No poema One
art, Elizabeth Bishop (1911-1979) escreveu que The art of losing isn’t hard to
master / (...) / though it may look like (Write it!) like disaster, versos
que podem ser traduzidos informalmente como A arte de perder não é um
mistério / (...) / por mais que pareça (escreva isso!) um desastre.
Lembrei-me desses
dois versos do poema alguns anos atrás, quando minha mãe (que faleceu em 2021),
precisava fazer prova de vida no INSS. Ou seja, tinha que convencer
o governo de que não estava morta. Ocorre que, naquele momento, o seu estado de
saúde era precário e o bom senso recomendava procurar por alternativas para
cumprir com a formalidade burocrática.
Liguei para o
número telefônico 135 – conforme me foi recomendado na instituição bancária
onde ela recebia o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Depois da
inevitável espera, a máquina que me atendeu (é sempre uma máquina!) solicitou o
número do Cadastro de Pessoa Física da requerente e informou que deveria
selecionar o tipo de atendimento desejado (números entre 1 e 9). Não tinha em
mãos essa informação. Desliguei e fui procurar pela Carteira de Identidade da
mãe. Lá consta o número do CPF.
Não encontrei.
Revirei pastas e caixas de sapato onde guardo as quinquilharias familiares. Não
sei o que a cédula identitária estaria fazendo naqueles lugares, mas revisitei
vários álbuns de fotografias. Isso provocou muitas lembranças, assombros que
costumam me incomodar. Fingi que não era comigo, o que queria era encontrar o
documento. Esvaziei duas gavetas – foi bom fazer isso, coloquei em um saco de
lixo centenas de comprovantes de pagamentos bancários e alguns panfletos
comerciais; papéis inúteis que estavam fazendo volume e tinham perdido a
utilidade.
Cansado, sentei no
sofá do escritório e fiquei olhando para os
livros emparedados nas estantes. Quiçá poderiam fornecer alguma pista do documento desaparecido.
Esforço inútil. Nenhuma possibilidade de encontrar o que estava procurando. E
agora? Essa pergunta, misturando perplexidade e desespero, parecia não ter
resposta.
Perder livros,
documentos, chaves, cartão de crédito, dinheiro – tenho um dom natural para
esse tipo de coisa. Se fosse contar quantas vezes isso aconteceu, escreveria um
livro. Evidentemente, depois de algum tempo e grandes incômodos, me recuperei de
quase todos os danos. Posso até dizer que o estrago foi mínimo. O que sempre me
incomodou foi o correr atrás do prejuízo, o medo de estar diante de um beco sem
saída.
Edgar Allan Poe (1809-1849) escreveu um conto mágico, A Carta Roubada. Várias pessoas
procurando por algo que está diante dos olhos. É um caso clássico de cegueira
coletiva, ninguém consegue enxergar a obviedade. De forma similar, foi o que
aconteceu comigo. Em função de outras demandas, precisei separar uma série de
notas fiscais relacionadas com os gastos da mãe (remédios, fraldas, compras de
supermercado, recibos de aluguel, água e luz). Coloquei tudo dentro de um
envelope. Junto com a papelada, a Carteira de Identidade.
Esse envelope estava o tempo todo na minha frente, em uma das estantes, a dos livros de História. Eu não fui capaz de o ver. Tampouco lembrei que havia incluído a CI naquele grupo de documentos.
Ao alivio de
encontrar a Carteira de Identidade, seguiram-se as inevitáveis confusões ao
tentar agendar a prova de vida. Entretanto, isso é outra história.
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Ilustração para o conto A carta roubada, de Edgar Allan Poe, e atribuída a Frederic Theodore Lix (1830-1897) ou Jean-Édouard Dargent (1824-1899). |