As ruas de Zurich, centro econômico e industrial da Suíça, anunciam que a existência nunca foi sinônimo de tranquilidade. O leitor constata esse fato no início de Eurotrash, de Christian Kracht (Editora Fósforo, 2026. Tradução de Gisele Eberspächer) ou, em algumas páginas adiante, quando o narrador faz comentários sobre a cidade: Os zuriquenses (...) eram clássicos demais, autoconfiantes demais, satisfeitos demais em seu mundinho zuriquense, no qual faziam compras em butiques cujos aluguéis mensais vertiginosos mantinham Zurique de pé.
O país também não recebe muita estima. E a comida na Suíça, que sempre teve um sabor muito melhor do que em outros lugares, era adulterada pela Nestlé e preparada com o suor de crianças escravizadas, para que as pessoas comessem de bom grado e continuassem obedecendo e sendo bons suíços. Os suíços comiam seu Soylent Green, faziam seu trabalho, iam dormir, acordavam no dia seguinte, e tudo continuava na mesma. Não havia música, filmes nem literatura, não havia nada na Suíça, apenas a ganância dos suíços por mais luxo, o desejo por sushi e tênis coloridos e Porsches Cayennes e a construção de mais lojas imensas de materiais de construção nas aglomerações urbanas em expansão.
Com humor ácido e doses maciças de autoficção, o narrador (Christian Kracht) adota o ritmo das avalanches emocionais. Não faltam incontáveis revelações sobre o pai, os avós, os amigos da família. Enfim, sobre todas as pessoas que fazem (fizeram) parte do seu círculo social. Nesse catálogo de intimidades são mencionados o apoio ao partido nazista, o apreço por práticas sadomasoquistas, o enriquecimento heterodoxo e, não menos importante, o arrivismo. Banalidades como estupro e homossexualismo também são citadas, mas com a devida condescendência, porque essas coisas acontecem, inclusive nas melhores famílias.
O mundo dos ricos é diferente, embora similar ao de todos os indivíduos que precisam trabalhar diariamente. De qualquer forma, os milionários possuem um conceito de miséria distante do entendimento dos pobres mortais. Mas, como Christian faz questão de esclarecer, existe um componente inconsciente bastante importante na linha de afastamento entre os que possuem dinheiro e os “outros”: E às vezes eu me perguntava se toda a minha família, não se alimentava da humilhação dos outros, de uma consciência de elite que, na realidade, era o comportamento de uma classe média que queria subir para a classe alta e que nada temia além de sua própria origem proletária.
Ao oferecer rosas vermelhas à mãe, adquirir produtos Hermès ou Birkin ou Ferragamo, passar férias em Gstaad, visitar os principais museus do mundo, beber champagne nas margens do lago Zurich – tudo isso com o inefável ar blasé que poucos podem ostentar e sustentar – esse grupo social constrói uma couraça contra a desgraça maior: ser pobre na Suíça (talvez o maior desastre na face da Terra).
O que o narrador faz questão de esclarecer, várias vezes, é que o afeto não está à venda. Mas isso não impede que alguém queira comprá-lo. O dinheiro é o instrumento da opressão, lembre-se disso, meu filho, ela disse, é com dinheiro que eles te pegam, especialmente aqui na Suíça. É por isso, e por outras questiúnculas, que o ponto fulcral do romance está no relacionamento agônico do narrador com a sua mãe – uma senhora de 80 anos, próxima da demência, alcoólatra e dependente de remédios tarja preta. Ele quer, de uma forma confusa, atabalhoada, restabelecer um pouco da conexão.
Intelectual burguês, Christian carrega uma boa dose de culpa pela condição privilegiada. Ele está ciente de que o patrimônio da família não tem raízes limpas. Então para acertar as contas com aquela mulher que cheirava exatamente como sempre, a Ashes of Roses de Bourjois e, muito vagamente, a limão. Seu rosto me era mais familiar do qualquer outro, embora eu só conseguisse ver o rosto da mãe jovem, cheia de esperança pela vida, o rosto que eu via quando criança, e não o rosto atual, marcado, destruído, inchado pela vodca, pelo fenobarbital, pela decepção e pela dor, decide que deve acompanhá-la em uma viagem pouco ortodoxa. Primeiro, vão ao banco e sacam uma quantidade enorme de dinheiro. Depois, como se fossem desbravadores, percorrem diversos lugares da Suíça: Saanem, Alpes suíços, Genebra (sempre chamamos Genebra de Calvingrado), Zurich.
No intervalo entre uma cidade e outra acontecem coisas: tentativa de assalto, distribuição aleatória de dinheiro para desconhecidos, lembranças das vezes em que a mãe esteve internada, evocação da figura paterna, os poderes adivinhatórios da mãe, muitas citações literárias e a sensação de vazio que a Suíça provoca nas pessoas. Na cena crucial, eles estão presos em um teleférico enguiçado. O rancor se espalha pelo ambiente. É um aviso para o leitor de que a narrativa mudou de rota: o que era sarcasmo se transforma na parte mais deprimente da narrativa. A catarse em estado puro: acusações mútuas horríveis.
Depois da tempestade, a calmaria (ou quase isso). A bolsa de colostomia é trocada. Mãe e filho firmam a paz (mais ou menos): (...) eu havia tomado uma decisão. Simplesmente não reagiria mais às suas maldades; quando ela dissesse algo ruim, eu responderia com algo completamente diferente, gentil, sem relação. No mesmo instante, porém, lembrei-me que já tinha decidido fazer a mesma coisa no dia anterior e, para ser sincero, também nas semanas e meses anteriores. Na verdade, para ser muito sincero, essa era a minha maneira de lidar com ela havia quarenta anos. Talvez, pensei, talvez ela não fosse louca de verdade e fosse apenas perversa.
Certas histórias tangenciam os finais felizes, embora existam apenas na memória, apenas como um fantasma cintilante. Seja pelo acaso ou por determinação de alguma divindade pagã, (...) tudo se tornara imaginação, imaterial, mas ainda assim real e eternamente presente, nessa lembrança sem medida. A mãe queria ver as zebras (Equus quagga) em África, o filho a levou de volta para uma clínica psiquiátrica (Eifenstein). O que se parece com uma daquelas histórias que Christian conta para sua mãe durante a viagem, termina com o sabor azedo da realidade.
![]() |
| Christian Kracht |










