A simplicidade de contar uma boa história pelo método tradicional: começo, meio e fim (nesta ordem). Sem truques narrativos, sem surpresas psicológicas, sem ignorar o horror que acompanha o ser humano. Essa estratégia literária foi adotada por Claire Keegan, em Pequenas coisas como estas (Editora Relicário, 2024. Tradução de Adriana Lisboa).
Alguns dias antes do Natal de 1985, em pleno inverno rigoroso, Bill Furlong precisa levar uma carga de lenha para o convento próximo de New Ross, pequena cidade situada no interior da Irlanda. Acidentalmente, ele descobre algo que – a princípio – parece estranho. Por que as coisas que estavam mais próximas eram com tanta frequência as mais difíceis de ver? Em uma sociedade dominada pela religião católica, onde algumas questões morais são fundamentais, muitas vezes a prática cotidiana vai em direção contrária aos ensinamentos propostos pela igreja.
Bill Furlong, filho de mãe solteira (que engravidou aos 16 anos), criado por uma senhora rica e benevolente, casado com Eileen, cinco filhas, comerciante (lenha, carvão, turfa, antracito e toras de madeira), cidadão respeitado na comunidade. Esses dados biográficos não conseguem resumir as complexidades psicológicas de um personagem que precisa superar um dilema ético. E que, em muitos momentos, se preocupa com essas pequenas coisas (small things like these) que dividem o mundo entre dois grupos antagônicos: os que encaram os problemas e os que olham para o outro lado – para não ver as desgraças, para solidificar o ordenamento hipócrita. Além disso, ele também se sente constrangido por não poder fazer algo mais efetivo por aqueles que são atingidos pelas dificuldades econômicas.
Furlong se surpreende, em determinado momento, ao descobrir que grande parte da população de New Ross segue a normalidade comportamental proposta por um ditado regional: Mantenha o inimigo por perto, o cachorro mau com você, e o cachorro bom não vai te morder. Em outras palavras, não se deve provocar as coisas ruins porque isso atrai a maldade de quem parecia inofensivo. A senhora Kehoe, dona do restaurante, lembra a ele que Pesada é a cabeça que usa a coroa. Mais uma vez, o vocabulário enviesado ecoa como aviso sobre as responsabilidades que podem recair sobre os ombros de quem resolve alterar o que está estratificado.
As questões religiosas induzem ações complicadas, muitas vezes invertendo as noções do certo e do errado. Furlong, nas últimas páginas do texto, toma uma decisão que pode ser descrita como caminhar na contramão – ciente de que O pior ainda estava por vir, ele sabia. Já podia sentir um mundo de problemas esperando por ele atrás da próxima porta, mas o pior que poderia ter acontecido já havia passado: a inação, o que poderia ter acontecido – algo com que teria que conviver pelo resto da vida.
O prêmio por ter tomado a decisão é o alívio da consciência – embora essa atitude também pode indicar o início da desgraça. Só o tempo responderá sobre os próximos acontecimentos. Mas sobre isso não há soluções narrativas – o texto deixa à imaginação do leitor interpretar os fatos subsequentes (como convém aos finais em aberto).
O
livro de Claire Keegan possui uma versão cinematográfica (Dir. Tim Mielants,
2024).
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| Claire Keegan |


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