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segunda-feira, 4 de julho de 2022

POLENTA, QUEIJO, O PASSADO E OS SENTIMENTOS


Minha mãe recheava dois pedaços de polenta com queijo, unia tudo com um palito, empanava em ovo e farinha e fritava. Era mágico. E delicioso. Nunca mais encontrei esse conjunto de sabores – dignos do Guia Michelin.

Essa comida rústica (e, ao mesmo tempo, sofisticada) era frequente. Ao primeiro corte, o queijo derretido se espalhava pelo prato. Naquele tempo, não existia queijo industrializado (essas fatias amarelo-desmaiado, insípidas, ricas em conservantes, separadas por lâminas de plástico e disponíveis nas seções de frios do supermercado). Tampouco a fiscalização sanitária se incomodava com a produção rural e com o controle de qualidade. Todos consumiam o queijo de colônia (colônia de bactérias, como costuma dizer a mãe do meu filho), sem grandes consequências.

No Mercado Público ou no armazém da esquina era possível adquirir umas peças redondas, pesadas, e que tinham mil e uma utilidades (sanduíches, macarronadas, para comer com goiabada, etc.). De acordo com o método de produção, era possível encontrar alguns queijos mais salgados ou mais insípidos, mais “curados” ou mais “verdes”. Variedade nunca faltou.

A resistência bacteriológica da população também era outra. As crianças andavam descalças, as ruas eram de chão batido, ninguém ficava doente por caminhar na chuva e os brinquedos não exigiam pilhas alcalinas extra-hiper-super-mega-potentes. Tudo era mais simples (evidentemente, isso não quer dizer que era melhor).

Depois, com o passar do tempo e das experiências, as preocupações que só existiam no mundo dos adultos se transformaram em problemas para todos. E tudo ficou mais confuso. E menos calmo. A inocência se perdeu na necessidade de encontrar os adequados mecanismos de sobrevivência.

Nossa família passou por uma crise importante na metade dos anos 70 do século passado. Depois de uns dois anos, talvez mais, voltei a morar com minha mãe. A polenta com queijo foi ficando para trás, nessa corrida de obstáculos que é a vida. Ficou reservada para ocasiões especiais – um ou outro almoço de aniversário ou quando a insistência era insuportável. No geral, a mãe costumava dizer que dava muito trabalho, que podíamos comer coisa melhor – mesmo que fosse apenas arroz com ovo frito ou macarrão com sardinha.

Não foram poucas vezes em que as dificuldades econômicas atropelaram os nossos sonhos por boas refeições. Os bifes à milanesa eram escassos, mas sempre bem-vindos. O mesmo se pode dizer das lasanhas, naquelas travessas de vidro enormes, que saiam do forno fumegando odores e sabores. Dobradinha (bucho) era presença constante, possivelmente uma vez a cada quinze dias. Apesar de todas as dificuldades, sempre tinha alguma sobremesa: doce de gila, figo em calda, sagu de vinho, arroz doce, gelatina, fruta (banana ou bergamota). Chocolate era uma benção dominical, inseparável das sessões da matinê do Cine Tamoio. Ninguém bebia refrigerante. Ao nosso alcance estava o Q-Suco ou capilé (uma gosma açucarada diluída em água de torneira). Limonada e suco de laranja eram acontecimentos raros. 

Agora que Dona Vina não está mais entre nós, percebo que era nas refeições que amarrávamos os sentimentos. Nada muito explícito. Nunca fomos de distribuir beijos e abraços como se fossem balas de hortelã. A vida nos ensinou que o afeto produz vulnerabilidades. Mas, à nossa maneira, tentávamos ser felizes.

terça-feira, 28 de junho de 2022

AVENTURAS DE SÁBADO

 


Sábado. Ele acordou com fome de viver. Entre o banho matinal e o assalto à geladeira, um barulho inconfundível invadiu a existência: estava chovendo. Nada contra, até que ele gostava de chuva,... exceto no sábado. Sábado é dia especial. Ou seja, é dia de não fazer nada, de beber cerveja, de comprar inutilidades, de visitar amigos, jogar futebol e, mais importante, começando pelo meio da tarde, é dia de namorar.

Com chuva ou sem chuva, a solução foi ir em frente. E como o dia começou, digamos, molhado, nada melhor que procurar por um guarda-chuva. Adivinhe se encontrável estava o objeto? O mais infiel dos animais domésticos (na definição de Mário Quintana) se perdeu em lugar incerto e não identificado. Faz parte do show. Essa era uma boa desculpa para pedir ajuda à vizinha do 305, que, além de muito prestativa, reunia algumas qualidades mais interessantes – muito mais interessantes.

Como em um filme de terror, a vizinha não se encontrava em casa.

De volta ao apartamento, sentou-se no sofá, e exibindo um daqueles olhares de cachorro pidão de desenho animado, tentou sobreviver ao desastre que se anunciava. Assim, para romper com a inércia, foi até a geladeira. Usando de uma boa dose de coragem, abriu o eletrodoméstico. Nenhuma novidade. A imagem que tomou conta de suas retinas tão fatigadas foi a mesma de sempre: a ausência. Isto é, a geladeira estava vazia. Ou quase. Um solitário litro de leite resplandecia na luminosidade trêmula e amarela que, de lá de dentro, mostrava a realidade da vida.

Disposto a tomar um porre de leite, sacou (como em um daqueles faroestes que gostava de assistir, em outros tempos, nas matinês de domingo) de um canivete, replica do Vitorinox.

Como é de conhecimento amplo, geral e irrestrito, armas e crianças constituem uma combinação irresponsável.

O susto foi grande quando o litro de leite caiu no chão e se misturou com o sangue que jorrou do polegar. Quer dizer, derramou quase meio litro. De leite. De sangue, foram apenas algumas gotas – o que não impediu que ele pensasse, por um instante, na morte e nas demais insignificâncias do existir. Em dúvida se corria para o pronto-socorro ou se fazia um curativo caseiro, pensou em sair pelos corredores do prédio gritando de dor.  Preferiu estancar o sangue com um pedaço de papel higiênico, pois provavelmente ninguém o levaria a sério, tantas tinham sido as maluquices que aprontara pelos corredores do edifício.

Enquanto limpava o chão, o telefone tocou várias vezes. Foram cinco telefonemas. Convites para churrascos. Acabou aceitando um deles, pois um bom pedaço de carne não faz mal a ninguém. O único problema era a chuva, que insistia em fazer as delícias daqueles que adotam o imobilismo como método de existir.

Para encurtar a história, quem forneceu a carona (sim, ele não tinha carro e não queria ter) foi uma loura deslumbrante. Loura falsificada, porém deslumbrante. Ele desceu as escadas correndo, entrou no veículo e, antes do carro dar partida, deu um beijo cinematográfico na mulher, coisa pouca, uns cinco minutos da mais entusiasmada respiração boca a boca.

Sobre o que aconteceu depois, faltam informações.

 

sexta-feira, 24 de junho de 2022

O DISCURSO DA EXCLUSÃO

 

A deusa grega Atena (Minerva, para os romanos)

Santa Catarina foi objeto da atenção nacional recentemente. Uma das partes envolvidas concedeu entrevista a um jornal de circulação estadual. Deixando de lado os principais pontos da conversa, há um trecho que deveria despertar a atenção de alguns leitores:                         

 (...) Passo os finais de semana lendo. Tenho uma biblioteca caríssima, eu compro livros importados... Eu estudo para isso (...)

Ao destacar as horas de estudo e a possível capacidade de interpretação dos textos relacionados com o exercício profissional, a pessoa que estava respondendo as perguntas exerceu, sem nenhum pudor, o carteiraço – fenômeno autoritário que se caracteriza pela célebre sentença: você sabe com quem está falando?

Nessa situação, como o interlocutor desconhece os predicados de quem deseja mostrar que está em outro nível, aquele que acredita ter incontornável importância descreve (com visível prazer) a interminável lista de cargos, funções, ocupações, incumbências, compromissos e responsabilidades que acumulou ao longo do que imagina ser uma vida de conquistas e vitórias. A intimidação é o principal propósito da exaustiva enumeração.

Ao mencionar a biblioteca, metáfora do saber e do estudo, o discurso parece dizer, sem dizer, mas com vontade de dizer, que existe a ascendência do conhecimento específico sobre o conhecimento vulgar (embora ninguém saiba exatamente qual pode ser a diferença entre um e outro). Desta forma, coloca em evidência o seu lugar de fala e, simultaneamente, determina o espaço do Outro. Em outros tempos costumava-se dizer que alguns indivíduos deveriam saber como se portar em cada circunstância. De uma forma mais específica, o carteiraço quer impor o posicionamento social e, simultaneamente, a exclusão.

Ao separar a sociedade em dois segmentos distintos (os que estão em posição dominante e os demais), o discurso aponta para um tipo de superioridade que costuma ser acolhido como natural. Principalmente quando está escudado em cargos públicos e títulos acadêmicos. Basta exibir a identificação funcional e esperar pela vassalagem.

Como adição, a declaração reforça a separação social através da eficiência econômica. O uso da expressão caríssima, que, obviamente, não se refere ao carinho ou ao afeto pelo conhecimento, está ligado à precificação do saber. A biblioteca (local em que as informações estão armazenadas) é percebida como mercadoria – que somente está ao alcance dos consumidores que possuem condições financeiras para comprar livros importados.

Os livros importados (e as diversas teorias exógenas que abordam) significam uma melhor preparação para a análise e o poder de decisão em casos concretos? Duvidosa percepção do contexto – exceto se estiver escorada em um projeto de poder. E que visa bloquear quaisquer possibilidades de contestação, porque supõe contemplar a verdade ou, na pior das hipóteses, o melhor sofisma. 

Por trás desse tipo de procedimento, existe o inevitável desvio da atenção através do vitimismo. Ao sugerir que – para conseguir o êxito profissional – é necessário sacrificar a vida particular e renunciar aos prazeres mundanos, induz a proposição de que a aquisição do saber se assemelha ao martírio. Esse pensamento, que equivale ao uso do cilício, retoma algumas práticas que fariam sucesso na Idade Média.

Por fim, o uso de argumentos escorados na meritocracia (eu comprei livros caríssimos, eu passo os finais de semana estudando) faz da violência psicológica (o carteiraço) outro tipo de repressão – que almeja obter o mesmo efeito da violência física.

 

domingo, 19 de junho de 2022

DUAS OU TRÊS OBSERVAÇÕES SOBRE O FRIO

 


O frio voltou a se fazer presente no Planalto Catarinense. Nos últimos dias, a temperatura oscilou em torno do 0° C. Isso fez com que algumas pessoas lembrassem que só é possível viver nessa terra se a pessoa for nativa (acostumada com o inverno desde o nascimento) ou cachorro lanudo. Um evidente exagero – considerando-se que o recorde mundial é de -89,2° C, verificado na estação científica Vostok, na Antártida (Polo Sul), em 21 de julho de 1983. Mas, para quem acha isso um absurdo, convém lembrar que na região de Pamir (entre 3.000 e 5.000 metros acima do nível do mar), chamada de o teto do mundo, no Tadjiquistão, -50° C é considerado como normal. No mesmo ritmo, talvez se possa dizer que é possível ter verão na Sibéria (Rússia), que apresenta média anual de -40° C.

Tudo bem, os habitantes da região sul do Brasil não desejam participar desse tipo de competição. Também não querem dividir o espaço com pinguins (de geladeira ou não) e ursos polares (que, espertamente, vivem no Círculo Polar Ártico, ou seja, no Polo Norte, onde as oscilações glaciais são menos rigorosas). Nem mesmo querem ser parentes dos esquimós (esse povo que se adaptou ao gelo e que possui várias palavras para descrever a neve e o frio).

Para enfrentar a ausência de calor na região Sul, muito ainda há que se fazer. Poucas residências possuem calefação adequada. Lareiras se tornaram um luxo que somente os ricos podem ostentar. Para os moradores das casas de madeira (e eles são muitos), na lista dos velhos hábitos, ainda resistem o velho e indispensável fogão de lenha e o aquecimento produzido por uma bacia com brasas de carvão (e gás carbônico). Contrários a esses procederes, os ecologistas reclamam e enchem o mundo com discursos que exigem mudanças. Ou seja, que é necessário, para preservar a saúde do planeta, restringir o uso dos combustíveis fósseis. O desagradável é que são raras as alternativas que se apresentam para melhorar a qualidade de vida de quem precisa enfrentar as intempéries.

Enquanto o  futuro não se aproxima e o passado vive a assombrar, todos continuam procurando resistir aos fenômenos climáticos (frio, geada, neve e chuva); ou seja, muitas pessoas passam o dia inlhadas em cobertores, tentando não ficar encarangadas. Ampliando as estratégias de resistência, os habitantes das áreas rurais não dispensam os pelegos, as cobertas de lã de ovelha (ou de pena) e os palas (ponchos).

Café, chocolate quente e bebidas alcoólicas também fazem parte da brincadeira. Um pouco de suco de rubiácea (como diz um amigo) ou um martelinho de pinga fazem um bem danado. Mas, os aditivos podem ser de outra ordem, dependendo do gosto e do poder aquisitivo de quem está precisando de aquecimento.

Infelizmente, os moradores de rua não dispõem de algumas das formas de proteção que são usuais nas outras camadas da população. A exceção é o uso constante de elixires etílicos – principalmente os de alta octanagem.  

Complementando o júbilo contagiante, existe a gripe. As doenças respiratórias também se fazem presentes – principalmente nas crianças. Talvez esteja ai parte da explicação para a existência de centenas de farmácias na região. Talvez a explicação seja outra. Mistérios.

Sobre os perigos causados pela união entre as baixas temperaturas e o Covid-19, pouco há que se dizer exceto que a pandemia não acabou e que é necessário tomar cuidado – se não se quiser agravar a crise sanitária e humanitária. A vida não vale uma bravata. Vacinas contra a gripe e o Coronavírus são indispensáveis para seguirmos em frente – vivos e alegres. 


segunda-feira, 13 de junho de 2022

BÊBADOS DE FELICIDADE (texto modificado)

 


Estavam cantando. Abraçados – um se equilibrando no outro –, atravessavam calçadas e ruas. Abriam caminho, no meio da multidão, com suas vozes desafinadas. Não estavam preocupados com a música. O que queriam era proclamar a alegria. E, por isso mesmo, cantavam. Um samba−canção, desses que garantem que o amor é invencível, eterno e maravilhoso.

Algumas vezes ele se deixava levar pelo delírio e parava a cantoria para olhar o espanto colado no rosto dos transeuntes. Outras vezes esquecia os versos e ficava remoendo uma algaravia particular, absolutamente fora de ritmo.

Nas duas situações, ela olhava para o parceiro e sorria. E continuava cantando. Sabia que uma bobagem qualquer não deveria servir de motivo para estragar uma festa tão bonita. Com a altivez de uma prima donna de opereta, se entregava, ainda com mais vigor, ao ritual religioso da música. E sustentava a cantoria até que ele poder recuperar a lucidez e o rumo.

Um deles, talvez o homem, carregava a garrafa de cachaça pela metade – que, entre um gole e outro, viajava entre mãos e bocas em incríveis evoluções acrobáticas.

Naquela manhã, durante alguns minutos (similar a um curto circuito emocional, desses que destoam do mundo real, do ordenamento insípido, incolor e anódino da cidade), o espetáculo causou assombro, olhares e comentários reprovadores.

Na contracorrente, eles cantavam. E, através do inusitado, forneciam sabor à vida.

Caminhavam na direção do paraíso.

Em alguma esquina, desapareceram do campo de visão. Deixaram para trás a imagem residual de um casal bêbado de felicidade.