segunda-feira, 8 de agosto de 2011
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
OUTRAS TRINTA FRASES DE MACHADO DE ASSIS
1) Nada há mais feio que dar pernas longuíssimas a ideias brevíssimas.
2) A esposa é apenas uma casaca, traje comum; a hetaira é uma farda agaloada de ouro.
3) Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito.
4) Eu sei que Vossa Excelência preferia uma delicada mentira; mas eu não conheço nada mais delicado que a verdade.
5) O infeliz namorado tinha o sestro, aliás comum, de querer ver quebrada ou inútil, a taça que ele não podia levar aos lábios.
6) A vida é uma ópera bufa com intervalos de música séria.
7) Vão esforço, inútil esforço. Mergulhava naquele Jordão sem sair batizado.
8) A gratidão de quem recebe um benefício é sempre menor que o prazer daquele que o faz.
9) Se a missão do romancista fosse copiar os fatos, tais quais eles se dão na vida, a arte era uma coisa inútil; a memória substituiria a imaginação.
10) A História é pessoa entrada em anos, gorda, pachorrenta, meditativa, tarda em recolher documentos, mais tarda ainda em os ler e decifrar.
11) Antes do poeta mostra−se o homem, antes do talento o caráter.
12) José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental as idéias; não as havendo, servia a prolongar as frases.
13) Todo aquele castelo de vento, laboriosamente construído nos seus dias de ilusão, todo ele se esboroava e desfazia, como vento que era.
14) A irmã olhou silenciosamente para ele, e admirou consigo mesma a ventura daqueles para quem as tempestades do ar importam mais que as tempestades da vida.
15) Quando a gente não pode imitar os grandes homens, imite ao menos as grandes ficções.
16) Era vaidoso como um tolo e tolo como um vaidoso.
17) Dizem que cozinha e política não devem ser feitas às claras, porque faz perder o gosto... Do jantar.
18) Não há mal que não traga um pouco de bem, e por isso é que o mal é útil, muita vez indispensável, alguma vez delicioso.
19) Ia cheia de perfumes e bálsamos; o rapaz respirou−lhos sem querer, e pela primeira vez sentiu a vertigem que pode causar uma mulher quando sabe escolher os aromas do seu uso.
20) A paciência é a gazua do amor.
21) Há casos em que a indignação silenciosa é o mais eloqüente comentário.
22) Felizes aqueles cujos dias correm com a insipidez de uma crônica vulgar. Geralmente os dramas da vida humana são mais toleráveis no papel que na realidade.
23) O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado.
24) Viver é lutar; e morrer é acabar lutando, que é outro modo de viver. Não sei se me entendem. Eu não me entendo. Digo coisas assim, à laia de trocado engenhoso, para tapar o buraco de uma idéia. É o nosso ofício de pedreiros literários.
25) Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola−se mais ou menos das pessoas que perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.
26) Há um bom costume na Índia, que eu quisera ver adotado no resto do mundo, ou pelo menos aqui no Rio de Janeiro. A visita não é que se despede; é o dono que a manda embora.
27) Não é mal esse costume de escrever o que se pensa e o que se vê, e dizer isso mesmo quando não se vê nem pensa nada.
28) Não era magro nem gordo, nem alto nem baixo; mediano em tudo, exceto na inteligência, que era ínfima.
29) Como vês, Capitu, aos quatorze anos, tinha já idéias atrevidas, muito menos que outras que lhe vieram depois; mas eram só atrevidas em si, na prática faziam−se hábeis, sinuosas, surdas, e alcançavam o fim proposto, não de salto, mas aos saltinhos.
30) Leio por instruir−me; às vezes por consolar−me. Creio nos livros e adoro−os.
2) A esposa é apenas uma casaca, traje comum; a hetaira é uma farda agaloada de ouro.
3) Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito.
4) Eu sei que Vossa Excelência preferia uma delicada mentira; mas eu não conheço nada mais delicado que a verdade.
5) O infeliz namorado tinha o sestro, aliás comum, de querer ver quebrada ou inútil, a taça que ele não podia levar aos lábios.
6) A vida é uma ópera bufa com intervalos de música séria.
7) Vão esforço, inútil esforço. Mergulhava naquele Jordão sem sair batizado.
8) A gratidão de quem recebe um benefício é sempre menor que o prazer daquele que o faz.
9) Se a missão do romancista fosse copiar os fatos, tais quais eles se dão na vida, a arte era uma coisa inútil; a memória substituiria a imaginação.
10) A História é pessoa entrada em anos, gorda, pachorrenta, meditativa, tarda em recolher documentos, mais tarda ainda em os ler e decifrar.
11) Antes do poeta mostra−se o homem, antes do talento o caráter.
12) José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental as idéias; não as havendo, servia a prolongar as frases.
13) Todo aquele castelo de vento, laboriosamente construído nos seus dias de ilusão, todo ele se esboroava e desfazia, como vento que era.
14) A irmã olhou silenciosamente para ele, e admirou consigo mesma a ventura daqueles para quem as tempestades do ar importam mais que as tempestades da vida.
15) Quando a gente não pode imitar os grandes homens, imite ao menos as grandes ficções.
16) Era vaidoso como um tolo e tolo como um vaidoso.
17) Dizem que cozinha e política não devem ser feitas às claras, porque faz perder o gosto... Do jantar.
18) Não há mal que não traga um pouco de bem, e por isso é que o mal é útil, muita vez indispensável, alguma vez delicioso.
19) Ia cheia de perfumes e bálsamos; o rapaz respirou−lhos sem querer, e pela primeira vez sentiu a vertigem que pode causar uma mulher quando sabe escolher os aromas do seu uso.
20) A paciência é a gazua do amor.
21) Há casos em que a indignação silenciosa é o mais eloqüente comentário.
22) Felizes aqueles cujos dias correm com a insipidez de uma crônica vulgar. Geralmente os dramas da vida humana são mais toleráveis no papel que na realidade.
23) O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado.
24) Viver é lutar; e morrer é acabar lutando, que é outro modo de viver. Não sei se me entendem. Eu não me entendo. Digo coisas assim, à laia de trocado engenhoso, para tapar o buraco de uma idéia. É o nosso ofício de pedreiros literários.
25) Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola−se mais ou menos das pessoas que perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.
26) Há um bom costume na Índia, que eu quisera ver adotado no resto do mundo, ou pelo menos aqui no Rio de Janeiro. A visita não é que se despede; é o dono que a manda embora.
27) Não é mal esse costume de escrever o que se pensa e o que se vê, e dizer isso mesmo quando não se vê nem pensa nada.
28) Não era magro nem gordo, nem alto nem baixo; mediano em tudo, exceto na inteligência, que era ínfima.
29) Como vês, Capitu, aos quatorze anos, tinha já idéias atrevidas, muito menos que outras que lhe vieram depois; mas eram só atrevidas em si, na prática faziam−se hábeis, sinuosas, surdas, e alcançavam o fim proposto, não de salto, mas aos saltinhos.
30) Leio por instruir−me; às vezes por consolar−me. Creio nos livros e adoro−os.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
TRINTA FRASES DE MACHADO DE ASSIS
1) Os adjetivos passam, os substantivos ficam.
2) Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular.
3) Marcela amou−me durante quinze meses e onze contos de réis.
4) Sua alma era uma fonte de duas bicas, vertia mel por uma e vinagre por outra.
5) Coelho tinha mais ambições que dinheiro, e não há pior situação que a de um homem cujo espírito está acima das algibeiras.
6) Que importa o tempo? Há amigos de oito dias e indiferentes de oito anos.
7) O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino, corte−dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabéns quando se lê, carta de pêsames quando se acabou de ler.
8) O amor contrariado, quando não leva a um desdém sublime da parte do coração, leva à tragédia ou à asneira.
9) As aparências enganam; foi a primeira banalidade que aprendi na vida, e nunca me dei mal com ela.
10) A beleza é como a bravura; vale mais se não a mentem à cara dos outros.
11) Só a beleza intelectual é independente e superior. A beleza física é irmã da paisagem.
12) Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.
13) O melhor dos bens é o que se não possuí.
14) É que o boato – não me refiro ao boato das simples notícias que envolvem caráter público e interesse comum – é uma das mais cômodas invenções humanas, porque encerra todas as vantagens da maledicência, sem os inconvenientes da responsabilidade.
15) Miloca não era cruel; pelo contrário, tinha sentimentos caridosos; mas, como ela mesma disse um dia ao pai, nunca se deve dar esmolas sem luvas de pelica, porque o contato da miséria não aumenta a grandeza da ação.
16) Então considerou que esse coração abandonado, tiritando de frio na rua, podia ela recebê−lo, agasalhá−lo, dar−lhe o principal lugar, numa palavra, casar com ele.
17) Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocados jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê−los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitações ou de agradecimento.
18) Tinha cóleras, que duravam o tempo das opiniões; minutos apenas.
19) Na escola não briguei com ninguém, ouvia o mestre, ouvia os companheiros, e se alguma vez estes eram extremados e discutiam, eu fazia de minha alma um compasso, que abria as pontas aos dois extremos.
20) A consciência é o mais cru dos chicotes.
21) Um contador de histórias é justamente o contrário de historiador, não sendo um historiador, afinal de contas, mais do que um contador de histórias. Por que essa diferença? Simples, leitor, nada mais simples. O historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado, humanista; o contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio, e entende que contar o que se passou é só fantasiar.
22) Tinha o coração disposto a aceitar tudo, não por inclinação a harmonia, senão por tédio à controvérsia.
23) O coração humano é a região do inesperado.
24) O destino, como todos os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho. Eles chegam a seu tempo, até que o pano cai, apagam−se as luzes, e os espectadores vão dormir.
25) A diplomacia me ensinou a aturar com paciência uma infinidade de sujeitos intoleráveis que este mundo nutre para os seus propósitos secretos.
26) Caí da poltrona; não me dividi fisicamente, como me parecera em criança; mas moralmente desdobrei−me em dois, um que imprecava, outro que gemia.
27) O ruído não é a eloqüência.
28) Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.
29) Escrevi−a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio.
30) Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.
2) Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular.
3) Marcela amou−me durante quinze meses e onze contos de réis.
4) Sua alma era uma fonte de duas bicas, vertia mel por uma e vinagre por outra.
5) Coelho tinha mais ambições que dinheiro, e não há pior situação que a de um homem cujo espírito está acima das algibeiras.
6) Que importa o tempo? Há amigos de oito dias e indiferentes de oito anos.
7) O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino, corte−dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabéns quando se lê, carta de pêsames quando se acabou de ler.
8) O amor contrariado, quando não leva a um desdém sublime da parte do coração, leva à tragédia ou à asneira.
9) As aparências enganam; foi a primeira banalidade que aprendi na vida, e nunca me dei mal com ela.
10) A beleza é como a bravura; vale mais se não a mentem à cara dos outros.
11) Só a beleza intelectual é independente e superior. A beleza física é irmã da paisagem.
12) Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.
13) O melhor dos bens é o que se não possuí.
14) É que o boato – não me refiro ao boato das simples notícias que envolvem caráter público e interesse comum – é uma das mais cômodas invenções humanas, porque encerra todas as vantagens da maledicência, sem os inconvenientes da responsabilidade.
15) Miloca não era cruel; pelo contrário, tinha sentimentos caridosos; mas, como ela mesma disse um dia ao pai, nunca se deve dar esmolas sem luvas de pelica, porque o contato da miséria não aumenta a grandeza da ação.
16) Então considerou que esse coração abandonado, tiritando de frio na rua, podia ela recebê−lo, agasalhá−lo, dar−lhe o principal lugar, numa palavra, casar com ele.
17) Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocados jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê−los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitações ou de agradecimento.
18) Tinha cóleras, que duravam o tempo das opiniões; minutos apenas.
19) Na escola não briguei com ninguém, ouvia o mestre, ouvia os companheiros, e se alguma vez estes eram extremados e discutiam, eu fazia de minha alma um compasso, que abria as pontas aos dois extremos.
20) A consciência é o mais cru dos chicotes.
21) Um contador de histórias é justamente o contrário de historiador, não sendo um historiador, afinal de contas, mais do que um contador de histórias. Por que essa diferença? Simples, leitor, nada mais simples. O historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado, humanista; o contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio, e entende que contar o que se passou é só fantasiar.
22) Tinha o coração disposto a aceitar tudo, não por inclinação a harmonia, senão por tédio à controvérsia.
23) O coração humano é a região do inesperado.
24) O destino, como todos os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho. Eles chegam a seu tempo, até que o pano cai, apagam−se as luzes, e os espectadores vão dormir.
25) A diplomacia me ensinou a aturar com paciência uma infinidade de sujeitos intoleráveis que este mundo nutre para os seus propósitos secretos.
26) Caí da poltrona; não me dividi fisicamente, como me parecera em criança; mas moralmente desdobrei−me em dois, um que imprecava, outro que gemia.
27) O ruído não é a eloqüência.
28) Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.
29) Escrevi−a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio.
30) Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
HERÓIS DEMAIS, UM ROMANCE DE LAURA RESTREPO
Parte da história latino−americana pode ser resumida no parágrafo final do conto A herança de Matilde Arcángel, de Juan Rulfo:
Quando parecia que já tinha terminado o desfile de figuras escuras que mal se distinguiam na noite, começou−se a ouvir, primeiro mal e depois mais clara, a musica de uma flauta. E dentro de poucos momentos, vi chegar meu afilhado Euremio montado no cavalo do compadre Euremio Cedillo. Vinha na garupa, com a mão esquerda pegando firme na flauta, enquanto a direita sustinha, atravessado na sela, o corpo de seu pai morto.
A força da metáfora (o filho carregando o corpo do pai) remete ao período colonial, quando, abusando da autoridade paterna, Portugal e Espanha reprimiram quaisquer desobediências de seus filhos bastardos d’além−mar. Saqueando as riquezas do novo continente, impingindo a religião católica aos nativos, instituindo um regime autoritário de governo, também gestaram o ressentimento, o rancor e o afastamento. As lutas de independência caracterizam o momento em que o filho rompe com o pai. No entanto, toda ação traumática exige uma reconciliação traumática. Morto o pai arquétipo urge encontrar quem o substitua. O desejo caminha na direção do refazer o percurso, corrigir as injustiças, estabelecer um patamar igualitário. Há quem diga que essa tarefa é utópica, que não há mais como restaurar os cristais quebrados.
Heróis demais, oitavo romance de Laura Restrepo, caminha na direção oposta. Otimista, misturando a história política latino−americana com humor de fina sensibilidade, a narrativa vai avançando no trabalho de autópsia do corpo em decomposição. A união da colombiana Lorenza com o argentino Ramón Iribarren vai sendo recuperada lentamente, entremeada por histórias de militância política, ilusões amorosas e amadurecimento intelectual. O elemento catalisador dessas lembranças é o filho, Mateo, 16 anos. O rapaz quer conhecer o pai. Ou melhor, reconhecer o pai. A distância física e afetiva criou um vazio e o filho quer saber a extensão do buraco. E enquanto esse personagem não entra em cena, Mateo e Lolé (que é a forma intima com que o filho denomina a mãe) vão passear, de mãos dadas, pelo passado.
Lorenza o esteve observando todos esses dias; seu filho se preparava para o encontro com o pai como para uma cerimônia. Ou um duelo.
Como convém a um bom suspense cabe esperar pela última cena para ver se o bandido é punido. Talvez não exista bandido. Ou herói. Na história de alguém ansioso por estabelecer suas origens, talvez, desta vez, não seja necessário ver o filho carregar o corpo morto do pai.
− Te liguei por isso, Lolé. Quem sabe é melhor você ir sozinha pra Bogotá, que acha?
− Hein? O que está dizendo?
−Eu fico com Ramón. Já está tudo acertado.
− Como?
−A boina basca é pra você. Te dou ela.
− Espere aí, Mateo. Isso é sério? Como assim, ficar com Ramón? Você não pode tomar uma decisão dessas sozinho, já sabe que eu...
− Duas ou três semanas apenas, até que acabem minhas férias do colégio.
− Mas, Mateo...
− Não se preocupe, eu não tenho dois anos e meio. Se eu cheiro uma ramonada, dou o fora e esse Ramón não me alcança nem nas curvas. Total, tenho a metade do peso dele e sou uma cabeça mais alto. Confie em mim, Lorenza. Vou ver quem é esse homem e volto quando souber.
A metáfora do conflito entre o pai e os filhos se repete na história da literatura colombiana. Depois que Gabriel Garcia Márquez ganhou o Prêmio Nobel, escrever se tornou difícil. A sombra do gigante determinou a escuridão. Mesmo assim, inclusive para estabelecer outros parâmetros, alguns novos talentos estão tentando usufruir um pouco do sol. Ao lado da prosa límpida de Álvaro Mutis (nascido em 1923), diversos romances colombianos foram publicados (sem muito sucesso) no Brasil: Impávido Colosso (Daniel Samper Pizano, 2006), Técnicas de Masturbação entre Batman e Robin e Era uma vez o amor mas tive que matá−lo (Efraim Medina Reyes, 2004 e 2006), A síndrome de Ulisses (Santiago Gamboa, 2006), A virgem dos sicários e O despenhadeiro (Fernando Vallejo, 2006 e 2008), entre outros.
Quando parecia que já tinha terminado o desfile de figuras escuras que mal se distinguiam na noite, começou−se a ouvir, primeiro mal e depois mais clara, a musica de uma flauta. E dentro de poucos momentos, vi chegar meu afilhado Euremio montado no cavalo do compadre Euremio Cedillo. Vinha na garupa, com a mão esquerda pegando firme na flauta, enquanto a direita sustinha, atravessado na sela, o corpo de seu pai morto.
A força da metáfora (o filho carregando o corpo do pai) remete ao período colonial, quando, abusando da autoridade paterna, Portugal e Espanha reprimiram quaisquer desobediências de seus filhos bastardos d’além−mar. Saqueando as riquezas do novo continente, impingindo a religião católica aos nativos, instituindo um regime autoritário de governo, também gestaram o ressentimento, o rancor e o afastamento. As lutas de independência caracterizam o momento em que o filho rompe com o pai. No entanto, toda ação traumática exige uma reconciliação traumática. Morto o pai arquétipo urge encontrar quem o substitua. O desejo caminha na direção do refazer o percurso, corrigir as injustiças, estabelecer um patamar igualitário. Há quem diga que essa tarefa é utópica, que não há mais como restaurar os cristais quebrados.
Heróis demais, oitavo romance de Laura Restrepo, caminha na direção oposta. Otimista, misturando a história política latino−americana com humor de fina sensibilidade, a narrativa vai avançando no trabalho de autópsia do corpo em decomposição. A união da colombiana Lorenza com o argentino Ramón Iribarren vai sendo recuperada lentamente, entremeada por histórias de militância política, ilusões amorosas e amadurecimento intelectual. O elemento catalisador dessas lembranças é o filho, Mateo, 16 anos. O rapaz quer conhecer o pai. Ou melhor, reconhecer o pai. A distância física e afetiva criou um vazio e o filho quer saber a extensão do buraco. E enquanto esse personagem não entra em cena, Mateo e Lolé (que é a forma intima com que o filho denomina a mãe) vão passear, de mãos dadas, pelo passado.
Lorenza o esteve observando todos esses dias; seu filho se preparava para o encontro com o pai como para uma cerimônia. Ou um duelo.
Como convém a um bom suspense cabe esperar pela última cena para ver se o bandido é punido. Talvez não exista bandido. Ou herói. Na história de alguém ansioso por estabelecer suas origens, talvez, desta vez, não seja necessário ver o filho carregar o corpo morto do pai.
− Te liguei por isso, Lolé. Quem sabe é melhor você ir sozinha pra Bogotá, que acha?
− Hein? O que está dizendo?
−Eu fico com Ramón. Já está tudo acertado.
− Como?
−A boina basca é pra você. Te dou ela.
− Espere aí, Mateo. Isso é sério? Como assim, ficar com Ramón? Você não pode tomar uma decisão dessas sozinho, já sabe que eu...
− Duas ou três semanas apenas, até que acabem minhas férias do colégio.
− Mas, Mateo...
− Não se preocupe, eu não tenho dois anos e meio. Se eu cheiro uma ramonada, dou o fora e esse Ramón não me alcança nem nas curvas. Total, tenho a metade do peso dele e sou uma cabeça mais alto. Confie em mim, Lorenza. Vou ver quem é esse homem e volto quando souber.
A metáfora do conflito entre o pai e os filhos se repete na história da literatura colombiana. Depois que Gabriel Garcia Márquez ganhou o Prêmio Nobel, escrever se tornou difícil. A sombra do gigante determinou a escuridão. Mesmo assim, inclusive para estabelecer outros parâmetros, alguns novos talentos estão tentando usufruir um pouco do sol. Ao lado da prosa límpida de Álvaro Mutis (nascido em 1923), diversos romances colombianos foram publicados (sem muito sucesso) no Brasil: Impávido Colosso (Daniel Samper Pizano, 2006), Técnicas de Masturbação entre Batman e Robin e Era uma vez o amor mas tive que matá−lo (Efraim Medina Reyes, 2004 e 2006), A síndrome de Ulisses (Santiago Gamboa, 2006), A virgem dos sicários e O despenhadeiro (Fernando Vallejo, 2006 e 2008), entre outros.
terça-feira, 2 de agosto de 2011
A FITA BRANCA ENVOLVE O OVO DA SERPENTE
Michael Haneke é um moralista radical. Ou seja, diante do mundo contemporâneo, é um provocador, um desses caras que adoram caminhar na contramão. E sem medo de ser atropelado. Ao contrário, quer atropelar. Alguns críticos o consideram um mestre do cinema da crueldade. Quem assistiu Violência gratuita (1997, refilmado em 2008), A professora de Piano (2001, baseado em romance de Elfriede Jelinek) e Caché (2005) provavelmente concorda com essa classificação. Inclusive porque o filme mais recente do diretor austríaco, A fita branca (Das weiße Band), vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes, em 2009, não desmente a tese.
Filmado em cores e depois transposto para o preto−e−branco, recurso estético que estabelece proposital distanciamento temporal e afetivo com o espectador, A fita branca trata de alguns eventos pouco usuais em uma aldeia alemã alguns meses antes do início da Primeira Guerra Mundial. Os acontecimentos externos (o acidente com o medico, o incêndio no celeiro, as duas crianças torturadas) e os episódios intramuros acrescentam substância à narrativa. No ambiente familiar, onde a coerção e a religião se aliam com a sevícia, o ovo da serpente inicia a eclosão.
Na cena inicial, a narração em off alerta que "depois de tantos anos ainda restam alguns mistérios e inumeráveis perguntas continuam sem resposta". Em outras palavras, o filme está preocupado em contar a história, mas não em terminá-la. O final "aberto", desses que deixam as conclusões para o espectador, estabelece o distanciamento. "Eis os fatos, faça com eles o que quiser", diz Haneke, abusando do método socrático de ensino. Principalmente porque não é difícil encontrar a resposta que ele não procurou esconder.
Para ajudar, ou atrapalhar, a fotografia do filme explora a profundidade de campo de maneira exemplar: as plantações de trigo engolindo o espaço e refletindo a luz. Em sintonia, os planos lentos − muitas vezes através de câmera parada (os personagens entrando e saindo do "frame"). O andamento não se afasta da linearidade, a voz do narrador conduzindo a sequência narrativa, acrescentando elementos, marcando os avanços temporais.
Enquanto quase todos os homens adultos (a exceção é o professor) são violentos, repressores e maníacos sexuais, as mulheres são submissas, carentes e dependentes da autoridade masculina. Mesmo a Baronesa, quando confessa interesse em outro homem, não consegue romper com a estrutura repressiva. É um mundo ordenado por regras punitivas e disciplinadoras. E que se estende aos filhos através da violência física. Os filhos do pastor, ao transgredirem o ordenamento doméstico, são obrigados a usar a fita branca (metáfora da estrela de Davi − usada pelos judeus durante o Terceiro Reich). O branco é a cor da inocência e ajuda "a evitar o pecado, o egoísmo, a inveja, a indecência, a mentira e a preguiça", como discursa o pai das crianças.
Esse homem voltado aos “valores superiores”, e que desempenha um papel fundamental no ordenamento social da vila, esquece de mencionar que o mundo adulto é hipócrita. E que as qualidades que exige nos filhos raramente são obedecidas pelos adultos. Omite que sente prazer em bater nos filhos. Não entende como agressão o amarrar as mãos do filho adolescente na cama para impedir que o menino se masturbe. Nada observa sobre a maneira com que o Barão explora os empregados. Finge desconhecer que o médico é o pai do filho deficiente da empregada – além de, nas horas vagas, molestar a filha.
Entre o mundo das aparências (habitado pelas crianças) e o mundo real (dominado pelos adultos), as vítimas se transformam em algozes. É isso que o professor desconfia quando vai falar com o pastor, ao final do filme. Ao revelar as suas suspeitas, não o faz por ter certeza de que os crimes foram cometidos pelas crianças, mas sim por não acreditar que sejam obras dos adultos. Envolto no idealismo fácil de que os adultos sabem distinguir entre o certo e o errado, prefere apostar no óbvio.
Independente de quem praticou a ignomínia − e as cenas finais não ajudam no esclarecimento do enigma −, o filme alerta para uma verdade atemporal: os bárbaros estão prestes a arrombar as portas da civilização.
Filmado em cores e depois transposto para o preto−e−branco, recurso estético que estabelece proposital distanciamento temporal e afetivo com o espectador, A fita branca trata de alguns eventos pouco usuais em uma aldeia alemã alguns meses antes do início da Primeira Guerra Mundial. Os acontecimentos externos (o acidente com o medico, o incêndio no celeiro, as duas crianças torturadas) e os episódios intramuros acrescentam substância à narrativa. No ambiente familiar, onde a coerção e a religião se aliam com a sevícia, o ovo da serpente inicia a eclosão.
Na cena inicial, a narração em off alerta que "depois de tantos anos ainda restam alguns mistérios e inumeráveis perguntas continuam sem resposta". Em outras palavras, o filme está preocupado em contar a história, mas não em terminá-la. O final "aberto", desses que deixam as conclusões para o espectador, estabelece o distanciamento. "Eis os fatos, faça com eles o que quiser", diz Haneke, abusando do método socrático de ensino. Principalmente porque não é difícil encontrar a resposta que ele não procurou esconder.
Para ajudar, ou atrapalhar, a fotografia do filme explora a profundidade de campo de maneira exemplar: as plantações de trigo engolindo o espaço e refletindo a luz. Em sintonia, os planos lentos − muitas vezes através de câmera parada (os personagens entrando e saindo do "frame"). O andamento não se afasta da linearidade, a voz do narrador conduzindo a sequência narrativa, acrescentando elementos, marcando os avanços temporais.
Enquanto quase todos os homens adultos (a exceção é o professor) são violentos, repressores e maníacos sexuais, as mulheres são submissas, carentes e dependentes da autoridade masculina. Mesmo a Baronesa, quando confessa interesse em outro homem, não consegue romper com a estrutura repressiva. É um mundo ordenado por regras punitivas e disciplinadoras. E que se estende aos filhos através da violência física. Os filhos do pastor, ao transgredirem o ordenamento doméstico, são obrigados a usar a fita branca (metáfora da estrela de Davi − usada pelos judeus durante o Terceiro Reich). O branco é a cor da inocência e ajuda "a evitar o pecado, o egoísmo, a inveja, a indecência, a mentira e a preguiça", como discursa o pai das crianças.
Esse homem voltado aos “valores superiores”, e que desempenha um papel fundamental no ordenamento social da vila, esquece de mencionar que o mundo adulto é hipócrita. E que as qualidades que exige nos filhos raramente são obedecidas pelos adultos. Omite que sente prazer em bater nos filhos. Não entende como agressão o amarrar as mãos do filho adolescente na cama para impedir que o menino se masturbe. Nada observa sobre a maneira com que o Barão explora os empregados. Finge desconhecer que o médico é o pai do filho deficiente da empregada – além de, nas horas vagas, molestar a filha.
Entre o mundo das aparências (habitado pelas crianças) e o mundo real (dominado pelos adultos), as vítimas se transformam em algozes. É isso que o professor desconfia quando vai falar com o pastor, ao final do filme. Ao revelar as suas suspeitas, não o faz por ter certeza de que os crimes foram cometidos pelas crianças, mas sim por não acreditar que sejam obras dos adultos. Envolto no idealismo fácil de que os adultos sabem distinguir entre o certo e o errado, prefere apostar no óbvio.
Independente de quem praticou a ignomínia − e as cenas finais não ajudam no esclarecimento do enigma −, o filme alerta para uma verdade atemporal: os bárbaros estão prestes a arrombar as portas da civilização.
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