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quarta-feira, 6 de maio de 2015

WHIPLASH

Jazz não é música para todo mundo, lamenta Andrew Neiman, protagonista de Whiplash – em busca da perfeição (Dir. Damien Chazelle, 2014), um dos melhores filmes sobre música nos últimos anos e vencedor, na edição de 2015, de três Oscar: Melhor Ator Coadjuvante – J. K. Simmons –, Melhor Montagem, Melhor Mixagem de Som. 

Andrew tem razão. O som bate-estaca e a falta de educação nas letras das canções substituíram o romantismo artístico e o bom gosto. A vala comum está soterrando a música que faz a diferença.

Tendo como cenário o Conservatório de Música Shaffer, onde os alunos mais ambiciosos torcem pelo erro dos outros músicos, o enredo de Whiplash está concentrado na luta pelo poder entre um aluno ambicioso e um professor sádico. Trata-se de uma versão do mito faustiano, a velha história do sujeito que vende a alma ao diabo para obter algo inatingível aos homens comuns. Contemporaneamente, a metáfora se mostra perfeitamente adequada, visto que somente os corajosos ou os idiotas conseguem resistir aos apelos (emocionais, psicológicos e publicitários) do mundo competitivo – aquele que proclama em voz alta que o segundo colocado em qualquer atividade é apenas o primeiro perdedor.

Andrew Neiman (Miles Teller) – como muitos jovens que desconhecem os perigos da vida adulta – mistura ingenuidade e audácia. Filho de um escritor mediano, sem mãe (que o abandonou quando criança), ele quer se tornar um excepcional baterista de jazz. Quer alcançar o nível de Buddy Rich, Jo Jones ou Max Roach. E, nessa caminhada, não se importa em sacrificar qualquer coisa – a autoestima, a namorada, o respeito familiar, o que for necessário. Essa  pretensão o leva a intermináveis horas de estudo, além de calos e feridas nas mãos. Em uma reunião de família, ao ser confrontado com o que lhe espera no futuro, declara, evocando Charlie Parker: Prefiro morrer bêbado e pobre aos 34 anos e falarem de mim à mesa a viver rico e sóbrio até os 90 anos e ninguém se lembrar de quem eu fui. Não há ambição humana mais esplêndida do que obter a imortalidade.     

Terence Fletcher (J. K. Simmons), dono de péssimo temperamento, não admite qualquer coisa além das que são de seu agrado. Sob a desculpa de que está contribuindo para encontrar o próximo gênio musical, não mede esforços para infernizar a vida de cada um dos seus alunos. A crueldade está presente a todo instante, sob a forma de ofensas verbais, agressão física e truques sórdidos (em determinado momento promove o revezamento de três bateristas, impedindo que cada um deles obtenha estabilidade emocional). Regendo a Studio Band, combatendo o jazz “fast-food”, se considera acima do bem e do mal.

Nessa atmosfera da obstinação, quando forças díspares e convergentes colidem, quando momentos de histeria e insanidade se multiplicam, a pressão gera stress. E erros. E erros costumam ser fatais em uma carreira competitiva. Em determinado momento, diante das dificuldades em estabelecer quem é genial e quem é genioso, não há como escapar das perdas. Um colapso nervoso abala Neiman. Ele deixa de tocar bateria, Fletcher é expulso da escola.

Alguns meses depois, no verão, ocorre o reencontro. Neiman descobre que Fletcher está tocando piano em um bar. Não consegue resistir e vai ver o antigo professor. Pela primeira vez, a conversa entre eles é civilizada. Na hora em que estão se despedindo, Fletcher convida Neiman para tocar na sua nova banda de jazz, em um festival que acontecerá em poucos dias.

A tragédia está ligada com nossas escolhas. O convite esconde uma cilada. Fletcher sabe que o depoimento de Neiman foi decisivo para o seu desligamento do Conservatório de Música Shaffer. E, de certa forma, quer reviver o ambiente de competição e mesquinharia que, em um passado não muito remoto, os uniu.

O restante da história está em um nível em que a vingança e a mediocridade são superadas por algo acima da iniquidade humana. A cena final apresenta um dos mais impressionantes solos de bateria já filmado pelo cinema. Talvez o som do chicote (whiplash) seja também o som da beleza musical. 




P.S.1) Há quem considere a bateria como um instrumento destinado a apenas marcar o ritmo. Esse é um dos maiores preconceitos musicais, típico de quem desconhece o mínimo necessário. 

P.S.2) Miles Teller toca bateria desde os quinze anos. Para participar de Whiplash teve aulas intensas de quatro horas por dia durante várias semanas. Parte do sangue nas baquetas é o seu. Ele tocou em 70% das cenas.


segunda-feira, 4 de maio de 2015

HOMENS, MULHERES E FILHOS

A maneira com que o cinema costuma melhorar certas narrativas deve ser encarada como um dos fenômenos mais estranhos da indústria cultural. Sem entrar no mérito da questão, usualmente acontece o contrário. Ou seja, não há novidades quando um bom livro – projetado na tela em branco – se transforma no irreconhecível. Faz parte do propósito capitalista, que, em nome do lucro, sacrifica a qualidade ou o bom gosto (independente do que signifique esses conceitos). Mais escassas são as situações em que o filme está no mesmo nível do texto. Há exemplos bastante interessantes das três experiências. Não é necessário nominar situações extremas, embora Morte em Veneza (Dir. Luchino Visconti, 1971), baseado no romance de Thomas Mann, e O Leopardo (Dir. Luchino Visconti, 1963), baseado no romance de Giuseppe Tomazi di Lampedusa, sejam filmes/livros modelares nessa discussão.

Homens, Mulheres e Filhos, romance escrito por Chad Kultgen, ambiciona ser uma radiografia das carências afetivas e sexuais dos estadunidenses. O narrador onisciente, abusando do cinismo e da falta de esperanças, segue um ritmo linear, embora entrecortado por diversos episódios simultâneos. Maridos e esposas que não se entendem e procuram pelo prazer no corpo de outras pessoas, adolescentes obcecados pela primeira experiência sexual, pornografia on line, ausência de escrúpulos na vida particular – todos esses ingredientes resultam em um hiper-realismo que perturba, que parece exagerado. Não é. Exagerado. A vida “real” está repleta de personagens infelizes, que procuram a salvação ou a redenção através de ações desesperadas.

Homens, Mulheres e Filhos (Men, Women and Children. Dir. Jason Reitman, 2014), filme baseado no romance homônimo, não segue fielmente o esquema narrativo original. Aliás, na parte final, toma rumo completamente oposto ao que está proposto no livro. Algumas cenas foram cortadas. Alguns personagens, eliminados. A obsessão sexual foi amenizada. Ou seja, o filme melhorou em 300% um livro chato. Além disso, projetou um fio de vida em figuras dramáticas que, quando espelhadas no papel, não convencem.

Seguindo o esquema proposto pelo livro, o filme se concentra em diversos núcleos dramáticos – embora, por conta do politicamente correto e dos códigos de moralidade de Hollywood, aumente significativamente a idade dos adolescentes. O cinema estadunidense não tem autonomia para contar histórias perversas envolvendo adolescentes de 14, 15 anos.

No primeiro plano, o casal Don e Helen Truby (Adam Sandler e Rosemarie DeWitt) vive uma crise conjugal. Ele, depois de consumir toneladas de pornografia virtual, se envolve com prostitutas. Ela, através de um portal de encontros, mantém relações sexuais com diversos homens. O filho do casal, Chris (Travis Tope), apresenta um quadro patológico, de caráter sexual, que – provavelmente – deve fazer a fortuna de vários psicanalistas. Sua namorada, a líder de torcida Hannah Clint (Olivia Crocicchia), sonha em ser estrela de reality show. Mais do que um bloco familiar disfuncional, eles refletem o comportamento doentio que caracteriza a vida contemporânea.

No segundo plano, Tim Mooney (Ansel Elgort), astro do time de futebol da escola, entra em crise emocional e resolve abandonar o esporte. Como não consegue superar a incompreensão do pai, Kent Mooney (Dean Norris), e dos amigos (que o culpam pelos péssimos resultados da equipe), passa quase todo o tempo livre jogando on line. Entre a escola e o mundo virtual, namora Brandy Beltmeyer (Kaitlyn Dever), filha de Patricia Beltmeyer (Jennifer Garner), que transformou a vida familiar em uma obsessão com predadores na Internet. 

No terceiro plano, uma típica história de high school. Allison Doss (Elena Kampouris) está apaixonada por Brandon Lender (Will Peltz), que considera o garoto mais bonito da escola. Na primeira oportunidade, ela vai para a cama com o sujeito – embora esteja ciente de que ele não leva em consideração quaisquer sentimentos. Ele quer sexo, apenas isto.

No entrecruzamento, entram em cena diversos personagens secundários, inclusive Donna Clint (Judy Greer), mãe e empresária de Hannah. Ela quase namora Kent Mooney – relacionamento que poderia resolver parte das frustações que atingem ambos.

Desse “balaio de gatos” – onde o olhar crítico do espectador se perde entre tantos personagens superficiais e situações dramáticas mal resolvidas – surge um filme que utiliza um tom narrativo mais contido, menos agressivo que o livro. 

Homens, Mulheres e Filhos revela – de forma eficiente – que as demandas individuais raramente são contempladas e que a vida coletiva encontra obstáculos que parecem intransponíveis. Mas, ao contrário do romance, o filme mostra a possibilidade de uma rota de fuga. Felizmente. 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

DOIS OU TRÊS PALPITES SOBRE A LEITURA

Cena do filme O Leitor, baseado no 
romance Der Vorleser, de Bernhard Schlink
Esporadicamente alguém se manifesta em jornais, revistas e internet sobre os péssimos índices de leitura no Brasil. São opiniões divergentes, repletas de preconceitos e sem muita substância. Em muitos casos, enfocam aspectos principais, secundários e acessórios – sem saber qual é qual e as suas relevâncias. Poucas vezes atingem o ponto nevrálgico. Um desses casos típicos está retratado na pesquisa sobre os hábitos de lazer cultural dos brasileiros, realizada pela Federação do Comércio (Fecomércio) do Rio de Janeiro, em conjunto com o SESC-Rio e o SESI-Rio, e que aponta que, em 2014, sete entre dez brasileiros não leram um único livro.  

Alguns dos indignados comentaristas da pesquisa abordaram o analfabetismo literário como se fosse um fenômeno contemporâneo. Basta olhar nas entrelinhas desses textos para perceber que esses sujeitos fizeram um grande esforço para reprimir o início da análise com um parágrafo encabeçado por alguma frase nostálgica, talvez algo similar ao clichê no meu tempo não era assim. Implicitamente, eles anunciam com grande prazer que, em passado não muito recente, o problema não existia. E o pior é que – em um país que sempre se caracterizou pela ignorância galopante – ninguém diz em voz alta a palavra exata: mentirosos. Qualquer um que conheça um mínimo da história cultural do Brasil necessita admitir o básico: a instrução escolar – ler e escrever – sempre esteve atrelada aos propósitos de dominação sócio-política das classes econômicas mais abastadas. Os colonizadores, os índios e os escravos eram os principais segmentos de uma sociedade ágrafa. Com a Lei Áurea e a proclamação da República, o problema não diminuiu; ao contrário, ficou ainda mais evidente. Foi somente a partir da administração Gustavo Capanema, quando era Ministro da Educação, que ocorreram alterações significativas no sistema de ensino nacional. O analfabetismo começou a diminuir – mas não muito. E isso ratifica que, em um país de dimensões continentais, o poderoso braço do Estado se faz presente a todo instante como agente repressor, jamais como símbolo de liberdade ou avanço educacional.

Contemporaneamente, o analfabetismo está controlado – se as informações divulgadas pelo Ministério da Educação forem confiáveis. No entanto, as políticas de incentivo à leitura são, no mínimo, insuficientes. Muito ainda precisa ser feito nessa área. O número de bibliotecas escolares está aquém do desejado – e muitas delas foram substituídas por salas de informática, na vã pretensão de que o conhecimento superficial, fornecido pela internet (através do Ctrl C + Ctrol V), será capaz de produzir alunos mais inteligentes. Faltam contadores de histórias – profissionais capazes de incentivar novos leitores, através da força da palavra oral. Faltam oficinas de redação criativa – onde o poder da palavra escrita se projeta como criatividade e inventividade. Falta compromisso escolar, visando uma transformação significativa no atual déficit de leitura.

Outros analistas, tomando como base sólida e indiscutível os números da pesquisa, preferem lançar a culpa pelos baixos índices de leitura em questões pontuais como tempo e dinheiro. Ou seja, aquele que precisa sobreviver às dificuldades impostas pelo mercado de trabalho não consegue usufruir continuamente da leitura; além disso, os livros são muito caros para o poder aquisitivo dos brasileiros. Duas bobagens. E das grandes. A primeira pode ser desconstruída facilmente. O tempo é relativo. É um elemento consequente às ações sociais dos indivíduos. Ao lado das oito horas regulamentares de trabalho, onde, “em princípio”, a leitura está excluída, há espaços temporais vagos que podem ser utilizados – e que, na falta de uma melhor explicação, costumam ser desperdiçados. Ou seja, o ato de ler pode ser realizado no banheiro, dentro do transporte coletivo, na fila do banco, depois do almoço, antes de dormir. A segunda, além ser um equívoco, porque o valor de um livro novo está atrelado às demandas do mercado e não ao poder aquisitivo do leitor, ignora a existência de alternativas bastante simples. Além das bibliotecas públicas e institucionais, que emprestam livros para os associados, ainda existem os sebos físicos e virtuais, que vendem livros usados por preços bastante acessíveis. O interesse é condição principal para quem quer gozar dos prazeres da leitura. 

The Readers. Pintura de Nikki O'Brien.
Diante das estatísticas, que anunciam um futuro catastrófico para a leitura, inclusive na área dos e-books (que os ingênuos consideram a tábua de salvação da modernidade), sempre surge alguma alma indignada, reclamando por mudanças. Esse esforço, típico de quem gosta de produzir encenações de efeito, procura encobrir o elementar: o Brasil sempre foi, é, será, um país com grandes problemas nas áreas da escrita e da leitura. Em qualquer época – a partir do descobrimento – a relação da população com os livros foi, é, será assustadora. Nesse sentido, convém lembrar, como é de conhecimento geral (embora muitos façam o jogo das aparências e neguem), que a indústria editorial brasileira não pode ser classificada como um caso de sucesso empresarial. As baixas tiragens, raramente superiores a 3.000 exemplares, fornecem uma margem de lucro insignificante. E, em muitos casos, desestimulante.

Uma proposta simples e prática centraliza o problema nos diversos níveis do ensino escolar. E, basicamente, na forma com que o amor pela literatura é transmitido aos alunos. Parte dos professores que trabalham com a língua portuguesa – muitos sem habilitação na área de letras – não considera a literatura como um elemento pedagógico transformador. Caminhando em sentido oposto, concentram a dinâmica de ensino no “decoreba” gramatical e na camisa de força que constitui a “norma culta”. Obviamente, desconhecem (ou negam) que a literatura pode ser utilizada como uma ferramenta para fornecer uma formação mais humanística e menos técnica. Ou seja, ignoram uma das mais importantes possibilidades para incentivar a expansão do conhecimento e da imaginação.

Biblioteca Angélica, Roma, Itália
O estudo da literatura, centralizado nas escolas literárias e em autores e livros que foram descoloridos pelo tempo, não consegue atrair a atenção dos alunos (seja no ensino secundário, seja na licenciatura em Letras). Ao contrário, os afastam. Autores mais modernos, menos “datados”, que utilizam uma linguagem mais próxima da vida “real”, deveriam ser estudados antes dos clássicos. Ou seja, a linha temporal que constitui a historiografia literária deveria ser invertida e os “bons” autores somente deveriam estar ao alcance de quem por eles tivesse interesse. O que estou dizendo é que nenhum individuo contemporâneo possui paciência ou prazer estético com a linguagem rebuscada, por exemplo, de José de Alencar (que é um escritor monumental, mas que não consegue alcançar as inquietações de quem está, atualmente, em sala de aula). Iniciar o estudo com algumas crônicas ou diversos contos provavelmente vai atrair – por mais tempo – mais leitores. É hora de admitir que os alunos não estão (por diversos motivos) preparados para ter contato com livros repletos de palavras e expressões “fora de moda”. O mesmo se pode dizer de temas que lhes parecem inalcançáveis.

Trabalhar com a literatura significa aceitar – constantemente! – a mudança de paradigmas. Significa aceitar que há um mundo repleto de surpresas esperando pelo leitor. E, fundamentalmente, significa que o futuro de cada um de nós (leitores, professores, editores, livreiros) está em jogo na medida em que a barbárie (agressiva e ágrafa) bate nas portas da civilização.

O saber está conectado com o sabor (em múltiplos sentidos, inclusive o etimológico). Negar isso equivale ao admitir que a causa está perdida.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

SERGIO Y. VAI À AMÉRICA

O lugar do desejo sexual costuma ser um dos mais significativos tabus da literatura brasileira. Ontem, hoje, sempre. E na medida em que algum tipo de deslocamento se torna perceptível, a política hipócrita do don't ask, don't tell (não pergunte, não conte) se impõe com vigor. Ou seja, o ordenamento social (que adota modelos estáveis, sem o mínimo traço de ambiguidade) recomenda evitar qualquer tipo de referência ao amor que não ousa dizer o seu nome, conforme a célebre definição de Oscar Wilde, além de outras variações de comportamento sexual. A historiografia literária lembra, a todo instante, a maneira não muito cordial com que foram recebidas (pelos leitores, por parte da crítica) narrativas ficcionais como O Bom Crioulo (Adolfo Caminha, 1895), Crônica da Casa Assassinada (Lucio Cardoso, 1959), A Fúria do Corpo (João Gilberto Noll, 1981), Em Nome do Desejo (João Silvério Trevisan, 1983), Vagas Notícias de Melinha Marchiotti (João Silvério Trevisan, 1984), Morangos Mofados (Caio Fernando Abreu, 1987), Keith Jarret no Blue Note (Silviano Santiago, 1996), Berkeley em Bellagio (João Gilberto Noll, 2002) e A Inevitável História de Letícia Diniz (Marcelo Pedreira, 2006), entre muitos outros livros que optaram por transgredir com as regras do “bom comportamento” da classe média. Evidentemente – sem fazer concessões aos riscos propostos pela linguagem crua e agressiva –, a publicação de cada um desses textos serviu para ampliar o conflito.

Contemporaneamente, a sociedade brasileira tem registrado algumas mudanças de conduta. A intolerância diminuiu. Mas não muito. Provavelmente se tornou mais dissimulada. Ou sutil. Difícil precisar o que está acontecendo no interior do universo conservador que caracteriza a literatura produzida pelos brasileiros. Exemplos significativos dessa postura inovadora podem ser comprovados com a publicação de alguns romances de excelente qualidade literária – seja pelo domínio técnico, seja pela forma delicada com que os temas “proibidos” são abordados. Romances como Todos Nós Adorávamos Caubóis (Carol Bensimon, 2013), Nossos Ossos (Marcelino Freire, 2013) e A Vez de Morrer (Simone Campos, 2014), por exemplo, colocam em cena questões afetivas e sexuais que – de uma forma ou de outra – costumam ser omitidas. Ou ignoradas.

O romance Sergio Y. Vai à América, de Alexandre Vidal Porto, também propõe um tema correlato – mas com um enfoque diferenciado, que se concentra no olhar sensível do observador, que vê e relata os acontecimentos à distância. Assim como o leitor, o narrador está reduzido à condição de espectador – indivíduo que nada pode fazer para alterar a sequência de fatos que se desenrolam diante de seus olhos.

O psiquiatra Armando, setenta anos, transforma o seu relato memorialista em um ponto de reflexão para entender os motivos que resultaram em significativa mudança na vida de um de seus pacientes. Nas suas anotações sobre o caso, recorda que Sergio Emilio Yacoubian, dezessete anos, frequentemente se queixava nas sessões de terapia de ser infeliz. Aparentava ser um garoto deprimido. Um caso similar a tantos outros.

Uma interrupção no tratamento ocorre quando Sergio viaja para Nova York, em férias. Armando recomenda-lhe uma visita ao Museu da Imigração, no extremo sul de Manhattan, Você, que gosta de histórias de coragem, não pode deixar de ir ao museu de Ellis Island. Pode ser que você ache interessante saber mais sobre os imigrantes, ver seus objetos pessoais, conhecer histórias de gente que, como Areg [bisavô de Sergio], apostou tudo na própria felicidade.

Na volta, o paciente lhe entrega alguns presentes (comprados no Museu) e declara, Dr. Armando, acho que descobri uma maneira de ser feliz. Tive uma revelação em uma de nossas conversas e acho que já sei como encaminhar minha vida. Sinto que já não preciso voltar aqui. Desculpe-me não ter dito nada antes, mas eu não sabia. Obrigado por tudo.

O interregno cessa cinco anos depois, quando Armando descobre que o rapaz faleceu, em Nova York. Sem entender as razões da tragédia, volta a se interessar pelo caso inconcluso de Sergio. O que descobre não o conforta. Ao contrário, instala a perplexidade. Em Nova York, Sergio se transformou em Sandra. Literalmente. O sofrimento de estar preso em um corpo estranho, que não lhe pertencia, desapareceu. A migração de gênero (através de procedimento cirúrgico, medicação e auxílio psicológico) resolveu a angústia de Sergio, mas causou muita aflição em Armando. Como é que ele não havia percebido o que estava acontecendo com o rapaz? Será que estava perdendo a competência médica? Nesse momento, Armando – precisando encarar o fracasso profissional – descobre que nada pode ser considerado mais difícil do que prever ou controlar o que envolve a essência humana. Os mecanismos de defesa das pessoas são muito complexos. Os dos psiquiatras são piores ainda.

Os demais elementos narrativos são consequência do existir. Inclusive a morte violenta de Sergio. Mas, para a carpintaria literária, que está concentrada basicamente na figura de Armando, parte desses itens é acessória ou periférica. De qualquer forma, cansado, envolto pelo estoicismo filosófico, ele coloca a vida de Sergio/Sandra em perspectiva e conclui que Torno-me mais mórbido do que gostaria, mas é porque preciso me forçar a ter presente – eu, que tenho tendência a me sentir imortal – que todos morrermos em algum momento. Alguns prematuramente, como Sandra. Outros, muito depois do prazo de validade. Claro, ele é os "outros".

De uma forma pouco usual, no consultório de uma médica especializada em transgêneros, Cecilia Coutts, Armando desvenda aquilo que vários meses de terapia não foram suficientes para tornar inteligíveis Na loja de souvenires do Museu da Imigração, em Ellis Island, a chave do mistério abriu a porta que parecia inexpugnável: o "Y" do título do livro revelou  ser o "X" da questão. 

Escrito com fina sensibilidade, contenção narrativa e coragem, Sergio Y. Vai à América não pede permissão para abordar questões significativas para o entendimento da vida contemporânea, como os mecanismos psíquicos de identidade, a soberba da medicina e a transexualidade. 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A INTERPRETAÇÃO DO ASSASSINATO

Há quem compare o cérebro humano com um parque de diversões – psicanalistas, psiquiatras e psicólogos ambicionam liderar a fila. Policiais e advogados compartilham desse pensamento. Por motivos diferentes. No outro lado da discussão, filósofos, sociólogos e antropólogos frequentemente discordam – mas não muito. Embora apresentem uma lista de restrições, de impedimentos, eles estão cientes de que a questão costuma apresentar arestas inesperadas, que produzem feridas dolorosas.

Há quem diga que certos prazeres literários somente são possíveis nos romances policiais. Por múltiplas razões, raramente são os melhores divertimentos – como pode atestar qualquer jornal, a vida está conectada com a banalidade do mal. Ou seja, o horror não pode ser afastado do cotidiano humano, como se fosse um pouco de poeira depositada em cima de um móvel e que deve ser espanada rapidamente, sem causar danos significativos.

O romance A Interpretação do Assassinato, do estadunidense Jed Rubenfeld, consegue unir um evento histórico (a visita que Sigmund Freud, Sandor Ferenczi e Carl Gustav Jung fizeram em 1909 a Estados Unidos, convidados por Abraham Brill), a criação ficcional (diversos crimes sexuais, com características sadomasoquistas) e alguns dos conceitos mais rudimentares de psicanálise. Embora o livro não seja um grande feito literário, apresenta características muito significativas. Para quem estuda literatura, talvez o interesse maior esteja na divisão do fluxo narrativo entre dois narradores, que vão distribuindo os acontecimentos ao longo do texto. Essa bipolaridade estabelece uma dinâmica eficaz. O primeiro narrador, em terceira pessoa, inominado, onisciente, ordena os fatos em ordem sequencial e fornece ao leitor uma imagem aberta, ampla, dos acontecimentos, cenário onde se movimentam o detetive policial Jimmy Littlemore, o legista Charles Hugel e o prefeito McCellan. O segundo narrador, Stratham Younger, um médico apaixonado por William Shakespeare, restringe o seu depoimento a uma série de fatos específicos, basicamente se concentrando no entorno de Freud e em uma paciente aparentemente histérica, Nora Acton. O clímax surge quando os dois narradores dividem uma das cenas. O efeito da imagem no espelho, que olha nos olhos de seu duplo (ligeiramente modificado), causa um estranhamento inusitado, ligeiramente assustador – como um truque de mágica.

Na primeira fila: Sigmund Freud, Stanley Hall  e Carl Gustav Jung.
Na fila de trás: Abraham Brill, Ernest Jones e Sandor Ferenczi.
O romance destaca, em primeiro plano, as dificuldades que a psicanálise enfrentou para ser aceita no norte das três Américas, no início do século XX. A disputa territorial entre os médicos neurologistas e os discípulos de Freud não foi pacífica. Ninguém economizou vários “golpes baixos”, principalmente difamações.

Ao fundo, a ação narrativa se desenvolve em torno de uma mulher que foi assassinada por estrangulamento. Antes de ser morta, ela foi chicoteada com requintes de crueldade. Estranhamente, poucos viram o corpo – que desapareceu do necrotério. Essa atmosfera noir, esfumaçada por inúmeros ingredientes característicos do início do gênero policial, como femmes fatales (que mentem a todo instante), detetives incorruptíveis e interesses políticos e econômicos, multiplica o interesse do leitor, impedindo-o de largar o livro antes de terminar a leitura da última página.

Como estimulante, há também o ingrediente intelectual, fornecido pela fina camada de verniz do conhecimento, que contribui para que a eterna atração pelo que pode ser visto (e imaginado) pelo buraco da fechadura seja renovada. A presença de uma personagem forte, dessas que mexem com a imaginação coletiva, Sigmund Freud, associado com acontecimentos policiais, momento em que a maldade se mostra desmensurada, convida o leitor para participar da trama como alguém que quer encontrar a solução de um problema difícil.

Alguns dos eventos narrados no romance, como o desentendimento entre Freud e Jung, aconteceram em outro momento, em outra situação, mas esse tipo de “liberdade poética” não atrapalha a narrativa; ao contrário, permite uma espécie de andamento vivace. A descrição de Nova York, em 1909, também se mostra de significativo interesse historiográfico.

Enfim, não falta diversão em A Interpretação do Assassinato

Sandor Ferenczi e Sigmund Freud

P.S.: Em certos romances policiais, alguns nomes (de personagens, de lugares) podem ser considerados como um indício ou uma pista para descobrir pequenos (ou imensos) segredos incrustados na narrativa. Por exemplo, o título do romance, obviamente, se refere a um texto clássico de Freud, A Interpretação dos Sonhos.  O sobrenome do psicanalista estadunidense, Younger (o mais jovem), faz referência explícita ao fato de Estados Unidos ser um dos países que demoraram (pelo menos em relação à Europa) em aderir aos ensinamentos freudianos. O detetive Littlemore (mais pequeno, menor), em uma das cenas, é chamado por outro policial de Littlemouse (ratinho). O nome da mulher analisada por Younger, Nora Acton, além de fazer referência com Dora, um dos mais importantes casos descritos por Freud, também permite um trocadilho estranho, ou seja, que ela, na falta de melhor expressão, está "agindo" (act on).