Do
simples ao complexo – de forma quase imperceptível. Nas narrativas de Ursula
Kroeber Le Guin (1929-2018), a ficção científica, por algum poder alquímico, multiplica
a consciência social e a defesa de valores civilizatórios. O entretenimento se
transforma em debate sobre colonialismo, feminismo, sexualidade, violência, poder,
memória, etc.
A
ficção científica, mimeses da sociedade terráquea, interligando o passado e o
futuro, não almeja apresentar algum plano para modificar o presente, mas
mostrar (através dos limites ficcionais) que o porvir pode ser diferente dos
acontecimentos que ficaram para trás. Para que isso se torne possível, além das
inovações tecnológicas e da ocupação dos territórios na galáxia, urge construir
uma consciência de que alguns indivíduos não são superiores aos outros
indivíduos. E que o poder das armas não os torna melhores – ao contrário,
apenas ressalta a selvageria.
Os
cinco contos que integram Os cinco caminhos para o perdão, estão ambientados
no universo Hain (mais especificamente nos planetas gêmeos Werel e Yeowe), um
território imaginário que tem como modelo a organização social terráquea. Esse
efeito especular permite avançar no debate dos muitos problemas comuns nas
comunidades contemporâneas e que raramente são resolvidos. As disparidades que
alimentam comportamentos – numa linha histórica que abrange desde as estruturas
escravocratas até o pensamento libertário de que todos os seres (humanos ou
não) devem ser livres – expandem o conceito de liberdade, embora,
simultaneamente, revelem as dificuldades que acompanham a representação política
e o cerceamento da identidade daqueles que se opõem ao comportamento submisso.
Em
paralelo, o ostracismo, o apego aos animais, a empatia, as questões sexuais, a
velhice, o desencontro amoroso, a sobrevivência, a solidão, a dor e a morte –
temas abordados frequentemente por Le Guin – entram em rota de colisão com algumas
barreiras culturais e religiosas (que servem de justificativa para inibir ações
progressivas). Ao descrever essas amarras, as narrativas vão, lentamente,
mostrando o quanto há de contradição no mundo real.
O
pensamento revolucionário, que recusa o afastamento das questões políticas,
permite o adensamento literário, mais próximo da realidade, mais distante das
fantasias românticas – que imaginam a ficção científica como uma espécie de
faroeste interestelar, onde o bem (os humanos) e o mal (os alienígenas) duelam
antes que aconteça alguma explosão solar ou guerras contra outras civilizações
bélicas.
Ao
negar a interpretação fantasiosa, que propõe a alienação em determinados
assuntos, surgem no horizonte várias discussões raras nos textos de ficção
científica. A sexualidade feminina, por exemplo, está expressa em todos os
cinco contos, seja para identificar os mecanismos de controle sobre o corpo do
outro (regras sociais, agressão física, estupro), seja como avanço para que as
mulheres tenham acesso ao prazer (independente de que forma isso seja possível).
Os
cinco caminhos para o perdão são, em essência, a
defesa de uma tese: (...) uma chave é uma coisa pequena, diante da porta que
ela abre. E se a chave se perde, talvez a porta jamais seja destrancada. É em
nossos corpos que perdemos ou começamos a nossa liberdade, é em nossos corpos
que aceitamos ou encerramos a nossa escravidão.
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| Ursula Kroeber Le Guin (1929-2018) |


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