A literatura precisa ter sabor e, ao virar das páginas de um livro, despertar a famosa vontade de quero mais. De certa forma, o coração e a mente do leitor precisam ser alimentados. Principalmente quando deixam a sofisticação de lado. Ninguém come lagosta ou caviar todos os dias. Há quem prefira arroz, feijão e alguma proteína – o suficiente para uma boa alimentação.
Essa frugalidade está inscrita na produção ficcional de Regina Behar. São textos para comer com os olhos, para celebrar o ato civilizatório que constitui as refeições. Seja quando alguém está cozinhando, seja quando os personagens participam de algum evento em botecos, cafés e restaurantes. A vida multiplica a alegria quando comidas e bebidas são servidas, compartilhadas. É uma forma de criar um lugar à mesa para o leitor.
Em Sobre a mesa (Editora Dromedário, 2025), a relação entre as narrativas e a gastronomia aparece nos eventos cotidianos. Não importa a circunstância: as lembranças do marido morto, os aborrecimentos com o telemarketing, a presença do falso conhecedor de vinhos, os fantasmas familiares, a patroa malvada, o poder mágico da leitura, o desfrutar das geleias e dos doces caseiros. Nas entrelinhas estão o humor, o rancor, o medo, as muitas sutilezas que vão sendo acrescentadas às camadas que constituem as demandas humanas. Tudo isso temperado com algumas referências culturais (Cinema Paradiso, Alceu Valença, bolachas Maria, Carlos Drummond de Andrade, Lima Barreto, Saint-Exupéry, sabedoria popular, etc.).
Essas misturas no caldeirão literário, evidentemente, não evitam, em alguns contos, que as papilas gustativas do leitor sejam contaminadas pelo efeito residual agridoce que resulta da combinação nem sempre pacífica entre o chocolate e a pimenta, entre o afeto e a amargura. Nunca mais havia lembrado dele, mas naquela mesa de amigas, bebendo e compartilhando amores perdidos, ele voltou tão forte que só falei da superfície. Um episódio de amor, uma passagem da juventude. (...) Mas não falei do inconfessável e tentei esquecer.
Talvez seja por isso que algumas histórias são conduzidas em banho Maria, o desfecho suave evitando o sal de frutas, ou melhor, a indigestão. São essas sutilezas, especiarias raras, que impedem que as narrativas, como uma maionese mal feita, desandem e produzam efeitos indesejados.
Livro de receitas um pouco diferente daqueles que foram escritos por Dona Benta, Anthony Bourdain ou qualquer chef de cuisine francês, Sobre a mesa evoca as refeições na casa da avó, as histórias contadas nas cozinhas de fogo de chão, um mundo que deixou de existir – embora se renove a todo instante, o eterno PF (prato feito) do dia a dia.
Naquele sábado eu tinha outros planos: o grupo de literatura, o cineminha com as meninas, ou o happy hour com Gilberto naquele motel no caminho do fim do mundo... Ai Jesus, perdão, mas se Nossa Senhora fosse casada com o Aristides, faria o mesmo. O que esse homem já me traiu... Perdão, Nossa Senhora, Virgem Maria esqueça o que disse. (...) Eu é que sou uma pecadora mesmo, mas considere as minhas razões... Certos deslizes produzem um intenso salivar, a lembrança do sumo da fruta madura a manchar a vida com o gosto do passado.
É
na simplicidade que a felicidade encontra morada. E isso está bem definido no
livro de Regina Behar. Ninguém fica com fome lendo os contos de Sobre a mesa.
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| Regina Maria Rodrigues Behar |


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