São três pontos interligados: a menina, o cachorro, a piscina. A tia, o padrinho e os convidados são coadjuvantes, figuras acessórias. E que se desdobram na aridez das coisas incompreensíveis para a menina uruguaia, mesmo quando ela procura encontrar algum sentido naquilo tudo. Há uma névoa envolvendo O lado de lá, de Paloma Vidal (Editora Bazar do Tempo, 2026), e que, de certa forma, não se dissipa ao final das 97 páginas de texto.
A concisão não diminui a tensão constante, onde a soma de alguns elementos que estão subentendidos com aqueles que são propositalmente subtraídos do alcance do leitor produzem o estranhamento, o mal-estar e a impressão de que várias coisas não deveriam estar naquele lugar. Simultaneamente, o cenário minimalista em Punta del Este, Uruguai, parece propício para o descanso, alguns dias de férias para alguns brasileiros ricos. É impossível não ser feliz nesta casa – diz o convidado.
A tia é empregada na mansão dos brasileiros endinheirados. É a responsável pela limpeza doméstica e pela cozinha. Além disso, precisa cuidar da menina (11 anos). As duas moram em uma edícula, atrás da quadra de tênis. Como companhia, um cão (que em alguns momentos se mostra antropomorfizado, o que lhe permite manifestar algumas reflexões).
Todos os dias, no final da tarde, o padrinho (que mora em outro lugar) visita a mansão. Ele assiste na televisão as novelas brasileiras. Fica o tempo necessário, depois vai embora. Nesse período, pouco interage com os convidados (que desfrutam do momento bebendo uísque, comendo amendoim e azeitonas). Parece uma sombra sem corpo físico ou uma entidade destinada a advertir que alguém está controlando os acontecimentos, impedindo que aconteçam excessos.
Mas essa é uma impressão falsa, pois os convidados são pessoas estranhas e que, em circunstancias normais, não deveriam estar ali. Não conseguem desfrutar do ambiente porque trazem consigo o germe dos conflitos. E o cachorro, à sua maneira, pressente que o mal está por perto.
A menina, expressão da vulnerabilidade, oscila entre aprender português (quer morar no Brasil) e sobreviver à tempestade que vai, lentamente, se formando ao seu redor em muitos momentos, fica sentada na borda da piscina. O cachorro sempre junto (O cachorro pensa que não vai ser fácil. Tudo continua igual. No entanto, tudo é diferente agora. Ele ainda este se recuperando [amputou uma pata]. Não vai ser fácil continuar a cena. Recomeçar, como se nada tivesse acontecido. Mas precisa continuar e proteger a menina. É para isso que está ali. Apesar de tudo.).
Quando
a menina compreende o perigo que está correndo (o assédio, a precariedade da
situação que a envolve), toma as rédeas da situação e canaliza todo o seu descontentamento
ao instrumento agregador: a televisão. A destruição do eletrodoméstico e o
incêndio que se sucede possuem um efeito catártico, um alívio contra essa gente
que vive do outro lado da fronteira, no lado de lá: A casa é um imenso aquário
em chamas. A piscina permanece intacta e a água reflete as cores do fogo. Ali estão
eles; a menina, o cachorro, a tia.

Paloma Vidal (foto de Carolina Valentim)
PS:
O lado de lá foi, originalmente, escrita em espanhol e
publicada, em 2021, pelas editoras Tenemos las máquinas (Argentina) e Paripé
Books (Espanha) e, em 2023, pela editora Bastante (Chile), com o
título inicial de La banda oriental. Paloma Vidal inseriu varias notas de rodapé no corpo
do texto. Esse recurso serve de guia para esclarecer algumas questões
relacionadas ao Brasil.

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