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domingo, 11 de janeiro de 2026

COISA DE RICO

 


Existe um mundo paralelo ao dos mortais e que está sob a regência do dinheiro. Mas, cuidado, não se deve confundir os ricos com "os ricos". São duas classes distintas – e antagônicas. Na nova Idade Média que identifica a contemporaneidade, não basta ter patrimônio físico, também é necessário ter um nome de família respeitável. Ou seja, tradição, história e um currículo educacional de qualidade. Os novos ricos são tratados como párias na “alta” sociedade.    

A venda de cerca de duzentos mil exemplares do livro Coisa de rico – a vida dos endinheirados brasileiros, do antropólogo Michel Alconforado, sinaliza que a curiosidade com o universo dos milionários é inesgotável: os leitores querem saber como vivem, como se alimentam e onde habitam essas pessoas estranhas. Nesse sentido, o livro – que utiliza uma linguagem fluente, acessível para qualquer um – foi construído como um anedotário das diferenças entre os ricos antigos e os novos ricos, entre os que desejam comprar glamour e finesse e aqueles que, em nome da cultura civilizatória, combatem os bárbaros. Os primeiros, transformaram Miami em um parque de diversões do consumo; os segundo, como medida de proteção, se escondem em Genebra ou em algum recanto paradisíaco inacessível.  

Esse embate fornece cor e sabor ao espetáculo – ao mesmo tempo que retrata as movimentações na pirâmide econômica. Se O tempo das elites é um intervalo suficiente para inventar uma tradição, como afirma Alconforado, o tempo dos que estão ascendendo na cadeia alimentar precisa ser o agora. Por isso ostentam, esbanjam, adquirem objetos de luxo e apartamentos em prédios modernos. Fazem o que for possível para serem percebidos como “vencedores”. Discrição não existe na órbita dos emergentes. Eles atropelam a língua portuguesa (e a inglesa), promovem confusões nos restaurantes, ostentam roupas de marca e pretendem parecer o que nunca serão. O vexame se transforma em uma forma de diferenciação no mundo competitivo da riqueza.

A maneira como as elites usam as coisas de rico desperta o interesse de outros grupos sociais. Só que, à medida que se popularizam, as coisas de rico perdem a força e morrem. São peças simbolicamente frágeis. O que ontem era uma forma de distinção, hoje está descartado. Grifes de roupas e acessórios, automóveis, restaurantes e bairros residenciais se tornam desprezíveis na medida em que se tornam acessíveis a qualquer um. Os valores que orientam as famílias tradicionais são outros e exigem exclusividade. Um ricaço deve conhecer o poder de suas traquitanas e saber usá-las com eficácia, de modo que elas gritem para os “de dentro” a riqueza acumulada e, ao mesmo tempo, se mostrem como uma esfinge aos “de fora”.

O poder econômico tradicional está alicerçado em códigos invisíveis (que reforçam privilégios e naturalizam as desigualdades). É um modelo de pensamento que amplia as distâncias entre os que “estão dentro” e os que “estão fora” e que, sobretudo, seja para proteger alguns ideais, seja para impedir o contágio com pessoas de outro nível de riqueza, prefere se enclausurar em grupos com interesses comuns (clubes sociais, condomínios exclusivos, almoços ou jantares de negócios).

Em paralelo, aqueles que gostariam de compartilhar dos privilégios, os novos-ricos, precisam recorrer a uma engenharia de transformação (...) para enfrentar a batalha pelo reconhecimento. E isso significa comprar tudo aquilo que estiver ao alcance do cartão de crédito: substituir o natural, mudar a aparência, acrescentar depois de pronto, suprir a falta. O artificial adquire status de verdadeiro, porque respaldado pela necessidade de pertencimento. Todo esse esforço se mostra lento e repleto de tropeços (mas que é celebrado com estoicismo e otimismo). O segredo é fazer os outros acreditarem que se é o que se é desde sempre.          

Coisa de rico – a vida dos endinheirados brasileiros aposta no hibridismo. Ao mesmo tempo que se mostra mordaz com aqueles que possuem dinheiro novo, revela alguma simpatia por aqueles que administram o dinheiro antigo. Entre a elegância e o folclore, entre os que nasceram em berço de ouro e os arrivistas, a narrativa parece flutuar – incapaz de perceber que o encontro com o chão causará danos irreversíveis. É, na sua essência, um livro de fofocas (disfarçado de estudo antropológico).

 

 

Michel Alconforado é doutor em antropologia social e ficou conhecido como o antropólogo do luxo por estudar as relações de consumo e o modo de vida das elites econômicas no Brasil. Apresenta o programa Para onde vamos, na Rádio CBN.


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