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segunda-feira, 28 de julho de 2014

ORGULHO E PRECONCEITO



Nas horas de crise, quando o mundo parece estar em ruínas, a medicina deveria recomendar aos pessimistas e deprimidos alguns romances ingleses do século XVIII. São maravilhosos antídotos contra a mediocridade e a angústia. Além disso, todos celebram os finais felizes – que é uma das formas mais elegantes de suavizar os descompassos da vida. O poder terapêutico de qualquer uma das seis narrativas escritas por Jane Austen pode ser comprovado em 90% dos casos – sendo que Orgulho e Preconceito é o favorito de nove entre dez estrelas de Hollywood (como se dizia no tempo de minha avó). Quem é que consegue resistir aos encantos do relacionamento amoroso que une e separa Elizabeth (Lizzy) Bennet e Fitzwilliam Darcy?

O enredo é simples. As cinco filhas do casal Bennet (Jane, Elizabeth, Lydia, Catherine e Mary) precisam casar, pois o direito de herança determina que a propriedade da família, Longbourn, por falta de um descendente masculino, deve passar para as mãos de um parente distante, o Sr. William Collins, que exerce função eclesiástica em Hunsford. A chegada de estranhos, que alugaram Netherfield Park, uma mansão próxima, muda – para melhor – as perspectivas das moças Bennet. Na primeira oportunidade social, um baile público, a mais velha e a mais bonita das irmãs, Jane, se apaixona por Charles Bingley. Na mesma ocasião, Fitzwilliam Darcy consegue demonstrar o quanto é antipático – defeito que Elizabeth considera inadmissível em um cavalheiro. O resto do romance, mais de 400 páginas, está relacionado com enganos, mal-entendidos, desencontros, confusões e paixão.

Orgulho e Preconceito não é um drama clássico. Ao contrário, há trechos engraçadíssimos. A ironia e a comédia estão presentes em alguns dos principais personagens. O humor refinado do Sr. Bennet se destaca no meio de uma multidão de tolices. A mãe de Elizabeth, obcecada pelo futuro de suas filhas, transita entre o constrangimento e a inconveniência. Collins acumula tantas qualidades negativas (pernóstico, puxa-saco, medíocre,...) que é difícil escolher uma que não o considere uma aberração humana. Charles Bingley é um pateta sem personalidade, incapaz de decidir qualquer coisa, inclusive a própria felicidade, sem se apoiar nas opiniões da irmã ou de Darcy.

Em lado oposto, a seriedade está representada pela banalidade e a canalhice que caracterizam George Wickham – um personagem raso, desses que estão em cena para dissimular as diferenças entre o certo e o errado. Lady Catherine de Bourgh, tia de Darcy, unindo o histriônico com a prepotência, não consegue entender qualquer coisa que se afaste do mundo aristocrático – redoma que se mostra incapaz de proteger os valores que defende. A falta de graça desses dois personagens vai se transformando lentamente em humor. Eles são elementos de uma paródia, de uma caricatura grotesca.

O feminismo avant-la-lettre de Elizabeth Bennett é, provavelmente, a melhor qualidade de Orgulho e Preconceito. Ela consegue entender os acontecimentos antes dos outros personagens. Utiliza esse predicado como um jogador de xadrez – que calcula vários lances antes de seu adversário. Rebelde à tirania masculina, reverte qualquer situação desfavorável com presença de espírito. Herdou do pai a língua afiada, o uso da ironia como arma de combate. Nenhum homem consegue levar vantagem com ela. Inteligente, despreocupada com as aparências, lutando ardorosamente contra as convenções machistas, Elizabeth consegue encantar o coração empedrado de Darcy. Quando ele se declara apaixonado, confirma aquilo que o leitor desconfiava desde as primeiras páginas do livro: por trás daquela máscara de indiferença com o que é importante para as mulheres, há um homem carente.

Embora não seja a mais velha das cinco filhas, Elizabeth lidera as outras irmãs. Quase todas. A insensatez de Lydia não têm controle. Em compensação, a forma com que Elizabeth oferece solidariedade para Jane é exemplar. Embora não tenha muita estima pelo estilo atrapalhado de Charles Bingley, ela quer, antes de tudo, que a irmã seja feliz. E não economiza esforços para que o romance dos dois consiga chegar a um bom termo. Quando Darcy intervém para que o casal se una, o que o leitor percebe não é exatamente o triunfo de uma história de amor. O relevo dessa cena é o poder de Elizabeth agindo nos bastidores – muito mais forte do que as forças do destino.

Orgulho e Preconceito celebra a valentia das mulheres – e a fragilidade dos homens. A reunião desses dois ingredientes resulta em um romance magnífico, um triunfo da sagrada arte de compartilhar boas histórias com o leitor. Em síntese, um clássico. 

P.S.: Há várias versões cinematográficas e televisivas de Orgulho e Preconceito. Uma das mais conhecidas foi dirigida por Joe Wright, em 2005. Keira Knightley e Matthew Macfadyen interpretam os papéis principais.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

ESTILO DE VIDA (em cinquenta e cinco frases demolidoras)



– A única paixão de minha vida foi o medo (Thomas Hobbes)

Em 1969, eu abri mão de mulheres e bebidas. Foram os piores 20 minutos da minha vida. (George Best) 

George Best
 – Viver bem é a melhor vingança. (Provérbio basco)

– Se pelo menos não vivêssemos tentando ser felizes, até poderíamos nos divertir bastante. (Edith Wharton)

 – Há favores tão grandes que só podem ser pagos com a ingratidão. (Alexandre Dumas, père)

– Faça qualquer besteira – desde que com entusiasmo. (Colette) 

Nunca viajo sem o meu diário. Devemos ter sempre algo sensacional para ler no trem. (Oscar Wilde)

– O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com os dois dedos e amar com a vida inteira. (Antônio Maria)

– Deus, dá-me a castidade – mas não agora. (Santo Agostinho)

Eu sei que Vossa Excelência preferia uma delicada mentira; mas eu não conheço nada mais delicado que a verdade. (Machado de Assis)

– Culpa é o preço que pagamos de bom grado para fazer o que iríamos fazer de qualquer jeito. (Isabelle Holland)

Samuel Beckett
– Custamos a nos casar. Ela se recusava a se casar comigo enquanto eu vivesse bêbado e eu me recusava a me casar com ela quando estava sóbrio. (Henny Youngman)

– O mal do talentoso é que ele tem inveja do rico. Já o rico não tem a menor ideia do que é que o talentoso está falando. (Millôr Fernandes)

Gastei muito dinheiro em bebida, mulheres e carros rápidos. O resto eu desperdicei. (George Best)

– Me dêem mil atos de absoluta moralidade e eu construirei um bordel. (Millôr Fernandes)

– Nenhuma pessoa civilizada vai para a cama no mesmo dia em que se levantou dela. (Richard Harding Davis)

– Nada é mais engraçado do que a infelicidade. É a coisa mais cômica do mundo. (Samuel Beckett)

– A pobreza não dá felicidade, isso eu estou cansado de saber. Os ricos, por sua vez, dizem que a riqueza também não dá felicidade. Mas isso eu ainda pretendo verificar. (Millôr Fernandes)

– Muitas mulheres consideram os homens perfeitamente dispensáveis no mundo, a não ser naquelas profissões reconhecidamente masculinas, como as de costureiro, cozinheiro, cabeleireiro, decorador de interiores e estivador. (Luís Fernando Verissimo)

– Todo homem tem o sagrado direito de ser imbecil por conta própria. (Ivan Lessa)

– O homem para quem as mulheres são um livro aberto geralmente gosta de ler na cama. (Henny Youngman)

– Por que ser desagradável quando, com um pequeno esforço, você pode ser intolerável? (Fran Lebowitz)

– Nascer estadista em país subdesenvolvido é como nascer com talento de violinista numa tribo que só conhece a percussão. (Millôr Fernandes)

Millôr Fernandes
– Nunca me casei porque nunca precisei. Tenho três bichinhos em casa que, juntos, perfazem um marido: um cachorro que rosna de manhã, um papagaio que fala palavrões e um gato que volta de madrugada para casa. (Maria Corelli)

– A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades. (Nelson Rodrigues)

– Pedir desculpas é assentar o terreno para futuras ofensas. (Ambrose Bierce)

– Ninguém se ruboriza no escuro. (Benjamin Whichcote)

– Nada mais supérfluo do que uma Bíblia no apartamento de um hotel cinco estrelas. (Francis Scott Fitzgerald)

– As tragédias alheias são sempre de uma desesperadora banalidade. (Oscar Wilde)

– O segredo para se continuar jovem é ser honesta, comer devagar e mentir sobre a idade. (Lucille Ball)

– Quando fiz quinze anos, ganhei um relógio de pulso e cinco mil réis. Olhei os ponteiros, vi que era hora de fazer uma besteira e entrei no botequim. (Antônio Maria)

Antônio Maria e Vinicius de Moraes
– Boas maneiras só são indispensáveis para os feios. As pessoas bonitas podem se comportar de qualquer jeito. (Evelyn Waugh)

– Quando me dá vontade de fazer ginástica, deito e espero passar. (Neuzinha Brizola)

– A única diferença entre certas mulheres e um abutre é o esmalte de unhas (Robert Upton)

– Há um paralelo entre o uísque e os seios de uma mulher: um é pouco, três é demais. (Henny Youngman)

Nos momentos mais cruciais da vida, a ajuda do cigarro é mais eficaz que a dos Evangelhos. (Emil Cioran)

– As mulheres honestas não se conformam com os pecados que não cometeram. (Sacha Guitry)

– Pensão judicial é um sistema pelo qual duas pessoas cometem um erro e uma delas continua a pagar por ele. (Mark Twain)

– É impossível amar uma segunda vez quem verdadeiramente deixamos de amar (La Rouchefoucauld).

– O casamento é a única guerra em que se dorme com o inimigo. (Provérbio mexicano)

– Escritor discute dinheiro. Quem discute literatura é o leitor. (João Ubaldo Ribeiro)

Evelyn Waugh
– As mulheres costumam mentir a respeito de qualquer coisa – apenas para não perder a prática. (Raymond Chandler)

– Algumas pessoas nunca dizem uma mentira – se souberem que a verdade pode machucar mais. (Mark Twain)

– Todos os vestidos de mulher são simples variações da eterna luta entre o desejo confesso de se vestir e o desejo inconfesso de se despir. (Lyn Yutang)

– Casamento é como caipirinha de boteco: todo mundo sabe que dá dor de cabeça, mas todo mundo quer experimentar. (Do filme Pequeno Dicionário Amoroso)

– Miloca não era cruel; pelo contrário, tinha sentimentos caridosos; mas, como ela mesma disse um dia ao pai, nunca se deve dar esmolas sem luvas de pelica, porque o contato da miséria não aumenta a grandeza da ação. (Machado de Assis)

Seleciono meus amigos pela aparência, meus conhecidos pelo caráter e meus inimigos pelo intelecto. Um homem deve ser muito cuidadoso na escolha dos inimigos. (Oscar Wilde)

Eu parei de beber, mas apenas enquanto eu durmo. (George Best)

– As aparências enganam; foi a primeira banalidade que aprendi na vida, e nunca me dei mal com ela. (Machado de Assis)

Nunca busquei a felicidade. Quem quer saber da felicidade? Minha procura é de prazer. (Oscar Wilde)

John  Wayne
– Para mim elas podem trabalhar onde quiserem – desde que eu encontre o jantar pronto quando chegar em casa. (John Wayne)

– Todos os cafajestes que conheci na minha vida eram uns anjos de pessoas. (Leila Dinis)

– Um homem nunca está completo até que se casa. A partir daí, está acabado. (Zsa Zsa Gabor)

Quem se mata por uma mulherzinha vive uma experiência mais completa e profunda do que o herói que altera a ordem do mundo. (Emil Cioran)

O brasileiro, quando não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte. (Nelson Rodrigues)

quinta-feira, 17 de julho de 2014

ESBOÇO



A vida precisa estar conectada com a diversão. Prêmio para quem sai de casa e enfrenta o mundo. Em caso contrário, recomenda-se ao distinto público, com toda pompa e circunstância que considerar necessária à ocasião, conforme determina a lei, a ordem e o progresso, que vá plantar batata no asfalto, com enxada de borracha. E tenho dito. Ou desdito. Como convém à contenção. E ao desmoronamento. E ao sei-lá-o-mais-o-quê. Nessas horas sempre surgem dúvidas e perguntas difíceis de responder. Quem é que vai servir um bule de chá para acalmar os ânimos e os excessos? Quem é que vai organizar os shows das bandas de rock e as inesquecíveis performances de street tease? Todos e ninguém. Derrubou na área, é pênalti. Vale tudo. Mesmo que o patrão não libere o vale no final de semana. Uma dúzia de latinhas de cerveja é indispensável, nada parece mais desumano do que morrer de sede. É o que dizem. Papai & mamãe. No capricho. Por isso não é adequado procurar ombro amigo em momentos de tensão. Os finais felizes não estão escritos, inscritos, nas histórias de amor. Tesão é a doença do século. Furação. Dizem. Mesmo quando não é aquilo tudo. Ou está resumida em lenda doméstica, selvagem, uma dessas histórias nebulosas que ninguém imagina que poderia acontecer na família. Só na dos outros. A inapagável versão mitológica de traições, repressões e agregados de cama, mesa e banho. Agora é tarde para tentar encobrir a desgraça. Há testemunhas, quer dizer, testemunha mesmo não há, mas alguns parentes, ou serpentes, ouviram uma das partes envolvidas descrever com a palheta do rancor os detalhes que dão colorido ao caso. Acaso e ocaso. Então é possível que o boato tenha fundamento.  Quem duvidar disso é louco, repete tia Esperança, aquela que passou a vida toda aguardando pelo Príncipe Encantado e na falta de coisa melhor casou com tio Antônio, que também não é grande coisa. Um pobre diabo – como todos nós, que isso também não é possível negar. Ou renegar. Ou regenerar. Pau que nasce torto morre torto. Não se ensina truque novo para cachorro velho. São tantas as bobagens que surgem nesses momentos de acerto de contas, que uma a mais, uma a menos, não vai fazer nenhuma diferença. Mulher é bicho terrível. Ninguém vive sem. Eis a comédia. Ou a tragédia. Cada um com a sua cruz. Cruzada, a busca incansável pelo Santo Graal. Ao canto, espectador imemorial, schadenfreude, que tudo se resume na palavra divina. E maravilhosa. Rosa. Prosa. Verso. Inverso. Imerso nessa trova. Prova dos noves. Das naves e dos galeões. Garrafões jogados no mar com canções desesperadas e poemas de amor. Ou receitas de quindim. Talvez isso explique (ou não) porque alguns homens, vez ou outra, entram em licença sem vencimentos por período indeterminado. 


P.S.: Reproduções de fotos de Henri Cartier-Bresson (1908-2004)