A literatura japonesa desperta sentimentos complicados. Em alguns momentos, parece brincar com o intangível; em outros, quer agarrar a crueldade e trazê-la para perto das pessoas. No oscilar entre os polos, a carga erótica está presente. Raramente homens e mulheres estão na mesma sintonia, embora não abram mão do prazer (autêntico, agressivo, perverso), como comprovam algumas das narrativas escritas por Jun’ichirō Tanizaki, Osamu Dazai, Yukio Mishima, Ryu Murakami, entre outros.
A coletânea A garota que virou uma carpa (Editora O Quarto dos Livros, 2026), organizada e traduzida por Karen Kazue Kawana, não quer defender uma tese, embora esteja alicerçada em um recorte. São cinco contos, escritos entre 1907 e 1946, em que as mulheres surgem na escrita masculina e [revelam] o tipo de papel que desempenham nas obras: sedutoras, seduzidas, objetos do desejo e admiração, companheiras, antagonistas, motivo de encanto e frustração. Em todas as narrativas o relacionamento afetivo tangencia o aflitivo.
Kojō Sugita (protagonista de Obsessão por garotas) casou cedo, teve dois filhos e trabalha em uma editora. Isso não é o suficiente. Ele quer mais. Quer o que nunca terá: a atenção de mulheres mais jovens, mais bonitas do que a esposa. Por isso, exerce – pateticamente – o voyerismo, que é a maneira que encontrou para preencher o vazio existencial. São essas mulheres (vultos que surgem e desaparecem com rapidez nos vagões dos trens) que alimentam a sua existência e decretam o desfecho do conto. Seu contraponto, Nomura (de A guerra e uma mulher), tem a possibilidade de estabelecer um relacionamento estável, mas... ele não acredita que essa possibilidade o fará feliz. Envolto no preconceito, imagina que o fim da guerra determina o prazo de validade para estarem juntos. É um homem atormentado, enquanto observava o corpo da mulher com desejo.
Seikichi (em A tatuagem) carrega dentro de si o instinto do sadismo. Acredita que a arte compensa as agulhadas que infringe aos corpos. Em paralelo, quer (...) obter a pele radiante de uma beldade e, nela, tatuar sua própria alma. Essa procura se realiza quando uma garota visita o seu estúdio. O tatuador imagina que o seu prazer vai se transformar em gozo (no sentido freudiano). Depois de sedá-la, ele passou algum tempo sentado, em completo êxtase. Contemplar o corpo da mulher antecipa o deleite sexual que surge do desenho impresso na pele. A reviravolta narrativa acontece quando o desejo do tatuador encontra receptividade no desejo da garota de ser tatuada pelo mestre (Se for para me tornar bela, provarei que sou capaz de suportar qualquer coisa). No dia seguinte, quando a dor e a beleza se confundem, o sol da manhã incidiu sobre a superfície da tatuagem, e as costas da mulher resplandeceram com esplendor.
[inevitável comparar a prática da sevícia de Seikichi com a de Shiba, o tatuador de Cobras e Piercings, de Hitomi Kanehara, Editora Geração Editorial, 2007. Tradução de Jefferson José Teixeira].
No jogo de aproximação e afastamento do casal de A primavera chegou numa primavera, a esposa, inconformada com a tuberculose, exige total atenção do marido. Ele, por sua vez, se mostra estoico, quer aguentar a provação com o pouco de forças que lhe resta. E isso significa que precisa estar preparado para enfrentar a morte da mulher. Esse fragmento crítico da realidade mostra que ninguém consegue superar esse tipo de provação sem danos psicológicos.
A alegoria proposta por A garota que virou uma carpa reflete a ideia de que o corpo pode se transferir para outro corpo depois da morte física. A solidão que acompanha Suwa e a história que seu pai lhe contou certa vez sobre os irmãos lenhadores Saburō e Hachirō resultam em tristeza infindável. Esse sentimento faz com que, em determinado momento, assustada por algo que não está claramente definido, talvez a violência sexual, procure por (...) um inexplicável alívio. Uma grande leveza. É no poço da cachoeira que a liberdade se encontra.
As
descrições literárias das situações vivenciadas pelas mulheres japonesas nos
cinco contos revelam que os homens não dispõem da necessária habilidade para
conviver com suas companheiras. E que eles transmitem esse mal-estar para a
vida diária.
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| Karen Kazue Kawana |


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