Manaus une civilizações antigas e violências extremas. Distante do mundo pacato que dizem existir ao sul do Equador, foi refundada na escrita, espaço novo/velho para propor o arejamento dos costumes, o distanciamento de determinados protocolos estéticos. O estranhamento que ousa revelar as entranhas sociais.
Manaus é um lugar encantador. Enganador. Convergência entre a floresta e a metrópole, as ruas periféricas, a lama, a pobreza interminável, o rio Negro, a negação da diversidade étnica, os preconceitos. A vida pulsando em 3000 rotações por minuto, sem dar tempo para o tempo tomar fôlego ou qualquer anestésico. A selvageria incorporada no andar entre as gentes, o desencontro entre os corpos, a luta (destinada ao fracasso) contra os diversos tipos de pressão, opressão, repressão.
A
cultura pop como alimento. A linguagem mais fluída, menos engessada pelas nervuras
do contentamento. Cavalo Megazord, Coletivo Amargo, terrorismo arquitetônico, vilões
de desenho animado, erotismo em estado bruto, abandonar as avenidas iluminadas e
entrar em beco escuro, sobreviver, disto ela lembrava: dos fragmentos, papel
contra a pele, a sensação que o filme deixa ao subirem os créditos, letras
demais para acompanhar, menino melancólico que se transforma em mulher
feita de fogo. A performance nos balls, promessas de felicidade em
encontros fugazes, películas de fumaça, a trama da verdade costurada pela
ficção. (...) as pernocas cruzadas com um pezinho balançando e os brilhos da
bota fazendo pirlimpimpim.
Luana
(Lua) Madeira, Bento Ruas, Derick (Mutirão) Silva Madeira, Sorria (Soror, Soraya),
Arcana, Demi, Silvina da Silva Bastos, Et El Vynah, Lorenzo (motorista de
aplicativo), Renata. Os muitos nomes usados no dia a dia e que (por diversas
razões) escondem os nomes reais. O olhar [que] passa [como] uma
caneta vermelha, de quem perdeu pontos. A pele escrevendo o desejo na pele
do outro, atrito necessário para que a linguagem do prazer rompa o interdito.
O abrigo – Casa Jasytata – para quem quer driblar o fim do mundo, a chance de encontrar uma saída, talvez seja por isso que os personagens flutuam no onírico ou no xamânico (que se não é o mesmo, é quase igual). As imagens compondo outro cenário, universo paralelo, possibilidade de alterar provisoriamente o presente (embrulhado em papel colorido, ilusão e beleza). O terço pendurado no retrovisor do carro rodopiava ao vento.
Bermuda tactel, despejar 12.424 Tartarugas Ninja de plástico na piscina, cerveja em copo americano, cigarros de cravo, bolar um beque, Ferris Bueller reinterpretado. Explosões como meta, metamorfoses antes que o dia termine. Enquanto a chuva radioativa cai sobre as cabeças humanas, o disco voador adeja ao longe (...) o futuro dança uma música que a gente não ouve. Quando a gente dança com ele pela magia, é do jogo ele pisotear.
O narrador vai passeando pela calçada que separa a primeira e a terceira pessoa, espaço fluido para que este ou aquele personagem possa apresentar a sua versão – seja quem conta a história ou quem a está protagonizando. Momentos desconexos da narrativa – ou de narrativas diferentes que reúnem os mesmos personagens e suas complicações. Mistureba sem compromisso com os mecanismos literários utilizados por quem usa terno, gravata e sapatênis. Exercício que, Com muita resistência, consegue ir contra a cola que fixa tudo no tempo.
Os
contos de No Baile do Juízo Final, de Susy Freitas (Editora Todavia,
2026) não foram escritos para todos os paladares. Entre a doçura e o amargo, sempre
transgressores. Punk e queer. Estrutura operística que algumas vezes termina
com um beijo.
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| Susy Freitas |









