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sábado, 24 de outubro de 2026

OBRA-PRIMA

 


É possível que 38 toneladas de aço desapareçam e que ninguém tenha a mínima ideia de como foi que isso aconteceu? Essa é a história de Equal-Parallel/Guernica-Bengasi, escultura de Richard Serra (1938-2024), que integrou (integra) o acervo do Museu Reina Sofia (Madrid, Espanha).

A linguagem artística desenvolvida por Richard Serra tem como objetivo a ocupação espacial. Equal-Parallel/Guernica-Bengasi propõe a representação simbólica dos massacres ocorridos em Guernica (Espanha, 1937) e Bengasi (Líbia, 1986). É uma escultura tridimensional (altura, comprimento, largura) e apresenta quatro blocos de aço corten, sendo que dois são quadrados (148,5 x 148,5 x 24 cm) e dois retangulares (148,5 x 500 x 24 cm). As peças estão posicionadas alternadamente, deixando um espaço vazio central – por onde os visitantes do museu podem transitar.


Equal-Parallel/Guernica-Bengasi (Museu Reina Sofia, Madrid)

Em 1990, a escultura foi retirada do museu e depositada no pátio de uma empresa especializada em armazenamento de obras de arte, em Arganda del Rey (28 km a sudeste de Madrid). Em 2005, diante da possibilidade de exibi-la mais uma vez, fracassaram as tentativas de localizá-la. Quatro meses depois da diretoria do museu estar ciente de que o artefato não podia ser encontrado, os jornais estamparam, em manchetes, o seu desaparecimento. Todos queriam saber como o museu conseguiu perder um item do patrimônio artístico espanhol (que tinha custado US$ 200.000,00). O mistério ficou mais complicado quando se descobriu que a empresa responsável pela guarda do objeto tinha falido e que o prédio que abriga o Arquivo Geral da Previdência Social está localizado exatamente no local onde deveria estar a escultura.

Juan Tallón descreve essa confusão em Obra-prima (Editora Nós, 2026. Tradução de Joca Reiners Terron). Através de uma espécie de algaravia polifônica (depoimentos de diretores do museu, jornalistas, funcionários da empresa de transporte, policiais, marchands, curadores, artistas plásticos, engenheiros, empresários industriais, além das diversas pessoas que, de uma forma ou de outra, estiveram envolvidas no acontecimento), o livro propõe ao leitor um quebra-cabeças, onde as peças vão se encaixando umas nas outras através de vozes que parecem estar falando de coisas diferentes, embora o assunto seja comum. Isso não impede que tratem a situação de acordo com a conveniência, sem se preocupar que a soma das partes seja diferente do resultado final.

Nesse percurso, a narrativa vai costurando várias histórias paralelas (exposições, ocupação das praças e parques com obras de arte, dificuldades com as instalações, problemas com a produção das esculturas ou os relacionamentos com os artistas) e introduzindo personagens improváveis como o músico Philip Glass, os escritores Cesar Aira, Paul Auster, Siri Hustvedt e membros do Euskadi Ta Askatasuna (ETA).

O desaparecimento de uma obra afeta tudo. É como quando você deixa cair no chão uma xícara de café. O líquido se espalha em um número infinito de direções, às vezes até no teto. É impossível limpar por completo as manchas, mesmo que à primeira vista pareça impecável. Meses depois, você muda um sofá ou um móvel de lugar e encontra vestígios daquele café por baixo.

O incidente resultou em uma imensa (e intensa) auditoria nos procedimentos administrativos do Museu Reina Sofia (e, consequentemente, nos demais museus do mundo). Muitas irregularidades foram descobertas. Uma das mais significativas revelou que o museu devia muito dinheiro à empresa que tinha a guarda da escultura – nunca quitou a dívida, não pediu a devolução da escultura e continuou mantendo o serviço. Em contrapartida, o estado espanhol exigiu o pagamento de impostos e de contribuições da Previdência Social.  De forma simplificada: sem receita, a empresa não teve alternativa senão declarar a insolvência (Ela me lembrava aqueles navios no meio do nevoeiro que não vão a lugar algum, dos quais não existe sequer uma tripulação, diz o vigia dos galpões vazios). Estaria isso ligado ao sumiço da escultura? E justificaria as duas teses mais difundidas na época: a escultura foi vendida como sucata ou estaria enterrada embaixo do edifício do Arquivo Geral da Previdência Social? Ninguém conseguiu responder essas perguntas – inclusive porque o escândalo (assim como o café derramado) nunca foi amenizado.

Mesmo que se admita que Tudo o que é sólido desmancha no ar, o que é uma piada infame, o caso expôs a falta de habilidade no gerenciamento dos bens do Estado. Além de emitir ridículos comunicados oficiais (aqueles que tratam os incidentes como casos isolados), não agir é quase um mantra quando ocorre qualquer situação estranha ao manual de procedimentos burocráticos. Nenhum funcionário público gosta de lidar com aborrecimentos; melhor que sejam esquecidos por algum tempo (torcendo para que isso se prolongue infinitamente). Mesmo assim, algumas tentativas de encontrar os blocos desaparecidos foram feitas pela polícia. Obviamente, a frustração se fez presente.

Como remendo a tantas trapalhadas, Richard Serra fez, em 2009, uma réplica da escultura – que está em exposição permanente em uma das salas do museu. Essa substituição produziu um efeito de estranhamento muito complicado: (...) quatro peças de ferro são arte e, de repente, quando elas se perdem, ele [Richard Serra] decide que não são mais arte e que o que é arte é a cópia da escultura. Essa arbitrariedade incomoda e cria a possibilidade de assegurar às cópias a mesma aura (no sentido benjaminiano) que se supõe existir nas peças originais. É uma inversão conceitual e um desafio para a produção artística contemporânea. De qualquer forma, com humor ferino, Isidoro Valcércel resumiu a situação dizendo que a coisa mais artística da escultura de Serra é o seu desaparecimento.

Uma das grandes virtudes de Obra-prima consiste em realizar uma radiografia do mercado mundial de arte, revelando que, distante dos olhos do público, existe toda uma área nebulosa que mistura diversas questões morais inconfessáveis. Em determinado momento o leitor descobre que O porto franco de Genebra [Suíça] oferece confidencialidade e economia significativa de impostos. Em outras palavras, é um dos lugares que servem de esconderijo para objetos artísticos (ou não). Centenas de obras de artes (pinturas e esculturas) estão abrigadas naquele que Seria o melhor museu do mundo se fosse um museu. Não é um museu. É algo bem diferente, quase o oposto. Não há nada lá dentro para ser visto. Tudo está depositado em caixas, permanentemente oculto. Não é para ser visto. Para muitos proprietários, a arte moderna e contemporânea é uma excelente maneira de diversificar investimentos, protegendo-se contra a inflação. Em geral, a arte mantém seu valor ao longo do tempo e, em muitos casos, aumenta de valor. Enfim, a arte mantém um relacionamento simbiótico com a economia.    

Obra-prima é um texto que flutua no hibridismo. Não é um romance e está longe de ser classificado como jornalismo. Não se encaixa nas categorias conceituais existentes. É, de certa forma, uma anomalia literária – essa é a sua força.  

 

Juan Tallón Salgado


Richard Serra, artista minimalista, procurava envolver o expectador em diferentes experiencias de ocupação do espaço. Ou melhor, queria projetar um pouco de humanidade em materiais inanimados. O contraste da relativa aspereza do aço corten com o deslocamento das pessoas produz sensações que desestabilizam o olhar e chamam a atenção para elementos que estão além do visível. O público pode ter a impressão de que os artistas estão sempre dispostos ou motivados a fazer coisas bonitas, mas se você conversar seriamente com eles, ficará claro que não é isso que estão fazendo. A função da arte, a aspiração dos criadores, é fazer você pensar. Com uma linguagem própria a cada vez, mas essa parece ser a função da arte: mudar, mudar o significado, mudar o significado por meio da percepção, não mudar o significado por meio da beleza.


Richard Serra (1938 - 2024)


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