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quinta-feira, 28 de abril de 2016

MALES E BENEFÍCIOS DA BEBIDA EM 55 FRASES

Ernest Miller Hemingway (1899-1961)
– Só se deve beber por gosto; beber por desgosto é cretinice. (Mário Quintana)

– Bebi muitos anos. Para ficar bêbado. Não posso imaginar outra razão. O bebedor social é coisa de pequeno-burguês. (Paulo Francis)

– Se o vinho atrapalha teu negócio, larga teu negócio! (Mauro Côrte Real)

– É este o problema com a bebida, pensei, enquanto me servia de um copo. Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom, bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconteça qualquer coisa. (Charles Bukowski)

– Nunca devemos lamentar que um poeta seja um bêbado. Devemos lamentar que nem todos os bêbados sejam poetas. (Oscar Wilde)

– Beber em quantidade extingue a sede; beber em pequenos goles prolonga o prazer da bebida. Assim é também com relação ao prazer do amor. E com tudo o mais na vida. (Provérbio italiano)

William Cuthbert Faulkner (1897-1962)
– Há pessoas que só bebem em circunstancias muito especiais. Mas consideram especiais todas as circunstancias em que bebem. (Millôr Fernandes)

– Melhor morrer de vodca do que de tédio. (Vladimir Maiakóvski)

– Preso por embriaguez. Os dois policiais estavam bêbados. (Millôr Fernandes)

– Os homens são como os vinhos: a idade azeda os maus e apura os bons. (Marcus Tullius Cícero)

– Em uma coisa os bêbados e os geógrafos têm razão: a Terra gira. (Jô Soares)

– A humanidade está sempre três uísques atrasada. (Humphrey Bogart)

– Uma mulher me levou a beber – e eu nem ao menos lhe agradeci por isso. (W. C. Fields)

– Nada embriaga como o vinho da infelicidade. (André Gide)

– O trabalho é a praga das classes bebedoras. (Oscar Wilde)

– O pobre prefere um copo de vinho a um pão, porque o estomago da miséria necessita mais de ilusões que de alimento. (Georges Bernanos)
Francis Scott Key Fitzgerald (1896-1940) e
Zelda Sayre Fitzgerald (1900-1948)

– Eu já tirei mais do álcool do que o álcool tirou de mim. (Winston Churchill)

– Os bebedores de água possuem mau caráter. (Blaise Pascal)

– Detesto beber. Faz com que eu me sinta bem. (Oscar Levant)

– Na realidade, basta um drinque para me deixar mal. Mas nunca sei se é o 13º ou o 14º. (George Burns)

– O problema de algumas pessoas é que, quando não estão bêbadas, estão sóbrias. (William Butler Yeats)

– Bebo para tornar as outras pessoas interessantes. (George Jean Nathan)

 O problema é que preciso beber para suportar as pessoas – e nesse momento as pessoas não conseguem me suportar. (Ring Lardner)

– É absurdo dizer, segundo a crença popular, que alguém se esconde na bebida; pelo contrário, a maioria se esconde na sobriedade. (Thomas Quincey)

– Em 1969, eu abri mão das mulheres e das bebidas. Foram os piores 20 minutos da minha vida. (George Best)

James Augustine Aloysius Joyce
(1882-1941
)
– O álcool não faz as pessoas fazerem melhor as coisas; ele faz com que elas fiquem menos envergonhadas de fazê-las mal. (William Osler)

– Não confio em produto local. Sempre que viajo levo meu uísque e minha mulher. (Fernando Sabino)

– A vida é como os vinhos: se a quisermos apreciar bem, não devemos bebê-la até a última gota. (Lord Byron)

– Faça sempre lúcido o que você disse que faria bêbado. Isso o ensinará a manter a boca fechada. (Ernest Hemingway)

– Se você deixa de beber se divertindo para se divertir bebendo, é porque a bebida já tomou conta da situação. (Diana Wingerter)

– O álcool elimina as ilusões. Depois de alguns goles de conhaque já não penso em você. (Marguerite Yourcenar)

– As aventuras amorosas começam no champanhe e terminam no chá de camomila. (Valéry Larbaud)

– O fígado faz muito mal à bebida. (Barão de Itararé)

– Não existe uísque ruim. Apenas alguns uísques não são tão bons quanto os outros. (Raymond Chandler)

Jean-Louis (Jack) Lebris de Kerouac (1922-1969)
– Eu parei de beber – mas apenas enquanto eu durmo. (George Best)

– Depois que você conhecer o sabor real de degustar uma cerveja, você vai continuar ficando bêbado, só que com mais classe! (Rafael Wallace)

– O álcool é como o amor: o primeiro beijo é mágico, o segundo é íntimo, o terceiro é rotina. A partir daí, você apenas tira a roupa da garota. (Raymond Chandler)

– Sou um homem simples. Tudo que eu quero é sono suficiente para dois homens normais, uísque para três, e mulheres suficientes para quatro. (Joel Rosenberg) 

– Deus apenas fez a água, mas o homem fez o vinho. (Victor Hugo)

– Consciência é a parte da psique que se dissolve em álcool. (H. D. Lasswell)

– Invejo as pessoas que bebem. Pelo menos têm alguma coisa em que botar a culpa. (Oscar Levant)

– Comecei uma dieta, cortei a bebida e comidas pesadas e, em quatorze dias, perdi duas semanas. (Joe E. Lewis)

Henry Charles Bukowski Júnior
(1920-1994)
– Mas não se esqueça, assim como não se deve misturar bebidas, misturar pessoas também pode dar ressaca. (Martha Medeiros)

– Toda forma de vicio é ruim, não importa que seja droga, álcool ou idealismo. (Carl Jung)

– Não. Acho que, ontem, fui para a cama meio sóbrio. (Dashiel Hammett, quando lhe perguntaram se havia dormido bem)

– Qual foi o cretino que roubou a rolha do meu almoço? (W. C. Fields)

– Posso adivinhar o passado de uma mulher pela maneira como ela segura o cigarro, e o futuro de um homem pela maneira como ele segura o copo. (Sacha Guitry)

– O vinho me tornou audacioso, não louco; incitou-me a dizer asneiras, não a fazê-las (Duff Cooper)

– O uísque é o melhor amigo do homem: é o cachorro engarrafado. (Vinicius de Moraes)

– Gastei muito dinheiro em bebida, mulheres e carros rápidos. O resto eu desperdicei. (George Best)

– Só as pessoas sem imaginação não conseguem encontrar um motivo para beber champanhe. (Oscar Wilde)

– Eu não devia te dizer, mas essa lua, mas esse conhaque, bota a gente comovido como o diabo. (Carlos Drummond de Andrade)

Marcus Vinicius de Moraes (1913-1980)
– Para conservar os vinhos e licores finos, o melhor processo é mantê-los escondidos e guardados a sete chaves, em lugar onde nem a nossa querida avó desconfie. (Barão de Itararé)

– Um alcoólatra é alguém de quem você não gosta e que bebe tanto quanto você. (Dylan Thomas)

– Dirigir embriagado, avisam as autoridades, é extremamente perigoso. E atravessar a rua sóbrio? (Millôr Fernandes)

segunda-feira, 25 de abril de 2016

A ÚLTIMA PALAVRA

Todos os fãs da literatura são voyeurs. Mais do que apenas escolher seus livros favoritos – na impossibilidade de escrevê-los! –, eles querem saber detalhes da vida intima dos escritores. Fulano passou fome? Excelente! Beltrano escrevia dez páginas por dia? Incrível! Sicrano tinha problemas de caráter? Crápula! Quanto mais bizarras forem as revelações, melhor. Principalmente aquelas que descrevem algum desvio de caráter sexual. É para isso que servem as biografias: satisfazer a curiosidade mórbida do leitor que não se contenta com o conteúdo dos livros. Essa extensão (ficcional ou real?) equivale ao olhar pelo buraco da fechadura e ver o que o texto não confessa. O uso da “confissão”, nesse caso, parece apropriado, visto que muitos escritores costumam afirmar que vida e obra são compartimentos distintos, que nunca se misturam. Não é bem assim. O poeta é um fingidor, finge tão completamente e etc. Enfim, não é necessário recitar o poema todo para que se perceba que alguém sempre está mentindo e, mais importante, mentindo mal. Ou seja, a tese de que a ficção de um escritor se mostra mais poderosa do que a vida do escritor esbarra na afirmação de Harry Johnson, protagonista de A Última Palavra, de Hanif Kureishi, A vida e a escrita formam um livro contínuo. É assim com todos os escritores. Pode ser, mas em alguns casos, a vida privada é mais fascinante do que a vida ficcional.  

Hanif Kureishi
No romance A Última Palavra, a vida pessoal de Mamoon Azam é invadida. O editor Rob Deveraux contrata Harry Johnson para escrever a biografia do célebre escritor inglês (de origem indiana). A tarefa se mostra muito mais difícil do que parecia em um primeiro instante. 

Descobrir algo que alguém – propositalmente – deseja esconder constitui uma das situações mais complicadas do universo humano. Todos os envolvidos precisam estar preparados para as mudanças que se seguem – embora ninguém tenha capacidade (física, emocional) para enfrentar esse tipo de tempestade. Espelho ligeiramente embaçado da realidade, a ficção está repleta de surpresas.

Hanif Kureishi e Stephen Frears, parceria que rendeu
excelentes filmes como My Beautiful Laudrette (1985)
e Sammy and Rosie Get Laid (1987).
Em algum momento, depois de vários insucessos em obter as mais básicas informações do biografado, Harry percebe que Um escritor é amado por desconhecidos e odiado por seus familiares. Diante desse tipo de “insight”, confirmada nas centenas de páginas do diário de Peggy, a primeira e falecida esposa de Mamoon, Harry, inseguro, pergunta para si mesmo, várias vezes, se tem a capacidade necessária para finalizar o trabalho. Como não obtém uma resposta satisfatória à questão, aproveita a crise para desfrutar das delicias sexuais que a vida oferece. Sua namorada, Alice, não costuma negar prazeres.  No entanto, é no corpo de Julia (uma agregada de Mamoon) que ele encontra o necessário lenitivo para ir em frente. Assim, pulando de uma cama para outra, tudo se confunde, névoa que arrasta o leitor para um abismo de humor, sarcasmo e ironia. Não há dúvidas, o fundo do poço é o aqui e o agora. Sem anestésico.

A maioria dos bons livros não é, afinal, sobre nossas fraquezas sexuais?, pergunta Harry, enquanto recebe boas bengaladas pelo corpo, em um dos momentos mais hilários do livro, o biografado furioso descontando no biógrafo medíocre as suas frustrações mais elementares. Mamoon, cansado pelo esforço, resume a cena em poucas palavras: Sua obra é feita de inveja e você não passa de um semifracasso de terceira categoria, um parasita que consegue sobreviver graças a um encanto de meretriz e a uma boa aparência que já está definhando. Por acaso você já viu um biógrafo capaz de escrever tão bem quanto seu biografado?

O que ele quer dizer, em outras palavras, é que toda biografia resulta em um conjunto de decepções. Aquele que escreve fica insatisfeito com o resultado final (sempre acreditando que poderia melhorar isso ou aquilo). Quem lê sempre quer mais, muito mais, mesmo que não seja a descrição dos acontecimentos. Entre o real e a lenda, a escolha mais sincera é sempre pela segunda alternativa.

O passado é um rio e não uma estátua, diz o pai de Harry, alertando para as armadilhas que acompanham aqueles que investigam a História humana. Quem quer trabalhar com esse tipo de pesquisa (ou em áreas correlatas) precisa ver os fatos como um fluxo caudaloso, em constante deslocamento, e não como um monte de elementos estanques. Somente assim se conseguirá obter um esboço pálido dos acontecimentos – que devem ser reconstruídos literariamente. Para Harry, As palavras eram a ponte para a realidade; sem elas só existia o caos. Palavras ruins podiam nos envenenar e arruinar nossa vida, disse Mamoon um dia; e as palavras certas podiam recolocar a realidade em foco. A loucura de escrever era o antídoto para a loucura verdadeira.
 
V. S. Naipaul
O final do romance é surpreendente, o efeito especular emergindo das trevas, convocando forças que ainda não tinham entrado em jogo. O narrador de A Última Palavra, embriagado por alcançar algum ponto relevante na sua tarefa, declara, de maneira absolutamente simples, O romancista é qualquer coisa – trapaceiro, vigarista, impostor: como quiser. Mas, acima de tudo, é um sedutor.

P. S.1) Quando A Última Palavra foi lançado na Inglaterra, em 2014, muitos críticos aventaram a possibilidade de se tratar de um “roman à clef” sobre a vida de Vidiadhar Surajprasad Naipaul (ganhador do Premio Nobel de Literatura, em 2001). Desmentidos foram emitidos. Mas, para o bem ou para o mal, a questão permanece.


TRECHO ESCOLHIDO


O trem deslizava por cidades-cemitério e Harry viu seu corpo amotinado contra a ideia de se encontrar com Mamoon naquele dia; de fato, sentia medo de todo aquele projeto, sobretudo depois que Rob, passando a beber mais ainda, não parou de repetir que seria a “grande tacada” de Harry. Rob “acreditava” em Harry, mas teve a franqueza de declarar que Harry estava longe de cumprir com seu potencial, um potencial que ele, Rob, havia reconhecido, contra uma oposição considerável. Com Rob, um beijo costumava ser seguido de uma bofetada.

“Eu venho amaciando o Mamoon para você, cara”, acrescentou Rob, quando o trem se aproximou da estação.

“Amaciando como?”

“Contando para ele que você sabe das coisas e fica noites em claro lendo os livros mais densos do mundo. Hegel, Derrida, Musil, Milton... eh...”

“Você disse que eu entendo de Hegel?”

“Não é fácil vender você. Tive de começar do zero.”

“Vamos supor que ele me pergunte a respeito da dialética de Hegel. E aí?”

“Você vai ter de oferecer uma visão geral para ele.”

“E quanto ao meu primeiro livro? Você não enviou um exemplar para ele?”

“Acabei tendo de fazer isso, afinal. Mas o livro tinha seus longueurs, até sua mãe concordaria com isso. O velho lutou com unhas e dentes para vencer a introdução e teve de ficar de cama uma semana com o Suetônio para purificar o paladar. Portanto, alcance esse novo patamar, cara, senão vai acabar se fodendo tanto que vai ter que ganhar a vida como professor universitário. Ou coisa pior...”

“Pior? O que pode ser pior do que um ex-aluno de escola politécnica?”

Rob fez uma pausa e lançou um olhar pela janela antes de transmitir as novidades. “Você teria de dar aulas de escrita criativa.”

“Por favor, não. Eu não seria capaz.”

“Melhor ainda. Imagine ficar perdido para sempre numa floresta escura de primeiros romances inacabados que requerem sua atenção total.” Rob juntou seus trapos e se levantou. “Vejo que chegamos à terra devastada! Olhe para fora – veja este pântano, povoado por boécios tatuados, gárgulas e espantalhos que cheiram cola. O horror, o horror! Está pronto para o começo do resto da sua vida?”

terça-feira, 19 de abril de 2016

PETROS MARKARIS: DOIS ROMANCES POLICIAIS


O melhor amigo de um investigador policial é o dicionário. Essa tese, defendida pelo Inspetor Kostas Xaritos, está desenvolvida nos romances policiais escritos pelo grego (nascido na Turquia) Petros Markaris. Salvo engano, apenas duas das aventuras de Xaritos foram traduzidas no Brasil: A Hora da Morte (2008) e Os Amantes da Noite (2010). Lamento ter conhecido esses romances somente agora – pois perdi, durante muito tempo, boa diversão.

Como é de conhecimento geral, leitores compulsivos são incapazes de resistir a uma promoção – qualquer promoção – na livraria da esquina. Aliás, nem precisa ser na esquina. Vinte quilômetros ou dez quarteirões, tudo é desafio, a cidade escorrendo pelas janelas do transporte coletivo, e o sujeito volta com a sacola cheia, sem arrependimentos, a alma em festa. Distância nunca foi sinônimo de impedimento.  Outro dia, em um desses eventos, encontrei um exemplar de Os Amantes da Noite. Título ruim. Parece livro pornográfico – ou coisa pior. O que me chamou a atenção foi uma informação acessória na orelha da contracapa. Petrus Markaris foi parceiro, em alguns roteiros de cinema, de Theo Angelolopoulos (diretor de Paisagem na Neblina, 1988, entre outros belos filmes). Eles estão juntos em, por exemplo, A Eternidade e um Dia (1998). Contra isso não há argumentos, pensei. Acrescentei o livro à cesta de compras e segui adiante. Umas duas semanas depois, vitima de insônia, fui procurar algo para me acompanhar no suplicio. Li as primeiras frases e... Quando percebi, o dia estava amanhecendo e tinha devorado um terço da narrativa. Se considerarmos que o texto tem 477 páginas, então...

Kostas Xaritos é um homem simples. Daqueles que necessitam superar muitas dificuldades para entender as complicações do mundo. Cada um dos casos que resolve se assemelha a uma batalha medieval. Em suas aventuras sobram violência, sangue e coragem. Também precisa enfrentar problemas domésticos – contra os quais se rebela, sem o mínimo sucesso. A esposa, Adriana, e a filha, Katerina, o atormentam – embora ele (às vezes, a contragosto) faça de tudo o que lhe é possível para agradá-las. Raramente consegue. Em compensação, há reconciliações, “recheados” (tomates, pimentões e abobrinhas) e algum amor. O que mais pode querer um homem bom? 

Um pouco perplexo com esse conjunto de desafios e tempestades, resta-lhe a companhia dos volumes escritos por Dimitrákou, Lidell-Scott, Voztazóglou, Andrioti, Tégopoulou-Fitráki, além do Webster e do Oxford e outros menos cotados. Nos verbetes dos dicionários – que jamais podem ser considerados como uma rota de fuga – ele encontra todas as explicações que o mundo concreto não consegue lhe fornecer. E, em alguns casos, pistas para desvendar os casos em que está trabalhando. 

Kostas Xaritos lembra (ao longe, ao longe) o Comissário Salvo Montalbano (personagem criado pelo italiano Andrea Camilleri). Mas, enquanto Montalbano é naturalmente engraçado, Xaritos ostenta um mau humor sem fim. Tudo o aborrece. E, claro, essa é uma de suas características mais peculiares. Um dos motivos que ajudam a explicar esse comportamento ranzinza está na evolução de sua carreira policial. Iniciou como carcereiro em uma prisão, durante a ditadura militar. Depois, aos poucos, foi ascendendo na profissão (inclusive com uma passagem pela Delegacia de Narcóticos). O contato com o crime (e suas variantes) foi curtindo a pele de Xaritos, o foi transformando em um homem amargo – mas, com um senso crítico admirável. Com estoicismo suporta essa mistura de dissimulação e política que está espelhada na figura daquele que muitas vezes o faz perceber que o melhor caminho para solucionar um caso não é uma linha reta – o chefe de polícia, Nikoláo Guikas.  

Do ponto de vista narrativo, os dois romances não apresentam nenhuma novidade. São narrativas em primeira pessoa (protagonista-narrador), onde os acontecimentos descritos em ordem direta sofrem alguns desvios dramáticos nos momentos em que Xaritos relata as crises familiares (introduzindo um pouco de humanidade em um mundo cruel e insensato).

Para quem aprecia o gênero policial, os dois romances de Petros Markaris publicados no Brasil (A Hora da Morte e Os Amantes da Noite), são entretenimentos de primeira qualidade.


TRECHO ESCOLHIDO 


Fiquei furioso comigo mesmo porque queria relaxar e acabei irritado. Peguei de novo o Dimitrákou. Tinha caído de qualquer jeito e algumas de suas folhas estavam amarrotadas. Enquanto estava tentando endireitá-las, meus olhos caíram na palavra imbecil. Fiquei pensando que esta palavra expressava exatamente o que eu era e comecei a ler o verbete para encontrar as minhas raízes. “Imbecil, do latim imbecille, o idiota, o tolo, o covarde, o pusilânime, o estúpido. Aquele de quem se zomba, o ridículo, o bebê, o burro.” Muito bem, o ridículo dera as 35 mil para Adriana e, além disso, ouviu seus comentários sobre ele. O bebê quis saber exatamente por que a querida Karayióryi brincava com palavras que sugeriam a existência de crianças, tendo já embrulhado o caso com papel autocolante. E o burro tinha envolvido Atanásio no caso para descobrir o que queria saber. Seria assim que Guikas iria me catalogar, se soubesse o que eu havia pedido a Atanásio: cabra tosquiado, ridículo. Ele vai me tosquiar com máquina fina. Meu pai me chamava de asno. Na época, eu não sabia o que significava, nem ousava perguntar para que ele não pensasse que eu o estava gozando e me desse uma bofetada. Foi a primeira palavra que fui procurar assim que um dicionário caiu em minhas mãos. “Asno = 1) jumento, designação comum a diversos mamíferos do gênero Equus; 2) indivíduo pouco inteligente, burro.” De asno a ridículo, esta foi a estrada descendente da minha dignidade. Não me queixo. Este é o destino dos homens. Nove entre dez começam garanhões e acabam como asnos. (In: A Hora da Morte).

terça-feira, 5 de abril de 2016

GATO

"A vida é transitória. Até as sete vidas dos gatos têm prazo de validade." Foi isso o que disse ao Mítia – quando ele me comunicou que Gato deixou de existir. Nenhuma surpresa, Gato estava doente. E o fim do sofrimento havia sido anunciado algum tempo antes pelo veterinário. Apesar de tudo, como compete aos gatos que professam o estoicismo, Gato resistiu bravamente aos seus últimos dias.

Gato entrou nas nossas vidas de forma ardilosa. Escrevo “nossas vidas” ciente de que existe uma imprecisão terminológica nessa frase, pois já faz bastante tempo que não pertenço à família. De qualquer forma, o que gostaria de esclarecer é que também fui afetado pela existência do gato.

Mítia foi passar alguns dias no litoral, durante as férias. Não lembro exatamente da data. Faz, provavelmente, uns dez ou doze anos. O gato vivia por lá, sem domicílio regular. Comia quando havia o que comer, dormia onde era possível. Era, na falta de uma expressão melhor, um sem-teto. Por razões que a razão desconhece, em determinado momento, o animal resolveu adotar o turista. Além disso, permitiu que ele fosse contaminado pelo autoengano. Ao imaginar que estava perfilhando um gato, Mítia ignorou que era o felino que detinha o poder sobre ele. Uma nova versão da velha história de “vender gato por lebre”, se é que posso usar aqui um péssimo trocadilho.

O fato concreto é que, quando as férias terminaram, o bichano subiu a serra. Imediatamente tomou posse do novo lar. Esse gesto de bondade com os humanos lhe custou caro. Foi castrado. Protestei contra, mas – como sempre – fui voto vencido. Aliás, nem eu nem o gato tínhamos direito ao voto.

Pois é, comida e proteção equivalem à escravidão. Não sei se Gato chegou a essa conclusão, no momento que perdeu a virilidade. Eu, testemunha ocular da história, fiquei triste com o desfecho, imaginando que ele, o gato, se transformaria em um bibelô gordo, desses que ornamentam a sala de visitas dos burgueses. Claro que estava enganado. Gato tinha personalidade. Sempre se recusou a ser domesticado. Extremamente curioso, corria para lá e para cá toda vez que havia algum movimento suspeito.  Adorava infernizar a vida de Tutu (a outra gata da casa). Cometia pequenos e grandes delitos. Transformava os humanos em brincadeira de “gato e sapato”. A verdade é que ele tinha um péssimo gênio. Somente fazia o que queria. E quando queria.

A escolha do nome de Gato foi outra epopeia. Creio que aqueles que tiveram o prazer de conviver com ele testaram várias alternativas e nenhuma se mostrou satisfatória. Com a altivez de um deus egípcio, Gato fez questão de descartar as mais óbvias possibilidades. Também recusou algumas tentativas exóticas. Não respondia aos chamados, mostrava cara feia, miava com intensidade. Sem escolhas, o seu dono (dono?) concordou em chamá-lo Gato (assim, com G maiúsculo).

Mas, não é desses fatos corriqueiros que quero lembrar. A imagem que vou guardar é outra. Quando eu ia até o apartamento em que Mítia morava, Gato costumava se aproximar de mansinho (aquela velha manha de quem não quer nada e fica feliz quando leva tudo), e subia no meu colo. Se eu não manifestasse contrariedade, ele subia mais um pouco, deitava no meu peito, fechava os olhos e ficava em doce ronronar até que um de nós dois se cansasse e modificasse a situação.

Pensando bem, não era somente comigo. Muitas vezes o vi fazer isso com Mítia. Ao transmitir o calor de seu corpo para algum outro corpo, ele estava passando uma mensagem de carinho. Era uma forma de interação social? Não sei. Talvez fosse uma concessão para aqueles que o protegiam. Gato era um enigma. E isso contribuía para que olhássemos para ele com ternura. Com a ternura que merecem os rebeldes.

Apesar de ser um animal independente, egocêntrico e próximo do anarquismo, Gato era simpático – desde que isso lhe fosse conveniente. Sabia conquistar atenção e afeto na mesma proporção com que declarava aversão contra aqueles que não se submetiam aos seus caprichos. E não foi para poucos que mostrou alguma hostilidade. 

Agora, que não o temos mais entre nós, percebo que esta elegia fúnebre é uma forma de dizer que Gato deixou uma imensa saudade, dessas que não tem conserto.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

ASCO - Thomas Bernhard em San Salvador

Ninguém resiste aos mecanismos de sedução da iconoclastia. A vontade de jogar farofa no ventilador costuma ser uma receita fácil para quem alimenta desejos de romper com o establishment. Isso fica evidente em Asco, novela escrita por Horacio Castelllanos Moya (nascido em Honduras, mas cidadão de El Salvador), onde quase todos os pecados de um pequeno país centro-americano são revelados através de um discurso ressentido.

O subtítulo da narrativa – Thomas Bernhard em San Salvador – indica as origens literárias de Asco. Também aponta para o uso de uma formula pronta (parágrafo monolítico, variações espaçadas e repetitivas do mesmo tema, doses maciças de ressentimento, descontrole emocional), onde Horacio Castellanos Moya preencheu os espaços em branco e produziu um texto ad hoc.

Em Asco, Edgardo Vega, que mora no Canadá, regressa a El Salvador para assistir ao enterro da mãe. Hospeda-se na casa do irmão, enquanto aguarda que os tramites burocráticos referentes à herança se completem.

Depois de quinze dias em San Salvador, Edgardo convida para uma conversa o amigo de infância, Moya (que exerce, no texto, as funções de narratário. Ou seja, surge no texto apenas para complementar a ação narrativa. Não possui voz e a sua presença não se materializa no conjunto de fatos que estão sendo narrados. Não deve ser confundido como autor). Eles tomam uísque e ouvem o Concerto em Si Bemol para Piano e Orquestra, de Tchaikovsky.

As 91 páginas do texto, composto por um único parágrafo, organizam uma exposição de motivos inflamada por litros de intolerância e falta de bom senso. Embora, o que está mesmo em falta é outra coisa: boa educação. O verborrágico Edgardo Vega não possui um mínimo de urbanidade ou de consciência social. Sua metralhadora giratória não perdoa nada e ninguém.O ódio alimenta o discurso: (...) estou aqui depois de dezoito anos, voltei apenas para constatar que fiz muito bem em ir embora, que o melhor que pode ter acontecido comigo foi sair desta miséria, que este país é uma alucinação, Moya, só existe pelos seus crimes, por isso agi de forma correta ao partir, ao mudar de nacionalidade, em não querer mais saber mais nada do país, foi a melhor coisa que poderia ter acontecido comigo, me disse Vega.

Sem dar chances aos vínculos afetivos, Edgardo Vega despeja os piores adjetivos à cerveja produzida no país, à comida típica de El Salvador (“pupusas”), às equipes de futebol, aos políticos, aos militares, ao irmão, à cunhada, à empregada do irmão e da cunhada, aos sobrinhos, aos amigos do irmão. Como se não bastasse, fala mal dos monumentos, do transporte público, do colégio onde estudou (e, por extensão, dos irmãos maristas, que dirigem a instituição educacional). Nada escapa das camadas de fel que vai espalhando pelas páginas da narrativa. Se essa situação não fosse ridícula, proporcionando alguns momentos bastante engraçados, provavelmente seria insuportável – e obrigaria a interrupção da leitura. Ninguém tem paciência com aqueles que escolhem a reclamação como razão de vida.

Nas últimas páginas, Edgardo Vega revela o único elemento capaz de lhe causar algum tipo de afeição sincera: o passaporte canadense, documento que transforma em uma espécie de rota de fuga do ambiente que detesta e o oprime.

P.S.: Seguindo pela mesma estrada, mas rejeitando o modelo instituído por Thomas Bernhard, dois outros escritores latino-americanos merecem atenção – quando o tema é o desprezo pelo país que nasceram: o brasileiro Diogo Mainardi (principalmente em Contra o Brasil) e o colombiano Fernando Vallejo (A Virgem dos Sicários e O Despenhadeiro).


TRECHO ESCOLHIDO


Já no ápice do meu delírio, Moya, imaginava o pior: que o meu passaporte canadense tinha caído no bar ou na boate e que eu teria problemas enormes para conseguir um novo documento, me disse Vega. Eu suava, as minhas mãos tremiam, a história me deixava prestes a arrebentar. Gritei a meu irmão que o meu passaporte canadense não estava dentro do carro, deveríamos voltar imediatamente aos dois antros pelos quais passamos. Meu irmão me falou que ele procuraria, eu precisava me acalmar, não havia motivos para me preocupar, logo encontraríamos o meu documento. Um imbecil desses, Moya, pedindo que me acalmasse. Eu me afastei para que ele procurasse na parte de frente do carro, me disse Vega. Estava prestes a estourar, meus nervos não aguentavam mais, prestes a urrar e bater em alguém porque tinha perdido o passaporte canadense e a culpa era do meu irmão e desse crioulo, por ter aceitado o convite desses seres sórdidos para sair à noite e comer alguém, estava prestes a estourar quando meu irmão deu um grito de alegria: “Encontrei.” E lá estava, Moya, a mão de meu irmão me alcançando o passaporte canadense, o sorriso idiota do meu irmão por trás da mão com o passaporte canadense, que tinha caído sem que eu percebesse quando entrei no carro para fugir da asfixiante discoteca onde o crioulo dono de ferragem havia me deixado tonto com sua verborragia ao relatar suas aventuras sexuais extraordinárias, me disse Vega. Agarrei o passaporte de sua mão e, sem falar uma palavra, sem nem olhar para eles, corri até um taxi estacionado alguns metros adiante. Saí dali como se estivesse sendo perseguido pelo diabo, Moya. E não consegui me acalmar antes de entrar no quarto da casa de meu irmão e entrar debaixo dos lençóis com a certeza de que meu passaporte canadense estava seguro sob o travesseiro, me disse Vega. O pior susto de minha vida, Moya. Inclusive, durante o trajeto entre o bordel e a casa de meu irmão no taxi, fiquei folheando meu passaporte canadense, constatando que aquela pessoa na foto era eu, Thomas Bernhard, um cidadão canadense nascido, 38 anos atrás, em uma cidade asquerosa chamada San Salvador. Isso eu não contei, Moya: não apenas mudei de nacionalidade como também mudei de nome, me disse Vega. No Canadá, não me chamo Edgardo Vega, um nome horrível, por sinal, um nome que para mim só me faz recordar o bairro La Vega, um bairro execrável onde me assaltaram quando eu era adolescente, um bairro antigo que nem sei se ainda existe. Meu nome é Thomas Bernhard, me disse Vega, um nome que peguei emprestado de um escritor austríaco que admiro e que, com certeza, nem você nem os outros imitadores dessa infame província conhecem.