Não gostei da adaptação cinematográfica de Odisseia (Dir. Christopher Nolan, 2026). São vários os motivos. Desde os atores escolhidos até a montagem do que parece ser um filme de aventuras – que daqui a uns três ou quatro anos será exibido na Sessão da Tarde (ou equivalente). Homero merecia mais. Sempre mereceu. Mas, para horror da literatura e do cinema, Hollywood insiste na tentativa de destruir os dois poemas do poeta grego. Basta lembrar Tróia (Dir. Wolfgang Petersen, 2004), a versão de Ilíada, que transformou Brad Pitt em um Aquiles caricato. Nesse sentido, até o chato romance A canção de Aquiles, de Madeline Miller (Editora Planeta, 2021) consegue captar a personalidade do herói com mais fidelidade.
Sem esquecer que a literatura e o cinema transitam por linguagens diferentes – muitas vezes, incompatíveis –, a versão proposta por Christopher Nolan tentou unir o mítico com o moderno. Não funciona nem como epopeia clássica, nem como drama psicológico. Odisseu (Matt Damon) tendo crises de culpa por ter participado da guerra contra Ílion não é uma imagem verossímil. Quem leu o texto homérico sabe que a sua (dele) fama está associada com a elaboração de trapaças (cavalo de Tróia, cera no ouvido dos marinheiros, se misturar com as ovelhas para escapar do ciclope, usar roupas de mendigo para enganar os pretendentes ao trono de Ítaca). A cada ardil, maior o seu patrimônio simbólico entre os aqueus. Quem, em uma sociedade de guerreiros, abre mão dessa vantagem? Nem comendo 100 quilos de flor de lótus isso se mostra possível.
Anne Hathaway interpreta uma Penélope anêmica, sem graça, muito diferente da personagem retratada ficcionalmente por Margaret Atwood em A Odisseia de Penelope (Editora Companhia das Letras, 2005). No filme, tecer a mortalha do sogro, Laertes, não tem muita importância; no máximo significa um trabalho feminino e que não interfere no mundo masculino. O exercício de retardar uma decisão sobre o futuro do reino de Ítaca quase passa despercebido – inclusive por que o filme não está conectado com o tempo cronológico. Os dez anos que separam o fim da guerra com a volta de Odisseu estão muito mal explicados.
Tom Holland (com aquele olhar de Homem-Aranha no filme errado) não convence como Telêmaco. Falta-lhe physique du rôle. Falta-lhe energia para mostrar (...) a impossibilidade de separar o movimento de herdar – a herança é um movimento singular e não uma aquisição que acontece por direito – do reconhecimento da própria condição de filho, como explica Massimo Recalcati em O complexo de Telêmaco (Editora Âyiné, 2022).
Centralizar as intrigas palacianas em Antinous (Robert Pattinson, reconhecido canastrão), um covarde que não se incomoda em usar uma serie de baixarias para obter vantagem, ofusca os demais pretendentes ao casamento com a rainha.
A luta em que Odisseu revela a sua verdadeira identidade e recupera o trono (matando todos os rivais) em nada difere de qualquer solução para os desfechos dos filmes da Marvel ou da DC Comics. As setas disparadas por Odisseu parecem nunca acabar e, fiel ao estereotipo do herói invencível, cumpre a missão com agilidade e eficiência (sem deixar que se perceba que ele deve ter cerca de 50 anos). Em síntese, falta criatividade, sobra mesmice coreográfica. E está muito distante da descrição que Homero fornece à cena (Canto XXII).
Para não dizer que não falei de flores, Zendaya (Atenas) e Elliot Page (Sinon) são os pontos altos do filme. Lupita Nyong’o (Helena/Clitemnesta) também se apresenta como uma interpretação de qualidade.
Para
uma melhor compreensão das contradições e acertos que existem entre o poema e o
filme, convém consultar o texto de Odisseia. No Brasil, há duas boas edições:
Penguin/Companhia das Letras, 2011 (tradução de Frederico Lourenço) e Editora
34, 2014 (tradução de Trajano Vieira). Como expansão do texto original, cabe
consultar O mundo de Homero, de Pierre Vidal-Naquet (Companhia das
Letras, 2002), Ilíada e Odisseia – uma biografia, de Alberto Manguel (Jorge
Zahar Editor, 2008), Questões homéricas, de Gregory Nagy (Editora
Perspectiva, 2021), A Odisseia de Homero – guia de leitura, de Giuliana
Ragusa (Editora Mnema, 2025) e os romances Os cantos perdidos da Odisseia,
de Zachary Mason (Editora Companhia das Letras, 2011) e Ítaca, de Claire
North (Editora Excelsior, 2023).








