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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

SEIS SONETOS DE LUÍS VAZ DE CAMÕES

 

Luís Vaz de Camões (1524-1579 ou 1580)


Amor é um fogo que arde sem se ver,

é ferida que dói, e não se sente;

é um contentamento descontente,

é dor que desatina sem doer

 

É um não querer mais que bem querer;

é um andar solitário entre a gente;

é nunca contentar-se de contente;

é um cuidar que ganha em se perder.

 

É querer estar preso por vontade; 

é servir a quem vence o vencedor;

é ter, com quem nos mata, lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor

nos corações humanos amizade,

se tão contrário a si é o mesmo Amor?

 


Sete anos de pastor Jacob servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

mas não servia ao pai, servia a ela,

e a ela só por prêmio pretendia.

 

Os dias, na esperança de um só dia,

passava, contentando-se com vê-la;

porém o pai, usando de cautela,

em lugar de Raquel lhe dava Lia.

 

Vendo o triste pastor que com enganos

lhe fora assi negada a sua pastora,

como se a não tivera merecida,

 

começa de servir outros sete anos,

dizendo: “Mais servira, se não fora

para tão longo amor tão curta a vida”.

 

 

O dia em que eu nasci moura e pereça,

não o queira jamais o tempo dar;

não torne mais ao mundo e, se tornar,

eclipse nesse passo o Sol padeça.

 

A luz lhe falte, o Sol se lhe escureça,

mostre o mundo sinais de se acabar;

nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,

a mãe ao próprio filho não conheça.

 

As pessoas pasmadas, de ignorantes,

as lágrimas no rosto, a cor perdida,

cuidem que o mundo já se destruiu.

 

Ó gente temerosa, não te espantes,

que este dia deitou ao mundo a vida

mais desventurada que se viu!

 

  

Tanto de meu estado me acho incerto

que, em vivo ardor, tremendo estou de frio;

sem causa, juntamente choro e rio;

o mundo todo abarco e nada aperto.

 

É tudo quanto sinto um desconcerto;

da alma um fogo me sai, da vista um rio;

agora espero, agora desconfio,

agora desvario, agora acerto.

 

Estando em terra, chego aos Céus voando;

num’hora acho mil anos, e é de jeito

que em mil anos não posso achar um’hora.

 

Se me pergunta alguém porque assi ando,

respondo que não sei; porém suspeito

que só porque vos vi, minha Senhora.


 

Busque Amor novas artes, novo engenho,

para matar-me, e novas esquivanças;

que não pode tirar-me as esperanças,

que mal me tirará o que eu não tenho.

 

Olhai de que esperanças me mantenho!

Vede que perigosas seguranças!

Que não temo contrastes nem mudanças,

Andando em bravo mar, perdido o lenho.

 

Mas, conquanto não pode haver desgosto

onde esperança falta, lá me esconde

Amor um mal, que mata e não se vê.

 

Que dias há que na alma me tem posto

um não sei quê, que nasce não sei onde,

vem não sei como, e dói não sei por quê.


 

Alma minha gentil, que te partiste

tão cedo desta vida descontente,

repousa lá no Céu eternamente,

e viva eu cá na terra sempre triste.

 

Se lá no assento etéreo, onde subiste,

memória desta vida se consente,

não te esqueça daquele amor ardente

que já nos olhos meus tão puro viste.

 

E se vires que pode merecer-te

algũa cousa a dor que me ficou

da mágoa, sem remédio, de perder-te,

 

roga a Deus, que teus anos encurtou,

que tão cedo de cá me leve a ver-te,

quão cedo de meus olhos te levou.

 

sábado, 31 de janeiro de 2026

TARÂNTULA

 


Uma história devastadora – como compete à literatura que denuncia a violência, a desumanização e o fascismo. Misturando tempos cronológicos em capítulos curtos, Tarântula, de Eduardo Halfon (Editora Autêntica, 2025. Tradução de Silvia Massimini Felix), aborda os acontecimentos (e seus desdobramentos) em um acampamento de férias na Guatemala, quando o narrador e seu irmão tinham 13 e 12 anos, respectivamente.

A recriação de um campo de concentração nazista, sob a alegação pedagógica de que os jovens deveriam ter algum conhecimento do sofrimento de seus ancestrais durante a II Guerra Mundial, não só mostra a paranoia como uma doença nociva, como estimula a invenção do inimigo – ente, em princípio, inexistente, mas que vai adquirindo substância na medida em que o ódio se estabelece como parâmetro para todas as coisas. Não por acaso, muitos anos depois, o narrador (que também se chama Eduardo) ouve do agressor (Samuel Blum) o provérbio latino: Si vis pacem, para bellum (se queres a paz, prepara-te para a guerra).  

Suponho que, diante da adversidade, algumas pessoas reagem lutando, e outras mais covardes saem correndo para a floresta. Movido pelo impulso da sobrevivência, ciente que a situação estava se tornando incontrolável, Eduardo, na primeira oportunidade, prefere deixar o grupo e mergulhar no desconhecido. No habitat das árvores, dos animais selvagens, dos terrores inimagináveis e de pessoas estranhas, a grande lição de aprendizado, a passagem da adolescência para o mundo adulto, a compreensão de que o humano se divide em incontáveis nuances, e, por fim, o entendimento de que fugir também pode ser um ato de coragem. Na floresta (com os seus perigos), o menino recupera a racionalidade e percebe que existem pessoas que sentem prazer em torturar outras pessoas.

Muitos anos depois, em Paris e Berlim, Eduardo (um escritor conhecido, talvez o autor da narrativa) encontra dois dos personagens presentes no pseudo-acampamento. Ao conversar com eles (mas sem os desculpar), descobre os detalhes da trama/trauma que fundamentava aqueles momentos de agressão e que tinham como objetivo efetuar uma lavagem cerebral ideológica: Na tarde seguinte, enquanto nós doze fazíamos uma caminhada com Samuel ao longo de um riacho, e possivelmente a tudo que ele passara nos dizendo e pregando, comecei a entender que as atividades, mais do que didáticas, eram de doutrinação.

O mais trágico da situação está no fato de que todo aquele horror tinha a anuência das famílias dos adolescentes e que nenhum desses pais tinha consciência de que, em algum momento, a situação poderia resultar em algum tipo de dano irreversível. Foi a fuga de Eduardo que fez com que o castelo de cartas desmoronasse.    

A picada da tarântula costuma causar irritação e dor local – o risco de morte não é significativo, assim como certas ações da política contemporânea. Mas, torna-se imprescindível observar que a cicatriz nunca mais desaparecerá e que o oprimido de ontem pode se transformar no opressor de hoje. Foi a visão de uma tarântula tatuada no braço esquerdo de Samuel que esclareceu os objetivos de reunir todos aqueles adolescentes na selva da Guatemala.    

São as lembranças fraturadas (que misturam o passado e o imaginário) que fundamentam a narrativa. Essas imagens vão ficando desbotadas com o passar dos dias, então é necessário dar-lhes existência real antes que sejam tragadas pelo esquecimento:  Existem histórias-zepelim. Foi assim que descreveu o escritor cubano José Lezama Lima. Observa-se uma história passando, disse ele, como se observa um zepelim passando. Embora seja possível que Lezama Lima não tenha dito isso. Também é possível que ele não tenha dito uma história, mas sim um poema. Mas tanto faz. A comparação funciona do mesmo jeito.

 

Eduardo Halfon

Parte da obra literária de Eduardo Halfon possui tradução no Brasil: O boxeador polaco (Editora Rocco, 2014), Luto (Editora Mundaréu, 2018), Canción (Editora Mundaréu, 2022) e Tarântula (Editora Autêntica, 2025).


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

SOBRE A MESA

 


A literatura precisa ter sabor e, ao virar das páginas de um livro, despertar a famosa vontade de quero mais. De certa forma, o coração e a mente do leitor precisam ser alimentados. Principalmente quando deixam a sofisticação de lado. Ninguém come lagosta ou caviar todos os dias. Há quem prefira arroz, feijão e alguma proteína – o suficiente para uma boa alimentação.

Essa frugalidade está inscrita na produção ficcional de Regina Behar. São textos para comer com os olhos, para celebrar o ato civilizatório que constitui as refeições. Seja quando alguém está cozinhando, seja quando os personagens participam de algum evento em botecos, cafés e restaurantes. A vida multiplica a alegria quando comidas e bebidas são servidas, compartilhadas. É uma forma de criar um lugar à mesa para o leitor.

Em Sobre a mesa (Editora Dromedário, 2025), a relação entre as narrativas e a gastronomia aparece nos eventos cotidianos. Não importa a circunstância: as lembranças do marido morto, os aborrecimentos com o telemarketing, a presença do falso conhecedor de vinhos, os fantasmas familiares, a patroa malvada, o poder mágico da leitura, o desfrutar das geleias e dos doces caseiros. Nas entrelinhas estão o humor, o rancor, o medo, as muitas sutilezas que vão sendo acrescentadas às camadas que constituem as demandas humanas. Tudo isso temperado com algumas referências culturais (Cinema Paradiso, Alceu Valença, bolachas Maria, Carlos Drummond de Andrade, Lima Barreto, Saint-Exupéry, sabedoria popular, etc.).

Essas misturas no caldeirão literário, evidentemente, não evitam, em alguns contos, que as papilas gustativas do leitor sejam contaminadas pelo efeito residual agridoce que resulta da combinação nem sempre pacífica entre o chocolate e a pimenta, entre o afeto e a amargura. Nunca mais havia lembrado dele, mas naquela mesa de amigas, bebendo e compartilhando amores perdidos, ele voltou tão forte que só falei da superfície. Um episódio de amor, uma passagem da juventude. (...) Mas não falei do inconfessável e tentei esquecer.

Talvez seja por isso que algumas histórias são conduzidas em banho Maria, o desfecho suave evitando o sal de frutas, ou melhor, a indigestão. São essas sutilezas, especiarias raras, que impedem que as narrativas, como uma maionese mal feita, desandem e produzam efeitos indesejados.

Livro de receitas um pouco diferente daqueles que foram escritos por Dona Benta, Anthony Bourdain ou qualquer chef de cuisine francês, Sobre a mesa evoca as refeições na casa da avó, as histórias contadas nas cozinhas de fogo de chão, um mundo que deixou de existir – embora se renove a todo instante, o eterno PF (prato feito) do dia a dia.

Naquele sábado eu tinha outros planos: o grupo de literatura, o cineminha com as meninas, ou o happy hour com Gilberto naquele motel no caminho do fim do mundo... Ai Jesus, perdão, mas se Nossa Senhora fosse casada com o Aristides, faria o mesmo. O que esse homem já me traiu... Perdão, Nossa Senhora, Virgem Maria esqueça o que disse. (...) Eu é que sou uma pecadora mesmo, mas considere as minhas razões... Certos deslizes produzem um intenso salivar, a lembrança do sumo da fruta madura a manchar a vida com o gosto do passado. 

É na simplicidade que a felicidade encontra morada. E isso está bem definido no livro de Regina Behar. Ninguém fica com fome lendo os contos de Sobre a mesa.


Regina Maria Rodrigues Behar

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O GAROTO DO MEU PAI

 


Não tenho medo da morte. O que me aterroriza é a aproximação dela. A frase, atribuída ao escritor Oscar Wilde, de certa forma, multiplica o alcance do romance autobiográfico O garoto do meu pai, de Emmanuelle Lambert (Editora Autêntica Contemporânea, 2023. Tradução de Adriana Lisboa). A narradora, sem conseguir conter a emoção, precisa contar ao leitor como foram os últimos dias de seu pai. O câncer estava sugando as últimas forças de matemático que trabalhou com programação de computadores, que era um leitor voraz (inclusive de ficção científica), que jogava pôquer, bridge, xadrez e vôlei, que gostava de música (ópera) e de cachorros, que ajudou a criar duas filhas com amor e rispidez. 

Na Cerimônia do adeus, ritualizada em uma narrativa descosturada, cabe àquela que era sua filhinha, que ele arrastava meio que para todo canto como ela fosse um menino, reconstruir o presente e o passado, mesmo que em alguns momentos o tempo se mostre complicado, o hoje e o ontem misturados como se fossem uma coisa só. Susan Sontag não é citada no texto, mas uma de suas frases atravessa a narrativa como se fosse um dogma: Todas as pessoas vivas têm dupla cidadania, uma no reino da saúde e outra no reino da doença. Essa sentença projeta a ameaça latente, o encerramento do ciclo da vida.   

A questão principal do livro é outra: como devemos nos comportar diante da morte daqueles que amamos? A narradora vai descrevendo o que acontece no hospital (esse labirinto de paredes assépticas: lavanda e damasco). Uma última tentativa desesperada de impedir o inevitável: a enfermeira fala com calma, explica as diferentes doses do tratamento. Eu franzo uma sobrancelha para dar a impressão de entender algo dessa coisa que não entendo. O sofrimento – para o doente, para quem o está acompanhando – causa tormento: Dizem-me “tratamento experimental”, ouço “se ele vai morrer mesmo, pelo menos que isso sirva para alguma coisa”. E fico cega à utilidade daquilo, só vejo a vida que ainda pulsa em suas veias, a ele, que quero manter perto de mim, agora, para sempre.

Então, na terça-feira, Quando voltamos ao quarto (...). Repeti o que ele me dissera: ele não queria o tratamento. Todos nós sabíamos que isso o condenava a um prazo muito curto. O dr. K. pretendia, por sua vez, honrar o pacto que o unia a seu paciente. Queria ter certeza de que entendíamos. (...) Ele encarou o médico com um olhar fixo, articulando lentamente: “Quero morrer”. Depois disso não havia mais nada a dizer.  

Então, cessam todas as tentativas de prolongar a existência, a vontade do doente deve ser respeitada, mas sob uma mínima condição: Agarramo-nos aos olhos do dr. K., ele não está sentindo dor, não é?, isso é principal, a única coisa que importa, o resto podemos aceitar, no fundo é a vida que vai, não é a morte que é intolerável, é o sofrimento animalesco. Grandes doses de morfina são injetadas no corpo doente – uma forma piedosa de chamar pela morte.

Através de digressões sobre a vida familiar, o relato procura reconstituir a existência daquele que até algum tempo atrás era força e substância. Na cartografia do imaginário, o território da perda está repleto de armadilhas. A qualquer momento pode surgir uma crise, um momento de desespero, difícil conter o turbilhão que acompanha a ausência, mesmo quando se está ciente do que nos espera, o pó, a invisibilidade de nossas trajetórias. Escrever sobre a morte do pai consiste em um esforço de resistência ao apagamento da memória – mesmo sabendo que as palavras são insuficientes para expressar os sentimentos.

Livro triste, O garoto do meu pai também celebra a vida, esse espetáculo com hora marcada para terminar. Inclinei-me sobre ele, sua respiração parou. Acariciei sua cabeça, depositei um beijo em sua testa e sussurrei em seu ouvido, vai ficar tudo bem, pai; e ficou tudo bem.  

  

TRECHO ESCOLHIDO

O fato de não poder mais ler por exaustão era para ele, sem dúvida, a coisa mais intimamente cruel e degradante. Isso atacava seu ser interior, o garoto perdido cujos únicos amigos sempre tinham sido os livros. A mesa de cabeceira, por mais que estivesse cheia de jornais, revistas, tablets e telefones, de todas essas próteses essenciais à nossa vida consumista, parecia-me então completamente vazia. Ele queria morrer; tinha razão.


Emmanuelle Lambert


domingo, 11 de janeiro de 2026

COISA DE RICO

 


Existe um mundo paralelo ao dos mortais e que está sob a regência do dinheiro. Mas, cuidado, não se deve confundir os ricos com "os ricos". São duas classes distintas – e antagônicas. Na nova Idade Média que identifica a contemporaneidade, não basta ter patrimônio físico, também é necessário ter um nome de família respeitável. Ou seja, tradição, história e, embora não seja prioridade, um currículo educacional nas melhores universidades (Ivy league, por exemplo). Os novos ricos são tratados como párias na “alta” sociedade.    

A venda de cerca de duzentos mil exemplares do livro Coisa de rico – a vida dos endinheirados brasileiros, do antropólogo Michel Alconforado, sinaliza que a curiosidade com o universo dos milionários é inesgotável: os leitores querem saber como vivem, como se alimentam e onde habitam essas pessoas estranhas. Nesse sentido, o livro – que utiliza uma linguagem fluente, acessível para qualquer um – foi construído como um anedotário das diferenças entre os ricos antigos e os novos ricos, entre os que desejam comprar glamour e finesse e aqueles que, em nome da cultura civilizatória, combatem os bárbaros. Os primeiros, transformaram Miami em um parque de diversões do consumo; os segundo, como medida de proteção, se escondem em Genebra ou em algum recanto paradisíaco inacessível.  

Esse embate fornece cor e sabor ao espetáculo – ao mesmo tempo que retrata as movimentações na pirâmide econômica. Se O tempo das elites é um intervalo suficiente para inventar uma tradição, como afirma Alconforado, o tempo dos que estão ascendendo na cadeia alimentar precisa ser o agora. Por isso ostentam, esbanjam, adquirem objetos de luxo e apartamentos em prédios modernos. Fazem o que for possível para serem percebidos como “vencedores”. Discrição não existe na órbita dos emergentes. Eles atropelam a língua portuguesa (e a inglesa), promovem confusões nos restaurantes, ostentam roupas de marca e pretendem parecer o que nunca serão. O vexame se transforma em uma forma de diferenciação no mundo competitivo da riqueza.

A maneira como as elites usam as coisas de rico desperta o interesse de outros grupos sociais. Só que, à medida que se popularizam, as coisas de rico perdem a força e morrem. São peças simbolicamente frágeis. O que ontem era uma forma de distinção, hoje está descartado. Grifes de roupas e acessórios, automóveis, restaurantes e bairros residenciais adquirem o rótulo "desprezível" na medida em que se tornam acessíveis a qualquer um. Os valores que orientam as famílias tradicionais são outros e exigem exclusividade. Um ricaço deve conhecer o poder de suas traquitanas e saber usá-las com eficácia, de modo que elas gritem para os “de dentro” a riqueza acumulada e, ao mesmo tempo, se mostrem como uma esfinge aos “de fora”.

O poder econômico tradicional está alicerçado em códigos invisíveis (que reforçam privilégios e naturalizam as desigualdades). É um modelo de pensamento que amplia as distâncias entre os que “estão dentro” e os que “estão fora” e que, sobretudo, seja para proteger alguns ideais, seja para impedir o contágio com pessoas de outro nível de riqueza, prefere se enclausurar em grupos com interesses comuns (clubes sociais, condomínios exclusivos, almoços ou jantares de negócios).

Em paralelo, aqueles que gostariam de compartilhar dos privilégios, os novos-ricos, precisam recorrer a uma engenharia de transformação (...) para enfrentar a batalha pelo reconhecimento. E isso significa comprar tudo aquilo que estiver ao alcance do cartão de crédito: substituir o natural, mudar a aparência, acrescentar depois de pronto, suprir a falta. O artificial adquire status de verdadeiro, porque respaldado pela necessidade de pertencimento. Todo esse esforço se mostra lento e repleto de tropeços (mas é celebrado com estoicismo e otimismo). O segredo é fazer os outros acreditarem que se é o que se é desde sempre.          

Coisa de rico – a vida dos endinheirados brasileiros aposta no hibridismo. Ao mesmo tempo que se mostra mordaz com aqueles que possuem dinheiro novo, revela alguma simpatia por aqueles que administram o dinheiro antigo. Entre a elegância e o folclore, entre os que nasceram em berço de ouro e os arrivistas, a narrativa parece flutuar – incapaz de perceber que o encontro com o chão causará danos irreversíveis. É, na sua essência, um livro de fofocas (disfarçado de estudo antropológico).

 

 

Michel Alconforado é doutor em antropologia social e ficou conhecido como o antropólogo do luxo por estudar as relações de consumo e o modo de vida das elites econômicas no Brasil. Apresenta o programa Para onde vamos, na Rádio CBN.