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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

OVELHAS DESGARRADAS

 


Resgatar a ovelha que se perdeu do rebanho é uma das tarefas do pastor. Inclusive a ovelha negra – aquela que foge dos modelos atribuídos pela organização social (família, Estado). A parábola bíblica (Lucas 15:3-7 e Mateus 18:12-14) propõe esse ensinamento. Mas nem todos concordam. A religião e a ciência ainda não descobriram um antídoto para o germe da insubordinação – essa vontade de construir percurso próprio. Nas palavras de Robert Frost, Two roads diverged in a wood, and I / I took the one less traveled by, / And that has made all the difference (em tradução livre: Dois caminhos na floresta e eu / eu escolhi o menos trilhado / E isso fez toda a diferença).

No romance Ovelhas desgarradas, de Madeline Cash (Editora Amarcord, 2026. Tradução de Camila von Holdefer), não há pastor e o rebanho está disperso pelos campos, matas e paisagens diversas. De certa forma, não há espaço para ovelhas "normais". Cada uma delas quer obter algo diferente do que o mundo oferece. Bud, Catherine, Abigail, Louise e Harper compõem o que os desavisados chamam de família disfuncional. Isso significa que cada um dos personagens se esforça – à sua maneira – para ampliar os conflitos: o pai e a mãe estão travando uma guerra civil particular; as filhas envolvidas com demandas e projetos divergentes. Estabilidade e segurança são conceitos estranhos ao ambiente doméstico, ou seja, domesticado. 

Sátira da modernidade, temperada com molho apimentado do caos, a narrativa reflete um momento em que o narcisismo se desenvolve com a rapidez das ervas daninhas e provoca rupturas na estrutura familiar. Essa mutação do tecido intramuros surge como se fosse natural – embora, para que isso aconteça, primeiro torna-se necessário romper com muitos dogmas e superar as crises.      

As três filhas, por motivos diferentes, se metem em encrencas com a tranquilidade de quem não precisa prestar contas sobre o que está acontecendo (que, mais cedo ou mais tarde, acabará afetando todos). Complicações com namorado, tentativa de terrorismo, teorias da conspiração – nada parece ser impedimento para as três irmãs. Talvez a mais lúcida seja Harper, a caçula, que consegue perceber diversas nuances que são inacessíveis ao olhar adulto. Mesmo assim, inquieta por natureza, a menina vai elaborando travessuras e subversões.

A crise conjugal de Bud e Catherine não contribui para dar um pouco de sossego à família. O estranho é que isso vai desaguar em novos arranjos conjugais, uma imensa (e intensa) reorganização do mundo que parecia ser comum para todos. Não era. Ao contrário, as aparências ocultavam muitos pormenores. Além disso, a trama apresenta uma série de peripécias: a conspiração para obter um falso elixir da imortalidade (com acréscimo de tráfico de mulheres), militares reformados com traumas de guerra, mulheres infelizes, homens infelizes, vigilância panóptica, o empresário que imprimia em cerâmica os órgãos sexuais de suas parceiras, o burocrata que mete o nariz onde não foi chamado, hipocrisia religiosa, consumo de drogas e muitas outras confusões.

Humor ácido, nonsense, crítica social. Não importa a classificação adotada, Ovelhas desgarradas passeia pela desconstrução dos lugares-comuns e pela diversão agridoce de uma família unida pela inquietação humana. E que, na vida diária, resolveu enfrentar caminhos diferentes.             


Madeline Cash

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