(...) a verdade é que o tênis na TV está para o tênis ao vivo como um vídeo pornográfico para a real sensação do amor humano. Este, digamos, aforismo faz parte do ensaio Federer como experiência religiosa, de David Foster Wallace (1962-2008), publicado em agosto de 2006, e que integra o livro Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo (Editora Companhia das Letras, 2012. Tradução de Daniel Galera e Daniel Pellizzari).
A temporada esportiva do tênis, dividida em três tipos de pisos (quadra dura, saibro e grama), se estende por todo o ano e ocorre em lugares muito distantes entre si. Em outras palavras, por razões econômicas e logísticas, sobra aos aficionados o efeito compensador que é assistir alguns jogos à distância... pela televisão.
O tênis reúne infindáveis lances espetaculares (efeitos, “deixadinhas” e passadas – aquele momento desolador em que a bola, como se fosse um cometa, passa ao lado do jogador, quase como se ele não existisse). Para o bem e para o mal, a paixão de quem está assistindo ao jogo muitas vezes supera os esforços de quem está em quadra. E esses público raramente percebe o básico: que todos os jogadores possuem “instinto matador”, estabelecem estratégias de jogo e analisam o comportamento dos adversários em quadra. Nunca se trata de “apenas” ganhar ou perder, pois existe toda uma estrutura quase invisível no entorno de cada jogador (treinadores, nutricionistas, fisioterapeutas, empresários, patrocinadores, etc.). O resultado do jogo não depende da torcida.
Nunca segurei uma raquete, ignoro o peso da bolinha e nem mesmo joguei videogame de tênis. No entanto, gosto do esporte. Nos últimos três anos tenho assistido incontáveis partidas na televisão e torço pelo sucesso de alguns jogadores. Em contrapartida, não simpatizo com outros (alguns de meus amigos acham isso estranho e costumam me sacanear quando um desses tenistas consegue ganhar algumas partidas).
A
trilogia game, set, match está repleta de emoções – seja
porque mostra a importância do preparo físico, seja por situações que ocorrem
dentro da quadra (saques, devoluções, queda de rendimento, recuperação de placar adverso, jogadas inesperadas). Além disso, a questão emocional adiciona especial sabor aos
jogos. Alguns jogadores costumam perder a racionalidade durante as partidas e
mostram sentimentos que poderiam ser controlados através de ajuda
especializada, digo, psicológica: quebrar raquetes, gritar com o árbitro,
discutir com a equipe técnica e, não menos importante, automutilação. São
elementos de um show que apresenta entretenimento de qualidade sob a forma de
sofrimento esportivo.
David
Foster Wallace (que foi tenista amador) resumiu as competições de forma significativa:
A beleza não é o objetivo dos esportes de competição, mas o esporte de alto
nível é um palco privilegiado para a expressão da beleza humana. É a mesma
relação existente, em termos gerais, entre a coragem e a guerra. (...) Muitos
homens chegam a declarar seu “amor” pelo esporte, mas esse amor deve sempre ser
lançado e encenado na simbologia bélica: eliminação versus avanço,
hierarquia de posto e renome, estatística obsessiva, análise técnica, fervor
tribal e/ou nacionalista, uniformes, barulho da multidão, estandartes, batidas
no peito, rostos pintados etc. Por motivos pouco compreendidos, a maioria de
nós considera os códigos de guerra mais seguros que os do amor.
Algumas
referências culturais sobre o tênis.
Filmes:
Wimbledon – o jogo do amor (Dir. Richard Loncraine, 2004), Ponto final
- Match Point (Dir. Woody Allen, 2005), O quinto set (Dir. Quentin
Reynaud, 2020), King Richard – criando campeãs (Dir. Reinaldo Marcus Green,
2021), Rivais (Dir. Luca Guadagnino, 2025).
Livros:
A informação, de Martin Amis (Editora Companhia das Letras, 1995), Dupla
falta, de Lionel Shriver (Editora Intrínseca, 2011), A dupla perfeita,
de Ivy Bailey (Editora Alt, 2025).










