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sexta-feira, 27 de março de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA (V)



Um dia como outro qualquer. Claro que isso é uma mentira. Fugi da quarentena autoimposta. Fui até o centro da cidade. Uns vinte minutos de caminhada para ir, outro tanto para voltar. De bermuda e sandália, como compete a um turista em filme de ficção científica. Faltou a máquina fotográfica a tiracolo. Por isso vou ficar devendo as melhores imagens da aventura. Desculpem-me!
 
Fui pagar contas. Tenho restrições ao uso dos aplicativos bancários. Não me inspiram confiança. Essa recusa aos avanços tecnológicos não é recente. As teorias conspiratórias ficam mais sólidas no meu imaginário todas as vezes que ouço alguma história sobre clonagem de celular ou de conta bancária.


Comparei a paisagem que vi com uma cidade fantasma, lugar comum nos faroestes que assisti quando era pré-adolescente. Matinê de domingo, no Cine Tamoio. Faltou o ranger das placas das lojas, empurradas pelo vento, e os montes de feno rolando pelas ruas. No resto, tudo igual: lojas fechadas, poucas pessoas na rua, um ou outro trabalhador executando serviço braçal. Esse conjunto de imagens me impressionou tanto que não ficarei surpreso se ler nos jornais, amanhã, alguma notícia sobre duelos ao entardecer.

Na farmácia, antes de ir ao banco, comprei luvas de borracha. Mais uma bobagem para a coleção. Esqueci que a modernidade me escravizou à biometria.




Da forma mais deprimente possível, descubro que o corpo – vulnerável à doença - se confunde com as relações monetárias. A potência que emana da vida se torna insignificante diante do saldo bancário. O dinheiro e a doença estão amalgamados com o corpo. E não há como fugir dessa tragédia.

Não consegui resolver todos os problemas que me fizeram sair de casa. Tentarei outras soluções. Ou não.

Na volta, passei no supermercado. Não me parece sensato viver sem Coca-Cola, chocolate, bolacha, sorvete, queijo, iogurte, enlatados diversos. Apenas o indispensável, que os tempos são de crise e os juros do cheque especial não foram afetados pelo Covid-19.

Em casa, depois de guardar as compras e tomar banho, pedi comida pelo delivery: bife à parmegiana. Diante do prato, a memoria afetiva disparou outra vez. Lembrei de outros tempos, aqueles em que minha mãe celebrava a existência com alegria e mesa farta. Depois de superar várias dificuldades econômicas, bifes à parmegiana eram – em nossa casa – provas incontestes de que viver se confundia com um festival de prazeres.


Se a quarentena se prolongar por muito tempo, obterei diploma de honra ao mérito em lavação de louça. Não tenho mais necessidade de olhar aquele tutorial no YouTube. Estou fazendo o serviço sem encontrar dificuldades. E, até o momento, não quebrei nenhum prato, nenhum copo. No meio dessa operação de extrema complexidade mecânica e intelectual, lembrei de uma entrevista com renomado infectologista. O cara alertou sobre os perigos que estão escondidos na cozinha. Disse que as esponjas são um dos locais ideais para a cultura de bactérias. Então, num gesto de extrema coragem, joguei fora a esponja velha. Eba!

O resto da tarde foi quase monótono. Varri o escritório, coloquei o lixo para fora, li um pouco, escrevi outro tanto. E fui surpreendido com o retorno das entregas pelos correios: um pacote que estava em lugar incerto e não identificado chegou! Tomara que amanhã entreguem o outro pacote desaparecido. Se isso acontecer, posso pensar em voltar ao meu esporte predileto: comprar livros.

(continuo em outra hora)

Um comentário:

  1. Amei! Realmente comer acaba criando prazeres incríveis em momentos de crise. Eu sou chegada a doces. Quando a situação aperta um bolo de chocolate é um amigo incontestável! Fique em paz e em casa!

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