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| Luís Vaz de Camões (1524-1579 ou 1580) |
Amor
é um fogo que arde sem se ver,
é
ferida que dói, e não se sente;
é
um contentamento descontente,
é
dor que desatina sem doer
É
um não querer mais que bem querer;
é
um andar solitário entre a gente;
é
nunca contentar-se de contente;
é
um cuidar que ganha em se perder.
É
querer estar preso por vontade;
é
servir a quem vence o vencedor;
é
ter, com quem nos mata, lealdade.
Mas
como causar pode seu favor
nos
corações humanos amizade,
se
tão contrário a si é o mesmo Amor?
Sete
anos de pastor Jacob servia
Labão,
pai de Raquel, serrana bela;
mas
não servia ao pai, servia a ela,
e
a ela só por prêmio pretendia.
Os
dias, na esperança de um só dia,
passava,
contentando-se com vê-la;
porém
o pai, usando de cautela,
em
lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo
o triste pastor que com enganos
lhe
fora assi negada a sua pastora,
como
se a não tivera merecida,
começa
de servir outros sete anos,
dizendo:
“Mais servira, se não fora
para
tão longo amor tão curta a vida”.
O dia
em que eu nasci moura e pereça,
não
o queira jamais o tempo dar;
não
torne mais ao mundo e, se tornar,
eclipse
nesse passo o Sol padeça.
A luz
lhe falte, o Sol se lhe escureça,
mostre
o mundo sinais de se acabar;
nasçam-lhe
monstros, sangue chova o ar,
a
mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas
pasmadas, de ignorantes,
as
lágrimas no rosto, a cor perdida,
cuidem
que o mundo já se destruiu.
Ó gente
temerosa, não te espantes,
que
este dia deitou ao mundo a vida
mais
desventurada que se viu!
Tanto
de meu estado me acho incerto
que,
em vivo ardor, tremendo estou de frio;
sem
causa, juntamente choro e rio;
o
mundo todo abarco e nada aperto.
É
tudo quanto sinto um desconcerto;
da
alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora
espero, agora desconfio,
agora
desvario, agora acerto.
Estando
em terra, chego aos Céus voando;
num’hora
acho mil anos, e é de jeito
que
em mil anos não posso achar um’hora.
Se
me pergunta alguém porque assi ando,
respondo
que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.
Busque
Amor novas artes, novo engenho,
para
matar-me, e novas esquivanças;
que
não pode tirar-me as esperanças,
que
mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai
de que esperanças me mantenho!
Vede
que perigosas seguranças!
Que
não temo contrastes nem mudanças,
Andando
em bravo mar, perdido o lenho.
Mas,
conquanto não pode haver desgosto
onde
esperança falta, lá me esconde
Amor
um mal, que mata e não se vê.
Que
dias há que na alma me tem posto
um
não sei quê, que nasce não sei onde,
vem
não sei como, e dói não sei por quê.
Alma
minha gentil, que te partiste
tão
cedo desta vida descontente,
repousa
lá no Céu eternamente,
e
viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá
no assento etéreo, onde subiste,
memória
desta vida se consente,
não
te esqueça daquele amor ardente
que
já nos olhos meus tão puro viste.
E se
vires que pode merecer-te
algũa
cousa a dor que me ficou
da
mágoa, sem remédio, de perder-te,
roga
a Deus, que teus anos encurtou,
que
tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão
cedo de meus olhos te levou.

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