Os maridos morreram em um duelo irracional. Às viúvas sobrou a inimizade eterna. E isso é trágico – quer dizer, engraçado. Muito divertido. Uma história ambientada no Recife. Anos 90 do século passado. Se real ou ficcional, isso pouco importa. A literatura mimetiza a vida. Ou o contrário. Que a ordem dos fatores não altera o resultado.
Margarete (viúva de Richard) e Guiomar (viúva de Alexandre) são as protagonistas de As viúvas passam bem, de Marta Barbosa Stephens (Editora Folhas de Relva, 2023). Elas são vizinhas. Apartamentos separados pelo corredor. O ódio corroendo as duas. Trocam farpas e desaforos – uma esgrima verbal hilária. Quando estão na rua, ao menor sinal de se encontrarem, preferem caminhar pela calçada oposta. No íntimo, ambicionam estragar a vida da outra de qualquer maneira. Seja com questões corriqueiras como roubar jornal, seja revelando segredos do falecido marido. O inferno separando-as. Unindo-as.
A narradora inominada, espectadora adolescente (13 anos), conta alguns dos episódios muitos anos depois. Nas lacunas dessas memórias, a imaginação complementa o que ninguém viu, ouviu ou percebeu. A história delas era patrimônio público do bairro. Quem não acompanhou a tragédia a ouviu repetida muitas vezes, passada de vizinho a vizinho, de maneira que mesmo eu, que nunca sequer as cumprimentei, posso reproduzir o que sei com algum sentido de intimidade.
Isso não constitui problema. O fio narrativo se mantém. E, simultaneamente, se rompe. A parte mais interessante, o rancor que alimenta as duas mulheres, em alguns momentos parece ter longas pausas. Armistícios não oficiais. Cenas estranhas ao combate são agregadas. Períodos de depressão aparecem e desaparecem do cenário. Personagens secundários levam a história para fora do campo de batalha. Por exemplo: a amizade de Margarete com Elias, o romance de Guiomar com Fred, a vida de Manoel em São Paulo.
O leitor fica na dúvida se deve seguir ou abandonar a leitura. Ou seja, da metade em diante, quando a desavença entre as duas viúvas perde o sentido e os sentimentos, surge o tédio. A curiosidade recomenda ir em frente, pagar para ver a tragédia – e é exatamente essa a grande decepção: o drama morre de inanição. A maldade faz falta. O que deveria ser situações limítrofes, rixa medieval, o horror patético em grau máximo, notícias nas páginas policiais, se transforma em romantismo sem cor, sem sangue. A salvação está em alguns indiscretos episódios eróticos, que impedem que o texto morra por falta de tesão.
Essa ondulação textual, diversão seguido de desalento várias vezes, poderia ter sido trabalhada de forma mais dinâmica. Mesmo nos momentos em que oferece contraponto (pausas para criar suspense ou distribuir melhor a estrutura narrativa) isso não se resolve adequadamente. O equilibrista tropeça e cai – sem rede de proteção.
De
qualquer forma, a premissa de As viúvas passam bem se mostra interessante,
inclusive porque as cenas de enfrentamento passivo-agressivo entre as duas mulheres
fogem do roteiro que caracteriza a literatura brasileira contemporânea (rupturas
familiares, doenças, conflitos sexuais, violência urbana). De qualquer forma, poderia
ter mais confusões, mais fofocas, mais entretenimento, mais...
Marta
Barbosa Stephens também publicou Voo luminoso de alma sonhadora (Editora Intermeios,
2013) e Desamores da portuguesa (Imã Editorial, 2015).


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