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sexta-feira, 28 de agosto de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA (CLIII)



Deixei a janela do escritório aberta durante boa parte do dia. No final da tarde, ao fechá-la, descobri que não estava sozinho. Tinha uma joaninha grudada na cortina. Não tenho conhecimentos entomológicos para definir a taxonomia da minha visitante. Segundo os especialistas, há seis mil espécies, distribuídas em 350 gêneros, distinguíveis por padrões de cores e pintas, além de diversas características. E, sejamos objetivos, esse costume de querer conhecer a genealogia daqueles que frequentam a nossa casa está ultrapassado.

A presença do coleóptero exigia alguma atitude. Em um primeiro momento, imaginei que poderia fazer as honras da casa e convidar a visita para o chá (e uns biscoitos amanteigados). Mas, logo depois de consultar a Wikipédia, descobri que esses animais se alimentam basicamente de ovos e larvas de outros insetos – e isso eu não tinha para oferecer. Concluí que colocá-lo de volta na natureza provavelmente seria o mais apropriado. Isso precisaria ser feito com tato e discrição. A minha intenção nunca foi a de parecer rude ou mal-educado. A senhora minha mãe jamais me perdoaria se eu demonstrasse comportamento agressivo com quem estava tentando se hospedar no apartamento em que moro.

Antes de resolver o impasse, pensei em fotografar a joaninha, talvez uma selfie de recordação para a posteridade. Talvez uma possível postagem no Instagram ou no Facebook. Foi um pensamento insensato e que se esvaiu rapidamente. Não existe motivo razoável para tornar pública a intimidade do animal – além disso, sempre há o risco de algum processo judicial por exposição indevida, dano moral ou algo similar. Desisti do intento.  

Poderia perguntar à joaninha se ela queria algum tipo de ajuda para ir embora. Poderia. Antes que tivesse a chance de fazer o questionamento, percebi que o problema era grave. Não havia a possibilidade de, digamos, abrir as asas e voar para longe. Alguma coisa estava prendendo-a na cortina. Com a ajuda de uma folha de papel, tentei libertá-la. Consegui.

Infelizmente, caiu atrás do sofá. Ninguém me condenaria se tivesse pronunciado um palavrão, efeito sonoro adequado à ocasião. Controlei o temperamento, arrastei o sofá e fui procurar por aquele ser minúsculo. O besouro não era maior do que um centímetro. E estava imóvel no chão. De forma apressada, pensei que teria que levá-lo ao hospital veterinário, talvez tivesse quebrado uma perninha ou deslocado uma asa, não imagino que tipo de traumatismo uma queda de menos de um metro pode causar nesse tipo de animal. Felizmente, não era nada grave (imagino). Ele se moveu na direção da parede.

Consegui colocá-lo em cima da folha de papel e o levei-o até a janela. Depositei aquele corpo frágil (para o meus padrões) no parapeito. Fechei a janela e as cortinas e fui tomar banho. Hoje pela manhã, quando acordei, não havia mais sinal de sua presença. Pode ter sido levado pelo vento ou então se reunido com outras joaninhas, essa é uma região propícia para que as Coccinelidaee construam moradia.

Sei lá, pode parecer ingenuidade, mas foi bom ver que a vida continua pulsando ao meu redor. E que, por isso, eu também precisei me movimentar. 


quinta-feira, 27 de agosto de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA (CLII)



Ontem, estive na iminência de ser devorado pelo tédio. Há momentos em que a mediação entre a casa e a rua exige alguma satisfação além daquela que é fornecida pela tela do computador ou da televisão. A alternativa está em decidir se vale o risco de enfrentar o mundo exterior. Dia de sol no inverno é sinônimo de tentação. Bermuda, camiseta, sandália e máscara – simulacro de quem estava indo para a praia (a ironia surge imediatamente: a temperatura média do Planalto Catarinense, nos últimos quinze dias, não deve ter ultrapassado 10° C).  

Não fui muito longe. A ideia era fazer o sangue circular pelo corpo. Não vejo o menor sentido em fazer exercícios físicos, detesto academias e, entre os meus melhores defeitos, não se encontra o narcisismo. Melhor é bater perna, descobrir a geografia urbana.

Como desculpa argumentei para mim mesmo que precisava pagar uma conta. Fui ao banco, à padaria e ao supermercado. Fiquei fora de casa cerca de uma hora e meia. Infelizmente, não posso sair para caminhar todos os dias. Ou melhor, não devo. Estou no grupo de risco – por diversos motivos. Mas, preciso confessar que um contato mais próximo com o mundo está fazendo falta. Gosto de ficar em casa. No entanto, não me sinto confortável em ter restrições sobre o que fazer ou deixar de fazer.

Ao voltar, tomei um banho rápido e acessei, pelo celular, o Instagram do Ppglitufsc. Vi e ouvi uma laive sobre o medo e a pandemia. Foi bom ver pessoas do meio acadêmico pensando e discutindo o tema, que provavelmente será expandido nos próximos anos com razoável produção ficcional e teórica.

Depois, algum tempo depois, sentei na frente do computador e comecei a escrever este texto. Parei antes de chegar à metade. Um ligeiro mal-estar. Não foi físico. Apenas uma sensação indefinida, dessas que surgem no horizonte, lá longe, e vão se aproximando devagar. Quando o sujeito se dá conta do perigo, ela já está instalada no sofá da sala, tomando chá com biscoitos, e olhando dentro dos nossos olhos.

Fui para a sacada do apartamento, no início da noite. Fiquei imaginando bobagens sobre os carros e as pessoas que estavam se deslocando pela avenida. A ficção fornecendo substância ao nada. Devo ter ficado lá por um bom tempo, o suficiente para perceber que o exercício da escrita estava comprometido, que era melhor deixar o Diário da Quarentena em banho-maria, amanhã é outro dia, essas conversas fiadas de quem não tem (nunca teve) compromisso com os rituais.

O resto da noite foi inquietação. Só consegui dormir lá pelas três da manhã. Acordei cedo – e isso significa antes das oito. Assisti ao jornal televisivo, a comprovação de que as notícias se repetem em um círculo de mesmice. Lavei a louça, tomei banho, li um pouco (um romance russo superengraçado). Nada muito diferente do que faço no dia a dia – estou em casa a mais de seis meses. 

Neste momento da história contemporânea, nada mais resta senão inventar resiliência. E esperar.


terça-feira, 25 de agosto de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA (CLI)


Galilée devant le Saint-Office au VaticanJoseph-Nicolas Robert-Fleury,
salon de 1847. Musée du Louvre
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Em alguns momentos, depois de ler (ou assistir) o noticiário nacional, percebe-se que a literatura mais terrível (aquela que trata de traições, taras diversas, mediocridades e escândalos) não consegue competir com a realidade.

A vida é assim, poderia-se argumentar diante de tantos desastres. Ocorre que, mesmo que se admita que algo está fora de lugar, a vida não é assim. Ou não deveria ser. Nesse beco sem saída em que o Brasil se encontra, é necessário ter consciência de que os arrivistas tomaram conta do palanque e instituíram uma narrativa que exalta a ignorância e o desprezo aos conceitos mínimos de civilidade. O país está vivendo um tempo similar ao da Idade Média, onde a superstição e o temor da ira divina negam a ciência e a lógica.  

O comportamento agressivo, a falta de decoro e o uso frequente de notícias falsas são escudos usados para esconder algum tipo de deficiência (física, psicológica, moral, intelectual – talvez todas). Esse conjunto de atitudes serve de estímulo para que a matilha (formada por ressentidos, histéricos e portadores de deficiência cognitiva) se insurja contra o racional. Presos dentro do armário fascista durante muitos anos, não souberam se comportar no momento em que abriram a porta e encontraram a claridade. Ainda estão combatendo as sombras. Mais do que uma versão farsesca do mito da caverna de Platão, falta-lhes o devido verniz cultural para perceber que lucidez deriva da palavra latina lux.

Nesse ritmo, está o caso da deputada que, dizem, ordenou a morte do esposo. Nenhuma novidade, a polícia sempre esteve próxima da política. Algumas vezes por conluio, outras para investigar crimes cometidos por parlamentares. E, no atual cenário que reveste o poder, delitos não estão em falta – além dos casos amplamente divulgados pela imprensa, algumas particularidades se destacam: lobbys, corrupção, “rachadinhas”, etc.

Representante da onda conservadora que assumiu o poder no país, a deputada, que também é pastora evangélica, comprova que algumas escolhas eleitorais não foram feitas para respeitar os interesses da democracia. Retifico, não correspondem ao exercício social. No choque entre a imagem pública e a vida privada, há segredos e infâmias – que costumam ser escondidos debaixo do tapete, junto com as demais sujeiras da vida doméstica. Como escreveu Nelson Rodrigues, Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém.  

Os ingredientes que compõem a história que está nos jornais (sendo o incesto a infração de menor gravidade) fariam as delícias de escritores do porte de Restif de La Bretonne (1734-1806), Marquês de Sade (1740-1814), Nelson Rodrigues (1912-1980) e Rubem Fonseca (1925-2020). Possivelmente alguma cena do agrado de Jean Genet (1910-1986) também está presente nessa tragédia carioca. Basta ser paciente e aguardar as próximas revelações. Para o bem e para o mal, todo enredo de qualidade precisa de um (ou diversos) plot twist.

Aqueles que defendem a moral e os bons costumes, usualmente utilizando a bíblia como se fosse uma arma, acabam mostrando o quanto estão contaminados pela hipocrisia e pela desonestidade. O caso da deputada não pode ser entendido como algo isolado. Também não deve fomentar preconceitos com as escolhas religiosas. Existem maçãs podres em todos os cestos, cabe adotar mecanismos de controle para impedir que a contaminação atinja as outras frutas.



segunda-feira, 24 de agosto de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA (CL)

 


A doença sempre ocupou um lugar de destaque na literatura. Talvez por ser uma metáfora fácil de ser assimilada pelo leitor, talvez porque a humanidade precisa, inconscientemente, negar – com todas as suas forças – o poder da morte. Independente do motivo, livros como A Montanha Mágica (Thomas Mann), A Peste (Albert Camus), Édipo-Rei (Sófocles), Decameron (Giovanni Boccaccio) e A Morte de Ivan Ilitch (Liev Tolstói) costumam ser lembrados como formas exemplares de tratamento literário sobre o tema.

Durante muito tempo, a peste negra, o câncer e a tuberculose foram fonte de inspiração para um tipo de literatura que oscila entre a resistência e a resiliência. Infelizmente, em algumas ocasiões, escorrega perigosamente para esse terreno pouco seguro que é a autoajuda, como comprova a sick lit, subgênero explorado à exaustão por John Green e Nicholas Spark, entre outros.

Nos últimos trinta anos – mais ou menos –, a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS/SIDA) entrou na relação das enfermidades que merecem atenção literária – possivelmente porque em determinado momento foi interpretada como uma doença que não discriminava classes sociais ou econômicas (e atingia a todos os que tinham uma vida sexual conturbada). Mais tarde, essa tese se comprovou equivocada. Entre os muitos textos que atingiram um grau acima da média, destacam-se um conto de Susan Sontag, Assim Vivemos Agora, e o romance de Colm Tóibín, A Luz do Farol.

A estrutura polifônica (em um conto!!!) proposta por Sontag estabelece através de várias informações, algumas desencontradas, a situação crítica em que se encontra um amigo comum. O texto consegue mostrar a formação de uma rede de solidariedade – ao mesmo tempo em que vai narrando o estado de saúde do doente. Na narrativa de Tóibin, a relação familiar fragmentada encontra os laços perdidos. A irmã, a mãe e a avó se unem para cuidar do rapaz que está morrendo. Lírico, sensível, humano – não são poucos os adjetivos que podem e devem ser usados para qualificar esse romance.

Provavelmente, o Covid-19 também será alvo de algumas narrativas nos próximos anos. É o caminho natural da literatura (e, logo depois, do cinema). O advento de uma nova enfermidade (que não passa de uma mutação genética de uma doença antiga) possibilita desdobramentos infinitos do tema e das variações que o acompanham. Haverá de tudo um pouco: narrativas apocalípticas, histórias de amor, perdas emocionais, fábulas religiosas, desencontros familiares, extermínio das populações indígenas, o percurso do herói e algumas táticas de sobrevivência em um mundo hostil. Simultaneamente, as livrarias oferecerão grande quantidade de estudos literários e sociológicos – estruturas lógicas (ou não) para tentar compreender o que aconteceu (o que está acontecendo).

Em todos os textos que serão escritos em futuro próximo, a questão política será ingrediente fundamental. As razões que transformaram o Covid-19 em ameaça estão intimamente ligadas com o capitalismo predatório, com a negligência em adotar medidas de prevenção sanitária e ausência de consciência ecológica. Possivelmente esses fatores não explicam os fatos de forma direta, mas de algum modo contribuíram para que a humanidade ficasse em situação de perigo.

A pandemia não significa o fim do mundo – sempre há sobreviventes em todas as crises. Mas deve ser vista como uma advertência. Cabe aos governos adotarem algumas medidas preventivas para tentar impedir que esse fenômeno se torne rotina.


domingo, 23 de agosto de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA (CXLIX)

 



Os óculos, na falta de melhor expressão, são a minha janela particular para ver o mundo. Sou míope desde um tempo que não lembro mais. E não me reconheço sem essa ferramenta de ver o longe. Por isso, e alguns outros motivos, o embaçar das lentes é um dos incômodos que mais me afeta na pandemia.

Quando uso máscara, os óculos ficam pendurados na camisa. O olhar se retrai. Uma enorme massa desfigurada se apresenta no horizonte. Olho para baixo, para evitar tropeçar nos buracos que enfeiam as ruas da cidade. Caminhar está se tornando o mais perigoso dos deslocamentos urbanos.

O alcance visual do mundo exterior desaparece. Lucina, personagem do romance chileno Sangue no Olho (São Paulo: Cosac Naify, 2015), da Lina Meruane, vai perdendo a visão aos poucos, uma tortura que vai se esparramando sem que apresente a mínima esperança de reversão. É uma perspectiva muito mais angustiante do que a metáfora política de Ensaio Sobre a Cegueira (São Paulo: Companhia das Letras, 1995), de José Saramago, onde há (pedindo perdão pelo trocadilho ruim) uma luz no fim do túnel.

Jorge Luiz Borges viveu sem enxergar por 32 anos, mas nunca perdeu o costume de comprar livros. É o que relata o jovem (16 anos) Alberto Manguel, funcionário da Livraria Pygmalion, em Buenos Aires: Um dia, após escolher alguns títulos, ele me convidou para visitá-lo e ler para ele à noite, caso eu não tivesse mais nada para fazer (in: Com Borges. Belo Horizonte: Âyiné, 2018). Imagino que esse drama seja similar ao de Glauco Mattoso, que não enxerga faz algum tempo, mas continua compondo os seus poemas fesceninos com assiduidade.

Para João Cabral de Melo Neto, que foi perdendo, aos poucos, o contato com imagens e formas, a escuridão somada com a enxaqueca constante lhe tirou o gosto pela vida. A poesia cerebral, rigorosa na escolha de cada palavra, de cada verso, somente era possível na claridade.

Segundo a lenda grega, Homero era cego, recitava versos para poder sobreviver e a poesia era (literalmente) o seu alimento. John Milton teve glaucoma quando estava preso. James Joyce se submeteu a várias cirurgias oftalmológicas, mas não foi possível atenuar as lesões. Aldous Huxley foi vítima de uma doença rara aos 17 anos – na vida adulta compensou os danos com lentes de aumento. Luiz Vaz de Camões perdeu um dos olhos em uma batalha em África, mas isso não o impediu de produzir uma obra poética espetacular.

Entre os muitos medos que abrigo, a opacidade ocular tem lugar de honra. Não me parece correto viver sem poder ler, sem poder desfrutar do espetáculo das cores. Ciente de que a vida não é justa, costumo visitar o oftalmologista com alguma frequência. É o único médico em que confio.

A incompatibilidade dos óculos com a máscara possibilita uma pequena vantagem. A postura social das pequenas cidades exige que as pessoas se cumprimentem, sejam amáveis, finjam civilidade, e eu não sou fã desses procederes – principalmente em alguns casos específicos. A pandemia está proporcionando uma formula fácil: Desculpe, não te vi.