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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

SETE ANOS BONS

A literatura israelense – faz algum tempo – deixou de ser uma curiosidade geográfica. Ao contrário dos escritores judeus, espalhados pelo mundo, (Isaac Bashevis Singer, Saul Bellow, Bernard Malamud, Primo Levi, Isaac Emmanuílovitch Babel, Stefan Zweig, Mordecai Richler, Philip Roth, etc.), os israelenses foram, durante bastante tempo, completamente estranhos a quem manifesta algum interesse pela literatura em um nível acima dos best-sellers. No Brasil, essa situação, salvo engano, mudou com a publicação dos primeiros livros de Amos Oz, na década de 80 do século passado. Mais tarde, outros autores também foram publicados, inclusive o excelente e pouco conhecido Yoram Kaniuk (A Ressurreição de Adam Stein).

Atualmente, poucos leitores são capazes de negar a boa qualidade das narrativas israelenses – que em muitos momentos, por motivos políticos, religiosos e econômicos, expressa, de maneira inequívoca, as tensões que unem e afastam todos aqueles que moram naquela região do mundo. Os leitores de David Grossman, Avraham B. Yehoshua e Amos Oz, entre outros, descobrem essas questões nas primeiras páginas dos livros. E isso serve como um guia capaz de conduzir a desfechos surpreendentes, inclusive aos finais infelizes. Não todos – claro. Apenas os mais importantes. De qualquer forma, o que esses escritores (e seus textos) querem contar para os leitores é que talvez não haja nenhuma importância no desfecho das narrativas. Sejam elas heroicas ou apenas patéticas.


Entre os escritores mais jovens, Etgar Keret, autor de Sete Anos Bons, adotou um estilo menos dramático. Isso não significa que ignora os problemas que o circundam. Ao contrário, todos os temas fundamentais estão presentes em seus textos, mas com outro enfoque. Através do humor comenta as agruras da realidade objetiva e revela – na medida do possível – o quanto há de complexidade (e tolice) na existência humana. Além disso, ambiciona expressar um tipo de ternura que a guerra e a ideologia poucas vezes são capazes de compreender.

Efrain, Etgar e Lev
Sete Anos Bons divide-se em, obviamente, em sete partes. Inicia com o nascimento do filho, Lev, e termina com a morte de seu pai, Efraim. A felicidade e a dor se misturam através da alegria – “aquela” alegria, repleta de autocomiseração, que é costume atribuir aos descendentes de Abraão. Cada um dos sete anos está dividido em diversas histórias curtas, trinta e seis no total, onde as relações familiares ganham contornos sólidos – obviamente essa não é uma parede maciça; ao contrário, há algumas janelas nessa estrutura divisória, espaços abertos que permitem que o mundo privado interaja com o mundo público através do texto.

Todos esses fragmentos cotidianos são narrados em primeira pessoa, evocando um livro incompleto de memórias ou a trapaça que os teóricos chamam de autoficção, e que costuma ser usada – muitas vezes por má-fé – para causar confusão, misturando os relatos ficcionais com a vida pessoal do autor. Por isso, para afastar qualquer tipo de interpretação complicada, um dos elementos mais impressionantes do livro é a relação do narrador com o filho e com o pai. O filho aparece como uma projeção do futuro, a luz que surge lentamente na esquina do tempo. Ao mesmo tempo, mais do que a garantia da transmissão genética, Keret proclama que procriar simboliza uma parte da herança que o homem recebe de Deus. Ao unir a biografia (ficcional ou não) com a história do descendente, o escritor esboça a própria linha de vida – que está entrecruzada com a do filho. No lado oposto, surge a narrativa de quem vai descobrindo – dolorosamente – que parte de sua história está sendo tragada pelo inevitável. A morte do pai, em especial, mostra o quanto é vulnerável a experiência humana. Embora esteja ciente dos limites da vida, Keret lamenta a doença de seu pai e, consequentemente, quando acontece, a ausência física daquele que se transformou em saudade, Olhei os sapatos de meu pai, pousados na mesa, secos; pareciam muito confortáveis. Calcei e amarrei os cadarços. Couberam com perfeição.

Sintomaticamente, Keret também quer demonstrar o quando significa para uma família se distanciar daqueles com quem se convive na infância. O irmão e a irmã são tratados como personagens episódicos, quase ausentes, seja porque moram “longe” – e o conceito “longe” se refere a algo que está situado além da distância espacial –, seja porque o tempo contribui para o afastamento afetivo. O irmão mora na Tailândia; a irmã, na mesma cidade que Keret. Por maiores que sejam as preocupações com o básico, o folclore predomina na ordem de nomeação afetiva. Em Minha Pranteada Irmã, o escritor revela que, em determinado momento, ocorreu uma cisão em sua família. Logo depois da Guerra do Líbano, parte da comunidade israelense foi tomada pela sensação de que aderir aos princípios religiosos ortodoxos, e consequentemente, romper com a vida mundana, equivalia a uma espécie de morte em vida. A irmã de Keret, embora esteja viva, mãe de onze filhos sadios e robustos, foi enquadrada nessa categoria. Desde o momento em que minha irmã atravessou a fronteira para a Divina Providencia, tornei-me uma espécie de celebridade local. Os vizinhos que nunca deram por mim paravam só para me oferecer um aperto de mão firme e prestar suas condolências. Ao irmão restam lembranças episódicas ou a presença constrangedora no funeral do pai. É pouco. Talvez seja muito. A fraternidade contém muitas sutilezas.

Em outros textos, Keret trata de assuntos tão díspares como viagens de avião, sessões de autógrafos, reencontro com amigos, taxis, telemarketing, o jogo Angry Birds, o serviço militar para os filhos, a tradição judaica e o medo da guerra. Em cada uma dessas circunstancias, há algo de espetacular, divertido, comovente, humano.

Sete Anos Bons, mais do que esboçar o absurdo diário, propõe o bom humor como filosofia – uma das maneiras mais salutares de enfrentar as pequenas tragédias do cotidiano.


TRECHO ESCOLHIDO


As sirenes de ataque aéreo nos pegam na estrada, no caminho para a casa do vovô Yonatan, alguns quilômetros de Tel Aviv. Shira, minha mulher, para no acostamento, saímos do carro e deixamos as raquetes de badminton e a peteca no banco traseiro. Lev segura minha mão e diz: “Papai, estou meio nervoso”. Ele tem 7 anos e 7 é a idade em que não consideramos legal falar do medo, assim a palavra “nervoso” é usada em vez da outra. Seguindo as instruções do Comando da Frente Interna, Shira se deita no acostamento. Digo a Lev que ele tem de se deitar também. Mas ele fica de pé ali, a mão pequena e suada agarrada na minha.

– Deite-se já – diz Shira, elevando a voz para ser ouvida por causa do berro da sirene.

– Quer brincar de sanduíche de pastrami?, pergunto a Lev.

– Como se brinca disso? – pergunta ele, sem soltar a minha mão.

– É um jogo. Mamãe e eu somos fatias de pão – explico. – Você é uma fatia de pastrami e temos de fazer um sanduíche com a maior rapidez possível. Vamos lá. Primeiro você se deita em cima da mamãe.

Lev se deita nas costas de Shira e a abraça com toda a força que pode. Eu me deito em cima deles e apoio as mãos na terra úmida para não esmagá-los.

– Isso é bom – diz Lev, e sorri.

– Ser o pastrami é o melhor – diz Shira, embaixo dele.

– Pastrami! – grito.

– Pastrami! – grita minha mulher.

– Pastrami! – grita Lev, com a voz trêmula, ou de empolgação ou de medo. – Papai, olha, tem formigas subindo na mamãe.

– Pastrami com formigas! – grito.

– Pastrami com formigas! – grita minha mulher.

– É! – grita Lev.

E então ouvimos a explosão. Alta, mas distante.



quinta-feira, 20 de agosto de 2015

THOMAS BERNHARD

O escritor austríaco (nascido em Heerlen, Holanda) Thomas Bernhard (1931-1989), uma das vozes mais ácidas do mundo literário ocidental, costuma ser alvo de artigos, ensaios, dissertações de Mestrado, teses de Doutorado e outras condecorações acadêmicas. Nada parece ser mais irônico. Entre as tantas demonstrações de desprezo que tornou públicas contra os escritores, em particular, e contra os seres humanos, em geral, ele escreveu que a vida inteira sempre detestei toda e qualquer teoria literária e, acima de tudo, sempre odiei as chamadas teorias do romance. Evidentemente, em um mundo onde a publicidade e as razões de mercado determinam a importância dos fatos, os desejos de um escritor morto raramente são levados em consideração.

Thomas Bernhard assusta. E encanta. Ele faz parte de um grupo de escritores “superiores”, que somente são acessíveis depois de muito esforço  ou sofrimento. E isso está longe de ser um exagero. Primeiro, porque ele não escrevia para o leitor. Ele escrevia para si mesmo. Quem quiser se aproximar de sua literatura precisa ter (na falta de melhor definição) fôlego de alpinista. A paisagem é bonita, não restam dúvidas, mas para poder atingir o cume da montanha há que superar a vertigem e o perigo – o risco de escorregar, a qualquer instante, precisa ser reconsiderado a cada passo. Segundo, o estilo e os temas abordados por Bernhard são áridos. Os parágrafos são longos, intermináveis, como no romance Árvores Abatidas, 167 páginas e um único parágrafo. Poucos conseguem acompanhá-lo. As frases estão repletas de orações subordinadas, dezenas de apostos, e todos os penduricalhos possíveis. Ocasionalmente, o narrador repete algumas informações – seja para dar um efeito de redundância, seja porque não acredita que o leitor seja capaz de lembrá-las. Para quem está (mal?, bem?) acostumado ao padrão estadunidense das narrativas destinadas a se transformarem em roteiros cinematográficos, ou seja, diálogos constantes e esquemas descritivos, Bernhard parecerá intransponível. Inclusive porque ele foi um dos escritores modernos que melhor administraram o monólogo interior (o discurso ocorre na mente do personagem, como ele se estivesse participando de uma conversa entre o “eu” e o “outro” – que é ele mesmo. Muitas vezes é um pensamento caótico, sem muita coerência ou articulação. Oscila entre a rememoração e o presente, entre o real e o imaginário. Não tem compromisso com a ação comunicativa). Em terceiro lugar, Bernhard não poupa insultos aos desafetos. Seus personagens – projeção do tumulto que era a vida de um escritor colérico – são antipáticos. Todos destilam fel, desferem bordoadas, assustam as almas caridosas e proclamam, sem o menor pudor, que a maldade está presente a cada instante. A única solução para esse horror está na extinção pura e simples do ser humano da Terra.

Esses argumentos – e suas variações – são repetidos em toda a produção literária: romances, peças de teatro, poesia e relatos autobiográficos.

Para quem ainda não conhece a perturbadora literatura do austríaco, uma das portas de entrada é o livro póstumo, Meus Prêmios, que reúne treze textos rápidos, cada um com cinco, seis páginas no máximo. Em ritmo de cronista, Bernhard comenta as várias distinções literárias que recebeu. Além disso, há quatro pequenos discursos, peças protocolares, mero exercício de boa educação, apesar de estarem repletos de agressões ou de desprezo. Ao todo, considerando os comentários sobre a edição, redigidos por Raimund Fellinger, o livro tem um pouco mais de cem páginas.

Assim como nos volumes ficcionais, Meus Prêmios está repleto de reclamações. Bernhard se alimenta da insatisfação. Canalha é uma palavra que lhe é bastante comum. Serve para designar escritores e políticos, além de todos os desafetos.Ninguém é poupado. Se o indicam para receber algum prêmio, ele insulta os membros do júri, todos medíocres e incompetentes. Se o ignoram ou lhe outorgam uma dotação menor, os acusa por não reconhecerem o seu talento. Nada lhe parece suficiente. (...) eu sempre detestei associações e clubes, e mais ainda, naturalmente, os literários. Inacreditavelmente, apesar de toda essa lamuria, aceita todos os prêmios. E explica esse proceder de forma que parece ter um fundo político, mas que, de fato, é apenas uma desculpa estéril: Queria o dinheiro, expliquei, porque deveríamos arrancar do Estado, que todo ano desperdiçava insensatamente não apenas milhões mas bilhões, cada centavo que podíamos, um cidadão tinha o direito de fazê-lo, e eu não era um tolo. Algumas páginas depois, nos comentários que faz sobre o Prêmio Franz Theodor Csokor (um dos poucos escritores que recebem um elogio sincero), consegue articular o pensamento de forma mais inteligível: (...) sempre tive uma sensação de vazio no estômago quando se trata de receber um prêmio: a cada vez, minha mente se rebelava contra aquilo. Mas o fato é que, naqueles anos todos em que ainda me concediam prêmios, eu era demasiado fraco para dizer não. Aí, sempre pensei, meu caráter revela uma grande mácula. Eu desprezava aqueles que concediam os prêmios, mas não me recusava seriamente a receber os prêmios em si. Tudo aquilo me repugnava, mas o que me repugnava ao máximo era minha própria pessoa. Eu odiava as cerimônias, mas participava delas; odiava os outorgantes, mas aceitava suas somas em dinheiro. No momento em que a fama e a renda advinda dos direitos autorais compensaram as vicissitudes da vida, Bernhard optou pelo óbvio: Para mim, a questão simplesmente já não se coloca: a única resposta possível é não permitir que me homenageiem.


O que chama a atenção nesse procedimento é que, coerente em suas incoerências, Bernhard exige uma postura ética dos (poucos) amigos. Quer que se insubordinem contra o status quo e denunciem as misérias da máquina burocrática. Atitude absolutamente inviável para muitas dessas pessoas, que, por interesses políticos ou por precisarem garantir o sustento para a família, não podiam assumir atitudes anárquicas. E isso significa que todos aqueles que, em algum momento, por qualquer motivo, contrariaram Bernhard correram o risco de se transformarem em personagens. Sim, Bernhard era um homem rancoroso. Quem duvidar que leia Árvores Abatidas, onde reduz a escombros a sociedade vienense, através de um personagem que comparece a uma festa e fica o tempo todo sentado em uma bergère (poltrona), observando e descrevendo esse mundo de dissipação e iniquidade em que habita a fauna burguesa.

Eles viam: eu sou o observador, o ser repugnante que se instala na bergère, e protegido pela penumbra da antessala joga seu joguinho sujo, nojento, de dissecar os convidados dos Auersberger, como se diz. Era isso que sempre tinham censurado em mim, que eu sempre os dissecava a cada oportunidade, realmente sem escrúpulos, mas eu sempre tinha um atenuante; eu me dissecava ainda muito mais, a cada oportunidade, me desmembrava em todas as minhas partes, como diriam, pensei eu sentado na bergère, e com o mesmo despudor, a mesma maldade, o mesmo procedimento brutal. (trecho de Arvores Abatidas)


Ninguém conseguia escapar da belicosidade que Bernhard utilizava como combustível para continuar vivendo. Ou melhor, para continuar escrevendo. E é isso que ele, de uma forma ou de outra, faz questão de frisar em todos os seus livros: Há anos me pergunto qual o sentido dessa chamada Academia de Darmstadt, e sempre me vi obrigado a dizer a mim mesmo que esse sentido não pode residir no fato de uma associação, fundada em última instância apenas com o frio propósito de oferecer a seus vaidosos membros um espelho no qual se mirar, reunir-se duas vezes por ano para se autoincensar e, depois de consumir lautos pratos e bebidas servidos nos melhores hotéis da cidade, em viagem luxuosa e cara paga pelo Estado, conversar por uma semana sobre uma papa literária insípida e rançosa. Se um único poeta ou escritor é já ridículo e, onde quer que seja, quase insuportável para a sociedade humana, tanto mais ridícula é toda uma horda amontoada de escritores, poetas e de gente que se julga uma coisa ou outra! No fundo, todos esses dignitários em viagem paga pelo Estado se encontram em Darmstadt para, depois de um ano inteiro de ódio mútuo e impotente, poder ainda, ali, aborrecer uns aos outros por mais algum tempo. A tagarelice dos escritores nos saguões dos hotéis de cidadezinhas alemãs é, por certo, o que se pode conceber de mais repugnante. Seu fedor, porém, torna-se ainda mais fedorento quando ela é subvencionada pelo Estado. Hoje em dia, aliás, todo esse vapor das subvenções fede até não poder mais! Poetas e escritores não devem ser subvencionados, e menos ainda lhes cabe pertencer a uma academia subvencionada; devem, sim, ser deixados por sua própria conta.


Foram publicados no Brasil os seguintes livros de Thomas Bernhard: Árvores Abatidas (Rocco, 1991), O Sobrinho de Wittgenstein (Rocco, 1992), O Náufrago (Cia das Letras, 1996), Perturbação (Rocco, 1999), Extinção (Cia das Letras, 2000), Origem (Cia das Letras, 2006), O Imitador de Vozes (Cia das Letras, 2009), Meus Prêmios (Cia das Letras, 2011). 

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

TUA

Infelizmente, a escritora argentina Claudia Piñeiro ainda é pouco conhecida no Brasil. Alguns anos atrás, o excelente As Viúvas das Quintas-feiras passou completamente despercebido pelos leitores brasileiros. Uma nova chance de conhecê-la surge com a publicação de Tua, um texto que parte da crítica portenha considera como o seu melhor trabalho.

Tua não pode ser classificada como uma narrativa policial convencional. Em uma Buenos Aires cosmopolita, com personagens de classe media, que não precisam se preocupar com finanças, o romance se concentra em três pontos principais. Em primeiro plano está a figura de Inés Pereyra, esposa apaixonada de Ernesto. Talvez a palavra apaixonada seja excessiva. Igualmente excessivo é o ciúme que Inés sente pelo marido. Essa mistura de sentimentos, além da necessidade quase patética de manter as aparências sociais, cria uma atmosfera bastante intensa, propícia para gerar desastres e confusões. Em paralelo corre a história da filha adolescente do casal, Laura (Lali), que está grávida – o namorado, obviamente, não mostra o mínimo interesse. Como pano de fundo, mas como ponto fulcral da narrativa, há a história de Ernesto e suas duas amantes. Enfim, Tua possui características típicas das narrativas de costume.

A estrutura narrativa é – aparentemente – complexa. Em alguns momentos, prevalece a voz de Inés, que conta grande parte das ações em primeira pessoa. Em outros trechos, a narração é comandada por um narrador impessoal, em terceira pessoa. Nas situações relativas à história de Laura impera uma estrutura de diálogos, onde o narrador quase desaparece. Além disso, há momentos em que são relacionados vários documentos – induzindo o pensamento que o ordenamento narrativo está vinculado com alguém de origem policial. Apesar desse conjunto de fragmentos apontarem para a confusão, o texto flui com facilidade diante dos olhos do leitor. Cada capítulo tem quatro, cinco páginas, no máximo. E o encaixe entre eles contribui para o dinamismo narrativo.

Com os homens, é mais perigoso um ramo de flores que um tapa, afirma Inés Pereyra. Essa tese (irrefutável em muitas ocasiões) encontra a sua comprovação quando Inés segue o marido até um parque afastado e vê acontecer o inominável. Durante uma discussão, Ernesto empurra Alicia Soria, sua secretaria e amante, que bate a cabeça em um tronco que estava no chão e morre. Inés volta para casa. E, mais tarde, de maneira pouco sutil, avisa o marido que sabe de tudo e que vai acobertá-lo, desde que ele mantenha o casamento. Obviamente, Inés não sabe “tudo”. Ela não sabe sequer um terço das complicações em que se envolveu. Enquanto abraça a esposa, Ernesto prepara uma viagem com Amparo (Charo) Soria, sobrinha de Alicia. Utilizando como desculpa, o trabalho, embarca para o Brasil. Inés o segue até o aeroporto e vê o marido beijando a amante.

Segundo Inés, A gente está preparada para ser sacaneada por um homem, isso é um clássico. E, se nunca te sacanearam, você vai viver o tempo todo com a espada de Dâmocles sobre a cabeça, porque sabe que um dia, cedo ou tarde, vão te sacanear. Essa reflexão, comum em quem se sente traído, prepara o contra-ataque. O que, em algum momento, era afeto ou posse ou desejo de estabilidade, foi sendo substituído, gota a gota, pela necessidade atávica de obter algum tipo de compensação pelo aviltamento amoroso. Ou seja, Inés, movida pelo ódio, organiza a forma mais violenta possível para executar a vingança. O que se segue é a vitória de um conjunto de forças irracionais e que produz um efeito colateral bastante danoso: a filha de Ernesto e Inés, Laura, que precisa de toda a ajuda possível, fica esquecida, como se não estivesse em cena. E, de certa forma, não está. No conjunto de tensões gerado pelo desentendimento entre seus pais, ela é apenas um estorvo.

Tua é um romance inteligente sobre traições conjugais, chantagens, alienação emocional e desejos que não consideram o Outro. Além disso, apresenta boas reviravoltas narrativas e um final criativo.  

terça-feira, 11 de agosto de 2015

UM HOLOGRAMA PARA O REI

Em 2010, Alan Clay, 54 anos, consultor empresarial quase falido, precisou viajar de Boston, em Estados Unidos, para Jidá, na Arábia Saudita. Foi contratado para, na companhia de dois engenheiros (Brad e Cayley) e a diretora de comercialização (Rachel) da Reliant, a maior supridora de tecnologia de informação do mundo, apresentar uma proposta de negócios ao rei Abdullah. O ápice do evento, onde haverá a exposição de vários produtos de última geração tecnológica, se concentra na demonstração de um holograma (que foi produzido para distrair e entreter).

A situação corporativa, bastante comum no mundo financeiro, se transforma em uma versão (com tons a-pós-a-moderna-idade) de Esperando Godot (Samuel Beckett) ou do filme Encontros e Desencontros (Lost in Translation. Dir. Sophia Coppola, 2003). Sua Majestade está sempre em viagem, sempre distante, ninguém consegue dizer quando aparecerá na Cidade Econômica Rei Abdullah (CERA), um empreendimento megalomaníaco que está sendo construído nas proximidades de Jidá. Enquanto a equipe estadunidense aguarda por algo que talvez não se realize, não há condições para repouso ou tranquilidade. No mundo contemporâneo, qualquer desperdício de tempo causa angústia. Em paralelo, o deslocamento (afetivo, cultural, geográfico) oprime. A Arábia Saudita supera a metáfora óbvia (deserto) e revela, através do calor e da areia, o mal-estar – reconfigurado como impotência e sofrimento. A espera e o desespero parecem ecoar com mais força do que o necessário. Vários desses elementos narrativos poderiam ter sido retirados de clássicos como O Processo ou O Castelo (Franz Kafka).

Dave Eggers
Alan Clay, protagonista do romance Um Holograma para o Rei, de Dave Eggers, é um personagem simpático para o leitor. E para os outros personagens (exceto Brad, de quem ele não gosta). Sem muitas dificuldades, estabelece uma relação de amizade com Yousef – uma espécie de playboy árabe que trabalha como motorista para turistas ocidentais. As mulheres têm dificuldades para resistirem ao seu charme. Parte dessa empatia serve de máscara para esconder as suas múltiplas deficiências psicológicas. Por exemplo, ele nutre um imenso ressentimento pela ex-esposa, Ruby. E que é externado nas inúmeras cartas que escreve para Kit. O mais estranho, nessa faceta de pai amoroso, é que esses textos nunca são enviados para a filha. O efeito terapêutico compensa a opção constrangedora.

Enquanto o soberano saudita está em lugar indefinido, Alan ocupa o tempo com diversas atividades. Tenta falar com as autoridades locais – para providenciar o básico, ar condicionado, sinal de Internet, comida. Vai a uma festa na embaixada dinamarquesa. Preocupado com um caroço no pescoço, submete-se a um procedimento cirúrgico para retirá-lo. Viaja para o interior com Yousef, onde participa de uma caçada noturna e quase mata um adolescente. Namora Hanne e Zahra Haken. E, principalmente, apesar da proibição religiosa que caracteriza os países muçulmanos, consome doses industriais de bebidas alcoólicas. Todas essas atividades sinalizam para o tédio, para a ineficácia de quaisquer esforços que possam ser feitos para resolver o impasse em que os estadunidenses foram aprisionados. Contraditoriamente, a Arábia Saudita também pode ser entendida como uma imensa redoma de vidro que isola Alan dos problemas “reais” (as mensalidades da universidade da filha, os fracassos da vida sentimental e profissional). Exilado – talvez como uma forma de punição mística por seus múltiplos erros –, Alan não sabe se quer voltar à civilização ou permanecer entre os bárbaros. Em qualquer uma das alternativas, o inferno o aguarda.

Uma questão importante, que aparece de forma intermitente, é a rememoração de um incidente ocorrido com Charlie Fallon, vizinho de Alan em Boston. Ele morreu afogado em um lago. Provavelmente se suicidou. Não há uma explicação convincente para a tragédia. O que incomoda Alan é a possibilidade da morte de Charlie se assemelhar com um holograma – em determinado momento a imagem desaparece, sem deixar traços, sem deixar lembranças. Como se não tivesse existido.  


Um Holograma para o Rei, escrito com agilidade e competência, relata com boas doses de humor o desenraizamento cultural. Mas, ao mesmo tempo, reflete a inquietação que corrói a existência humana. Em outras palavras, é um livro agradável, desses que são capazes de produzir reflexões profundas através de exemplos triviais.  

PS: Hollywood produziu uma versão de Um Holograma para o Rei  que recebeu no Brasil um título risível: Negócio das Arábias (A Hologram for the King. Dir. Tom Tykwer, 2016). A presença de Tom Hanks no elenco não melhora o filme. Embora o roteiro se mantenha mais ou menos fiel ao texto original, os diversos desvios produzidos pela adaptação da linguagem literária para a cinematográfica, inclusive o final, distorcem parte do tom desesperançado que caracteriza o livro. 

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

NÚMERO ZERO

Umberto Eco, um dos maiores provocadores da literatura contemporânea, está de volta. Sua última (por enquanto) produção, o romance Número Zero, não está no mesmo nível qualitativo de textos como O Nome da Rosa ou O Pêndulo de Foucault, mas consegue criar um interessante alvoroço. Desta vez, o escritor italiano aposta na composição de um (na falta de melhor expressão) manual de maldades jornalísticas.

Jornalistas são mercenários da informação. Partido desse princípio, Número Zero aborda as teorias conspiratórias com uma propriedade rara. Além disso, no centro do romance há uma discussão sobre o quanto os noticiários estão ligados ao conceito de mercadoria. Algo sobre o interesse econômico estar acima da consciência profissional. E isso significa que tudo (é importante frisar isso, tudo) o que é publicado nos jornais está sob suspeita. De acordo com o narrador, A questão é que os jornais não são feitos para divulgar, mas para encobrir as notícias. Traduzindo: o jornalismo é uma fábrica de mentiras. Os muitos interesses em jogo produzem necessidades específicas. E nenhuma delas está relacionada com o esclarecimento de alguns fatos ou com algo que se aproxime do conceito utópico de verdade (seja lá o que isso for!). Normalmente, o que se pretende é construir alguma tese (ou seja, um dossiê) que possa ser utilizada para obter alguma vantagem. Qualquer semelhança com palavras como chantagem não é mera coincidência.

Umberto Eco
Colonna, o narrador, protótipo do escritor de aluguel, desses que vivem de serviços pouco recomendáveis, inclusive na função de ghost-writer, aumenta a própria renda escrevendo para alguns jornais. Em determinado momento, vítima da instabilidade financeira, aceita trabalhar na equipe de redatores reunida por um sujeito pouco confiável chamado Simei (que não passa de “laranja” de um milionário). Colonna, além de ajudar os redatores, deveria escrever um livro, as memórias de um jornalista sobre o período em trabalhou em um jornal que nunca será publicado.

Tudo se complica quando outro jornalista, Braggadocio, conta para Colonna estar investigando a possibilidade de Mussolini ter sobrevivido ao fim da Segunda Guerra Mundial. Essa mistura de improbabilidades, inclusive com a utilização de um sósia de Il Duce, ganha corpo na medida em que é contrastada com a história italiana contemporânea. Diz Braggadocio, E essa é a minha história, praticamente reconstruída: a sombra de Mussolini, dado por morto, domina todos os acontecimentos italianos de 1945 até hoje, eu diria, e sua morte de verdade desencadeia o período mais terrível da história deste país, envolvendo stay-behind, CIA, Otan, Gladio, loja P2, máfia, serviços secretos, altos-comandos militares, ministros como Andreotti, presidentes como Cossiga e, naturalmente, boa parte das organizações terroristas de extrema esquerda, devidamente infiltradas e manobradas.

Benito Amilcare Andrea Mussolini
Como compete a esse tipo de ficção que flerta com o realismo politico, Braggadocio acaba assassinado em uma rua pouco iluminada. A equipe se dissolve. Todos fogem. Sobram apenas suspeitas de algo significativo aconteceu – mas que ninguém conseguiu perceber o quê.

Então é isso: as 207 páginas de Número Zero, narradas em primeira pessoa, simulam uma mistura confusa entre romance policial, thriller e algumas lições de historiografia. Simultaneamente, entre incontáveis citações literárias (que povoam o texto e propõem um pouco de diversão para o leitor “avançado”), há muitas discussões inteligentes sobre paranoia e ética. Se não fosse por isso, e a inegável competência narrativa de Umberto Eco, seria difícil deixar de comparar Número Zero com algum dos livros (descartáveis) de Dan Brown.