Partes da Europa foram destruídas duas vezes no século XX. As Guerras Mundiais causaram estragos políticos, sociais e econômicos. Diante desse tipo de situação, duas atitudes costumam ser adotadas pelos sobreviventes das tragédias. De um lado, há os que aceitam as mudanças como inevitáveis – embora indesejadas. Em oposição, não faltam os nostálgicos, aqueles que lamentam as perdas, que contrastam o antes e o depois, e que visualizam o passado como um estágio de superioridade em relação ao presente.
O romance Lázár, de Nelio Biedermann (Editora Record, 2026. Tradução de Kristina Michahelles), está centrado na história de três gerações envolvidas diretamente no esfacelamento do Império Austro-Húngaro. Começa com o Barão Sándor Lázár, avança por seu filho, Lajos, e termina com os netos Istvan – também conhecido como Pista – e Eva.
Mais do que dissecar uma história familiar, a narrativa se concentra na paisagem ácida que caracteriza a decadência. Os anos chegavam e passavam no reino dos Habsburgo, aquela monarquia que afundava na lama do Danúbio. Um modo particular de ser e estar estava com os dias contados. Os valores nobiliárquicos deixaram de ter sentido. A modernidade dispensou a estrutura civilizatória que demorou vários séculos para ser construída. Na visão do narrador, o mundo que ele [Lajos] conhecia era como uma cidade submersa cujos monumentos e edifícios, torres de igrejas e palácios ainda podem ser vistos sob a superfície da água, mas cujo tempo nunca mais voltará.
O barão Sándor (que se informa dos acontecimentos lendo o jornal do dia anterior), junto com grande parte da população europeia, não possui referenciais para compreender que o ovo da serpente estava eclodindo. A ascensão dos governos arbitrários preparava o fim da estabilidade política, social e econômica do continente. Com os olhos voltados para um mundo em extinção, Sándor não consegue ver o zeitgest. E que as principais vítimas dessa miopia seriam os seus filhos e os seus netos.
Lajos também tinha dificuldade para entender os acontecimentos. Fruto de uma família estilhaçada pelo suicídio da mãe, o alcoolismo do pai, o irmão que perdeu a razão e um episódio sexual na adolescência (quando adulto, ele precisou de várias sessões com um psicanalista para superá-lo), estabelece, como redoma de proteção contra as múltiplas ameaças, o afastamento de qualquer demonstração de afeto. Inclusive com os filhos. Como constata Pista, Não se fazia isso naquela família. Essa proposta de anestesia emocional só se rompe quando percebe que a propriedade da família não era mais um lugar seguro. O exército russo estava se aproximando: (...) o grupo se movia em silencio, como se fossem todos mudos. Só se escutava o vento gelado que levava os latidos dos cães da aldeia pelos campos e se espalhava pelas árvores desfolhadas à beira da estrada, o bufar dos cavalos e o guinchar dos carrinhos de bebê.
A multidão se deslocando pelas estradas húngaras, -15º C, reflete o horror: O barão usava casaco grosso e chapéu de feltro, mas, fora isso, mal se distinguia dos agricultores de boina. Foi isso também que o fez ficar ali sentado, encurvado, os olhos vagando indiferentes e indistintamente pela deslumbrante paisagem branca e pela longa procissão de pessoas tiritando de frio. (...) ainda era um barão, mesmo que não se sentisse como tal. (...) era como um louco que vê a razão se esvaindo, mas não pode fazer nada a respeito.
Nesse momento de turbulência histórica, Istvan (Pista), 19 anos ao fim da guerra, herdeiro de uma família disfuncional, descobre que a vida está repleta de obstáculos: Matilda, o seu primeiro amor, foi fuzilada (era judia); o governo da Hungria, subordinado ao governo soviético, expropriou os imóveis e os bens materiais da família; todos foram conduzidos para uma fazenda coletiva – onde, sob pretexto educacional, precisaram realizar trabalhos braçais.
Com a morte de Stalin, em 1953, o regime húngaro foi, lentamente, assumindo autonomia. Em 1956, o governo de Imre Nagy decide abandonar o Pacto de Varsóvia. Os tanques russos invadiram o país outra vez. Centenas de mortos, milhares de presos. Sem alternativa, Pista e Eva resolvem fugir para a Suíça.
Romance
histórico sobre o século XX, Lázár revela o quanto as ruínas familiares
servem de metáfora para a destruição de um país. A aristocracia deixou de
existir como um modo de vida e equalizou todos na miséria que é tentar
sobreviver em um regime político autoritário.
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| Nelio Biedermann |
PS 1): Alguns
leitores comparam Lázár com Os Buddenbrok, de Thomas Mann. Um
equívoco. Embora a decadência familiar
seja um tema comum, isso não os aproxima.
PS 2): Em
uma entrevista, Nelio Biedermann contou que recebeu um telefonema de seu pai, que
tinha lido o romance. Ele disse: “isso não é a história de nossa família”.
Algum tempo depois, o pai ligou outra vez e retificou a declaração: “isso é
exatamente a história de nossa família”.










