É
possível que 38 toneladas de aço desapareçam e que ninguém tenha a mínima ideia
de como foi que isso aconteceu? Essa é a história de Equal-Parallel/Guernica-Bengasi,
escultura de Richard Serra (1938-2024), que integrou (integra) o acervo do Museu
Reina Sofia (Madrid, Espanha).
A
linguagem artística desenvolvida por Richard Serra tem como objetivo a ocupação
espacial. Equal-Parallel/Guernica-Bengasi propõe a representação
simbólica dos massacres ocorridos em Guernica (Espanha, 1937) e Bengasi (Líbia,
1986). É uma escultura tridimensional (altura, comprimento, largura) e apresenta
quatro blocos de aço corten, sendo que dois são quadrados (148,5 x 148,5
x 24 cm) e dois retangulares (148,5 x 500 x 24 cm). As peças estão posicionadas
alternadamente, deixando um espaço vazio central – por onde os visitantes do
museu podem transitar.
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| Equal-Parallel/Guernica-Bengasi (Museu Reina Sofia, Madrid) |
Em
1990, a escultura foi retirada do museu e depositada no pátio de uma empresa especializada
em armazenamento de obras de arte, em Arganda del Rey (28 km a sudeste de
Madrid). Em 2005, diante da possibilidade de exibi-la mais uma vez, fracassaram
as tentativas de localizá-la. Quatro meses depois da diretoria do museu estar
ciente de que o artefato não podia ser encontrado, os jornais estamparam, em manchetes,
o seu desaparecimento. Todos queriam saber como o museu conseguiu perder um
item do patrimônio artístico espanhol (que tinha custado US$ 200.000,00). O
mistério ficou mais complicado quando se descobriu que a empresa responsável
pela guarda do objeto tinha falido e que o prédio que abriga o Arquivo Geral da
Previdência Social está localizado exatamente no local onde deveria estar a escultura.
Juan
Tallón descreve essa confusão em Obra-prima (Editora Nós, 2026. Tradução
de Joca Reiners Terron). Através de uma espécie de algaravia polifônica (depoimentos
de diretores do museu, jornalistas, funcionários da empresa de transporte,
policiais, marchands, curadores, artistas plásticos, engenheiros, empresários
industriais, além das diversas pessoas que, de uma forma ou de outra, estiveram
envolvidas no acontecimento), o livro propõe ao leitor um quebra-cabeças, onde
as peças vão se encaixando umas nas outras através de vozes que parecem estar falando
de coisas diferentes, embora o assunto seja comum. Isso não impede que tratem a
situação de acordo com a conveniência, sem se preocupar que a soma das partes
seja diferente do resultado final.
Nesse
percurso, a narrativa vai costurando várias histórias paralelas (exposições, ocupação
das praças e parques com obras de arte, dificuldades com as instalações,
problemas com a produção das esculturas ou os relacionamentos com os artistas) e
introduzindo personagens improváveis como o músico Philip Glass, os escritores
Cesar Aira, Paul Auster, Siri Hustvedt e membros do Euskadi Ta Askatasuna (ETA).
O
desaparecimento de uma obra afeta tudo. É como quando você deixa cair no chão
uma xícara de café. O líquido se espalha em um número infinito de direções, às
vezes até no teto. É impossível limpar por completo as manchas, mesmo que à
primeira vista pareça impecável. Meses depois, você muda um sofá ou um móvel de
lugar e encontra vestígios daquele café por baixo.
O
incidente resultou em uma imensa (e intensa) auditoria nos procedimentos
administrativos do Museu Reina Sofia (e, consequentemente, nos demais
museus do mundo). Muitas irregularidades foram descobertas. Uma das mais
significativas revelou que o museu devia muito dinheiro à empresa que tinha a
guarda da escultura – nunca quitou a dívida, não pediu a devolução da escultura
e continuou mantendo o serviço. Em contrapartida, o estado espanhol exigiu o
pagamento de impostos e de contribuições da Previdência Social. De forma simplificada: sem receita, a empresa não
teve alternativa senão declarar a insolvência (Ela me lembrava aqueles
navios no meio do nevoeiro que não vão a lugar algum, dos quais não existe
sequer uma tripulação, diz o vigia dos galpões vazios). Estaria isso ligado
ao sumiço da escultura? E justificaria as duas teses mais difundidas na época:
a escultura foi vendida como sucata ou estaria enterrada embaixo do edifício do
Arquivo Geral da Previdência Social? Ninguém conseguiu responder essas
perguntas – inclusive porque o escândalo (assim como o café derramado) nunca foi
amenizado.
Mesmo
que se admita que Tudo o que é sólido desmancha no ar, o que é uma piada
infame, o caso expôs a falta de habilidade no gerenciamento dos bens do Estado.
Além de emitir ridículos comunicados oficiais (aqueles que tratam os incidentes
como casos isolados), não agir é quase um mantra quando ocorre qualquer
situação estranha ao manual de procedimentos burocráticos. Nenhum funcionário
público gosta de lidar com aborrecimentos; melhor que sejam esquecidos por
algum tempo (torcendo para que isso se prolongue infinitamente). Mesmo assim,
algumas tentativas de encontrar os blocos desaparecidos foram feitas pela
polícia. Obviamente, a frustração se fez presente.
Como
remendo a tantas trapalhadas, Richard Serra fez, em 2009, uma réplica da
escultura – que está em exposição permanente em uma das salas do museu. Essa
substituição produziu um efeito de estranhamento muito complicado: (...)
quatro peças de ferro são arte e, de repente, quando elas se perdem, ele [Richard
Serra] decide que não são mais arte e que o que é arte é a cópia da
escultura. Essa arbitrariedade incomoda e cria a possibilidade de assegurar
às cópias a mesma aura (no sentido benjaminiano) que se supõe existir
nas peças originais. É uma inversão conceitual e um desafio para a produção artística
contemporânea. De qualquer forma, com humor ferino, Isidoro Valcércel resumiu
a situação dizendo que a coisa mais artística da escultura de Serra é o seu
desaparecimento.
Uma
das grandes virtudes de Obra-prima consiste em realizar uma radiografia
do mercado mundial de arte, revelando que, distante dos olhos do público,
existe toda uma área nebulosa que mistura diversas questões morais
inconfessáveis. Em determinado momento o leitor descobre que O porto franco
de Genebra [Suíça] oferece confidencialidade e economia
significativa de impostos. Em outras palavras, é um dos lugares que servem
de esconderijo para objetos artísticos (ou não). Centenas de obras de artes (pinturas
e esculturas) estão abrigadas naquele que Seria o melhor museu do mundo se
fosse um museu. Não é um museu. É algo bem diferente, quase o oposto. Não há
nada lá dentro para ser visto. Tudo está depositado em caixas, permanentemente
oculto. Não é para ser visto. Para muitos proprietários, a arte moderna e
contemporânea é uma excelente maneira de diversificar investimentos,
protegendo-se contra a inflação. Em geral, a arte mantém seu valor ao longo do
tempo e, em muitos casos, aumenta de valor. Enfim, a arte mantém um
relacionamento simbiótico com a economia.
Obra-prima
é um texto que flutua no hibridismo. Não é um romance e está longe de ser
classificado como jornalismo. Não se encaixa nas categorias conceituais
existentes. É, de certa forma, uma anomalia literária – essa é a sua força.
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| Juan Tallón Salgado |
Richard
Serra, artista minimalista, procurava envolver o expectador em diferentes experiencias
de ocupação do espaço. Ou melhor, queria projetar um pouco de humanidade em
materiais inanimados. O contraste da relativa aspereza do aço corten com
o deslocamento das pessoas produz sensações que desestabilizam o olhar e chamam
a atenção para elementos que estão além do visível. O público pode ter a
impressão de que os artistas estão sempre dispostos ou motivados a fazer coisas
bonitas, mas se você conversar seriamente com eles, ficará claro que não é isso
que estão fazendo. A função da arte, a aspiração dos criadores, é fazer você
pensar. Com uma linguagem própria a cada vez, mas essa parece ser a função da
arte: mudar, mudar o significado, mudar o significado por meio da percepção,
não mudar o significado por meio da beleza.
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| Richard Serra (1938 - 2024) |