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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

HISTÓRIAS REAIS

 


A distância entre o fato e a ficção depende da habilidade do narrador. O leitor da edição revisada e ampliada de Histórias reais, de Sophie Calle (Editora Relicário, 2025. Tradução de Marília Garcia), em alguns momentos coloca em dúvida algumas das páginas do livro. Seja por excesso de veracidade, seja por incredulidade. Os trechos que tratam das mortes do pai (Bob), da mãe (Monique) e do gato (Souris) ou do fracasso das relações afetivas mostram que a economia da linguagem (meticulosamente selecionada para esse experimento) quer produzir alguma forma de intimidade, na medida em que expande o seu pensamento através de uma película daquilo que se supõe ser a verdade ou a fantasia.

 

Quando minha mãe morreu, comprei uma girafa embalsamada que batizei com o nome dela. Instalei-a em meu ateliê.

Monique me olha do alto, com ironia e tristeza.

 

Sem subtrair a comédia, sem se esquivar da tragédia, Calle aposta na força da concisão do texto e no impacto das imagens. Nas 66 histórias e fotografias, o encantamento se desdobra em fragmentos que iluminam memória, invenção e performance. Isso não impede a existência das arestas, de avalanches de sentimentos ou do senso de urgência para contar certas coisas. Esse ritual confessional possui, além do efeito estético, importância na balança cósmica, nas sombras produzidas pelo entardecer humano. Estar vivo implica em construir relatos, em destruir certezas e propor novas formas de ver e interpretar a poesia. Estabelecer um ponto fulcral no universo.

 

Nossa união improvisada, à beira da estrada que atravessa Las Vegas, não me deixou realizar o sonho inconfessável que compartilho com tantas mulheres: usar, um dia, um vestido de noiva. Por isso, decidi convidar a família e alguns amigos, no sábado 20 de junho de 1992, para uma foto de casamento nos degraus de uma igreja de bairro em Malakoff. Depois da foto, houve uma falsa cerimônia civil, realizada por um juiz de verdade, e um banquete. Não faltou nada: arroz, confete, véu branco... Coroei com um falso casamento a história mais verdadeira da minha vida.

 

Escrever, fotografar – formas de atravessar a rua (calle, em espanhol) e ver/construir outras paisagens. Exercício de abrir portas e janelas, derrubar muros. A possibilidade de multiplicar vivências, explodir o conformismo, sobreviver aos escombros, nunca se calar. Suprimir quaisquer restrições sobre a própria privacidade, eliminar a culpa, limpar o lixo emocional, expor os detalhes (sórdidos ou não). Estar em guerra consigo mesma.

 

Apagar contato. Difícil.

Quando meu pai morreu, não apaguei o número do seu telefone.

Ontem, sem querer, liguei para ele e, em seguida, desliguei.

Logo depois, sua foto e seu nome surgiram na tela.

Bob me mandou uma mensagem.

 

Narrativas e fotografias que ultrapassam a banalidade do cotidiano – e estabelecem o humano como instrumento narrativo. Cada história projeta algumas singularidades e, ao mesmo tempo, dialoga com a totalidade. A todo instante (com sarcasmo, melancolia e agressividade), o livro avisa sobre a necessidade de recusar o óbvio e o contentamento. No inventário das destruições, o imobilismo caminha ao lado da ilusão romântica.


Sophie Calle

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