (...) é também a minha história, a sua história, Tiziu. Falta perspicácia ao filho para descobrir o que está nas entrelinhas. Sequer imagina o que está em jogo nessa partida em que o juiz foi "comprado" e as regras, subvertidas. Enfim, falta-lhe consciência crítica para perceber que está sendo driblado. Outra vez. No inicio da vida adulta, aos vinte e um anos, o filho apresentou a namorada ao pai. Duas semanas depois, Ludmila (Lúdi) confessou que o estava traindo. E como não conseguia mais viver daquele jeito, (...) precisava escolher um dos dois, [então ela] escolhia o pai. Reprise suburbana do enredo de Perdas e Danos, o romance de Josephine Hart que foi transformado em filme mediano (Damage. Dir. Louis Malle, 1993)?

Visitar o pai, aos domingos, se tornou rotina. A cada encontro, o filho recorda episódios familiares horríveis, cicatrizes perpétuas. A perplexidade colide com a falta de explicações para a fúria paterna – que surgem nas páginas finais, mas não surpreendem; ao contrário, parecem naturais. O ressentimento não esconde o seu amor pela canalhice. Seja por estratégia literária, seja por falta de fôlego do narrador, na metade do texto tudo se torna óbvio. Desobrigado de preencher as lacunas que existem na relação afetiva entre o pai e o filho, o leitor apenas observa o extermínio civilizatório: Não é sempre assim, mas às vezes, que me perdoem os amigos marxistas, fatos que parecem ter causas sociais, históricas, coletivas, são mais inteligíveis quando as reduzimos à dimensão da miséria pessoal: amor e ódio, rancor e traição.

Em diversas ocasiões a literatura, assim como muitas partidas de futebol, resulta em frustração e desencanto. Os deuses são cruéis. Espetáculo não acontece todo dia. Um dos fatores que contribuem para diminuir o brilho de O Drible está na saturação da verossimilhança. O texto não perde nenhuma oportunidade para cravar alguma citação capaz de remeter ao passado real, ao passado que permite que o leitor se reconheça como partícipe dos fatos narrados. Surgem em cena, como se fossem pespontos da haute couture literária e histórica, Nelson Rodrigues, Maria Lenk, Alceu do Amoroso Lima, Antônio Maria, José Sarney, Millôr Fernandes, entre outros ilustres visitantes. Há dezenas de referências sobre literatura, histórias em quadrinhos, cinema, seriados televisivos. Depois de algum tempo esse recurso cansa. Ninguém consegue conviver com o excesso. Como diz o melhor amigo do filho, sintomaticamente apelidado de Maxwell Smart, O futebol é um grande produtor de lixo pop.


TRECHO ESCOLHIDO

“O Mário conta que o futebol vai se abrasileirando à medida em que o século XX avança e os bugres e os crioulos começam a ser admitidos nos clubes. Esmiúça de forma brilhante o processo social cheio de conflitos que acabou dando na invenção de uma nova gramática, de uma nova sintaxe. Aquilo que o Pasolini chamou de futebol-poesia em oposição ao futebol-prosa dos ingleses. Eu ia adorar ter tido esse saque, mas quem sacou foi o puto do Pasolini. Hoje é tão evidente que virou lugar-comum e ficam aí uns idiotas suspirando e falando em futebol-arte, futebol moleque, uma bobajada sem fim. Mas não deixa de ter verdade no fundo da bobajada. O jeito brasileiro de jogar bola tem mesmo uma dívida impagável com a cultura negra, mestiça, sensual, infantil, esculhambada que é a cultura do Brasil, se houver uma. Batuque, rebolado, capoeira, exibicionismo, pé no chão, rua de terra. Com orgia, não com o trabalho. Não é assim, Neto?”

 “Se você diz.”

“Já virou clichê de estagiário. O que eu acrescento de original nessa história é o seguinte: a dívida do nosso futebol é pelo menos tão grande com o gongorismo dos narradores também. Isso o Mário não diz, ninguém diz. Que sem a nossa vocação doentia para a metáfora bombástica, o papo furado, o causo inverossímil, a gente não teria chegado tão longe. Mais de noventa por cento do público só tinha acesso ao futebol pelo rádio, e no rádio qualquer pelada chinfrim disputada em câmera lenta por perebas com barriga-d`água ficava cheia de som e fúria. A cada cinco minutos os narradores faziam um zé-mané qualquer aprontar um feito de deus do Olimpo. Claro que esse descompasso entre palavras e coisas era inviável a longo prazo, não tinha como se sustentar. E como obrigar a narração radiofônica a ficar sóbria estava fora de questão, restava reformar a realidade. Foi assim que o futebol brasileiro virou o que é: em grande parte por causa do esforço sobre-humano que os jogadores tiveram que fazer para ficar à altura das mentiras que os radialistas contavam."   

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

AS PEQUENAS MORTES



A linguagem: instrumento mortal que une o inominável ao ininteligível. Interminável combate para (des)construir o pensamento. A vida é assim, texto-sonho, de nervura tão hebraica, de textura tão anêmona, coisa tão musgo escorrendo entre as palavras que tentam se explicar umas às outras. Voltas e reviravoltas entre o onírico, as contradições e as contravenções, atos de vontade que afastam do convívio humano todas as so(m)bras que levam ao entendimento. Mais cedo ou mais tarde alguém vai divulgar que há um inferno inteirinho na palavra amor – embora poucos entendam que o amor que está presente nas narrativas (escondidos dentro dos livros ou nas lembranças que se formam como sinapses/sinopses do conhecimento) não se aproxima do real. Homens e mulheres, apesar dos avisos, sempre escolhem errado na hora em que o errado não deve ser escolhido. Felipe Werle, narrador de As Pequenas Mortes, compositor de música eletrônica, contrapõe a própria voz com outra, em terceira pessoa, que diz que ele, Felipe, é outro, talvez um alter ego, certamente um homem obcecado pela morte, incapaz de entender que está entrecruzando a própria paranóia com um episódio crucial da história de Goiânia. Nessa biografia, por vezes, pouco mais fiz que formatar, articular, estabelecer fantasmas em texto.

Vinte e poucos anos depois de 13 de setembro de 1987: escrevo para ninguém, para mim mesmo, para tentar organizar o caos. Relato composto por miríades de citações literárias e musicais, retrato acenando para o inequívoco: pose não é posse. A mentira contorna a verdade, como a doce cobertura de um bolo. A imagem supera o sabor. As palavras são minha casa fora de mim.

Césio 137: o mal é um azul que não se vê. Da mesma forma que as amargas contradições da imaginação, constante simulação, escrever é um modo de dar pele à minha carne viva. A plenitude/platitude da vida está sintetizada no inverossímil, no inacreditável, no incrível. A enfermidade corroendo a pele, diluindo os ossos, tornando a substancia humana opaca, expulsando corpo do corpo. Não há como evitar a repugnância que divide em nós o que em nós deveria ser indivisível. Autoficção radioativa.

Esculpido o mármore da perda, resta agonia – quase nada, nada importante,saldo (in)tangível ao (in)significante e quase (im)perceptível, imenso problema com esses corpúsculos brancos, tornados inoperantes no que se deparam com uma física de estrelas desarticulando a carne. Nada mais resta senão, a cada dia, a cada momento, enfrentar, brincar, abraçar o iniludível. São várias as modalidades de violência, e as gradações. Poucos indivíduos conseguem dispor de forças para resistir à dor. Ou ao medo. Desconfiança que essas duas coisas são um mero desdobramento do indivisível. Houve um tempo em que pensei seriamente em suicídio. Aposta lúdica, oposta ao lúcido ácido que surge como consequência do tentar confundir aqueles que são passíveis de ser confundidos. Estratégia perversa para quebrar resistências, o abutre pronto para devorar a carne em decomposição. Células brincando com a morte. O inferno é o reino dos extremos, o resto é a calmaria de uma navegação sonolenta.

Frase com unhas, unhas enterradas na carne macia do coração. Mundano desatino de quem perdeu o direito de discutir com o destino (vulgo estraga momentos, besta-fera do sofrimento). Falta revolução nessa ilusão. Tenho horror a máquinas chafurdando o interior do meu corpo, bisbilhotando minhas vísceras, sem encontrar vestígios do câncer que está lá, desencadeado pelo Césio, mas redigido em minhas escrituras carnais – afinal, sou humano. Não importa a amplitude do luto, toda luta resulta em coração sangrando – como em uma daquelas imagens católicas que estampavam os calendários que não existem mais. Felipe Werle é um ateu não praticante. Despropósito elementar.

A loucura mimetiza um estilhaço da lucidez – esse ruído de dobradiça enferrujada. Vive-se aos fragmentos. Partículas que se despedaçam e envolvem a indestrutível herança genética, lembro-me de meu pai em desrazão, saraivando impropério. Ninguém consegue manter a sanidade quando o que restou de humano no humano foi mineralizado pela morte em pó. Somente as lembranças podem suavizar o inapropriado, salvar o improvável. A verdade é que todo Apocalipse é pessoal. Privado. Intransferível. Cada um com sua morte, do mesmo modo que cada um com sua vida.

Ana terminou comigo, pelo menos por uns dias, é um dos nossos esportes favoritos. Anestesiar saudades nas reentrâncias de Camila. Com trilha sonora do Joy Division, lembrando Bataille (A História do Olho), realizar no corpo de Camila tudo o que está impedido no corpo de Ana. A felicidade de um homem como eu está no entre as pernas. Romper barreiras e mergulhar na iniquidade e ressurgir como peregrino religioso. As mulheres com que me destruo são referências, sobretudo Ana. Para os franceses, o orgasmo equivale a uma pequena morte – que, quando somado com outros orgasmos, constituem um simulacro de felicidade.

 Nós dois na sala, no sofá, não é muito original, mas os dois no sofá, prefaciando o conhecimento bíblico entre um homem e uma mulher. Espelhando/espalhando sacanagens, o prazer  penetra nos (in)cômodos da casa. O gozo como dádiva e maldição divina, sem descobrir quais sementes se misturam com as sutilezas semânticas, o homem e a mulher plantando sonhos no solo que constroem entre gemidos e gozo. Amor, cansaço, enfermidade: sinônimos do desespero. Não se deve olhar para trás, as estátuas de sal avisam que a paixão e o perigo são irmãos. Univitelinos. Idênticos.Porém diferentes, como convém aos que se perdem nos descaminhos que conduzem ao velocino de Césio. Mitologias do contemporâneo.


Pensa em Ana, nas trepadas, pensa muito nos sons das trepadas, os gemidos descompassados e de dentro para dentro, a carne molhada que se mistura a pensamentos cancerígenos. A alegria sexual comprova que a vida não termina em final feliz. A obsessão se multiplica na proporção aleatória da metástase. Ruínas são parceiras constantes dos antidepressivos. Do niilismo que acompanha as dores causadas pelas ausências afetivas. Fui para a Sibéria, só pelo prazer da distância, escreveu Ana, quando abandonou Felipe.  

As Pequenas Mortes, narrativa intensa sem ser extensa, unindo o inexequível com o inestimável, sem cessar de escrever, até que me esvazie de palavras, até que não me identifique mais com palavra alguma. Texto construído como caixa de surpresas. Três partes distintas, dissonantes, distantes. Elegia p(r)o(f)ética da doença mortal que corroeu Goiânia. Sinfonia da destruição. Uma form(ul)a de elevar os excessos da linguagem. Com a mesma intensidade, aplaudir a queda.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

UM LUGAR DE MERDA PARA MORRER


Contar uma história conhecida através de um ponto de vista inusitado é um dos grandes truques narrativos da modernidade. O leitor/espectador se identifica com a trama, pois, além de reconhecer muitos dos detalhes apresentados, promove uma espécie sofisticada de autoengano ao confiar que o que está lhe sendo oferecido ratificará o que imagina ser de consenso. Ao mesmo tempo, por uma dessas contradições que somente a psicologia (não) consegue explicar, anseia por revelações inusitadas, por detalhes surpreendentes, por reviravoltas no enredo. Em outras palavras, quer a destruição das certezas.

JFK – a história não contada (Parkland. Dir. Peter Landesman, 2013), baseado no livro Four Days in November: the assassination of president John F. Kennedy, de Vicent Bugliosi, faz uma aposta perigosa. Ao escolher uma versão tangencial do assassinato do presidente estadunidense John Fitzgerald Kennedy, no dia 22 de novembro de 1963, o filme em alguns momentos se concentra em uma linha narrativa divergente de episódios conhecidos. Isso significa que, embora não contribua para a elucidação dos fatos, fornece um referencial diferenciado de análise. De qualquer forma, o foco narrativo perde parte de sua força nos momentos em que se atém ao periférico, ignorando o básico (que imagina ser tão conhecido que dispensa a reiteração). Há um tom de heroicidade que não corresponde ao fluxo contextual. Além disso, carrega nas tintas do sentimentalismo e da histeria. Um pouco mais de leveza transformaria a tragédia em algo suportável.

A câmera-narrador se serve da argamassa ficcional para estruturar histórias paralelas, todas protagonizadas por personagens secundários: os jovens médicos do Parkland Memorial Hospital (Zac Efron e Colin Hanks), a enfermeira-chefe (Marcia Gay Harden), o câmeraman que gravou o assassinato (Paul Giamatti), vários agentes do Federal Bureau of Investigation, o FBI (entre outros, Billy Bob Thornton e Ron Livingston), a polícia texana, a equipe de segurança da Presidência da República, a mãe (Jacki Weaver) e o irmão (James Badge Dale) de Lee Harvey Oswald.

John Fitzgerald Kennedy (1917-1963)
A soma das partes difere da soma do todo. Os médicos que tentaram salvar Kennedy também atenderam sem sucesso, dois dias depois, Lee Harvey Oswald (Jeremy Strong) – oficialmente, o assassino de Kennedy. A morte de Oswald ou o destino de seu assassino, Jack Ruby, não merecem destaque. Em compensação, há um visível despropósito comparativo entre os dois enterros. Como se fosse uma espécie de “jogar para a plateia”, o filme mostra, rapidamente, que o corpo do presidente recebeu honras de Estado. Em paralelo, há uma longa cena sobre o enterro miserável de Oswald. Em um cemitério abandonado, um pastor aposentado – chamado às pressas – encomenda o corpo. Os agentes policiais, preocupados com a possibilidade de algum distúrbio popular, se recusam a ajudar. Dezenas de fotógrafos, como se fossem abutres vigiando o cadáver, acompanham a cena indesejada. Um lugar de merda para morrer, diz um dos agentes do FBI, se referindo a Kennedy. Poderia ter pensado em Oswald – seria a mesma coisa.

Produzido por Tom Hanks, Gary Goetzman e Bill Paxton, JFK – a história não contada não convence como cinema documental, tampouco mostra credibilidade como ficção. No máximo é um filme curioso, desses que projetam sobre um acontecimento histórico a esperança de extrair leite de pedra.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

NIHONJIN



Poucos romances brasileiros se preocuparam em retratar as dificuldades do imigrante. O discurso oficial de que somos um povo cordial (embora formado por três raças tristes) costuma encobrir o preconceito, as diferenças culturais e a forma predatória com que foram tratados todos aqueles que, por diversos motivos, precisaram abandonar seus países de origem para viver na idolatrada salve salve. 

Um dessas exceções, Nihonjin, escrito por Oscar Nakasato, restaura parte da história dos japoneses no Brasil. Cada capítulo do romance acrescenta uma camada de informações ao conflito do desenraizamento. As lembranças familiares – diante dos olhos do leitor – fluem com ternura, embora, em diversos momentos, misturem alegrias e encanto, sofrimento e perdas.

O narrador, Noburu, um dos netos de Hideo Inabata, com a simplicidade de quem respira, toma para si a tarefa de recuperar parte das ruínas familiares. Começa explicando as razões da imigração de seu avô, no início do século XX. Depois, descreve as dificuldades de adaptação em um país estranho, a morte da primeira esposa do Ojiichan, o segundo casamento, o esfarelamento do sonho de voltar ao Japão. São os filhos do patriarca (Hanashiro, Hitoshi, Haruo, Sumie, Hiroshi e Emi) que acenam para o caminho que surge no horizonte. Ao escolher entre a identidade cultural dos antepassados e o futuro proposto pela modernidade percebem que é impossível escapar incólume ao sistema repressivo imposto pela tradição histórica.

Nesse momento de transição geracional, onde o mundo rural dos avós entra em conflito com o mundo urbano dos netos, surge em cena o personagem mais carismático de toda a narrativa. Inquieto desde criança, sempre colocando em xeque os hábitos culturais que impediam a integração com os brasileiros, Haruo conseguia irritar o seu pai – um homem silencioso, que internalizava os sentimentos ao ponto de dizer que as palavras não foram inventadas para serem desperdiçadas. Defensor da ideia que o trabalho e a determinação forjam o caráter, Hideo exigia obediência cega dos filhos. Por isso, ao tomar conhecimento que Haruo cometeu uma falta grave, decide corrigir a indisciplina do filho com um kinshin. O menino deveria passar uma semana fora de casa, com apenas a roupa do corpo e um par de sandálias. Diante da adversidade, o infrator deve aprender a lição de que as comodidades da vida doméstica compensam a submissão ao poder paterna. Como era impossível reverter a punição, Haruo procurou auxílio com um dos membros da comunidade japonesa. Recusado o pedido de abrigo, procurou socorro na família de Pietro, um colega de aula, descendente de imigrantes italianos. Foi acolhido. Era para ser um castigo, mas não foi, ele gostou muito... E aprendeu mais coisas de gaijin, voltou falando coisas em italiano, pedindo para eu aprender a fazer polenta, lembrou, mais tarde, a sua mãe, Shizue.

Sumie, a mãe do narrador, protagoniza um episódio trágico.  Apaixonada por um gaijin – um pecado indesculpável –, precisou escolher entre ser expulsa da comunidade japonesa e a própria felicidade. A mãe e Hanashiro a impedem de fazer uma escolha complicada.  Depois de recusar vários pretendentes, aceitou casar com Ossamu. Um dia, dez anos depois, reencontrou Fernando. Desta vez, não foi possível resistir. Abandonou o marido, os três filhos, e foi viver a história de amor com que sempre sonhara.

Sintomaticamente, são essas duas figuras dramáticas que protagonizam as situações mais significativas da narrativa. A morte simbólica de Sumie, renegada pelos pais, pelo marido e pelos filhos, é complementada pela morte física de Haruo – adulto, perseguido pelo Shindo Renmei, foi assassinado a tiros por dois tokkotais. São momentos em que prevalece a tradição cultural.

Nihonjin, vencedor do Prêmio Benvirá de Literatura de 2011 e do Prêmio Jabuti de 2012, conjugando a aparente simplicidade narrativa com a intensidade emocional, descreve as tensões que surgem com o choque entre culturas, entre gerações familiares e o eterno descompasso promovido pelo tempo. A cena final, quando Noburo  se despede de Hideo (antes de viajar para o Japão, repetindo como dekasegi a história familiar), enfatiza que o desejo do imigrante de voltar para casa muitas vezes somente se concretiza duas ou três gerações depois.  


TRECHO ESCOLHIDO

Às vezes penso em ir vê-la. Eu devo ir vê-la. Talvez não seja essa mulher que eu traduzo em palavras, muito mais criação de um homem que tenta compreender aquela que abandonou o marido e os filhos do que a mãe que conheceu de verdade. Não importa, eu devo ir vê-la. Mas o meu mundo se fez a despeito de seus motivos e suas verdades: sempre há uma partida de futebol na televisão, os amigos que convidam para uma festa, as provas de meus alunos a serem corrigidas, um livro a ser lido, os filhos que querem atenção, a mulher que quer carinho. Mas, um dia, um sábado ou um domingo, acordarei muito cedo e, antes que os outros se levantem, antes que o telefone toque, irei à casa de minha mãe. Tocarei a campainha muitas vezes e ninguém atenderá. Desistirei. Dias depois, um amigo me dirá que assistiu na televisão a uma reportagem sobre uma senhora japonesa que foi encontrada morta em seu apartamento em Pinheiros.