John Peter Berger (1926-2017) e Susan Lee Sontag (1933-2004) participaram de duas sessões de debates sobre literatura em eventos realizados em Aspen, Colorado (1974) e em Londres (1983). Esses encontros não são mencionados nas duas biografias de Sontag disponíveis no Brasil. Em Susan Sontag – a construção de um ícone, de Carl Rollyson e Lisa Paddock (Editora Globo, 2002. Tradução de Maria Júlia Goldwasser), John Berger é citado apenas como crítico de arte; em Sontag – vida e obra, de Benjamin Moser (Editora Companhia das Letras, 2019. Tradução de José Geraldo Couto), nenhuma referência.
Possivelmente, os dois acontecimentos não foram considerados importantes para serem citados. Benoít Bourreau discordou e fez as transcrições dos eventos em Narrar histórias (Editora Fósforo, 2026. Tradução de Denise Bottmann). Complementando o volume, acrescentou parte da correspondência (inclusive com cópias dos originais) entre dois dos maiores pensadores sobre literatura e fotografia do século XX.
Mais do que preencher uma lacuna historiográfica, o livro projeta o pensamento combativo dos dois escritores – que amorosamente divergiam em diversas questões. Sontag, cosmopolita e burguesa, visualiza a literatura como um empreendimento sem compromissos com a tradição oral; Berger, aproximando-se das analises realistas, encontra no contato com a história das pessoas o alicerce para a produção da ficção. Em alguns momentos dessa discussão aparece o consenso, o denominador comum – embora eles estejam posicionados em lugares diferentes de observação. No fim, o leitor percebe que eles concordam em discordar.
O que os une é a defesa intransigente dos direitos civis e da arte como manifestação da criatividade humana. Quando algumas pessoas não sabem se comportar diante da dor dos outros, a barbárie se manifesta. Nas palavras de Walter Benjamim, um filósofo importante para os dois, os mortos não estarão em segurança, se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer. Isto é, o passado está repleto de lições, embora poucos sejam os alunos dispostos a entender os acontecimentos. Por isso, a luta pela difusão do conhecimento, do livre pensar e da liberdade é contínua, diária, sem dar trégua ou se contentar com o conformismo.
O que precisa ser destacado está no fato de que Susan e John mantinham uma amizade distante (Berger morando no interior da França; Susan em constante movimento, mas com base em Nova York). Em uma das cartas (25/07/1978), ele escreve: Querida Susan: Venha nos ver. Com o meu amor como sempre... Nessa mensagem concisa há uma intimidade difícil de ser mensurada, inclusive porque transcende as afinidades intelectuais (ele gostava de chamá-la de Quicksilver – um trocadilho difícil de ser traduzido para o português porque envolve a mancha no cabelo de Susan, Mercúrio, o deus mensageiro dos romanos, e a velocidade dos saques no tênis de mesa). Em nenhum momento perdem o contato, estão sempre se interessando pela produção literária um do outro e, em algumas ocasiões, se utilizam dos vários amigos em comum para obter notícias ou trocar presentes (livros, revistas, garrafas de vinho). Além disso, Sontag consegue que Jacob Berger, filho mais velho de John, participe de um seminário na Tisch School of the Arts de Nova York.
Narrar
histórias transcende a transcrição de diálogos entre pessoas
inteligentes. Trata-se de uma demonstração de que pontos de vista dissonantes não
eliminam interesses comuns. E que cada indivíduo pode escolher caminhar por
territórios culturais diversificados.
Susan
Sontag foi romancista e ensaísta. Os seus livros mais conhecidos são A
doença como metáfora (Editora Graal, 1984. Tradução de Márcio Ramalho) e Sob
o signo de Saturno (Editora L&PM, 1986. Tradução de Albino Poli Jr. e Anna
Capovilla).
John
Berger foi romancista e crítico de arte. Os seus livros mais conhecidos são G.
(Editora Rocco, 2005. Tradução de Roberto Grey), vencedor do Booker Prize
de 1972, e Modos de ver (Editora Fósforo, 2022. Tradução de Hugo Mader).


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