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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

NADANDO DE VOLTA PARA CASA



Alguns livros remetem a uma incerta familiaridade, a sensação pouco sólida que acompanha o déjà vu – talvez porque a referência básica esteja envolta em uma nuvem de indeterminação. Esse é o caso de Nadando de Volta para Casa, romance curto (159 páginas) da sul-africana Deborah Levy – atualmente residindo em Londres  e que parece repetir uma história vista em outro lugar, mas que poucos conseguem identificar. 

Joe Harold Jacobs, nascido Jozef Nowogrodzki, em Lódz, na Polônia, em 1937, chegou à Inglaterra com cinco anos de idade, quase morto de inanição e com documentos falsos. O resto de sua vida não é muito difícil de prever, as cicatrizes do exílio se pronunciando diariamente nos poemas que ele escreve. 

 Durante as férias, a família Jacobs (Joe, Isabel, Nina), na companhia de um casal de amigos, Mitchel e Laura, aluga uma casa na França. O ponto de combustão da crise ocorre durante um desses momentos que estão abrigados no imaginário burguês.

A botânica Katherine Finch, mais conhecida como Kitty Ket, surge em cena como uma espécie de anjo da anunciação. Alegando ter havido erro na reserva que fez para se hospedar na casa, durante o verão, acaba acolhida pelos inquilinos oficiais. Na bagagem traz uma cópia de um poema, Nadando de Volta para Casa, que entrega para Joe Jacobs – esperando que o poeta emita um parecer sobre a qualidade dos versos. O que ela quer é outra coisa, mas isso só se torna público nas últimas páginas da narrativa.

A presença inesperada da mulher que adora tomar banho de piscina completamente nua e que deixou de tomar os antidepressivos que lhe foram prescritos pelo profissional competente, serve de alavanca para dar visibilidade a diversos segredos domésticos, Casais estavam sempre loucos para voltar à tarefa de tentar destruir seus parceiros enquanto fingiam estar agindo para o bem deles. O ambiente familiar, que parecia seguro, imune às avalanches emocionais, transforma-se em cenário de desconforto,(...) era como ter um pequeno caco de vidro enfiado na sola do pé, sempre lá, um tanto doloroso, mas [era necessário] conviver com ele. Ao longe, Madeleine Sheridan, a médica que mora na casa vizinha, observa a tragédia, sem poder intervir ou ajudar as vítimas.

Com uma estrutura descontínua, próxima do fragmentário, embora em ritmo quase linear, o texto vai deslizando, a cada capítulo, na direção da elucidação de algumas das pontas soltas que se multiplicam pela narrativa. Como diz Kitty Ket, A vida só é digna de ser vivida porque temos esperança de que vai melhorar e de vamos chegar em casa sãos e salvos. O que poucos percebem é que – muitas vezes – não há salvação. E a “casa” é apenas uma ilusão de ótica. 

Com o passar do tempo e da leitura, o que parecia ser apenas uma história banal de infidelidade conjugal encontra eco no axioma proposto por Albert Camus, Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Sem muita demora, o imediato corolário ao postulado existencialista surge em uma das frases proferidas por Kitty  Ket, – O importante não é morrer. É a decisão de morrer que importa.

Nas últimas páginas, quando não há mais possibilidade de modificar os fatos, surge o efeito entorpecedor da banalidade das historias de amor que estão destinadas à infelicidade: Ele estava dentro dela agora, mas ele estava dentro dela de qualquer maneira, foi isso que ela não conseguiu dizer a ele, mas ela havia dito isso a ele em seu poema que ele não lera.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

CASABLANCA



– Quantos tempo tivemos, querida? 
– Não contei os dias. 
– Eu contei. Cada um deles. Lembro-me bem do último. Um cara de pé na plataforma, debaixo de chuva, com uma expressão cômica porque sofreu um golpe tremendo. 


Qual é o melhor final infeliz da história do cinema? Na opinião de muitos críticos, as últimas cenas de Casablanca (Dir. Michael Curtis, 1942) jamais serão superadas. Difícil competir com uma narrativa que consegue misturar paixão, drama político e desespero amoroso. 

Muitos baldes de tinta foram gastos para tentar explicar  o porquê de Richard (Rick) Blaine (Huphrey Bogart) e Ilsa Lund (Ingrid Bergman) não protagonizarem o conto de fadas que costuma ilustrar o cinema hollywoodiano. De qualquer forma, a gênese da tragédia está na ascensão do nazismo e na consequente prisão do ativista político Victor Laszlo (Paul Henreid), marido de Ilse.

Informada que o marido tinha sido morto em um campo de concentração, ela encontra nos braços de Rick compensação para a perda. Infelizmente, por diversas razões, o casal precisa se separar quando Paris foi invadida pelas tropas alemãs, em 1940.  

Provavelmente a maior atração do filme é a inteligência de Rick Blaine, que parece uma lâmina (blade) afiada. Cada palavra que ele pronuncia equivale a um soco no plexo solar do adversário. Simultaneamente, a repulsa com que trata as pessoas que o cercam indica que a tentativa de afastamento de toda e qualquer intimidade com os seres humanos ambiciona esconder a carência afetiva. Em algum lugar, entre o coração e o cérebro, mora um homem apaixonado. Evidentemente, essa elegância discreta aparece raramente, como na ocasião em que salva uma jovem húngara da sanha sexual do Chefe de Polícia de Casablanca, Capitão Louis Renault (Claude Rains). No dia a dia, Rick se esforça para manter a pose de brutamontes, desses que afogam as mágoas com grandes doses de bourbon. Basta lembrar o dialogo com Yvonne:

– Onde você estava ontem à noite? 

– Faz tanto tempo, que nem lembro. 

– Vou te ver hoje à noite? 

– Não planejo com tanta antecedência.


No momento em que Ugarte (Peter Lorre) lhe pergunta, Você me despreza, não?, a resposta é rápida e dolorosa, Se pensasse em você, provavelmente o desprezaria. 

Ao conversar com Renault e que é, na medida do possível, seu amigo, escapa do interrogatório de forma criativa:

– E o que o trouxe a Casablanca? 

– Minha saúde. Vim para cá por causa das águas. 

– Águas? Que águas? Estamos no deserto. 

– Fui mal informado.


Renault também é um bom personagem.  Ao ser desafiado por Rick em uma aposta de 20 mil francos, baixa o valor para 10 mil e, como compete a um canalha profissional, esclarece: Sou apenas um pobre oficial corrupto. Conversando com o Major Heinrich Strasser (Conrad Veidt), oscila entre a prudência e o realismo cínico:

– Tem certeza de que lado está? 

– Não tenho convicções políticas, se é o que quer dizer. Vou com o vento. E o vento forte vem de Vichy. 

– E se ele mudasse? 

– O Reich não admite a possibilidade.


Proprietário do Rick’s Café Américan, Richard Blaine sabe que quem está no inferno jamais pode alegar inocência. Os dois mais importantes bares de Casablanca, Rick’s e Blue Parrot, são uma extensão do escritório para alguns dos mais interessantes trapaceiros do mundo. Ao lado dos nazistas e dos representantes do governo francês entreguista (República de Vichy) encontram-se conspiradores, batedores de carteira, alcoólatras, mulheres apaixonadas, jogadores, assassinos, mercenários e compradores de diamantes. No mercado negro que alimenta essa escória, controlado por Ferrari (Sidney Greenstreet), proprietário do Blue Parrot, não há nenhum tipo de restrições: comidas, bebidas, passaportes, vistos e salvos-condutos.


Na Europa dominada pelos nazistas, a última esperança de liberdade está em Lisboa, de onde partem navios e aviões para Estados Unidos. São muitos os caminhos até lá. Há quem acredite que a rota menos perigosa é a mais tortuosa. Por isso, muito preferem se arriscar pelo norte de África, mais precisamente por Casablanca, no Marrocos francês. É lá que acontece o reencontro da história protagonizada por Rick e Ilsa. 

Acompanhada pelo marido, ela está procurando por salvos-condutos que os ajudem a atravessar o Oceano Pacifico e escapar dos horrores da guerra. De todos os bares de todas as cidades, no mundo todo, ela tinha que entrar exatamente no meu, lamenta-se Rick.

O que se segue é um típico momento adolescente apaixonado, com direito a lembranças que se perderam entre o passado e muitas doses do anestésico que o garçon do Rick's costuma servir aos desesperados. Como trilha sonora, Rick pede para que Sam (Dooley Wilson) toque, mais uma vez, As Time Goes By, música tema do casal. Esse momento ternurinha demi-bombé, retrato cruel da dor de corno, não combina com a imagem de sujeito durão que Rick gosta de representar. Além disso, ele está ciente de que a fragilidade não é uma muleta emocional capaz de angariar simpatias.

Por isso, depois de driblar as complicações e os inúmeros equívocos, inclusive o esquema confuso que foi montado para prender Victor Lazslo, Rick decide entregar para o casal os salvos-condutos que Ugarte deixou com ele, antes de ser preso e morto. Essa é a forma que escolheu para desmentir a principal acusação de Ilse: Uma mulher o magoou, e você se vinga no resto do mundo.

Para ajudar Ilse e Victor, Rick precisa ameaçar Renault com uma arma:

– Ligue para o aeroporto. Lembre-se que esta arma está apontada para o seu coração. 

– É o meu ponto menos vulnerável. 


Enquanto o avião decola na direção da liberdade, o Major Strasser tenta impedir a fuga. Rick dispara contra o nazista e o mata. Paradoxalmente, Renault nada faz para impedir essa quebra da ordem institucional. Seguindo o cinismo que o caracteriza, diz aos soldados franceses: Round up the usual suspects! (Prendam os suspeitos de sempre).

Na cena final, Rick e Renault saem caminhando na direção da neblina. Rick diz, possibilitando uma série de interpretações complicadas: Louis, acho que este é o começo de uma bela amizade.

 Casablanca ganhou três Oscars em 1943: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado. 


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

SUICIDAS



Talvez o maior problema do romance policial contemporâneo seja o de descobrir (ou elaborar) um enredo inovador. Usualmente, isso se mostra uma impossibilidade. Conforme a técnica narrativa evoluiu e milhares de romances foram publicados, quase todos os temas – e suas variações – foram vasculhados das maneiras mais surpreendentes possíveis. Sobraram poucas alternativas em uma terra fértil e, circunstancialmente, arrasada. Por isso, a opção básica mais frequente está em reelaborar algum assunto conhecido, dando-lhe conteúdo ou, quiçá, se houver sorte, uma nova embalagem – que, em muitos casos, serve de substancial distração para o leitor menos avisado.

Entre as múltiplas escolhas possíveis, o enigma do quarto fechado costuma ser uma opção muito tentadora. Seguindo o roteiro proposto por Agatha Christie, que publicou, em 1939, Ten Little Niggers (traduzido, inicialmente, no Brasil. como O Caso dos Dez Negrinhos, e que a tolice editorial, por conta do politicamente correto, transformou, recentemente, em E Não Sobrou Nenhum), a ideia propõe colocar uma personagem, ou várias, em uma sala fechada e manipular os acontecimentos até que a tragédia aconteça. Na visão do leitor, potencialmente um voyeur, esse tipo de situação fornece destaque para duas questões antagônicas. A primeira, menos importante, consiste em descobrir quem praticou o inominável. A segunda, mais inventiva, se relaciona com o modus operandi.

Suicidas, primeiro romance de Raphael Montes, publicado em 2012, segue essa trilha, escorado em uma charada bastante interessante: por que nove jovens escolheram praticar suicídio coletivo, no porão de uma mansão? A trama está dividida em três planos narrativos. Como a teoria da literatura considera – por diversos motivos – que os narradores em primeira pessoa não são confiáveis, delegar duas camadas de informações a um mesmo narrador enfraquece bastante o desenvolvimento textual. E esse é um problema bastante significativo, na medida em que não permite contraste entre possíveis versões dos acontecimentos ou a elaboração de um número maior de dúvidas sobre o comportamento das personagens.

Um dos relatos é uma espécie de diário intimo de Alessandro Parentoni de Carvalho, um dos suicidas, e que foi encontrado em seu quarto. O outro documento é um esboço de narrativa, baseado em “fatos reais”, também escrito por Alessandro, e que – por milagre! – se salvou do incêndio que foi debelado pela polícia quando chegou à propriedade onde aconteceram as mortes múltiplas. 

No intervalo entre os dois documentos há uma reunião, na chefia da Polícia Civil, um ano depois dos trágicos acontecimentos, com as mães de oito das vítimas. Esse artifício narrativo, gerenciado por um narrador que está acima de Alessandro, centraliza em estrutura teatral (inclusive com as devidas didascálias, que são as instruções relativas ao comportamento e procedimento dos atores) o melodrama histérico. Gritos, acusações, contra-acusações e dispersões analíticas assumem o proscênio. Por fim, na discussão sobre os últimos acontecimentos da vida dos filhos, impera a ausência masculina. Para o leitor que conhece alguns rudimentos da psicanálise, a hipótese de todos os envolvidos serem filhos de inseminação artificial soa como descabida. Em paralelo, cabe destacar que o único pai presente no texto é descrito como um sujeito agressivo e perverso e que, claro, morre logo – vítima de um acidente de automóvel.

O romance está alicerçado na interposição desses três planos narrativos e no ordenamento homeopático, que vai fornecendo a sequência da história. Ao mesmo tempo, a descrição dos conflitos "amarra" o leitor, que precisa ler o próximo capítulo para descobrir como os diversos elementos do discurso estão encadeados. No momento em que cada capítulo começa a apresentar sinais de cansaço, o narrador geral muda o plano narrativo, introduz algum novo elemento, e, ciente de que não há problemas, continua em frente, nesse ritmo monocórdio, por 487 páginas – que se fossem resumidas em cerca de 250 provavelmente seriam muito mais eficientes e menos maçantes.

O enredo singular, mas previsível, descreve as possíveis razões para que cada uma das vítimas vá ao encontro da morte. São muitos os interesses. Há momentos de esperteza e estupidez. No jogo, onde prevalece a tensão, a tesão e as más intenções, a culpa e a ganância se encontram. Resultado: o campo de batalha fica coalhado de cadáveres.  

Todos esses elementos contribuem para tornar quase óbvia a conclusão da narrativa – que se assemelha a tantos outros desfechos clássicos do romance policial. Uma vez localizada a chave-mestra, basta encaixar as peças soltas do quebra-cabeça. Em outras palavras, Suicidas é um bom entretenimento, mas está longe de apresentar uma carpintaria narrativa de qualidade.


P.S.: O momento de maior criatividade de Suicidas encontra-se na última página quando, simulando autoficção, o narrador Alessandro muda de nome duas vezes e assume, de forma definitiva, o pseudônimo Raphael Montes. É uma boa sacada.