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segunda-feira, 2 de março de 2026

O ROSTO DA MORTE

 


– Até o próximo ano!

– Não garanto!

– Você disse isso no ano passado!

– Continuo não garantindo!

 

No início da semana precisei provar que estou vivo. Ou seja, fui até o Instituto de Previdência e, hallellujah, foi possível garantir que o salário continuará ajudando a pagar os intermináveis boletos mensais. O diálogo acima foi travado (tramado?) com a funcionária que me atendeu e, de uma forma ou de outra, acena para o iniludível, como diria Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (1886-1968).

Que ninguém entenda mal essa declaração, não tenho intenção de abandonar a vida – neste ou nos próximos anos. Muito pelo contrário! Mas, como diria Michel Eyquem, Seigneur de Montaigne (1533-1592), citando Marcus Tullius Cicero (106-43 a. C.), filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte.

Então, vez ou outra, o tema faz uns passeios pela minha existência (principalmente nos momentos em que algum parente ou conhecido deixaram de existir). Entendo que essas notícias são parte do que nos cabe enquanto estamos vivos: arrastar uma fila interminável de ausências – e que, em alguns momentos, se mostram mais como perdas do que como lembranças. Simultaneamente, aparece o medo – não o da morte, que é inevitável – mas o das coisas que vamos precisar deixar para trás. Os indivíduos são escravos de suas paixões, de suas propriedades, de suas tolices.

Para se preparar para a morte o desapego se mostra necessário – mais do que deixar testamento ou qualquer tipo de herança. É o que ensina Montaigne, quando diz desejar (...) que se prolonguem as atividades da vida, tanto quanto possível; e que a morte me encontre plantando minhas couves, mas despreocupado com ela e ainda mais com minha horta inacabada.

Não me parece exagerado pensar desta forma. O provisório constrói o conhecimento e saber disso constitui a sabedoria. Na visão de Montaigne, É preciso preparar-se para ela mais cedo, (...) pois Se a morte fosse um inimigo que se pode evitar, eu aconselharia empregar as armas da covardia: mas já que não se pode, já que ela vos agarra, tanto ao fugitivo e ao poltrão como ao homem de honra (...) tomemos um caminho totalmente oposto ao comum. Tiremos-lhe a estranheza, frequentemo-la, acostumemo-nos com ela. E, principalmente, vamos construí-la para – quando for a hora de dar o último passo – que possamos ir embora satisfeitos com a vida. Na visão do filósofo, Feliz a morte que não deixa tempo para os aprestos [da] viagem.



No filme O Sétimo Selo (Dir. Ingmar Bergman, 1957), o protagonista joga uma partida de xadrez com a Indesejável das gentes (Manuel Bandeira, outra vez) – mas esse momento não passa de um paliativo, de um atraso para que a natureza siga o seu curso. Em sentido oposto, um velho conto árabe diz que, mesmo quando alguém procura escapar do destino, todos temos um encontro com a morte em Samarcanda. Na mitologia grega, a tarefa está sob responsabilidade das Moiras (Cloto, Láquesis e Átrapos), que, em determinado momento, cortam o fio da vida – permitindo que Caronte, o barqueiro, possa levar os mortos pelo rio Estige até o Hades.  

Mesmo se fosse possível impedir o fim, quem estaria preparado para os suplícios que acompanham o pacto faustiano? A pedra filosofal não produz a imortalidade, mas sim o suplício eterno. A imagem de Prometeu, acorrentado em uma rocha, o fígado sendo devorado eternamente por uma águia, não parece ser muito agradável.

Em fevereiro do próximo ano vou fazer outra prova de vida – mas continuarei sem as amarras das promessas vãs.  


Michel de Eyquem, Seigneur de Montaigne


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

LUGARES PARA CHORAR NO RECIFE e outros

 


São muitos os livros sobre a história da música brasileira e seus protagonistas. No entanto, eles apresentam incontáveis lacunas e omissões. Faltam esclarecimentos sobre alguns episódios, sobram muitas versões estranhas à verdade (seja lá o que isso significa). Helder Aragão, conhecido como DJ Dolores, não se esquivou em contar um pouco sobre a sua participação nessa sinfonia urbana que foi o movimento Mangue Beat.

Compôs uma série de crônicas memorialistas sobre o amor que devota à capital de Pernambuco e à música. Unindo humor, poesia, canções e descrições geográficas (quem conhece os bairros recifenses Graças, Rio Doce, Linha de Tiro, Planeta dos Macacos, Entra a Pulso, Roda de Fogo, entre outros?), mergulha no passado e retorna à tona com mil relatos, depoimentos pessoais sobre uma época povoada por heróis e bandidos que fizeram da música o ser e o estar no mundo, fato que lhe permite dizer, entre outras coisas, Não tenho nenhuma opinião sobre Chico Buarque, tenho lembranças! O tom suave com que ele conversa com o leitor, tendo o Recife como pano de fundo, encontra frases e comentários como O amor vai te foder um dia!, construção filosófica que oscila entre a sístole a diástole, entre a planície e a montanha, entre o rio e o oceano – ao mesmo tempo que produz um curto circuito nas ilusões.

É na Rua da Aurora (olhando para a Ponte Princesa Isabel, sobre o Rio Capiberibe, e para a Rua do Sol), no Edifício Califórnia, na Avenida Caxangá, ou no Parque Treze de Maio que as histórias da música brasileira e do Recife, a maior cidade pequena do mundo”, se uniram em folia sem igual. Nada mais foi como antes. Infelizmente, a vida nem sempre se resume às festas ou ao desapego de certos valores. A existência também tem os seus momentos estranhos. No Recife não existe melhor lugar para exercer esse desaguar das dores que no trecho que compreende a Praia do Pína até o final de Boa Viagem, (...) [ali pode] chora-se compulsivamente, sem pudores. O vento secará as lágrimas, os espasmos do rosto serão confundidos com o incômodo causado pela claridade solar e, se tomar o resto do corpo em ondas de convulsão incontrolável, certamente pensarão que se trata de um novo exercício aeróbico. Chore o que tiver que chorar, preferencialmente sem sapatos, sentindo a areia molhada prender seus pés em pequenos abismos.

As crônicas mais significativas do livro citam Chico Science, Naná Vasconcelos, Fred zero quatro e outros tantos personagens que estão envoltos em névoas de cigarrinho de artista, em grandes teores alcoólicos ou em viagens para universos paralelos. No liquidificador cultural, depois que a literatura, o cinema e as histórias em quadrinhos se transformam em outra coisa, talvez mais bonitas, talvez mais doloridas, sempre há lugar para o Aviso: cuidado para não chorar dores que não lhe pertencem. Tarefa difícil, mas, se as lágrimas forem incontroláveis, cabe procurar por “outros” lugares para chorar: Abu Dhabi, Moscou, Macau, Derry (Irlanda do Norte), Havana, Skopje, Guadalajara e, naturalmente, Propriá, no Sergipe. Sem esquecer a Finlândia e a Califórnia, que o mundo encontra complemento em sonhos e sons, sem se importar com o lugar onde o escorrer das lágrimas alimenta o coração de quem acredita na música.

 

TRECHO ESCOLHIDO

O primeiro passo para fazer parte da vida artística recifense foi inscrever uns trabalhos no Salão de Artes Plásticas do Museu do Estado. Quando o período de exibição acabou, fui recolher minhas obras e, já saindo, dei de cara com o velho Lula, Gonzagão, Luiz Gonzaga, O Rei do Baião, o Lua, para os íntimos, meu Elvis particular mesmo antes de eu saber da existência de Elvis.  

Amar as canções de Luiz Gonzaga é uma prerrogativa nordestina. Sua obra atravessou gerações, entre o avanço estético no diálogo com a tecnologia de estúdio da época e o puro conservadorismo conseguia misturar os sentimentos mais ambíguos, da malandragem explícita à religiosidade plena de sincretismo. Um grande ícone: contraditório, rico e, principalmente, humano, verdadeiro em suas convicções. Não me contive e soltei um “Gonzagão, sou seu fã” e ele deu uns passos para trás, boquiaberto com aquela visão do inferno, chocado com a degradação da juventude, suponho. Quem era aquele trombadinhacheiracola que o abordava? Lembro que me senti desapontado, mas igualmente feliz pela afirmação da minha rebeldia juvenil.  


Helder Aragão, o DJ Dolores


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

ORNAMENTO

 


                             

Para que serve a ciência? A pergunta é retórica. Não há uma resposta capaz de abranger, para o bem ou para o mal, a totalidade de questões que envolvem a proposição.

No romance Ornamento, de Juan Cárdenas (Editora DBA, 2025. Tradução de Marina Waquil), um cientista desenvolve uma medicação que fornece prazer para as mulheres – somente para as mulheres. Há alguns anos foram descobertas por acidente as propriedades psicoativas de uma flor do gênero Datura, comumente utilizada por camponesas das cordilheiras para produzir sabonetes artesanais. (...) Os gestores e eu decidimos imediatamente enviar para lá uma equipe de estagiários, que voltaram com amostras dos sabonetes e das diversas flores utilizadas em sua fabricação. Depois de alguns meses, já havíamos conseguir sintetizar o princípio ativo.

Industrializado, o produto constituía a promessa inequívoca de recreação sexual, sem as amarras da frustração. Seguindo as estruturas econômicas, a substância começa a ser comercializada. Logo surgem dois efeitos colaterais: dependência física e psicológica feminina e, em razão da demanda exponencial, o surgimento do mercado paralelo bastante agressivo. Quem controla o prazer, controla o mundo – estabelecem os mercadores da diversão alheia.

Seguindo o roteiro da neutralidade, o cientista prefere se abster de qualquer intervenção. Cabe aos proprietários do laboratório resolver os problemas reais. Suas preocupações são outras. Encantado com uma das voluntárias na pesquisa da droga (a de nº 4), convida-a para ir morar com ele e a esposa. Os dois novos brinquedos (a euforia sexual e o trisal) fazem com que o casal suba os degraus da escada da felicidade. Mas, como sempre acontece, o que é bom dura pouco. Depois de algum tempo, a esposa, dependente de cocaína, entra em depressão; a voluntária vai embora; o cientista, desnorteado, fica sem saber o que fazer.

Nada mais lhe resta senão procurar pelo paraíso perdido. Encontra outras distrações, um mundo subterrâneo que lhe era desconhecido: Uma hora depois, o taxi sobe uma ladeira muito íngreme em direção a um daqueles bairros que ficam na encosta dos cerros orientais, um aglomerado de casas velhas e ruínas habitadas pelo que meu pai chamava de escória, e que eu imaginava como algo assustador ou uma criatura fabulosa. Com o passar dos anos, a palavra escória passou a me sugerir apenas uma bola disforme de sucata cultural. Nesse périplo conhece, in loco, algumas das estratégias adotadas por aqueles que vivem à margem do mundo burguês. Quem precisa enfrentar as desigualdades (sociais, econômicas, afetivas) não se preocupa com privilégios de classe ou com qualquer outra coisa que não esteja relacionada com a sobrevivência.       

A narrativa se desenvolve por caminho previsível, sem muitas complicações, visto que o autor adota como técnica narrativa a segmentação, pequenos capítulos que vão sendo amontoados até que o desenho final adquira nitidez. Esse procedimento, que também pode ser visualizado em outra narrativa, O diabo das províncias (Editora DBA, 2024. Tradução de Marina Waquil), aguça a curiosidade do leitor, que, ao receber as informações a conta-gotas, mergulha na leitura, sem perceber que está sendo manipulado por um narrador não confiável.

Nos últimos capítulos ocorrem algumas mudanças. A mais significativa ocorre quando a voluntária deixa de ser uma sombra e passa a ter voz – mas essa intervenção no discurso monocórdio do narrador está concentrada em apenas um capítulo: Fui metódica, erudita na coleta de citações que abriram caminho para a ação, não me desesperei, fui ao coração do coração e encontrei um looping de ódio, mamãe, um ódio que não era nem seu nem meu, era o ódio ao princípio cósmico do feminino, uma misoginia que ultrapassava os limites estreitos da psicologia social e adquire proporções geológicas, a terra odeia o feminino, entendi, convencida de que havia encontrado um veio de sentidos preciosos que não devia ser explorado por ninguém, é assim que nós, mulheres, somos.

Misturando literatura com algumas questões filosóficas (A inútil sensação de beleza, o efeito ornamental), a narrativa acena para as tempestades comportamentais, momentos em que a lucidez costuma naufragar.      


Juan Sebastián Cárdenas

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A CAUSA SECRETA

 


Inquestionável a atualidade de Machado de Assis (1839-1908). Com certa frequência, alguns dos temas que abordou costumam escapar da área ficcional e ressurgir nos noticiários. Um exemplo? A causa secreta, conto publicado originalmente em 1885 e que faz parte do livro Várias histórias, de 1896.

O enredo é rocambolesco, típica publicação em jornal do século XIX, onde preencher o espaço tinha o seu propósito. Começa com uma cena que está muito distante do desfecho – e que serve para fixar as bases narrativas. Garcia, jovem estudante de medicina, socorre um homem ferido. Chama-se Gouveia a vítima de um bando de capoeiristas. Mas, junto com a boa ação, veio Fortunato, que auxiliou no socorro. Consequência da vida social, os encontros entre Garcia e Fortunato se tornam frequentes. Um dia, o segundo informa estar casado e convida o primeiro para jantar. Tornam-se amigos. Mas, como se mostra frequente nas estruturas narrativas de Machado de Assis (Dom Casmurro, A cartomante, Missa do galo, Uns braços, etc.), a paixão pela esposa alheia surge no horizonte: Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos: tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove. (...) Ato contínuo, tornou-se comum os momentos em que os três se sentaram à mesa para a refeição noturna: ali observava a pessoa e a vida de Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente. E a solidão como que lhe duplicava o encanto. Garcia começou a sentir que alguma coisa o agitava, quando ela aparecia, quando falava, quando trabalhava, calada, ao canto da janela, ou tocava ao piano umas músicas tristes. Manso e manso, entrou-lhe o amor no coração.

Cenário romântico estabelecido, o realismo entra em ação. Garcia e Fortunato se tornam sócios em uma casa de saúde e Maria Luísa fica doente. No começo de outubro deu-se um incidente que desvendou ainda mais aos olhos do médico a situação da moça. Fortunato metera-se a estudar anatomia e fisiologia, e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar gatos e cães. Como os guinchos doa animais atordoavam os doentes, mudou o laboratório para casa, e a mulher, compleição nervosa, teve de os sofrer.

A natureza sádica foi se manifestando de tal forma que se tornou impossível ignorar. Em dado momento, Garcia Viu Fortunato sentado à mesa (...) Entre o polegar e o índice da mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta perdia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. No momento em que Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas.

Ao pedido de acabar com o suplício infligido ao animal: (...) com um sorriso único, reflexo da alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato.

(...) pela necessidade de achar uma sensação de prazer; que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo deste homem, constata Garcia, tentando controlar a repugnância, ao mesmo tempo em que Relembrava os atos dele [Fortunato], graves e leves, achava a mesma explicação para todos.

Com convém às estruturas narrativas trágicas, Maria Luísa, vítima da tuberculose, morre – e todos os esforços do marido para salvá-la se mostram inúteis. Durante a madrugada, no velório, Fortunato vai descansar um pouco – na volta, vê que Garcia estava contemplando o cadáver. Depois, como se a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na testa. Não se contendo, Garcia beijou a morta mais uma vez e foi tomado pela emoção. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranquilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.  

Que relação essa narrativa tem com um caso policial recente ocorrido em Santa Catarina? Ao leitor que for capaz de perceber as distorções que envolvem o comportamento humano, o julgamento.    


Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1904)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

SEIS SONETOS DE LUÍS VAZ DE CAMÕES

 

Luís Vaz de Camões (1524-1579 ou 1580)


Amor é um fogo que arde sem se ver,

é ferida que dói, e não se sente;

é um contentamento descontente,

é dor que desatina sem doer

 

É um não querer mais que bem querer;

é um andar solitário entre a gente;

é nunca contentar-se de contente;

é um cuidar que ganha em se perder.

 

É querer estar preso por vontade; 

é servir a quem vence o vencedor;

é ter, com quem nos mata, lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor

nos corações humanos amizade,

se tão contrário a si é o mesmo Amor?

 


Sete anos de pastor Jacob servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

mas não servia ao pai, servia a ela,

e a ela só por prêmio pretendia.

 

Os dias, na esperança de um só dia,

passava, contentando-se com vê-la;

porém o pai, usando de cautela,

em lugar de Raquel lhe dava Lia.

 

Vendo o triste pastor que com enganos

lhe fora assi negada a sua pastora,

como se a não tivera merecida,

 

começa de servir outros sete anos,

dizendo: “Mais servira, se não fora

para tão longo amor tão curta a vida”.

 

 

O dia em que eu nasci moura e pereça,

não o queira jamais o tempo dar;

não torne mais ao mundo e, se tornar,

eclipse nesse passo o Sol padeça.

 

A luz lhe falte, o Sol se lhe escureça,

mostre o mundo sinais de se acabar;

nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,

a mãe ao próprio filho não conheça.

 

As pessoas pasmadas, de ignorantes,

as lágrimas no rosto, a cor perdida,

cuidem que o mundo já se destruiu.

 

Ó gente temerosa, não te espantes,

que este dia deitou ao mundo a vida

mais desventurada que se viu!

 

  

Tanto de meu estado me acho incerto

que, em vivo ardor, tremendo estou de frio;

sem causa, juntamente choro e rio;

o mundo todo abarco e nada aperto.

 

É tudo quanto sinto um desconcerto;

da alma um fogo me sai, da vista um rio;

agora espero, agora desconfio,

agora desvario, agora acerto.

 

Estando em terra, chego aos Céus voando;

num’hora acho mil anos, e é de jeito

que em mil anos não posso achar um’hora.

 

Se me pergunta alguém porque assi ando,

respondo que não sei; porém suspeito

que só porque vos vi, minha Senhora.


 

Busque Amor novas artes, novo engenho,

para matar-me, e novas esquivanças;

que não pode tirar-me as esperanças,

que mal me tirará o que eu não tenho.

 

Olhai de que esperanças me mantenho!

Vede que perigosas seguranças!

Que não temo contrastes nem mudanças,

Andando em bravo mar, perdido o lenho.

 

Mas, conquanto não pode haver desgosto

onde esperança falta, lá me esconde

Amor um mal, que mata e não se vê.

 

Que dias há que na alma me tem posto

um não sei quê, que nasce não sei onde,

vem não sei como, e dói não sei por quê.


 

Alma minha gentil, que te partiste

tão cedo desta vida descontente,

repousa lá no Céu eternamente,

e viva eu cá na terra sempre triste.

 

Se lá no assento etéreo, onde subiste,

memória desta vida se consente,

não te esqueça daquele amor ardente

que já nos olhos meus tão puro viste.

 

E se vires que pode merecer-te

algũa cousa a dor que me ficou

da mágoa, sem remédio, de perder-te,

 

roga a Deus, que teus anos encurtou,

que tão cedo de cá me leve a ver-te,

quão cedo de meus olhos te levou.