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terça-feira, 16 de junho de 2026

AS REFLEXÕES DE PETER SCHJELDAHL SOBRE A MORTE

 


Em A Arte de Morrer (Editora Olhares, 2026. Tradução de Jorge Henrique Cordeiro), foram reunidos os últimos 45 ensaios do crítico de arte estadunidense Peter Schjeldahl (1942-2022). Aliando um estilo único (mordacidade e humor) com observações perspicazes, ele fez um mapeamento do mundo artístico: Gosto de dizer que a arte contemporânea consiste em todas as obras de arte, tenha ela cinco mil anos ou cinco minutos, que existam fisicamente no presente. Nós as vemos com um olhar contemporâneo, o único que existe.    

Os trechos recortados fazem parte do ensaio autobiográfico A arte de morrer, publicado em dezembro de 2019, na revista The New Yorker. Ao estilo de Montaigne, Schjeldahl se preparou para a morte através da filosofia.


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– Câncer de pulmão, desenfreado. Nenhuma surpresa. Fumo desde os 16 anos, quando ia atrás das arquibancadas do campo de futebol americano do colégio, em Northfield, Minnesota. Me constrangia a ideia de morrer jovem e pensar que as pessoas comentariam com ar de sabedoria: “Ele fumava, sabia?” Mas, aos 77 anos, estou na fase em que a morte já não é uma surpresa.   

– A morte se parece mais com uma pintura do que com uma escultura, porque é vista apenas de um lado. Monocromática – como o antigo Muro de Berlim, de um cinza-mausoléu, que os garotos de Berlim Ocidental glamourizaram com pichações. É o que estou tentando fazer aqui.

–  A vida não continua. Não vai a lugar algum, além de ir embora. A morte continua. Seguir em frente é o que a morte faz para viver. O segredo para sobreviver no universo é estar morto.

– Enterrem-me. Nada de cremação. Quero um endereço para que as pessoas possam visitar mesmo que não o façam. Bobagem essa coisa de jogar as cinzas em uma brisa aleatória ao mar ou espalhar em um campo de vegetação inofensiva. Ou ficar em um vaso. (...) Na verdade, façam o que quiserem com o cadáver – não sou eu, não é meu.

– Estive em Oaxaca [México] por duas vezes no Dia dos Mortos, quando membros de uma família que já partiram têm à disposição refeições com suas comidas, bebidas e talvez até cigarros favoritos. Entende-se que, à mesa, os mortos consomem a bondade imaterial dessas coisas. As famílias os visitam à noite nos cemitérios. Fiquei profundamente comovido com a ideia de que a morte pode ser um grande evento da vida, como o nascimento, a crisma e o casamento, mas que isso não significa que você desapareceu. Compartilhamos com os mortos um pouco da vida que há em nós. Estremeci de repente durante minha segunda caminhada entre os plácidos grupos iluminados por velas. Foi então que me ocorreu que os mortos estavam retribuindo: um pouco da morte deles para nós. Nunca totalmente mortos, nunca totalmente vivos.

Posso estar errado, mas estou saboreando essa ideia. Hoje, o pequeno pedaço da morte em mim sentou-se na cama e está calçando as meias.     

– Estranhamente, ou não, penso menos sobre a morte do que costumava fazer antes. Pensei estar me enganando em minhas reflexões sobre o assunto enquanto minha vida se estendia à minha frente rumo a um horizonte invisível. Mas não. O pensar abriu caminhos pelos quais hoje trilho. Eles envolvem aceitação. Por que eu? Por que não eu? Na verdade, eu. É a minha vez de observar a vida da margem distante da morte, que se aproxima cada vez mais.   

– Levem a morte para dar uma volta em suas mentes, pessoal. Ou vocês ficarão felizes por terem feito isso, ou, se caírem duros de repente, não terão perdido nada.


Peter Schjeldahl (1942-2022)


sexta-feira, 12 de junho de 2026

AS BATALHAS NO DESERTO

 


O primeiro amor costuma criar lembranças eternas. Carlos, o narrador de As batalhas do deserto, de José Emilio Pacheco (Editora Pinard, 2026. Tradução de Ari Roitman) se apaixonou pela mãe de Jim, um amigo da escola. O maior problema não está na transgressão das normas sociais, na traição aos rituais da amizade, ou na declaração amorosa – o que incomoda é a diferença de idade. O menino ainda não entrou na adolescência – a mulher tem 28 anos.

Ao recordar a situação, Carlos afirma Que estupidez eu me meter numa encrenca que poderia ter evitado simplesmente desistindo de fazer a minha imbecil declaração de amor. Tarde demais para me arrepender: fiz o que tinha que fazer e, mesmo agora, tantos anos depois, não vou negar que me apaixonei por Mariana.

Na impossibilidade de impedir o fluxo dos acontecimentos, o episódio se transforma em grande escândalo familiar e escolar. Tudo mundo fica sabendo da audácia do garoto. A família o retira da escola e, entre os diversos procedimentos para “curar” o desatino, o leva à igreja – no confessionário, os argumentos usados pelo padre são os dos adultos, pessoas incapazes de entender o contexto platônico da paixão. Em contrapartida, o psiquiatra não encontra dificuldade para interpretar a situação e decreta: o menino é espertíssimo e extraordinariamente precoce, tanto que aos quinze anos poderia se tornar um idiota completo. (...) Está buscando o afeto que não encontra na família.

Hector, guiado pelas ilusões do machismo, não se controla e cumprimenta o irmão mais novo: Que maravilha, Carlinhos! Achei incrível esse teu lance! Nossa, com a tua idade ir paquerar aquela dona que é um verdadeiro pedaço de mau caminho... mais boazuda que a Rita Hayworth, com certeza!  Nem imagino o que você vai aprontar quando crescer, seu danado.

Essas opiniões divergentes só servem para constatar que ninguém conseguiu entender o que aconteceu. Falta acolhimento, empatia, compreensão. Sobra preconceito. Negam os benefícios da escolha afetiva (aflitiva) que é estar apaixonado.     

Se o tempo cura todas dores, Carlos só conseguiu amarrar as pontas que ficaram soltas quando, alguns anos depois, ao retornar da aula de tênis, encontra outro colega da escola antiga, Rosales, que lhe conta a parte da história que lhe foi subtraída. Mariana (depois de brigar com o amante) se suicidou, Jim foi morar em Estados Unidos, os pobres continuavam pobres (diferente da prosperidade da família de Carlos) e todos estavam tentando sobreviver na medida do possível.

Que antiga, que remota, que impossível é esta história. Mas Mariana existiu, Jim existiu, tudo aquilo que eu repetia para mim mesmo, depois de tanto tempo me recusando a enfrentar, existiu mesmo. Jamais vou saber se o suicídio foi real. Nunca mais vi Rosales, nem mais ninguém daquela época. Demoliram a escola, demoliram o edifício de Mariana, demoliram a minha casa. (...) Acabou aquela cidade. Aquele país terminou. Não há mais memória do México daqueles anos. E ninguém ligou: quem vai ter saudade daquele horror? Tudo passou, como os discos passam um atrás do outro em um jukebox. Nunca vou saber se Mariana está viva. Se estiver, teria hoje oitenta anos.          


José Emilio Pacheco (1939-2014) 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

JULIAN PATRICK BARNES

 


O 46º Prêmio Princesa de Astúrias 2026 – literatura, foi concedido ao Julian Patrick Barnes (Leicester,1946). A justificativa para atribuição destaca que o escritor é um extraordinário narrador e ensaísta, dotado de humor, ironia e que pratica um otimismo melancólico e um pessimismo alegre. Nesse sentido, de acordo com o júri espanhol, Barnes reelabora (...) a história da literatura, a arte, a música e a gastronomia, até alcançar um estilo único.

Quase toda a sua obra literária foi publicada no Brasil pela Editora Rocco, exceto Mantendo um olho aberto – ensaios sobre arte (São Paulo: Anfiteatro, 2017).

O primeiro romance de Barnes que chamou a atenção foi O papagaio de Flaubert (Rocco, 1988), uma espécie de reconstrução da biografia de Gustave Flaubert (1821-1880), tendo como fio condutor um papagaio empalhado. Nesse livro fica delineada a paixão pela cultura francesa – o que, de certa forma, o faz transitar entre os dois lados do Canal da Mancha.

Foi casado com a agente literária Pat(ricia) Olive Kavanagh (1940-2008) e, em Altos voos e quedas livres (Rocco, 2014), o luto pela morte da esposa se confunde com a elegia amorosa. Outros dois textos com características autobiográficas, e que se afastam da ficção: Nada a temer (Rocco, 2009), uma discussão sofisticada sobre deus – tendo como parâmetro a cultura literária, a história e a morte, e O pedante na cozinha (Rocco, 2008), onde, com humor e perspicácia, narra a procura pelo sabor perfeito, momento que faz da gastronomia uma fonte de prazer.   

Muitos leitores consideram os livros de contos Do outro lado da Mancha (Rocco, 2001), Um toque de limão (Rocco, 2006) e Pulso (Rocco, 2013) como um dos pontos altos da literatura de Julian Barnes. A prosa ácida vai corroendo diversas questões cotidianas e, ao mesmo tempo, revelando o quanto a humanidade está em decomposição. Em versões particulares, os contos discutem temas que constituem as obsessões de um escritor criativo: a ausência amorosa, a culinária, a música, o mundo artístico, a história que poderia ter acontecido, as tensões entre ingleses e franceses, a vontade de reaver os prazeres que a velhice bloqueia, o fim da vida. Muitas vezes são decisões de personagens que se recusam a aceitar o destino inevitável.   

No entanto, são os romances que garantiram o lugar de Barnes na história literária de língua inglesa: O porco-espinho (Rocco, 1996), Inglaterra, Inglaterra (Rocco, 2000), Arthur & George (Rocco, 2007), O sentido de um fim (Rocco, 2012), O ruído do tempo (Rocco, 2017), A única história (Rocco, 2018). São histórias que fazem um mapeamento das idiossincrasias do mundo contemporâneo e que abrangem desde as amizades do período escolar, o primeiro amor, um ditador da Europa Oriental, Arthur Conan Doyle (1859-1930) e Dmitri Dmitriyevich Shostakovitch (1906-1975), entre outras questões.

Os últimos livros publicados no Brasil não conseguiram obter relativo sucesso: O homem do casaco vermelho (Rocco, 2021) e Elizabeth Finch (Rocco, 2022). Há quem diga que ele está perdendo o folego.

Junto com Martin Amis (1949-2023) e Ian McEwan (n. 1948), Julian Barnes compôs o triunvirato da literatura inglesa entre os séculos XX e XXI.   


Atrás: Kingsley Amis e Pat Kavanagh; na frente: Martin Amis e Julian Barnes


quarta-feira, 3 de junho de 2026

UMA OU DUAS COISAS QUE SEI SOBRE O JOGO DE TÊNIS

 


(...) a verdade é que o tênis na TV está para o tênis ao vivo como um vídeo pornográfico para a real sensação do amor humano. Este, digamos, aforismo faz parte do ensaio Federer como experiência religiosa, de David Foster Wallace (1962-2008), publicado em agosto de 2006, e que integra o livro Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo (Editora Companhia das Letras, 2012. Tradução de Daniel Galera e Daniel Pellizzari).  

A temporada esportiva do tênis, dividida em três tipos de pisos (quadra dura, saibro e grama), se estende por todo o ano e ocorre em lugares muito distantes entre si. Em outras palavras, por razões econômicas e logísticas, sobra aos aficionados o efeito compensador que é assistir alguns jogos à distância... pela televisão.

O tênis reúne infindáveis lances espetaculares (efeitos, “deixadinhas” e passadas – aquele momento desolador em que a bola, como se fosse um cometa, passa ao lado do jogador, quase como se ele não existisse). Para o bem e para o mal, a paixão de quem está assistindo ao jogo muitas vezes supera os esforços de quem está em quadra. E esses público raramente percebe o básico: que todos os jogadores possuem “instinto matador”, estabelecem estratégias de jogo e analisam o comportamento dos adversários em quadra. Nunca se trata de “apenas” ganhar ou perder, pois existe toda uma estrutura quase invisível no entorno de cada jogador (treinadores, nutricionistas, fisioterapeutas, empresários, patrocinadores, etc.). O resultado do jogo não depende da torcida. 

Nunca segurei uma raquete, ignoro o peso da bolinha e nem mesmo joguei videogame de tênis. No entanto, gosto do esporte. Nos últimos três anos tenho assistido incontáveis partidas na televisão e torço pelo sucesso de alguns jogadores. Em contrapartida, não simpatizo com outros (alguns de meus amigos acham isso estranho e costumam me sacanear quando um desses tenistas consegue ganhar algumas partidas).

A trilogia game, set, match está repleta de emoções – seja porque mostra a importância do preparo físico, seja por situações que ocorrem dentro da quadra (saques, devoluções, queda de rendimento, recuperação de placar adverso, jogadas inesperadas). Além disso, a questão emocional adiciona especial sabor aos jogos. Alguns jogadores costumam perder a racionalidade durante as partidas e mostram sentimentos que poderiam ser controlados através de ajuda especializada, digo, psicológica: quebrar raquetes, gritar com o árbitro, discutir com a equipe técnica e, não menos importante, automutilação. São elementos de um show que apresenta entretenimento de qualidade sob a forma de sofrimento esportivo.

David Foster Wallace (que foi tenista amador) resumiu as competições de forma significativa: A beleza não é o objetivo dos esportes de competição, mas o esporte de alto nível é um palco privilegiado para a expressão da beleza humana. É a mesma relação existente, em termos gerais, entre a coragem e a guerra. (...) Muitos homens chegam a declarar seu “amor” pelo esporte, mas esse amor deve sempre ser lançado e encenado na simbologia bélica: eliminação versus avanço, hierarquia de posto e renome, estatística obsessiva, análise técnica, fervor tribal e/ou nacionalista, uniformes, barulho da multidão, estandartes, batidas no peito, rostos pintados etc. Por motivos pouco compreendidos, a maioria de nós considera os códigos de guerra mais seguros que os do amor.        

      


Algumas referências culturais sobre o tênis.

Filmes: Wimbledon – o jogo do amor (Dir. Richard Loncraine, 2004), Ponto final - Match Point (Dir. Woody Allen, 2005), O quinto set (Dir. Quentin Reynaud, 2020), King Richard – criando campeãs (Dir. Reinaldo Marcus Green, 2021), Rivais (Dir. Luca Guadagnino, 2025).

Livros: A informação, de Martin Amis (Editora Companhia das Letras, 1995), Dupla falta, de Lionel Shriver (Editora Intrínseca, 2011), A dupla perfeita, de Ivy Bailey (Editora Alt, 2025).



terça-feira, 2 de junho de 2026

PEQUENAS COISAS COMO ESTAS

 


A simplicidade de contar uma boa história pelo método tradicional: começo, meio e fim (nesta ordem). Sem truques narrativos, sem surpresas psicológicas, sem ignorar o horror que acompanha o ser humano. Essa estratégia literária foi adotada por Claire Keegan, em Pequenas coisas como estas (Editora Relicário, 2024. Tradução de Adriana Lisboa). 

Alguns dias antes do Natal de 1985, em pleno inverno rigoroso, Bill Furlong precisa levar uma carga de lenha para o convento próximo de New Ross, pequena cidade situada no interior da Irlanda. Acidentalmente, ele descobre algo que – a princípio – parece estranho. Por que as coisas que estavam mais próximas eram com tanta frequência as mais difíceis de ver? Em uma sociedade dominada pela religião católica, onde algumas questões morais são fundamentais, muitas vezes a prática cotidiana vai em direção contrária aos ensinamentos propostos pela igreja.

Bill Furlong, filho de mãe solteira (que engravidou aos 16 anos), criado por uma senhora rica e benevolente, casado com Eileen, cinco filhas, comerciante (lenha, carvão, turfa, antracito e toras de madeira), cidadão respeitado na comunidade. Esses dados biográficos não conseguem resumir as complexidades psicológicas de um personagem que precisa superar um dilema ético. E que, em muitos momentos, se preocupa com essas pequenas coisas (small things like these) que dividem o mundo entre dois grupos antagônicos: os que encaram os problemas e os que olham para o outro lado – para não ver as desgraças, para solidificar o ordenamento hipócrita. Além disso, ele também se sente constrangido por não poder fazer algo mais efetivo por aqueles que são atingidos pelas dificuldades econômicas.

Furlong se surpreende, em determinado momento, ao descobrir que grande parte da população de New Ross segue a normalidade comportamental proposta por um ditado regional: Mantenha o inimigo por perto, o cachorro mau com você, e o cachorro bom não vai te morder. Em outras palavras, não se deve provocar as coisas ruins porque isso atrai a maldade de quem parecia inofensivo. A senhora Kehoe, dona do restaurante, lembra a ele que Pesada é a cabeça que usa a coroa. Mais uma vez, o vocabulário enviesado ecoa como aviso sobre as responsabilidades que podem recair sobre os ombros de quem resolve alterar o que está estratificado.

As questões religiosas induzem ações complicadas, muitas vezes invertendo as noções do certo e do errado. Furlong, nas últimas páginas do texto, toma uma decisão que pode ser descrita como caminhar na contramão – ciente de que O pior ainda estava por vir, ele sabia. Já podia sentir um mundo de problemas esperando por ele atrás da próxima porta, mas o pior que poderia ter acontecido já havia passado: a inação, o que poderia ter acontecido – algo com que teria que conviver pelo resto da vida.

O prêmio por ter tomado a decisão é o alívio da consciência – embora essa atitude também pode indicar o início da desgraça. Só o tempo responderá sobre os próximos acontecimentos. Mas sobre isso não há soluções narrativas – o texto deixa à imaginação do leitor interpretar os fatos subsequentes (como convém aos finais em aberto).  

O livro de Claire Keegan possui uma versão cinematográfica (Dir. Tim Mielants, 2024).


Claire Keegan