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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O GAROTO DO MEU PAI

 


Não tenho medo da morte. O que me aterroriza é a aproximação dela. A frase, atribuída ao escritor Oscar Wilde, de certa forma, multiplica o alcance do romance autobiográfico O garoto do meu pai, de Emmanuelle Lambert (Editora Autêntica Contemporânea, 2023. Tradução de Adriana Lisboa). A narradora, sem conseguir conter a emoção, precisa contar ao leitor como foram os últimos dias de seu pai. O câncer estava sugando as últimas forças de matemático que trabalhou com programação de computadores, que era um leitor voraz (inclusive de ficção científica), que jogava pôquer, bridge, xadrez e vôlei, que gostava de música (ópera) e de cachorros, que ajudou a criar duas filhas com amor e rispidez. 

Na Cerimônia do adeus, ritualizada em uma narrativa descosturada, cabe àquela que era sua filhinha, que ele arrastava meio que para todo canto como ela fosse um menino, reconstruir o presente e o passado, mesmo que em alguns momentos o tempo se mostre complicado, o hoje e o ontem misturados como se fossem uma coisa só. Susan Sontag não é citada no texto, mas uma de suas frases atravessa a narrativa como se fosse um dogma: Todas as pessoas vivas têm dupla cidadania, uma no reino da saúde e outra no reino da doença. Essa sentença projeta a ameaça latente, o encerramento do ciclo da vida.   

A questão principal do livro é outra: como devemos nos comportar diante da morte daqueles que amamos? A narradora vai descrevendo o que acontece no hospital (esse labirinto de paredes assépticas: lavanda e damasco). Uma última tentativa desesperada de impedir o inevitável: a enfermeira fala com calma, explica as diferentes doses do tratamento. Eu franzo uma sobrancelha para dar a impressão de entender algo dessa coisa que não entendo. O sofrimento – para o doente, para quem o está acompanhando – causa tormento: Dizem-me “tratamento experimental”, ouço “se ele vai morrer mesmo, pelo menos que isso sirva para alguma coisa”. E fico cega à utilidade daquilo, só vejo a vida que ainda pulsa em suas veias, a ele, que quero manter perto de mim, agora, para sempre.

Então, na terça-feira, Quando voltamos ao quarto (...). Repeti o que ele me dissera: ele não queria o tratamento. Todos nós sabíamos que isso o condenava a um prazo muito curto. O dr. K. pretendia, por sua vez, honrar o pacto que o unia a seu paciente. Queria ter certeza de que entendíamos. (...) Ele encarou o médico com um olhar fixo, articulando lentamente: “Quero morrer”. Depois disso não havia mais nada a dizer.  

Então, cessam todas as tentativas de prolongar a existência, a vontade do doente deve ser respeitada, mas sob uma mínima condição: Agarramo-nos aos olhos do dr. K., ele não está sentindo dor, não é?, isso é principal, a única coisa que importa, o resto podemos aceitar, no fundo é a vida que vai, não é a morte que é intolerável, é o sofrimento animalesco. Grandes doses de morfina são injetadas no corpo doente – uma forma piedosa de chamar pela morte.

Através de digressões sobre a vida familiar, o relato procura reconstituir a existência daquele que até algum tempo atrás era força e substância. Na cartografia do imaginário, o território da perda está repleto de armadilhas. A qualquer momento pode surgir uma crise, um momento de desespero, difícil conter o turbilhão que acompanha a ausência, mesmo quando se está ciente do que nos espera, o pó, a invisibilidade de nossas trajetórias. Escrever sobre a morte do pai consiste em um esforço de resistência ao apagamento da memória – mesmo sabendo que as palavras são insuficientes para expressar os sentimentos.

Livro triste, O garoto do meu pai também celebra a vida, esse espetáculo com hora marcada para terminar. Inclinei-me sobre ele, sua respiração parou. Acariciei sua cabeça, depositei um beijo em sua testa e sussurrei em seu ouvido, vai ficar tudo bem, pai; e ficou tudo bem.  

  

TRECHO ESCOLHIDO

O fato de não poder mais ler por exaustão era para ele, sem dúvida, a coisa mais intimamente cruel e degradante. Isso atacava seu ser interior, o garoto perdido cujos únicos amigos sempre tinham sido os livros. A mesa de cabeceira, por mais que estivesse cheia de jornais, revistas, tablets e telefones, de todas essas próteses essenciais à nossa vida consumista, parecia-me então completamente vazia. Ele queria morrer; tinha razão.


Emmanuelle Lambert


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