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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

VALE O QUE TÁ ESCRITO

 


Danylton, o narrador pouco confiável de Vale o que tá escrito (Editora DBA, 2023), observa o mundo dentro de um café quase falido, na periferia da capital da República. Com a vida pessoal e econômica destroçada, ele aguarda o fim com estoicismo. Certo dia ocorre uma mudança significativa na pasmaceira diária. Ele vê passar pela calçada alguém que pensava estar morto.

O reaparecimento de Juan Pablo Norabuena Urondo, o Lilico, fornece o impulso necessário para que Danylton inicie, pela escrita, um ajuste de contas com o passado. Quer recuperar a história em que ele, no máximo, foi observador relativamente afastado. Isso significa que, para fornecer coerência para o desenho que (em muitos momentos) parece ser ininteligível, precisa fazer muitas perguntas para quem estava próximo dos acontecimentos, consultar arquivos, relembrar episódios, trocar e-mails, reencontrar os amigos. Nessa estrutura fragmentária, que pode ter inúmeras imprecisões, os elementos da trama são oferecidos ao leitor em doses homeopáticas.

Apesar de conter alguns ingredientes de um thriller policial, inclusive porque o jogo do bicho está presente no texto, a narrativa transita com maior ênfase pelas relações familiares, pelos horrores do deslocamento social, pelas pequenas tragédias cotidianas e pela violência urbana – que está enraizada em terreno profundo e fértil. Tudo isso está emoldurado no período da ditadura militar, onde as regras jurídicas são utilizadas para favorecer aqueles que estão em conluio com os que detém o poder.

Descendente de indígenas andinos, Lilico parece ter um imã para as encrencas.  Como não nasceu sob o signo da submissão, reage toda vez que encontra obstáculos. E faz isso sem medir as consequências. De certa forma, flerta com o suicídio. Não é exatamente essa a opinião de Cleyton, o seu melhor amigo: Lilico é gente boa, mas sente muita raiva.

Essa raiva diminui quando Lilico começa a namorar Juliane. As aparências enganam. O pai da namorada, um bombeiro que faz “extras” para o jogo do bicho, começa a perseguir o rapaz. Ele conta com a ajuda de policiais corruptos e força o alistamento de Juan Pablo no exército. Essa série de torturas lentas procura transformar a vida de Lilico no inferno em vida. Como não se trata de uma preocupação paterna com a segurança da filha, o motivo desse proceder somente é revelado na parte final da narrativa.   

Violência gera violência e, em determinado momento, algumas coisas saem do controle. A selvageria avança em progressão geométrica – sequestros, espancamentos, assassinatos. Lilico desaparece. Juliana e a mãe desaparecem. Algumas pessoas são presas. A vida volta ao “normal” – ou ao que os ingênuos consideram como normal.

Danylton, na medida do possível, fornece uma visão geral dos acontecimentos – embora não consiga preencher alguns “buracos” do enredo. São acontecimentos que não estão ao alcance do narrador. E ele não se esforça para superar essas faltas, prefere terminar a narrativa sem se preocupar com aqueles leitores que não gostam de elaborar teses sobre os acontecimentos textuais que estão faltando. Há quem imagine que uma das tarefas do escritor é fornecer todas – todas! – as informações, resolver as inúmeras questões que surgem no desenvolvimento do texto e entregar um final sem dúvidas ou questionamentos. Felizmente, essa ideia não é consensual.

Vale o que tá escrito não tem a mínima relação com a série televisiva. São histórias diferentes, embora tenham o jogo do bicho como um dos eixos narrativos.             


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

TSUNDOKU

 


Existe uma palavra em japonês que me assusta. Olho para a biblioteca e a vejo – como se fosse um aviso imaginário – escrita nas lombadas dos livros. Em uma tradução ligeira, tsundoku (積ん読identifica  comprar livros para não lê-los. Uma variação erudita da síndrome de acumulação.

Como assim, alguém compra livros e não os lê? Essa pergunta utilitarista (proferida por quem somente percebe o que é imediato) costuma ocorrer com bastante frequência. Normalmente está acompanhada pelo espanto. Em um mundo onde há preferência por comprar comida, pagar o aluguel e obter algum conforto, adquirir alguns livros e não os ler pode parecer desperdício. Livros não enchem a barriga de ninguém, como costumava dizer meu pai toda vez que queria diminuir emocionalmente o seu primogênito.

Mesmo assim,... Para algumas pessoas, acumular livros se faz necessário – independente de qualquer explicação racional. Estar em contato com o objeto do prazer se torna imperativo. Não satisfazer esse desejo significa alimentar uma dor insuportável. É um interdito ao gozo.

Ter livros é um exercício voyeurístico. Para poder fruir da potência que está presente em centenas de páginas de papel pintadas com tinta preta (ou de outra cor) urge desfrutar da estética da capa e da encadernação, além dos inúmeros elementos paratextuais que compõem o volume (a textura do papel, o cheiro, o peso, a visão de tê-los emparedados na estante). Muitas vezes, o texto em si adquire valor secundário.

Anne Fadiman, em Ex-Libris – confissões de uma leitora comum (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002), dedicou um capítulo para contar algumas histórias monstruosas: seu pai, a fim de reduzir o peso das brochuras que lia nos aviões, rasgava os capítulos terminados e os jogava no lixo; seu marido costuma ler na sauna, sem se preocupar com as páginas fendidas pelo calor [e que] caem como pétalas numa tempestade; Thomas Jefferson retalhou uma primeira edição em grego, de 1572, das obras de Plutarco para intercalar entre as páginas uma tradução em inglês. 

Fico assustado ao saber que algumas pessoas praticam esse tipo de mutilação. Parece ser caso de procurar ajuda terapêutica. Prefiro ver os livros intactos, mesmo quando intocados. Não ler os livros – muitas vezes  evoca um respeito que muitos leitores desconhecem.  

Existem razões para não ler alguns livros. Ou partes deles. Dicionários e manuais técnicos são ferramentas de consultas. Basta tê-los por perto. Quando se faz necessário, procura-se pelo trecho específico e, depois que se obtém a informação, coloca-se o volume de volta na estante, onde ficará até o momento em que a sua ajuda for imprescindível outra vez.     

Ninguém está imune ao que há de nefasto na moda e no marketing. Engana-se quem pensa que somente os clássicos (esse território confuso) possuem lugar privilegiado na vida dos leitores. Ficção científica, tramas policiais, thrillers, pornografia, história em quadrinho (mangás), histórias com final feliz (ou, vá lá, infeliz), todos esses livros merecem alguma atenção. Não há limites para a voracidade de quem procura por algum tipo de entretenimento. Então, se não houver autocontrole, um passeio pelas livrarias (ou pelos sebos) pode resultar em compras compulsivas. E que ficarão intocadas em algum canto da estante.

Não li cerca de 40% dos livros que compõem a biblioteca. Não vou verificar se esse número é maior ou menor – não gosto de reduzir a paixão ao racionalismo da quantidade. Muitos títulos foram adquiridos em função de projetos acadêmicos que não puderam ter continuidade. Algumas ideias se tornaram inviáveis, mas isso só percebi depois de ter comprado 10 ou 15 livros sobre o tema. Em dado momento, resolvi ter um acervo de literatura brasileira – especialmente, a contemporânea. Continuo seguindo esse caminho com dedicação, embora saiba que o labirinto termina em abismo.   

Por fim, alguns livros estão presentes na biblioteca pelo capricho de tê-los. Provavelmente nunca os vou ler. Ou reler. Mas, sem eles a minha vida de leitor seria mais triste.  


terça-feira, 30 de janeiro de 2024

A HISTÓRIA EM QUARENTA FRASES

 


– O que é a história? É a soma de relatos, quase todos falsos, de eventos quase todos menores, provocados por políticos quase todos velhacos e executados por soldados quase todos patetas. (Ambrose Bierce)

– Não se muda o curso da história virando-se os retratos para a parede. (Jawaharlal Nehru)

– Como Deus não pode alterar o passado, é obrigado a depender dos historiadores. (Samuel Butler)

– A história é um pesadelo do qual estamos tentando acordar. (James Joyce)

– A história é apenas uma série de crimes e desgraças. (Voltaire)

– A história é uma puta. Sempre fica com quem paga melhor. (Juan Domingos Perón)

– A história é a soma das coisas que poderiam ser evitadas. (Konrad Adenauer)

– Não gostar do que tem e querer o que não tem – é a história de todos os homens. (François Chateaubriand)

– O dom de despertar do passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer. (Walter Benjamin)

– Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história. (Hannah Arendt)

– Mas a história é pessoa entrada em anos, gorda, pachorrenta, meditativa, tarda em recolher documentos, mas tarda em os ler e decifrar. (Joaquim Maria Machado de Assis)

– O que importa não é a história. É o verbete da história. (Millôr Fernandes)

– Saio da vida para entrar na história (Getúlio Dornelles Vargas)

– Saio da história para cair na vida. (Cacá Rosset)

– A vida não é nada mais que uma sombra que passa, um pobre louco que se pavoneia e se agita no palco sem que ninguém o escute. É uma história contada por um idiota, cheio de som e fúria, significando nada. (William Shakespeare)

– A história da sociedade até os nossos dias é a história da luta de classes. (Karl Marx)

– Falar do passado é falar do presente pelas costas. (Millôr Fernandes)

– Não se muda a história com lágrimas (Glauber Rocha)

– A história não é palco de felicidade. (Georg Wilhelm Friedrich Hegel)

– Na minha juventude, achávamos que a história era um trem indo para uma direção precisa. Hoje, a gente sabe que a história é uma senhora bêbada que tropeça em tudo que vê. (Cacá Diegues)

– A história é testemunha do passado, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, anunciadora dos tempos antigos. (Cícero)

– A história é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será. (Eduardo Galeano)

– Gosto mais dos sonhos do futuro do que da história do passado (Thomas Jefferson)

– A história é uma lenda, só que muito mais mentirosa. (Millôr Fernandes)

– Em alguma passagem de suas obras, Hegel comenta que todos os grandes fatos e todos os grandes personagens da história mundial são encenados, por assim dizer, duas vezes. Ele se esqueceu de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. (Karl Marx)

– A história se repete. Esta é uma das coisas errada com ela. (Clarence Darrow)

– Aqueles que não conseguem se lembrar do passado estão condenados a repeti-lo. (George Santayana)

– A vida é enfadonha como uma história contada duas vezes. (William Shakespeare).

– Pode-se dizer que as batalhas históricas, ou os eventos em geral que envolvem conflitos, são travados pelo menos duas vezes. A primeira quando se verificam na forma de evento e a segunda quando se trata de estabelecer sua versão histórica ou sua memória. E não há como dizer que a primeira seja mais importante que a segunda. (José Murilo de Carvalho)

– Quanto mais se recua na observação do passado, mais se avança na visão do futuro. (Winston Churchill)

– Escrever a história é uma forma de nos livrarmos do passado. (Johann Goethe)

– Tudo se perde, a justiça nunca é feita, a história só justifica e ratifica os erros, incongruências e promoções do presente e até se dá o luxo, uma vez, 1000 em 1000 anos, de desfazer uma injustiça. Só para que os tolos digam que a verdade sempre aparece. (Millôr Fernandes)

– Há, nos mais graves acontecimentos, muitos pormenores que se perdem, outros que a imaginação inventa para suprir os perdidos, e nem por isso a história morre. (Joaquim Maria Machado de Assis)

– A história é um romance que aconteceu; o romance é a história que poderia ter acontecido. (Jules Goncourt)

– O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história. (Walter Benjamin)

– O passado é um país estrangeiro. As pessoas agem de outra forma lá. (Leslie Poles Hartley)

– A história é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo. (Napoleão Bonaparte)

– A única obrigação que temos com a história é a de reescrevê-la. (Oscar Wilde)

– Quanto mais se recua na observação do passado, mais se avança na visão do futuro. (Winston Churchill)

– Só acreditam que a História vai acabar três categorias de pessoas: os cristãos, os judeus e os marxistas. (Evaldo Cabral de Mello)



segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

El Bólido Agustin

 


O futebol, a mais importante das coisas menos importantes, como afirmou Arrigo Sacchi, está pouco representado na literatura brasileira. Salvam-se alguns contos, um ou dois romances, três ou quatro biografias e meia dúzia de ensaios. O resto beira o descartável – alguns usando o esporte como trampolim para discutir assuntos aleatórios.

Talvez a explicação para isso esteja no campo psicológico: quem gosta de futebol costuma ignorar os deslizes de alguns jogadores. Nessa ausência de separação entre a vida privada do individuo e a habilidade futebolística costuma-se fechar os olhos para as cafajestadas, as agressões domésticas, as amizades espúrias e os golpes financeiros. Tudo é permitido (inclusive elogiar as santas mães e irmãs dos adversários e dos árbitros). Basta fazer gols ou defender ataques do adversário – e está perdoado.    

Em El Bólido Agustin (Editora Quelônio, 2023), André Rosemberg abordou o futebol (e suas nuances) em três textos ficcionais. São narrativas longas e que, talvez, possam ser consideradas como novelas. E isso acontece porque André se afasta da economia textual. Podendo escrever uma frase com sujeito, verbo e predicado, ele prefere acrescentar uma quantidade enorme de figuras de linguagem. É uma forma de expressar, pela multiplicidade das palavras, o máximo de sentimentos. Funciona – neste caso.

Na primeira novela, com uma linguagem que se aproxima da crônica, o narrador conta a história de um argentino que pendurou as chuteiras depois de ter jogado no Flamengo. Seus momentos de glória ficaram gravados nos anos 50, quando o esporte ainda era capaz de produzir uma aura mítica, ou seja, aquele momento em que os seres humanos eram confundidos com os deuses. Com a inevitável decadência técnica, Agustin de Oviedo y Oviedo continuou vivendo entre as quatro linhas do gramado, mas em outra função: cronista esportivo. O texto é uma espécie de relato da angústia, da tentativa de encontrar saída para uma vida que, em algum momento, perdeu o sentido. Como faz parte da tarefa narrativa, vão sendo somados os fatos, as histórias, o folclore, as idiossincrasias, o revelar que a divindade estava se esvaindo. Mais cedo ou mais tarde, todos se tornam pasto de los gusanos, como diria Agustin.

O segundo relato (Meu Camarada Garrincha) tem como figura central Eduard Anatolyevich Streltsov (1937 - 1990), que jogou no Торпедо (Torpedo), de Moscou, e na Seleção da União Soviética, campeã das Olimpíadas de 1956. Na véspera de embarcar para a Suécia, onde se realizaria a Copa do Mundo de 1962, Streltsov foi acusado de estupro e, logo em seguida, condenado a trabalhos forçados em Vyatlag, na Sibéria. Intrigas palacianas? Ninguém é jovem, bonito e talentoso impunemente. Muitos interesses estavam em jogo e Streltsov tinha uma personalidade com dificuldade para assumir a submissão aos desígnios políticos. No melhor texto do livro, ao descrever (ficcionalmente) o sofrimento em um mundo hostil, André Rosemberg cria um diálogo unilateral entre Streltsov e Garrincha.

Sabe, tenho uma saudade terrível da bola. Às vezes, me pego chutando o ar enquanto durmo. Grito também. Passa a bola, paizinho! Estou livre na área, não me enxerga? Sou centroavante, sabe? Tenho faro de artilheiro. Dizem que jogo mais que o Valentin Ivanov. O Valentin é meu companheiro de ataque no Torpedo. Ele também foi para a Suécia. Um craque, Garrincha. Dizem que sou craque também. Sem modéstia, faço muito gol. Muito gol mesmo. Ou fazia... nem sei mais. Acho que me aleijaram para sempre. Me bateram muito quando cheguei aqui. (p. 90)

A última novela (O Juiz) se concentra nos aspectos psicológicos de um árbitro de futebol que precisa lidar com inúmeras complicações: a religiosidade confusa, o homossexualismo enrustido, o conservadorismo político, a esposa doente. A soma de todas essas questões resulta em crises intestinais vexatórias. Ao apitar Santos x Corinthians (4 a 1) ou União Soviética e Colômbia (Copa do Mundo de 1962, Chile, 4 a 4), João (que é descendente de húngaros) precisa tentar equacionar o turbilhão que o atormenta. Obviamente, algumas coisas saem do controle.

El Bólido Agustin é indispensável para quem gosta da mistura entre literatura e futebol.    


Eduard Anatolyevich Streltsov (1937 - 1990)


terça-feira, 9 de janeiro de 2024

SAFARI

 


A violência possui propriedades camaleônicas. Essa tese está demonstrada nos três segmentos que compõem Safari, romance escrito pelo chileno Pablo Toro Olivos. Seja na guerra do Iraque, seja na escola, seja em um reality show, a selvageria está presente e ninguém está isento de ser atingido por esse tipo de horror.

Eric Villanueva (o personagem que aparece em todas as fases da narrativa) descobre que a dor se transforma em efeito colateral, secundário. Ninguém se importa com ela – nem mesmo aquele que a sente. Sobreviver parece ser a norma, o objetivo, a possibilidade de atingir o horizonte – que sempre está muito distante. E, nesse percurso, a linha tênue que separa a civilidade e a barbárie costuma ser rompida a todo instante – inclusive porque não faltam pretextos para que isso aconteça. O arrependimento deixa de existir quando algo maior está em jogo. Somente os fracos hesitam. Vencer supera os danos. Porque é assim que se deve proceder diante dos obstáculos.

No primeiro episódio (A noite do camelo) os mercenários chilenos Villanueva e Gutiérrez precisam raptar um dromedário. A história, além de ser absurda (inclusive por ser verossímil), multiplica a violência de forma hiper-realista. Depois de ter sido preso e torturado no Iraque, Jack Donovan (um dos principais soldados da empresa terceirizada que está atuando no Oriente Médio) adquire um fetiche carnívoro-sexual muito estranho. Nesse cenário, onde os combates mimetizam a luta pela sobrevivência – com todas as nuances que caracterizam a brutalidade humana – a caça ao camelídeo tira o foco dos interesses do capitalismo predador e se concentra na agressão sem sentido ou consistência.

As questões morais que se apresentam na segunda parte do livro (As eleições) mostram que o escrúpulo se transforma em figura retórica quando, na luta entre Eros e Tanatos, a etiqueta e os limites morais perdem a importância. O gozo (que caminha de mãos dadas com a pulsão da morte) cria a ilusão de que as incertezas e as carências podem desaparecer. A morte (imaginária, simbólica, efetiva) pertence ao outro, ao inimigo – aquele que está destinado a ser aniquilado sem piedade. E para que isso se concretize vale utilizar a coação, a possibilidade de tornar público alguns segredos e a opressão psicológica.

O terceiro episódio (Safari) possui semelhanças com várias narrativas contemporâneas: Jogos Vorazes (Suzanne Collins), Battle Royale (Koushun Takami), O Senhor das Moscas (William Golding) e os filmes O Show de Truman (Dir. Peter Weir, 1998) e Bacurau (Dir. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019). Em um futuro não muito distante, alguns criminosos são colocados em uma arena televisionada para serem caçados por milionários. Nesse programa de entretenimento, que simula uma selva tecnológica, os prisioneiros, se conseguirem resistir por três sessões, serão premiados com a anistia e uma gleba de terra – onde reiniciarão a vida social como agricultores. Como acontece em textos complexos, há outra luta se desenvolvendo em paralelo. Fora desse Coliseu moderno, a carnificina também está presente. A luta por ascensão social e econômica projeta outro tipo de brutalidade – talvez menos sanguinária, mas igualmente agressiva. 

Safari foi eleito o melhor romance chileno de 2022 e mostra, sem usar subterfúgios, algumas das faces de um mundo que estabeleceu na violência o seu objetivo mais importante.


TRECHO ESCOLHIDO

Outro foguete RPG caiu a alguns metros da casa e o mercenário Villanueva viu as paredes caindo, viu que o telhado desabava sobre eles e correu em pânico, cruzou o batente da porta, caiu no chão, fechou os olhos, pensou ter visto um exército de mortos, ouviu os gritos dos mortos amplificados por um tubo amarelo que se estendi desde os esgotos do mundo até o céu doente de Bagdá e então lhe veio um choque elétrico nas costas, ou melhor, ele sentiu que tinha uma espinha, como um peixe, e logo não sentiu mais nada, apenas pôde ver a estrutura destroçada e algumas vigas pontiagudas que caíram sobre Gutierrez e seu corpo dividido em dois.

A cabeça de Gutierrez, já separada do resto do corpo, girou sobre si mesma. Vista de baixo, recortada contra o céu negro, parecia um meteorito de carne. O mercenário Villanueva olhou nos olhos do morto e achou que eles pulsavam, ou que talvez retivessem um sopro de vida. Essa foi, então, a última imagem que a cabeça veria neste mundo: os olhos de outro homem, ferido, assustado, desejando estar em outro lugar e pensando em sobreviver para a próxima batalha. (p. 63-64).   

 


Pablo Toro Olivos (Santiago do Chile, 1983)