(Nelson Rodrigues)
Escrever sobre futebol implica em colocar a emoção antes do racional. E isso deve ser entendido na medida em que a linguagem (repleta de truques semânticos) está constituída por interstícios – o não dito, quando substitui o que deveria ser expresso, alimenta a fantasia de que ganhar uma ou várias partidas implica em afastar o sofrimento.
Fabio Luiz Barbosa dos Santos, envolto em anemoia (uma espécie de nostalgia por uma época, lugar ou evento não vivenciado ou conhecido), fez uma análise dos motivos que resultaram no futebol anêmico brasileiro em Saudades do que nunca fomos (Editora Elefante, 2026). Imerso no romantismo (que apaga a voz do real), o livro corre pelo gramado literário (esbanjando vocabulário progressista) e com muita vontade de fazer gol, mas... em diversos momentos mostra que o impedimento se tornou a regra geral. De qualquer forma, como lamenta o autor, nossa contribuição civilizatória estava no passado. E o sentimento de perda (que soma o Maracanazo com o sete a um) parece não ter fim.
A imagem refletida no espelho das ilusões mostra o declínio do talento sul-americano e a ascensão do futebol europeu, que combinado com o canto da sereia monetária, vai transformando o ludopédio em commodity (produto de caráter extrativista). Ou seja, valioso comercialmente no mercado internacional, o esporte se mostra incapaz de produzir benefícios internamente. Os clubes periféricos deixaram de ser movidos pela construção de times para se converterem em vitrines de jogadores exportáveis para os mercados centrais. A formação dos atletas passou a ser tratada como investimento – ou seja, um objeto que, potencialmente, deve se transformar em lucro: subordinados à lógica mercantil do futebol contemporâneo, os clubes sul-americanos operam para negociar jogadores, preferencialmente para o exterior, em lugar de negociar jogadores para construir uma equipe. Em outras palavras, o time deixou de ser a finalidade e tornou-se um meio para o negócio. A razão econômica substituiu a razão esportiva.
Alguma coisa se quebrou no meio do caminho. E isso contribuiu para que fosse erguida uma barreira entre o país e a seleção. A globalização esvaziou a possibilidade de um horizonte nacional-desenvolvimentista, enquanto o neoliberalismo consagrou a concorrência como princípio organizador da vida social, produzindo uma sociabilidade autofágica, em que todos lutam contra todos. A consequência imediata dessa forma de raciocínio encontra na apropriação da camisa amarela da seleção para fins políticos o seu maior exemplo. A dicotomia “nós” e “eles” expõe a nação fraturada. E encontra no enterro de Edson Arantes do Nascimento (Pelé) um dos pontos críticos da situação: aquela perda não produziu um luto nacional. Nenhum campeão mundial foi prestar respeito ao Rei. As exceções foram Clodoaldo e Mauro Silva (que eram dirigentes esportivos). “Talvez as pessoas só vão em lugares onde elas ganham cachê”, arriscou o ex-jogador e comentarista Neto. A elegia ao passado deixou de existir, porque os valores pessoais estavam em transformação, e a comoção nacional teria que vir de outro lugar.
Mas, de qual lugar? À luz desse histórico, parece que o único caminho para recuperar a competividade brasileira é fazer com que os nossos europeus joguem melhor que os deles – algo como abandonar de vez a poesia em busca da consagração em prosa em língua estrangeira. Infelizmente essa estratégia aumenta o déficit a cada instante, inclusive porque a capacidade técnica foi substituída pelo entretenimento. O futebol foi driblado pelas finanças e transformado em reality show: a subsunção do futebol ao entretenimento mutila a sua riqueza semântica como esporte para reduzi-lo a mais uma commodity da indústria cultural, disponível nas prateleiras digitais. Instaura-se um paradoxo: de um lado, consome-se muito futebol, enquanto, ao mesmo tempo, o jogo em si importa cada vez menos.
Em determinado momento, Fabio Luiz Barbosa dos Santos relaciona o declínio do futebol brasileiro com o processo de evangelização dos jogadores – que encontram no pensamento mágico uma justificativa para vitórias e derrotas. Deus entrou em campo e passou a jogar em todas posições. Nesse ritmo, a seleção (e incontáveis clubes) passou a acreditar no poder divino para resolver todos os problemas. Simultaneamente, ignora a existência do adversário – sombra sem identidade e que só está em campo para validar o resultado favorável. A frase do goleiro Taffarel, ao comentar o pênalti perdido por Roberto Baggio na Copa de 1994, é emblemática: Quem acredita em Deus nunca perderá para alguém que acredita em Buda.
Essa tese está sendo desmontada na medida em que o jogador “diferenciado”, que podia resolver a partida com um lance genial, deixou de existir. Aquele que era protegido pela divindade foi substituído pelos esquemas táticos – Deus decidiu que assim teria mais chances de controlar os acontecimentos.
O
tempo em que as equipes brasileiras eram temidas ficou no passado. Sobraram
apenas as ruínas. E os “cartolas” vitalícios – que, enquanto for possível, se
beneficiam de uma estrutura de poder corrupta.
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| Fabio Luis Barbosa dos Santos |








