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domingo, 28 de dezembro de 2025

QUE NÃO SE REPITA – a quase morte da democracia brasileira

 


Conta a lenda grega que ninguém acreditava nas profecias formuladas por Cassandra, sacerdotisa de Apolo. São várias as interpretações desse mito, mas contemporaneamente, em um mundo em que as mentiras estabelecem (por algum tempo) o estatuto de verdade, quaisquer avisos sobre os perigos que estão vinculados ao mundo político desaparecem no vento produzido por uma estrutura fluída, líquida, escorregadia.

Eugênio Bucci publicou, no jornal O Estado de São Paulo, uma série de artigos sobre o período 2019-2022. Nesses artigos ele faz diversos alertas, baseado em questões que lhe pareciam evidentes – mas que eram ignoradas por quase todos, principalmente pelo grupo de pessoas que estava apostando no caos. São essas análises que compõem o livro Que não se repita – a quase morte da democracia brasileira (Editora Seja Breve, 2025).

Com argúcia e objetividade, Bucci vai descrevendo a ascensão do irracional. As coisas transcorriam como se seguissem um roteiro de deterioração lento, gradual e inseguro que tinha salvo-conduto para seguir adiante. As ações aparentemente desconjuntadas, um tanto randômicas, tinham uma lógica subterrânea exata. Elas se encadeavam numa obra paulatinamente empenhada em ressuscitar o arbítrio. Avançavam passo a passo, gota a gota, de modo continuado, milimétrico e persistente. Era o golpe em gerúndio.

O processo de erosão estava sendo conduzido, sintomaticamente, pelos “suspeitos de sempre”, mestres no golpismo institucional – qualquer um que conheça um mínimo da história da República pode identificá-los. Mas, houve um erro de estratégia no meio do caminho. Confiaram que poderiam manipular o títere que foi eleito. O que saiu do controle foi uma espécie de golpe dentro do golpe: a presidência da República entregou o poder executivo para o Congresso (emendas parlamentares, orçamento secreto) e passou a negligenciar todas as políticas públicas que constituem a relação entre o governo e a população brasileira. Basta lembrar o que aconteceu durante a pandemia, em 2020/2021, quando a incompetência estatal se manifestou de forma incontestável.  

Mesmo assim, parte da população continuava apoiando esse projeto insensato. Inclusive porque era confortável acreditarem na névoa produzida e reproduzida nas redes sociais. Para algumas pessoas tudo que era publicado na internet, principalmente nas incontáveis páginas políticas conservadoras, adquiria um status de verossimilhança. Mesmo assim, como se estivessem usando algum tipo de antolhos, pareciam não perceber que Os indícios já estavam todos postos. Estavam presentes nos discursos que tentavam erigir um passado de glórias que nunca houve, nas narrativas heroicas que enalteciam a banda mais animalesca da ditadura militar, nas declarações de ódio contra os jornalistas, disseminadas sob o patrocínio do Palácio do Planalto, nas campanhas de moralização violenta dos costumes, que elogiavam o universo masculino como ideal de mando e enalteciam o feminino como selo de obediência. Nessas horas, a corte bolsonarista reproduzia o ambiente da Itália de Mussolini, que instava o homem a ser “pai, marido e soldado”.   

Esse ambiente, que incorporou questões religiosas como se fossem itens da prática política, projetou um cenário propício para um coup d’etat – mas que, logo depois das eleições de 2022, se transformou em pantomima, ópera bufa, teatro de terceira classe. Tudo o que parecia sólido se dissolveu no ar. A incompetência também bateu continência na hora em que poderia ter alguma substância.

De qualquer forma, é preciso lembrar uma frase de Bertolt Brecht: a cadela do fascismo está sempre no cio. Uma crise foi superada. Mas, isso não é motivo para ser otimista.  Como alerta Bucci, as forças antidemocráticas (...) voltarão pela porta dos fundos, ou mesmo pela porta da frente, e armarão a recidiva. Enquanto isso, não tenhamos dúvida, muita gente continuará repetindo que as instituições estão funcionando normalmente e que você não tem motivo para se preocupar.   

Os textos que constituem Que não se repita são leitura obrigatória para quem quer entender os acontecimentos recentes da história republicana brasileira e os métodos utilizados pelas forças reacionárias. O golpismo costuma hibernar, mas em algum momento há o despertar. O futuro de cada um de nós está em acreditar (ou não) nos presságios de Cassandra.   

Eugênio Bucci

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O EXPRESSO DE TÓQUIO

 


O romance policial é um gênero literário repleto de clichês. Diante de uma morte violenta – quase sempre –, um policial ou um detetive particular resolve investigar e descobrir quem cometeu o crime, em que situação e porque o fez. O que diferencia um escritor de outro é a forma que adota na condução narrativa, além da capacidade de criar personagens diferenciados. Enfim, todas as histórias são a mesma história, embora contadas de maneira diferente.

Keniche Sayama e Hideko Kuwayama (conhecida, no restaurante em que trabalhava, como Otoki) são encontrados mortos na praia de Kashii, na baía de Hakata (ilha de Kyushu, sul do Japão). A polícia, após a investigação preliminar, declara que foi um suicídio amoroso duplo: beberam suco misturado com cianeto.  

Jutaro Torigai é desleixado (se veste mal, a barba está por fazer e não tem muita paciência com a vida familiar). O que o destaca dos demais policiais é a percepção de ver pormenores que aos olhos dos outros parecem não ter a mínima importância. O recibo de uma refeição no vagão-restaurante do trem, encontrado no bolso do homem morto, por exemplo.

Essa é a trama inicial de O Expresso de Tóquio, de Seichō Matsumoto (Editora Todavia, 2025. Tradução de Jefferson José Teixeira). E que adquire novo contorno quando o inspetor assistente da Segunda Divisão de Investigação da Polícia Metropolitana de Tóquio Kiichi Mihara entra em cena. Ele está procurando provas em um processo de corrupção no local de trabalho de Sayama: (...) desde o outono passado ocorre um escândalo que tem como centro certo ministério. Inúmeras empresas fornecedoras parecem estar envolvidas.

Nesse ponto, o narrador deixa Torigai de lado e se concentra na investigação conduzida por Mihara. Persistente, o inspetor deseja provar que Sayama colaborou em um caso de advocacia administrativa (favorecer interesse privado contrário às diretrizes da administração pública). Essa possibilidade se mostra, a cada instante, difícil de ser demonstrada. Os fatos apontam na direção contrária – há explicações para tudo e nenhum espaço para a dúvida. Como a perfeição não combina com a vida real, é exatamente por isso que as suspeitas continuam existindo.

São os detalhes que importam. Sendo que o mais relevante é o horário dos trens. Em uma sociedade em que o deslocamento das pessoas privilegia o transporte coletivo, a pontualidade foi determinante para o sucesso do crime que está sendo investigado. A geografia também se faz presente nos diversos lugares em que a narrativa se situa: Tóquio, Fukuoka, Kamakura, Sapporo. Nesses locais os personagens interagem e costuram a trama com as cores do mistério.     

Nas cenas finais (em forma epistolar), a revelação. Mas, antes disso é necessário juntar as peças do quebra-cabeça, perceber que houve todo um trabalho de precisão para que o assassinato duplo fosse executado.

O Expresso de Tóquio (no original Ten to Sen) foi publicado no Japão em 1958. Em 1970 foi renomeado como Pontos e Linhas. Com exceção de algumas questões ínfimas, somente perceptíveis por quem possui algum conhecimento da cultura japonesa, o livro continua atual. Existe uma versão cinematográfica, dirigida por Tsuneo Kobayashi em 1958.

P.S: alguns leitores podem ter problemas com os nomes dos personagens e das cidades. Obviamente, isso é irrelevante. 

 

Seicho Matsumoto, pseudônimo de Kiyoharu Matsumoto (1909-1992). 


terça-feira, 16 de dezembro de 2025

BARTLEBY E EU

 


Em um mundo onde valores como trabalho, eficiência e ambição se destacam, Bartleby, personagem de Herman Melville (1819-1891), com a frase I would prefer not to (preferiria não – em algumas traduções) está na contramão. São muitos os comentários sobre o que motivam a recusa. Os adeptos da psicanálise mencionam a possibilidade da depressão; na análise dos marxistas, revela uma postura anticapitalista; os liberais econômicos simplesmente o ignoram – como a todos aqueles que não se deixam explorar. Enfim, existe interpretações para todos os gostos.   

O jornalista Gay Talese preferiu seguir por outro caminho. Durante meu trabalho como jornalista e no extenso período em que morei na Cidade de Nova York, conheci muitas pessoas que, de um modo ou de outro, me fazem pensar em Bartleby. É gente que eu via regularmente, mas cuja vida privada permanecia privada. Nesse ritmo, ele abre um leque de identificação com aqueles que – por diversos motivos – estão invisibilizados no dia a dia. Ou seja, Talese produziu um grande número de reportagens enfocando porteiros, caixas de banco, recepcionistas, garçons, carteiros, zeladores, faxineiras e incontáveis balconistas em lojas de ferramentas, lavanderias, farmácias e outros lugares (...). Essa proposição reducionista merece reserva, pois esvazia a essência do personagem e fornece outra percepção para quem o vê como uma figura de contestação ao sistema autoritário (em diversas áreas: trabalho, economia, política, modo de vida).

De qualquer forma, são poucos os jornalistas que aceitam atualmente fazer esse tipo de reportagem, não só porque exige olhar atento para identificar o que se destaca na multidão e o transformar no ponto de partida de alguma história inusitada, mas também porque esse enfoque raramente conta com o apoio do jornalismo comercial, que defende outros interesses. Entretanto, nos anos 60/70, era uma forma inovadora de produzir um olhar minucioso sobre alguns segmentos da sociedade. Esse é o propósito do primeiro capítulo do livro – centrado na região de Wall Street, onde ficava localizado o Times, jornal que forneceu a base jornalística de Talese.

Na segunda parte do livro, Talese relata a epopeia que foi escrever o perfil de Frank Albert Sinatra (1915-1998) para a revista Esquire. Tudo o que consegue, em um primeiro instante, se resume em negativas, bloqueios e advertências. A rede de proteção do astro da música e do cinema era intransponível. Durante várias semanas, como se estivesse em um labirinto, Talese fez inúmeras tentativas de encontrar a saída. Todas resultam em decepção. Mais fácil conseguir entrevistar o Minotauro do que Sinatra. As alegações variavam entre gravações cinematográficas, ensaios musicais, compromissos com amigos. Quando o texto foi publicado, o que se lê são depoimentos de terceiros e o distanciamento típico de quem mistura jornalismo e literatura (new journalism). São os coadjuvantes que constroem a mitologia glamourosa, inclusive no momento que enfoca a luta de boxe entre Muhammad Ali (Cassius Clay) e Floyd Patterson, que aconteceu em Las Vegas, em 22 de novembro de 1965. Ali venceu no 12º round por nocaute técnico. Sinatra e Talese assistiram o combate, mas sequer conversaram.

O último texto aborda a vida do médico Nicholas Bartha, que decidiu explodir o prédio (o brownstone tinha quatorze cômodos e cinco andares) em que morava. Foi um protesto contra uma decisão judicial em favor de sua ex-esposa (Ele era obcecado pela casa. Era seu único hobby). Imigrante europeu, Bartha fazia questão de afirmar que Não vou deixar que ninguém me despeje como os comunistas fizeram na Romênia em 1947. Essa declaração tinha suas raízes na perda do patrimônio familiar (empresa de mineração de ouro), que fora confiscado pelos nazistas e, mais tarde, pelos soviéticos. Trata-se, obviamente, de um personagem com muitos problemas. Mas, contar essa história demanda contar a história das pessoas que faziam parte da vida de Bartha. Ou melhor, a história das pessoas que residiram no local, bem como diversas outras histórias acessórias (inclusive o julgamento). Para que isso aconteça, Talese repetiu o método utilizado na reportagem sobre Frank Sinatra. Mas o fez de forma um pouco diferente, porque neste caso precisou fazer algumas pesquisas históricas e, como compete a aqueles que procuram pelo que não é aparente, acabou achando um filão de ouro.                   

A compra do brownstone não foi pacífica: alguns dos inquilinos se recusaram a ir embora e impediram o início das reformas. Embora todos tem sido despejados judicialmente, o desgaste emocional foi intenso. (...) depois que a família [se] livrou (...) dos inquilinos, Nicholas nomeou a si mesmo empreiteiro geral para poder supervisionar tudo o que os empregados faziam na reforma da casa. (...) Escolheu as cores das tintas para as paredes, decidiu onde peças e móveis seriam colocados e deixou claro que tudo devia ficar onde ele tinha posto e que ninguém deveria mudar nada de lugar. Era um workaholic.   

Para custear as melhorias no edifício, Bartha precisou trabalhar em dois ou três hospitais (alguns relativamente distantes) e isso significou ficar menos tempo em casa, com Cordula, a esposa, e as filhas. Não podia tirar férias ou desfrutar de algum entretenimento (cinema, teatro, concertos musicais, eventos esportivos). Obviamente, o casamento foi desgastando e, em algum momento, o divórcio se tornou inevitável. Mas, não foi uma demanda pacifica. Ao contrário, teve discussões acaloradas e cenas de psicopatia (a esposa foi acusada de comunista, nazista, déspota). Por fim, a esposa e as meninas saíram de casa. Cordula contratou uma advogada e o processo se arrastou por um bom tempo.

Quando o juiz decidiu a causa em favor da esposa, Bartha surtou. Passou a morar sozinho e a cultivar manias e reclamações contra os vendedores de rua, contra os vizinhos, contra o mundo. Diante do despejo iminente, mandou um e-mail de despedida para alguns amigos e para a ex-esposa. Abriu as torneiras do gás de calefação. Esfacelado pela explosão, destruído em tamanho e forma, o prédio tinha vaporizado numa caótica miragem cascateante, um amontoado abrasador de pisos desmoronados que cobriam sem falhas a calçada e o meio-fio com uma montanha ascendente de restos carbonizados e estilhaçados de acessórios domésticos e bens pessoais do dr. Bartha.

O médico foi resgatado inconsciente pelos bombeiros. Tinha queimaduras de segundo e terceiro grau em 80% do corpo. Morreu cinco dias depois.

Bartleby e eu (Editora Companhia das Letras, 2025. Tradução de Laura Teixeira Motta) estabelece um novo conceito para o personagem de Melville, embora... É também um manual do jornalismo enviesado que precisa trabalhar com fontes secundárias e/ou terciárias. Ao escavar o periférico – sem atingir o cerne – oferece elementos que, de outra forma, estavam destinados ao esquecimento.  


Gay Talese (n. 1932)


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

A VINGANÇA É MINHA



Era época dos dias escuros de gelo e neblina em Bordeaux. Susane, obscura advogada, é contratada para defender Marlyne, autora de triplo infanticídio (os filhos tinham seis anos, quatro anos e seis meses, respectivamente). O marido, Gilles Principaux, alega não gostar do advogado da família – então ele e a esposa optaram por procurar outro profissional.

Susane carrega dentro de si alguns fantasmas, um deles a conduz aos seus dez anos, quando pode (ou não) ter acontecido algo que ela bloqueou, mas que muitos anos depois ainda a atormenta. A isso se soma o ressentimento contra o seu pai, as discordâncias com a mãe, a tentativa de resolver o problema de documentação de Sharon, a empregada (imigrante das Ilhas Maurício), e Lila, a filha do ex-marido, projeção do relacionamento amoroso fracassado.

O narrador onisciente do romance optou pela aspereza ficcional, com pouca fluência, que parece não querer avançar, várias páginas procurando por desvios. Nesse ritmo, o texto vai sendo conduzido para lá e para cá, sem permitir que se saiba exatamente qual será o desfecho – inclusive porque isso está meticulosamente escondido.

A vingança é minha, de Marie NDiaye (Editora Todavia, 2024. Tradução: Marília Scalzo), não é romance que se deve recomendar para apressados ou para aqueles que querem deslizar pelo texto como se estivessem em parque de diversão. A demora premeditada em explicar os eventos narrativos vai alargando a história, introduzindo estranhamento, criando uma atmosfera sombria e repleta de penduricalhos.

O relato dessas minúcias elabora o painel dos acontecimentos: o marido que parece não ter ficado surpreso com a morte dos filhos (Principaux apenas não parecia suficientemente “emocionado”), a esposa quase catatônica, os depoimentos dos policiais que atenderam a ocorrência, os relatos dos companheiros de trabalho antes de Marlyne se casar (era professora de francês), o antagonismo da família dela com Gilles (Ele se impunha, vinha da burguesia, era bastante autoritário, apesar de seu ar descontraído).

Nesse emaranhado de relatos – que parecem não levar a nenhum esclarecimento – Susane, com meticulosidade, vai adentrando no âmago da situação, e, como se fosse uma detetive policial, tenta entender o que está por trás do crime. Ao visitar sua cliente na prisão, escuta um testemunho incoerente, um misto de comiseração pela dor do marido e o sentimento de ter se libertado da opressão doméstica (no pano de fundo, o discurso estrutural da feminilidade submissa parece gritar nos ouvidos do leitor). Gilles, todas as vezes que visita o escritório de Susane, exalta a felicidade familiar e se mostra reticente aos motivos que levaram à morte dos filhos. Ao mesmo tempo em que declara amor incondicional à esposa (e quanto isso o faz sofrer), revela a banalidade do macho provedor que ignora o que está acontecendo diante de seus olhos.

Susane percebe que existe um abismo faminto nessa situação, uma falha geológica que separa o território afetivo em metades irreconciliáveis. Por mais absurdo que pareça, em determinado momento, Susane deixa de lado a neutralidade jurídica e, em mero exercício aritmético, percebe que o marido sufocou a vida interior de Marlyne – e a impulsionou para a autodestruição. Matar os filhos, mais do que um sintoma do adoecimento, surge como uma rota de fuga da gaiola de ouro que mimetiza o casamento.

Em alguns momentos de A vingança é minha se torna difícil distinguir quem está mais atormentada: a assassina ou a advogada. O onírico carrega a tendência de criar fantasias, de expandir o poder de influência do inimigo (seja real, projeção ou apenas medo). As duas mulheres estão acompanhadas pelo mal-estar, pela sensação de habitarem um não-lugar – espaço em que precisam encontrar forças para existirem, para superar as obrigações sociais (a maternidade, a perda da identidade). A intimidação atinge tal ponto que a personalidade feminina vai sendo diluída até só restar a servidão absoluta. Ou a revolta catastrófica.


Marie NDiaye

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

MAR DA TRANQUILIDADE

 


Na face visível da Lua existe uma região composta por lava basáltica e que é denominada de Mare Tranquillitatis. O módulo lunar Eagle, da Apolo 11 (tripulado por Neil Alden Armstrong e Edwin Eugene “Buzz” Aldrin Jr.), foi o primeiro veículo espacial a pousar no local em 20 de julho de 1969.

No romance de ficção científica Mar da Tranquilidade, de Emily St. John Mandel (Editora Intrínseca, 2025. Tradução de Débora Landsberg), a área foi povoada por habitantes da Terra (três complexos residenciais), depois que a vida no planeta se tornou complicada (super população, descontrole ambiental). Como acontece em todos os empreendimentos imobiliários, um deles, com o passar do tempo, foi perdendo as suas características iniciais e se tornou um lugar decadente. Alguns dos personagens da narrativa moraram, em diferentes épocas, na Colônia dois.     

Os vários eixos narrativos de Mar da Tranquilidade estão unidos pelo conceito de viagem no tempo. Partes do romance ocorrem em diferentes locais (na Lua, na Terra), e em vários períodos cronológicos (1912, 1918, 1990, 2008, 2203, 2401). Esses deslocamentos temporais são o leitmotiv do livro.  

Um grupo de cientistas resolve investigar momentos de séculos diferentes [que] estão vazando uns nos outros. Para entender as razões do fenômeno, enviam Gaspery-Jacques Roberts ao passado. Entretanto, as viagens no tempo encerram um perigo: qualquer mudança – por mais insignificante que seja – pode alterar o fluxo histórico. Os acontecimentos como são conhecidos tomarão outro rumo e essas modificações, eventualmente, criarão situações catastróficas.

Gaspery-Jacques, irmão de Zoey (uma das coordenadoras do Instituto do Tempo), também é um personagem de Marienbad, romance escrito por Olive Llewellyn. Quando ele assume a posição de narrador, relata que visitou vários lugares, conheceu várias pessoas e, mais importante, descobriu o que aconteceu. Em cada uma das viagens temporais, ele se desdobra, se multiplica – e projeta, como se fosse a sombra de si mesmo, a figura literária do Doppelgänger.

Um nobre inglês exilado no Canadá, uma mulher que procura entender o desaparecimento de sua amiga, um compositor obscuro de música clássica, uma escritora em turnê de divulgação de livro. São esses personagens dispares que Gaspery-Jacques encontra em seus deslocamentos temporais. Todos eles precisam enfrentar as diversas dificuldades que envolvem o afeto: doença mental, pandemia, solidão, exílio, perda, luto. Nesse mar não há tranquilidade.  

Metáfora complexa da história humana, Mar da Tranquilidade utiliza-se de mundos alternativos para construir uma estrutura que contrasta com o determinismo cartesiano. A jornada de Gaspery-Jacques, que interfere no próprio destino e no de alguns personagens, mostra que é possível construir outra história, menos cruel, mais flexível. E isso, mais do que um ato de rebeldia contra o sistema, configura um exercício de liberdade.   

Nas cenas finais há o encaixe, aquele momento em que a amarração dos fatos narrativos se completa. Tudo passa a ter explicação (ou não). Mas isso obriga a releitura de algumas páginas, pois o desfecho da trama se parece como um quebra-cabeças cuja imagem revelada ao leitor não corresponde às expectativas.

 

Emily St. John Mandel

Emily St. John Mandel também escreveu o excelente Estação Onze (Editora Intrínseca, 2015).    


sexta-feira, 14 de novembro de 2025

NOTÍCIAS DO TRÂNSITO

 


Como deve reagir o pai quando o filho anunciar que está fazendo a transição de gênero? Sejam progressistas ou conservadores, raros são aqueles que conseguem administrar essa situação com o necessário equilíbrio. Cadão Volpato precisou escrever um livro para tentar exorcizar a aflição emocional.

Letrista, cantor e guitarrista da banda Fellini (anos 80 em São Paulo, pós-punk), ex-trotskista, ativista estudantil na ECA-SP e na FFLCH-USP, jornalista cultural, apresentador de televisão. Parece fácil resumir a biografia de Cadão Volpato em uns poucos itens. Embora não seja um perfil tradicional, supõe-se que possui as necessárias condições intelectuais para compreender a diversidade cultural, social, econômica, sexual de um mundo em constantes mudanças. No entanto, a vida está repleta de nuances e, entre uma atividade e outra, existem vários interstícios. Em Notícias do trânsito (Editora Seja Breve, 2025), em relato autobiográfico, Cadão procura preencher alguns dos espaços vazios de sua história. O acontecimento que produziu a ruptura entre o privado e o público foi um telefonema (seguido de várias mensagens pelo Whatsup). Um de seus quatro filhos (três rapazes, uma moça) anunciou que estava em trânsito – que tinha decidido atravessar a estrada das convenções e mudar de gênero.

Foi um choque traumático – porque coloca em xeque as questões que emolduram a masculinidade e, consequentemente, o machismo. Em dado momento, Cadão confessa: Eu era essa pessoa, esse Casanova de segunda categoria. (...) E quando sento com velhos amigos é das mulheres passadas que lembramos (...). É a velha história que os homens gostam de repetir – incansavelmente. Mas não é para impressionar a plateia, e sim para convencer a si mesmos que a virilidade (mesmo quando inexistente) é um valor a ser preservado. E os Homens (com H maiúsculo) sentem orgulho de se comportarem como Homens e enumerar as mulheres que fizeram parte de suas vidas.     

Mudar de gênero, nesse contexto, implica em infração, inflamação no tecido social, um tumulto carregado de preconceitos, dúvidas, confusões, medo. Os laços que instituem a masculinidade foram rompidos – principalmente quando o pai é fruto de uma geração que se declara autolimpante, que dispensa ajuda de psicólogos, de terapia, e que, por não ter coragem de assumir determinadas questões, internaliza as dores. Esse conflito lancinante não se resolve facilmente. É o aprendizado (ou não) que resulta em aceitação ou rejeição.


O que faço com seu nome antigo? Me diga.

Eu sei o que você vai dizer, e não vai insistir muito.

Sou uma pessoa do século 20, e vou deixando coisas pelo caminho, menos seu nome de poeta italiano universal, o de perfil adunco no meio do caminho desta vida.

(...)

Mas de repente eu não saberia mais como chamar você. Nome, pronome.

Agora sei, embora ainda não consiga – não como sua irmã, seu irmão, sua namorada, seus amigos. E não sei como sua mãe está chamando você.

 

Nome, pronome. Mudanças. Nel mezzo del cammin di nostra vita / mi ritrovai per una selva oscura / ché la diritta via era smarrita (Em tradução informal: No meio do caminho desta vida / me vi numa floresta escura, / porque estava perdido), escreveu Dante Alighieri, na Divina Comédia. Esses versos, de certa forma, traduzem a perplexidade do pai diante da decisão do filho. E, seguindo poema, cabe-lhe dizer, depois de algum tempo: Allor fu la paura un poco queta / che nel lago del cor m’era durata / la notte ch’ï passai con tanta pieta // E come quei che con lena affannata / uscito fuor del pelago a la riva / si volge a l’acqua perigliosa e guata (em tradução informal: Então o medo que existia no lago do meu coração se acalmou, / na noite que tomou minha alma inquieta; // e como alguém que, com respiração ofegante, redivivo, / saindo do mar / se volta para a água perigosa e a contempla).    

Livro angustiante, mas escrito com emoção, empatia, acolhimento, e muitas referências literárias, musicais e cinematográficas, Notícias do trânsito se caracteriza pela coragem de discutir um tema comportamental estranho ao segmento social brasileiro que defende a pátria, a família e a hipocrisia.

É a voz do pai que atravessa o livro, é o afeto que une o pai e o filho: Você e o seu sonho de Quimera. Seu, não meu, seu e de mais ninguém. A sua quimera. 


Cadão Volpato


terça-feira, 4 de novembro de 2025

ODISSEIA ESTELAR

 


São raras as narrativas de ficção científica que abordam as relações amorosas. Outros temas possuem preferência: viagens espaciais, inovações tecnológicas, colonialismo em outros planetas, populações alienígenas, distopias fascistas. 

Trabalhando em sistemas solares diferentes, jovem casal planeja voltar à Terra para se casarem. Tudo está planejado, o local da cerimônia, a recepção, os convidados. Somente precisam chegar em Seul, Coreia do Sul, no dia agendado. Mas... como acontece em todas as histórias trágicas de amor, surgem inúmeros obstáculos e o que parecia, inicialmente, a projeção da felicidade se transforma em desencontro e angustia.

Esse é o enredo das duas primeiras histórias de Odisseia Estelar, de Kim Bo-Young (Editora Suma, 2025. Tradução de Luís Girão). Em uma série de mensagens (que, por disparidades temporais, estão desconectadas umas das outras), o leitor pode comparar a visão do noivo (Estou esperando por você) e a visão da noiva (Estou indo até você). Embora os dois contos estejam conectados pelo fio da esperança de que tudo terminará da melhor maneira possível, os personagens precisam lidar com situações muito diferentes. E isso resulta em afastamento. Os diversos incidentes (e acidentes) que relatam dificultam realizar o que prometeram um ao outro.

Do ponto de vista narrativo, a adoção da linguagem epistolar permite a abordagem temática através de visões unilaterais, onde os fatos expostos não sofrem interferência – ou reparos. Ao leitor cabe fazer as conexões, interpretar as decisões de cada uma das partes e lamentar o resultado dessa epopeia do desencontro e da solidão.

Metaforicamente, na odisseia encenada no imenso oceano que é o espaço sideral, Ulisses e Penélope jamais se encontrarão em Ítaca. A Terra, seguindo a vocação eterna para o caos, foi destruída por uma guerra civil. Só sobraram algumas poucas indicações de que, em algum momento, existiu uma civilização.

No terceiro conto, Pessoas a caminho do futuro (que se divide em quatro partes), um viajante espacial, Seongha, está procurando pelos confins do mundo. Para que isso seja possível precisa superar contratempos, loucura, isolamento e – o mais perigoso – outros terráqueos. Cada uma dessas ameaças exige habilidades que ele não dispõe. E isso significa que a morte sempre está próxima. Nessa tentativa de desbravar o infinito existencial, o vazio se projeta como resposta para todas as perguntas. Segundo o narrador, Tudo naquele universo estava morto. O tempo antigo, como uma doença, havia arrastado tudo o que era vivo para o abismo da morte. (...) Somente a “luz”, que vivia por tempos infinitos, continuava a sobreviver, transportando de um lugar para o outro imagens dos tempos em que o universo estava vivo. (...) Todas as estrelas mortas ainda brilhavam em algum lugar do cosmos. (...) Para a luz, o nascimento e o fim do universo significavam um único instante. A luz vivia por eras infinitas, mas morria no momento em que nascia. Ela ignorava até mesmo que um dia havia existido.     

Odisseia estelar não economiza em discussões sobre as muitas questões científicas relacionadas aos efeitos da física e da biologia nos humanos que estão navegando pelo mundo exterior: as viagens espaciais que ampliam as diferenças espaço-tempo, a possibilidade de atingir a velocidade da luz, o emprego de nanorrôbos sintéticos para preservar a vida, os efeitos da gravidade e da ausência de oxigênio, a existência da quarta dimensão, as naves espaciais individuais e coletivas quase autônomas. Essas abordagens com contornos futuristas são importantes para entender o romance, sendo que alguns trechos exigem entendimento científico além do trivial – mas isso não atrapalha a narrativa que propõe um cenário ad hoc, onde tudo se assemelha ao deslumbramento e, simultaneamente, ao horror.        


Kim Bo-Young


sábado, 25 de outubro de 2025

NÃO COMPRO LIVROS NA AMAZON

 


Não compro livros na Amazon. Nas diversas vezes que tornei pública essa afirmação, não foram poucos os olhares de incredulidade e – simultaneamente – de curiosidade. Afinal, sou um bibliófilo – ou seja, alguém que ama os livros e os compra com frequência. Em seguida, me perguntam: qual é a alternativa? Usando da (pouca) paciência (que tenho), tento explicar a necessidade de apoiar as pequenas livrarias, os sebos e a economia local. Raramente consigo ter êxito nessa argumentação. Os preços e as vantagens adicionais oferecidos pelas grandes empresas (descontos, tempo de entrega, estoque, etc.) tornam qualquer discussão inútil. O imediato é mais valioso do que os benefícios obtidos a longo prazo. É o espírito do tempo, diria um cínico.

Fui criado em uma cidade que teve, durante determinado período histórico, quatro livrarias. Eu era freguês de todas. Duas eram bastante deficitárias (Nobel e La Fontaine). As outras (A Sua Livraria e Livraria Serrana) tinha as características que fazem das livrarias de rua uma expedição ao paraíso. Eram gerenciadas pelos donos, pessoas que conheciam os gostos dos clientes, aceitavam encomendas e, em casos especiais, faziam fiado. O cliente se sentia "em casa". Também existia um sebo: Saber e Ler. O tempo passou, o vento mudou de direção, o ambiente ficou árido e as escolhas desapareceram. 

Simultaneamente, de forma mais abrangente, os suplementos culturais dos jornais (e as revistas especializadas) deixaram de ser publicados. O papel deixou de ser o suporte ideal para transmissão do saber. As informações sobre os temas relacionados com a biblioteconomia (que era pouca e para poucos) ficaram voláteis e a Internet se transformou no grande oráculo – fornecendo respostas para enigmas inexpressivos.

O progresso tecnológico está contribuindo para modificar as conexões afetivas. Uma das consequências imediatas desse fenômeno pode ser constatada quando percebemos que o contato íntimo com os livros está adquirindo outro significado. Além de ter perdido a aura (ver Walter Benjamin), o livro deixou de ser uma fonte de conhecimento ou de entretenimento e passou a ser considerado um produto comercial – muitas vezes, descartável. O marketing (seja através dos influencers, seja de forma mais ortodoxa) passou a determinar a ordem de prioridade nas relações de consumo.

Um dos gargalos da modernidade pode ser constatado no momento em que a cultura se confunde com a economia. De forma correlata, existe um processo imobiliário (similar à gentrificação) para a extinção das livrarias de rua (ou o deslocamento desses estabelecimentos comerciais para as grandes redomas da modernidade: os shoppings).

Nesse cenário de devastação, a Amazon surge como se fosse uma tábua de salvação. Muitos leitores ficam encantados com a possibilidade de ter uma grande livraria ao alcance do laptop ou do celular. As compras virtuais passam a ditar a regra geral do comércio. Mas, esse tipo de pensamento ritualiza o erro. A empresa de Jeff Bezos (assim como outras empresas de comércio virtual) ambiciona – seja de uma forma ou de outra – dominar o mercado. E, em uma etapa posterior, aumentar os preços dos produtos que estão à venda. A proposição básica que orienta esse empreendimento pode ser sintetizada em uma única palavra: lucro.

Então, quais são as possibilidades em um mundo em que a tecnologia (aliada com os conglomerados comerciais) tomou conta dos laços sociais? Não existe uma resposta satisfatória para o impasse. Mas há escolhas menos danosas. E a principal é fazer o dinheiro circular entre os pequenos comerciantes (sejam físicos ou virtuais). Isso contribui para impedir o desemprego, combate a uberização dos serviços de entrega (um dos motivos da desestabilização dos Correios) e vitaliza as relações entre fornecedores e consumidores.

A razão econômica é a razão do proprietário – nunca é a do cliente.     


terça-feira, 21 de outubro de 2025

SEDA

 


Alguns leitores influenciam outros leitores. Não é frequente, não é raro. Todo comentário ou resenha desperta curiosidade. Ocasionalmente, alguém menciona um livro que não está mais na moda, que perdeu os quinze minutos de fama, que está destinado aos saldos das livrarias ou às estantes dos sebos. Mesmo assim... Mesmo assim, são narrativas que sobrevivem aos interesses descartáveis do capitalismo (que estimula o consumo das novidades e nega qualquer discussão sobre a qualidade). 

Um desses casos é Seda, de Alessandro Baricco (Editora Companhia das Letras, 2007. Tradução de Léo Schlafman). Diversas páginas virtuais de literatura em Espanha, Portugal e Itália não medem esforços para o recomendar constantemente. E fazem isso com tamanha paixão que o contágio se estabelece com facilidade.

A narrativa está concentrada na história de Hervé Joncour (que mora em Lavilledieu, no sul de França). Ele compra e vende bichos-da-seda (ou melhor, os ovos do inseto). No início, viajava para o Egito e a Síria. Em 1860, uma epidemia de pebrina (doença infecciosa) tornou inviável nessas regiões a criação do animal (como tinha ocorrido antes na Europa). A indústria têxtil então se volta para o Japão – que fica do outro lado do mundo.  

Hervé Joncour precisa atravessar a Europa e a Ásia, em um percurso que dura cerca de seis meses. Pouco se sabe dos perigos que enfrentou nessa aventura (que se repete nas outras viagens). O marco decisivo para que a empreitada adquira sucesso está relacionado com o encontro com uma espécie de senhor feudal japonês: Hara Kei. É ele quem passa a fornecer a matéria-prima, é ele quem acolhe Hervé com um sentimento próximo da amizade – mas que vai se dissolvendo na medida em que Hervé fica fascinado (platonicamente) por uma das companheiras do japonês: Hara Kei estava sentado no chão, com as pernas cruzadas, no canto mais afastado do cômodo. Vestia uma túnica escura, não portava joias. Único sinal visível de seu poder, uma mulher estendida ao lado dele, imóvel, a cabeça apoiada no seu colo, olhos fechados, braços escondidos sob o amplo vestido vermelho que se alargava ao redor, como uma chama, sobre uma esteira cinzenta. Ele passava lentamente uma das mãos nos cabelos dela: parecia acariciar o pelo de um animal precioso, e adormecido.

A mulher se torna objeto do desejo e obsessão – inclusive porque inacessível. A frustração se concretiza toda vez que Hervé volta ao Japão – e a distância entre os corpos vai sendo construída como uma muralha cada vez mais inexpugnável (mas a atração nunca cessa).    

O choque cultural está presente em cada linha dessa narrativa fragmentária (65 capítulos curtos, no máximo duas páginas cada um), sendo que o narrador pouco se detém em detalhar a linha cronológica, preferindo se orientar na construção de imagens que mostram as incontornáveis distâncias entre o Ocidente e o Oriente.

Entre a poesia (expressa na linguagem seca, distante do sentimentalismo) e a prosa de um narrador em terceira pessoa que controla o fluxo narrativo com exatidão, o leitor encontra – na cena final – um Hervé que observa o inexplicável e suave espetáculo que fora a sua vida.    

 

TRECHO ESCOLHIDO

E viu uma árvore, à beira da estrada. E enforcado num galho, o rapazinho que o levara até lá.

Hervé Joncour se aproximou e por algum tempo ficou olhando para ele, como hipnotizado. Então desamarrou a corda, recolheu o corpo do rapazinho, pousou-o no chão e ajoelhou a seu lado. Não conseguia desviar os olhos daquele rosto. Por isso não viu a caravana se pôr a caminho, só ouviu, longínquo, o rumor da procissão que passava por ele, retomando a estrada. Não ergueu o olhar nem mesmo quando ouviu a voz de Hara Kei, a um passo dele, dizendo

– O Japão é um país antigo, sabe? Sua lei é antiga: diz que são doze os crimes pelos quais é lícito condenar um homem à morte. E um deles é levar mensagem de amor da própria patroa.

Hervé Joncour não despregou os olhos do rapazinho assassinado.

– Não tinha mensagem de amor com ele.

– Ele era a mensagem de amor.     


Alessandro Baricco

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

NÓS, OS LEITORES DE POESIA

 

Mary Stevenson Cassatt (1843-1926). Mrs. Duffee seated on a striped sofa,
reading.
Oil on panel, 1876. Museum of Fine Arts, Boston, Massachusetts. 


Dizem que os livros de poesia não são produtos com grande fluxo de venda. Por isso, e por outras razões, costumam ficar esquecidos nas estantes das livrarias – onde, eventualmente, serão adquiridos pelo mais assustador dos fantasmas literários: o leitor de poemas.

Livros são, antes de tudo, mercadorias. E, nessa prosa descolorida, mas que projeta render loas ao capitalismo, ninguém oferece rima ou solução. São as regras do jogo e só os loucos rasgam dinheiro. Tudo está reduzido à questão econômica. Poesia não dá camisa a ninguém (como era comum afirmar em tempos ancestrais). Mesmo assim, a leitura consolida um ato de resistência contra a objetificação – especificamente – da poesia e do poema.   

En la lucha de clases / todas las armas son buenas / piedras / noches / poemas, escreveu Paulo Leminski, para nos lembrar que o ato poético está intrinsecamente ligado com a política e que, simultaneamente, o poema, mais do que um catálogo de emoções, não deve (não pode) ficar à margem da História e sem reagir aos acontecimentos. Essa conversa de I have measured out my life with coffee spoons (tenho medido minha vida com colherinhas de café), do T. S. Eliot, não combina com quem vê a poesia como proposta política, social e econômica.

Você entra na livraria e vai procurar pelos livros de poesia? Eu vou. E, claro, são poucos, quase nenhum, os que encontro. Na mentalidade utilitarista, há quem imagine que esses livros estão ocupando o espaço dos besta-sellers, dos livros que projetam lucro. O comum é encontrar publicações destinadas ao universo escolar, alguns títulos da lista de leituras para o vestibular.  Os outros, aqueles que o leitor interessado na poesia (no versificar do existir) procura, talvez estejam em locais obscuros, embaixo de uma escada ou no fundo do estabelecimento. Com sorte talvez seja possível localizar um ou outro lançamento (desde que sejam de alguma editora conhecida), livros que foram recomendados pelos pseudocríticos das redes sociais e que receberam miríades de adjetivos sem substância, algo parecido com “manifestação de sensibilidade e delicadeza de quem sabe interpretar o mundo através de imagens inigualáveis”.

A poesia mimetiza Medusa – ser mitológico com cabelo de serpente, corpo escamoso e que transformava em pedra aqueles que a olhassem diretamente. Uma probabilidade: o medo afasta o leitor de poesia. E se alguém for capaz de traduzir os seus desejos mais íntimos – aqueles que esconde inclusive de si mesmo – e os revelar ao mundo? Esse espelho não tem boa aceitação no mundo a-pós-o-moderno. Surge em represália para essa ameaça (fragmento de rocha ou estátua de sal) o ódio à poesia. Um afastamento seletivo, uma negação de tudo o que constitui o humano. Ben Lerner escreveu um ensaio erudito sobre o tema e concluiu dizendo: Tudo o que peço aos odiadores – dos quais eu, também, sou um – é que se esforcem para aperfeiçoar seu desprezo, pensando até em levá-lo a se relacionar a poemas, em que ele será aprofundado, não dispersado, e em que, criando um lugar para a possibilidade e as ausências presentes (como as melodias não ouvidas), ele pode chegar a se parecer com amor.   

Talvez seja isso: a poesia desencadeia tempestades, causa contradições, nos faz entrar nas livraria, procurar por livros de poesia e ser surpreendido por Cristina Peri Rossi:


É bom lembrar – ante tanto esquecimento –

que a poesia nos separa das coisas

pela capacidade que tem a palavra

de ser música e evocação,

além de significado,

o que permite amar a palavra infeliz

e não o estado de infortúnio.

Tudo isso não precisaria ser dito outra vez

se o leitor

– tão desmemoriado quanto qualquer poeta –

recordasse um poema de João Cabral de Melo Neto:

flor é a palavra

flor, verso inscrito

no verso,

que li há anos,

esqueci depois

e hoje voltei a encontrar,

como você, leitor,

leitora,

faz agora.  



Peter Worsley. Woman reading. Oil on canvas.


quarta-feira, 1 de outubro de 2025

KITCHEN

 


Acontece. Muitas vezes. O leitor compra o livro e não o lê. Emparedado na estante, o volume fica hibernando por tempo indeterminado. Somente volta à vida por algum motivo aleatório. Foi esse o caso com a primeira edição de Kitchen, de Banana Yoshimoto (Editora Nova Fronteira, 1995. Tradução de Julieta Leite).

O lugar que eu mais gosto neste mundo é a cozinha, afirma Mikage Sakurai, protagonista da primeira narrativa (a segunda se chama Moonlight shadow). Com esse início, o texto poderia enveredar para algo relacionado com a gastronomia, aqueles dramas complicados de chef de cuisine, a luta por conseguir clientes, estrela Michelin e, fundamentalmente, superar a ansiedade e a loucura. Nada disso. Quer dizer, o mundo culinário está presente, mas não ocupa o primeiro plano. A questão principal tem outros sabores: afeto e luto. E isso está expresso com delicadeza e poesia.

Após o falecimento de sua avó (que a criou após a morte dos pais), Mikage vai morar com os Tanabe (Yuichi e Eriko) – pessoas que lhe eram completamente estranhas. São seis meses especiais em que a hóspede se sente acolhida. Em determinado momento, ela vai morar em outro lugar: naquele verão tinha-me dedicado a aprender sozinha a arte de cozinhar. O mundo adquire outro formato, na medida em que Mikage vai descobrindo sua verdadeira vocação profissional.

O retorno acontece quando Yuichi lhe comunica que Eriko foi assassinada. Essa reaproximação através da perda parece conduzir ao estágio que contesta a afirmação: Para nós dois, o outro era a pessoa mais próxima no mundo, o amigo insubstituível.

A voz de Mikage vai relatando as complicações existenciais, uma longa reflexão sobre o que significa estar sozinha no mundo, sem ter em quem se apoiar. É o sofrimento que envolve Yuichi que altera a ordem dos sentimentos de Mikage: Yuichi, não quero perder você. Nós dois, vivendo sozinhos, sempre vivemos sem pensar muito nisso, da forma mais indolor possível. Não podíamos fazer outra coisa: a morte, que na nossa idade não deveríamos ter conhecido tão de perto, era pesada demais para nós. Pode ser que no futuro, estando comigo, você passe por dores, dificuldades, problemas, mas, se você quiser, podemos construir uma vida complicada, mas mais feliz que uma vida solitária.  

Não é exatamente um happy end, mas indica que os dois jovens vão construir um caminho menos triste.


Moonlight shadow é uma pequena novela que complementa o volume e que transita por algo que poderíamos chamar de sobrenatural. Os jovens Hitoshi e Yomiko morrem em acidente. Seus parceiros Satsuki e Hiiragi (irmão de Hitoshi e namorado de Yomiko) têm dificuldades para superar a morte.

A pessoa amada só devia morrer depois de uma longa vida. Perdi Hitoshi aos vinte anos, diz Satsuki, a narradora.

Em dado momento, quando Satsuki está bebendo chá enquanto olha para o rio que divide a cidade, surge em cena Urara, uma espécie de anjo da anunciação. É uma situação estranha, onde aparecer e desaparecer se torna a regra geral. No lugar onde morreu alguém que a gente amava, o tempo para por toda a eternidade.

Moonlight shadow (inspirada na canção de Mike Oldfield) é uma narrativa sobre sonhos, conexões com a morte, tristeza e superação do passado – usando uma linguagem sensível, onde cada palavra adquire o caráter de um dom precioso, capaz de exprimir os sentimentos humanos.


 

P.S.: Banana Yoshimoto é o pseudônimo que Mahoko Yoshimoto, em uma referência às flores vermelhas da bananeira. É autora de Kitchen (Editora Nova Fronteira, 1995; Editora Estação Liberdade, 2025), Tsugumi (Editora Estação Liberdade, 2015), e Doce Amanhã (Editora Estação Liberdade, 2024).


sábado, 20 de setembro de 2025

O HIPOPÓTAMO

 


Em um tempo distante, antes do mundo ser o que Rodrigo entende como o mundo, aconteceram muitas coisas estranhas. Esse descompasso pode ser medido por sua pouca idade (sete, oito anos), pelas relações com os colegas na escola em São Paulo, pelas visitas aos avós em Porto Alegre, pelas inúmeras descobertas que a vida vai lhe apresentando a cada instante.  

São muitos os sinais de que algo não está bem. As crises nervosas da mãe, as marcas no braço da mãe (nove bolinhas espalhadas aleatoriamente do pulso até a metade do antebraço, pequenos círculos escurecidos e enrugados que mais parecem as pegadas de um hipopótamo em miniatura), a separação do pai e a mãe (um dia, muito tempo atrás, numa época tão remota quanto a dos dinossauros, aqueles dois continentes estiveram unidos), as perguntas recorrentes do pai sobre a mãe, os namorados da mãe.

Durante um período das férias, em Porto Alegre, Rodrigo e a mãe saem para comprar leite. Nesse momento a rotação da Terra é alterada, tudo adquire um outro andamento. Rodrigo demora um pouco para perceber, dá alguns passos sozinho até ouvir o estalo atrás de si. Vira e flagra a mãe imóvel, a barra da saia encharcada de leite, a garrafa quebrada rolando por baixo da gôndola. Ela tem a boca entreaberta, os braços jogados ao longo do corpo, o olhar fixo para o fundo do corredor, onde um funcionário etiqueta produtos e um velhinho de boina escolhe sabão em pó.

Essa cena, completamente incompreensível para o menino, gera uma mudança nas relações familiares que aos poucos se torna perceptível e começa a incomodar: quando voltam para São Paulo, as notas na escola despencam, o isolamento aumenta e nada parece fazer sentido. Sem conseguir explicar o que está acontecendo (inclusive porque ficou muito confuso quando viu uma conversa complicada entre o pai e a mãe), Rodrigo passa a ser outro – diferente daquele que se divertia com as histórias que o avô contava (inventava) sobre Winnetou. 

E assim, como se estivesse desenhando o percurso com traços que estão perdendo a nitidez, um pouco borrados, Rodrigo vai crescendo, vai descobrindo que ultrapassar a infância e mergulhar na adolescência – essa antecâmara da vida adulta – sempre será um processo doloroso.

A transição produz algumas compensações. A principal é a que proporciona (em lugar do isolamento e solidão) a possibilidade de abrir espaço para que Rodrigo adquira voz, e possa expressar todas as suas dúvidas e, ao mesmo tempo, exorcizar os seus fantasmas e os da mãe.  

A tempestade envolve o carro como um lençol azul. Por um momento nada parece se mover: o carro roda sem sair do lugar, a mãe dirige sem mexer um músculo; o próprio Rodrigo parece envolvido por uma casca fria e dura. Seria bom seguir assim, seria perfeito, estar dentro de algo mas fora do mundo, os dois boiando num presente puro, uma tarde infinita. Seria perfeito, mas o barulho do limpador o devolve à realidade, ao metralhar da chuva, aos carros que ultrapassam e buzinam ao redor, e embora olhe fixamente para a frente a mãe de certa forma também o observa, suas mãos agarradas ao volante o encaram, e seus braços, e as marcas em seus braços, e Rodrigo sente que poderia dizer alguma coisa, que esse seria um ótimo momento para começar a falar.

O narrador onisciente de O Hipopótamo (Chico Mattoso, Editora Todavia, 2025) conseguiu impor um tom lírico nessa espécie de bildungsroman (romance de formação), mas sem omitir o quanto é doloroso descobrir que o passado sempre cobra tributo ao presente. A história que uniu e separou os pais de Rodrigo é também uma parte da história do Brasil.

 

Chico Mattoso é o autor dos romances Longe de Ramiro (Editora 34, 2007) e Nunca vai embora (Editora Companhia das Letras, 2011).