A
distância entre o fato e a ficção depende da habilidade do narrador. O leitor
da edição revisada e ampliada de Histórias reais, de Sophie Calle (Editora
Relicário, 2025. Tradução de Marília Garcia), em alguns momentos coloca em
dúvida algumas das páginas do livro. Seja por excesso de veracidade, seja por
incredulidade. Os trechos que tratam das mortes do pai (Bob), da mãe (Monique)
e do gato (Souris) ou do fracasso das relações afetivas mostram que a economia
da linguagem (meticulosamente selecionada para esse experimento) quer produzir
alguma forma de intimidade, na medida em que expande o seu pensamento através
de uma película daquilo que se supõe ser a verdade ou a fantasia.
Quando
minha mãe morreu, comprei uma girafa embalsamada que batizei com o nome dela.
Instalei-a em meu ateliê.
Monique
me olha do alto, com ironia e tristeza.
Sem
subtrair a comédia, sem se esquivar da tragédia, Calle aposta na força da
concisão do texto e no impacto das imagens. Nas 66 histórias e fotografias, o
encantamento se desdobra em fragmentos que iluminam memória, invenção e
performance. Isso não impede a existência das arestas, de avalanches de
sentimentos ou do senso de urgência para contar certas coisas. Esse ritual
confessional possui, além do efeito estético, importância na balança cósmica,
nas sombras produzidas pelo entardecer humano. Estar vivo implica em construir
relatos, em destruir certezas e propor novas formas de ver e interpretar a
poesia. Estabelecer um ponto fulcral no universo.
Nossa
união improvisada, à beira da estrada que atravessa Las Vegas, não me deixou
realizar o sonho inconfessável que compartilho com tantas mulheres: usar, um
dia, um vestido de noiva. Por isso, decidi convidar a família e alguns amigos,
no sábado 20 de junho de 1992, para uma foto de casamento nos degraus de uma
igreja de bairro em Malakoff. Depois da foto, houve uma falsa cerimônia civil,
realizada por um juiz de verdade, e um banquete. Não faltou nada: arroz,
confete, véu branco... Coroei com um falso casamento a história mais verdadeira
da minha vida.
Escrever,
fotografar – formas de atravessar a rua (calle, em espanhol) e ver/construir
outras paisagens. Exercício de abrir portas e janelas, derrubar muros. A
possibilidade de multiplicar vivências, explodir o conformismo, sobreviver aos
escombros, nunca se calar. Suprimir quaisquer restrições sobre a própria privacidade,
eliminar a culpa, limpar o lixo emocional, expor os detalhes (sórdidos ou não).
Estar em guerra consigo mesma.
Apagar
contato. Difícil.
Quando
meu pai morreu, não apaguei o número do seu telefone.
Ontem,
sem querer, liguei para ele e, em seguida, desliguei.
Logo
depois, sua foto e seu nome surgiram na tela.
Bob
me mandou uma mensagem.
Narrativas
e fotografias que ultrapassam a banalidade do cotidiano – e estabelecem o
humano como instrumento narrativo. Cada história projeta algumas singularidades
e, ao mesmo tempo, dialoga com a totalidade. A todo instante (com sarcasmo,
melancolia e agressividade), o livro avisa sobre a necessidade de recusar o
óbvio e o contentamento. No inventário das destruições, o imobilismo caminha ao
lado da ilusão romântica.
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| Sophie Calle |


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