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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A DEFESA CAPADÓCIA

 


Em um dos capítulos de Ex-libris – confissões de uma leitora comum (Editora Zahar, 2002), Anne Fadiman afirma que alguns bibliófilos possuem uma estante excêntrica. Ou seja, uma pequena e misteriosa coleção de volumes, cujos assuntos não têm a menor relação com o restante da biblioteca. No caso de Anne, narrativas sobre explorações polares; no meu, ficção envolvendo o jogo de xadrez.

Como não são muitos os livros sobre o tema, dá para colocá-los em separado, ou melhor, em lugar que é possível acessá-los quando necessário. Foi com o propósito de acrescentar mais um item ao conjunto que adquiri A Defesa Capadócia (Livraria Danúbio Editora, 2026), de Elizeu Xavier. Texto fácil de ler, 166 páginas, uma noite ou duas bastam. Mas... não deve ser considerado um clássico sobre o tema. Nem na relação com o xadrez, nem como novela negra (para os espanhóis), roman noir (para os franceses) ou romance policial (para o Brasil).

O primeiro incômodo surge nas primeiras páginas: inacreditável quantidade de citações. O tom enciclopédico começa com Sun Tzu, avança por Nietzsche, Sófocles, Dostoiévski e desemboca em José Raúl Capablanca, Boris Spassky, Tigran Petrosian e Bent Larsen, passando por dezenas de referências literárias e cinematográficas. O mesmo ocorre com as metáforas. São tantas, tantas. Há momentos em que o leitor, em lugar de se concentrar no enredo, começa a contar as figuras de linguagem.

Quanto a história que está sendo narrada... o começo parece promissor. Depois... ah, lamentavelmente existe o depois! A ideia de jogar xadrez por correspondência entre o detetive Eduardo Botelho e o prisioneiro do Estado Douglas Moreira se esvai. No máximo, uma ou outra jogada do detento é citada (sempre enviada por cartão postal, sem qualquer explicação para a existência desse tipo de comunicação com o mundo exterior). Em paralelo, as peripécias sexuais do protagonista são descritas com fervor (o sujeito tem um harém). E os crimes (sim, no plural) parecem penduricalhos em texto que não ata nem desata.

Em outras palavras, o detetive em nada difere dessas figuras de papel que se deslocam em um mundo violento, asfixiante e moldado pela incerteza. No caso, a geografia paulistana – que quase se converte em personagem. A menção a certas regiões, digamos, selvagens, destaca as cores sombrias da cidade.  

Botelho, em muitos aspectos, tenta emular Sam Spade (Dashiell Hammett) e Philip Marlowe (Raymond Chandler). Infelizmente, não convence como o investigador agressivo, capaz de disparar frases cáusticas no meio de alguma cena ou de hostilizar a sociedade burguesa. Falta-lhe aquele je ne sais quoi que faz a diferença. Todo o esforço para parecer o machão que não quebra quando recebe surras ou golpes psicológicos não convence. O mesmo efeito acontece com o consumo industrial de uísque. Para piorar, ele joga mal xadrez. Falta-lhe antecipar as jogadas do adversário ou descobrir os pontos fracos da posição. No máximo, um jogador de segunda (ou terceira) classe.   

No terço final do romance – desfecho da trama – tudo se encaminha para a perda de sentido. A resolução dos enigmas se mostra decepcionante, quase sem forças.

 


Para quem se interessa pelo tema (xadrez em tramas ficcionais), vale destacar, entre outros: Variante Gotemburgo, de Esdras do Nascimento (Editora Nórdica, 1977), A defesa, de Vladimir Nabokov (Editora L&PM, 1986), A variante Lüneburg, de Paolo Maurensig (Editora Companhia das Letras, 1994), A máquina de xadrez, de Robert Löhr (Editora Record, 2007), A jogadora de xadrez, de Bertina Henrichs (Editora Record, 2010), Xadrez, de Luiz Eduardo de Carvalho (Editora Patuá, 2019),  O livro de xadrez, de Stefan Zweig (Editora Fósforo, 2021).


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