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terça-feira, 21 de julho de 2026

OS CINCO CAMINHOS PARA O PERDÃO

 


Do simples ao complexo – de forma quase imperceptível. Nas narrativas de Ursula Kroeber Le Guin (1929-2018), a ficção científica, por algum poder alquímico, multiplica a consciência social e a defesa de valores civilizatórios. O entretenimento se transforma em debate sobre colonialismo, feminismo, sexualidade, violência, poder, memória, etc.

A ficção científica, mimeses da sociedade terráquea, interligando o passado e o futuro, não almeja apresentar algum plano para modificar o presente, mas mostrar (através dos limites ficcionais) que o porvir pode ser diferente dos acontecimentos que ficaram para trás. Para que isso se torne possível, além das inovações tecnológicas e da ocupação militar de alguns espaços físicos na galáxia, urge construir uma consciência de que alguns indivíduos não são superiores aos outros indivíduos. E que o poder das armas não os tornam melhores – ao contrário, apenas ressalta a selvageria.

Os cinco contos que integram Os cinco caminhos para o perdão, estão ambientados no universo Hain (mais especificamente nos planetas gêmeos Werel e Yeowe), um território criado ad hoc e que tem como modelo a organização social terráquea. Esse efeito especular permite avançar no debate dos muitos problemas comuns nas comunidades contemporâneas e que raramente são resolvidos. As disparidades que alimentam comportamentos – numa linha histórica que abrange desde as estruturas escravocratas até o pensamento libertário de que todos os seres (humanos ou não) devem ser livres – expandem o conceito de liberdade, embora, simultaneamente, revelem as dificuldades que acompanham a representação política e o cerceamento da identidade daqueles que se opõem ao comportamento submisso.

Em paralelo, o ostracismo, o apego aos animais, a empatia, as questões sexuais, o tribalismo, a velhice, o desencontro amoroso, a sobrevivência, a solidão, a dor e a morte – temas abordados frequentemente por Le Guin – entram em rota de colisão com algumas barreiras culturais e religiosas (que servem de justificativa para inibir ações progressivas). Ao descrever essas amarras, o fluxo narrativo vai, lentamente, mostrando o quanto há de contradição nos dois mundos: o real e o imaginário.

O pensamento revolucionário, que recusa o afastamento das questões políticas, permite o adensamento literário, mais próximo da realidade, mais distante das fantasias românticas – que imaginam a ficção científica como uma espécie de faroeste interestelar, onde o bem (os humanos) e o mal (os alienígenas) duelam antes que aconteça alguma explosão solar ou guerras entre civilizações bélicas.

A interpretação fantasiosa que propõe a alienação em determinados assuntos nos textos de ficção científica não existe na literatura de Le Guin. A sexualidade feminina, por exemplo, está expressa em todos os cinco contos, seja para identificar os mecanismos de controle sobre o corpo do outro (regras sociais, agressão física, estupro), seja como avanço para que as mulheres tenham acesso ao prazer (independente de que forma isso seja possível).        

Os cinco caminhos para o perdão são, em essência, a defesa de uma tese: (...) uma chave é uma coisa pequena, diante da porta que ela abre. E se a chave se perde, talvez a porta jamais seja destrancada. É em nossos corpos que perdemos ou começamos a nossa liberdade, é em nossos corpos que aceitamos ou encerramos a nossa escravidão.


Ursula Kroeber Le Guin (1929-2018)


segunda-feira, 13 de julho de 2026

CRIME NO COPAN




A capacidade de atrair a atenção do leitor – da primeira à última página. O romance policial Crime no Copan, de Victor Bonini (Editora Companhia das Letras, 2026), consegue executar essa façanha com singular competência.

Tendo como cenário um dos pontos icônicos de São Paulo, o livro começa com duas mortes interligadas e vai se desenvolvendo através de uma névoa de acontecimentos pouco usuais e pela miríade de personagens singulares: o síndico canalha, a artista plástica desesperada, o casal em crise conjugal, os trabalhadores sexuais, as velhinhas inofensivas, a transsexual que realiza ações sociais, o matador profissional, a policial desvalorizada pelo delegado e que quer recuperar a dignidade perdida.

Nessa salada de sabor duvidoso, em que todos os envolvidos na trama possuem vida dupla, culpa e arrependimento, o tempo pretérito (flutuando no rio da memória) se mostra como um dos grandes personagens da narrativa. Algumas situações são apenas o suporte para as diversas reviravoltas narrativas. O que importa mesmo está misturado nos períodos cronológicos (o passado e o presente narrativo). 

Narrativa que privilegia o território físico em detrimento dos múltiplos personagens, há pouco espaço para o individualismo. Em cada cena, alguém se destaca, mas não o suficiente para ser considerado como protagonista geral. O esqueleto narrativo vai adquirindo substância aos olhos do leitor enquanto vários segredos são revelados. Em ritmo vertiginoso, cada página expõe um pecado ou instala uma dúvida. O contraste entre os períodos que envolvem o governo militar e a democratização vai escorrendo pelo texto na medida em que a situação se complica – é no emaranhado de fios da novela que são projetadas algumas luzes e muitas sombras. O aparente e o real se confundem e predomina o que os olhos percebem – nunca o que está escondido. No interstício entre uma coisa e outra são projetadas as fragilidades das instituições, as desigualdades de gênero e a violência. A desumanidade é um espetáculo difícil de assistir.

Ao fazer um estudo sobre a maldade – que está entranhada no ser humano – o romance comprova que ninguém está a salvo.  O conflito constante – que determina a ordem geral dos acontecimentos – vai estabelecendo um espelho social de grande importância. Mais que refletir o cerne de um país repleto de contradições (e que nunca quis aprender as lições da história), os novos arranjos (mutatis mutandis) no andamento dramático projetam o desfecho – que em tudo se assemelha a um novelão, desses que fariam (fazem) as delícias dos espectadores do horário nobre da televisão. A tragédia se transforma em farsa e a farsa ameniza a tragédia. O “jeitinho” (patrimônio nacional) surge nas últimas páginas. A verossimilhança deixa de existir e aposta em solução deus ex machina. De certa forma, a verdade nunca se mostra significativa (seja no contexto real, seja na literatura). As versões se impõem e estabelecem uma nova ordem narrativa.

Entre as pontas soltas em Crime no Copan, ficou faltando uma conexão mais efetiva entre o gato e as balas de hortelã. São elementos que serviram para introduzir sutilmente um pouco de suspense e depois perderam a importância (ou foram esquecidos). Talvez esse seja um dos pontos fracos do texto. Existem outros, mas somente o leitor ideal consegue identificá-los. O leitor comum procura entretenimento e isso está presente em quantidade e qualidade em Crime no Copan.        


Victor Bonini


quarta-feira, 24 de junho de 2026

CONTRAPESO

 


No cyberpunk, um subgênero da ficção científica, a distopia está envolta uma névoa em que o virtual e o real se confundem. A capacidade cognitiva e a memória dos humanos são alteradas por drogas ou por dispositivos implantados no cérebro e as grandes corporações, de uma forma ou de outra, interferem na liberdade dos indivíduos.

Esse território, conectado à alta tecnologia, se mostra propício para o surgimento de duas figuras estereotipadas: o herói e o criminoso – mas que, em alguns momentos, se confundem, poucas vezes o leitor consegue distinguir um do outro. De qualquer forma, encharcados de niilismo, esses indivíduos procuram por algo mais do que salvar a própria pele. Embora adotem métodos de ação divergentes, seguem – religiosamente – os objetivos que traçaram: desmascarar/mascarar os mecanismos de opressão e violência que envolvem a vida cotidiana. Tudo depende de que lado estão – ou que acreditam estarem.

Em Contrapeso, romance sul-coreano escrito por Djuna (Editora Suma das Letras, 2024. Tradução de Luís Girão), um mercenário, Mac, se envolve em uma espécie de teoria da conspiração. O tema principal da narrativa se divide entre a construção de um elevador espacial em Patusan, uma ilha longínqua, e a luta intestina pelo controle do grupo LK – um conglomerado que possui ramificações em várias áreas científicas. Nesse cenário muito próximo da selvageria, a modernidade se esvai, embora estabeleça os contornos de uma sociedade que se projeta como modelo futurista – esquecendo que esse tipo de projeto promete libertar o mundo da pobreza, mas sempre existem locais onde a tecnologia é insuficiente.  

Os pontos significativos do texto sugerem que o porvir pertence à inteligência artificial (esse monstro que vive de armazenar informações alheias) e que a privacidade desaparecerá. Confirmadas estas duas hipóteses, a história da humanidade estará estruturada na sensação constante de que cada um dos indivíduos será monitorado por algum tipo de mecanismo de controle eletrônico. A nova síndrome médica da modernidade passa a ser a paranoia, esse mal-estar que surge da sensação (simbólica, imaginária, real) de repressão policial e militar.

Para tentar obter um antídoto contra essa percepção (e, ao mesmo tempo, ampliá-la) surge a necessidade de formar grupos de resistência. Evidentemente, qualquer movimento subversivo ao ordenamento estatal precisará enfrentar e/ou superar perigos inimagináveis.      

Mac, narrador em primeira pessoa, oferece uma versão particular dos acontecimentos, mas o seu pensamento se mostra confuso (detalhista em alguns momentos, disperso em outros), sempre interessado em construir uma versão que o favorece (diminuindo a sua participação em alguns horrores – inclusive no extermínio daqueles que se mostram contrários à construção do elevador).

A confusão se multiplica com a incursão de Choi Kang-woo (um funcionário do grupo LK Space) no contrapeso (a estrutura de sustentação do elevador espacial). Parece cena adaptada de enredo de Philip K. Dick, mas com menos inspiração. Falta intensidade e sobra superficialidade – a projeção holográfica de Kim Jae-in e o “fantasma” de Han Bu-kyeom são elementos narrativos dispersivos e que atuam no velho ritmo “encher linguiça”, comprovando que o livro, em determinado momento, perdeu o sentido e a direção.     

Contrapeso possui qualidade para ser adaptado pelo cinema, espaço artístico onde o entretenimento feérico supera o conteúdo político.         

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P.S:

1) Djuna é um pseudônimo. Nada se sabe sobre o seu nome, gênero ou idade.

2) Neuromancer, de William Gibson (Editora Aleph, 2008), o melhor romance cyberpunk de todos os tempos   


terça-feira, 16 de junho de 2026

AS REFLEXÕES DE PETER SCHJELDAHL SOBRE A MORTE

 


Em A Arte de Morrer (Editora Olhares, 2026. Tradução de Jorge Henrique Cordeiro), foram reunidos os últimos 45 ensaios do crítico de arte estadunidense Peter Schjeldahl (1942-2022). Aliando um estilo único (mordacidade e humor) com observações perspicazes, ele fez um mapeamento do mundo artístico: Gosto de dizer que a arte contemporânea consiste em todas as obras de arte, tenha ela cinco mil anos ou cinco minutos, que existam fisicamente no presente. Nós as vemos com um olhar contemporâneo, o único que existe.    

Os trechos recortados fazem parte do ensaio autobiográfico A arte de morrer, publicado em dezembro de 2019, na revista The New Yorker. Ao estilo de Sêneca, misturado com Montaigne, Schjeldahl se preparou para a morte através da filosofia.


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– Câncer de pulmão, desenfreado. Nenhuma surpresa. Fumo desde os 16 anos, quando ia atrás das arquibancadas do campo de futebol americano do colégio, em Northfield, Minnesota. Me constrangia a ideia de morrer jovem e pensar que as pessoas comentariam com ar de sabedoria: “Ele fumava, sabia?” Mas, aos 77 anos, estou na fase em que a morte já não é uma surpresa.   

– A morte se parece mais com uma pintura do que com uma escultura, porque é vista apenas de um lado. Monocromática – como o antigo Muro de Berlim, de um cinza-mausoléu, que os garotos de Berlim Ocidental glamourizaram com pichações. É o que estou tentando fazer aqui.

–  A vida não continua. Não vai a lugar algum, além de ir embora. A morte continua. Seguir em frente é o que a morte faz para viver. O segredo para sobreviver no universo é estar morto.

– Enterrem-me. Nada de cremação. Quero um endereço para que as pessoas possam visitar mesmo que não o façam. Bobagem essa coisa de jogar as cinzas em uma brisa aleatória ao mar ou espalhar em um campo de vegetação inofensiva. Ou ficar em um vaso. (...) Na verdade, façam o que quiserem com o cadáver – não sou eu, não é meu.

– Estive em Oaxaca [México] por duas vezes no Dia dos Mortos, quando membros de uma família que já partiram têm à disposição refeições com suas comidas, bebidas e talvez até cigarros favoritos. Entende-se que, à mesa, os mortos consomem a bondade imaterial dessas coisas. As famílias os visitam à noite nos cemitérios. Fiquei profundamente comovido com a ideia de que a morte pode ser um grande evento da vida, como o nascimento, a crisma e o casamento, mas que isso não significa que você desapareceu. Compartilhamos com os mortos um pouco da vida que há em nós. Estremeci de repente durante minha segunda caminhada entre os plácidos grupos iluminados por velas. Foi então que me ocorreu que os mortos estavam retribuindo: um pouco da morte deles para nós. Nunca totalmente mortos, nunca totalmente vivos.

Posso estar errado, mas estou saboreando essa ideia. Hoje, o pequeno pedaço da morte em mim sentou-se na cama e está calçando as meias.     

– Estranhamente, ou não, penso menos sobre a morte do que costumava fazer antes. Pensei estar me enganando em minhas reflexões sobre o assunto enquanto minha vida se estendia à minha frente rumo a um horizonte invisível. Mas não. O pensar abriu caminhos pelos quais hoje trilho. Eles envolvem aceitação. Por que eu? Por que não eu? Na verdade, eu. É a minha vez de observar a vida da margem distante da morte, que se aproxima cada vez mais.   

– Levem a morte para dar uma volta em suas mentes, pessoal. Ou vocês ficarão felizes por terem feito isso, ou, se caírem duros de repente, não terão perdido nada.


Peter Schjeldahl (1942-2022)


sexta-feira, 12 de junho de 2026

AS BATALHAS NO DESERTO

 


O primeiro amor costuma criar lembranças eternas. Carlos, o narrador de As batalhas do deserto, de José Emilio Pacheco (Editora Pinard, 2026. Tradução de Ari Roitman) se apaixonou pela mãe de Jim, um amigo da escola. O maior problema não está na transgressão das normas sociais, na traição aos rituais da amizade, ou na declaração amorosa – o que incomoda é a diferença de idade. O menino ainda não entrou na adolescência – a mulher tem 28 anos.

Ao recordar a situação, Carlos afirma Que estupidez eu me meter numa encrenca que poderia ter evitado simplesmente desistindo de fazer a minha imbecil declaração de amor. Tarde demais para me arrepender: fiz o que tinha que fazer e, mesmo agora, tantos anos depois, não vou negar que me apaixonei por Mariana.

Na impossibilidade de impedir o fluxo dos acontecimentos, o episódio se transforma em grande escândalo familiar e escolar. Tudo mundo fica sabendo da audácia do garoto. A família o retira da escola e, entre os diversos procedimentos para “curar” o desatino, o leva à igreja – no confessionário, os argumentos usados pelo padre são os dos adultos, pessoas incapazes de entender o contexto platônico da paixão. Em contrapartida, o psiquiatra não encontra dificuldade para interpretar a situação e decreta: o menino é espertíssimo e extraordinariamente precoce, tanto que aos quinze anos poderia se tornar um idiota completo. (...) Está buscando o afeto que não encontra na família.

Hector, guiado pelas ilusões do machismo, não se controla e cumprimenta o irmão mais novo: Que maravilha, Carlinhos! Achei incrível esse teu lance! Nossa, com a tua idade ir paquerar aquela dona que é um verdadeiro pedaço de mau caminho... mais boazuda que a Rita Hayworth, com certeza!  Nem imagino o que você vai aprontar quando crescer, seu danado.

Essas opiniões divergentes só servem para constatar que ninguém conseguiu entender o que aconteceu. Falta acolhimento, empatia, compreensão. Sobra preconceito. Negam os benefícios da escolha afetiva (aflitiva) que é estar apaixonado.     

Se o tempo cura todas dores, Carlos só conseguiu amarrar as pontas que ficaram soltas quando, alguns anos depois, ao retornar da aula de tênis, encontra outro colega da escola antiga, Rosales, que lhe conta a parte da história que lhe foi subtraída. Mariana (depois de brigar com o amante) se suicidou, Jim foi morar em Estados Unidos, os pobres continuavam pobres (diferente da prosperidade da família de Carlos) e todos estavam tentando sobreviver na medida do possível.

Que antiga, que remota, que impossível é esta história. Mas Mariana existiu, Jim existiu, tudo aquilo que eu repetia para mim mesmo, depois de tanto tempo me recusando a enfrentar, existiu mesmo. Jamais vou saber se o suicídio foi real. Nunca mais vi Rosales, nem mais ninguém daquela época. Demoliram a escola, demoliram o edifício de Mariana, demoliram a minha casa. (...) Acabou aquela cidade. Aquele país terminou. Não há mais memória do México daqueles anos. E ninguém ligou: quem vai ter saudade daquele horror? Tudo passou, como os discos passam um atrás do outro em um jukebox. Nunca vou saber se Mariana está viva. Se estiver, teria hoje oitenta anos.          


José Emilio Pacheco (1939-2014)