As mulheres e o cinema são os temas
principais do divertidíssimo bildungsroman (romance de formação) Havana
para um Infante Defunto, escrito por Guillermo Cabrera Infante (1929-2005). Movido
por uma força intima avassaladora, o dublê de narrador e protagonista – homem inominado
que nasceu para se apaixonar por todas as mulheres do mundo – utiliza-se do
cinema como uma desculpa para fundamentar a própria educação sentimental e
sexual. Ou melhor, para elaborar o discurso do amor e suas formas e das formas
do meu amor – mesmo que sejam formas vazias de amor.
Com um sorriso maroto, desses que querem
dizer tudo e nada ao mesmo tempo, ele não poupa esforços para repartir com o
leitor um leque de lembranças sentimentais e sexuais, ocorridas entre o final
da década de 1940 e a metade da década de 1950, em Havana. Com elegância estilística e riqueza vocabular
(nítida herança barroca), como se fosse uma espécie de Casanova alfabetizado, multiplicando
os jogos de palavras, trocadilhos, aliterações, paronomásias e ecolalias, não
se constrange em revelar os fracassos românticos, as brochadas afetivas, os
enganos amorosos.
Havana para um Infante Defunto inicia
na infância do narrador/protagonista e vai se deslocando lentamente para a vida
adulta. Sempre escorado em lembranças sexuais, o texto não se constrange em
revelar, na transição entre a adolescência e a vida adulta, algumas intimidades,
inclusive que nunca me senti sozinho com minha mão. Nesse ritmo, as fantasias
masturbativas – que são anteriores às experiências sexuais efetivas e afetivas – ficcionalizam os
dias, antecipam o momento em que o imaginário se transformará em ação
concreta. Ver (imaginar) o corpo das mulheres prevê o deslumbramento e o
gozo.

Na etapa seguinte dessa crônica de amores
(talvez un chant d'amour, talvez un cunt d'amore), o contato físico se concretiza, a carne e o desejo se confundem com
a vertigem e o encantamento. Foi com ansiedade e tesão que o narrador/protagonista percebeu que era a
temporada de tornar o cinema um campo de caça. Em intermináveis tardes,
assistindo filmes de segunda classe, muitas mulheres se tornam suas professoras
no curso básico de sexo. O aprendizado foi lento e agradável, bolinações pouco
inocentes, beijos ardentes que culminaram com um grande evento, desses que
aproximam o entusiasmo em loucura: uma desconhecida o masturbou no escurinho do
cinema.
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Rua de Havana, nos anos 50 |
Nem tudo foram glórias nesse estágio
amoroso. Alguns constrangedores momentos se fizeram presentes. Levado por
alguns amigos, pois já era hora de conhecer o verdadeiro sexo, o narrador/protagonista fracassou em um prostíbulo (Não deixe meus amigos saberem, por favor.).
Julia Esteves, antecessora de Julieta dos
Espíritos, responsável pelo desvirginamento do rapaz, era casada e tinha um olhar cor de caramelo claro. Depois de algumas pequenas dificuldades, forneceu
inesquecível pós-graduação nas artes amatórias para um Romeu paupérrimo - que só podia oferecer o seu pau para toda obra obscena. Ou melhor,
milhares de sacanagens, sensações sequer imaginadas antes do abrir das portas do
jardim de prazeres – afinal, como disse a bella donna, desejo em forma de
mulher, o amor não tem moral. As intimidades foram seguidas por crescente
entusiasmo. Questões menores, alguns hiatos e entreatos, variações do coitus
interruptus, impediram que o relacionamento atingisse o ápice do contentamento. Tempo
suficiente para sonhar com outras guloseimas. Como o acaso amoroso sempre vem
em socorro do amante fiel, bastou ouvir as palavras mágicas, mantra capaz de
fazer a carne tremer e derreter instantaneamente, Já tou molhadinha, para mostrar
labor e louvor na obtenção do diploma summa cum laude na cama (volúpia e orgasmo
entrelaçados pelo ardor, ar e dor, quase amor, a sufocar delírios, lírios a
escorrer pelo rio sexual, um manancial interminável de delícias).
Em paródia do vim, vi e venci, o corpo de Julieta se transforma no mais glorioso dos campos de batalha. Foi lá que, na primeira vez, a espada trespassou (três vezes!) as fronteiras do encanto. Foi lá que o rapaz construiu um dístico comportamental: Hoje, para mim, quanto mais dissoluto for, melhor; como a liberdade começa na libertinagem, proclamo indecência ou morte!
O bom da vida é a certeza de que, em
algum momento, o que é bom acaba. Simples assim. Rompido o lacre, o corpo e o
desejo se transformam em domínio público. Leva quem chegar primeiro. E nem
precisa embrulhar. Talvez isso explique porque o narrador se transforma em
homem casado, desses que preferem construir uma história fora do contexto
familiar. As aventuras extraconjugais espelham uma forma de resistência
contra a esposa – que logo fica grávida e que é citada no texto como se fosse
um peso a ser carregado por Sísifo. Cinemas,
ruas, praças, motéis – nada escapa do território demarcado pela imensidão da
devassidão. A educação erótica se multiplica em miríade de lições, corpos que
são fu(n)didos por outros corpos, alquimia divina, explosão de sabores e
saberes, contentamento.
O amor possessivo se manifesta como uma espécie de alucinação. Margarita Del Valle (ou Violeta ou qualquer que seja o seu nome, pois nomes são apenas referências passageiras), mais do que a fonte de regozijo sexual, sinaliza para o desmoronamento das certezas, para as vertigens do abismo. Sob a égide de Odisseus, o narrador/protagonista foi capaz da determinação necessária para resistir ao canto da sereia (música que conduz a vítima aos confins do inferno). Infelicidade é o outro nome da ausência.
Relato íntimo das dificuldades econômicas
e sociais da geração que antecedeu a Revolução Cubana de 1959, momento em que o narrador/protagonista tenta mimetizar os sons, as cores, os cheiros e os sentimentos do povo cubano, Havana para um
Infante Defunto, mais do que um relato sobre a
virilidade e o delírio cinematográfico, é uma divertida leitura fescenina – que faz o leitor dizer,
depois da última página, foi um lazer (repetindo o trocadilho involuntário de
uma das personagens do romance).