Páginas

segunda-feira, 11 de maio de 2026

O ANO DO COMETA

 


Quatro eventos foram expressivos em 1986. O acidente da nave espacial Challenger (28 de janeiro), a passagem do Cometa Halley (9 de fevereiro), o desastre na Usina Nuclear de Chernobyl (26 de abril) e a Copa do Mundo de Futebol no México (de 31 de maio a 29 de junho). Além da distensão política brasileira (lenta, gradual e segura), todos esses acontecimentos estão registrados – alguns explicitamente, outros alusivamente – em O Ano do Cometa, romance escrito por Maria Brant (Editora Fósforo, 2026).

O núcleo da narrativa envolve três meninas (Íris, Rosa e Violeta), todas com 11 ou 12 anos. Vários meninos orbitam no entorno (Chiquinho, Noah, Emiliano, PP), figurantes em uma história que parece não lhes pertencer.

Seguindo as regras do romance de formação (bildungsroman), O Ano do Cometa se concentra na passagem emocional, moral e social entre a infância e a idade adulta, entre a ingenuidade e o trauma derivado da compreensão das ações humanas. Ninguém escapa ileso desse período de transição.

Alguns anos antes, durante a ditadura militar, Pedro (Peu) Blum foi preso, confundido com o irmão gêmeo. Seguiu-se o de sempre: tortura, mutilação, destruição psicológica. Carlos conseguiu fugir. Foi para a França, depois morou algum tempo em Estados Unidos. Só voltou para o Brasil depois da morte de Pedro.

Grande parte da narrativa está concentrada no momento em que a força do luto se manifesta como uma ferida aberta – e que talvez nunca se feche. As crianças estão imersas em um contexto onde os adultos fumam, dirigem fuscas, ouvem música (Caetano, Mercedes Sosa, The Police, Beatles, The Cramberries, Bee Gees, etc.), assistem o Jornal Nacional e o Globo Repórter, compram na Mappin, acolhem imigrantes, acreditam em mensagens místicas, levam os filhos para a praia e procuram esquecer o passado. Talvez esse seja o problema maior: as meninas percebem que algumas coisas estão distantes das aparências, mas não conseguem descobrir o quê. E também não obtém as necessárias informações. Embora pistas não faltem, espalhadas pelo meio do caminho – mas nenhuma das meninas possui a chave da porta do esclarecimento. Só mais tarde, muito mais tarde, conseguirão compreender o drama que estava se desenrolando ao redor.    

Dividido em doze partes (uma para cada mês do ano), com várias subdivisões, o romance está estruturado na voz de dois narradores. Enquanto o primeiro se mostra onisciente, neutro, modelo de quem constrói o relato, misturando os eventos, explicando situações, criando expectativas; o segundo só aparece no final de cada seção (texto em itálico) – é uma voz adulta, que revê o passado com uma perspectiva particular, consequência de ter ficado à margem dos acontecimentos, ou seja, distante do turbilhão emocional.

Violeta, a segunda narradora, conviveu com Pedro, quando ele foi hospede de Luís e Patrícia (seus pais), que eram amigos de Carlos e Teresa (pais de Rosa e Chiquinho) e Cecília (mãe de Íris). São essas lembranças que lhe permitem acrescentar elementos a um relato que está repleto de elipses, de insinuações, de referências culturais (eu moro naquela casa muito engraçada, por exemplo).

Realista, como compete a um retrato de época, O ano do cometa mostra a vida como um momento fugaz – um fenômeno cósmico que passa rápido e poucos conseguem ver.


Maria Abramo Caldeira Brant


sábado, 2 de maio de 2026

O ÚLTIMO MOVIMENTO

 


Entre as múltiplas lendas que envolvem a música clássica, destaca-se a maldição da nona sinfonia – alguns compositores morreram durante ou após a conclusão da nona sinfonia. Não faltam exemplos: Ludwig van Beethoven (1770-1827), Franz Peter Schubert (1797-1828), Josef Anton Bruckner (1824-1896), Antonín Leopold Dvořák (1841-1904), Ralph Vaughan Williams (1872-1958). Não importa se essas mortes foram apenas coincidências de gosto duvidoso, o nome de Gustav Mahler (1860-1911) também está incluído na lista.    

1911. Mahler está sentado no convés do navio Amerika, que o levará de volta para a Europa. Não é um homem feliz. Está doente (Nunca se sentiu saudável. Sofre crises agudas de enxaqueca). A morte da filha mais velha (Maria) e a perda do amor da esposa são cargas muito pesadas para quem sente que o fim da vida está próximo.

Em O último movimento, de Robert Seethaler (Editora Zain, 2026. Tradução de Karina Jannini), Mahler percebe que as inúmeras glórias conquistadas como um dos grandes músicos de sua época perderam o valor: durante dez anos foi regente – muito rigoroso – da Ópera da Corte, em Viena.

Durante a viagem, a única pessoa que interage com ele é o ajudante de bordo (inominado), quase um menino, e que serve de contraponto para que a carpintaria do texto se sustente. Toda vez que o rapaz aparece no texto, há uma quebra no pensamento de Mahler – uma pausa para avaliar os acontecimentos, para fazer o balanço da vida que abraçou a música com paixão e que, de certa forma, esqueceu que tinha esposa e duas filhas.

Tudo desmorona no momento (talvez o mais crucial) em que Mahler resolve colocar as cartas na mesa e perguntar para Alma Margaretha Maria Schindler (nome de solteira, 1879-1964) qual é o papel do arquiteto Walter Gropius (1883-1969) na história conjugal deles. Não é mais possível esconder o que todos sabem faz algum tempo. Alma queria um marido e recebeu um gênio musical – e isso estabelece um dos motivos que a fazem procurar por algo que não estava disponível em casa. Mahler se humilha diante da situação. Não é o suficiente. Decidem manter um casamento de fachada. Quatro anos depois da morte do músico, Alma casou com Gropius.

Saboreando a infelicidade, envolto em mantas de lã, sentindo a força do vento no rosto, Mahler espera ver um espetáculo raro em alto-mar. O mar continuava sereno. Gostaria de ver os peixes. Tinham lhe falado de peixes com asas prateadas que rompiam a superfície e velejavam centenas de metros pelo ar. Às vezes, eram capturados por gaivotas e devorados ainda no voo. Mahler não consegue ver os peixes e as gaivotas – também não percebe a metáfora estranha que unifica a beleza e a morte.

Por um desses descompassos da arte, o cinema se uniu com a música de Gustav Mahler. Jorge Coli, no posfácio de O último movimento, lembra que o Adagietto, da Sinfonia nº 5, faz parte da trilha sonora de Morte em Veneza (Dir. Luchino Visconti, 1971), baseado no romance de Thomas Mann: A música, em Visconti, invade a imagem, torna-se comentário, juízo, destino. O Adagietto conduz o filme. Na direção oposta, o livro de Robert Seethaler celebra a contenção e o imobilismo. A música mal aflora, como lembrança corporal, fragmentária, quase fisiológica. Não há fascinação nem erotização da decadência. O corpo doente não é símbolo, é apenas um corpo que falha.

Um corpo que se afasta da vida e de todos aqueles por quem um dia ele teve algum tipo de afeto.

 

Gustav Mahler (1860-1911)

 CODA

Em um porto qualquer, o rapaz encontra, próximo da lareira de um café, uma pilha de jornais. Na primeira página do Brooklyn Citizen está estampada a foto de Gustav Mahler. Era o homem que tomava chá no convés do Amérika. Ele pede para o dono do café traduzir o texto, publicado cinco meses antes.

“O homem morreu”, afirmou.

“Foi o que imaginei”, disse o rapaz, assentindo.

“Seu coração não aguentou.”

“Sim”, disse o rapaz em voz baixa.

“Você o conhecia?”, perguntou o dono do café.

“Não”, respondeu o rapaz. “Só um pouquinho”.

O homem olhou para ele com desconfiança, depois voltou a olhar para o jornal.

“O enterro foi no dia 22 de maio. Apareceu uma porção de gente. Muitas personalidades. Além da esposa e uma filha. Choveu, e o vento soprou as flores das árvores.

“Deve ter sido bonito.”

“Aqui está escrito que ele fazia música. Era um músico de verdade, o seu amigo.”

“Era diretor de orquestra.”

“Não é o que está dizendo aqui.”

“Mas era”, afirmou o rapaz com firmeza.

“Pode ser”, comentou o homem. “Mas agora está morto. Está junto do Senhor ou em algum outro lugar. Não há o que fazer”.

“Sim. Não há o que fazer”.


Robert Seethaler


sexta-feira, 1 de maio de 2026

FICÇÃO CIENTÍFICA CAPITALISTA

 


O planeta Marte está mais próximo do que se imagina – dizem aqueles que acreditam na colonização espacial. Esse pensamento tem propósitos bastante simples: em primeiro lugar, visualiza a exploração mineral (ferro, manganês, zinco, alumínio, magnésio, titânio, cálcio, etc); em um segundo momento, depois que a fantasia que acompanha o turismo espacial e o extrativismo for superada, imaginam que a Terra, em algum momento, se tornará inabitável (mudanças climáticas, escassez de recursos, superpopulação, guerras). Então, para o bem ou para o mal, existe uma certa urgência para Ocuppy Mars (mantra estampado em uma camiseta usada por Elon Musk).

A tecnologia (engenharia, computação) precisa avançar para que esse processo de terraformação aconteça. Empresas como SpaceX, Monjave Aerospace Ventures, Virgin Galactic, Blue Origin, United Launch Alliance, OrionSpan, Aerojet Rocketdyne, Northrop Grumman, Maxar, Rocket Lab, entre outras, não estão economizando esforços para desenvolver projetos capazes de transformar o sonho em realidade. No entanto, há um pequeno empecilho que pode atrapalhar ou atrasar a façanha: bilhões de dólares. Sem o emprego de muito dinheiro, o processo pode sofrer atrasos consideráveis. Mas, se isso algum dia for superado, então o caminho estará aberto para que algumas pessoas possam infectar o planeta vermelho com o germe da destruição. Os humanos adoram devastar os locais onde vivem.

Nenhuma novidade. As viagens espaciais descritas nas distopias literárias de ficção científica não economizam nos relatos sobre colonialismo, militarismo, genocídio, escravagismo, além dos outros elementos que fornecem substância ao fascismo (um exemplo canônico: Tropas Estelares, de Robert Anson Heinlein, 1907-1988). Momentaneamente, para os que defendem o ideal de conquista espacial, essas questões não existem ou não fazem parte do discurso oficial. Tampouco visualizam cenários em que será possível encontrar outra civilização ou acontecer algum tipo de contaminação por algum vírus (seja humano, seja alienígena). O suporte que alimenta a ocupação dos territórios estabelece que o direito de propriedade deve ser o dos humanos que lá chegarem primeiro.  

Uma análise realista constata que (...) justamente em uma época em que o capitalismo fetichiza seus produtos e suas narrativas mais do que nunca mediante a estetização tecnológica, a ficção científica adquire na contemporaneidade uma centralidade inesperada, que a coloca ou como uma celebração idiota, enfeite e colaboração consciente com essas narrativas, ou como politização tecnológica da arte, uma crítica da tecnologia a serviço da extração capitalista, do terrorismo econômico e da violência contra corpos e territórios.   

Em paralelo às expectativas de expansão colonial surgem novas áreas de pesquisas. Uma das mais significativas se refere ao evitar o envelhecimento. O laboratório resTORbio anunciou o início da fase de testes de um medicamento que, quando consumido diariamente, manterá as pessoas jovens e saudáveis até 150 anos. Mais do que conquistar e povoar a Lua ou Marte, os viajantes querem aproveitar a aventura pelo máximo de tempo que for possível – mesmo que isso signifique driblar as regras da mortalidade.

De qualquer forma, as viagens espaciais precisam superar muitos fatores adversos. Um deles se refere às distâncias. Se a viagem até a Lua pode ser feita em apenas 3 ou 4 dias (384.400 km), ir até Marte pode levar entre 6 e 9 meses, porque a Terra se move mais rápido em torno do Sol e os dois planetas seguem trajetórias diferentes (a distância entre eles pode variar de 54,6 milhões até 401 milhões de km). De qualquer forma, isso só será possível quando as naves espaciais forem mais rápidas do que são atualmente e o ponto de contato ocorrer no momento em que houver proximidade máxima entre os planetas (cerca de 225 milhões de km). Por enquanto, essas questões ainda não possuem solução.

Ficção Científica Capitalista, de Michel Nieva (Editora Ubu, 2025. Tradução: Juliana Pavão), examina de forma perturbadora a corrida espacial estadunidense – o desmantelamento da União Soviética eliminou o principal concorrente e os outros países interessados no tema ainda estão bastante atrasados. De certa forma, o livro pretende ser uma crítica política à estetização da acumulação capitalista por meio da tecnologia. Também pode ser lido como uma metáfora das guerras de conquista da Idade Média ou, contemporaneamente, do empreendedorismo predatório.

 

TRECHO ESCOLHIDO

No entanto, o maior paradoxo que essas técnicas de geoengenharia solar carregam é que elas não reduzem a violência contra a Natureza, que desencadeou as mudanças climáticas. Pelo contrário: elas redobram sua ofensiva bélica. Estamos falando de exércitos de aviões, foguetes e embarcações que, apesar de sua intenção verde ou filantrópica, não fariam outra coisa senão bombardear, lançar mísseis, disparar, pulverizar gases, atacar. Técnicas arriscadas e de caráter militar, que parecem exigir a coragem de um macho intrépido, um super-herói de cinema do porte de Schwarzenegger em O predador, ou dos bilionários do espaço com seus chapéus de cowboy, suas aeronaves fálicas e seus champanhes ejaculatórios. Porque, mais uma vez, serão os machos do Vale do Silício, com seus foguetes, espingardas e mísseis, que nos salvarão do desastre climático. (p. 68-69)  



Michel Nieva


sexta-feira, 17 de abril de 2026

A BRIGA DOS DOIS IVANS

 


Enganado está quem acredita que os escritores russos produziram algumas das narrativas mais depressivas da história literária. Basta ler qualquer uma das histórias que integram a Antologia do humor russo (1832-2014), organizada por Arlete Cavaliere (Editora 34, 2018), para entender que é possível escrever com leveza e, paralelamente, extrair da opressão política a sátira, a ironia e a paródia. 

Nikolai Vasilievich Gogol (1809-1852) escreveu um texto que não consta da antologia, mas que poderia estar lá, A briga dos dois Ivans (Editora Grua, 2014. Tradução de Graziela Schneider).

Amigos inseparáveis (Aonde um ia o outro se arrastava atrás), Ivan Ivanovitch Pererepiênko e Ivan Nikíforovitch Dovgotchkhún, moradores de Mírgorod (uma vila ucraniana), em determinado dia, por motivo banal, brigaram. Tornaram-se inimigos mortais – e o ápice dessa querela está identificado: cada um dos desafetos ingressou com uma representação judicial contra o adversário. As duas petições, seguindo a tradição que acolhe aos que dispõem de propriedades e poder, resultaram depositadas em arquivo e lá seguiram até o fim dos tempos – ninguém, exceto os contendores, tinha interesse em resolver a questão.

Depois que acionaram a engrenagem do ódio e do patético, os dois Ivan não mais conseguiram conter o estrago. Os habitantes do vilarejo tentaram forçar um armistício entre os contendores – e isso quase foi possível, mas... Ivan Nikíforovitch, ao tentar esclarecer a situação, pronunciou em público algo que deveria continuar na esfera do privado. Assim como não há possibilidade de colar todos os pedaços de uma xícara que quebrou, a amizade depende de respeito e de cuidados muito especiais. Depois disso não houve mais conserto, a desavença encontrou residência na eternidade.            

Provavelmente as melhores partes da novela são as descrições dos personagens (existem dois Ivan Ivanovitch – o segundo tem um problema ocular) e de algumas situações peculiares. Mas, obviamente, a literatura de Nikolai Vasilievich Gogol não tem a pretensão de fazer um estudo sociológico e/ou político – no máximo, retrata uma situação hilária, onde se destacam a inércia e a incompetência dos órgãos de controle estatal, os privilégios que acompanham algumas classes sociais e a futilidade provincial.

Enfim, trata-se de um texto divertido sobre um tema complicado: o rompimento da amizade.

 

TRECHO ESCOLHIDO

Não havia nada a fazer. Ambas as petições haviam sido recebidas, e o caso estava pronto para assumir uma posição muito importante, quando uma circunstância imprevista lhe conferiu ainda maior significância. Quando o juiz saiu da repartição, acompanhado pelo assistente do juiz e pelo secretário, e os escriturários enfiaram em um saco as aves, ovos, nacos de pão, pastéis, salgados e outras baboseiras trazidas pelos requerentes, naquele momento, uma porca parda entrou correndo na sala e pegou, para a surpresa geral dos presentes, não um pastel ou uma casca de pão, mas a petição de Ivan Nikíforovitch, que estava em uma extremidade da mesa, com as folhas para fora da borda. Arrebatando o papel, a porca parda saiu correndo, tão veloz, que nenhum dos funcionários administrativos conseguiu alcançá-la, apesar das réguas e tinteiros atirados.

Este acontecimento extraordinário causou um terrível alvoroço, porque ainda não tinha sido feita uma cópia dela. O juiz, seu secretário e o assistente de juiz ficaram muito tempo discutindo sobre essa circunstância inaudita.     


Nikolai Vasilievich Gogol (1809-1852)


quarta-feira, 15 de abril de 2026

A NOIVA DO TRADUTOR

 


A noiva do tradutor, de João Reis (Editora DBA, 2020), é uma espécie de tratado sobre o mau humor. O narrador (inominado), uma espécie de filósofo pessimista, não poupa nada e/ou ninguém. Qualquer pretexto gera imprecações, insultos, maldições, agravos, injúrias e ofensas: está um vento frio, desagradável, cheira-me a urina, a brisa traz as recordações que as pessoas deixam junto aos edifícios, nem a chuva limpa por completo esses vestígios (...) fecho bem a boca para não engolir os odores desta cidade, sim, é mesmo um monte de esterco, quem aqui fica muito tempo acaba por apodrecer, estamos vivos por fora porém mortos por dentro, completamente putrefactos, melhor seria se todos nos uníssemos e nos lançássemos ao rio, seríamos arrastados até ao mar, perder-nos-íamos no seu fundo, livraríamos o mundo de tamanhas aberrações (...)

A forma com que interpreta a humanidade não lhe permite cultivar qualquer estímulo ou alegria – tudo lhe parece estar corrompido ou em infecta decomposição. O enfado e repugnância aumentam no convívio com ineptos como Lucrécia, Valido, Szarowsky, Teodorico e Hermengarda. São personagens unidimensionais, sem atrativos, sem qualidades. E que ampliam o grotesco com suas iniquidades.

No esbravejar interminável contra tudo que o cerca, o tradutor sente falta apenas de uma pessoa: Helena – um ser etéreo, idealizado, que ele declara ter ido embora para o estrangeiro em um navio, ficou apenas a saudade, um lastro de histórias inconclusas que vão se distanciado a cada instante. De certa forma, a existência da noiva pode ser uma projeção do imaginário, um ato compensatório para um personagem que caminha na direção do abismo.     

A noiva do tradutor mimetiza a exaustão – momento em que o cansaço físico, emocional e/ou mental (isolados ou combinados) vai tragando lentamente as forças dos indivíduos. (...) a boca sabe-me a fel, ferro, sangue, (...) os pesadelos são terríveis, desaparecem, mas deixam para trás algo inconsciente, oculto, preferia esquecê-los por completo, sinto-me cansado, um peso no pescoço, estou tão triste (...). Apesar do mal-estar, existe um empuxo de resistência à inércia: a possibilidade de comprar uma casa e, logo em seguida, se casar. É por isso que vai consultar uma cartomante, Madame Rasmussen. Seguindo os traços de alienação da realidade, a vidente o faz acreditar que existe a possibilidade de redenção.  Obviamente, essa euforia desaparece rapidamente – como sói acontecer com as doses artificiais de endorfina.

Nesse cenário – lugar de morada da vertigem, da aversão e da ojeriza –, o narrador se transforma em equilibrista circense sem rede de proteção. A queda, inevitável, vai sendo postergada pelo destino e isso o aborrece porque ele não espera da vida outra coisa senão o horror. Nem mesmo o oficio de tradutor parece ter sentido: uns romances populares, umas cartas comerciais, o pagamento sempre atrasado: Deambulo pela cidade, sei a morada de cor por tantas vezes lhe exigir o meu dinheiro, já lá não vou há alguns meses, dava o valor por perdido, é tudo uma grande pouca-vergonha neste país, não há civilismo, honestidade, nada, é tudo uma podridão. 

Por fim, há o caso do chapéu. Deixou-o no transporte coletivo (no “elétrico”) e isso se torna motivo para constante remoer do absurdo que o cerca. Parte da narrativa está concentrada nesse episódio: (...) esqueci-me do chapéu, será que o consigo de volta, em que cabeça estará agora enfiado, possivelmente abunda em piolhos, carrapatos, essa gente não se lava, não há condições de higiene, só sinto o cheiro destas latas ambulantes que inundam as ruas, e um cheiro pestilento a urina, alcatrão e porcaria, esta cidade é uma lixeira, um antro de conspurcação, espero que os estrangeiros bebam o suficiente para não notarem esse odor horrível, sentem-no mal saem dos navios, não é um cheiro a lodo, mas a humanidade concentrada, pessoas a mais, a chuva limpa-o em parte, contudo, há um fedor eterno proveniente das caves, dos esgotos, das canalizações, dos caixotes do lixo, as pessoas são as que mais fedem, (...).

No enredo de A noiva do tradutor quase nada acontece. Mas, ao contar pouco, muito revela sobre a ausência de afeto, o pânico que acompanham a solidão e o sentimento de estar em desacordo com o ordenamento de um mundo caótico e hostil. Esse estranhamento pode ser interpretado como tragédia ou comédia – de certa forma não há diferença entre uma coisa e outra, tudo se mostra patético.


João Reis