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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

RESTINGA

O conto é a menor unidade da prosa. A narrativa deve conter um único conflito, uma única célula dramática. A isso se soma a presença de poucos personagens, espaço restrito e a ação superando a descrição. Ou seja, concisão, limpidez e contundência. Júlio Cortázar o comparou com uma luta de boxe, dizendo que, enquanto o romance procura vencer por pontos, o conto deve nocautear. E, de preferência, nos primeiros rounds. Claro, nem sempre isso é possível. Em algumas narrativas curtas atingir o “queixo de vidro” do adversário significa um esforço extraordinário. Muitas vezes impossível. Nesses casos, cabe à tessitura narrativa – costurada pela linguagem – suprir eventuais dificuldades que o conjunto de acontecimentos textuais não consegue ultrapassar.

Ricardo Piglia propõe uma tese complementar, Um conto sempre conta duas histórias. A história visível aos olhos do leitor esconde uma história secreta – que somente pode ser acessada se houver um esforço para avançar além do conteúdo que está sendo revelado. As duas histórias devem convergir para um único ponto – embora desenvolvam caminhos e objetivos diferentes. Cabe ao leitor encontrar os momentos de interseção e dispersão – e se surpreender com os resultados dessa descoberta.

Miguel del Castillo, filho de um uruguaio com uma brasileira, conseguiu traduzir esses conceitos com elegância. Restinga (dez contos e uma novela) tem uma vantagem adicional. Ao escolher que algumas pontas do novelo ficcional fiquem soltas, mostra que é possível conservar a qualidade literária sem precisar resolver todas as tensões produzidas pela narrativa. Os finais “em aberto” (que exigem grande esforço imaginativo do leitor) multiplicam o potencial de cada enredo – que se expandem na medida em que surgem novos entendimentos.

Os onze textos estão centralizados no universo tempestuoso das questões políticas e dos problemas afetivos. Ao mesmo tempo, produzem um importante curto-circuito – que reflete a lenta destruição do entendimento da realidade. A barbárie, independente do grau de violência gerada pela corrosão das relações humanas, produz perturbações que não encontram solução ou anestésico.

Violeta, texto publicado – em versão ligeiramente modificada – na revista Granta, nº 9, volume dedicado aos “melhores jovens escritores brasileiros”, apresenta as múltiplas fraturas (físicas, psicológicas) produzidas naqueles que sobreviveram à repressão policial promovida pela ditadura uruguaia. Cabe ao neto de Violeta (que foi presa e torturada) recuperar, com todas as imprecisões de quem conta uma história que não vivenciou, o passado perdido.

No conto homônimo ao título do livro, Laura está morando com a mãe – que lhe pede ajuda para visitar a restinga de Marambaia, no Rio de Janeiro. Não há explicação lógica para essa solicitação. Exceto que parece ser o último pedido de alguém que está próximo da morte. Contra todas as expectativas, realizar o desejo da mãe não acalma a situação. Ao contrário, abre as portas para um novo mal-estar.

Em Olimpíadas, o passado e o presente se unem para contrastar o menino que gostava de jogar futebol e o pai de um portador da síndrome de Down. Entre as duas histórias, projeta-se o interstício emocional de quem, em algum ponto da vida, se omitiu em momento decisivo.

A falta de sintonia entre o pai e o filho está expressa em Cancun – que relata a visita de um menino de onze anos ao pai, que mora no México. O pai parece estar muito ocupado com alguma atividade e encarrega um empregado de entreter o filho – que não possui maturidade para compreender os acontecimentos que presencia.

Em Colônia parece faltar alguma peça. A narradora não consegue explicar claramente as conexões que existem entre o casamento da irmã e o incêndio no apartamento em que a irmã morava com o marido. A imaginação do leitor é convocada para estabelecer uma ponte entre os interstícios criados no texto.

O texto mais longo, Laguna, inicia como uma road story e termina com uma confusa ruptura amorosa, em uma praia próxima de Punta del Este. O narrador deseja conhecer o Uruguai, Valentina não quer continuar trabalhando como guia no Teatro Solís, em Montevidéu. A viagem parece ser uma solução para os dois. Em algum momento, as múltiplas necessidades encontram alívio na união dos corpos. A complicação maior surge quando encontram uma casa que foi abandonada antes de ser terminada. A felicidade perde um pouco de seu brilho na medida em que Valentina passa a ter um comportamento errático. Quer terminar a construção, quer viver uma vida conjugal. Esses objetivos entram em conflito com os planos de quem precisa voltar para o Brasil.

Os dez contos e uma novela que constituem Restinga causam no leitor mais inquietação do que sossego. Essa é a maior qualidade do livro.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

MANSFIELD PARK

Mansfield Park, terceiro dos seis romances de Jane Austen, pode ser lido de diversas formas. As principais possibilidades são fábula romântica, tratado moral ou discussão econômica. Todas as alternativas estão corretas. Ou erradas. Depende do olhar. No entanto, mesmo os leitores mais gentis não conseguem omitir que o narrador fornece uma importância exagerada ao dinheiro no andamento narrativo. O assunto surge no primeiro parágrafo da narrativa: Cerca de trinta anos atrás, a Srta. Maria Ward, de Huntingdon, com apenas sete mil libras de dote, teve a sorte de conquistar Sir Thomas Bertram, de Mansfield Park, no condado de Northampton, e com isso elevar-se ao status de nobreza como esposa de um baronete, com todos os confortos e privilégios de uma bela propriedade e alta renda. Depois, nas centenas de páginas do romance, a maioria dos acontecimentos importantes se desenvolve em torno das questões financeiras. Ao comentar sobre algumas famílias – dessas em que os filhos e as filhas são numerosos e faltam recursos para salvar todos –, a discussão surge de forma absolutamente inequívoca: Não há no mundo tantos homens ricos quanto mulheres bonitas que os mereçam. Em outras palavras, o amor deve ser entendido como um sentimento secundário – principalmente para aquelas pessoas que não possuem heranças a receber.

Cena de uma adaptação inglesa
Escrito em 1814, o romance tem como eixo fulcral Fanny Price, agregada da família Bertram (que é constituída por Thomas Bertram, Maria Bertram e os filhos Tom, Edmund, Maria e Júlia). Aos dez anos de idade, seus pais a entregaram aos parentes abastados. Tomando como base esse tipo de informação, Mansfield Park poderia ser considerado como uma versão caótica de um conto de fadas ruim – desses que misturam maus-tratos, princesas sem charme e príncipes falidos. Não o é. Definitivamente, Mansfield Park não pode (não deve!) ser lido como um texto aspergido com baldes de água-de-flor-de-laranjeira. Embora a figura de Sra. Norris, irmã de Maria Bertram, e, consequentemente, tia de Fanny, se pareça – e muito – com uma bruxa malvada. A viúva do Sr. Norris, pastor da Igreja Anglicana, sabia tão bem poupar o seu quanto gastar o dos amigos. Esse parece ser o seu objetivo principal em todas as situações que ocorrem na mansão, ao mesmo tempo em que procura diminuir a importância da sobrinha – que considera um ser inferior, incapaz de corresponder ao conforto que lhe estava sendo oferecido.

Fanny Price não é um personagem simpático. Poucos leitores gostam dela. Ou de seu comportamento. Além de ter problemas de saúde, na vida diária jamais toma atitudes que possam desagradar os parentes. (...) sentia-se desamparada da mesma forma e encontrava algo a temer em cada pessoa e lugar. Nos momentos de crise tergiversa, foge, deixa que decidam em seu lugar. Usualmente, com um olhar de carinhosa dependência de sua boa vontade, ela [cede]. Falta-lhe orgulho próprio. Acredita que seu lugar na escala social dos moradores de Mansfield Park está limitado por diversos fatores. Essa retração tem compensação no aguçado poder de observação que desenvolve e permite que perceba antecipadamente todas as ações dos outros personagens.

Jane Austen (1775-1817)
Depois que Sir Thomas Bertram partiu para Antígua, nas Índias Ocidentais, para resolver uma série de negócios de singular importância para o futuro familiar, o tédio tomou conta de Mansfield Park. Tom, na companhia de Yates, um amigo, sugere a montagem de uma peça de teatro como uma forma de romper com a inércia e promover um pouco de diversão para todos. Participam do projeto Tom, Maria, Júlia, Yates, Rushworth (um vizinho), os irmãos Henry e Mary Crawford (que estão de visita aos Grant, parentes que residem próximos a Mansfield Park). Edmund tenta resistir à pressão, mas acaba sucumbindo. Fanny se recusa a participar, pois acredita que Sir Thomas desaprovaria.

Sir Thomas volta inesperadamente e decreta o fim do brinquedo familiar. No entanto, não consegue impedir alguns conflitos. A disputa pela progenitura entre Tom e Edmund, embora velada, se torna mais nítida. A Sra. Norris perde um pouco de seu prestígio com Sir Thomas (que muda o foco de suas atenções e passa a tratar Fanny com grande afeto). A vaidade de Henry Crawford só se contenta quando consegue chamar a atenção de Maria e Júlia – que se tornam rivais e passam a disputar a atenção do rapaz. Rushworth, que está apaixonado por Maria, não possui inteligência para perceber as nuances que envolvem essa agitação. Em determinado momento, Edmund diz: se esse homem não tivesse doze mil [libras] por ano, seria um sujeito bastante estúpido.

A peça de teatro foi cancelada, mas o jogo especular entre o real e o aparente, entre o que acontece fora de cena e o que é encenado, está presente em quase todos instantes: Verniz e dourados podem esconder muitas manchas. Não podendo ter Henry Crawford, Maria aceita se casar com Rushworth. Ou melhor, desposa a fortuna de Rushworth. Julia vai viver com o casal, em Londres. Tom se retira de cena. Edmund se retira de cena – imaginando estar apaixonado por Mary Crawford. Tom reaparece – doente. Henry Crawford imagina que está apaixonado por Fanny e propõe casamento. Considerando que a sobrinha jamais encontrará um pretendente com tamanha riqueza, Sir Thomas fica irritado com a recusa – e, como uma forma de castigo, manda Fanny passar alguns meses com sua mãe, em Portsmouth, período em que ela Vivia de cartas e passava o tempo todo entre os sofrimentos de hoje e aguardava os de amanhã. Essa avalanche de acontecimentos sem o menor sentido parece encaminhar o romance para um final inconclusivo. A ilusão se desfaz rapidamente diante da habilidade narrativa de Jane Austen – que vai encaixando lentamente as peças do quebra-cabeça, elucidando uma a uma as questões nebulosas.

Talvez o ponto mais interessante da narrativa seja o suspense sobre o destino de Fanny Price. Em muitos momentos, a partir da metade da narrativa,o embate entre a sutileza e o mal-entendido torna-se inevitável. O leitor se pergunta se a moça vai sucumbir ao charme, ao assédio e ao dinheiro de Henry Crawford. Como muitas coisas estão em jogo – inclusive a possibilidade de modificar a situação econômica de sua família –, somente o caráter determinado de Fanny consegue resistir às tentações. E elas, as tentações, são inesgotáveis. No entanto, Era como uma brincadeira de sentir medo.

Todos os maus pressentimentos se revelam verdadeiros no momento em que Fanny toma conhecimento que Maria Rushworth abandonou o marido e fugiu com Henry Crawford. Ninguém esperava por esse escândalo familiar – que se completa no momento em que Julia também “dá um passo errado” e se une com Yates. Curiosidade e vaidade se uniram, e a tentação de um prazer imediato foi forte demais para um espirito desabituado a fazer qualquer sacrifício à retidão, anota o narrador.

Sir Thomas finalmente percebe que os seus filhos que se comportam inadequadamente. As exceções são Edmund e Fanny, a filha adotiva. Justamente aqueles que não possuem direito à herança familiar. E que precisam de ajuda para sobreviver em um mundo onde as aparências e o dinheiro substituem o caráter e a honestidade.


Mansfield Park é um livro sem paixão. Embora pareça contraditório, como todo produto da época em que foi escrito, advoga o império do amor, da bondade e da inteligente. Seguindo a fórmula atemporal das estruturas narrativas românticas, está repleto de entraves, complicações e interditos. Para que o triunfo se estabeleça necessário se faz superar essas dificuldades. Sendo as questões financeiras o obstáculo mais importante. Uma grande renda é a melhor receita para a felicidade, parece ser o dístico moral que sobressai nessa confusão. Fanny Price discorda. Mas, como nada faz para protestar (exceto nos momentos em que não há alternativa), cabe a Edmund descobrir que Não lhe restava tempo para ser infeliz e que muitos segredos estão guardados no interior de um coração apaixonado.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

ROMANCES E CONTOS – uma discussão proposta por Ali Smith


Para fins didáticos, imaginemos um sujeito que passou parte de sua vida lendo sobre teoria da literatura. Claro, na linha divisória entre a realidade e a ficção, ele não entendeu muitas coisas – e nunca vai entender –, seja porque estão além do seu alcance, seja porque não merecem estar ao seu alcance. Mas, durante uma fração do tempo, enquanto estudava naqueles livros complicados, houve diversão. Não muito. Um pouco. O aceitável para projetar uma linha no horizonte. E isso significa que foram superadas as dificuldades iniciais, secundárias e terciárias encontradas nos livros de Edward Morgan Forster, Erich Averbach, Jean Pouillon e Terry Eagleton. Também expressa o instinto de sobrevivência de quem atravessou (a nado!) o oceano revoltoso que abrange os textos de Georg Lukács, Tzvetan Todorov e Gerard Genette. Pensando bem, nem o velho e bom Massaud Moisés conseguiu diminuir os obstáculos. A teoria bruta não é (nunca foi, nunca será) exatamente o mesmo que tomar chá com torradas no final da tarde. Mais do que coragem, o sujeito que resolve seguir pelos caminhos da literatura precisa estar preparado para superar uma série de ameaças e riscos. Em compensação, sempre há a possibilidade (única!) de não conseguir ganhar o suficiente para pagar o aluguel. E, claro, não cabe descartar a hipótese (bastante plausível) da loucura.

Trocando em miúdos, esse sujeito se imagina como o portador de uma pequena bagagem intelectual, o suficiente para superar os rigores de alguns invernos e transmitir o conhecimento para os alunos do curso de letras, aves raras em um mundo em decomposição intelectual, política e econômica (não necessariamente nessa ordem).

O problema é que, em um dia qualquer, ele precisa trabalhar com algo inesperado. A famosa pedra no meio do caminho encontra a sua mais completa tradução em uma opinião ainda não codificada. Ele, que sempre (sempre é um exagero, digamos, que algumas vezes) confiou nos livros para obter respostas que não dependem da prática empírica, ficou estarrecido. Aquilo estava completamente fora de qualquer parâmetro ao seu alcance.

Em Um Conto Real (incluído no livro A Primeira Pessoa, da escocesa Ali Smith), dois personagens estão conversando. Um daqueles diálogos somente possíveis entre amigos. Bobagens entre camaradas. Ou um pouco mais do que isso. O mais jovem, talvez tentando impressionar o mais velho, defende uma tese sobre as diferenças que existem entre o romance e o conto. Evidentemente, não se trata de nenhuma dessas proposições acadêmicas sobre complexidades na carpintaria narrativa, narradores múltiplos, número de personagens ou quantidade de páginas. Esses preciosismos não fazem parte do discurso. Sem preocupação com escrúpulos derivados do politicamente correto, o rapaz afirma que o romance é uma puta velha e flácida. E completa o raciocínio assegurando que essa estrutura narrativa [tem] lá a sua serventia, [é] espaçosa, quentinha e conhecida (...) mas a bem da verdade [é] meio frouxa e larga demais. Em relação ao conto, observa que é uma deusa leve, uma ninfa magrinha, dessas que poucos conseguem dominar e que, por isso, ainda está em boa forma.

Nenhum livro fornece discussões desse nível. Quer dizer, poucos têm a ousadia de empregar metáforas que misturam informalidade e sacanagem em doses capazes de fornecer embriaguez e dor de cabeça na mesma proporção. Diante do poder transubstancial das palavras, que sugerem diversos níveis de subversão intelectual, comparar o romance e o conto com imagens sexuais constitui uma forma inusitada de corromper o pensamento. A pornografia e o erotismo, como alertava o Marquês de Sade, no século XVIII, fazem parte do imaginário humano – mesmo que muita gente tente negar essa obviedade. Em outras palavras, colocando a literatura no proscênio, cabe lembrar que a narrativa (comportada ou não) precisa andar de mãos dadas com o discurso revolucionário. Além disso, a trama textual costuma brincar de esconde-esconde com o autêntico e o simulacro, embaralhando os fios narrativos, despertando brasas adormecidas e apagando fogos de palha. E, mais importante, renovando a linguagem. Ao lado das imagens inesperadas, das figuras de linguagem criativas e da simplicidade narrativa, os lugares-comuns, os clichês e os chavões adquirem súbita e renovada importância, pois se transformam (para o bem, para o mal) em ferramentas de comunicação.

Uma página depois, um terceiro personagem da Ali Smith acrescenta um pouco mais de sabor ao debate, Um conto é como uma ninfomaníaca porque os dois gostam de ficar com todo mundo – ou entrar em um monte de antologias – mas nem um nem outro aceitam dinheiro em troca do prazer.


Difícil ficar impassível diante dessa exposição crua, perigosamente próxima da realidade concreta do leitor. A teoria costuma se afastar desse tipo de coloquialismo. Linguagem é poder. E isso significa que – historicamente – o conhecimento é controlado pelos "iniciados”. Transparência e inteligibilidade não fazem parte do pacote. No mesmo tom, a distribuição do conhecimento deve ser evitada. Ou não. Depende da circunstância e da oportunidade. Talvez mais da segunda do que da primeira.

A analogia entre romance e conto, prostitutas e ninfas, mais do que um escândalo reflexivo ou uma brincadeira estranha com o leitor, produz um curto-circuito mental. Tanto que a narradora do conto da Ali Smith não consegue se controlar e faz um comentário exemplar, Eu fiquei imaginando, à toa, quantos dos livros da minha casa eram comíveis e o quanto eles seriam bons de cama. Sem precisar enumerar preferências ou graus de safadeza, qualquer amante (!!!) da literatura, em algum momento, imaginou algumas tolices similares. Ler é buscar o prazer – incessantemente.

Ao mesmo tempo, sem querer entrar no mérito da tese defendida pelo personagem mais jovem do conto da Ali Smith, como é que alguém pode considerar como meio frouxa e larga demais a estrutura narrativa de romances como O Jogo da Amarelinha (Júlio Cortázar), Se Um Viajante Numa Noite de Inverno (Ítalo Calvino), Grande Sertões: Veredas (João Guimarães Rosa) e Avalovara (Osman Lins)? No mesmo tom, dezenas de contos se caracterizam pela mesmice de linguagem e pela repetição temática – muito semelhantes com aquelas moças que ficam “rodando a bolsinha” nas esquinas da vida.

Para concluir, cabe dizer que o tal sujeito, professor de literatura, está recomendando para amigos, alunos e demais interessados o conto da Ali Smith. Em um mundo em que a literatura se transformou em uma disciplina descartável, ele – pateticamente – se esforça para dividir o conhecimento.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A BALADA DE ADAM HENRY

Os romances de tese estão fora de moda. Poucos são os exemplos contemporâneos em que alguma discussão ética, dessas que confrontam as diferenças entre o certo e o errado, se sobressai. A maioria das narrativas contemporâneas abordam, de forma superficial, os relacionamentos amorosos ou as ilusões do capitalismo. Em textos repletos de diálogos, projetando futuros roteiros de cinema, estão misturados diversos elementos de entretenimento banal (cenas de ação e doses controladas de sexo). Essa fórmula imbatível, utilizada pelos best-sellers, garante a venda de milhares de exemplares. 

A Balada de Adam Henry, de Ian McEwan, rompe com a apatia e enfrenta, sem medo, uma questão particular do embate entre a ciência e a religião. Adam Henry, 17 anos, sofre de leucemia e precisa de uma transfusão de sangue. Como ele e sua família professam a fé das Testemunhas de Jeová, essa hipótese está descartada – todos preferem oferecer o corpo do rapaz em sacrifício ao dogma religioso. Qualquer semelhança com o mito bíblico protagonizado por Abraão e Isaac não deve ser interpretado como mera coincidência. 

Em regime de emergência, o hospital em que Adam está internado entra com uma ação judicial para evitar a morte do paciente. A juíza que atende as questões de família, Fiona Maye, depois de uma breve análise dos argumentos defendidos pelas partes envolvidas, decide em favor do prolongamento da vida.

A toda ação corresponde uma reação, de igual força e sentido contrário. Esse princípio da física  (3ª Lei de Newton) também pode ser empregado para explicar alguns comportamentos humanos. Salvar uma vida cria laços afetivos – e pouco importa se alguns são indesejados. Adam, que é extremamente inteligente e tem uma compreensão da vida diferenciada, ao ver a estranha alegria de seus pais quando foi salvo da morte, se considera em dívida. Imediatamente se movimenta em direção do agradecimento. A juíza, que está tentando sobreviver a uma crise pessoal, o esfarelamento de sua vida conjugal, acredita que está sendo perseguida e repele o jovem acintosamente – apesar de, insensatamente, ter contribuído para que um mal-entendido se instalasse entre eles.

O restante da história não se mostra diferente de centenas de dramas em que os acontecimentos mais importantes são omitidos pela carpintaria narrativa. Ao descrever a reaproximação do marido e o fascínio da juíza pela música clássica, o narrador, ao mesmo tempo em que mantém o leitor preso à leitura, ergue uma parede para obstruir as imagens que realmente importam – e que surgem nas páginas finais do romance como um exemplo devastador das forças da natureza. Nem mesmo o recebimento de uma carta, contendo um poema bastante sugestivo, consegue atrair a atenção de Fiona Maye.

Algum tempo depois, ao descobrir que as estruturas em que se apoia (sucesso profissional, talento musical, estabilidade na vida conjugal) são irrelevantes, ela finalmente compreende que desperdiçou a vida com inutilidades. Os valores que deveria ter defendido ficaram esquecidos em algum lugar do passado, como se fossem objetos sem o mínimo significado. No entanto, a consciência do dano não repara o malefício. Essa é a tragédia e – talvez tarde demais – a redenção.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

ALTOS VOOS E QUEDAS LIVRES



Aquele que ama precisa estar preparado para – em algum momento – enfrentar a perda. A indesejada das gentes (metafórica ou concreta) está sempre presente, assinalando a finitude, a solidão e a tristeza. Depois da morte da agente literária Patricia (Pat) Olive Kavanagh (1940-2008), com quem esteve casado por 29 anos, o escritor inglês Julian Barnes escreveu um relato em que o inominável utiliza trajes pouco usuais: balões e fotografia.

O inusitado convida para a aventura. Ao lado da industrialização crescente das cidades, a fotografia e o desejo de voar foram dois dos grandes desafios propostos pelo início da modernidade. Os balões eram inseguros, difíceis de navegar – pois dependiam dos ventos – e causaram dezenas de mortes. A aviação somente se tornou algo menos perigosa com o invento atribuído aos irmãos Wright e a Alberto Santos Dumont (dependendo da versão que for mais palatável). A evolução da fotografia foi menos traumática, embora dividida entre a perda da aura artística e a ascensão técnica. A miragem ideológica de que estava destinada a substituir a pintura e o desenho não ajudou muito. De qualquer forma, a partir do século XVIII, permitiu uma forma até então inédita de documentar as atividades sociais.

"Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes. E o mundo se transforma. As pessoas podem não reparar na hora, mas isso não importa. Mesmo assim, o mundo se transformou."



Altos Voos e Quedas Livres é um livro pequeno, dividido em três partes, 127 páginas, repleto de boas histórias, quase todas verdadeiras, embora algumas pareçam inverossímeis, talvez inventadas. Por exemplo, em 1858, Felix Tournachon, mais conhecido como Nadar, patenteou um sistema de fotografia aerostática. Ele imaginou a possibilidade de vender fotografias aéreas para o exercito francês. No entanto, quando Napoleão III, em 1859, ofereceu 50 mil francos por seus serviços na guerra contra a Áustria, o artista multimídia avant la lettre recusou!

Igualmente surreal é a cena protagonizada por Sarah Bernhardt, em 1878, a bordo do balão Doña Sol. Enquanto estava lá no meio das nuvens, na companhia do namorado, Georges Clairin, e de um baloeiro profissional, a atriz tomou champanhe e comeu porções de tartines de foie gras – que ela mesma havia preparado! Provavelmente isso não aconteceu, não importa. A imagem supera a veracidade.

São visões de um tempo em que a fotografia e a literatura se transformaram em alimento para o imaginário que une (e separa) a ascensão burguesa e o desenvolvimento tecnológico.

“Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes; e às vezes funciona, às vezes não.”


O romance entre um militar inglês e uma atriz pouco convencional (uma figura admiravelmente feita para a celebridade, conforme a descreveu Henry James) não pode ser concluída em bons termos. O envolvimento amoroso entre o capitão (depois coronel) Frederick Burnaby (um autentico balunático) e Sarah Bernhardt termina no momento em que ele perde a noção do perigo e faz uma proposta de casamento para a mais importante atriz europeia. Sem perceber que a prima donna era defensora de uma visão muito particular das relações afetivas, o sujeito foi incapaz de calcular a extensão do desapontamento. A saraivada de crueldades começa no instante em que a ouviu dizer que (...) eu não fui feita para a felicidade. O resto foi um massacre, as frases multiplicando a agressão: Sou feita para sensações, para o prazer, para o momento. Estou constantemente em busca de novas sensações, de novas emoções. Serei assim até minha vida terminar. Meu coração deseja mais excitação do que qualquer pessoa possa dar. Em seguida, como se fosse algo natural (e para ela era!), o convidou para modificar o status amoroso: o amante deveria se transformar em amigo. Burnaby não achou graça nessa proposta. Preferiu ir embora. Melhor curar as dores de amor brincando com balões.

Nas relações amorosas, todos parecem destinados a viver a tragédia como se fosse uma segunda pele. Burnaby nunca mais procurou por Sarah. Morreu em 1885, na batalha de Abu Klea, no norte de África.

“Você junta duas pessoas que nunca foram juntadas antes. Às vezes é como aquela primeira tentativa de atar um balão de hidrogênio a um balão de fogo: você prefere cair e pegar fogo ou pegar fogo e cair? Mas às vezes funciona, e algo é criado, e o mundo se transforma. Então, em algum momento, mais cedo ou mais tarde, por um motivo ou outro, uma delas é levada embora. E o que é levado embora é maior do que a soma do que havia. Isto pode não ser matematicamente possível; mas é emocionalmente possível.”


Kingsley Amis, Pat Kavanagh, Martin Amis e Julian Barnes
A perda se manifesta nos momentos mais corriqueiros da vida pessoal. A voz que já não mais pode ser ouvida, o calor do corpo que não pode mais ser sentido, as conversas que pareciam destinadas a nunca terminar, as chaves que abrem a porta do apartamento – que ficou vazio sem a presença desejada. São tantos os indícios a requerer resiliência. Ninguém consegue se preparar para essa circunstância, ninguém consegue enfrentá-la como se fosse algo corriqueiro. A ausência assusta, revela vulnerabilidades, destrói qualquer forma de resistência. E o mais desprezível é que a vida continua – agora sem a presença de quem nos deixou. (...) a alegria se tornou mais frágil e (...) o prazer do presente não se compara ao prazer do passado.

O esforço de Julian Barnes, ao tentar relatar o quanto lhe foi doloroso presenciar os últimos dias de sua esposa, resultou em um texto pungente. Manejando um ponto de vista aparentemente distanciado, mas não muito, Barnes tentou fugir das demonstrações emocionais. Quis parecer imparcial, quis mostrar força ou estoicismo. Por exemplo, em nenhum momento (exceto na dedicatória, no início do livro) menciona o nome de Pat. Obviamente, essa estratégia não funciona. O leitor sabe sobre o que ele está escrevendo, a respeito de quem ele está escrevendo e para quem ele escreve. E essa discrepância oferece a verdadeira conexão entre o texto autobiográfico e o prazer de ler o que foi escrito com paixão e carinho.

Ao final, Barnes explica que nem sempre os balões conseguem voar, nem sempre conseguem pousar em segurança. A queda é uma possibilidade que não pode ser desprezada. Assim como algumas fotografias escondem as imagens que estão fora do alcance da lente, a dor de quem perdeu a pessoa mais importante de sua vida também não é nítida. O aparente, envolvido por uma névoa, encobre os sentimentos que não devem ser mostrados em público (mas que são!).

“(...) toda história de amor é potencialmente uma história de sofrimento. Cedo na vida, o mundo se divide cruamente entre aqueles que fizeram sexo e aqueles que não fizeram. Mais tarde ainda – pelo menos se tivermos sorte (ou, por outro lado, azar) –, ele se divide entre aqueles que enfrentaram a dor da perda e aqueles que não enfrentaram. Essas divisões são absolutas; elas são trópicos que cruzamos.”  

P.S.: Para evitar constrangimentos desnecessários, Julian Barnes omite que esteve separado de Pat Kavanagh nos anos 80, quando ela manteve um romance com a escritora Jeanette Winterson.