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quarta-feira, 15 de abril de 2026

A NOIVA DO TRADUTOR

 


A noiva do tradutor, de João Reis (Editora DBA, 2020), é uma espécie de tratado sobre o mau humor. O narrador (inominado), uma espécie de filósofo pessimista, não poupa nada e/ou ninguém. Qualquer pretexto gera imprecações, insultos, maldições, agravos, injúrias e ofensas: está um vento frio, desagradável, cheira-me a urina, a brisa traz as recordações que as pessoas deixam junto aos edifícios, nem a chuva limpa por completo esses vestígios (...) fecho bem a boca para não engolir os odores desta cidade, sim, é mesmo um monte de esterco, quem aqui fica muito tempo acaba por apodrecer, estamos vivos por fora porém mortos por dentro, completamente putrefactos, melhor seria se todos nos uníssemos e nos lançássemos ao rio, seríamos arrastados até ao mar, perder-nos-íamos no seu fundo, livraríamos o mundo de tamanhas aberrações (...)

A forma com que interpreta a humanidade não lhe permite cultivar qualquer estímulo ou alegria – tudo lhe parece estar corrompido ou em infecta decomposição. O enfado e repugnância aumentam no convívio com ineptos como Lucrécia, Valido, Szarowsky, Teodorico e Hermengarda. São personagens unidimensionais, sem atrativos, sem qualidades. E que ampliam o grotesco com suas iniquidades.

No esbravejar interminável contra tudo que o cerca, o tradutor sente falta apenas de uma pessoa: Helena – um ser etéreo, idealizado, que ele declara ter ido embora para o estrangeiro em um navio, ficou apenas a saudade, um lastro de histórias inconclusas que vão se distanciado a cada instante. De certa forma, a existência da noiva pode ser uma projeção do imaginário, um ato compensatório para um personagem que caminha na direção do abismo.     

A noiva do tradutor mimetiza a exaustão – momento em que o cansaço físico, emocional e/ou mental (isolados ou combinados) vai tragando lentamente as forças dos indivíduos. (...) a boca sabe-me a fel, ferro, sangue, (...) os pesadelos são terríveis, desaparecem, mas deixam para trás algo inconsciente, oculto, preferia esquecê-los por completo, sinto-me cansado, um peso no pescoço, estou tão triste (...). Apesar do mal-estar, existe um empuxo de resistência à inércia: a possibilidade de comprar uma casa e, logo em seguida, se casar. É por isso que vai consultar uma cartomante, Madame Rasmussen. Seguindo os traços de alienação da realidade, a vidente o faz acreditar que existe a possibilidade de redenção.  Obviamente, essa euforia desaparece rapidamente – como sói acontecer com as doses artificiais de endorfina.

Nesse cenário – lugar de morada da vertigem, da aversão e da ojeriza –, o narrador se transforma em equilibrista circense sem rede de proteção. A queda, inevitável, vai sendo postergada pelo destino e isso o aborrece porque ele não espera da vida outra coisa senão o horror. Nem mesmo o oficio de tradutor parece ter sentido: uns romances populares, umas cartas comerciais, o pagamento sempre atrasado: Deambulo pela cidade, sei a morada de cor por tantas vezes lhe exigir o meu dinheiro, já lá não vou há alguns meses, dava o valor por perdido, é tudo uma grande pouca-vergonha neste país, não há civilismo, honestidade, nada, é tudo uma podridão. 

Por fim, há o caso do chapéu. Deixou-o no transporte coletivo (no “elétrico”) e isso se torna motivo para constante remoer do absurdo que o cerca. Parte da narrativa está concentrada nesse episódio: (...) esqueci-me do chapéu, será que o consigo de volta, em que cabeça estará agora enfiado, possivelmente abunda em piolhos, carrapatos, essa gente não se lava, não há condições de higiene, só sinto o cheiro destas latas ambulantes que inundam as ruas, e um cheiro pestilento a urina, alcatrão e porcaria, esta cidade é uma lixeira, um antro de conspurcação, espero que os estrangeiros bebam o suficiente para não notarem esse odor horrível, sentem-no mal saem dos navios, não é um cheiro a lodo, mas a humanidade concentrada, pessoas a mais, a chuva limpa-o em parte, contudo, há um fedor eterno proveniente das caves, dos esgotos, das canalizações, dos caixotes do lixo, as pessoas são as que mais fedem, (...).

No enredo de A noiva do tradutor quase nada acontece. Mas, ao contar pouco, muito revela sobre a ausência de afeto, o pânico que acompanham a solidão e o sentimento de estar em desacordo com o ordenamento de um mundo caótico e hostil. Esse estranhamento pode ser interpretado como tragédia ou comédia – de certa forma não há diferença entre uma coisa e outra, tudo se mostra patético.


João Reis

quarta-feira, 1 de abril de 2026

TINTA INVISÍVEL

 


Na cama do hospital, próximo da morte, o pai pergunta para o filho sobre a data do lançamento do próximo livro de um escritor, Procurei as informações (...) no celular e as repassei a ele. Ele balançou a cabeça: “Não, merda, acho que não vou ter tempo”.

Nada se mostra mais horrível para um leitor do que perder a possibilidade de ler uma determinada narrativa. No espaço que existe entre o mundo real e o mundo ficcional, o escritor, o leitor e os personagens constroem conexões afetivas (amor, simpatia, ódio, indiferença). E a simples percepção de que o destino está interposto entre uma ação e outra causa desolação e tristeza.

Javier Peña brigou com Fernando, o pai. Ficaram alguns anos sem se falar. Foi a doença (um câncer devastador) que permitiu a reaproximação. Mas, o distanciamento não diminuiu – no máximo, mudou os parâmetros do relacionamento. Parecia que não tinham assuntos em comum – exceto livros. Foi por essa estrada que eles trafegaram nos últimos meses de vida de Fernando, um leitor insaciável: No que ambos concordávamos era que a vida é feita de histórias e que elas eram o nosso jogo favorito. Eram elas que o faziam rir (...). Quando uma pessoa está morrendo, você não fala sobre deus, sobre a morte, sobre ciência ou sobre o além – você conta histórias para fazê-la sorrir.

Em Tinta Invisível (Editora Instante, 2026. Tradução de Marina Waquil), Javier Peña narra algumas das questões que tumultuaram as suas relações familiares. Embora, em algumas passagens do livro, a doença do pai se mostre como um subterfúgio para poder escrever sobre o mundo literário que está à margem da vida, essa impressão não constitui toda a verdade. Os últimos dias de vida do pai constituem o fio condutor para a celebração do luto – e isso ocorre na medida em que mistura memoria familiar com muitos episódios protagonizados por escritores (Fernando Pessoa, Ursula K. Le Guin, John Maxwell Coetzee, Amós Oz, Virgínia Woolf, Vladimir Nabokov, Susan Sontag, John Le Carré, César Aira, etc.). São cenas hilárias, trágicas e singulares, um universo afastado e, simultaneamente, próximo das narrativas que preenchem o imaginário dos leitores. Cada uma dessas histórias (que revelam a natureza humana dos escritores – bondades e maldades, humor e irritabilidade) compõem um cenário em que a realidade e o ficcional se misturam e que muitas vezes são difíceis de ser separados. Talvez seja isso que Javier Peña queria nos dizer quando relata os espaços solares e/ou sombrios que fornecem identidade para a literatura.

Em alguns romances antigos era comum que alguém escrevesse uma mensagem secreta. O suco do limão se transformava em tinta. Depois que o papel secava, o texto desaparecia, parecia que a folha estava em branco. Era necessário aquecer o papel para que a escrita se tornasse perceptível. Javier Peña gosta dessa metáfora que oscila entre o visível e o invisível: Em ocasiões especiais, os leitores, como escreveu Toni Morrison, conseguem ir além da letra escrita e ler a tinta invisível que o autor deixou na página. Esses momentos, os encontros com o passado, a tinta invisível decifrada, são, tenho certeza, a beleza.  

A cerimônia do adeus se completa quando Javier Peña faz o inventário: Precisei esperar sua ausência para descobrir que o que ele havia me deixado não eram coisas, como aconteceu com Brick em Gata em teto de zinco quente. As únicas coisas materiais que herdei dele foram alguns sapatos grandes demais para mim e um casaco com um lenço usado no bolso. Fora isso, só me deixou tudo o que sou.


Javier Peña Lopez

segunda-feira, 23 de março de 2026

PARA ENTENDER (SUPERFICIALMENTE) OS NOMES DOS PERSONAGENS RUSSOS




Muitos leitores se queixam da dificuldade de acompanhar a literatura russa, alegando que, no meio do texto, os personagens mudam de nome e embaralham ainda mais os contos, novelas e romances. Evidentemente, isso é apenas uma desculpa alicerçada nas narrativas fast-food que tudo fazem para tornar mais palatáveis livros que, por definição, são produzidos para serem esquecidos dez minutos após a leitura.

Nenhum personagem da literatura russa muda de nome. O que ocorre frequentemente está relacionado com as diversas formas de tratamento entre os personagens. Isso significa que existe algumas maneiras especiais de nomeá-los, principalmente em relação com algum apelido, diminutivo ou forma carinhosa. 

Pensando nisso, elaborei uma mínima (talvez mísera) lista de nomes (apelidos, diminutivos) que são frequentes em narrativas russas. Por razões óbvias, essa relação sofrerá acréscimos com o passar do tempo.   

Os nomes russos são compostos por três partes: nome, patronímico, sobrenome. O grau de intimidade entre as pessoas designa as formas de tratamento. Raras vezes há possibilidade de usar apenas o primeiro nome (salvo familiares ou ligações afetivas, que muitas vezes preferem o uso de apelidos). No trato cotidiano usa-se o sobrenome ou, se houver algum tipo de relacionamento social, o nome e o patronímico (que é formado pelo nome do pai + as partículas -vitch ou -vna). Exemplos: Fiódor Mikhailovich Dostoiévski, onde se deve compreender que Fiódor é o filho de Mikhail; Marina Ivánovna Tsvetáieva, ou seja, Marina, filha de Ivan. Em outras palavras, no uso corrente, quando se trata de pessoa conhecida, recomenda-se usar: Fiódor Mikhailovich e/ou Marina Ivánovna. Caso seja pessoas desconhecidas ou de relacionamento superficial, deve-se usar o sobrenome (no caso, Dostoiévski e/ou Tsvestáieva). Apelidos ou diminutivos só devem ser usados em casos de intimidade ou de parentesco.

Apelidos e diminutivos são fundamentais para expressar afeto. De acordo com o nível de proximidade usa-se um dos três casos:

1 – Forma curta (neutra ou amigável): terminação em -a ou -ya

2 – Forma coloquial (rude ou informal): terminação em -ka

3 – Forma afetiva (carinhosa): terminação em -enka, -echka ou -ushka

 

Parte da cultura russa está relacionada com as bonecas Matrioshka


PRINCIPAIS NOMES, APELIDOS E DIMINUTIVOS RUSSOS

Aleksándr, Alexandr – Sacha, Sasha, Sachenka, Sanya

Aleksándra, Alexandra – Sacha, Sasha

Alexey  Alyosha, Lyosha

Anastacia – Nastya, Stasya, Asya

Anatole – Tolya

Andrey – Andryusha, Andryukha, Dyusha

Anna – Anya, Anechka, Annushka

Anton  – Antosha, Antoshka, Tonya

Boris – Borya, Boryenka, Boryushka

Daniil - Danya

Dmitry – Mítia, Mitya, Dima, Dimochka

Elena – Lena, Lenochka, Lenusya

Fiódor – Fedya

Galina – Galya, Galinka

Grigory – Grisha

Igor – Igoryok, Yegorik

Ilya – Ilyushkha, Ilyushenka

Irina –Irisha, Irochka

Ivan – Vanya, Vanechka

Konstantin – Kóstia, Kóstik, Kospenka 

Leonid  – Lyonya, Lenya, Lyonechka

Liev  – Lyouka, Lyova, Lyovushka

Maksim – Maksyusha, Maksinka

Marina  Marinka, Marinoshka

Mariya – Masha, Mashenka, Mashka, Marusya

Mikhail – Misha, Mishka, Mishenka

Natalia – Natasha, Natashenka

Nikita – Nikitka, Nikitushka, Nikitós 

Nikolai – Kolya, Kolyenka

Oleg – Olezhka, Olegushka

Olga – Olya, Olechka, Olenka

Pavel – Pasha, Pavik, Pashaka 

Piotr – Petya, Petiúchka

Raissa – Raya, Raichaka, Rayushka

Roman – Romka, Roma

Sergey – Seryozha, Seryoja, Seryogha, Seryozhka

Sophie – Sonya, Sonechka, Sonyushka, Sofushka

Svetlana – Sveta, Svetik

Tatiana – Tanya, Tanechka

Valentina – Valya, Valechka, Valyusha

Vassili  – Vasya, Vássia, Vaska, Vasen'ka

Vera – Verushka, Verochka

Viktor – Vitka, Vitya, Vityusha, Vityok, Vitenka

Viktoria – Vika, Vikulya, Vikusha

Vladimir – Volódia, Vova, Vovochka

Vladislav – Vlad

Yaroslav – Yarik, Slavik

Yekaterina – Katya, Katyusha, Katenka

Yevgeny – Zhenia, Zhenechka

Yuri – Yura, Yurik, Yurochka


 


 

TERMOS CARINHOSOS PARA PARCEIROS(AS) OU FILHOS(AS)

Solnyshko – Solzinho

Kotik/Kotyonok – Gatinho/Gatinha

Dorogoy/Dorogaya – Querido/Querida

Lyubimyy/Lyubimaya – Amado/Amada 



terça-feira, 17 de março de 2026

FITÓPOLIS

 


Da natureza selvagem para as aglomerações dos centros urbanos. Esse foi um dos fenômenos sociais que criou significativas mudanças nas relações entre os humanos e o meio ambiente nos últimos 500 anos. O planeta mergulhou, de forma contínua, na direção das catástrofes ecológicas (desmatamentos, destruição da biodiversidade, poluição, produção exponencial de lixo não reciclável, mudanças climáticas, etc.). Morar nas cidades implica em aceitar o sedentarismo em substituição ao nomadismo, as alterações do bioma e as múltiplas consequências dessas ações. O biólogo italiano Stefano Mancuso analisou a situação em Fitópolis (Editora Ubu, 2026. Tradução de Regina Silva), um livro que propõe interessantes medidas para enfrentar alguns desses problemas e, por tabela, o aquecimento global.

A união das palavras gregas phyton (planta) e polis (cidade), de certa forma, acena para o surgimento de propostas visando atenuar o desequilíbrio entre a vegetação e o planejamento urbano. Stefano Mancuso, que escreveu vários livros sobre o mundo vegetal, observa que a vida no planeta está assim distribuída: 83,7% são plantas; fungos alcançam 1,2%; os animais são somente 0,3% – o restante é constituído por microrganismos. São números assustadores para quem acredita no aforismo de Pitágoras: o homem é a medida de todas as coisas. Mancuso destaca a nossa incapacidade de perceber outros elementos que não estejam aferidos pela régua humanocêntrica: A gritante quantidade de outros seres vivos, não humanos, que compartilham conosco o planeta é um elemento capaz de sobrecarregar de forma insustentável a capacidade do nosso cérebro de processar dados, sendo por isso compreensível que não vejamos as plantas, os cogumelos nem os animais, embora sejam tão parecidos conosco.   

O estudo das cidades como organismos vivos sujeitos às regras da vida e da evolução remonta pelo menos à segunda metade do século XIX. O espírito do tempo (zeitgeist), dominado pela teoria evolutiva (Darwin), fornece uma nova chave de leitura para toda a realidade. O arquiteto e urbanista José Luís Sert, em 1942, declarou que As cidades (...) nascem, desenvolvem-se e morrem. (...) Em seu sentido acadêmico e tradicional, o planejamento urbano se tornou obsoleto. Ele deve ser substituído pela biologia urbana. Essa tese parece interessante, mas na prática se mostra insuficiente – porque os agrupamentos humanos (e suas relações sociais) se adaptam de forma autônoma e avessa ao planejamento de arquitetos e urbanistas. Se a metáfora biológica valer, a expansão urbana equivale a um grupo de células anômalas e que tanto pode constituir um reforço de defesa ao corpo, assim como uma forma de metástase mortal.  

Diante desse cenário, inúmeros teóricos contribuíram para analisar os elementos que constituem os agrupamentos humanos nas cidades e, simultaneamente, criaram um vazio populacional nas áreas rurais. Nesse processo, a eliminação do mundo vegetal estabelece um distanciamento dos indivíduos com a natureza. Stefano Mancuso, na contracorrente, cita a revolução promovida por Jaime Lerner na área central de Curitiba. Ao fechar várias ruas, excluir o tráfego de veículos e plantar árvores, ele revitalizou a região, ampliou o uso do transporte coletivo, incentivou o comércio e criou uma relação de afeto entre a cidade e a natureza.

Para instaurar essa “revolução” foi necessário coragem e persistência. No primeiro instante, foram fortes as reações contrárias – que quase destruíram a iniciativa. Depois que a fúria diminuiu foi possível perceber as vantagens da iniciativa. No entanto, um exemplo de sucesso não significa que será seguido por outras ações similares. Inúmeros interesses imediatistas costumam cercear projetos que não estão conectados com a máquina capitalista.

De qualquer forma, Mancuso, otimista, propõe um projeto urbanístico que amplie a vida vegetal no contexto humano. Temos que agir, como Lerner fez em Curitiba de um dia para o outro. E resistir até que os benefícios se tornem claros mesmo para aqueles com a cabeça e o coração mais duros. Vamos transformar nossas ruas em ruas com árvores sem esperar que todas as outras peças do quebra-cabeças sejam encaixadas. Confio na auto-organização da nossa espécie. Se uma rua está fechada para o tráfego, alternativas mais eficientes serão encontradas. As administrações não precisam resolver tudo até o mais ínfimo pormenor. A principal função delas hoje é tornar as cidades resistentes ao aquecimento global, e cobri-las com árvores é uma das poucas coisas sábias que podem ser feitas.     

 

Stefano Mancuso


Alguns dos livros de Stefano Mancuso foram publicados no Brasil: Revolução das plantas (Editora Ubu, 2019), A planta do mundo (Editora Ubu, 2021), A incrível viagem das plantas (Editora Ubu, 2021), Nação das plantas (Editora Ubu, 2024), Fitópolis (Editora Ubu, 2026).


segunda-feira, 2 de março de 2026

O ROSTO DA MORTE

 


– Até o próximo ano!

– Não garanto!

– Você disse isso no ano passado!

– Continuo não garantindo!

 

No início da semana passada precisei provar que estou vivo. Ou seja, fui até o Instituto de Previdência e, hallellujah, foi possível garantir que o salário continuará ajudando a pagar os intermináveis boletos mensais. O diálogo acima foi travado (tramado?) com a funcionária que me atendeu e, de uma forma ou de outra, acena para o iniludível, como diria Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (1886-1968).

Que ninguém entenda mal essa declaração, não tenho intenção de abandonar a vida – neste ou nos próximos anos. Muito pelo contrário! Mas, como diria Michel Eyquem, Seigneur de Montaigne (1533-1592), citando Marcus Tullius Cicero (106-43 a. C.), filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte.

Então, vez ou outra, o tema faz uns passeios pela minha existência (principalmente nos momentos em que alguns parentes ou conhecidos deixam de existir). Entendo que essas questões são parte do que nos cabe enquanto estamos vivos: arrastar uma fila interminável de ausências – e que, em alguns momentos, se mostram mais como perdas do que como lembranças. Simultaneamente, aparece o medo – não o da morte, que é inevitável – mas o das coisas que vamos precisar deixar para trás. Os indivíduos são escravos de suas paixões, de suas propriedades, de suas tolices.

Para se preparar para a morte o desapego se mostra necessário – mais do que deixar testamento ou qualquer tipo de herança. É o que ensina Montaigne, quando diz desejar (...) que se prolonguem as atividades da vida, tanto quanto possível; e que a morte me encontre plantando minhas couves, mas despreocupado com ela e ainda mais com minha horta inacabada.

Não me parece exagerado pensar desta forma. O provisório constrói o conhecimento e saber disso constitui a sabedoria. Na visão de Montaigne, É preciso preparar-se para ela mais cedo, (...) pois Se a morte fosse um inimigo que se pode evitar, eu aconselharia empregar as armas da covardia: mas já que não se pode, já que ela vos agarra, tanto ao fugitivo e ao poltrão como ao homem de honra (...) tomemos um caminho totalmente oposto ao comum. Tiremos-lhe a estranheza, frequentemo-la, acostumemo-nos com ela. E, principalmente, vamos construí-la para (na hora de dar o último passo) que possamos ir embora satisfeitos com a vida. Na visão do filósofo, Feliz a morte que não deixa tempo para os aprestos [da] viagem.



No filme O Sétimo Selo (Dir. Ingmar Bergman, 1957), o protagonista joga uma partida de xadrez com a Indesejável das gentes (Manuel Bandeira, outra vez) – mas esse momento não passa de um paliativo, de um atraso para que a natureza siga o seu curso. Em sentido oposto, um velho conto árabe diz que, mesmo quando alguém procura escapar do destino, todos temos um encontro com a morte em Samarcanda. Na mitologia grega, a tarefa está sob responsabilidade das Moiras (Cloto, Láquesis e Átropos), que, em determinado momento, cortam o fio da vida – permitindo que Caronte, o barqueiro, possa levar os mortos pelo rio Estige até o Hades.  

Mesmo se fosse possível impedir o fim, quem estaria preparado para os suplícios que acompanham o pacto faustiano? A pedra filosofal não produz a imortalidade, mas sim o suplício infinito. A imagem de Prometeu, acorrentado em uma rocha, o fígado sendo devorado eternamente por uma águia, não parece ser muito agradável.

Em fevereiro do próximo ano espero fazer outra prova de vida – mas continuarei sem as amarras das promessas vãs.  


Michel de Eyquem, Seigneur de Montaigne