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terça-feira, 13 de maio de 2014

O BRASIL É BOM



Colocando no mesmo balaio-de-gatos a realidade objetiva, o discurso hiperbólico, a ironia desmedida e as contradições socioeconômicas e políticas da falsa burguesia que sonha em desfrutar das delícias descartáveis que o capitalismo oferece de bandeja para os tolos, o livro de contos O Brasil é Bom, do André Sant’Anna, passa longe do que o senso comum considera como leitura fácil. O desconforto do leitor se manifesta no ritmo repetitivo das frases, dos parágrafos, dos contos (que parecem multiplicar ad aeternum o mesmo tema). Não é fácil se deixar conduzir pela música dissonante, incompreensível para os ouvidos que foram educados nos melhores colégios com os sons harmônicos da civilização ocidental.

É isso. Muitos leitores não conseguem evitar a sensação de que o ilegível se aproxima vertiginosamente em cada um dos 23 contos que compõem o livro. Prosa labiríntica, repleta de frases incompletas, balbuciar coloquial, ecos da realidade que poucos possuem condições psicológicas para aguentar. Simultaneamente, incluído nesse estranhamento, nessa distância envolta pelo fel da linguagem, há o reconhecimento. Doloroso – como centenas de fragmentos de uma granada jogada no meio da multidão.

Somos nós, o estrato social que se alimenta com generosas porções de ressentimento, que repetimos diariamente as agressões, os preconceitos. Somos nós, os racistas, que negamos acesso escolar para os excluídos sociais. Somos nós, os que não possuem postura política coerente, que negamos condições mínimas para os serviços de saúde atendam condignamente as classes subalternas. Somos nós, os pseudointelectuais, que usamos expressões politicamente corretas – excluídos sociais e classes subalternas – quando nos falta a cara-de-pau necessária para o exercício bem sucedido da arte cênica, ou cínica, e, com o tom de voz neutro que caracteriza a canalhice, usar as palavras que queimam nossa língua: pobres, miseráveis, mendigos, parasitas, fudidos.    

A delicadeza não faz parte do patrimônio emocional brasileiro. Mas gostamos de fingir que somos educados.

Irrefutável. O Brasil é Bom. A classe baixa/alta, que não gosta de ser chamada de média, mas saliva de satisfação quando avança na escala social, esconde todos os males do mundo na palavra gol, mantra religioso, explosão de alegria, a nível de Pra frente, Brasil e rumo ao hexa. O futebol é anestésico.

Somos uma republiqueta de vencedores. Ou de vendedores de bananas e banalidades.

São muitos os problemas e poucas as soluções. Ou o contrário. A ordem dos fatores não modifica o deslumbramento romântico de que quem imagina que a nacionalidade pode ser resumida pelas histórias de esvoaçantes bundas – esparramadas pelas bordas a bombordo e a estibordo do porto que é o corpo.

O Brasil é Bom material literário para desconstruir as certezas de que somos bons. Como, certa vez, em tom menor, pura agressão, tentou demonstrar o Diogo Mainardi no romance Contra o Brasil. Ou o Cazuza, que, na canção Ideologia, implorava para o Brasil mostrar a cara, esquecendo que as máscaras, mais do que enfeites, são excelentes escudos contra tudo o que incomoda. O Haiti é aqui, Caetano Veloso dixit.   

O Brasil não é bom material literário, segundo esses esquemas capitalistas que imaginam a possibilidade de ganhar dinheiro com histórias românticas protagonizadas além-mar, muito além das flexões do verbo amar.

As últimas cinco histórias (depois da imensa porrada chamada Lodaçal, relato cruel dos desenganos, protagonizado por duas crianças e seus delírios translúcidos nos abismos dos paraísos artificiais), alteram um pouco o tom agressivo, violento, do livro. O narrador mimetiza personagens da história “real” (seja lá o que isso for) e, ao compor o próprio samba do crioulo doido, misturando ficção e autobiografia, constrói um caleidoscópio de emoções afetivas. As figuras exóticas do pai, da mãe, dos amigos do pai e da mãe, dos parentes, vão sendo misturadas com o George Harrison (Beatles), com jogadores de futebol, com inúmeros personagens do faz-de-conta, reconstrução de aventura ficcional particular. O efeito obtido com esse traveling emocional é divertido. E bacana.

O Brasil é Bom. O André Sant’Anna, também.


TRECHO ESCOLHIDO 

O Chiquinho, sem nenhum colesterol no sangue, doidão, olhando para uma lua enorme que clareava tudo, uma noite que era um troço, tudo muito estrelado, dá pra ver muita estrela cadente, satélites, disco voador de verdade e veículos aeroespaciais da Nasa sendo testados no céu secretamente, um troço de poesia, o Toninho também, e o Chiquinho, tão sem colesterol, tão sem palavras, tão sem conhecer nada, tão sem precisar das coisas que a gente, animal, precisa, tipo comer, tipo reproduzir, que o Chiquinho era só esse troço de poesia mesmo, de são Jorge, que é a coisa mais cósmica, mais sensível, mais subjetiva, mais metafísica que ele, Chiquinho, já tinha ouvido falar, por uma velha, a única velha do lodaçal, que tinha falado lá, o Chiquinho sabia lá quando, o Chiquinho não sabia, o Chiquinho sem ter a menor noção de coisa nenhuma, sem noção do tempo, sem tempo dentro dele, sem nenhuma palavra dentro dele para explicar aquele troço que dava, e era um troço que tinha a ver com aquele céu, tinha a ver com amor, tinha a ver com aquele troço que o charutão de maconha dava, tinha a ver com falta de mãe, tinha a ver com a necessidade de dizer para o Toninho que o Chiquinho amava, que ele, o Chiquinho, estava sentindo falta de alguma coisa. O Chiquinho pensando, cheio de vida interior. A bichinha do Chiquinho.  





terça-feira, 29 de abril de 2014

A GRANDE BELEZA



Considerado pela crítica especializada como uma versão contemporânea do clássico A Doce Vida (La Dolce Vita. Dir. Federico Fellini, 1960), o filme A Grande Beleza (La Grande Bellezza. Dir. Paolo Sorrentino, 2013), alternando momentos de nostalgia e crítica social, venceu vários prêmios internacionais, inclusive o Globo de Ouro (2014), BAFTA de Melhor Filme em Língua Estrangeira (2014) e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (2013).

Aos 65 anos, o jornalista e escritor bissexto Jep Gambardella (interpretado por Toni Servillo) é um bon-vivant intelectual – desses que misturam o cinismo e a alta cultura em doses desproporcionais, de acordo com as circunstâncias e o grau de tédio. Mora em uma cobertura, próximo das ruínas do Coliseu (lugar onde os imperadores romanos transformavam a bravura dos gladiadores em diversão perversa). Logo depois da interminável e dionisíaca comemoração de seu aniversário, Jep lança um olhar melancólico para o passado e percebe que alguma coisa está faltando em sua vida. Embora esteja cercado por amigos, conhecidos e celebridades, são as angústias produzidas pela solidão que prevalecem. O hedonismo, assíduo e inconsequente, constantemente reprisado em festas, jantares e encontros sexuais, se mostra insuficiente para suprir as questões básicas do existir. Falta consistência no glamour. Sobra superficialidade. Não há vida interior. Tudo é aparência. E vazio. Na minha idade, a beleza não basta, racionaliza o pacto faustiano que encena.

Roma oferece ilusões e devora os sonhos de quem imagina ser possível obter sucesso na capital italiana. A grandiosidade do antigo centro do mundo (espelhada em palácios, praças, jardins, fontes, monumentos, estátuas, pinturas), sem se preocupar em distinguir o verdadeiro do artificial, acolhe com igual fervor a sofisticação, a decadência e a religiosidade. O velho é melhor que o novo, diz Dadina, a anã, dona da editora que emprega Jep, sublinhando a preocupação de todos os habitantes de Roma em impedir que ocorram modificações substanciais na paisagem. Como lembra Walter Benjamin, em outro contexto, o rosto do anjo da história está voltado para o passado. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. O turista japonês, acometido pela Síndrome de Stendhal (desmaiar diante da beleza), ou os personagens exóticos que surgem a todo instante (travestis, prostitutas, o cardeal que só consegue conversar sobre receitas culinárias, a freira que imita Madre Teresa de Calcutá) servem de alavanca para ressaltar que o mundo das dissimulações está conectado com o viver em sociedade.

Os amigos de Jep (Romano, Stefânia, Ramona, Viola, Lello) também estão presos na armadilha. A cultura não lhes oferece uma porta de salvação. Isso não constitui um impedimento para que citem, sempre que possível, Gustave Flaubert, Alberto Moravia, Luigi Pirandello, Marcel Proust, Ivan Turgueniev, André Breton, Fiodor Dostoiévski, entre outros. A relação de falsa intimidade com a erudição literária e artística serve de anestésico para quem não possui força para suportar a crueldade do mundo "real" (seja lá o que isso for). Eles estão velhos demais. Em momento impreciso perderam a possibilidade de obter algum tipo de redenção. Tiveram que comercializar os raros talentos que receberam do destino no mercado desvalorizado das aparências, dos supérfluos e da corrupção intelectual. Não por acaso, Romano, antes de voltar para a província, negando as escolhas que fez durante toda a sua vida, afirma que Roma me decepcionou.

No mundo em decomposição em que transitam os personagens de A Grande Beleza, sobra o consolo de que os jovens também não dispõem de boas alternativas. Sintomaticamente, as crianças foram eliminadas de cena. As poucas que restam estão sintetizadas na menina, pintora abstrata, que é impedida de brincar com um amigo e forçada a produzir mais uma obra de arte, diante dos convidados de uma festa. As melhores pessoas de Roma são os turistas, desabafa Jep.

Voyeur sofisticado, desses que conseguem reconhecer a grandeza do mundo, Jep Gambardella, com um copo de uísque em uma mão e um cigarro na outra, deambula por um mosaico de situações. Não possui a grandiosidade do personagem interpretado por Marcello Mastroianni, em A Doce Vida, mas não desafina quando finge tentar esquecer que, em algum momento, um grande amor ficou para trás. Talvez esteja cansado. Talvez perceba que a melancolia está acompanhada por relampejares de sanidade. E embates desagradáveis. Em determinado momento precisa rasgar o véu de fantasia que envolve Stefânia. As palavras agressivas que pronuncia – como se fosse a lição ministrada por um professor cansado do embotamento intelectual de seus alunos – colocam as coisas em ordem. Ou tentam. Ao mesmo tempo, produzem mais dor no emissor do que no receptor. Stefânia, mãe e mulher. Você tem 53 anos e uma vida destruída – como todos nós. Em vez de fazer sermão e nos enxergar com antipatia, deveria nos enxergar com afeto. Somos todos desesperados. Só podemos nos olhar de frente e nos fazer companhia, brincar um pouco. Ou não? O uso da negação no final da fala acena para a dialética, embora assinale a existência de uma falha na linguagem social. Mais uma vez, o silêncio perde sua substância diante da algaravia. 

Jep parece dizer a todo instante que a existência humana se transformou em uma zona de conflito entre o tudo e o nada, entre o sacro e o profano. Sic transit gloria mundi. A história que a câmera está narrando para o espectador se perde em travelings emocionais e instantes de realismo mágico. A aparição de uma inesperada girafa em momento dramático ou os flamingos que pousam na sacada de Jep ou o nonsense dos nobres de aluguel reinstalam, pelo olhar de Sorrentino, o universo de Federico Fellini (principalmente, o inesperado que surge em várias cenas de E La Nave Va, filmado em 1983) e possibilitam um passeio panorâmico pela magia do cinema. 

No entanto, tudo é naufrágio - como comprova a voz de Jep, em ritmo de despedida, quase que o lamento do sobrevivente de um naufrágio, alguns instantes antes de aparecerem na tela os créditos do filme: É sempre assim que termina, com a morte. Antes, no entanto, houve a vida, escondida embaixo do blábláblá... É tudo sedimentado por baixo das conversas e do barulho. O silencio e o sentimento. A emoção e o medo. Os frágeis e inconstantes vislumbres de beleza. E, depois, a maldita desolação e a humanidade miserável. Tudo debaixo do constrangimento de estar no mundo. Blábláblá... Mais além está o mais além. Não penso no está mais além. Portanto, que comece essa história. No fundo, é só um truque. Sim, é só um truque.


 Paolo Sorrentino (Nápolis, 31 de maio de 1970) dirigiu O Divo (Il Divo, 2008), Aqui é o Meu Lugar (This Must Be the Place, 2011) e A Grande Beleza (La Grande Bellezza, 2013).

terça-feira, 22 de abril de 2014

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ (1927 – 2014)




Na noite de 17 de abril, algum tempo depois de saber que Gabriel García Márquez está morto, abri uma garrafa de cerveja de trigo. Talvez essa não seja a bebida adequada para lamentar (ou celebrar) a morte de um escritor, mas não tenho em casa nenhuma aguardente fabricada na Colômbia, e faltou-me ânimo para abrir e beber uma garrafa de vinho. Enquanto o líquido amarelo escuro, de sabor intenso, escorria garganta abaixo, me lembrei do prazer que tive ao ler alguns dos livros espetaculares que foram escritos por Gabo (a forma carinhosa com que os amigos o tratavam).

Cem Anos de Solidão, O Amor nos Tempos do Cólera, O Outono do Patriarca, O General em seu Labirinto – são tantas as obras-primas que é difícil dizer qual é a melhor. No entanto, destoando dos lugares comuns, meus dois livros favoritos sempre foram outros. 

Na contracorrente, tenho imensa admiração por Ninguém Escreve ao Coronel, escrito em 1957. Reli – diversas vezes – a história do homem que, aos 75 anos, coloca todas as suas esperanças em uma hipotética briga de galos, que deve ocorrer três meses depois do início da narrativa. Esperando pelo pagamento de sua aposentadoria (praticamente inexistente, depois de quinze anos de atraso), o Coronel, todas as sextas-feiras, vai até a agência de correios. O carteiro, inevitavelmente, anuncia que não há nenhuma carta. Simultâneos a esse vazio econômico, a esse desprezo burocrático, vários elementos se acrescentam à lista de infortúnios que abatem o Coronel e sua esposa. Talvez o pior deles seja a morte do filho, Agustin, crivado de balas pela polícia. A Colômbia está atolada em outra crise política. A cidade está em estado de sítio. A saúde do Coronel não pode ser considerada excelente (costuma delirar durante o sono). A hipoteca da casa vai vencer logo. O casal, próximo de passar fome, tenta – sem sucesso – vender algumas coisas (o relógio, o quadro, as alianças de casamento, o galo). Chove interminavelmente. Em um mundo visivelmente antagônico, A única certeza na vida é a morte.

(...) Amanhecia. A janela recortava a claridade verde do domingo. Achou que estava com febre. Os olhos ardiam e ele teve de fazer um esforço fora do comum para recobrar a lucidez. 

– Que se pode fazer se a gente não pode vender nada – repetiu a mulher. 

– Então, já será vinte de janeiro – disse ele, perfeitamente lúcido. – Os vinte por cento são pagos no mesmo dia. 

– Isso se o galo ganhar – insistiu a mulher. – E se perder, você já pensou que o galo pode perder. 

– Um galo desses não pode perder. 

– Suponhamos que perca. 

– Faltam ainda quarenta e cinco dias para se pensar nessa hipótese. 

A mulher desesperou-se. 

– Enquanto isso, o que é que nós vamos comer – perguntou, agarrando o Coronel pelo colarinho. 

Sacudiu-o com força. 

– Diga, o que nós vamos comer. 

O Coronel precisou de setenta e cinco anos – os setenta e cinco anos de sua vida, minuto a minuto – para chegar àquele instante. Sentiu-se puro, explícito, invencível, no momento de responder: 

– Merda.


Também gosto de Crônica de uma Morte Anunciada, publicado em 1981. A linguagem de reportagem policial – que desliza pelo texto com suavidade e elegância – relata na primeira frase do romance o destino do protagonista: No dia que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo. Ao eliminar o suspense e, ao mesmo tempo, ampliar a curiosidade do leitor (que precisa ler as 177 páginas do texto para entender os detalhes da história), García Márquez adota uma estrutura literária de difícil manejo. A grandeza trágica surge diante dos olhos do leitor sem perder – em nenhum momento – o ritmo narrativo. Além disso, a tensão se mantém intacta durante o tempo que antecede ao desfecho. Em diversos momentos do texto, a vida de Santiago, 21 anos, poderia ter preservada. Embora todos os movimentos do assassinato sejam visíveis (exceto para Santiago), ninguém faz nada para impedir que os irmãos gêmeos Pedro e Pablo Vicário cometam o crime – apesar dos rapazes, de uma forma ou de outra, se mostrarem propensos a ser impedidos. Todos estão paralisados, espectadores passivos. Ao narrador, que recuperou os fatos muitos anos depois, compete relatar essa ataraxia, exemplo de como o humano – instituído como pathos – perde suas características mais elementares. Na noite anterior, ocorreu a festa de casamento de Ângela Vicário com Bayardo San Román. Algumas horas depois, o marido devolveu a noiva, sob a alegação de que ela havia perdido a virgindade antes do casamento. A família ofendida resolveu vingar o ultraje e lavar a honra com sangue.

Começaram a tomar café quando viram Santiago Nasar entrar, empapado de sangue, levando nas mãos o cacho de suas entranhas. Poncho Lanao me disse: “Nunca pude esquecer o horrível cheiro de merda”. Mas Argênida Lanao, a filha mais velha, contou que Santiago Nasar caminhava com a altivez de sempre, medindo bem os passos, e seu rosto de sarraceno com os cabelos crespos desalinhados estava mais belo que nunca. Ao passar diante da mesa sorriu-lhes e caminhou pelos quartos até a saída dos fundos. “Ficamos paralisados de susto”, disse-me Argênida Lanao. Minha tia Wenefrida Márquez estava escamando um sável no pátio de sua casa, do outro lado do rio, e o viu descer as escadas do molhe antigo, procurando, com o passo firme, o caminho de casa. 

– Santiago, filho –gritou-lhe – que houve com você? 

Santiago Nasar reconheceu-a. 

– Me mataram, querida Wene – disse. 

Tropeçou no último degrau, mas se levantou imediatamente. “Teve até o cuidado de sacudir com a mão a terra que ficou em suas tripas”, disse-me tia Wene. Depois entrou em sua casa pela porta dos fundos, que estava aberta desde as seis horas, e desabou de bruços na cozinha.



Gabriel García Márquez, o primeiro colombiano e o quarto latino-americano a receber o Prêmio Nobel de Literatura (1982), pai de Rodrigo e Gonzalo, amigo pessoal de Fidel Castro, desafeto de Mário Vargas Llosa, tinha câncer linfático e demência senil.  Morreu alguns dias depois de sair do hospital, onde havia sido internado para tratar uma infecção respiratória.