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sábado, 10 de novembro de 2018

JORGE DE SENA: SEIS POEMAS

Jorge Cândido de Sena (1919 - 1978)



EM CRETA, COM O MINOTAURO

I
Nascido em Portugal, de pais portugueses
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Colecionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
nasci. E a do que faço e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria que
este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.

II
O Minotauro compreender-me-á.
Tem cornos, como os sábios e os inimigos da vida.
É metade boi e metade homem, como todos os homens.
Violava e devorava virgens, como todas as bestas.
Filho de Parsifaë, foi irmão de um verso de Racine,
que Valery, o cretino, achava um dos mais belos da “langue”.
Irmão também de Ariadne, embrulharam-no num novelo de que se lixou.
Teseu, o herói, e, como todos os gregos heroicos, um filho da puta,
riu-lhe no focinho respeitável.
O Minotauro compreender-me-á, tomará café comigo, enquanto
o sol serenamente desce sobre o mar, e as sombras,
cheias de ninfas e de efebos desempregados,
se cerrarão dulcíssimas nas chávenas,
como o açúcar que mexemos com o dedo sujo
de investigar as origens da vida.

III
É aí que quero reencontrar-me de ter deixado
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu, porque,
como toda a gente, não sabe português.
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.
Conversaremos em volapuque, já
que nenhum de nós o sabe. O Minotauro
não falava grego, não era grego, viveu antes da Grécia,
de todo essa merda douta que nos cobre há séculos,
cagada pelos nossos escravos, ou por nós quando somos
os escravos dos outros. Ao café,
diremos um ao outro as nossas mágoas.

IV
Com pátrias nos compram e nos vendem, à falta
de pátrias que se vendam suficientemente caras para haver vergonha
de não pertencer a elas. Nem eu, nem o Minotauro,
teremos nenhuma pátria. Apenas o café,
aromático e bem forte, não da Arábia ou do Brasil,
da Fedacam, ou de Angola, ou parte alguma. Mas café
contudo e que eu, com filial ternura,
verei escorrer-lhe do queixo de boi
até os joelhos de homem que não sabe
de quem herdou, se do pai, se da mãe,
os cornos retorcidos que lhe ornam a
nobre fronte anterior a Atenas, e, quem sabe,
à Palestina, e outros lugares turísticos,
imensamente patrióticos.

V
Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.

 
Antônio Cândido e Gilda de Mello e Sousa no batizado de
Maria José, oitava filha de Jorge de Sena.
Araraquara, SP, 17/02/1962

CONHEÇO O SAL...

Conheço o sal da tua pele seca
depois do estio que volveu inverno
da carne repousada em suor noturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração do sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.




POST-SCRIPTUM

Não sou daqueles cujos ossos se guardam,
nem sou sequer dos que os vindouros lamentam
não hajam sido guardados a tempo de ser ossos.

Igualmente não sou dos que serão estandartes
em lutas de sangue ou de palavras,
por uns odiado quanto me amem outros.

Não sou sequer dos que são voz de encanto,
ciciando na penumbra ao jovem solitário,
a beleza vaga que em seus sonhos houver.

Nem serei ao menos consolação dos tristes,
dos humilhados, dos que fervem raivas
de uma vida inteira a pouco e pouco traída.

Não, não serei nada do que fica ou serve,
e morrerei, quando morrer, comigo.

Só muito a medo, a horas mortas, me lerá,
de todos e de si disfarçando,
curioso, aquel’ que aceita suspeitar
quando mesmo a poesia ainda é disfarce da vida.




CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento dos outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E, mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, havereis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.




CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse “com suma piedade e sem efusão de sangue”.
Por serem fieis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isso nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sêmen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isso o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objeto
que não fluíram, aquele gesto
de amor, que fariam “amanhã”.
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos foi cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor
que outros não amaram porque lho roubaram.




A PORTUGAL

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
a pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.   

Torpe dejeto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fátua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol caiada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esse sentimento de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço: mas ser’s minha, não.



domingo, 21 de outubro de 2018

O PRIMEIRO HOMEM


No dia 20 de julho de 1969, Neil Alden Armstrong pisou na lua. Como não havia televisão na casa de meus pais, fomos ver o espetáculo na residência de um dos tios. Talvez não tenha sido no dia exato, mas em um domingo logo depois. O fato é que aquele momento histórico, que assistimos em preto e branco, e muitos chuviscos, contaminou o imaginário mundial. Para mim, foi apenas a comprovação das viagens interplanetárias que conhecia por meio do Flash Gordon ou do desenho animado The Jetsons – além da leitura de inúmeros romances de ficção científica.

O Primeiro Homem (First Man, Dir. Damien Chazelle, 2018, baseado no livro First Man: the life of Neil A. Armstrong, de James R. Hansen) se aproxima perigosamente das hagiografias. Felizmente o diretor do filme conseguiu evitar os momentos de sentimentalismo exagerado – embora abuse das reiteradas recordações da filha morta de Armstrong.

 Ryan Gosling (acompanhado da eterna cara de paisagem) consegue passar a mensagem. Neil Armstrong era um técnico incapaz de deslocar o pensamento um milímetro para fora das regras. Obstinado, raramente sociável, pouco interessado no que acontecia no mundo ao seu redor. Uma esfinge. O material humano perfeito para ser manipulado ideologicamente durante a Guerra Fria. Há quem diga que foi um patriota – basta ver parte do filme para discordar desse rótulo. Armstrong queria fugir de si mesmo e foi como soldado da corrida espacial que logrou êxito (o filme efetua um recorte nessa parte de sua vida, o que aconteceu depois fica restrito ao livro, publicado no Brasil pela Intrínseca).

A competição entre estadunidenses e russos pelo domínio (???) do espaço causou muitas mortes. A ciência costuma ser impiedosa em relação ao custo-benefício de cada descoberta. Mais tarde, ao revender o produto obtido (com grande margem de lucro), não terá escrúpulos em negar pagamento de royalties aos que perderam a vida durante a pesquisa. Faz parte do show.
 
Neil Alden Armstrong (1930-2012)
A substância da corrida espacial está delimitada em uma questão básica: os estadunidenses não conseguiam aceitar os feitos protagonizados pelo Sputnik, pela cadela Laika e por Yuri Alekseievitch Gagarin. Com o orgulho ferido, precisavam realizar algo grandioso – e que diminuísse as façanhas russas. A viagem lunar surge, nesse instante, como um objetivo a ser alcançado.

Ao chefiar a missão Apolo XI, Armstrong conseguiu esculpir o seu nome na história mundial. Sua frase de efeito ao pisar o solo lunar, one small step for man, one giant leap for mankind, resume a aventura. O resto é lenda.

Em relação aos personagens que tripularam a Apolo XI, o filme destaca a sobriedade de Armstrong, a big mouth de Edwin Eugene Aldrin Jr. e... a invisibilidade de Michael Collins. Qualquer espectador que desconheça os detalhes da viagem espacial poderá imaginar que Collins foi apenas um coadjuvante sem personalidade – o que, obviamente, não corresponde aos fatos. Sem a sua presença, como piloto do módulo de comando, a vida de Armstrong e Aldrin não valeria um centavo furado. Infelizmente, o filme preferiu ignorar essa particularidade.

O momento mais agudo do filme está centralizado em um monólogo. Ou melhor, em uma lição ética. Armstrong, prestes a viajar para a lua, procura fugir dos filhos. Não quer se despedir. A intensidade do discurso de Janet (interpretada por Claire Foy) impressiona. Enquanto a esposa esbraveja, Armstrong fica calado. A argumentação é tão enfática que ele percebe que nada mais lhe resta senão a rendição. Diante dos dois meninos, explica os riscos que está correndo e que há a possibilidade de não regressar. O mais novo o abraça; o mais velho lhe estende a mão. Toda a fragilidade da vida está exposta nessa cena.

O Primeiro Homem não é filme para ser visto na tela do computador ou na televisão. Há centenas de detalhes que somente são perceptíveis em tela grande. Além disso, a lentidão do ritmo narrativo convida à dispersão.

Neil Alden Armstrong, Michael Collins, Edwin Eugene Aldrin Jr.

A cinematografia sobre viagens espaciais é bastante extensa e diversificada. Alguns momentos ficcionais importantes são:

– Viagem à lua (Le voyage dans la lune). Dir. George Méliès, 1902.
– 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A space odyssey). Dir. Stanley Kubrick, 1968.
– No Assombroso Mundo da Lua (Countdown). Dir. Robert Altman, 1968.
– Solaris (Solyaris). Dir. Andrei Arsenyevich Tarkovski, 1972.
– Os Eleitos (The right stuff). Dir. Philip Kaufman, 1983.
– 2010 – o ano que faremos contato (2010: The year we make contact). Dir. Peter Hyams, 1984.
– Apolo 13 – do desastre ao triunfo (Apollo 13). Dir. Ron Howard, 1995.
– Perdidos no Espaço (Lost in space). Dir. Stephen Hopkins, 1998.
– Lunar (Moon). Dir. Duncan Jones, 2013.
– Gravidade (Gravity). Dir. Alfonso Cuarón, 2013.
– Interestelar (Interstellar). Dir. Christopher Nolan, 2014.
– Perdido em Marte (The martian). Dir. Ridley Scott, 2015.
– Estrelas Além do Tempo (Hidden figures). Dir. Theodore Melfi, 2016.

Franquias como Star Trek, Star Wars, Aliens, e tantas outras, também abordam o tema.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

SONETO 18, DE WILLIAM SHAKESPEARE


Considero a tradução como uma tarefa impossível de ser realizada. Exagero? Possivelmente. Mas,... 

Além das diversas teorias literárias sobre o que deve ser observado e transportado de um mundo para o outro, cabe lembrar que o exercício literário da tradução implica em resolver um infinito número de questões. 

Traduzir está muito aquém de conhecer o vocabulário ou de interpretar criativamente o texto original. Sem ter intimidade com os dois idiomas (muitas vezes, três), sem um mínimo de conhecimento geral e específico, são poucas as chances de se obter um bom resultado. E essas dificuldades se multiplicam quando o objeto da tradução é a poesia. Por exemplo, adaptar a métrica original equivale a algum tipo de mergulho no inferno: impossível voltar ao mundo dos vivos sem algum tipo de queimadura.

Confesso que fiz algumas poucas e péssimas tentativas, alguns anos atrás. Diante dos resultados obtidos, concluí que estava procurando pelo tesouro em lugar errado. Agora me contento em ler o trabalho dos outros. Em outras palavras, gosto de comparar diversas versões. A beleza do texto que surge através da tradução está contaminada por agradáveis surpresas. Como não pensei nisso antes?, é uma frase recorrente.
 
O soneto 18, de William Shakespeare é um bom exercício de tradução – e de espanto. Vejamos quatro versões – todas partindo do texto original, que foi escrito em inglês clássico (ou medieval), muito diferente do inglês contemporâneo.

Shall I compare thee to a summer”s day?

Thou art more lovely and more temperate:

Rough winds do shake the Darling buds of May,

And summer’s lease hath all too short a date:

Someti-me too hot the eye of heaven shines,

And often is his gold complexion dimm’d:

And every fair from fair sometimes declines,

By chance, or nature’s changing course untrimm’d;

But thy eternal summer shall not fade,

Nor lose possession of that fair thou ow’st,

Nor shall death brag thou wander’st in his shade,

When in eternal lines to time thou grow’st;

    So long as men can breathe, or eyes can see,

    So long lives this, and this give life for thee.


O português Vasco Graça Moura interpretou o poema de uma maneira muito particular:

Que és um dia de verão não sei se diga.

És mais suave e tens mais formosura:

vento agreste botões frágeis fustiga

em Maio e um verão a prazo pouco dura.

O olho do céu vezes sem conta abrasa,

outras a tez dourada lhe escurece,

todo o belo do belo se desfasa,

por caso ou pelo curso a que obedece

da Natura; mas teu eterno verão

nem murcha, nem te tira teus pertences,

nem a morte te torna assombração

quando o tempo em eternas linhas vences:

      enquanto alguém respire ou possa ver

      e viva isto e a ti faça viver.


Alguém há de dizer que os portugueses falam uma língua que, embora pareça familiar, é completamente diferente do “nosso” português. E que – por isso – o poema perdeu a sua inteligibilidade. Evidentemente, uma bobagem. Não devemos pedir o uso de legendas (ou notas de rodapé) nesse tipo de situação!!!


Em terras cariocas, Geraldo Carneiro fez uma tentativa interessante:

Te comparar com um dia de verão?

Tu és mais temperada e adorável.

Vento balança em maio a flor-botão

E o império do verão não é durável.

O sol às vezes brilha com rigor,

Ou sua tez dourada é mais escura;

Toda beleza enfim perde o esplendor,

Por acaso ou descaso da Natura;

Mas teu verão nunca se apagará,

Perdendo a posse da beleza tua,

Nem a morte rirá por te ofuscar

Se em versos imortais te perpetua.

     Enquanto alguém respire e veja e viva,

     Viva este poema, e nele sobrevivas.



Além de começar a frase com um pronome possessivo (ó gramática, minha torturadora!), há um tom que oscila entre a concessão e informalidade. Mas não está mal, apesar do “natura”, que ajuda na rima, mas perde a graça estética. 

A proposta de Ivo Barroso surge com objetivo diferente. A formalidade torna o texto menos radiante e mais próximo de séculos passados.

Devo igualar-te a um dia de verão?

Mais afável e belo é o teu semblante:

O vento esfolha Maio ainda em botão,

Dura o termo estival em breve instante.

Muitas vezes o azul do céu calcina,

Mas o áureo tom também perde a clareza:

De seu belo a beleza enfim declina,

Ao léu ou pelas leis da Natureza.

Só teu verão eterno não acaba

Nem a posse de tua formosura;

De impor-te a sombra a Morte não se gaba

Pois que essa estrofe eterna ao Tempo dura.

    Enquanto houver viventes nesta lida,

    Há-de viver meu verso e te dar vida.




É uma proposta engessada, baseada na métrica e nas rimas. O vocabulário utilizado (afável, esfolha, estival, calcina, áureo, declina, lida) não permite uma leitura prazerosa. O dicionário parece ser indispensável. Enfim, falta o frescor da modernidade. O uso de algumas rimas exóticas (calcina / declina, acaba / gaba) também não ajuda. 

Forçar o ritmo não parece ser a solução.

Por fim, cabe convocar Thereza Christina Rocque da Motta para completar essa brincadeira comparativa:

Como hei de comparar-te a um dia de verão?

És muito mais amável e mais amena:

Os ventos sopram os doces botões de maio,

E o verão finda antes que possamos começá-lo:

Por vezes, o sol lança seus cálidos raios,

Ou esconde o rosto dourado sob a névoa;

E tudo que é belo um dia acaba,

Seja por acaso ou por sua natureza;

Mas teu eterno verão não se extingue,

Nem perde o frescor que só tu possuis;

Nem a Morte virá arrastar-te sob a sombra,

Quando os versos te elevarem à eternidade:

      Enquanto a humanidade puder respirar e ver,

     Viverá meu canto, e ele te fará viver.


Aqui, a rima desaparece em favor do ritmo. Os puristas dirão que essa solução não corresponde ao desejo do poeta. Pode ser. Mas,...

Enfim, cabe fazer a pergunta inevitável: traduttore/traditore? Difícil afirmar que sim ou que não – embora os tradutores fiquem furiosos com esse trocadilho. Para Petê Rissati, A arte da tradução pode ser uma arte de ilusão, mas nunca de traição – nós criamos condições para que alguém que não lê em um idioma leia uma obra criada nele. É uma tese. Mais adiante, Rissati evoca o pacto ficcional e afirma que a situação ideal surge no momento em que o leitor concorda que o autor teria escrito daquela maneira se soubesse português e que todo o trabalho de compreensão, desmonte e remontagem do texto visa a maior proximidade possível com o original. E complementa o raciocínio afirmando que salvo as raras exceções (...), somos o elo entre o estrangeiro e o nacional, o alheio e o nosso, o distante e o próximo.


P.S.: Há outras traduções do soneto 18. Aos curiosos, o Google!