quinta-feira, 8 de setembro de 2011
UM LIVRO, UMA ILHA DESERTA
O jornalismo cultural, nas horas em que a imaginação entra em colapso, costuma brincar com indagações infantis. Uma delas é clássica: que livro(s) você levaria para uma ilha deserta? Como sói acontecer nessas complicações que levam ao nada, as melhores respostas são as mais estapafúrdias. Inclusive porque dependem – necessariamente – do histórico da vítima, digo, de quem está respondendo a pergunta.
Se o entrevistado tiver alguma ligação religiosa, o leque é variado: Bíblia, Corão, Baghadav Gita, os textos sagrados dos Vedas, qualquer coisa escrita por Sua Santidade, o Dalai Lama. Basta ter algum tipo de misticismo no meio que até o Livro de São Cipriano (capa preta) passa a ter chance de ser escolhido. Margeando o tema, surge no horizonte o espectro de Homero: Odisséia e Ilíada.
Ainda no âmbito das religiões, O Capital costuma aparecer entre os mais votados – apesar do marxismo ser relativamente inútil em uma ilha deserta. Para a esquerdinha Ballantine´s, que adora se perder nas brumas da consciência política, Antônio Gramsci é uma espécie de são João Batista do martírio social. Aqueles que gostam de "ajoelhar e rezar" nunca alimentam dúvidas: cravam firme no Cadernos do Cárcere.
Freud, Reich, Marcuse, Lacan, Foucault e Marques de Sade integram a lista das possibilidades recorrentes do pessoal que se diverte com "livros que se lêem com uma só mão". Munidos de imaginação fértil e libido desenfreada, os estetas do corpo resolvem suas necessidades básicas manuseando o Kama Sutra ou O jardim perfumado do xeque Nefzaui.
Leitores mais sofisticados apostam em ilhas do tesouro muito particulares: Meditações (Marco Aurélio), Ensaios (Montaigne) ou Mínima Moralia (Theodor Adorno).
A vanguarda literária − essa gurizada que vive a chupar pirulito enquanto decide se quer crescer (física e intelectualmente) − adora passear de barco nesses arquipélagos que são Ulisses (James Joyce), Grande Sertões: Veredas (Guimarães Rosa) e Alice no país das maravilhas (Lewis Carroll).
Como o mundo está repleto de leitores capazes de beber cicuta em lugar de desistir de seus ideais, variados e diversos filósofos (dependendo de quem estiver fazendo sucesso academicamente) costumam ornamentar corações e mentes: Anaximandro, Platão, Aristóteles, Maquiavel, Descartes, Sartre, Camus, Peter Pan.
As listas e justificativas poderiam se estender pela infinitude do existir. Reconheço que todas são dignas de respeito e alta consideração. Mas... Se, e somente se, tivesse que viver por algum tempo, ou os dias que me restam, em uma ilha deserta e me fosse dado o direito de levar um, somente um, livro para lá, provavelmente escolheria o Dicionário de lugares imaginários, organizado por Alberto Manguel e Gianni Guadalupi.
A explicação é simples: toda a minha vida está relacionada com a literatura. Ou seja, aceitando que o mundo ficcional é esquizofrênico, nos meus melhores momentos de lucidez tive dificuldades para distinguir entre o real e o imaginário. Cenários geográficos onde estive física e mentalmente se confundem − em alguns momentos, não me incomodaria se fossem a mesma coisa. Durante centenas de noites insones, cogitei viver em Pasárgada (Lá sou amigo do rei) − principalmente se contasse com a possibilidade de haver algum portal capaz de teletransportar até a biblioteca da Abadia, onde (diante das estantes abarrotadas, ao lado de William de Baskerville e Adson de Melk) procuraria por incunábulos e iluminuras raros. Se conseguisse chegar até Arkhan, Gondor ou Xanadu, provavelmente me apaixonaria perdidamente durante duas ou três semanas. Na Ruritânia, espada em punho, tudo faria para salvar o prisioneiro de Zenda. Em dias que alternam manhãs de tempestades e tardes ensolaradas, imaginaria romances água−com−açúcar situados em Antares, Pelucidar, Karhide e Ismaélia. Na ilha de Caliban ou em Tubiacanga, sonhando com aventuras que nunca viverei, comporia sinfonias elegíacas. Redistribuiria o meu mapa pessoal: Gothan City, situada no Liso do Sussuarão, divide fronteiras com Camelot, Fortaleza de Bastiani e o Reino de Uidá. Acompanhando Kublai Khan, destruiria as pontes de Filide, enterraria os mortos em Leônia e viveria experiências sexuais capazes de assustar os habitantes de Valdrada. Na varanda do Sítio do Pica−pau Amarelo assistiria diversas maratonas de filmes policiais. Nas ruas de Macondo enlouqueceria suavemente ao lado de Aureliano Buendía. Não havendo escolha, terminaria meus dias em Winterfall.
A ficção é a fotografia que colamos na parede − lembrete de que existem outros mundos nos esperando. Basta acreditar ou abrir um livro.
terça-feira, 6 de setembro de 2011
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
DOMINGO DE SOL
Depois de um inverno bastante intenso, domingo de sol. Pela manhã, logo depois de acordar, abri as cortinas do quarto e olhei para o céu. Pela primeira vez em muitos dias, não encontrei nuvens ameaçadoras. Mesmo sabendo que um dia de tempo bom − nesta época do ano – é exceção, fui tomado por maravilhosa sensação de bem−estar. Diante do esplendor azul, não foi difícil imaginar que a estação das enchentes e do frio acabou. Como não é possível adiantar o relógio do mundo, a primavera ainda vai demorar uns quinze dias.
No início da tarde, fui "quarar". Em outros lugares do país, costuma−se dizer "lagartear". Não sei qual dessas expressões é a mais feia. Bonita é a falta de compromisso com a seriedade conceitual. Bonito é se deixar embalar pelos sons e desatinos do viver. Bonito é gozar (de várias formas) a luz solar. Fechei a porta do apartamento, chamei o elevador e desci até a rua: camiseta, bermuda, chinelo, telefone celular desligado. Carreguei para o calor e a luminosidade dois livros e o computador. Li um pouco, pensei bobagens, escrevi − o laptop substituindo a caneta e o bloco de anotações.
Enquanto o sol queimava o meu corpo, recuperando um pouco do bronzeado que nunca tive, fiquei a olhar o movimento da rua. Algumas pessoas estavam alegres. Ninguém parecia economizar sorrisos. Depois de tanta chuva, não é possível negar que algo mudou na cidade. E para melhor. Uma criança (parecida com um "bambino" pré−rafaelita) gritou de alegria, enquanto comia pipoca. Livres do pudor e do peso de casacos e botas, as mulheres exibiam o formato de seus corpos em vestidos leves, coloridos, florais. Visões do paraíso – pensei baixinho, enquanto agradecia por estar aproveitando um dia tão bonito.
Em outros tempos, finais de semana ensolarados eram a melhor desculpa para sair de casa. A família unida, os filhos vestindo "roupa de domingo". Passear no "Tanque" ou piqueniques nas proximidades da Gruta de São Bom Jesus. Depois, em algumas ocasiões, íamos visitar algum parente. O "café−com−mistura", às quatro da tarde (quando a atração principal eram as roscas de coalhada, feitas por minha avó), não existe mais. Pelo mesmo caminho se perderam muitas lembranças. As crianças, brincando no gramado, nunca mais terão a oportunidade de ver os adultos sentados na varanda, conversando interminavelmente sobre a história social e afetiva da família.
Quando a escuridão começou a invadir o horizonte, o frio infiltrou−se na tarde. A transitoriedade do clima e da vida ensinando que nada é permanente. Voltei para dentro do apartamento. Depois de mudar de roupa e beber um pouco de água, não me foi possível ignorar um ligeiro incômodo − talvez medo pela ausência do sol.
No início da tarde, fui "quarar". Em outros lugares do país, costuma−se dizer "lagartear". Não sei qual dessas expressões é a mais feia. Bonita é a falta de compromisso com a seriedade conceitual. Bonito é se deixar embalar pelos sons e desatinos do viver. Bonito é gozar (de várias formas) a luz solar. Fechei a porta do apartamento, chamei o elevador e desci até a rua: camiseta, bermuda, chinelo, telefone celular desligado. Carreguei para o calor e a luminosidade dois livros e o computador. Li um pouco, pensei bobagens, escrevi − o laptop substituindo a caneta e o bloco de anotações.
Enquanto o sol queimava o meu corpo, recuperando um pouco do bronzeado que nunca tive, fiquei a olhar o movimento da rua. Algumas pessoas estavam alegres. Ninguém parecia economizar sorrisos. Depois de tanta chuva, não é possível negar que algo mudou na cidade. E para melhor. Uma criança (parecida com um "bambino" pré−rafaelita) gritou de alegria, enquanto comia pipoca. Livres do pudor e do peso de casacos e botas, as mulheres exibiam o formato de seus corpos em vestidos leves, coloridos, florais. Visões do paraíso – pensei baixinho, enquanto agradecia por estar aproveitando um dia tão bonito.
Em outros tempos, finais de semana ensolarados eram a melhor desculpa para sair de casa. A família unida, os filhos vestindo "roupa de domingo". Passear no "Tanque" ou piqueniques nas proximidades da Gruta de São Bom Jesus. Depois, em algumas ocasiões, íamos visitar algum parente. O "café−com−mistura", às quatro da tarde (quando a atração principal eram as roscas de coalhada, feitas por minha avó), não existe mais. Pelo mesmo caminho se perderam muitas lembranças. As crianças, brincando no gramado, nunca mais terão a oportunidade de ver os adultos sentados na varanda, conversando interminavelmente sobre a história social e afetiva da família.
Quando a escuridão começou a invadir o horizonte, o frio infiltrou−se na tarde. A transitoriedade do clima e da vida ensinando que nada é permanente. Voltei para dentro do apartamento. Depois de mudar de roupa e beber um pouco de água, não me foi possível ignorar um ligeiro incômodo − talvez medo pela ausência do sol.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
OSCAR WILDE: UMA SÍNTESE EM CINQUENTA E SETE FRASES
− Nunca viajo sem o meu diário. Devemos ter sempre algo sensacional para ler no trem.
− Na América, os jovens estão sempre prontos para conceder aos mais velhos todos os benefícios de sua inexperiência.
− Gosto de homens com futuro e de mulheres com passado.
− Só existe uma coisa no mundo pior do que falarem de nós: é não falarem.
− Posso resistir a tudo, menos às tentações.
− Os homens se casam por cansaço. As mulheres, por curiosidade. E todos se decepcionam.
− A única maneira de uma mulher mudar um homem é chateando−o tanto que ele acabe perdendo qualquer interesse pela vida.
− Gosto mais de pessoas que de princípios, e gosto de pessoas sem princípios mais do que de qualquer outra coisa no mundo.
− Não me interesso por irmãos. Meu irmão mais velho teima em não morrer e meus irmãos mais novos parecem querer imitá−lo.
− Para voltar a ser jovem, eu seria capaz de qualquer coisa – menos fazer ginástica, levantar cedo ou me tornar respeitável.
− Trinta e cinco anos é uma idade muito atraente. A sociedade londrina é cheia de mulheres nascidas em berço de ouro que – como elas próprias alardeiam – têm essa idade há anos.
− Seleciono meus amigos pela aparência, meus conhecidos pelo caráter e meus inimigos pelo intelecto. Um homem deve ser muito cuidadoso na escolha dos inimigos.
− O riso não é um mau começo para uma amizade – e é, sem sombra de dúvida, a melhor maneira de se terminar uma.
− Nada mais perigoso do que ser demasiado moderno: corre−se o risco de sair de moda rapidamente.
− Amar a si mesmo é o começo de um romance para toda a vida.
− A patologia vem se tornando rapidamente a base da literatura sensacionalista. Tanto quanto na política, também na arte há um grande futuro para os monstros.
− No amor, é sempre uma questão de fisiologia. Não tem nada a ver com a nossa vontade: os jovens querem ser fiéis e não o são; os velhos querem ser infiéis e não conseguem.
− A arte é o nosso enfático protesto, nossa tentativa heroica de ensinar a natureza qual é o seu lugar verdadeiro.
− Os pecados da carne não são nada. São doenças a serem curadas pelos médicos, se for o caso de curá−las. Só os pecados da alma são vergonhosos.
− Qualquer um pode escrever um romance volumoso. Basta ser completamente ignorante sobre a vida e a literatura.
− Muitas vezes as pessoas se perguntam que forma de governo mais convém ao artista. Só há uma resposta possível: a ausência absoluta de governo.
− A felicidade de um homem casado depende das pessoas com quem não se casou.
− Adoro ouvir falar mal dos meus parentes. É a única coisa que me faz suportá−los. Os parentes são um punhado de gente chata que não tem o menor conhecimento de como viver, nem a menor percepção de quando devem morrer.
− A maioria das mulheres é tão artificial que não tem senso artístico. A maioria dos homens é tão natural que não tem senso de beleza.
− Toda vez que alguém faz algo realmente estúpido, é sempre pelos motivos mais nobres.
− O único encanto do casamento é tornar uma vida de decepções algo absolutamente imprescindível para ambas as partes.
− Nunca se deve praticar um ato sobre o qual não se pode falar depois do jantar.
− Ah, não diga que concorda comigo. Quando as pessoas compartilham a minha opinião, eu desconfio que estou errado.
− Prefiro perder meu melhor amigo ao pior inimigo. Para ter amigos, só é preciso boa índole; mas quando um homem não tem inimigos, certamente há algo de desprezível nele.
− O amor saiu completamente de moda. Os poetas o mataram. Escreveram tanto a respeito dele, que ninguém mais acredita em suas palavras – o que não me surpreende. O amor verdadeiro sofre e cala.
− Ser bom é estar em harmonia consigo mesmo. Os conflitos surgem quando se é forçado a entrar em harmonia com os demais.
− A conversa deve passar por tudo e não se concentrar em nada.
− Todo crime é vulgar, da mesma maneira que toda vulgaridade é crime.
− Nunca busquei a felicidade. Quem quer saber da felicidade? Minha procura é de prazer.
− Quando uma pessoa fala a verdade, ela pode ter certeza de que mais cedo ou mais tarde será desmascarada.
− Experiência é simplesmente o nome que os homens dão aos seus erros.
− Nunca confie numa mulher que diz sua verdadeira idade. Uma mulher que diz isso é capaz de dizer qualquer coisa.
− Hoje em dia, as pessoas sabem o preço de tudo e o valor de nada.
− É absurdo dividir as pessoas em boas ou más. Ou elas são interessantes ou são chatas.
− Os livros não se dividem entre morais e imorais: são bem escritos ou mal escritos, e isso é tudo.
− Sempre fui de opinião que a consistência é o último refúgio dos que não tem imaginação.
− Milagres sempre acontecem. É por isso que não podemos acreditar neles.
− Não tenho medo da morte. O que me aterroriza é a aproximação dela.
− Londres esta cheia de mulheres que confiam no maridos. São reconhecíveis com grande facilidade: todas elas parecem extremamente infelizes.
− O motivo pelo qual gostamos de pensar tão bem dos outros é que tememos por nós mesmos. A base do otimismo é o terror absoluto.
− Quem não vê diferença entre alma e corpo carece de ambos.
− Se as classes baixas não dão bons exemplos, que serventia têm? Elas não parecem ter o menor senso de responsabilidade moral!
− Os fiéis conhecem apenas o lado trivial do amor. Só os infiéis conhecem suas tragédias.
− O senhor nunca veio a uma das minhas festas, não é mesmo? Pois precisa vir. Eu não posso me dar ao luxo de ter orquídeas, mas não faço economia no tocante a estrangeiros: eles dão um toque tão pitoresco ao ambiente!
− Detesto discussões. São sempre vulgares e, muitas vezes, convincentes.
− Sempre passo adiante os bons conselhos. É a única coisa a ser feita. Eles nunca servem para nós mesmos.
− As pessoas falam muita bobagem sobre casamentos felizes! O homem pode ser feliz com qualquer mulher, contanto que não a ame.
− A arte nunca deve tentar ser popular. O público é que deve tentar tornar−se artístico.
− Se o conheço? Conheço−o tão bem que não falo com ele há dez anos.
− As pessoas deveriam estar sempre apaixonadas. É por isso que nunca deveriam se casar.
− Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas.
− Na América, os jovens estão sempre prontos para conceder aos mais velhos todos os benefícios de sua inexperiência.
− Gosto de homens com futuro e de mulheres com passado.
− Só existe uma coisa no mundo pior do que falarem de nós: é não falarem.
− Posso resistir a tudo, menos às tentações.
− Os homens se casam por cansaço. As mulheres, por curiosidade. E todos se decepcionam.
− A única maneira de uma mulher mudar um homem é chateando−o tanto que ele acabe perdendo qualquer interesse pela vida.
− Gosto mais de pessoas que de princípios, e gosto de pessoas sem princípios mais do que de qualquer outra coisa no mundo.
− Não me interesso por irmãos. Meu irmão mais velho teima em não morrer e meus irmãos mais novos parecem querer imitá−lo.
− Para voltar a ser jovem, eu seria capaz de qualquer coisa – menos fazer ginástica, levantar cedo ou me tornar respeitável.
− Trinta e cinco anos é uma idade muito atraente. A sociedade londrina é cheia de mulheres nascidas em berço de ouro que – como elas próprias alardeiam – têm essa idade há anos.
− Seleciono meus amigos pela aparência, meus conhecidos pelo caráter e meus inimigos pelo intelecto. Um homem deve ser muito cuidadoso na escolha dos inimigos.
− O riso não é um mau começo para uma amizade – e é, sem sombra de dúvida, a melhor maneira de se terminar uma.
− Nada mais perigoso do que ser demasiado moderno: corre−se o risco de sair de moda rapidamente.
− Amar a si mesmo é o começo de um romance para toda a vida.
− A patologia vem se tornando rapidamente a base da literatura sensacionalista. Tanto quanto na política, também na arte há um grande futuro para os monstros.
− No amor, é sempre uma questão de fisiologia. Não tem nada a ver com a nossa vontade: os jovens querem ser fiéis e não o são; os velhos querem ser infiéis e não conseguem.
− A arte é o nosso enfático protesto, nossa tentativa heroica de ensinar a natureza qual é o seu lugar verdadeiro.
− Os pecados da carne não são nada. São doenças a serem curadas pelos médicos, se for o caso de curá−las. Só os pecados da alma são vergonhosos.
− Qualquer um pode escrever um romance volumoso. Basta ser completamente ignorante sobre a vida e a literatura.
− Muitas vezes as pessoas se perguntam que forma de governo mais convém ao artista. Só há uma resposta possível: a ausência absoluta de governo.
− A felicidade de um homem casado depende das pessoas com quem não se casou.
− Adoro ouvir falar mal dos meus parentes. É a única coisa que me faz suportá−los. Os parentes são um punhado de gente chata que não tem o menor conhecimento de como viver, nem a menor percepção de quando devem morrer.
− A maioria das mulheres é tão artificial que não tem senso artístico. A maioria dos homens é tão natural que não tem senso de beleza.
− Toda vez que alguém faz algo realmente estúpido, é sempre pelos motivos mais nobres.
− O único encanto do casamento é tornar uma vida de decepções algo absolutamente imprescindível para ambas as partes.
− Nunca se deve praticar um ato sobre o qual não se pode falar depois do jantar.
− Ah, não diga que concorda comigo. Quando as pessoas compartilham a minha opinião, eu desconfio que estou errado.
− Prefiro perder meu melhor amigo ao pior inimigo. Para ter amigos, só é preciso boa índole; mas quando um homem não tem inimigos, certamente há algo de desprezível nele.
− O amor saiu completamente de moda. Os poetas o mataram. Escreveram tanto a respeito dele, que ninguém mais acredita em suas palavras – o que não me surpreende. O amor verdadeiro sofre e cala.
− Ser bom é estar em harmonia consigo mesmo. Os conflitos surgem quando se é forçado a entrar em harmonia com os demais.
− A conversa deve passar por tudo e não se concentrar em nada.
− Todo crime é vulgar, da mesma maneira que toda vulgaridade é crime.
− Nunca busquei a felicidade. Quem quer saber da felicidade? Minha procura é de prazer.
− Quando uma pessoa fala a verdade, ela pode ter certeza de que mais cedo ou mais tarde será desmascarada.
− Experiência é simplesmente o nome que os homens dão aos seus erros.
− Nunca confie numa mulher que diz sua verdadeira idade. Uma mulher que diz isso é capaz de dizer qualquer coisa.
− Hoje em dia, as pessoas sabem o preço de tudo e o valor de nada.
− É absurdo dividir as pessoas em boas ou más. Ou elas são interessantes ou são chatas.
− Os livros não se dividem entre morais e imorais: são bem escritos ou mal escritos, e isso é tudo.
− Sempre fui de opinião que a consistência é o último refúgio dos que não tem imaginação.
− Milagres sempre acontecem. É por isso que não podemos acreditar neles.
− Não tenho medo da morte. O que me aterroriza é a aproximação dela.
− Londres esta cheia de mulheres que confiam no maridos. São reconhecíveis com grande facilidade: todas elas parecem extremamente infelizes.
− O motivo pelo qual gostamos de pensar tão bem dos outros é que tememos por nós mesmos. A base do otimismo é o terror absoluto.
− Quem não vê diferença entre alma e corpo carece de ambos.
− Se as classes baixas não dão bons exemplos, que serventia têm? Elas não parecem ter o menor senso de responsabilidade moral!
− Os fiéis conhecem apenas o lado trivial do amor. Só os infiéis conhecem suas tragédias.
− O senhor nunca veio a uma das minhas festas, não é mesmo? Pois precisa vir. Eu não posso me dar ao luxo de ter orquídeas, mas não faço economia no tocante a estrangeiros: eles dão um toque tão pitoresco ao ambiente!
− Detesto discussões. São sempre vulgares e, muitas vezes, convincentes.
− Sempre passo adiante os bons conselhos. É a única coisa a ser feita. Eles nunca servem para nós mesmos.
− As pessoas falam muita bobagem sobre casamentos felizes! O homem pode ser feliz com qualquer mulher, contanto que não a ame.
− A arte nunca deve tentar ser popular. O público é que deve tentar tornar−se artístico.
− Se o conheço? Conheço−o tão bem que não falo com ele há dez anos.
− As pessoas deveriam estar sempre apaixonadas. É por isso que nunca deveriam se casar.
− Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
DUAS PALAVRAS E UMA REFLEXÃO SUPERFICIAL SOBRE A LÍNGUA PORTUGUESA
Outro dia, no meio de uma palestra sobre Dom Casmurro (romance escrito por Machado de Assis em 1899), foram citadas duas palavras pouco usuais. Quer dizer, absolutamente obscuras. Pelo menos para os alunos. Alguns professores também as desconheciam (mas, para bem do ensino nacional, fizeram de conta que o assunto não era com eles).
A primeira dessas palavras surgiu quando foi citada uma das muitas manifestações de ciúme de Bentinho: "a certeza de que não era o amigo que estava sendo baixado à tumba, mas o comborço". Comborço? Que raios pode significar essa palavra? Antes que algum engraçadinho perguntasse a diferença entre com borso e sem borso, o mistério não teve vida longa. Utilizando−se de informação colhida no divertido A vida íntima das palavras (SILVA, Deonísio da. São Paulo: Arx, 2002) houve por bem esclarecer que a palavra comborço possui origem controversa. Talvez seja derivada do espanhol combruezo, que une o prefixo latino cum (com) com o radical pellex (enganador/a). Nos primórdios, o vocábulo era atribuído ao doce exercício daquela que os preconceituosos chamam de a mais antiga das profissões. Em português, comborço teve o seu sentido modificado – mas não muito. Machado de Assis a utiliza significando o amante da esposa. Por extensão, também significa a amante do esposo. Alguns autores admitem uso mais complicado: amante de filho espúrio − o que, definitivamente, embaralha a história das relações afetivas e sexuais que envolvem as famílias. No texto de Dom Casmurro, a palavra surge outras vezes, uma das mais famosas aparece quando Bento renega o filho Ezequiel: "(...) era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar. Era o meu comborço, era o filho de seu pai."
A segunda palavra é caso especial: schadenfreude. Como se trata de um vocábulo de origem alemã, e de uso restrito à psicologia e à psicanálise, todos se sentiram desobrigados de conhecê-lo. Talvez, como naquela anedota célebre, não estivessem relacionando o nome com o seu significado. De forma genérica, a junção das palavras schaden (prejuízo) e freude (alegria, prazer) está relacionada com aquele sentimento de bem−estar que, em maior ou menor grau, costuma−se sentir quando tomamos conhecimento da desgraça de algum conhecido (provavelmente desafeto). É o prazer ou alegria de ver o sofrimento ou infelicidade dos outros.
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Alguns anos atrás, o Deputado Federal Aldo Rebelo (PC do B) apresentou um projeto de lei que proibia a utilização de expressões estrangeiras no comercio e nos meios de comunicação. Essa proposta − baseada em desconhecimento da origem etimológica das palavras que compõem a língua portuguesa, na variante falada no Brasil − defendia a pureza lexical. Bobagem. Qualquer estudante da primeira fase do curso de Letras poderia informar ao remake de Policarpo Quaresma que a língua portuguesa não é pura. Aliás, nem mesmo essa discussão é original. No final do século XIX, algumas almas bem intencionadas alertaram, perdão, berraram contra as ruínas que a língua francesa estava espalhando no idioma português. Com o passar do tempo, os galicismos foram sendo dicionarizados. Com maior riqueza vocabular, o português não deixou de ser português por isso.
A língua portuguesa surgiu da união de alguns dialetos bárbaros com o latim e o grego. Em doses menores, o árabe e o espanhol também acrescentaram um pouco de tempero à língua falada no Condado Portucalense. No caso brasileiro, não é possível esquecer as importantes contribuições que recebemos das nações indígenas (Tupi−Guarani, Macro−Jê,...) e das diferentes culturas africanas (Iorubá – ou Nagô −, Quimbundo,...) que escravizamos. Em doses homeopáticas, as línguas italiana, alemã e japonesa, além de algumas outras, também contribuíram para a formação desse samba do crioulo doido que usamos para nos comunicar. Recentemente, seja em razão de nosso sempre visível complexo de inferioridade, seja porque a linguagem tecnológica está atrelada à ideologia do dominador, o idioma inglês anda também fazendo alguns estragos no português. Provavelmente foi essa influência que o projeto de lei do Deputado Aldo Rebelo queria combater.
O português é um organismo vivo, capaz de receber e fornecer contribuições lingüísticas. Ou seja, está em constante transformação. Então, não há o porquê de tentar estabelecer barreiras alfandegárias para algumas palavras. Os usos e costumes determinarão quais vocábulos serão anexados ou eliminados do léxico. Precisa-se apenas respeitar os casos onde há equivalente adequado. Expressões em outra língua precisam ser coerentes. Lojas que utilizam cartazes anunciando 50% off deveriam ser multadas por agressão estética. Por que não utilizar o trivial 50% de desconto? Provavelmente porque é trivial. Na procura por algum diferencial de marketing, a primeira vítima é a língua portuguesa. O verbo deletar é outro exemplo anacrônico. Fruto de um modismo lingüístico, desses que desaparecerão em poucos anos, deve ser substituído pelo elementar "apagar".
Por fim, há que lembrar o básico: a língua falada deste lado do oceano não é igual a do outro lado. Talvez fosse melhor − em lugar de tentar expurgar a influência da língua inglesa no Brasil − procurar entender porque palavras como infantário, caliça, autoclismo, montra, peúga e alcatifa são completamente estranhas ao nosso vocabulário diário.
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