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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

SAUDADES DO QUE NUNCA FOMOS

 



               
Em futebol, o pior cego só vê a bola    
(Nelson Rodrigues) 


Escrever sobre futebol implica em colocar a emoção antes do racional. E isso deve ser entendido na medida em que a linguagem (repleta de truques semânticos) está constituída por interstícios – o não dito, quando substitui o que deveria ser expresso, alimenta a fantasia de que ganhar uma ou várias partidas implica em afastar o sofrimento.    

Fabio Luiz Barbosa dos Santos, envolto em anemoia (uma espécie de nostalgia por uma época, lugar ou evento não vivenciado ou conhecido), fez uma análise dos motivos que resultaram no futebol anêmico brasileiro em Saudades do que nunca fomos (Editora Elefante, 2026). Imerso no romantismo (que apaga a voz do real), o livro corre pelo gramado literário (esbanjando vocabulário progressista) e com muita vontade de fazer gol, mas... em diversos momentos mostra que o impedimento se tornou a regra geral. De qualquer forma, como lamenta o autor, nossa contribuição civilizatória estava no passado. E o sentimento de perda (que soma o Maracanazo com o sete a um) parece não ter fim.

A imagem refletida no espelho das ilusões mostra o declínio do talento sul-americano e a ascensão do futebol europeu, que combinado com o canto da sereia monetária, vai transformando o ludopédio em commodity (produto de caráter extrativista). Ou seja, valioso comercialmente no mercado internacional, o esporte se mostra incapaz de produzir benefícios internamente. Os clubes periféricos deixaram de ser movidos pela construção de times para se converterem em vitrines de jogadores exportáveis para os mercados centrais. A formação dos atletas passou a ser tratada como investimento – ou seja, um objeto que, potencialmente, deve se transformar em lucro: subordinados à lógica mercantil do futebol contemporâneo, os clubes sul-americanos operam para negociar jogadores, preferencialmente para o exterior, em lugar de negociar jogadores para construir uma equipe. Em outras palavras, o time deixou de ser a finalidade e tornou-se um meio para o negócio. A razão econômica substituiu a razão esportiva.

Alguma coisa se quebrou no meio do caminho. E isso contribuiu para que fosse erguida uma barreira entre o país e a seleção. A globalização esvaziou a possibilidade de um horizonte nacional-desenvolvimentista, enquanto o neoliberalismo consagrou a concorrência como princípio organizador da vida social, produzindo uma sociabilidade autofágica, em que todos lutam contra todos. A consequência imediata dessa forma de raciocínio encontra na apropriação da camisa amarela da seleção para fins políticos o seu maior exemplo. A dicotomia “nós” e “eles” expõe a nação fraturada. E encontra no enterro de Edson Arantes do Nascimento (Pelé) um dos pontos críticos da situação: aquela perda não produziu um luto nacional. Nenhum campeão mundial foi prestar respeito ao Rei. As exceções foram Clodoaldo e Mauro Silva (que eram dirigentes esportivos). “Talvez as pessoas só vão em lugares onde elas ganham cachê”, arriscou o ex-jogador e comentarista Neto. A elegia ao passado deixou de existir, porque os valores pessoais estavam em transformação, e a comoção nacional teria que vir de outro lugar.

Mas, de qual lugar? À luz desse histórico, parece que o único caminho para recuperar a competividade brasileira é fazer com que os nossos europeus joguem melhor que os deles – algo como abandonar de vez a poesia em busca da consagração em prosa em língua estrangeira. Infelizmente essa estratégia aumenta o déficit a cada instante, inclusive porque a capacidade técnica foi substituída pelo entretenimento. O futebol foi driblado pelas finanças e transformado em reality show: a subsunção do futebol ao entretenimento mutila a sua riqueza semântica como esporte para reduzi-lo a mais uma commodity da indústria cultural, disponível nas prateleiras digitais. Instaura-se um paradoxo: de um lado, consome-se muito futebol, enquanto, ao mesmo tempo, o jogo em si importa cada vez menos.          

Em determinado momento, Fabio Luiz Barbosa dos Santos relaciona o declínio do futebol brasileiro com o processo de evangelização dos jogadores – que encontram no pensamento mágico uma justificativa para vitórias e derrotas. Deus entrou em campo e passou a jogar em todas posições. Nesse ritmo, a seleção (e incontáveis clubes) passou a acreditar no poder divino para resolver todos os problemas. Simultaneamente, ignora a existência do adversário – sombra sem identidade e que só está em campo para validar o resultado favorável. A frase do goleiro Taffarel, ao comentar o pênalti perdido por Roberto Baggio na Copa de 1994, é emblemática: Quem acredita em Deus nunca perderá para alguém que acredita em Buda.

Essa tese está sendo desmontada na medida em que o jogador “diferenciado”, que podia resolver a partida com um lance genial, deixou de existir. Aquele que era protegido pela divindade foi substituído pelos esquemas táticos – Deus decidiu que assim teria mais chances de controlar os acontecimentos.

O tempo em que as equipes brasileiras eram temidas ficou no passado. Sobraram apenas as ruínas. E os “cartolas” vitalícios – que, enquanto for possível, se beneficiam de uma estrutura de poder corrupta.


Fabio Luis Barbosa dos Santos


sexta-feira, 24 de julho de 2026

A ODISSEIA, VERSÃO CHRISTOPHER NOLAN





Não gostei da adaptação cinematográfica de Odisseia (Dir. Christopher Nolan, 2026). São vários os motivos. Desde os atores escolhidos até a montagem do que parece ser um filme de aventuras – que daqui a uns três ou quatro anos será exibido na Sessão da Tarde (ou equivalente). Homero merecia mais. Sempre mereceu. Mas, para horror da literatura e do cinema, Hollywood insiste na tentativa de destruir os dois poemas do poeta grego. Basta lembrar Tróia (Dir. Wolfgang Petersen, 2004), a versão de Ilíada, que transformou Brad Pitt em um Aquiles caricato. Nesse sentido, até o chato romance A canção de Aquiles, de Madeline Miller (Editora Planeta, 2021) consegue captar a personalidade do herói com mais fidelidade.

A sociedade grega antiga oscila entre o culto à beleza e a exploração sexual dos corpos. A diversidade afetiva entre os soldados é múltipla e variada (homo, bi, trans). Estranhamente, todos os personagens do filme parecem castrados ou ignorando o desejo. São apenas corpos destinados à morte. No mundo retratado por Chistopher Nolan, as intempéries climáticas e os combates bélicos impedem o gozo sexual.    

Sem esquecer que a literatura e o cinema transitam por linguagens diferentes – muitas vezes, incompatíveis –, a versão proposta por Christopher Nolan tentou unir o mítico com o moderno. Não funciona nem como epopeia clássica, nem como drama psicológico. Odisseu (Matt Damon) tendo crises de culpa por ter participado da guerra contra Ílion não é uma imagem verossímil. Quem leu o texto homérico sabe que a sua (dele) fama está associada com a elaboração de trapaças (cavalo de Tróia, cera no ouvido dos marinheiros, se misturar com as ovelhas para escapar do ciclope, usar roupas de mendigo para enganar os pretendentes ao trono de Ítaca). A cada ardil, maior o seu patrimônio simbólico entre os aqueus. Quem, em uma sociedade de guerreiros, abre mão dessa vantagem? Nem comendo 100 quilos de flor de lótus isso se mostra possível.

Anne Hathaway interpreta uma Penélope anêmica, sem graça, muito diferente da personagem retratada ficcionalmente por Margaret Atwood em A Odisseia de Penélope (Editora Companhia das Letras, 2005). No filme, tecer a mortalha do sogro, Laertes, não tem muita importância; no máximo significa um trabalho de mulher e que não interfere no mundo dos homens. O exercício de retardar uma decisão sobre o futuro do reino de Ítaca (um instante de resistência feminina) quase passa despercebido – inclusive por que o filme não está conectado com o tempo cronológico. Os dez anos que separam o fim da guerra com a volta de Odisseu estão muito mal explicados.

Tom Holland (com aquele olhar de Homem-Aranha no filme errado) não convence como Telêmaco. Falta-lhe physique du rôle. Falta-lhe energia para mostrar (...) a impossibilidade de separar o movimento de herdar – a herança é um movimento singular e não uma aquisição que acontece por direito – do reconhecimento da própria condição de filho, como explica Massimo Recalcati em O complexo de Telêmaco (Editora Âyiné, 2022). 

Centralizar as intrigas palacianas em Antinous (Robert Pattinson, reconhecido canastrão), um covarde que não se incomoda em usar uma serie de baixarias para obter vantagem, ofusca os demais pretendentes ao casamento com a rainha. E eles são muitos.

A luta em que Odisseu revela a sua verdadeira identidade e recupera o trono (matando todos os rivais) em nada difere de qualquer solução para os desfechos dos filmes da Marvel ou da DC Comics. As setas disparadas por Odisseu parecem nunca acabar e, fiel ao estereotipo do herói invencível, cumpre a missão com agilidade e eficiência (sem deixar que se perceba que ele deve ter cerca de 50 anos). Em síntese, falta criatividade, sobra mesmice coreográfica. E está muito distante da descrição que Homero fornece à cena (Canto XXII).

Para não dizer que não falei de flores, são os personagens menores Atenas (Zendaya), Sinon (Elliot Page) e Helena/Clitemnestra (Lupita Nyong’o) que mostram os pontos altos do filme.




Para uma melhor compreensão das contradições e acertos que existem entre o poema e o filme, convém consultar o texto de Odisseia. No Brasil, há duas boas edições: Penguin/Companhia das Letras, 2011 (tradução de Frederico Lourenço) e Editora 34, 2014 (tradução de Trajano Vieira). Como expansão do texto original, cabe consultar O mundo de Homero, de Pierre Vidal-Naquet (Companhia das Letras, 2002), Ilíada e Odisseia – uma biografia, de Alberto Manguel (Jorge Zahar Editor, 2008), Questões homéricas, de Gregory Nagy (Editora Perspectiva, 2021), A Odisseia de Homero – guia de leitura, de Giuliana Ragusa (Editora Mnema, 2025) e os romances Os cantos perdidos da Odisseia, de Zachary Mason (Editora Companhia das Letras, 2011) e Ítaca, de Claire North (Editora Excelsior, 2023).


terça-feira, 21 de julho de 2026

OS CINCO CAMINHOS PARA O PERDÃO

 


Do simples ao complexo – de forma quase imperceptível. Nas narrativas de Ursula Kroeber Le Guin (1929-2018), a ficção científica, por algum poder alquímico, multiplica a consciência social e a defesa de valores civilizatórios. O entretenimento se transforma em debate sobre colonialismo, feminismo, sexualidade, violência, poder, memória, etc.

A ficção científica, mimeses da sociedade terráquea, interligando o passado e o futuro, não almeja apresentar algum plano para modificar o presente, mas mostrar (através dos limites ficcionais) que o porvir pode ser diferente dos acontecimentos que ficaram para trás. Para que isso se torne possível, além das inovações tecnológicas e da ocupação militar de alguns espaços físicos na galáxia, urge construir uma consciência de que alguns indivíduos não são superiores aos outros indivíduos. E que o poder das armas não os tornam melhores – ao contrário, apenas ressalta a selvageria.

Os cinco contos que integram Os cinco caminhos para o perdão, estão ambientados no universo Hain (mais especificamente nos planetas gêmeos Werel e Yeowe), um território criado ad hoc e que tem como modelo a organização social da Terra. Esse efeito especular permite avançar no debate dos muitos problemas comuns nas comunidades contemporâneas e que raramente são resolvidos. As disparidades que alimentam comportamentos – numa linha histórica que abrange desde as estruturas escravocratas até o pensamento libertário de que todos os seres (humanos ou não) devem ser livres – expandem o conceito de liberdade, embora, simultaneamente, revelem as dificuldades que acompanham a representação política e o cerceamento da identidade daqueles que se opõem ao comportamento submisso.

Em paralelo, o ostracismo, o apego aos animais, a empatia, as questões sexuais, o tribalismo, a velhice, o desencontro amoroso, a sobrevivência, a solidão, a dor e a morte – temas abordados frequentemente por Le Guin – entram em rota de colisão com algumas barreiras culturais e religiosas (que servem de justificativa para inibir ações progressivas). Ao descrever essas amarras, o fluxo narrativo vai, lentamente, mostrando o quanto há de contradição nos dois mundos: o real e o imaginário.

O pensamento revolucionário, que recusa o afastamento das questões políticas, permite o adensamento literário, mais próximo da realidade, mais distante das fantasias românticas – que imaginam a ficção científica como uma espécie de faroeste interestelar, onde o bem (os humanos) e o mal (os alienígenas) duelam antes que aconteça alguma explosão solar ou guerras entre civilizações bélicas.

A interpretação fantasiosa que propõe a alienação em determinados assuntos nos textos de ficção científica não existe na literatura de Le Guin. A sexualidade feminina, por exemplo, está expressa em todos os cinco contos, seja para identificar os mecanismos de controle sobre o corpo do outro (regras sociais, agressão física, estupro), seja como avanço para que as mulheres tenham acesso ao prazer (independente de que forma isso seja possível).        

Os cinco caminhos para o perdão são, em essência, a defesa de uma tese: (...) uma chave é uma coisa pequena, diante da porta que ela abre. E se a chave se perde, talvez a porta jamais seja destrancada. É em nossos corpos que perdemos ou começamos a nossa liberdade, é em nossos corpos que aceitamos ou encerramos a nossa escravidão.


Ursula Kroeber Le Guin (1929-2018)


segunda-feira, 13 de julho de 2026

CRIME NO COPAN




A capacidade de atrair a atenção do leitor – da primeira à última página. O romance policial Crime no Copan, de Victor Bonini (Editora Companhia das Letras, 2026), consegue executar essa façanha com singular competência.

Tendo como cenário um dos pontos icônicos de São Paulo, o livro começa com duas mortes interligadas e vai se desenvolvendo através de uma névoa de acontecimentos pouco usuais e pela miríade de personagens singulares: o síndico canalha, a artista plástica desesperada, o casal em crise conjugal, os trabalhadores sexuais, as velhinhas inofensivas, a transsexual que realiza ações sociais, o matador profissional, a policial desvalorizada pelo delegado e que quer recuperar a dignidade perdida.

Nessa salada de sabor duvidoso, em que todos os envolvidos na trama possuem vida dupla, culpa e arrependimento, o tempo pretérito (flutuando no rio da memória) se mostra como um dos grandes personagens da narrativa. Algumas situações são apenas o suporte para as diversas reviravoltas narrativas. O que importa mesmo está misturado nos períodos cronológicos (o passado e o presente narrativo). 

Narrativa que privilegia o território físico em detrimento dos múltiplos personagens, há pouco espaço para o individualismo. Em cada cena, alguém se destaca, mas não o suficiente para ser considerado como protagonista geral. O esqueleto narrativo vai adquirindo substância aos olhos do leitor enquanto vários segredos são revelados. Em ritmo vertiginoso, cada página expõe um pecado ou instala uma dúvida. O contraste entre os períodos que envolvem o governo militar e a democratização vai escorrendo pelo texto na medida em que a situação se complica – é no emaranhado de fios da novela que são projetadas algumas luzes e muitas sombras. O aparente e o real se confundem e predomina o que os olhos percebem – nunca o que está escondido. No interstício entre uma coisa e outra são projetadas as fragilidades das instituições, as desigualdades de gênero e a violência. A desumanidade é um espetáculo difícil de assistir.

Ao fazer um estudo sobre a maldade – que está entranhada no ser humano – o romance comprova que ninguém está a salvo.  O conflito constante – que determina a ordem geral dos acontecimentos – vai estabelecendo um espelho social de grande importância. Mais que refletir o cerne de um país repleto de contradições (e que nunca quis aprender as lições da história), os novos arranjos (mutatis mutandis) no andamento dramático projetam o desfecho – que em tudo se assemelha a um novelão, desses que fariam (fazem) as delícias dos espectadores do horário nobre da televisão. A tragédia se transforma em farsa e a farsa ameniza a tragédia. O “jeitinho” (patrimônio nacional) surge nas últimas páginas. A verossimilhança deixa de existir e aposta em solução deus ex machina. De certa forma, a verdade nunca se mostra significativa (seja no contexto real, seja na literatura). As versões se impõem e estabelecem uma nova ordem narrativa.

Entre as pontas soltas em Crime no Copan, ficou faltando uma conexão mais efetiva entre o gato e as balas de hortelã. São elementos que serviram para introduzir sutilmente um pouco de suspense e depois perderam a importância (ou foram esquecidos). Talvez esse seja um dos pontos fracos do texto. Existem outros, mas somente o leitor ideal consegue identificá-los. O leitor comum procura entretenimento e isso está presente em quantidade e qualidade em Crime no Copan.        


Victor Bonini


quarta-feira, 24 de junho de 2026

CONTRAPESO

 


No cyberpunk, um subgênero da ficção científica, a distopia está envolta uma névoa em que o virtual e o real se confundem. A capacidade cognitiva e a memória dos humanos são alteradas por drogas ou por dispositivos implantados no cérebro ou em outras partes do corpo. As grandes corporações, de uma forma ou de outra, interferem na liberdade dos indivíduos.

Esse território, conectado à alta tecnologia, se mostra propício para o surgimento de duas figuras estereotipadas: o herói e o criminoso – mas que, em alguns momentos, se confundem; poucas vezes o leitor consegue distinguir um do outro. De qualquer forma, encharcados de niilismo, esses indivíduos procuram por algo mais do que salvar a própria pele. Embora adotem métodos de ação divergentes, seguem – religiosamente – os objetivos que traçaram: desmascarar/mascarar os mecanismos de opressão e violência que envolvem a vida cotidiana. Tudo depende de que lado estão – ou que acreditam estarem.

Em Contrapeso, romance sul-coreano escrito por Djuna (Editora Suma das Letras, 2024. Tradução de Luís Girão), um mercenário, Mac, se envolve em uma espécie de teoria da conspiração. O tema principal da narrativa se divide entre a construção de um elevador espacial em Patusan, uma ilha longínqua, e a luta intestina pelo controle do grupo LK – um conglomerado que possui ramificações em várias áreas científicas. Nesse cenário muito próximo da selvageria, a modernidade se esvai, embora estabeleça os contornos de uma sociedade que se projeta como modelo futurista – esquecendo que esse tipo de projeto promete libertar o mundo da pobreza, mas sempre existem locais onde a tecnologia é insuficiente.  

Os pontos significativos do texto sugerem que o porvir pertence à inteligência artificial (esse monstro que vive de armazenar informações alheias) e que a privacidade desaparecerá. Confirmadas estas duas hipóteses, a história da humanidade estará estruturada na sensação constante de que cada um dos indivíduos será monitorado por algum tipo de mecanismo de controle eletrônico. A nova síndrome médica da modernidade passa a ser a paranoia, esse mal-estar que surge da sensação (simbólica, imaginária, real) de repressão policial e militar.

Para tentar obter um antídoto contra essa percepção (e, ao mesmo tempo, ampliá-la) surge a necessidade de formar grupos de resistência. Evidentemente, qualquer movimento subversivo ao ordenamento estatal precisará enfrentar e/ou superar perigos inimagináveis.      

Mac, narrador em primeira pessoa, oferece uma versão particular dos acontecimentos, mas o seu pensamento se mostra confuso (detalhista em alguns momentos, disperso em outros), sempre interessado em construir uma versão que o favorece (diminuindo a sua participação em alguns horrores – inclusive no extermínio daqueles que se mostram contrários à construção do elevador).

A confusão se multiplica com a incursão de Choi Kang-woo (um funcionário do grupo LK Space) no contrapeso (a estrutura de sustentação do elevador espacial). Parece cena adaptada de enredo de Philip K. Dick, mas com menos inspiração. Falta intensidade e sobra superficialidade – a projeção holográfica de Kim Jae-in e o “fantasma” de Han Bu-kyeom são elementos narrativos dispersivos e que atuam no velho ritmo “encher linguiça”, comprovando que o livro, em determinado momento, perdeu o sentido e a direção.     

Contrapeso possui qualidade para ser adaptado pelo cinema, espaço artístico onde o entretenimento feérico supera o conteúdo político.         

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P.S:

1) Djuna é um pseudônimo. Nada se sabe sobre o seu nome, gênero ou idade.

2) Neuromancer, de William Gibson (Editora Aleph, 2008), o melhor romance cyberpunk de todos os tempos