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segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE

 


Recentemente, em reunião com empresários, perguntaram para o professor e político Fernando Haddad qual era a sua (dele) opinião sobre o pensamento de Karl Marx. Haddad rebateu com outra pergunta: em qual obra de Marx? O empresário foi incapaz de citar um único texto do filósofo alemão. Parece que o indivíduo não tinha a mínima ideia de que o pensamento marxista é múltiplo e abrangente.

Durante muito tempo, o ex-ministro da Fazenda (1967-1974) e do Planejamento (1979-1985), Antônio Delfim Netto, teve (talvez ainda tenha) uma das melhores bibliotecas marxistas do Brasil. Perguntado do porque desse esforço, respondeu (provavelmente com outras palavras) que é necessário conhecer profundamente o inimigo.

Esses dois episódios (que devem ser vistos sem a mistura com as questões ideológicas) estão conectados porque colocam em contraste a civilização e a barbárie, o conhecimento e a estupidez. Em outros tempos (nem melhores, nem piores do que os atuais, apenas diferentes), ter um mínimo de base intelectual era requisito indispensável para qualquer tipo de ação pública.

Para Umberto Eco, as redes sociais deram o direito à palavra a uma legião de imbecis que, antes, só falavam nos bares, após um copo de vinho, e não causavam nenhum mal para a coletividade. Nesse sentido, estamos convivendo com uma inversão de propósitos e procederes. A modernidade tecnológica implodiu a catedral do pensamento lógico (que exige correção e comprovação) e instituiu as ruínas como um novo templo de devoção. As opiniões pessoais (que são apenas isso, opiniões pessoais) assumiram um lugar central em qualquer discurso. O que importa não é estar certo, o que importa é vencer. E esse pensamento está alicerçado na possibilidade (ou na esperança) de que a força bruta sempre vence. Para que isso aconteça, todos os esforços são válidos: má educação, fake news, teorias conspiratórias, projetos golpistas, etc..

O tiozão do churrasco, o empresário analfabeto em política e economia e o youtuber lacrador se tornaram figuras emblemáticas de um tempo em que as demandas de quem "quer se dar bem" (sem precisar pensar ou estudar) são mais prementes do que o pensamento civilizatório. Essas pessoas, de certa forma, são descendentes de Átila, rei dos Hunos que costumava aterrorizar seus inimigos com promessas de destruição, dizendo que onde eu passar, nem a grama crescerá novamente.  

A pilhagem costuma ser compreendida como sinônimo de sucesso. E, normalmente, resulta em fracasso porque destruir é muito mais fácil do que manter o território anexado. Poucos entendem as dificuldades que acompanham as vitórias, poucos estão preparados para administrar. Para que a conquista seja completa, precisariam ter o conhecimento que dispensaram durante o trajeto.    

O horror! O horror!, exclamou Kurtz, personagem de um dos romances escritos por Joseph Conrad. Mas não é somente na ficção que a iniquidade parece conduzir ao coração de umas imensas trevas. Em diversos momentos, a realidade prefere negar a lucidez (do latim lux, luz) e enveredar por caminhos soturnos, onde, nas sombras, é possível esconder (ou destruir) tudo o que desagrada ou atrapalha.

Em algum lugar do Manifesto Antropofágico, texto basilar da revolução cultural modernista brasileira, lemos que A alegria é a prova dos nove. Nestes tempos de homens sombrios, praticantes da banalidade do mal, uma multidão prefere cultivar a tristeza que acompanha a ignorância.             


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