Páginas

sábado, 24 de outubro de 2026

OBRA-PRIMA

 


É possível que 38 toneladas de aço desapareçam e que ninguém tenha a mínima ideia de como foi que isso aconteceu? Essa é a história de Equal-Parallel/Guernica-Bengasi, escultura de Richard Serra (1938-2024), que integrou (integra) o acervo do Museu Reina Sofia (Madrid, Espanha).

A linguagem artística desenvolvida por Richard Serra tem como objetivo a ocupação espacial. Equal-Parallel/Guernica-Bengasi propõe a representação simbólica dos massacres ocorridos em Guernica (Espanha, 1937) e Bengasi (Líbia, 1986). É uma escultura tridimensional (altura, comprimento, largura) e apresenta quatro blocos de aço corten, sendo que dois são quadrados (148,5 x 148,5 x 24 cm) e dois retangulares (148,5 x 500 x 24 cm). As peças estão posicionadas alternadamente, deixando um espaço vazio central – por onde os visitantes do museu podem transitar.


Equal-Parallel/Guernica-Bengasi (Museu Reina Sofia, Madrid)

Em 1990, a escultura foi retirada do museu e depositada no pátio de uma empresa especializada em armazenamento de obras de arte, em Arganda del Rey (28 km a sudeste de Madrid). Em 2005, diante da possibilidade de exibi-la mais uma vez, fracassaram as tentativas de localizá-la. Quatro meses depois da diretoria do museu estar ciente de que o artefato não podia ser encontrado, os jornais estamparam, em manchetes, o seu desaparecimento. Todos queriam saber como o museu conseguiu perder um item do patrimônio artístico espanhol (que tinha custado US$ 200.000,00). O mistério ficou mais complicado quando se descobriu que a empresa responsável pela guarda do objeto tinha falido e que o prédio que abriga o Arquivo Geral da Previdência Social está localizado exatamente no local onde deveria estar a escultura.

Juan Tallón descreve essa confusão em Obra-prima (Editora Nós, 2026. Tradução de Joca Reiners Terron). Através de uma espécie de algaravia polifônica (depoimentos de diretores do museu, jornalistas, funcionários da empresa de transporte, policiais, marchands, curadores, artistas plásticos, engenheiros, empresários industriais, além das diversas pessoas que, de uma forma ou de outra, estiveram envolvidas no acontecimento), o livro propõe ao leitor um quebra-cabeças, onde as peças vão se encaixando umas nas outras através de vozes que parecem estar falando de coisas diferentes, embora o assunto seja comum. Isso não impede que tratem a situação de acordo com a conveniência, sem se preocupar que a soma das partes seja diferente do resultado final.

Nesse percurso, a narrativa vai costurando várias histórias paralelas (exposições, ocupação das praças e parques com obras de arte, dificuldades com as instalações, problemas com a produção das esculturas ou os relacionamentos com os artistas) e introduzindo personagens improváveis como o músico Philip Glass, os escritores Cesar Aira, Paul Auster, Siri Hustvedt e membros do Euskadi Ta Askatasuna (ETA).

O desaparecimento de uma obra afeta tudo. É como quando você deixa cair no chão uma xícara de café. O líquido se espalha em um número infinito de direções, às vezes até no teto. É impossível limpar por completo as manchas, mesmo que à primeira vista pareça impecável. Meses depois, você muda um sofá ou um móvel de lugar e encontra vestígios daquele café por baixo.

O incidente resultou em uma imensa (e intensa) auditoria nos procedimentos administrativos do Museu Reina Sofia (e, consequentemente, nos demais museus do mundo). Muitas irregularidades foram descobertas. Uma das mais significativas revelou que o museu devia muito dinheiro à empresa que tinha a guarda da escultura – nunca quitou a dívida, não pediu a devolução da escultura e continuou mantendo o serviço. Em contrapartida, o estado espanhol exigiu o pagamento de impostos e de contribuições da Previdência Social.  De forma simplificada: sem receita, a empresa não teve alternativa senão declarar a insolvência (Ela me lembrava aqueles navios no meio do nevoeiro que não vão a lugar algum, dos quais não existe sequer uma tripulação, diz o vigia dos galpões vazios). Estaria isso ligado ao sumiço da escultura? E justificaria as duas teses mais difundidas na época: a escultura foi vendida como sucata ou estaria enterrada embaixo do edifício do Arquivo Geral da Previdência Social? Ninguém conseguiu responder essas perguntas – inclusive porque o escândalo (assim como o café derramado) nunca foi amenizado.

Mesmo que se admita que Tudo o que é sólido desmancha no ar, o que é uma piada infame, o caso expôs a falta de habilidade no gerenciamento dos bens do Estado. Além de emitir ridículos comunicados oficiais (aqueles que tratam os incidentes como casos isolados), não agir é quase um mantra quando ocorre qualquer situação estranha ao manual de procedimentos burocráticos. Nenhum funcionário público gosta de lidar com aborrecimentos; melhor que sejam esquecidos por algum tempo (torcendo para que isso se prolongue infinitamente). Mesmo assim, algumas tentativas de encontrar os blocos desaparecidos foram feitas pela polícia. Obviamente, a frustração se fez presente.

Como remendo a tantas trapalhadas, Richard Serra fez, em 2009, uma réplica da escultura – que está em exposição permanente em uma das salas do museu. Essa substituição produziu um efeito de estranhamento muito complicado: (...) quatro peças de ferro são arte e, de repente, quando elas se perdem, ele [Richard Serra] decide que não são mais arte e que o que é arte é a cópia da escultura. Essa arbitrariedade incomoda e cria a possibilidade de assegurar às cópias a mesma aura (no sentido benjaminiano) que se supõe existir nas peças originais. É uma inversão conceitual e um desafio para a produção artística contemporânea. De qualquer forma, com humor ferino, Isidoro Valcércel resumiu a situação dizendo que a coisa mais artística da escultura de Serra é o seu desaparecimento.

Uma das grandes virtudes de Obra-prima consiste em realizar uma radiografia do mercado mundial de arte, revelando que, distante dos olhos do público, existe toda uma área nebulosa que mistura diversas questões morais inconfessáveis. Em determinado momento o leitor descobre que O porto franco de Genebra [Suíça] oferece confidencialidade e economia significativa de impostos. Em outras palavras, é um dos lugares que servem de esconderijo para objetos artísticos (ou não). Centenas de obras de artes (pinturas e esculturas) estão abrigadas naquele que Seria o melhor museu do mundo se fosse um museu. Não é um museu. É algo bem diferente, quase o oposto. Não há nada lá dentro para ser visto. Tudo está depositado em caixas, permanentemente oculto. Não é para ser visto. Para muitos proprietários, a arte moderna e contemporânea é uma excelente maneira de diversificar investimentos, protegendo-se contra a inflação. Em geral, a arte mantém seu valor ao longo do tempo e, em muitos casos, aumenta de valor. Enfim, a arte mantém um relacionamento simbiótico com a economia.    

Obra-prima é um texto que flutua no hibridismo. Não é um romance e está longe de ser classificado como jornalismo. Não se encaixa nas categorias conceituais existentes. É, de certa forma, uma anomalia literária – essa é a sua força.  

 

Juan Tallón Salgado


Richard Serra, artista minimalista, procurava envolver o expectador em diferentes experiencias de ocupação do espaço. Ou melhor, queria projetar um pouco de humanidade em materiais inanimados. O contraste da relativa aspereza do aço corten com o deslocamento das pessoas produz sensações que desestabilizam o olhar e chamam a atenção para elementos que estão além do visível. O público pode ter a impressão de que os artistas estão sempre dispostos ou motivados a fazer coisas bonitas, mas se você conversar seriamente com eles, ficará claro que não é isso que estão fazendo. A função da arte, a aspiração dos criadores, é fazer você pensar. Com uma linguagem própria a cada vez, mas essa parece ser a função da arte: mudar, mudar o significado, mudar o significado por meio da percepção, não mudar o significado por meio da beleza.


Richard Serra (1938 - 2024)


segunda-feira, 12 de outubro de 2026

NARRAR HISTÓRIAS

 


John Peter Berger (1926-2017) e Susan Lee Sontag (1933-2004) participaram de duas sessões de debates sobre literatura em eventos realizados em Aspen, Colorado (1974) e em Londres (1983). Esses encontros não são mencionados nas duas biografias de Sontag disponíveis no Brasil. Em Susan Sontag – a construção de um ícone, de Carl Rollyson e Lisa Paddock (Editora Globo, 2002. Tradução de Maria Júlia Goldwasser), John Berger é citado apenas como crítico de arte; em Sontag – vida e obra, de Benjamin Moser (Editora Companhia das Letras, 2019. Tradução de José Geraldo Couto), nenhuma referência.

Possivelmente, os dois acontecimentos não foram avaliados como importantes para serem levados em consideração. O cineasta Benoít Bourreau discordou e fez as transcrições dos eventos em Narrar histórias (Editora Fósforo, 2026. Tradução de Denise Bottmann). Complementando o volume, acrescentou parte da correspondência (inclusive com cópias dos originais) entre dois dos maiores pensadores sobre literatura e fotografia do século XX.  

Mais do que preencher uma lacuna historiográfica, o livro projeta o pensamento combativo dos dois escritores – que amorosamente divergiam em diversas questões. Sontag, cosmopolita e burguesa, visualiza a literatura como um empreendimento sem compromissos com a tradição oral; Berger, aproximando-se das analises realistas, encontra no contato com a história das pessoas o alicerce para a produção da ficção. Em alguns momentos dessa discussão aparece o consenso, o denominador comum – embora eles estejam posicionados em lugares diferentes de observação. No fim, o leitor percebe que eles concordam em discordar.  

O que os une é a defesa intransigente dos direitos civis e da arte como manifestação da criatividade humana. Quando algumas pessoas não sabem se comportar diante da dor dos outros, a barbárie se manifesta. Nas palavras de Walter Benjamim, um filósofo importante para os dois, os mortos não estarão em segurança, se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer. Isto é, o passado está repleto de lições, embora poucos sejam os alunos dispostos a entender os acontecimentos. Por isso, a luta pela difusão do conhecimento, do livre pensar e da liberdade é contínua, diária, sem dar trégua ou se contentar com o conformismo.   

O que precisa ser destacado está no fato de que Susan e John mantinham uma amizade distante (Berger morando no interior da França; Susan em constante movimento, mas com base em Nova York). Em uma das cartas (25/07/1978), ele escreve: Querida Susan: Venha nos ver. Com o meu amor como sempre... Nessa mensagem concisa há uma intimidade difícil de ser mensurada, inclusive porque transcende as afinidades intelectuais (ele gostava de chamá-la de Quicksilver – um trocadilho que não pode ser traduzido para o português porque envolve a mancha no cabelo de Susan, prata, Mercúrio [o deus mensageiro dos romanos], e a velocidade dos saques no tênis de mesa). Em nenhum momento perdem o contato, estão sempre se interessando pela produção literária um do outro e, em algumas ocasiões, se utilizam dos vários amigos em comum para obter notícias ou trocar presentes (livros, revistas, garrafas de vinho). Além disso, Sontag consegue que Jacob Berger, filho mais velho de John, participe de um seminário na Tisch School of the Arts de Nova York.

Narrar histórias transcende a transcrição de diálogos entre pessoas inteligentes. Trata-se da demonstração de que pontos de vista dissonantes não eliminam interesses comuns. E que cada indivíduo pode escolher caminhar por territórios culturais diversificados.      

 


Susan Sontag foi romancista e ensaísta. Os seus livros mais conhecidos são A doença como metáfora (Editora Graal, 1984. Tradução de Márcio Ramalho) e Sob o signo de Saturno (Editora L&PM, 1986. Tradução de Albino Poli Jr. e Anna Capovilla).

John Berger foi romancista e crítico de arte. Os seus livros mais conhecidos são G. (Editora Rocco, 2005. Tradução de Roberto Grey), vencedor do Booker Prize de 1972, e Modos de ver (Editora Fósforo, 2022. Tradução de Hugo Mader).     


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O LADO DE LÁ

 


São três pontos interligados: a menina, o cachorro, a piscina. A tia, o padrinho e os convidados são coadjuvantes, figuras acessórias. E que se desdobram na aridez das coisas incompreensíveis para a menina uruguaia, mesmo quando ela procura encontrar algum sentido naquilo tudo. Há uma névoa envolvendo O lado de lá, de Paloma Vidal (Editora Bazar do Tempo, 2026), e que, de certa forma, não se dissipa ao final das 97 páginas de texto.  

A concisão não diminui a tensão constante, onde a soma de alguns elementos que estão subentendidos com aqueles que são propositalmente subtraídos do alcance do leitor produzem o estranhamento, o mal-estar e a impressão de que várias coisas não deveriam estar naquele lugar. Simultaneamente, o cenário minimalista em Punta del Este, Uruguai, parece propício para o descanso, alguns dias de férias para alguns brasileiros ricos. É impossível não ser feliz nesta casa – diz o convidado.     

A tia é empregada na mansão dos brasileiros endinheirados. É a responsável pela limpeza doméstica e pela cozinha. Além disso, precisa cuidar da menina (11 anos). As duas moram em uma edícula, atrás da quadra de tênis. Como companhia, o cão (que em alguns momentos se mostra antropomorfizado, o que lhe permite manifestar algumas reflexões). 

Todos os dias, no final da tarde, o padrinho (que mora em outro lugar) visita a mansão. Ele assiste na televisão as novelas brasileiras. Fica o tempo necessário, depois vai embora. Nesse período, pouco interage com os convidados (que desfrutam do momento bebendo uísque, comendo amendoim e azeitonas). Parece uma sombra sem corpo físico ou uma entidade destinada a advertir que alguém está controlando os acontecimentos, impedindo que aconteçam excessos.

Mas essa é uma impressão falsa, pois os convidados são pessoas estranhas e que, em circunstancias normais, não deveriam estar ali. Não conseguem desfrutar do ambiente porque trazem consigo o germe dos conflitos. E o cachorro, à sua maneira, pressente que o mal está por perto.

A menina, expressão da vulnerabilidade, oscila entre aprender português (quer morar no Brasil) e sobreviver à tempestade que vai, lentamente, se formando ao seu redor. Em muitos momentos fica sentada na borda da piscina. O cachorro sempre junto (O cachorro pensa que não vai ser fácil. Tudo continua igual. No entanto, tudo é diferente agora. Ele ainda este se recuperando [amputou uma pata]. Não vai ser fácil continuar a cena. Recomeçar, como se nada tivesse acontecido. Mas precisa continuar e proteger a menina. É para isso que está ali. Apesar de tudo.).  

Quando a menina compreende o perigo que está correndo (o assédio, a precariedade da situação que a envolve), toma as rédeas da situação e canaliza todo o seu descontentamento no instrumento agregador: a televisão. A destruição do eletrodoméstico e o incêndio que se sucede possuem um efeito catártico, um alívio contra essa gente que vive do outro lado da fronteira, no lado de lá: A casa é um imenso aquário em chamas. A piscina permanece intacta e a água reflete as cores do fogo. Ali estão eles: a menina, o cachorro, a tia.

 

Paloma Vidal (foto de Carolina Valentim)


PS: O lado de lá foi, originalmente, escrito em espanhol e publicado, em 2021, pelas editoras Tenemos las máquinas (Argentina) e Paripé Books (Espanha) e, em 2023, pela editora Bastante (Chile), com o título inicial de La banda oriental. Paloma Vidal inseriu varias notas de rodapé no corpo do texto. Esse recurso serve de guia para esclarecer algumas questões relacionadas ao Brasil.   


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

EUROTRASH

 


As ruas de Zurich, centro econômico e industrial da Suíça, anunciam que a existência nunca foi sinônimo de tranquilidade. O leitor constata esse fato no início de Eurotrash, de Christian Kracht (Editora Fósforo, 2026. Tradução de Gisele Eberspächer) ou, em algumas páginas adiante, quando o narrador faz comentários sobre a cidade: Os zuriquenses (...) eram clássicos demais, autoconfiantes demais, satisfeitos demais em seu mundinho zuriquense, no qual faziam compras em butiques cujos aluguéis mensais vertiginosos mantinham Zurique de pé.   

O país também não recebe muita estima. E a comida na Suíça, que sempre teve um sabor muito melhor do que em outros lugares, era adulterada pela Nestlé e preparada com o suor de crianças escravizadas, para que as pessoas comessem de bom grado e continuassem obedecendo e sendo bons suíços. Os suíços comiam seu Soylent Green, faziam seu trabalho, iam dormir, acordavam no dia seguinte, e tudo continuava na mesma. Não havia música, filmes nem literatura, não havia nada na Suíça, apenas a ganância dos suíços por mais luxo, o desejo por sushi e tênis coloridos e Porsches Cayennes e a construção de mais lojas imensas de materiais de construção nas aglomerações urbanas em expansão.  

Com humor ácido e doses maciças de autoficção, o narrador (Christian Kracht) adota o ritmo das avalanches emocionais. Não faltam incontáveis revelações sobre o pai, os avós, os amigos da família. Enfim, sobre todas as pessoas que fazem (fizeram) parte do seu círculo social. Nesse catálogo de intimidades são mencionados o apoio ao partido nazista, o apreço por práticas sadomasoquistas, o enriquecimento heterodoxo e, não menos importante, o arrivismo. Banalidades como estupro e homossexualismo também são citadas, mas com a devida condescendência, porque essas coisas acontecem, inclusive nas melhores famílias.       

O mundo dos ricos é diferente, embora similar ao de todos os indivíduos que precisam trabalhar diariamente. De qualquer forma, os milionários possuem um conceito de miséria distante do entendimento dos pobres mortais. Mas, como Christian faz questão de esclarecer, existe um componente inconsciente bastante importante na linha de afastamento entre os que possuem dinheiro e os “outros”: E às vezes eu me perguntava se toda a minha família, não se alimentava da humilhação dos outros, de uma consciência de elite que, na realidade, era o comportamento de uma classe média que queria subir para a classe alta e que nada temia além de sua própria origem proletária. 

Ao oferecer rosas vermelhas à mãe, adquirir produtos Hermès ou Birkin ou Ferragamo, passar férias em Gstaad, visitar os principais museus do mundo, beber champagne nas margens do lago Zurich – tudo isso com o inefável ar blasé que poucos podem ostentar e sustentar – esse grupo social constrói uma couraça contra a grande desgraça: ser pobre na Suíça (talvez o maior desastre na face da Terra).

O que o narrador faz questão de esclarecer, várias vezes, é que o afeto não está à venda. Mas isso não impede que alguém queira comprá-lo. O dinheiro é o instrumento da opressão, lembre-se disso, meu filho, ela disse, é com dinheiro que eles te pegam, especialmente aqui na Suíça. É por isso, e por outras questiúnculas, que o ponto fulcral do romance está no relacionamento agônico do narrador com a sua mãe – uma senhora de 80 anos, próxima da demência, alcoólatra e dependente de remédios tarja preta. Ele quer, de uma forma confusa, atabalhoada, restabelecer um pouco da conexão.

Intelectual burguês, Christian carrega uma boa dose de culpa pela condição privilegiada. Ele está ciente de que o patrimônio da família não tem raízes limpas. Então para acertar as contas com aquela mulher que cheirava exatamente como sempre, a Ashes of Roses de Bourjois e, muito vagamente, a limão. Seu rosto me era mais familiar do qualquer outro, embora eu só conseguisse ver o rosto da mãe jovem, cheia de esperança pela vida, o rosto que eu via quando criança, e não o rosto atual, marcado, destruído, inchado pela vodca, pelo fenobarbital, pela decepção e pela dor, decide que deve acompanhá-la em uma viagem pouco ortodoxa. Primeiro, vão ao banco e sacam uma quantidade enorme de dinheiro. Depois, como se fossem desbravadores, percorrem diversos lugares da Suíça: Saanem, Alpes suíços, Genebra (sempre chamamos Genebra de Calvingrado), Zurich.

No intervalo entre uma cidade e outra acontecem coisas: tentativa de assalto, distribuição aleatória de dinheiro para desconhecidos, lembranças das vezes em que a mãe esteve internada, evocação da figura paterna, os poderes adivinhatórios da mãe, muitas citações literárias e a sensação de vazio que a Suíça provoca nas pessoas. Na cena crucial, eles estão presos em um teleférico enguiçado. O rancor se espalha pelo ambiente.  É um aviso para o leitor de que a narrativa mudou de rota: o que era sarcasmo se transforma na parte mais deprimente da narrativa. A catarse em estado puro: acusações mútuas horríveis.

Depois da tempestade, a calmaria (ou quase isso). A bolsa de colostomia é trocada. Mãe e filho firmam a paz (mais ou menos): (...) eu havia tomado uma decisão. Simplesmente não reagiria mais às suas maldades; quando ela dissesse algo ruim, eu responderia com algo completamente diferente, gentil, sem relação. No mesmo instante, porém, lembrei-me que já tinha decidido fazer a mesma coisa no dia anterior e, para ser sincero, também nas semanas e meses anteriores. Na verdade, para ser muito sincero, essa era a minha maneira de lidar com ela havia quarenta anos. Talvez, pensei, talvez ela não fosse louca de verdade e fosse apenas perversa. 

Certas histórias tangenciam os finais felizes, embora existam apenas na memória, apenas como um fantasma cintilante. Seja pelo acaso ou por determinação de alguma divindade pagã, (...) tudo se tornara imaginação, imaterial, mas ainda assim real e eternamente presente, nessa lembrança sem medida.  A mãe queria ver as zebras (Equus quagga) em África, o filho a levou de volta para uma clínica psiquiátrica (Eifenstein). O que se parece com uma daquelas histórias que Christian conta para sua mãe durante a viagem, termina com o sabor azedo da realidade.


Christian Kracht


domingo, 13 de setembro de 2026

LÁZÁR

 



Partes da Europa foram destruídas duas vezes no século XX. As Guerras Mundiais causaram estragos políticos, sociais e econômicos. Diante desse tipo de situação, duas atitudes costumam ser adotadas pelos sobreviventes das tragédias. De um lado, há os que aceitam as mudanças como inevitáveis – embora indesejadas. Em oposição, não faltam os nostálgicos, aqueles que lamentam as perdas, que contrastam o antes e o depois, e que visualizam o passado como um estágio de superioridade em relação ao presente.    

O romance Lázár, de Nelio Biedermann (Editora Record, 2026. Tradução de Kristina Michahelles), está centrado na história de três gerações envolvidas diretamente no esfacelamento do Império Austro-Húngaro. Começa com o Barão Sándor Lázár, avança por seu filho, Lajos, e termina com os netos Istvan – também conhecido como Pista – e Eva.  

Mais do que dissecar uma história familiar, a narrativa se concentra na paisagem ácida que caracteriza a decadência. Os anos chegavam e passavam no reino dos Habsburgo, aquela monarquia que afundava na lama do Danúbio. Um modo particular de ser e estar estava com os dias contados. Os valores nobiliárquicos deixaram de ter sentido. A modernidade dispensou a estrutura civilizatória que demorou vários séculos para ser construída. Na visão do narrador, o mundo que ele [Lajos] conhecia era como uma cidade submersa cujos monumentos e edifícios, torres de igrejas e palácios ainda podem ser vistos sob a superfície da água, mas cujo tempo nunca mais voltará.

O barão Sándor (que se informa dos acontecimentos lendo o jornal do dia anterior), junto com grande parte da população europeia, não possui referenciais para compreender que o ovo da serpente estava eclodindo. A ascensão dos governos arbitrários preparava o fim da estabilidade do continente. Com os olhos voltados para um mundo em extinção, Sándor não consegue ver o zeitgest. E que as principais vítimas dessa miopia seriam os seus filhos e os seus netos.

Lajos também tinha dificuldade para entender os acontecimentos. Fruto de uma família estilhaçada pelo suicídio da mãe, o alcoolismo do pai, o irmão que perdeu a razão e um episódio sexual na adolescência (quando adulto, ele precisou de várias sessões com um psicanalista para superá-lo), estabelece, como redoma de proteção contra as múltiplas ameaças, o afastamento de qualquer demonstração de afeto. Inclusive com os filhos. Como constata Pista, Não se fazia isso naquela família. Essa proposta de anestesia emocional só se rompe quando percebe que a propriedade da família não era mais um lugar seguro. O exército russo estava se aproximando: (...) o grupo se movia em silencio, como se fossem todos mudos. Só se escutava o vento gelado que levava os latidos dos cães da aldeia pelos campos e se espalhava pelas árvores desfolhadas à beira da estrada, o bufar dos cavalos e o guinchar dos carrinhos de bebê.   

A multidão se deslocando pelas estradas húngaras, -15º C, reflete o horror: O barão usava casaco grosso e chapéu de feltro, mas, fora isso, mal se distinguia dos agricultores de boina. Foi isso também que o fez ficar ali sentado, encurvado, os olhos vagando indiferentes e indistintamente pela deslumbrante paisagem branca e pela longa procissão de pessoas tiritando de frio. (...) ainda era um barão, mesmo que não se sentisse como tal. (...) era como um louco que vê a razão se esvaindo, mas não pode fazer nada a respeito.   

Nesse momento de turbulência histórica, Istvan (Pista), 19 anos ao fim da guerra, herdeiro de uma família disfuncional, descobre que a vida está repleta de obstáculos: Matilda, o seu primeiro amor, foi fuzilada (era judia); o governo da Hungria, subordinado ao governo soviético, expropriou os imóveis e os bens materiais da família; todos foram conduzidos para uma fazenda coletiva – onde, sob pretexto educacional, precisaram realizar trabalhos braçais.  

Com a morte de Stalin, em 1953, o regime húngaro foi, lentamente, assumindo autonomia. Em 1956, o governo de Imre Nagy decide abandonar o Pacto de Varsóvia. Os tanques russos invadiram o país outra vez. Centenas de mortos, milhares de presos. Sem alternativa, Pista e Eva resolvem fugir para a Suíça.  

Romance histórico sobre o século XX, Lázár revela o quanto as ruínas familiares servem de metáfora para a destruição de um país. A aristocracia deixou de existir como um modo de vida e equalizou todos na miséria que é tentar sobreviver em um regime político autoritário. 

 

Nelio Biedermann


PS 1): Alguns leitores comparam Lázár com Os Buddenbrok, de Thomas Mann. Um equívoco. Embora a decadência familiar seja um tema comum, isso não os aproxima.

PS 2): Em uma entrevista, Nelio Biedermann contou que recebeu um telefonema de seu pai, que tinha lido o romance. Ele disse: “isso não é a história de nossa família”. Algum tempo depois, o pai ligou outra vez e retificou a declaração: “isso é exatamente a história de nossa família”.