São muitos os livros sobre a história da música brasileira e seus protagonistas. No entanto, eles apresentam incontáveis lacunas e omissões. Faltam esclarecimentos sobre alguns episódios, sobram muitas versões estranhas à verdade (seja lá o que isso significa). Helder Aragão, conhecido como DJ Dolores, não se esquivou em contar um pouco sobre a sua participação nessa sinfonia urbana que foi o movimento Mangue Beat.
Compôs uma série de crônicas memorialistas sobre o amor que devota à capital de Pernambuco e à música. Unindo humor, poesia, canções e descrições geográficas (quem conhece os bairros recifenses Graças, Rio Doce, Linha de Tiro, Planeta dos Macacos, Entra a Pulso, Roda de Fogo, entre outros?), mergulha no passado e retorna à tona com mil relatos, depoimentos pessoais sobre uma época povoada por heróis e bandidos que fizeram da música o ser e o estar no mundo, fato que lhe permite dizer, entre outras coisas, Não tenho nenhuma opinião sobre Chico Buarque, tenho lembranças! O tom suave com que ele conversa com o leitor, tendo o Recife como pano de fundo, encontra frases e comentários como O amor vai te foder um dia!, construção filosófica que oscila entre a sístole a diástole, entre a planície e a montanha, entre o rio e o oceano – ao mesmo tempo que produz um curto circuito nas ilusões.
É na Rua da Aurora (olhando para a Ponte Princesa Isabel, sobre o Rio Capiberibe, e para a Rua do Sol), no Edifício Califórnia, na Avenida Caxangá, ou no Parque Treze de Maio que as histórias da música brasileira e do Recife, a maior cidade pequena do mundo”, se uniram em folia sem igual. Nada mais foi como antes. Infelizmente, a vida nem sempre se resume às festas ou ao desapego de certos valores. A existência também tem os seus momentos estranhos. No Recife não existe melhor lugar para exercer esse desaguar das dores que no trecho que compreende a Praia do Pína até o final de Boa Viagem, (...) [ali pode] chora-se compulsivamente, sem pudores. O vento secará as lágrimas, os espasmos do rosto serão confundidos com o incômodo causado pela claridade solar e, se tomar o resto do corpo em ondas de convulsão incontrolável, certamente pensarão que se trata de um novo exercício aeróbico. Chore o que tiver que chorar, preferencialmente sem sapatos, sentindo a areia molhada prender seus pés em pequenos abismos.
As
crônicas mais significativas do livro citam Chico Science, Naná Vasconcelos, Fred
zero quatro e outros tantos personagens que estão envoltos em névoas de
cigarrinho de artista, em grandes teores alcoólicos ou em viagens para
universos paralelos. No liquidificador cultural, depois que a literatura, o
cinema e as histórias em quadrinhos se transformam em outra coisa, talvez mais
bonitas, talvez mais doloridas, sempre há lugar para o Aviso: cuidado para
não chorar dores que não lhe pertencem. Tarefa difícil, mas, se as lágrimas
forem incontroláveis, cabe procurar por “outros” lugares para chorar: Abu
Dhabi, Moscou, Macau, Derry (Irlanda do Norte), Havana, Skopje, Guadalajara e,
naturalmente, Propriá, no Sergipe. Sem esquecer a Finlândia e a Califórnia, que
o mundo encontra complemento em sonhos e sons, sem se importar com o lugar onde
o escorrer das lágrimas alimenta o coração de quem acredita na música.
TRECHO ESCOLHIDO
O
primeiro passo para fazer parte da vida artística recifense foi inscrever uns
trabalhos no Salão de Artes Plásticas do Museu do Estado. Quando o período de
exibição acabou, fui recolher minhas obras e, já saindo, dei de cara com o
velho Lula, Gonzagão, Luiz Gonzaga, O Rei do Baião, o Lua, para os íntimos, meu
Elvis particular mesmo antes de eu saber da existência de Elvis.
Amar
as canções de Luiz Gonzaga é uma prerrogativa nordestina. Sua obra atravessou
gerações, entre o avanço estético no diálogo com a tecnologia de estúdio da
época e o puro conservadorismo conseguia misturar os sentimentos mais ambíguos,
da malandragem explícita à religiosidade plena de sincretismo. Um grande ícone:
contraditório, rico e, principalmente, humano, verdadeiro em suas convicções.
Não me contive e soltei um “Gonzagão, sou seu fã” e ele deu uns passos para
trás, boquiaberto com aquela visão do inferno, chocado com a degradação da
juventude, suponho. Quem era aquele trombadinhacheiracola que o
abordava? Lembro que me senti desapontado, mas igualmente feliz pela afirmação
da minha rebeldia juvenil.
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| Helder Aragão, o DJ Dolores |








