No cyberpunk, um subgênero da ficção científica, a distopia está envolta uma névoa em que o virtual e o real se confundem. A capacidade cognitiva e a memória dos humanos são alteradas por drogas ou por dispositivos implantados no cérebro e as grandes corporações, de uma forma ou de outra, interferem na liberdade dos indivíduos.
Esse território, conectado à alta tecnologia, se mostra propício para o surgimento de duas figuras estereotipadas: o herói e o criminoso – mas que, em alguns momentos, se confundem, poucas vezes o leitor consegue distinguir um do outro. De qualquer forma, encharcados de niilismo, esses indivíduos procuram por algo mais do que salvar a própria pele. Embora adotem métodos de ação divergentes, seguem – religiosamente – os objetivos que traçaram: desmascarar/mascarar os mecanismos de opressão e violência que envolvem a vida cotidiana. Tudo depende de que lado estão – ou que acreditam estarem.
Em Contrapeso, romance sul-coreano escrito por Djuna (Editora Suma das Letras, 2024. Tradução de Luís Girão), um mercenário, Mac, se envolve em uma espécie de teoria da conspiração. O tema principal da narrativa se divide entre a construção de um elevador espacial em Patusan, uma ilha longínqua, e a luta intestina pelo controle do grupo LK – um conglomerado que possui ramificações em várias áreas científicas. Nesse cenário muito próximo da selvageria, a modernidade se esvai, embora estabeleça os contornos de uma sociedade que se projeta como modelo futurista – esquecendo que esse tipo de projeto promete libertar o mundo da pobreza, mas sempre existem locais onde a tecnologia é insuficiente.
Os pontos significativos do texto sugerem que o porvir pertence à inteligência artificial (esse monstro que vive de armazenar informações alheias) e que a privacidade desaparecerá. Confirmadas estas duas hipóteses, a história da humanidade estará estruturada na sensação constante de que cada um dos indivíduos será monitorado por algum tipo de mecanismo de controle eletrônico. A nova síndrome médica da modernidade passa a ser a paranoia, esse mal-estar que surge da sensação (simbólica, imaginária, real) de repressão policial e militar.
Para tentar obter um antídoto contra essa percepção (e, ao mesmo tempo, ampliá-la) surge a necessidade de formar grupos de resistência. Evidentemente, qualquer movimento subversivo ao ordenamento estatal precisará enfrentar e/ou superar perigos inimagináveis.
Mac, narrador em primeira pessoa, oferece uma versão particular dos acontecimentos, mas o seu pensamento se mostra confuso (detalhista em alguns momentos, disperso em outros), sempre interessado em construir uma versão que o favorece (diminuindo a sua participação em alguns horrores – inclusive no extermínio daqueles que se mostram contrários à construção do elevador).
A confusão se multiplica com a incursão de Choi Kang-woo (um funcionário do grupo LK Space) no contrapeso (a estrutura de sustentação do elevador espacial). Parece cena adaptada de enredo de Philip K. Dick, mas com menos inspiração. Falta intensidade e sobra superficialidade – a projeção holográfica de Kim Jae-in e o “fantasma” de Han Bu-kyeom são elementos narrativos dispersivos e que atuam no velho ritmo “encher linguiça”, comprovando que o livro, em determinado momento, perdeu o sentido e a direção.
Contrapeso
possui
qualidade para ser adaptado pelo cinema, espaço artístico onde o entretenimento
feérico supera o conteúdo político.
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P.S:
1)
Djuna é um pseudônimo. Nada se sabe sobre o seu nome, gênero ou idade.
2)
Neuromancer, de William Gibson (Editora Aleph, 2008), o melhor romance cyberpunk
de todos os tempos

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