segunda-feira, 1 de agosto de 2011
sexta-feira, 29 de julho de 2011
QUARENTA AFORISMOS DE FRANÇOIS DE LA ROCHEFOUCAULD
1) O mal que praticamos não atrai tanta perseguição e ódio quanto nossas boas qualidades.
2) Os que muito se dedicam às coisas miúdas tornam−se muitas vezes incapazes das grandes.
3) Para nos instalarmos no mundo, fazemos o possível para nele parecermos instalados.
4) A graça está para o corpo assim como o bom−senso está para o espírito.
5) Não há disfarce que por muito tempo possa esconder o amor que existe, nem fingir o que não existe.
6) Há uma só espécie de amor, porém mil diferentes cópias.
7) Há muitos remédios para o amor, nenhum infalível.
8) Mais vergonhoso é desconfiar dos amigos do que ser por eles logrado.
9) Apraz aos velhos dar bons conselhos, como consolo por já não estarem em condição de dar maus exemplos.
10) A velhice é um tirano que proíbe, sob pena de morte, todos os prazeres da mocidade.
11) Há casamentos bons, mas não os há deliciosos.
12) Muitas vezes fazemos o bem para impunemente podermos fazer o mal.
13) Julgar−se mais astuto que os outros é a melhor maneira de enganar−se.
14) A demasiada sutileza é falsa delicadeza; a verdadeira delicadeza, sutileza.
15) Basta às vezes ser grosseiro para não ser logrado por um homem hábil.
16) O menor defeito das mulheres que se entregam por amor é fazer amor.
17) É mais fácil ser sensato com os outros que o ser consigo.
18) Não basta ter grandes qualidades, é preciso saber empregá−las.
19) Todos nos envergonharíamos da maioria de nossas boas ações, se o mundo soubesse os verdadeiros motivos por trás delas.
20) A arte de bem empregar qualidades medíocres rende estima e, muitas vezes, mais reputação que o verdadeiro mérito.
21) Há mais pessoas desprovidas de interesse que de inveja.
22) Quem vive sem loucura não é tão sensato quanto pensa.
23) A demasiada pressa de pagar uma obrigação é uma espécie de ingratidão.
24) São incorrigíveis as pessoas felizes: acreditam sempre ter razão quando é a fortuna que lhes sustenta a má conduta.
25) A verdadeira eloqüência consiste em dizer tudo o que é preciso, e somente o que é preciso.
26) É impossível amar uma segunda vez quem verdadeiramente deixamos de amar.
27) Na amizade como no amor, mais trazem felicidades as coisas ignoradas que as sabidas.
28) Há loucuras que se contraem como doenças contagiosas.
29) Quem fala bem de nós nada de novo nos ensina.
30) Se há homens cujo ridículo nunca aparece é que não o procuraram bem.
31) Não podem as pessoas fracas ser sinceras.
32) Não achamos de bom senso quem não é de nossa opinião.
33) O ciúme nasce sempre com o amor, mas nem sempre morre com ele.
34) É quase sempre culpa de quem ama não perceber quando deixa de ser amado.
35) Poucas mulheres honestas não estão fartas de seu ofício.
36) Se resistimos às nossas paixões, é mais pela fraqueza delas que pela nossa força.
37) O que torna insuportável a vaidade alheia é que ela fere a nossa.
38) Todas as paixões fazem−nos cometer faltas, mas o amor faz−nos cometer as mais ridículas.
39) Perdoamos facilmente nos amigos os defeitos que não nos incomodam.
40) A ruína do próximo agrada aos amigos e inimigos.
2) Os que muito se dedicam às coisas miúdas tornam−se muitas vezes incapazes das grandes.
3) Para nos instalarmos no mundo, fazemos o possível para nele parecermos instalados.
4) A graça está para o corpo assim como o bom−senso está para o espírito.
5) Não há disfarce que por muito tempo possa esconder o amor que existe, nem fingir o que não existe.
6) Há uma só espécie de amor, porém mil diferentes cópias.
7) Há muitos remédios para o amor, nenhum infalível.
8) Mais vergonhoso é desconfiar dos amigos do que ser por eles logrado.
9) Apraz aos velhos dar bons conselhos, como consolo por já não estarem em condição de dar maus exemplos.
10) A velhice é um tirano que proíbe, sob pena de morte, todos os prazeres da mocidade.
11) Há casamentos bons, mas não os há deliciosos.
12) Muitas vezes fazemos o bem para impunemente podermos fazer o mal.
13) Julgar−se mais astuto que os outros é a melhor maneira de enganar−se.
14) A demasiada sutileza é falsa delicadeza; a verdadeira delicadeza, sutileza.
15) Basta às vezes ser grosseiro para não ser logrado por um homem hábil.
16) O menor defeito das mulheres que se entregam por amor é fazer amor.
17) É mais fácil ser sensato com os outros que o ser consigo.
18) Não basta ter grandes qualidades, é preciso saber empregá−las.
19) Todos nos envergonharíamos da maioria de nossas boas ações, se o mundo soubesse os verdadeiros motivos por trás delas.
20) A arte de bem empregar qualidades medíocres rende estima e, muitas vezes, mais reputação que o verdadeiro mérito.
21) Há mais pessoas desprovidas de interesse que de inveja.
22) Quem vive sem loucura não é tão sensato quanto pensa.
23) A demasiada pressa de pagar uma obrigação é uma espécie de ingratidão.
24) São incorrigíveis as pessoas felizes: acreditam sempre ter razão quando é a fortuna que lhes sustenta a má conduta.
25) A verdadeira eloqüência consiste em dizer tudo o que é preciso, e somente o que é preciso.
26) É impossível amar uma segunda vez quem verdadeiramente deixamos de amar.
27) Na amizade como no amor, mais trazem felicidades as coisas ignoradas que as sabidas.
28) Há loucuras que se contraem como doenças contagiosas.
29) Quem fala bem de nós nada de novo nos ensina.
30) Se há homens cujo ridículo nunca aparece é que não o procuraram bem.
31) Não podem as pessoas fracas ser sinceras.
32) Não achamos de bom senso quem não é de nossa opinião.
33) O ciúme nasce sempre com o amor, mas nem sempre morre com ele.
34) É quase sempre culpa de quem ama não perceber quando deixa de ser amado.
35) Poucas mulheres honestas não estão fartas de seu ofício.
36) Se resistimos às nossas paixões, é mais pela fraqueza delas que pela nossa força.
37) O que torna insuportável a vaidade alheia é que ela fere a nossa.
38) Todas as paixões fazem−nos cometer faltas, mas o amor faz−nos cometer as mais ridículas.
39) Perdoamos facilmente nos amigos os defeitos que não nos incomodam.
40) A ruína do próximo agrada aos amigos e inimigos.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
NA INFÂNCIA, O DOMINGO TINHA SABOR DE PIRULITO ZORRO
Na infância, o domingo tinha sabor de pirulito Zorro, balas azedinhas, Mentex e Diamante Negro.
Antes, no almoço, lasanha. Uma travessa de vidro enorme, fumegante, colocada no meio da mesa, o queijo derretendo diante dos olhos. Pai, mãe, irmãos – todos comportados, fingindo amor. A sobremesa variava: arroz−doce, sagu ou doce de gila. Depois, no início da tarde, quando podíamos nos livrar das amarras familiares, cinema. Cine Tamoio, onde o pai de alguns amigos era funcionário. Às vezes, Cine Marajoara. Raramente no Cine Avenida − era longe, precisava pegar ônibus.
Domingo era dia de faroeste. Dólar furado, Por um punhado de dólares, Django, Lee van Cliff fazendo pose de pistoleiro que vai levar tiro no peito na cena final do filme. Alegria grande, dessas de quem ganha na loteria, eram aqueles filmes em que os amigos Winnetou e Mão−de−ferro lutavam contra os bandidos. A Biblioteca Pública tinha todas essas aventuras, cansei de levar emprestados os livros escritos por Karl May.
Às vezes passavam filmes de Maciste, Hércules, Sansão e Dalila. Victor Mature fazendo pose de galã. Umas histórias enroladas, muitas cenas de lutas com espadas, gladiadores vencendo leões no Coliseu, mulheres com togas curtas, o contorno dos corpos se insinuando debaixo do tecido fino. Ninguém perdia essas sessões. Assunto garantido no recreio da escola, na manhã seguinte.
Naquele tempo, a bomboniere do cinema era sortida em doces e não vendia pipoca. Em uma cidade próxima, um juiz não gostou de ouvir alguém estourar a embalagem. Proibiu a venda em todos os cinemas. Anos 70. A repressão torturava impunemente e nós íamos ao cinema se divertir.
Refrigerantes também não vendiam. Não lembro o motivo. Se estivesse com sede e algum dinheiro, era preciso entrar em algum bar e pedir no balcão. Não havia nada melhor do que Crush gelado, aquele gostinho artificial de laranja descendo pela garganta como se fosse festa. Sabor muito diferente daquelas limonadas aguadas que acompanhavam as refeições lá em casa. Em dias especiais tínhamos permissão para beber capilé (um xarope de groselha gosmento).
Não importava se tínhamos assistido filmaço ou bomba, ir ao cinema era um prazer. Depois, revista em quadrinhos. Essa era uma parte indispensável do programa. Em uma banca lá perto do Marajoara tinha de tudo: Pato Donald, Zé Carioca, Batman, Super−Homem. Muitas vezes não era possível comprar todas as novidades. Acordos financeiros com os irmãos raramente funcionavam. O usual eram as brigas, os gritos e acusações, as promessas de contar "tudo" para a mãe.
Domingo, no inicio da noite, costumávamos visitar um dos irmãos de meu pai. Lá tinha televisão. Na nossa casa, não. Solenes, fazíamos silêncio diante das imagens transmitidas pela TV Gaúcha, único canal possível naqueles tempos. Nossa diversão era, primeiro, o Show do Gordo − um mix de entretenimento, com direito a calouros musicais. Uma hora depois, a grande atração da noite: Ringue 12 Marinha Magazine. Todo mundo torcendo por Ted Boy Marino, que julgávamos o maior lutador de todos os tempos.
Mais tarde, não lembro quando, o mundo das imagens se expandiu através da TV Coligadas, de Blumenau.
Na infância, em alguns momentos, a felicidade esteve por perto – depois, como sempre acontece, foi embora.
Antes, no almoço, lasanha. Uma travessa de vidro enorme, fumegante, colocada no meio da mesa, o queijo derretendo diante dos olhos. Pai, mãe, irmãos – todos comportados, fingindo amor. A sobremesa variava: arroz−doce, sagu ou doce de gila. Depois, no início da tarde, quando podíamos nos livrar das amarras familiares, cinema. Cine Tamoio, onde o pai de alguns amigos era funcionário. Às vezes, Cine Marajoara. Raramente no Cine Avenida − era longe, precisava pegar ônibus.
Domingo era dia de faroeste. Dólar furado, Por um punhado de dólares, Django, Lee van Cliff fazendo pose de pistoleiro que vai levar tiro no peito na cena final do filme. Alegria grande, dessas de quem ganha na loteria, eram aqueles filmes em que os amigos Winnetou e Mão−de−ferro lutavam contra os bandidos. A Biblioteca Pública tinha todas essas aventuras, cansei de levar emprestados os livros escritos por Karl May.
Às vezes passavam filmes de Maciste, Hércules, Sansão e Dalila. Victor Mature fazendo pose de galã. Umas histórias enroladas, muitas cenas de lutas com espadas, gladiadores vencendo leões no Coliseu, mulheres com togas curtas, o contorno dos corpos se insinuando debaixo do tecido fino. Ninguém perdia essas sessões. Assunto garantido no recreio da escola, na manhã seguinte.
Naquele tempo, a bomboniere do cinema era sortida em doces e não vendia pipoca. Em uma cidade próxima, um juiz não gostou de ouvir alguém estourar a embalagem. Proibiu a venda em todos os cinemas. Anos 70. A repressão torturava impunemente e nós íamos ao cinema se divertir.
Refrigerantes também não vendiam. Não lembro o motivo. Se estivesse com sede e algum dinheiro, era preciso entrar em algum bar e pedir no balcão. Não havia nada melhor do que Crush gelado, aquele gostinho artificial de laranja descendo pela garganta como se fosse festa. Sabor muito diferente daquelas limonadas aguadas que acompanhavam as refeições lá em casa. Em dias especiais tínhamos permissão para beber capilé (um xarope de groselha gosmento).
Não importava se tínhamos assistido filmaço ou bomba, ir ao cinema era um prazer. Depois, revista em quadrinhos. Essa era uma parte indispensável do programa. Em uma banca lá perto do Marajoara tinha de tudo: Pato Donald, Zé Carioca, Batman, Super−Homem. Muitas vezes não era possível comprar todas as novidades. Acordos financeiros com os irmãos raramente funcionavam. O usual eram as brigas, os gritos e acusações, as promessas de contar "tudo" para a mãe.
Domingo, no inicio da noite, costumávamos visitar um dos irmãos de meu pai. Lá tinha televisão. Na nossa casa, não. Solenes, fazíamos silêncio diante das imagens transmitidas pela TV Gaúcha, único canal possível naqueles tempos. Nossa diversão era, primeiro, o Show do Gordo − um mix de entretenimento, com direito a calouros musicais. Uma hora depois, a grande atração da noite: Ringue 12 Marinha Magazine. Todo mundo torcendo por Ted Boy Marino, que julgávamos o maior lutador de todos os tempos.
Mais tarde, não lembro quando, o mundo das imagens se expandiu através da TV Coligadas, de Blumenau.
Na infância, em alguns momentos, a felicidade esteve por perto – depois, como sempre acontece, foi embora.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
A ÚLTIMA ESTAÇÃO (UM FILME SOBRE OS ÚLTIMOS DIAS DE TOLSTOI)
O filme A última estação (The last station. Dir. Michael Hoffman, 2009), baseado em romance de Jay Parini (The last station: a novel of Tolstoy’s last year), é uma tentativa de retratar os últimos dias de vida de Liev Nikolayevich Tolstoi. Infelizmente, é apenas uma tentativa. Dessas que, ao mesmo tempo em que ensaiam colocar em ordem a confusão, deixam o chão enlameado, o mundo de ponta−cabeça.
Exemplo de um cinema cada vez mais freqüente, os dias que antecedem a morte de Tolstoi são narrados com impressionante superficialidade. Condensação do tempo e do espaço, a esconder o mundo que os cerca. As questões mais importantes do início do século 20 foram deixadas de lado. Nem mesmo as transformações políticas na Russia (crescimento da insatisfação popular contra o Czar, revolta de 1905) são citadas. O que transparece é uma grandiosidade falsificada, produto da falta de senso crítico com as personalidades históricas – esquecendo que, atrás do endeusamento, existem seres humanos. Em outras palavras, A última estação é um filme repleto de ausências. Faltam muitas coisas – inclusive os russos. O elenco estelar não conta com nenhum nativo da Europa Oriental. E isso é, no mínimo, ridículo. Também falta uma maior consistência na elaboração do personagem que deveria ser o protagonista. Christopher Plummer (com aquela barba residual de Alvo Dumbledore) não convence como Tolstoi – principalmente nas cenas em que a apatia (bastante artificial) devora o senso crítico do autor de Guerra e paz. O pacto ficcional caminha em direção oposta à vontade da produção: colocar em cena um excelente ator não transforma uma bobagem em obra−prima.
Além disso, o enredo perde o sentido quando se divide em dois pólos secundários. O envolvimento afetivo entre o secretário de Tolstoi, Valentin Fedorovitch Bulgakov (James McAvoy), e Maria Filipova (Anne−Marie Duff) acrescenta no andamento narrativo o romantismo típico (e alienado) das histórias de amor. Parece até recurso de roteirista sem imaginação, que quer preencher o espaço com algum elemento mais suave, menos tenso.
Na parte mais movimentada do filme, a oposição (afetiva, ideológica, econômica) entre Sofya Andreyeva (Helen Mirren) e Vladimir Grigorievitch Chertkov (Paul Giamatti) desvia o olhar do espectador para as intrigas do poder. São cenas teatrais, tempestuosas, divertidas, patéticas. Sofya Andreyeva, uma mulher passional, muitas vezes rompe as barreiras do bom senso. Chertkov não passa de um manipulador, um desses cretinos que somente conseguem se realizar com o sucesso alheio.
Com todos esses desdobramentos da ação narrativa, Tolstoi fica em segundo plano. Parece uma marionete sem personalidade, jogada para lá e para cá − de acordo com interesses circunstanciais. A sua morte, no sul da Rússia, se transforma em mero complemento. Enquanto Lyev Nikolaievitch agoniza, o filme emoldura outros episódios da luta entre Sofya Andreyeva e Vladimir Grigorievitch. É recurso risível, típico de cinema de terceira categoria. Para completar a comédia, o happy end surge logo depois do anúncio da morte de Tolstoi: Valentin Fedorovitch reencontra Maria Filipova e sela com um beijo o porvir.
Resumo da ópera: A última estação, assim como o romance de Jay Parini, é ruim, muito ruim.
Exemplo de um cinema cada vez mais freqüente, os dias que antecedem a morte de Tolstoi são narrados com impressionante superficialidade. Condensação do tempo e do espaço, a esconder o mundo que os cerca. As questões mais importantes do início do século 20 foram deixadas de lado. Nem mesmo as transformações políticas na Russia (crescimento da insatisfação popular contra o Czar, revolta de 1905) são citadas. O que transparece é uma grandiosidade falsificada, produto da falta de senso crítico com as personalidades históricas – esquecendo que, atrás do endeusamento, existem seres humanos. Em outras palavras, A última estação é um filme repleto de ausências. Faltam muitas coisas – inclusive os russos. O elenco estelar não conta com nenhum nativo da Europa Oriental. E isso é, no mínimo, ridículo. Também falta uma maior consistência na elaboração do personagem que deveria ser o protagonista. Christopher Plummer (com aquela barba residual de Alvo Dumbledore) não convence como Tolstoi – principalmente nas cenas em que a apatia (bastante artificial) devora o senso crítico do autor de Guerra e paz. O pacto ficcional caminha em direção oposta à vontade da produção: colocar em cena um excelente ator não transforma uma bobagem em obra−prima.
Além disso, o enredo perde o sentido quando se divide em dois pólos secundários. O envolvimento afetivo entre o secretário de Tolstoi, Valentin Fedorovitch Bulgakov (James McAvoy), e Maria Filipova (Anne−Marie Duff) acrescenta no andamento narrativo o romantismo típico (e alienado) das histórias de amor. Parece até recurso de roteirista sem imaginação, que quer preencher o espaço com algum elemento mais suave, menos tenso.
Na parte mais movimentada do filme, a oposição (afetiva, ideológica, econômica) entre Sofya Andreyeva (Helen Mirren) e Vladimir Grigorievitch Chertkov (Paul Giamatti) desvia o olhar do espectador para as intrigas do poder. São cenas teatrais, tempestuosas, divertidas, patéticas. Sofya Andreyeva, uma mulher passional, muitas vezes rompe as barreiras do bom senso. Chertkov não passa de um manipulador, um desses cretinos que somente conseguem se realizar com o sucesso alheio.
Com todos esses desdobramentos da ação narrativa, Tolstoi fica em segundo plano. Parece uma marionete sem personalidade, jogada para lá e para cá − de acordo com interesses circunstanciais. A sua morte, no sul da Rússia, se transforma em mero complemento. Enquanto Lyev Nikolaievitch agoniza, o filme emoldura outros episódios da luta entre Sofya Andreyeva e Vladimir Grigorievitch. É recurso risível, típico de cinema de terceira categoria. Para completar a comédia, o happy end surge logo depois do anúncio da morte de Tolstoi: Valentin Fedorovitch reencontra Maria Filipova e sela com um beijo o porvir.
Resumo da ópera: A última estação, assim como o romance de Jay Parini, é ruim, muito ruim.
terça-feira, 26 de julho de 2011
LUCIAN FREUD
Lucian Freud está morto. Foi isso que os jornais anunciaram. Requiescat in pace, bloody bastard, exclamei em voz alta, como se fosse possível exorcizar a ignomínia. Li alguns elogios fúnebres na Internet, todos em ritmo de hagiografia. É sempre divertido ver como a canalha adora corromper o que lhe escapa ao entendimento.
Alguns anos atrás, ou melhor, quase no final do século passado, passei alguns bons minutos na frente do original de Girl with a White Dog. Depois, atordoado por aquele realismo excessivo, fui ver outras pinturas, me encantar com diferentes formas de retratar o espanto, amansar a mente com os traços poéticos de Pierre Bonnard. Fui descobrir tons e nuances que as reproduções em livros de arte não nos mostram. Como a vida não é feita apenas de alegrias e sonhos, não fui longe. Em outra sala encontrei telas de Francis Bacon e a loucura voltou a contaminar meus olhos. Para alguém que não sabe (nunca soube) desenhar, aquele passeio por um dos mais importantes parques de diversões das artes plásticas foi uma espécie de conversão ao mundo da magia.
Mexendo em uma dessas caixas de sapato em que guardo pedaços do passado, encontrei vários cartões postais, comprados na loja de souvenires da Tate Gallery. Girl with a White Dog é um deles. Os olhos da mulher, repletos de angústia, a cortina escura como pano de fundo (parecendo esconder segredos pesados), me assustam. A aparente tranquilidade do cão (em dupla função: descansar, proteger a mulher) se prolonga na lição de anatomia proposta pelo seio descoberto, exposto à visitação pública, desafiando o pudor anglicano. A mão esquerda encobrindo o outro seio (a ilusão de que há outro seio, a ilusão de que o corpo completo saciará a sede proposta pela imagem) traduz a apreensão que encontramos no olhar da mulher. A composição parece nos dizer que a trajeto entre o visível e o que está escondido pelo roupão não é pacífico. O desejo transita por essas ruas que levam até a exaustão.
Em Self−Portrait with Patricia Preece há proposital falta de proporção entre as figuras, a sobreposição de uma imagem sobre a outra, o pescoço masculino torcido, o papel de parede florido, os corpos sem vestimentas, ela prostrada, ele ausente, sem grandes encantos, as cores da pele emparedando os sentimentos. No triste espetáculo da intimidade devassada, utilizando uma luz forte, ofuscante, o artista tentou eliminar a sensualidade ou a excitação. E fez isso com uma pincelada menos contraída, menos preocupada com as minúcias do desenho.
Mestre nos efeitos antirromânticos, Lucian fornecia, em algumas de suas telas, uma feiúra proposital, agressiva. Flertava com os sentimentos mais desagradáveis do ser humano ao oferecer imagens que afastam a visão do espectador. Ao mesmo tempo, estava ciente de que são essas imagens grotescas que serão revisitadas continuamente. É a dor (imaginária, simbólica, real) que fornece humanidade ao espectador.
Eu pinto pessoas não precisamente pelo que elas parecem, não exatamente pelo que elas são, mas como elas deveriam ser, disse o artista, esclarecendo (ou complicando) o seu modo de percepção da arte.
Lucian, um dos netos de Sigmund Freud (e ninguém é da família do "inventor" da psicanálise impunemente), nasceu em Berlim em 1922. Com a ascensão do nazismo, sua família migrou para a Inglaterra, onde se estabeleceu. Foi marinheiro, professor universitário (visitante), ganhou prêmios. Tinha alguns amigos e muitos inimigos. Na vida privada, cometeu alguns excessos – conta a lenda que reconheceu cerca de quarenta filhos, talvez mais.
Alguns anos atrás, ou melhor, quase no final do século passado, passei alguns bons minutos na frente do original de Girl with a White Dog. Depois, atordoado por aquele realismo excessivo, fui ver outras pinturas, me encantar com diferentes formas de retratar o espanto, amansar a mente com os traços poéticos de Pierre Bonnard. Fui descobrir tons e nuances que as reproduções em livros de arte não nos mostram. Como a vida não é feita apenas de alegrias e sonhos, não fui longe. Em outra sala encontrei telas de Francis Bacon e a loucura voltou a contaminar meus olhos. Para alguém que não sabe (nunca soube) desenhar, aquele passeio por um dos mais importantes parques de diversões das artes plásticas foi uma espécie de conversão ao mundo da magia.
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| Lucian Freud, em foto de Francis Goodman (1945) |
Em Self−Portrait with Patricia Preece há proposital falta de proporção entre as figuras, a sobreposição de uma imagem sobre a outra, o pescoço masculino torcido, o papel de parede florido, os corpos sem vestimentas, ela prostrada, ele ausente, sem grandes encantos, as cores da pele emparedando os sentimentos. No triste espetáculo da intimidade devassada, utilizando uma luz forte, ofuscante, o artista tentou eliminar a sensualidade ou a excitação. E fez isso com uma pincelada menos contraída, menos preocupada com as minúcias do desenho.
Mestre nos efeitos antirromânticos, Lucian fornecia, em algumas de suas telas, uma feiúra proposital, agressiva. Flertava com os sentimentos mais desagradáveis do ser humano ao oferecer imagens que afastam a visão do espectador. Ao mesmo tempo, estava ciente de que são essas imagens grotescas que serão revisitadas continuamente. É a dor (imaginária, simbólica, real) que fornece humanidade ao espectador.
Eu pinto pessoas não precisamente pelo que elas parecem, não exatamente pelo que elas são, mas como elas deveriam ser, disse o artista, esclarecendo (ou complicando) o seu modo de percepção da arte.
Lucian, um dos netos de Sigmund Freud (e ninguém é da família do "inventor" da psicanálise impunemente), nasceu em Berlim em 1922. Com a ascensão do nazismo, sua família migrou para a Inglaterra, onde se estabeleceu. Foi marinheiro, professor universitário (visitante), ganhou prêmios. Tinha alguns amigos e muitos inimigos. Na vida privada, cometeu alguns excessos – conta a lenda que reconheceu cerca de quarenta filhos, talvez mais.
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