Páginas

terça-feira, 26 de maio de 2015

CÍCERO (Marcus Tullios Cícero, 106 a.C. – 43 a.C) EM VINTE E CINCO FRASES

É o azar, não a prudência, que rege a vida.


A vida dos mortos está na memória dos vivos.


Nunca houve douto que considerasse inconstância uma simples mudança de opinião.


Viver é pensar.


A força é o direito das bestas.


A testa, os olhos, o rosto mentem muitíssimo. As palavras mentem muito mais.


Quando as armas falam, as leis se calam.  (Silent inter arma legis)


Que haverá mais alegre do que uma velhice rodeada pela curiosidade de saber da mocidade?


A qualidade peculiar de um tolo é perceber os defeitos dos outros e esquecer os próprios.


Toda a vida dos filósofos é um preparo para a morte.


Visto que não podemos viver muito, façamos ao menos alguma coisa para demonstrar que vivemos.


A paz é doce e salutar. Mas, entre a paz e a servidão a diferença é grande.


As pessoas são como os vinhos: a idade azeda os maus e apura os bons.

Os estoicos definem o amor como tentativa de formação de amizade pela beleza.


Somos escravos das leis para podermos ser livres.


Ser louvado pelos honestos e ser desprezado pelos maus é a mesma coisa.


Tão próximos estão os erros das verdades que o sábio jamais deve se situar em ponto escorregadio.


É preciso comer para viver – não viver para comer. 


Utilidade e baixeza não podem existir na mesma coisa.


A confidência corrompe a amizade; muito contato, a consome; o respeito, a conserva.


Não fomos criados por um simples acaso. A força que gerou o gênero humano não o teria criado e muito menos conservado se fosse apenas para, depois, precipitá-lo no eterno mal da morte.


Não é de paredes que se compõe uma nação – lares e altares são mais importantes.


Até quando, ó Catilina, hás de abusar de nossa paciência?


Sou profundamente grato à velhice que, aumentando o meu interesse pela conversação, me tirou a paixão ao comer e beber.


Vou-me da vida não como quem sai de casa, mas como quem vai para uma pousada. 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

AMORES, TRUQUES E OUTRAS VERSÕES


As narrativas que compõem Amores, Truques e Outras Versões, de Alex Andrade, fornecem uma fatia da visão contemporânea a respeito dos relacionamentos homossexuais em uma grande cidade brasileira. Em tempos não muito remotos a procura por possíveis parceiros era realizada nas ruas, praças, boates, saunas e banheiros públicos (cenários descritos detalhadamente em Uma Questão de Vida e de Sexo, do inglês Oscar Moore, e Trem Fantasma, do brasileiro Carlos Hee). Modernamente, a exposição pública (e parte dos perigos que envolvem esse tipo de “caçada”) foi substituída pela assepsia das redes sociais e dos aplicativos de telefone celular – que localizam rapidamente, em uma determinada área geográfica,os interessados em compartilhar o prazer. Como diz um dos narradores do livro, Sou escravo de meus desejos e dependente da vida tecnológica.

A característica mais importante dessa forma de encarar os relacionamentos sexuais está na completa ausência de afeto. Os corpos sem identidade (as pessoas inventam tantos nomes, codinomes, apelidos. Às vezes até eu mesmo me confundo com tanta variedade, porque em certas ocasiões também esqueço que nome disse ao combinar o encontro.) transitam por Amores, Truques e Outras Versões como se fossem so(m)bras descartáveis. Cada palavra, cada frase do livro procura – de forma obstinada – negar o romantismo. Apaixonar-se significa aceitar a perda do domínio do jogo de sedução. Significa deixar de lado a irresponsabilidade adolescente (embora os narradores tenham mais de 30 anos!) e enfrentar os terrores da idade adulta. Não há compensação para um provável desperdício de energia libidinal. Por isso, o simulacro machista do predador primitivo, sempre atento aos benefícios do hedonismo inconsequente, não se sente bem quando é impedido de usar e gozar do estoque de ilusões. A sacanagem é um fast food. A sacanagem é deliberada e entregue no seu quarto, no escuro, num simples toque de mãos.

No entanto, o acordo tácito entre as partes, ou seja, a garantia de que não haverá qualquer tipo de envolvimento emocional (Eu gosto do eterno primeiro encontro, como já disse, cada dia uma novidade, sempre a primeira impressão. Depois disso, a foto fica desfocada e você a põe no álbum de recordações), não se mostra suficiente para assegurar que a experiência ocorra de forma ideal. O assunto que se desenrolava tão intimo entre as teclas de um aparelho celular ou de um computador perde o sentido quando a coisa se torna real, quase levando tudo por água abaixo. Por maiores que sejam os esforços dispendidos para que o encontro sexual ocorra sem grandes traumas, e que desconhecidos continuem desconhecidos após o ato, não há como impedir que a sensação de incompletude apareça em cena e confronte as ruínas físicas e emocionais. Alguma coisa sempre fica faltando. Há muitos obstáculos a superar. Acho que não curti o cara. A conversa dele estava me dando um tremendo sono. De súbito virei o copo de suco todo de uma vez só, enquanto ele falava e mastigava um croissant entupido de catupiry. Fiquei enjoado só de olhar aquela cena e me veio uma sensação estranha de quem assiste a um filme desinteressante no cinema, perde o fio da meada, se distrai e passa a observar tudo o que está ao redor, menos o filme.

Cada experiência ruim serve de estímulo para outra tentativa: quero mais, quero sempre mais, até que não existam limites, quero reinventar o desejo. E pouco importa se, nesse percurso, ocorrerem enganos, armadilhas e decepções. (...) o tesão nunca se encerra, ele apenas repousa. O que está em jogo são os apetites. E a fome. Faz parte da fantasia e do contexto parecer sempre a primeira vez, como se também fosse a última.

O livro, estruturalmente, se divide em três partes distintas. Em Truques, um narrador em primeira pessoa descreve os principais acontecimentos de uma vida sexual bastante movimentada. Em Outras Versões, algumas das cenas relatadas anteriormente se deslocam para o olhar de vários narradores. Aqueles que foram descritos na primeira parte assumem o relato e fornecem diferentes perspectivas dos fatos. O leitor, diante desse efeito simultâneo de estranhamento e reconhecimento, percebe o truque literário. No entanto, cumprindo com a sua parte no pacto ficcional, absorve o acréscimo de detalhes e significados como se fosse outra narrativa, como se algo novo estivesse lhe sendo apresentado. A terceira parte, Amores, está concentrada na patética espera por um amante eventual. A modernidade tecnológica (telefone celular, Internet) se mostra inútil para compensar a frustração do sexo que não se realiza. A solidão (sensação física que não pode ser compensada pelas fantasias virtuais) adquire relevo. Sobra pouco, como observa o narrador, Qualquer hora amanhece mais uma vez e outras histórias a gente inventa para ter o que contar. Talvez seja isso, ao final da noite tudo se resume em um punhado de histórias inventadas. 

Em alguns momentos o fluxo narrativo, que flerta com o monólogo interior, fica próximo do discurso. Embora não seja um defeito significativo,... em menor quantidade, seria uma qualidade.

As várias histórias encadeadas não permitem associação com os modelos literários ortodoxos. Há dificuldade para classificar o livro como um conjunto de contos que se complementam ou uma novela fragmentada. Paralelamente, deve-se somar às características de Amores, Truques e Outras Versões o sempre bem-vindo pudor. Livros que falam sobre envolvimentos sexuais costumam ignorar a discrição e se exceder nas descrições gráficas. Não é o caso. Felizmente. Há apenas rápidas menções sobre as travessuras praticadas entre quatro paredes. A literatura agradece.


P.S.: Não se deve julgar um livro pela capa, mas... Na contramão da falta de imaginação que caracteriza as editoras brasileiras, a capa e o projeto gráfico de Amores, Truques e Outras Versões marcam pontos a favor. 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

QUATORZE AMOSTRAS DO ESTILO LITERÁRIO DE SAKI


“Gatos têm nove vidas, você sabe”, disse Sir Wilfrid, cordialmente.
“É possível”, respondeu Tobermory. “Mas só têm um fígado”.

(...) estava reclinado em uma poltrona confortável com o olhar sonhador e distante como o de um vulcão logo após ter desolado vilas inteiras.

(...) estava possuído por uma grande paz, e não era toda devida ao fato de que havia convencido seus pés a entrarem em sapatos um número menor.

Por que as mulheres gostam tanto de revirar o passado? São más como alfaiates, que invariavelmente lembram o quanto você ainda lhes deve por um traje que deixou há muito de usar.

Lembram um pato que sai batendo as asas com alegria forçada muito depois da cabeça ter sido cortada.

O problema é que muitas pessoas que têm dinheiro para desperdiçar parecem ter ideias muito vagas sobre como desperdiçá-lo.

Se quer uma lição sobre artificialidade elaborada, basta observar a estudada falta de preocupação de um gato persa entrando em um salão lotado.

Os Beauwhistles não nasceram nas altas esferas sociais, sabe, mas estão chegando lá a prestações – um tanto à vista, o resto quando bem entenderem.

(Estava) tão desesperadamente ansiosa para fazer a coisa errada do jeito certo.

Desvestir-se na presença de uma dama, mesmo por uma causa tão louvável, era uma ideia que fazia as pontas de suas orelhas tinirem com um rubor de vergonha abjeta. Ele nunca sequer fora capaz de expor suas meias na presença do sexo frágil.

Encarou a companhia com um sorriso que imaginava que um aristocrata da melhor estirpe usaria ao subir à guilhotina.

Reprovava as distinções sociais e zombava da ideia de uma casta principesca, mas se tais gradações artificiais de posição e dignidade precisavam existir, ela estava contente e ansiosa por ter um espécime elevado de uma ordem elevada incluído em sua festa. Sua mente era aberta o suficiente para amar o pecador mesmo odiando o pecado.

Seus sentimentos eram aqueles que poderiam ter animado um general da antiguidade guerreira ao ver seu maior elefante de guerra humilhado e expulso do campo de batalha por um bando de fundeiros e lanceiros. 

Não se pode esperar que um garoto seja depravado antes de entrar para um bom colégio.


terça-feira, 12 de maio de 2015

UM GATO INDISCRETO E OUTROS CONTOS

A história da literatura está repleta de interessantes fenômenos. Um deles – o desaparecimento de escritores que em determinado momento histórico foram referências obrigatórias –, ao mesmo tempo em que expõe os sempre bem-vindos avanços e recuos da estética, da técnica e das proposições literárias, também revela um pouco de ingratidão. Não há motivos dignos de compreensão para justificar o porquê de talentos como O. Henry (pseudônimo de William Sidney Porter, 1862-1910), Damon Runyon (nascido Alfred Damon Runyan, 1880-1946) e William Somerset Maugham (1874-1965), por exemplo, terem se transformado em escritores que somente aparecem em cena como espécimes raros, recuperados em exaustivas pesquisas arqueológicas. Algo semelhante a ossos de dinossauros ou pedaços de cerâmica grega do século IX antes de Cristo. Em outras palavras, mesmo que eles não façam mais parte de um mundo que se dissolveu no tempo, a literatura que produziram continua viva. E isso certamente não será a qualidade a ser destacada em alguns dos semianalfabetos que povoam o mundo literário atual. 

Hector Hugh Munro (1870 - 1916)
Hector Hugh Munro (1870-1916) também pode ser citado como um desses casos extremos. Nasceu na Birmânia (atual Mianmar), filho de pais ingleses. Sua mãe faleceu quando ele tinha dois anos. Junto com seus irmãos (Charles e Ethel), foi criado pelas tias paternas (retratadas frequentemente como mulheres amargas, ressentidas e de péssimo humor). Somente se livrou da opressão familiar quando foi estudar em colégios internos ingleses. Voltou à Birmânia como membro da polícia. Depois de contrair malária, abandonou a vida militar. Na Inglaterra, trabalhou em alguns dos mais importantes jornais ingleses. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, alistou-se outra vez. Morreu atingido por uma bala na cabeça. Ficou conhecido no mundo literário através de um pseudônimo: Saki – que é o nome do serviçal que serve o vinho aos hóspedes da grande festa retratada nos versos do poema persa Rubaiyat, escrito por Omar Kháyyám (1870-1916).

Um Gato Indiscreto e Outros Contos, edição de 2009, reúne vinte histórias curtas. As mais conhecidas são Um Gato Indiscreto (algumas vezes publicada como Tobermory), O Contador de Histórias, O Tigre de Mrs. Packletide, A Janela Aberta (também publicada como A Porta Aberta) e Os Intrusos. Todas se caracterizam por retratar a sociedade inglesa, durante o reinado de Eduardo VII (1901-1910). Essa época, que marca o início da derrocada do Império Britânico – que, depois de um longo período de dominação e repressão em diversas partes do mundo, não teve fôlego para resistir às duas guerras mundiais e às centenas de revoltas coloniais –, serve de espelho para um código de comportamento baseado nos valores aristocráticos, na fleuma e, sobretudo, na aparência. Os contos de Saki, repletos de situações inusitadas e cômicas, constituem uma instigante radiografia desse mundo social, econômico e cultural.

Tons de “nonsense” e de realismo fantástico aparecem no conto Um Gato Indiscreto. Ao adquirir a fala humana, o gato Tobermory (arrogante, cínico e mordaz) ameaça a estabilidade de um grupo de amigos. Se ele sair pelo mundo, contando certos fatos que ouviu ou presenciou, não será possível conter a desgraça de todos. 

Bertie van Tahn, que fora tão depravado aos dezessete anos que há muito desistira de tentar ser pior, ficou de uma matiz opaca de branco-gardênia, mas não cometeu o erro de correr da sala como Odo Finsberry, um jovem cavalheiro que sabiam estar estudando para a vida eclesiástica e que estava possivelmente perturbado pela ideia dos escândalos que poderia ouvir sobre outras pessoas. 

                                                                                 (trecho de Um Gato Indiscreto)

Esse recurso estilístico, misturar o "real" com o fantástico, também aparece em Gabriel-Ernest, contraponto entre a civilização e a barbárie, e em Esmé, que projeta o macabro como seu elemento principal. 

Vários personagens aparecem de forma constante e em histórias diferentes. Talvez o mais significativo seja Reginald, um indivíduo esnobe, completamente insensível sobre qualquer sentimento que não se relacione com o próprio egoísmo. Seu propósito primordial é ofender a tudo e todos, pouco se importando com as consequências. De uma forma ou de outra, ele estabelece a gênese de outros personagens, como Lady Carlota, protagonista de O Método Schartz-Metterklume, ou Clovis Sangrail, de A Cura do Desassossego. Nessas duas narrativas, há um jogo de cena, onde a maldade (sem muita maldade, se isso for possível!) predomina. A esperteza contra a inocência. A vontade de brincar, sem se importar com os danos. Essa é a ambição de Vera, a criativa adolescente de A Janela Aberta, especialista no “romance de improviso”, que induz sua interlocutora em um contexto macabro, próprio do decadentismo, e que, além de ser extremamente perverso, também revela que a graça desse proceder reside na falta de coerência humana. O ponto alto desse, na falta de uma palavra melhor, passatempo (a diversão com a boa fé dos ingênuos) está caracterizado no protagonista de O Contador de Histórias. Durante uma viagem, dois adultos e três crianças dividem a cabina do trem. A mulher, para distrair os sobrinhos, conta uma história edificante. Entediado, o quinto personagem toma a palavra e faz um relato completamente oposto. Seduz as crianças com o realismo, com a brutalidade. A tia coloca objeções, mas recebe em troca, a única declaração possível, De qualquer modo, (...), consegui deixar eles quietos por dez minutos, o que é muito mais do que a senhora foi capaz. 

Há outras situações incomparáveis na literatura de Saki, como a greve dos serviçais (A Omelete Bizantina), os apuros de um adolescente diante de rivais violentos (O Estrategista), a vaidade contraposta com o preço a ser pago pelo teatro social (O Tigre de Mrs. Packletide), a luta moral entre o desejo infantil e a selvageria adulta (Srendi Vashtar) e o horror – em grau absoluto – revelado sem filtros (Os Intrusos).

Em muitos momentos, as personagens de Saki ambicionam por um grau de pertença social que não se concretiza. Ao falhar em seus propósitos, o jogo das aparências, do faz-de-conta, se dilui. Tornam público o que há de mais nocivo em suas personalidades. E isso, além de ser inadequado, mostra o quanto o ser humano é patético. Impossível não rir com tamanho desacerto.

Saki (ou Hector Hugh Munro) continua atual, dolorosamente atual. Infelizmente, o humor que emana de seus contos raramente pode ser encontrado na atualidade. Talvez ele não seja um bom exemplo da literatura que se perdeu nas brumas do tempo. Talvez ele seja o reflexo da falta de prazer (de escrever, de ler) que habita o mundo contemporâneo.

Munro e sua família

quarta-feira, 6 de maio de 2015

WHIPLASH

Jazz não é música para todo mundo, lamenta Andrew Neiman, protagonista de Whiplash – em busca da perfeição (Dir. Damien Chazelle, 2014), um dos melhores filmes sobre música nos últimos anos e vencedor, na edição de 2015, de três Oscar: Melhor Ator Coadjuvante – J. K. Simmons –, Melhor Montagem, Melhor Mixagem de Som. 

Andrew tem razão. O som bate-estaca e a falta de educação nas letras das canções substituíram o romantismo artístico e o bom gosto. A vala comum está soterrando a música que faz a diferença.

Tendo como cenário o Conservatório de Música Shaffer, onde os alunos mais ambiciosos torcem pelo erro dos outros músicos, o enredo de Whiplash está concentrado na luta pelo poder entre um aluno ambicioso e um professor sádico. Trata-se de uma versão do mito faustiano, a velha história do sujeito que vende a alma ao diabo para obter algo inatingível aos homens comuns. Contemporaneamente, a metáfora se mostra perfeitamente adequada, visto que somente os corajosos ou os idiotas conseguem resistir aos apelos (emocionais, psicológicos e publicitários) do mundo competitivo – aquele que proclama em voz alta que o segundo colocado em qualquer atividade é apenas o primeiro perdedor.

Andrew Neiman (Miles Teller) – como muitos jovens que desconhecem os perigos da vida adulta – mistura ingenuidade e audácia. Filho de um escritor mediano, sem mãe (que o abandonou quando criança), ele quer se tornar um excepcional baterista de jazz. Quer alcançar o nível de Buddy Rich, Jo Jones ou Max Roach. E, nessa caminhada, não se importa em sacrificar qualquer coisa – a autoestima, a namorada, o respeito familiar, o que for necessário. Essa  pretensão o leva a intermináveis horas de estudo, além de calos e feridas nas mãos. Em uma reunião de família, ao ser confrontado com o que lhe espera no futuro, declara, evocando Charlie Parker: Prefiro morrer bêbado e pobre aos 34 anos e falarem de mim à mesa a viver rico e sóbrio até os 90 anos e ninguém se lembrar de quem eu fui. Não há ambição humana mais esplêndida do que obter a imortalidade.     

Terence Fletcher (J. K. Simmons), dono de péssimo temperamento, não admite qualquer coisa além das que são de seu agrado. Sob a desculpa de que está contribuindo para encontrar o próximo gênio musical, não mede esforços para infernizar a vida de cada um dos seus alunos. A crueldade está presente a todo instante, sob a forma de ofensas verbais, agressão física e truques sórdidos (em determinado momento promove o revezamento de três bateristas, impedindo que cada um deles obtenha estabilidade emocional). Regendo a Studio Band, combatendo o jazz “fast-food”, se considera acima do bem e do mal.

Nessa atmosfera da obstinação, quando forças díspares e convergentes colidem, quando momentos de histeria e insanidade se multiplicam, a pressão gera stress. E erros. E erros costumam ser fatais em uma carreira competitiva. Em determinado momento, diante das dificuldades em estabelecer quem é genial e quem é genioso, não há como escapar das perdas. Neiman têm um colapso nervoso e deixa de tocar bateria, Fletcher é expulso da escola.

Alguns meses depois, no verão, ocorre o reencontro. Neiman descobre que Fletcher está tocando piano em um bar. Não consegue resistir e vai ver o antigo professor. Pela primeira vez, a conversa entre eles é civilizada. Na hora em que estão se despedindo, Fletcher convida Neiman para tocar na sua nova banda de jazz, em um festival que acontecerá em poucos dias.

A tragédia está ligada com nossas escolhas. O convite esconde uma cilada. Fletcher sabe que o depoimento de Neiman foi decisivo para o seu desligamento do Conservatório de Música Shaffer. E, de certa forma, quer reviver o ambiente de competição e mesquinharia que, em um passado não muito remoto, os uniu.

O restante da história está em um nível em que a vingança e a mediocridade são superadas por algo acima da iniquidade humana. A cena final apresenta um dos mais impressionantes solos de bateria já filmado pelo cinema. Talvez o som do chicote (whiplash) seja também o som da beleza musical. 




P.S.1) Há quem considere a bateria como um instrumento destinado a apenas marcar o ritmo. Esse é um dos maiores preconceitos musicais, típico de quem desconhece o mínimo necessário. 

P.S.2) Miles Teller toca bateria desde os quinze anos. Para participar de Whiplash teve aulas intensas de quatro horas por dias durante várias semanas. Parte do sangue nas baquetas é o seu. Ele tocou em 70% das cenas.


segunda-feira, 4 de maio de 2015

HOMENS, MULHERES E FILHOS

A maneira com que o cinema costuma melhorar certas narrativas deve ser encarada como um dos fenômenos mais estranhos da indústria cultural. Sem entrar no mérito da questão, usualmente acontece o contrário. Ou seja, não há novidades quando um bom livro – projetado na tela em branco – se transforma no irreconhecível. Faz parte do propósito capitalista, que, em nome do lucro, sacrifica a qualidade ou o bom gosto (independente do que signifique esses conceitos). Mais escassas são as situações em que o filme está no mesmo nível do texto. Há exemplos bastante interessantes das três experiências. Não é necessário nominar situações extremas, embora Morte em Veneza (Dir. Luchino Visconti, 1971), baseado no romance de Thomas Mann, e O Leopardo (Dir. Luchino Visconti, 1963), baseado no romance de Giuseppe Tomazi di Lampedusa, sejam filmes/livros modelares nessa discussão.

Homens, Mulheres e Filhos, romance escrito por Chad Kultgen, ambiciona ser uma radiografia das carências afetivas e sexuais dos estadunidenses. O narrador onisciente, abusando do cinismo e da falta de esperanças, segue um ritmo linear, embora entrecortado por diversos episódios simultâneos. Maridos e esposas que não se entendem e procuram pelo prazer no corpo de outras pessoas, adolescentes obcecados pela primeira experiência sexual, pornografia on line, ausência de escrúpulos na vida particular – todos esses ingredientes resultam em um hiper-realismo que perturba, que parece exagerado. Não é. Exagerado. A vida “real” está repleta de personagens infelizes, que procuram a salvação ou a redenção através de ações desesperadas.

Homens, Mulheres e Filhos (Men, Women and Children. Dir. Jason Reitman, 2014), filme baseado no romance homônimo, não segue fielmente o esquema narrativo original. Aliás, na parte final, toma rumo completamente oposto ao que está proposto no livro. Algumas cenas foram cortadas. Alguns personagens, eliminados. A obsessão sexual foi amenizada. Ou seja, o filme melhorou em 300% um livro chato. Além disso, projetou um fio de vida em figuras dramáticas que, quando espelhadas no papel, não convencem.

Seguindo o esquema proposto pelo livro, o filme se concentra em diversos núcleos dramáticos – embora, por conta do politicamente correto e dos códigos de moralidade de Hollywood, aumente significativamente a idade dos adolescentes. O cinema estadunidense não tem autonomia para contar histórias perversas envolvendo adolescentes de 14, 15 anos.

No primeiro plano, o casal Don e Helen Truby (Adam Sandler e Rosemarie DeWitt) vive uma crise conjugal. Ele, depois de consumir toneladas de pornografia virtual, se envolve com prostitutas. Ela, através de um portal de encontros, mantém relações sexuais com diversos homens. O filho do casal, Chris (Travis Tope), apresenta um quadro patológico, de caráter sexual, que – provavelmente – deve fazer a fortuna de vários psicanalistas. Sua namorada, a líder de torcida Hannah Clint (Olivia Crocicchia), sonha em ser estrela de reality show. Mais do que um bloco familiar disfuncional, eles refletem o comportamento doentio que caracteriza a vida contemporânea.

No segundo plano, Tim Mooney (Ansel Elgort), astro do time de futebol da escola, entra em crise emocional e resolve abandonar o esporte. Como não consegue superar a incompreensão do pai, Kent Mooney (Dean Norris), e dos amigos (que o culpam pelos péssimos resultados da equipe), passa quase todo o tempo livre jogando on line. Entre a escola e o mundo virtual, namora Brandy Beltmeyer (Kaitlyn Dever), filha de Patricia Beltmeyer (Jennifer Garner), que transformou a vida familiar em uma obsessão com predadores na Internet. 

No terceiro plano, uma típica história de high school. Allison Doss (Elena Kampouris) está apaixonada por Brandon Lender (Will Peltz), que considera o garoto mais bonito da escola. Na primeira oportunidade, ela vai para a cama com o sujeito – embora esteja ciente de que ele não leva em consideração quaisquer sentimentos. Ele quer sexo, apenas isto.

No entrecruzamento, entram em cena diversos personagens secundários, inclusive Donna Clint (Judy Greer), mãe e empresária de Hannah. Ela quase namora Kent Mooney – relacionamento que poderia resolver parte das frustações que atingem ambos.

Desse “balaio de gatos” – onde o olhar crítico do espectador se perde entre tantos personagens superficiais e situações dramáticas mal resolvidas – surge um filme que utiliza um tom narrativo mais contido, menos agressivo que o livro. 

Homens, Mulheres e Filhos revela – de forma eficiente – que as demandas individuais raramente são contempladas e que a vida coletiva encontra obstáculos que parecem intransponíveis. Mas, ao contrário do romance, o filme mostra a possibilidade de uma rota de fuga. Felizmente.