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sábado, 2 de maio de 2026

O ÚLTIMO MOVIMENTO

 


Entre as múltiplas lendas que envolvem a música clássica, destaca-se a maldição da nona sinfonia – alguns compositores morreram durante ou após a conclusão da nona sinfonia. Não faltam exemplos: Ludwig van Beethoven (1770-1827), Franz Peter Schubert (1797-1828), Josef Anton Bruckner (1824-1896), Antonín Leopold Dvořák (1841-1904), Ralph Vaughan Williams (1872-1958). Não importa se essas mortes foram apenas coincidências de gosto duvidoso, o nome de Gustav Mahler (1860-1911) também está incluído na lista.    

1911. Mahler está sentado no convés do navio (Amerika) que o levará de volta para a Europa. Não é um homem feliz. Está doente (Nunca se sentiu saudável. Sofre crises agudas de enxaqueca). A morte da filha mais velha (Maria) e a perda do amor da esposa são cargas muito pesadas para quem sente que o fim da vida está próximo.

Em O último movimento, de Robert Seethaler (Editora Zain, 2026. Tradução de Karina Jannini), Mahler percebe que as inúmeras glórias conquistadas como um dos grandes músicos de sua época perderam o valor: durante dez anos foi regente – muito rigoroso – da Opera da Corte, em Viena.

Durante a viagem, a única pessoa que interage com ele é o ajudante de bordo (inominado), quase um menino, e que serve de contraponto para que a arquitetura do texto se sustente. Toda vez que o rapaz aparece no texto, há uma quebra no pensamento de Mahler – uma pausa para avaliar os acontecimentos, para fazer o balanço da vida que abraçou a música com paixão e que, de certa forma, esqueceu que tinha esposa e duas filhas.

No momento (talvez o mais crucial) em que Mahler resolve colocar as cartas na mesa e perguntar para Alma Margaretha Maria Schindler (nome de solteira, 1879-1964) qual é o papel de Walter Gropius (1883-1969) na história conjugal deles, tudo desmorona. Não é mais possível esconder o que todos sabem faz algum tempo. Alma queria um marido e recebeu um gênio musical – e isso estabelece um dos motivos que a fazem procurar por algo que não estava disponível em casa. Mahler se humilha diante da situação. Não é o suficiente. Decidem manter um casamento de fachada. Quatro anos depois da morte do músico, Alma casou com Gropius.

Saboreando a infelicidade, envolto em mantas de lã, sentindo a força do vento no rosto, Mahler espera ver um espetáculo raro. O mar continuava sereno. Gostaria de ver os peixes. Tinham lhe falado de peixes com asas prateadas que rompiam a superfície e velejavam centenas de metros pelo ar. Às vezes, eram capturados por gaivotas e devorados ainda no voo. Mahler não consegue ver os peixes e as gaivotas – também não percebe a metáfora estranha que unifica a beleza e a morte.

Por um desses descompassos da arte, o cinema se uniu com a música de Gustav Mahler. Jorge Coli, no posfácio de O último movimento, lembra que o Adagietto, da Sinfonia nº 5, faz parte da trilha sonora de Morte em Veneza (Dir. Luchino Visconti, 1971): A música, em Visconti, invade a imagem, torna-se comentário, juízo, destino. O Adagietto conduz o filme. Na direção oposta, o livro de Robert Seethaler celebra a contenção e o imobilismo. A música mal aflora, como lembrança corporal, fragmentária, quase fisiológica. Não há fascinação nem erotização da decadência. O corpo doente não é símbolo, é apenas um corpo que falha.

Um corpo que se afasta da vida e de todos aqueles por quem um dia ele teve algum tipo de afeto.

 

Gustav Mahler (1860-1911)

 CODA

Em um porto qualquer, o rapaz encontra, próximo da lareira de um café, uma pilha de jornais. Na primeira página do Brooklyn Citizen está estampada a foto de Gustav Mahler. Era o homem, enrolado em mantas, e que tomava chá no convés do Amérika. Ele pede para o dono do café traduzir o texto, publicado cinco meses antes.

“O homem morreu”, afirmou.

“Foi o que imaginei”, disse o rapaz, assentindo.

“Seu coração não aguentou.”

“Sim”, disse o rapaz em voz baixa.

“Você o conhecia?”, perguntou o dono do café.

“Não”, respondeu o rapaz. “Só um pouquinho”.

O homem olhou para ele com desconfiança, depois voltou a olhar para o jornal.

“O enterro foi no dia 22 de maio. Apareceu uma porção de gente. Muitas personalidades. Além da esposa e uma filha. Choveu, e o vento soprou as flores das árvores.

“Deve ter sido bonito.”

“Aqui está escrito que ele fazia música. Era um músico de verdade, o seu amigo.”

“Era diretor de orquestra.”

“Não é o que está dizendo aqui.”

“Mas era”, afirmou o rapaz com firmeza.

“Pode ser”, comentou o homem. “Mas agora está morto. Está junto do Senhor ou em algum outro lugar. Não há o que fazer”.

“Sim. Não há o que fazer”.


Robert Seethaler


sexta-feira, 1 de maio de 2026

FICÇÃO CIENTÍFICA CAPITALISTA

 


O planeta Marte está mais próximo do que se imagina – dizem aqueles que acreditam na colonização espacial. Esse pensamento tem propósitos bastante simples: em primeiro lugar, visualiza a exploração mineral (ferro, manganês, zinco, alumínio, magnésio, titânio, cálcio, etc); em um segundo momento, depois que a fantasia que acompanha o turismo espacial e o extrativismo for superada, imaginam que a Terra, em algum momento, se tornará inabitável (mudanças climáticas, escassez de recursos, superpopulação, guerras). Então, para o bem ou para o mal, existe uma certa urgência para Ocuppy Mars (mantra estampado em uma camiseta usada por Elon Musk).

A tecnologia (engenharia, computação) precisa avançar para que esse processo de terraformação aconteça. Empresas como SpaceX, Monjave Aerospace Ventures, Virgin Galactic, Blue Origin, United Launch Alliance, OrionSpan, Aerojet Rocketdyne, Northrop Grumman, Maxar, Rocket Lab, entre outras, não estão economizando esforços para desenvolver projetos capazes de transformar o sonho em realidade. No entanto, há um pequeno empecilho que pode atrapalhar ou atrasar a façanha: bilhões de dólares. Sem o emprego de muito dinheiro, o processo pode sofrer atrasos consideráveis. Mas, se isso algum dia for superado, então o caminho estará aberto para que algumas pessoas possam infectar o planeta vermelho com o germe da destruição. Os humanos adoram devastar os locais onde vivem.

Nenhuma novidade. As viagens espaciais descritas nas distopias literárias de ficção científica não economizam nos relatos sobre colonialismo, militarismo, genocídio, escravagismo, além dos outros elementos que fornecem substância ao fascismo (um exemplo canônico: Tropas Estelares, de Robert Anson Heinlein, 1907-1988). Momentaneamente, para os que defendem o ideal de conquista espacial, essas questões não existem ou não fazem parte do discurso oficial. Tampouco visualizam cenários em que será possível encontrar outra civilização ou haver a contaminação por algum vírus (seja humano, seja alienígena). O suporte que alimenta a ocupação dos territórios estabelece que o direito de propriedade deve ser o dos humanos que lá chegarem primeiro.  

Uma análise realista constata que (...) justamente em uma época em que o capitalismo fetichiza seus produtos e suas narrativas mais do que nunca mediante a estetização tecnológica, a ficção científica adquire na contemporaneidade uma centralidade inesperada, que a coloca ou como uma celebração idiota, enfeite e colaboração consciente com essas narrativas, ou como politização tecnológica da arte, uma crítica da tecnologia a serviço da extração capitalista, do terrorismo econômico e da violência contra corpos e territórios.   

Em paralelo às expectativas de expansão colonial surgem novas áreas de pesquisas. Uma das mais significativas se refere ao evitar o envelhecimento. O laboratório resTORbio anunciou o início da fase de testes de um medicamento que, quando consumido diariamente, manterá as pessoas jovens e saudáveis até 150 anos. Mais do que conquistar e povoar a Lua ou Marte, os viajantes querem aproveitar a aventura pelo máximo de tempo que for possível – mesmo que isso signifique driblar as regras da mortalidade.

De qualquer forma, as viagens espaciais precisam superar muitos fatores adversos. Um deles se refere às distâncias. Se a viagem até a Lua pode ser feita em apenas 3 ou 4 dias (384.400 km), ir até Marte pode levar entre 6 e 9 meses, porque a Terra se move mais rápido em torno do Sol e os dois planetas seguem trajetórias diferentes (a distância entre eles pode variar de 54,6 milhões até 401 milhões de km). De qualquer forma, isso só será possível quando as naves espaciais forem mais rápidas do que são atualmente e o ponto de contato ocorrer no momento em que houver proximidade máxima entre os planetas (cerca de 225 milhões de km). Por enquanto, essas questões ainda não possuem solução.

Ficção Científica Capitalista, de Michel Nieva (Editora Ubu, 2025. Tradução: Juliana Pavão), examina de forma perturbadora a corrida espacial estadunidense – o desmantelamento da União Soviética eliminou o principal concorrente e os outros países interessados no tema ainda estão bastante atrasados. De certa forma, o livro pretende ser uma crítica política à estetização da acumulação capitalista por meio da tecnologia. Também pode ser lido como uma metáfora das guerras de conquista da Idade Média ou, contemporaneamente, do empreendedorismo predatório.

 

TRECHO ESCOLHIDO

No entanto, o maior paradoxo que essas técnicas de geoengenharia solar carregam é que elas não reduzem a violência contra a Natureza, que desencadeou as mudanças climáticas. Pelo contrário: elas redobram sua ofensiva bélica. Estamos falando de exércitos de aviões, foguetes e embarcações que, apesar de sua intenção verde ou filantrópica, não fariam outra coisa senão bombardear, lançar mísseis, disparar, pulverizar gases, atacar. Técnicas arriscadas e de caráter militar, que parecem exigir a coragem de um macho intrépido, um super-herói de cinema do porte de Schwarzenegger em O predador, ou dos bilionários do espaço com seus chapéus de cowboy, suas aeronaves fálicas e seus champanhes ejaculatórios. Porque, mais uma vez, serão os machos do Vale do Silício, com seus foguetes, espingardas e mísseis, que nos salvarão do desastre climático. (p. 68-69)  



Michel Nieva


sexta-feira, 17 de abril de 2026

A BRIGA DOS DOIS IVANS

 


Enganado está quem acredita que os escritores russos produziram algumas das narrativas mais depressivas da história literária. Basta ler qualquer uma das histórias que integram a Antologia do humor russo (1832-2014), organizada por Arlete Cavaliere (Editora 34, 2018), para entender que é possível escrever com leveza e, paralelamente, extrair da opressão política a sátira, a ironia e a paródia. 

Nikolai Vasilievich Gogol (1809-1852) escreveu um texto que não consta da antologia, mas que poderia estar lá, A briga dos dois Ivans (Editora Grua, 2014. Tradução de Graziela Schneider).

Amigos inseparáveis (Aonde um ia o outro se arrastava atrás), Ivan Ivanovitch Pererepiênko e Ivan Nikíforovitch Dovgotchkhún, moradores de Mírgorod (uma vila ucraniana), em determinado dia, por motivo banal, brigaram. Tornaram-se inimigos mortais – e o ápice dessa querela está identificado: cada um dos desafetos ingressou com uma representação judicial contra o adversário. As duas petições, seguindo a tradição que acolhe aos que dispõem de propriedades e poder, resultaram depositadas em arquivo e lá seguiram até o fim dos tempos – ninguém, exceto os contendores, tinha interesse em resolver a questão.

Depois que acionaram a engrenagem do ódio e do patético, os dois Ivan não mais conseguiram conter o estrago. Os habitantes do vilarejo tentaram forçar um armistício entre os contendores – e isso quase foi possível, mas... Ivan Nikíforovitch, ao tentar esclarecer a situação, pronunciou em público algo que deveria continuar na esfera do privado. Assim como não há possibilidade de colar todos os pedaços de uma xícara que quebrou, a amizade depende de respeito e de cuidados muito especiais. Depois disso não houve mais conserto, a desavença encontrou residência na eternidade.            

Provavelmente as melhores partes da novela são as descrições dos personagens (existem dois Ivan Ivanovitch – o segundo tem um problema ocular) e de algumas situações peculiares. Mas, obviamente, a literatura de Nikolai Vasilievich Gogol não tem a pretensão de fazer um estudo sociológico e/ou político – no máximo, retrata uma situação hilária, onde se destacam a inércia e a incompetência dos órgãos de controle estatal, os privilégios que acompanham algumas classes sociais e a futilidade provincial.

Enfim, trata-se de um texto divertido sobre um tema complicado: o rompimento da amizade.

 

TRECHO ESCOLHIDO

Não havia nada a fazer. Ambas as petições haviam sido recebidas, e o caso estava pronto para assumir uma posição muito importante, quando uma circunstância imprevista lhe conferiu ainda maior significância. Quando o juiz saiu da repartição, acompanhado pelo assistente do juiz e pelo secretário, e os escriturários enfiaram em um saco as aves, ovos, nacos de pão, pastéis, salgados e outras baboseiras trazidas pelos requerentes, naquele momento, uma porca parda entrou correndo na sala e pegou, para a surpresa geral dos presentes, não um pastel ou uma casca de pão, mas a petição de Ivan Nikíforovitch, que estava em uma extremidade da mesa, com as folhas para fora da borda. Arrebatando o papel, a porca parda saiu correndo, tão veloz, que nenhum dos funcionários administrativos conseguiu alcançá-la, apesar das réguas e tinteiros atirados.

Este acontecimento extraordinário causou um terrível alvoroço, porque ainda não tinha sido feita uma cópia dela. O juiz, seu secretário e o assistente de juiz ficaram muito tempo discutindo sobre essa circunstância inaudita.     


Nikolai Vasilievich Gogol (1809-1852)


quarta-feira, 15 de abril de 2026

A NOIVA DO TRADUTOR

 


A noiva do tradutor, de João Reis (Editora DBA, 2020), é uma espécie de tratado sobre o mau humor. O narrador (inominado), uma espécie de filósofo pessimista, não poupa nada e/ou ninguém. Qualquer pretexto gera imprecações, insultos, maldições, agravos, injúrias e ofensas: está um vento frio, desagradável, cheira-me a urina, a brisa traz as recordações que as pessoas deixam junto aos edifícios, nem a chuva limpa por completo esses vestígios (...) fecho bem a boca para não engolir os odores desta cidade, sim, é mesmo um monte de esterco, quem aqui fica muito tempo acaba por apodrecer, estamos vivos por fora porém mortos por dentro, completamente putrefactos, melhor seria se todos nos uníssemos e nos lançássemos ao rio, seríamos arrastados até ao mar, perder-nos-íamos no seu fundo, livraríamos o mundo de tamanhas aberrações (...)

A forma com que interpreta a humanidade não lhe permite cultivar qualquer estímulo ou alegria – tudo lhe parece estar corrompido ou em infecta decomposição. O enfado e repugnância aumentam no convívio com ineptos como Lucrécia, Valido, Szarowsky, Teodorico e Hermengarda. São personagens unidimensionais, sem atrativos, sem qualidades. E que ampliam o grotesco com suas iniquidades.

No esbravejar interminável contra tudo que o cerca, o tradutor sente falta apenas de uma pessoa: Helena – um ser etéreo, idealizado, que ele declara ter ido embora para o estrangeiro em um navio, ficou apenas a saudade, um lastro de histórias inconclusas que vão se distanciado a cada instante. De certa forma, a existência da noiva pode ser uma projeção do imaginário, um ato compensatório para um personagem que caminha na direção do abismo.     

A noiva do tradutor mimetiza a exaustão – momento em que o cansaço físico, emocional e/ou mental (isolados ou combinados) vai tragando lentamente as forças dos indivíduos. (...) a boca sabe-me a fel, ferro, sangue, (...) os pesadelos são terríveis, desaparecem, mas deixam para trás algo inconsciente, oculto, preferia esquecê-los por completo, sinto-me cansado, um peso no pescoço, estou tão triste (...). Apesar do mal-estar, existe um empuxo de resistência à inércia: a possibilidade de comprar uma casa e, logo em seguida, se casar. É por isso que vai consultar uma cartomante, Madame Rasmussen. Seguindo os traços de alienação da realidade, a vidente o faz acreditar que existe a possibilidade de redenção.  Obviamente, essa euforia desaparece rapidamente – como sói acontecer com as doses artificiais de endorfina.

Nesse cenário – lugar de morada da vertigem, da aversão e da ojeriza –, o narrador se transforma em equilibrista circense sem rede de proteção. A queda, inevitável, vai sendo postergada pelo destino e isso o aborrece porque ele não espera da vida outra coisa senão o horror. Nem mesmo o oficio de tradutor parece ter sentido: uns romances populares, umas cartas comerciais, o pagamento sempre atrasado: Deambulo pela cidade, sei a morada de cor por tantas vezes lhe exigir o meu dinheiro, já lá não vou há alguns meses, dava o valor por perdido, é tudo uma grande pouca-vergonha neste país, não há civilismo, honestidade, nada, é tudo uma podridão. 

Por fim, há o caso do chapéu. Deixou-o no transporte coletivo (no “elétrico”) e isso se torna motivo para constante remoer do absurdo que o cerca. Parte da narrativa está concentrada nesse episódio: (...) esqueci-me do chapéu, será que o consigo de volta, em que cabeça estará agora enfiado, possivelmente abunda em piolhos, carrapatos, essa gente não se lava, não há condições de higiene, só sinto o cheiro destas latas ambulantes que inundam as ruas, e um cheiro pestilento a urina, alcatrão e porcaria, esta cidade é uma lixeira, um antro de conspurcação, espero que os estrangeiros bebam o suficiente para não notarem esse odor horrível, sentem-no mal saem dos navios, não é um cheiro a lodo, mas a humanidade concentrada, pessoas a mais, a chuva limpa-o em parte, contudo, há um fedor eterno proveniente das caves, dos esgotos, das canalizações, dos caixotes do lixo, as pessoas são as que mais fedem, (...).

No enredo de A noiva do tradutor quase nada acontece. Mas, ao contar pouco, muito revela sobre a ausência de afeto, o pânico que acompanham a solidão e o sentimento de estar em desacordo com o ordenamento de um mundo caótico e hostil. Esse estranhamento pode ser interpretado como tragédia ou comédia – de certa forma não há diferença entre uma coisa e outra, tudo se mostra patético.


João Reis

quarta-feira, 1 de abril de 2026

TINTA INVISÍVEL

 


Na cama do hospital, próximo da morte, o pai pergunta para o filho sobre a data do lançamento do próximo livro de um escritor, Procurei as informações (...) no celular e as repassei a ele. Ele balançou a cabeça: “Não, merda, acho que não vou ter tempo”.

Nada se mostra mais horrível para um leitor do que perder a possibilidade de ler uma determinada narrativa. No espaço que existe entre o mundo real e o mundo ficcional, o escritor, o leitor e os personagens constroem conexões afetivas (amor, simpatia, ódio, indiferença). E a simples percepção de que o destino está interposto entre uma ação e outra causa desolação e tristeza.

Javier Peña brigou com Fernando, o pai. Ficaram alguns anos sem se falar. Foi a doença (um câncer devastador) que permitiu a reaproximação. Mas, o distanciamento não diminuiu – no máximo, mudou os parâmetros do relacionamento. Parecia que não tinham assuntos em comum – exceto livros. Foi por essa estrada que eles trafegaram nos últimos meses de vida de Fernando, um leitor insaciável: No que ambos concordávamos era que a vida é feita de histórias e que elas eram o nosso jogo favorito. Eram elas que o faziam rir (...). Quando uma pessoa está morrendo, você não fala sobre deus, sobre a morte, sobre ciência ou sobre o além – você conta histórias para fazê-la sorrir.

Em Tinta Invisível (Editora Instante, 2026. Tradução de Marina Waquil), Javier Peña narra algumas das questões que tumultuaram as suas relações familiares. Embora, em algumas passagens do livro, a doença do pai se mostre como um subterfúgio para poder escrever sobre o mundo literário que está à margem da vida, essa impressão não constitui toda a verdade. Os últimos dias de vida do pai constituem o fio condutor para a celebração do luto – e isso ocorre na medida em que mistura memoria familiar com muitos episódios protagonizados por escritores (Fernando Pessoa, Ursula K. Le Guin, John Maxwell Coetzee, Amós Oz, Virgínia Woolf, Vladimir Nabokov, Susan Sontag, John Le Carré, César Aira, etc.). São cenas hilárias, trágicas e singulares, um universo afastado e, simultaneamente, próximo das narrativas que preenchem o imaginário dos leitores. Cada uma dessas histórias (que revelam a natureza humana dos escritores – bondades e maldades, humor e irritabilidade) compõem um cenário em que a realidade e o ficcional se misturam e que muitas vezes são difíceis de ser separados. Talvez seja isso que Javier Peña queria nos dizer quando relata os espaços solares e/ou sombrios que fornecem identidade para a literatura.

Em alguns romances antigos era comum que alguém escrevesse uma mensagem secreta. O suco do limão se transformava em tinta. Depois que o papel secava, o texto desaparecia, parecia que a folha estava em branco. Era necessário aquecer o papel para que a escrita se tornasse perceptível. Javier Peña gosta dessa metáfora que oscila entre o visível e o invisível: Em ocasiões especiais, os leitores, como escreveu Toni Morrison, conseguem ir além da letra escrita e ler a tinta invisível que o autor deixou na página. Esses momentos, os encontros com o passado, a tinta invisível decifrada, são, tenho certeza, a beleza.  

A cerimônia do adeus se completa quando Javier Peña faz o inventário: Precisei esperar sua ausência para descobrir que o que ele havia me deixado não eram coisas, como aconteceu com Brick em Gata em teto de zinco quente. As únicas coisas materiais que herdei dele foram alguns sapatos grandes demais para mim e um casaco com um lenço usado no bolso. Fora isso, só me deixou tudo o que sou.


Javier Peña Lopez