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domingo, 20 de março de 2022

UMA AVENTURA COM CLÊNIO SOUZA (texto modificado)

 


No início dos anos oitenta do século passado, éramos jovens e vivíamos como se não houvesse amanhã.

Clênio Souza, excelente artista plástico, era professor de desenho na Escola de Artes Eluza Bianchini (localizada em um casarão na Rua Correia Pinto). Sua namorada da época era tão temperamental quanto ele. Brigavam frequentemente. Conflitos homéricos. Daqueles cheios de gritos, copos espatifados na parede e vizinhos se controlando para não chamar a polícia. No último round dessa série de batalhas não houve agressões físicas. Apenas cicatrizes emocionais. Dolorosas. Dessas que precisam ser carregadas pelo resto da vida. Discutiram sobre alguma bobagem e, para surpresa de todos, inclusive deles mesmos, resolveram se separar. Para sempre.

Nessa época eu estava estudando no período noturno. Colégio Diocesano, último ano do segundo grau. Vivia mais na rua do que em sala de aula. Bebia mais cerveja do que estudava.  Em uma dessas escapadas, provavelmente alguma aula chata, encontrei Jonas Malinverni. Ele estava assustado. Queria ajuda para encontrar Clênio. E me disse:

− Ele saiu lá da escola muito angustiado, disse que a vida não tinha mais sentido. Acho que ele está pensando em suicídio!

Não tive outra opção senão rir.  Não lembro direito. Mas a chance de ter deixado escapar uma risada é grande. Puro nervosismo. Não imaginava que alguém pudesse cometer esse tipo de desatino aos vinte e poucos anos.

Entre voltar para a aula e procura pelo desaparecido, o que escolher? Entramos no boteco mais próximo e pedimos uma cerveja. Depois de ter pensado nessa intrigante encruzilhada uns dez segundos, talvez menos, resolvi acompanhar Jonas. Estivemos em todas as espeluncas que conhecíamos. E nada. O cara tinha desaparecido.

A última tentativa de localizar o fugitivo foi em um bar suspeito, mentira, confirmado antro de encontros furtivos e comércio sexual chamado Cisne Branco (Rua Coronel Córdova). E isso nos mostrou como a vida é irônica: ficava muito perto do colégio em que eu estudava!

O ambiente (escuro, fumacento) era constituído por um corredor. As mesas encostadas na parede (nos dois lados) eram separadas por biombos, que garantiam a privacidade. As funcionárias eram gentis e generosas – sempre dispostas a acompanhar algum solitário no meio da noite. Naquele estabelecimento só trabalhavam mulheres, vigiadas pelo dono, que ficava lá no fundo, controlando tudo. Para ser atendido, o cliente precisava acionar uma espécie de interruptor na parede, uma luz se acendia acima da mesa, chamando a garçonete.

Foi nesse inferninho que encontramos Clênio Souza. Desmaiado. O rosto enfiado em um prato. Um prato cheio de macarrão à bolonhesa. Erguemos a sua cabeça, na tentativa de salvá−lo do ridículo. Tudo o que conseguimos foi sujar as mãos de molho. Nojento. Mas, fazer o quê? Amigos são assim mesmo, encrencas que precisamos aceitar como se fossem brinquedos.

Depois de muito esforço, foi possível arrastá−lo até o banheiro, onde providenciamos uma faxina básica no descornado, digo, no desacordado artista plástico. Também limpamos os seus bolsos, para ver se ele tinha dinheiro suficiente para pagar a conta. Tinha. Felizmente. O arrastamos de volta à mesa, pedimos outra cerveja, por conta da vítima, e começamos a discutir sobre o que fazer.


Ao saber que ele estava morando com a irmã, lá na Vila Comboni, que é quase no fim do mundo, sugeri o óbvio: táxi. Lendário pão−duro, Jonas discordou. Disse que não tinha dinheiro. Quem não tinha dinheiro era eu, desempregado naquela época. Foi o que disse para ele, da forma mais inteligível possível. Não o convenci. Então, qual era a alternativa? Carregar o sujeito como se fosse um saco de batatas? Foi essa a proposta. Foi o que fizemos. Protestei muito − apenas para constar, porque não adiantou nada.

Abraçado em nós, um de cada lado, a vítima foi arrastada pelas ruas frias da cidade gelada. Minha proposta era fazer umas cinquenta paradas. De preferência em cinquenta botecos. Mais uma vez, fui voto vencido. Inclusive porque Clênio estava retomando a consciência. E, com aquela voz enrolada de ébrio, disse que queria voltar para casa o mais rápido possível, não estava se sentindo bem. No meio desse discurso, vomitou. Várias vezes.

Escolhemos o caminho mais rápido, não o mais fácil. Subir pela escadaria do Morro do Posto não foi inteligente. Primeiro, era íngreme. Segundo, a chance de ser assaltado era de cem por cento. Terceiro, havia a ameaça latente de encontrar a polícia no caminho – e talvez fosse mais seguro ser assaltado. Dizem que Deus protege os bêbados e as criancinhas. Dizem. Não sei qual era a nossa categoria. De qualquer maneira, foi com grande surpresa que conseguimos chegar ao destino de entrega sem o mínimo problema.

Próximos da casa de madeira, onde morava a irmã de Clênio, encontramos dois pequenos obstáculos: vários cachorros e uma valeta, que só podia ser transposta através de uma pequena ponte, dessas que são feitas com tábuas soltas, basta pisar em ponto que rompa o equilíbrio e a queda na água suja é garantida.

A solução foi gritar por ajuda, ou seja, acordar os parentes do artista. Surpreendentemente, nenhum vizinho abriu a janela, querendo tomar satisfação daquela algazarra. Uma lâmpada foi acesa dentro da casa. Instantes depois, alguém abriu a porta e perguntou o que queríamos. Apontando para o pinguço, contamos a história. Provavelmente cansada de ver a pantomima sem graça que o irmão protagonizava com frequência, recebemos permissão para se aproximar. Felizmente, os efeitos do porre estavam passando e Clênio conseguiu (sozinho) atravessar a ponte de tábuas – amparado provavelmente cairia naquele esgoto.

Na porta da casa, pedimos desculpas à mulher por tê−la acordado, deixamos a figurinha carimbada entrar e fomos embora – rapidamente. Só respiramos aliviados quando nos afastamos dos cachorros, que pareciam ansiosos para tirar pedaços de nossas pernas.

A volta foi tranquila, a aragem da noite abençoando a nossa insensatez. No centro da cidade, me separei de Jonas. Continuei caminhando um pouco mais. Na época, eu morava ali perto do Pronto Socorro. Em casa, abri a geladeira e outra cerveja. Depois dormi umas dez horas.

Só voltei a ver Clênio Souza uma semana depois. Ele parecia não se lembrar de nada.

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