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terça-feira, 29 de outubro de 2024

QUANDO DEIXAMOS DE ENTENDER O MUNDO

 



Em algum momento deixamos de entender o mundo. Ninguém sabe exatamente quando, nem porquê. Mas aconteceu. O que parecia simples (um conjunto de regras sobre a natureza e que encontrava explicação no poder divino) de repente se tornou complexo, repleto de nuances e interpretações de difícil entendimento. Alguns sociólogos afirmam que essa ruptura está relacionada com o progresso das ciências, ocasião em que surgiram novas formas de percepção para os fenômenos físico-químicos. Quase todos os mistérios desapareceram. Uma fenda se abriu entre o antes e o depois. Além disso, o progresso tecnológico avançou de tal forma que criou uma ética ad hoc. Século após século, o mundo ficou diferente. E raramente foi para melhor.  

O chileno (nascido em Nederland) Benjamin Labatut analisa essas transformações em Como deixamos de entender o mundo (São Paulo: Todavia, 2022). O livro confirma o lugar comum de que existe uma linha muito tênue entre a genialidade e a loucura. Em muitos momentos se torna difícil distinguir quem está de um lado ou do outro. O que o livro informa é que o progresso da ciência depende mais dos malucos do que dos "normais". 

As áreas de concentração dessa turma são aquelas que se relacionam com a matemática, a física e a química. Os estudos produzidos por esses pesquisadores proporcionaram o surgimento de uma nova abordagem para as ciências: o mundo quântico. Nesse cenário, destacam-se Karl Schwarzschild, Shinichi Mochizuki, Alexander Grothendieck, Erwin Schrödinger, Werner Karl Heisenberg, Louis de Broglie, Niels Bohr e Albert Einstein, entre outros.  

Não foi um caminho fácil. Ao contrário, cada um desses pensadores encarava o objeto de estudo de uma forma peculiar e isso, além das dificuldades inerentes a um campo completamente inovador, exigiu uma disciplina que, muitas vezes, estava além das forças do pesquisador. Diante do abismo, Grothendieck e Mochizuki, por exemplo, preferiram caminhar na direção contrária – embora continuassem flertando com o monstro que não se cansava de querer dividir com eles a insanidade. 

Nos séculos XIX e XX, quando a violência dos humanos contra os humanos se tornou uma prática corriqueira, a indústria armamentista   através dos avanços tecnológicos – foi aprimorada. O que ninguém conseguiu perceber é que isso também decretou a morte da humanidade. A vida se tornou um produto descartável, sendo que a primeira guerra mundial foi o laboratório para que essas armas (no início, gases que usam compostos químicos nocivos à saúde) fossem utilizados contra o inimigo. Estranhamente, são esses experimentos genocidas  que permitiram que a ciência pudesse avançar na direção do uso racional dos elementos que constituem a natureza e de que forma é possível controlá-los.

Talvez tenha sido nesse momento que o entendimento do mundo se tornou nebuloso. As ilusões míticas, oriundas de um tempo ancestral, foram deixadas de lado e substituídas pelas formas inovadoras de abordagem das ciências. A técnica se tornou o elemento mais importante em todos os momentos de decisão. O passado perdeu a importância – porque abriga conhecimento inútil. O presente também não merece crédito. Somente o futuro, com suas promessas de destruição e de entendimento da totalidade, possuem algum valor. Mas, é preciso desfrutar dessas características avidamente, antes que o tempo as devore.

O livro termina com uma exposição romântica: o jardineiro noturno. Enquanto a natureza dorme, os indivíduos procuram se reconectar com os princípios vitais, com o pulsar do planeta. O progresso científico, em lugar de produzir alimentos e melhoria na qualidade de vida, multiplica os massacres e o extermínio humano. Ao constatar essa situação, a lucidez provavelmente se escondeu nas sombras – fugindo dos avanços de uma ciência que se alimenta da loucura.         




Benjamin Labatut

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

OLHAR O MUNDO ATRAVÉS DOS ÓCULOS LITERÁRIOS

 


Os óculos, na falta de melhor expressão, são uma das janelas para ver o mundo. Sou míope desde um tempo que não lembro mais. E não me reconheço sem essa ferramenta para olhar o longe. Por isso, e alguns outros motivos, o embaçar das lentes é um dos incômodos que mais me afeta no dia a dia.

Nas muitas vezes em que os óculos ficam pendurados na camisa, o horizonte se retrai. Uma enorme massa desfigurada se apresenta ao longe. Olho para baixo, para evitar tropeçar nos buracos que enfeiam as ruas da cidade. Caminhar está se tornando o mais perigoso dos deslocamentos urbanos.

O alcance visual desaparece. Lucina, personagem do romance Sangue no Olho (Lina Meruane. São Paulo: Cosac Naify, 2015), vai perdendo a visão aos poucos, uma tortura que vai se esparramando sem que apresente a mínima esperança de reversão. É uma perspectiva muito mais angustiante do que a metáfora política de Ensaio Sobre a Cegueira (José Saramago. São Paulo: Companhia das Letras, 1995), onde há (pedindo perdão pelo trocadilho ruim) uma luz no fim do túnel.

Jorge Luiz Borges viveu sem enxergar por 32 anos, mas nunca perdeu o costume de comprar livros. É o que relata o jovem Alberto Manguel (16 anos), funcionário da Livraria Pygmalion, em Buenos Aires. Em Com Borges (Belo Horizonte: Âyiné, 2018), Manguel relata: Um dia, após escolher alguns títulos, ele me convidou para visitá-lo e ler para ele à noite, caso eu não tivesse mais nada para fazer. Imagino que esse drama seja similar ao de Glauco Mattoso, que não enxerga faz algum tempo, mas continua compondo os seus poemas fesceninos com assiduidade.

Para João Cabral de Melo Neto, que foi perdendo, aos poucos, o contato com imagens e formas, a escuridão somada com a enxaqueca constante lhe tirou o gosto pela vida. A poesia cerebral, rigorosa na escolha de cada palavra, de cada verso, somente era possível na claridade.

Segundo a lenda grega, Homero era cego, recitava versos para poder sobreviver e a poesia era (literalmente) o seu alimento. John Milton teve glaucoma quando estava preso e ficou completamente cego em 1652 – parte de O Paraíso Perdido foi ditado para que amigos e empregados fossem registrando o poema, que foi publicado em 1667.

James Joyce se submeteu a várias cirurgias oftalmológicas, mas não foi possível atenuar as lesões oculares. Aldous Huxley foi vítima de uma doença rara aos 17 anos – na vida adulta compensou os danos com lentes de aumento. Luiz Vaz de Camões perdeu um dos olhos em uma batalha em África, mas isso não o impediu de produzir uma obra poética espetacular.

Entre os muitos medos que afligem os humanos, a opacidade ocular tem lugar de honra. Não me parece correto viver sem poder ler, sem poder desfrutar do espetáculo das cores. Todos aqueles que estão cientes de que a vida não é justa deveriam frequentar o consultório do oftalmologista com alguma frequência.

O uso de óculos possibilita uma pequena vantagem. A postura social de quem se movimenta pelas cidades exige que as pessoas se cumprimentem, sejam amáveis, finjam civilidade. Eu não sou fã desses procederes – principalmente em alguns casos específicos. Os óculos proporcionam uma desculpa fácil: Desculpe, não te vi.  


quinta-feira, 17 de outubro de 2024

O ACASO VAI ME PROTEGER / ENQUANTO EU ANDAR DISTRAÍDO?

 


Sofro de distração. Algumas vezes pensei em pedir ajuda especializada para, no mínimo, tentar entender o que está acontecendo. Enquanto isso, acrescento no currículo várias confusões e encrencas − algumas absolutamente ridículas. Um amigo, em momento de irritação e mau humor, disse que sou tão alienado em determinadas situações que – se um dia o mundo acabar – vou perder o espetáculo.

Diferente de alguns distraídos clássicos, minha patologia nunca passou pela humilhação de usar sapatos (ou meias) diferentes. Tampouco precisei amarrar fio de barbante (ou de linha) nos dedos para recordar alguma coisa importante. Jamais saí à rua faltando botão na camisa. Sempre tirei os óculos antes de ir para o banho. Em tempo algum entrei na sessão errada de cinema. Ah, consegui evitar o vexame que é esquecer o lugar onde o carro está estacionado (embora isso não seja vantagem: nunca tive carro e não sei dirigir).

O meu problema sempre foi de outra (des)ordem: nomes, datas, rostos. Repetidamente esqueço o dia de vencimento das contas – o que resulta em multas. Raras vezes consigo recordar do rosto das pessoas que me foram apresentadas na semana anterior. Certa vez quase viajei para Florianópolis sem documentos e dinheiro (a carteira ficou em cima da mesa e só percebi a tragédia dentro do táxi). Prometo escrever textos e só percebo a proximidade do “deadline” umas duas horas antes (nessas situações, pedidos de desculpa sempre se mostraram insuficientes). Raramente me lembro dos aniversários (irmãos, sobrinhos, amigos). Sou um desastre na arte cavalheiresca das boas maneiras sociais e familiares. Quem me salva é a agenda do telefone celular, programada para avisar que o circo vai pegar fogo se algo não for feito em regime de urgência.

O vexame maior ocorre em relação ao nome das pessoas. É um problema sério para quem trabalhou com jornalismo (e cultura). No meio de alguma conversa... você olha para a vítima e não consegue lembrar se o sujeito se chama Joaquim ou Adalberto. É o horror. Então, para tentar diminuir a agonia, é preciso improvisar e tirar da manga alguma palavra mágica: senhor, doutor, mestre,... E fingir que tudo está bem. 

Um exemplo clássico (e constrangedor) ocorreu quando encontrei uma pessoa que estudou comigo no colegial. Fazia tempo que não o via. Por convenção, costumo tratar todo mundo pelo primeiro nome. Depois de conversar um pouco sobre os velhos tempos, me despedi: Abraços, Paulo! E fui embora. Coincidentemente, encontrei “Paulo” várias vezes depois disso. Estaria tudo bem se ele não tivesse perdido a paciência: Meu nome é Júlio. Meu primo, que também estudou conosco, é que se chama Paulo. Então, não esqueça: eu sou o Júlio! Passar vergonha não tem preço!

Quando preciso ir ao supermercado, faço uma lista do que devo comprar. Muitas vezes esqueço a lista em algum lugar entre a geladeira e o micro-ondas. Então, trago para casa produtos que não são necessários. E aqueles que deveria ter comprado ficam para trás. Resultado: nova visita ao templo do consumismo. 

Vivo caminhando nas nuvens, como diz a sabedoria popular. Como não tenho aptidão marqueteira para transformar minhas deficiências em algo positivo, muitos adjetivos carinhosos (antipático, esnobe) costumam ser disparados em minha direção. Alguns acertam o alvo.

Na Internet, no rádio ou na televisão, uma música antiga costuma me assombrar. Aceito que alguns versos resumam as minhas bagunças: O acaso vai me proteger / Enquanto eu andar distraído.