Páginas

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

DOIS AMORES




Os irmãos Lulu e Dudu estão naquela idade em que as urgências da masculinidade equivalem ao conquistar o mundo:

A molecada queria baile funk, comprar tênis para dançar funk, funk na quadra da escola de samba que rola aos domingos, beijar a boca de Soninha, beijar a boca de Celinha, dançar, segurando na cintura, fazer a dança da bundinha, se esfregar no corpo dela. Lulu na Soninha, Dudu na Celinha. Têm que estar bonitos, têm que estar na frequência da onda, pra dançar conforme a música, e têm que ter tênis, tênis que foi feito colorido, o publicitário foi lá e bolou, a TV veiculou, o Diabo abençoou e colou. Fica mais bonito quem usa tênis caro pra dançar funk, só beija na boca se tiver bonito, só é bonito quem tem tênis da onda para dançar. Só dança funk quem beija na boca. Só beija na boca quem pode.  


O primeiro obstáculo a ser superado mistura as dificuldades econômicas com a insegurança masculina. Como agradar Soninha e Celinha, no baile funk, sem um par de tênis colorido, de marca?

Alguma solução deve haver, pensaram os meninos, naquele frenesi de quem não consegue esperar. Eles têm pressa. Pressa de sentir o contato da pele com outra pele, arrepios e gemidos no mesmo ritmo do batidão que ensurdece o mundo. 

Fábula que celebra os acontecimentos "menores", o conto Dois Amores, de Paulo Lins (Editora Nós, 2019) consegue captar com elegância e lirismo a transição da adolescência para o mundo adulto. Ao abordar algumas das complicações que acompanham o desejo, a história dos dois meninos reflete a violência cotidiana.




Filhos de uma família que mora em Queimados (50 km do centro do Rio de Janeiro) e que precisa, diariamente, superar mil e um obstáculos (o pai vive de “bicos”, a mãe faz faxinas), Lulu e Dudu não se deixam abater pelas adversidades e vão à luta com a coragem dos heróis daqueles filmes que passam no meio da tarde.

O pai consegue algum dinheiro emprestado e eles saem, naquele sábado de chuva, na direção do Rio de Janeiro a vender amendoim no trem, doces na porta do cineclube, fingem ser flanelinha, pedem esmola. E assim, depois de um dia de trabalho, conseguem o suficiente para comprar os calçados.

Tudo estaria bem, se fosse possível voltar para casa no meio da noite. Infelizmente, a jornada do herói não se encerra com alguns tropeços de pouca monta. O perigo habita a selva urbana. O mal assume formas edulcoradas – e costuma engolir os ingênuos.

E ninguém consegue atravessar esse inferno ileso – principalmente quando os predadores farejam que a vítima possui algum dinheiro.

Sem ter onde passar a noite, eles procuram por um lugar onde estejam a salvo de tarados sexuais, viciados em crack, traficantes, policiais corruptos e marginais diversos.

O que se segue enaltece a mitologia carioca. No vídeo game que cada um dos personagens está jogando, as melhores soluções estão nos atalhos, nos macetes, na saraivada de blefes contra quem parece possuir os melhores lances nessa loucura raramente honesta que emoldura a vida. A vitória da esperteza, depois de várias peripécias, parece encerrar o texto com um Deus ex machina, o que, obviamente, amplia o caráter onírico da narrativa, mas afasta o realismo em que está encaixada.

Na ultima página, os meninos ouvem a lição que estava desenhada nas primeiras frases do texto: tênis de marca não serve para nada, exceto para ensinar que tênis de marca não serve para nada. A implosão da estética do autoengano se encontra com o ensinamento ético.    

Dois amores, narrado em terceira pessoa, é um conto de enumeração. Em cada brecha da narrativa o texto multiplica os substantivos até a exaustão. O uso desse recurso permite espichar a história, criar uma crosta coloquial, mostrar a expansão da linguagem e, por fim, tornar o enredo mais colorido, mais alegre. Funciona – neste caso.

Se o enredo de Dois Amores  fosse administrado por outras mãos, provavelmente a história teria mais fôlego, mais elementos ficcionais, outras aventuras. E as frases finais estariam mais próximas da realidade. Ficaria melhor? Ninguém sabe. Melhor não saber. Como está, está ótimo.   


TRECHO ESCOLHIDO

Se fosse dia de sol, seria picolé na areia, água com gás e sem, mate, óculos escuros, cerva gelada, refri... Mas em dia de chuva, só rola cinema e teatro. Sem sol a cidade fica vazia. Com ele é um monte de gente quase pelada andando pela areia, nas calçadas, enchendo a cara, rindo à toa. Todo carioca é povo de rua. O sol é o rei da putaria no Rio de Janeiro. Foram a pé da Central à porta do Estação Botafogo para vender doce para a turma que gosta dos filmes de Tarantino, Spike Lee, Claudio Assis, Beto Brant, Lírio Ferreira e Almodóvar. Eles gostam de Mentex, fazem pilates, roupinha discreta, alguns vão à academia, são limpinhos, passam filtro solar, hidratantes, já leram Leminski, comem orgânicos, muitos não comem carne vermelha, todo mundo dá um-dois. Gente legal. Se eles não quiserem bala com muito açúcar, pede esmola que dão, só uma moedinha, é só dizer que é pra remédio; esconder a sede de beijo, de dança de funk, de ficar bonito, entocar a fome de tênis, a vontade de zoar; ocultar aquela ânsia de ser feliz para sempre.  


segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

OS VIVOS E OS MORTOS


Em alguns momentos a literatura e o cinema se encontram e produzem maravilhas que deixam o leitor/espectador pensando que o encantamento é uma das formas de dar sentido à vida.

Habitualmente a literatura serve de inspiração para o cinema. Raramente acontece o contrário.

O último filme de John Marcellus Huston (1906-1987) é uma adaptação do conto Os Mortos, de James Joyce (1882-1941). Simbolicamente, Os Vivos e os Mortos (título no Brasil) estreou de maneira póstuma no Festival de Veneza, uma semana depois da morte do diretor.  

Publicado em 1914, na coletânea Dublinenses, o conto se concentra em dois episódios distintos. A moldura principal está na festa oferecida pelas “três Graças”: Júlia, Kate e Mary Jane.  Reunindo parentes, amigos e alunos, o evento (que acontece em Dublin, no dia 06 de janeiro de 1904, Dia de Reis) se divide em várias atrações: concerto artístico, baile e ceia. No intervalo entre as atividades, os convidados conversam, bebem ponche ou uísque, namoram, brigam.

Como compete às narrativas de época, o enredo aborda algumas questões pontuais: o nacionalismo, a decadência da vida cultural e as idiossincrasias do círculo de amizades.     

Durante a ceia, Gabriel Conroy faz um pequeno discurso de agradecimento para as anfitriãs. Em tom nostálgico, em certo momento, afirma (...) sempre há, em reuniões como esta, pensamentos mais tristes que recorrem em nossas mentes: imagens do passado, da juventude, das mudanças, dos rostos ausentes de que sentimos falta aqui esta noite. Nosso caminho pela vida é repleto de muitas memórias ruins: e se nós nos remoermos demais nessas memórias, jamais encontraremos forças para seguir bravamente com nosso trabalho entre os vivos.

Nas entrelinhas, as palavras de Gabriel anunciam a finitude da vida, as lágrimas que precisarão ser contidas, o inexorável. E como não há como prever quem estará ausente no próximo ano, o que ele mais teme é a perda da tradição, da alegria e do prazer, dos encontros entre os amigos.

James Augustine Aloysius Joyce (1882 - 1941)
Ao final da festa, Gabriel encontra a esposa na escada, ouvindo o canto de um dos convidados, Bartell D’Arcy. 

A música traduz o ponto divisório da narrativa. A alegria festiva desaparece. Gabriel, que estava empolgado, pensando que poderia desfrutar de um pouco mais de prazer junto com a esposa, descobre que algo de difícil compreensão tomou conta do ambiente.   

No hotel, algum tempo depois, Gretta esclarece o motivo da tristeza. A música a fez lembrar um amor da adolescência, quando morava em Galway. Enciumado, Gabriel quer detalhes, quer saber se ela ainda ama o rapaz. A esposa esclarece que não há motivos para preocupação: Michael Funey morreu de pneumonia aos 17 anos de idade.

Pouco importam as explicações, o desassossego se estabelece. Não há como retornar ao que era antes. A sombra do morto acompanhará o resto da vida conjugal.    

John Marcellus Huston (1906 - 1987)
Alguns pontos de luz no vidro fizeram-no virar para a janela. Havia começado a nevar novamente. Ele assistiu, sonolentamente, aos flocos, prateados e escuros, caindo obliquamente contra os lampiões. (...) A neve caía, também, sobre todas as partes do cemitério solitário na montanha onde Michael Furey estava enterrado. Ela espalhava-se densamente sobre as cruzes tortas e os túmulos, as pontas do pequeno portão, os espinhos estéreis. A alma de Gabriel desmaiou devagar enquanto ele ouvia a neve caindo levemente sobre todo o universo e levemente caindo, como a descida ao seu fim derradeiro, sobre todos os vivos e os mortos.

A versão filmada por John Huston (roteiro de Tony Huston) segue o enredo literário na quase totalidade. Alguns elementos foram suprimidos ou manejados para que aparecessem em outra cena. Nada que modifique a ideia geral. Mesmo assim,...

Mesmo assim, o filme consegue transmitir o sentimento de melancolia e de perda que envolve a trama. Parte desse sucesso se deve à parceria entre Donal McCann (Gabriel) e Anjelica Huston (Gretta).

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

ENFIM, CAPIVARAS



A curiosidade acompanha a leitura. A escolha do leitor por um livro depende de muitos fatores. Se houver algum “plus” agregado ao texto, as opções se tornam mais fáceis. E isso significa, para o bem e para o mal, que a publicidade sempre faz parte da equação.

Enfim, Capivaras, romance infanto-juvenil ou para jovens adultos ou qualquer classificação que lhe caiba na (des)ordem do mundo literário, escrito por Luisa Geisler, foi impedido de participar da Feira do Livro de Nova Hartz, um pacato lugarejo do interior do Rio Grande do Sul (uns 21 mil habitantes). Além de cancelarem a participação da escritora, alegaram que a narrativa era inadequada para jovens: em especial pela linguagem.

Parece que os puritanos de plantão não gostaram de ler sobre as aventuras noturnas de cinco jovens entediados (Vanessa, Denis, José Luís, Leopoldo, Nicole), quer dizer, seis adolescentes, pois a presença de Amanda também está projetada na escuridão da noite. Em cidades pequenas, onde as opções de lazer são escassas, cabe à imaginação estabelecer lugares e afazeres que ajudem a eliminar o tédio, que reduzam a mesmice em – no mínimo – alguma história para contar em tempo futuro.

Quatro dos personagens resolvem desmascarar o mentiroso da turma. A gota d’água ocorre quando Binho (apelido de Denis) informa que possui uma capivara de estimação. Confrontado, o rapaz afirma que o animal fugiu. Evidentemente, essa explicação banal não convence. Como uma coisa puxa outra, os cinco saem a procurar do mamífero. Antes, como cabe aos aventureiros destemidos, passam em um supermercado e fazem algumas compras (salgadinhos, bolos, doces, coca-cola, vodka).

E o que acontece depois? Nada. Nada que seja estranho a esse tipo de situação. Um pequeno acidente de carro (ninguém ficou ferido), várias discussões, alguns acertos de contas e o estreitamento dos laços afetivos. Entre mortos e feridos todos conseguem atravessar a noite e ver o nascer do sol sem grandes danos físicos e psicológicos.

Se o livro segue esse tom, uma jornada pelos caminhos nem sempre lineares da amizade, qual é o problema de linguagem apontado pelos organizadores da Feira de Nova Hartz? Difícil saber. Talvez o moralismo provinciano não tenha uma compreensão objetiva do que significa, na modernidade, a necessidade do lazer como uma válvula de escape para a opressão social (relações familiares, estudo, trabalho). Talvez o valor da “linguagem” esteja na representação social de um modo de vida que as aparências sociais nem sempre querem admitir. O “real” assusta – principalmente aos que carregam o fardo da infelicidade.

Os palavrões, o uso descontrolado do álcool, a discussão (muito tênue) sobre sexualidade, o desnível econômico entre o filho do patrão e o filho da empregada, a sobrevivente do divórcio dos pais, o furto da capivara, o menino dirigindo sem CNH, constituem um esboço sutil (embora perceptível) da divisão social que projeta o cenário em que os personagens se movem. Ou melhor, do mundo em que os censores habitam. E eles, os censores, não gostaram de ver o reflexo no espelho.  



P.S: em relação à estrutura textual, Enfim, Capivaras está dividido em vários capítulos curtos. Os diversos personagens (exceto Binho e Amanda) se revezam na narração, fornecendo um dinamismo que aumenta o interesse do leitor.  

terça-feira, 15 de outubro de 2019

ARTUR AZEVEDO E AS CRÔNICAS DE COSTUMES



(...) os seus contos, as suas fantasias estavam ao alcance de todas as inteligências, e eram lidos, senão com avidez, ao menos com simpatia. 
Artur Azevedo, in Poverina


O tempo não perdoa. Alguns escritores (independente da contribuição histórica ou da qualidade literária) são transformados em referências historiográficas, verbetes de enciclopédias, curiosidades literárias. Nada mais do que isso. Classificados como “menores” ou “datados”, perdem leitores, desaparecem na poeira que soterra as bibliotecas.

Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo (1855-1908) é um desses casos. Menos “famoso” do que seu irmão, Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo (1857-1913), teve importante papel no cenário cultural que abrange o II Império e o início da República. Foi, inclusive, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Sua produção literária se concentrou na dramaturgia (dramas, comédias, adaptações), o que não o impediu de escrever crônicas, contos, crítica literária e teatral. No plano político, defendeu o abolicionismo de forma incisiva.

A prosa e as peças de teatro estão publicadas em livros que se encontram fora de catálogo. Contos, volume 21 da coleção Obras Imortais da Nossa Literatura (Editora Três, 1973), fácil de ser encontrado em sebos, pode ser a oportunidade para diminuir a distância histórica e literária. São 46 narrativas breves. O ambiente e o conflito narrativo são descritos em poucas linhas. O desfecho aparece naturalmente, sem grandes efeitos estilísticos ou lições de moral. Essa simplicidade – aparente – esconde o domínio técnico, principalmente nos diálogos.

Como conto é tudo aquilo que dizemos ser conto, Artur Azevedo foi um bom cronista. São textos exemplares. Retratos de época. Em alguns momentos mostram que a sociedade carioca e, por extensão, brasileira – na transição do século XIX para o século XX – estava alicerçada na hipocrisia. Nada diferente da situação atual. A história civilizatória sempre se mostrou incapaz de mudar certos hábitos. Viver de aparência constitui a lógica da classe média, que anseia por estar em um patamar ilusório e, muitas vezes, não mede esforços para tentar concretizar esse projeto socioeconômico. Mero autoengano.

Em outros momentos, os contos/crônicas se concentram no inferno afetivo e econômico que caracteriza as relações amorosas. Embora não esteja explicito, o autor parece acreditar que o conceito de felicidade foi inventado para fraudar as emoções, sendo que o homem é a primeira vítima desse ardil. Em contrapartida, sugere que as mulheres são bonitas, sedutoras, infiéis, vaidosas e, em alguns casos, fúteis. Para melhor caracterizar essa visão, as separa em duas categorias: ou são jovens e esperam por marido ou são casadas e infiéis.

Essa visão masculina e machista está marcada em uma série de narrativas que relatam namoros complicados, pais que se metem na vida amorosa das filhas, casamentos arranjados e o adultério. No destaque, a volúpia feminina se apresenta como tema recorrente. José, personagem de A Não-me-toques, resume a tese: Enquanto foi solteira, achava minha mulher que nenhum homem era digno de ser seu marido; depois de casada (por conveniência) achou que todos eram dignos de ser seus amantes. Em X e W aparece um fetiche singular: Xisto, homem feio e pobre, mora na frente da casa de uma viúva, 30 anos, lindíssima. Um dia ele recebe um bilhete, convidando-o para atravessar a rua. Com receio e curiosidade, vai. Nos dias seguintes nenhuma notícia da pessoa amada. O mistério desaparece quando ele encontra Wladimir, que lhe conta que a viúva era uma colecionadora! A mulher tinha como propósito ter sexo com homens cujo nome iniciasse com todas as letras do alfabeto. Depois dos dois, estava faltando somente o K e o Y.

Em Black, o autor apresenta um estudo de caso e, no seu entender, a comprovação do argumento principal, ou seja, que as mulheres não são de confiança. Leandrinho, famoso bon-vivant, costumava frequentar a casa do Martins – mas, como perceberam os vizinhos, somente quando Martins não estava em casa. O único ingrediente estranho nessa aventura amorosa se chamava Black, um bull-terrier que latia com intensidade enquanto ocorriam os encontros furtivos. Para salvar as aparências e resolver problemas com a imagem social, Candinha (a esposa e amante) resolveu apresentar um ao outro em um sarau. A amizade se consolidou em 30 segundos: pareciam amigos de infância! Logo em seguida, houve o convite para que Leandrinho fosse cear com o casal no dia do aniversário de Candinha. No dia aprazado, o rapaz se apresentou para o convescote. (...) Black veio a correr lá de dentro, e começou a fazer muitas festas ao recém-chegado, saltando-lhe às pernas, lambendo-lhe as mãos, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda irrequieta e curva. Ciente de que o cão não costumava proceder com tamanha intimidade com estranhos, (...) d. Candinha e Leandrinho foram postos na rua a pontapés valentemente aplicados.

As filigranas que envolvem a vida social também se fazem presentes nas narrativas de Artur Azevedo. Um exemplo singular é A Polêmica. Romualdo, jornalista desempregado, resolve procurar uma fonte de renda no comércio. Por isso vai procurar por Caldas, um amigo dos tempos colegiais. Foi bem recebido, mas... em ocupação diversa. O Caldas queria publicar um artigo em jornal contra um amigo comum, o Saraiva. Como não tinha capacidade para escrever, contratou o Romualdo. A necessidade de pagar as contas se impôs e o artigo foi redigido em poucos minutos. No dia seguinte, o texto estava estampado em páginas do Jornal do Comércio. E tudo estaria nos trilhos, se... se não tivesse recebido um bilhete do Saraiva. Ele queria ver o Romualdo com urgência. Sem poder fugir do chamado, foi. Mas foi com receio de ter sido descoberto. O alívio surgiu quando tomou conhecimento que Saraiva o queria contratar para escrever uma réplica ao artigo do Caldas. Quer dizer, uma réplica ao próprio artigo! Outra vez, lembrando os credores a bater em sua porta, se rendeu ao comércio literário. No dia seguinte, foi acordado pelo Caldas, que estava irritado pela replica. Enfim, durante um mês o pêndulo se fez presente. Cada um dos contendores queria contestar os argumentos do outro e o Romualdo a se esforçar para satisfazer o ego dos sujeitos. Com algum dinheiro no bolso e quase esgotado por tantas trocas de ofensas, Romualdo (...) foi gradualmente adoçando o tom dos artigos, fazendo, por conta própria, concessões recíprocas, lembrando a velha amizade, e com tanto engenho se houve, que os dois contendores se reconciliaram, acabando amigos e arrependidos de terem dito um ao outro coisas desagradáveis em letra de forma. Por fim, acabou empregado na firma de Caldas e esqueceu o jornalismo.

Outro momento hilário se apresenta em O galã. Ao ver o olhar apaixonado que a esposa dirigia ao protagonista de um espetáculo teatral, Brites convidou o ator para jantar: Quando, às seis horas da tarde, chegou o galã, ela não quis acreditar que era ele: (...) Tinha diante de si um homem feio, marcado de bexigas, os dentes postiços, o cabelo cortado à escovinha e a cara inteiramente raspada... de véspera”. (...) “E não sabia estar à mesa: repetia todos os pratos, metia a faca na boca, palitava os dentes, limpava a testa no guardanapo, escarrava, cuspia! A cena, no melhor estilo pastelão, clímax do embate entre a ilusão e a realidade, pode ser resumida em frase ligeiramente perversa: Sinhazinha estava pasmada e o Brites radiante.

Uma situação-limite se torna visível na medida em que o universo narrativo de Artur Azevedo se torna mais nítido: a existência de mulheres fortes e homens fracos. Entre o exemplo exagerado de Dona Eulália, que, entre outros agrados, bate no marido, e o ideal romântico que move o sujeito que protagoniza  Um capricho, há uma imensidão de maridos traídos, maridos que traem, trapaceiros, covardes, além dos desprovidos de inteligência intelectual e emocional. Uma multidão de homens com defeitos de fabricação. 

A gramática e a literatura são assuntos que não poderiam deixar de ser abordados. Em O gramático, Plebiscito e no atualíssimo As asneiras do Guedes, a falta de correção no falar e escrever são apontadas como exemplos da ignorância. Em História de um soneto e em Poverina, a literatura serve de moldura para depurar as relações amorosas, estabelecendo que o real  além do espanto, também possui encanto.    

As narrativas de Artur Azevedo estão enraizadas em solo urbano. Os personagens, em sua maioria, são funcionários públicos, comerciantes e alguns nobres. Sintomaticamente, os políticos estão à margem. As exceções são De Cima Para Baixo, onde a hierarquia se mostra ativa na procura por um culpado em uma falha burocrática, e o escatológico Pobres Liberais!

Para o narrador (sempre em terceira pessoa), as intrigas domésticas tecidas diante de seus olhos atentos devem ser reveladas ao público leitor – mas em uma linguagem que transforme o trágico em comédia. De preferência, nada muito escrachado, nada muito agressivo. O suficiente para mostrar o quanto o ridículo pontua as ações humanas. O suficiente para tentar esconder que entre os seus personagens se sobressaem mulheres fortes e homens fracos.

Descontadas as abordagens moderadas de alguns temas, ignorando o pudor romântico, aceitando a leveza narrativa e o humor simplório, é possível imaginar que Artur Azevedo foi, em seu tempo, uma espécie de Nelson Rodrigues avant la lettre.

domingo, 1 de setembro de 2019

A ÚLTIMA MULHER



Os leitores dos doze romances escritos por Luiz Alfredo Garcia-Roza nunca se decepcionaram com o delegado Espinosa. Em tempos grotescos e imorais, onde há confusão de identidade entre policiais e bandidos, entre inocentes e pecadores, a forma com que Espinosa observa o mundo parece fora de foco. Mais do que um funcionário público empenhado em desvendar crimes e mortes, o delegado valoriza a ética, as relações afetivas e o bom senso. 

A Última Mulher, difícil dizer de outra forma, é o episódio final da serie. Garcia-Roza, internado em um hospital, está em coma faz alguns meses. Sua esposa, Lívia, costuma atualizar a situação nas redes sociais. 

(...) algum dia tudo isso iria acabar e ele seria apenas uma sombra, um vestígio do que verdadeiramente havia sido: um bom policial. As palavras que concluem o romance curto (117 páginas) possuem sabor de despedida. Em uma narrativa em que o Delegado Espinosa atua como coadjuvante, essa observação soa como uma metáfora melancólica, como que a dizer que nada é permanente e que é hora de ceder o lugar para outros personagens, outras histórias, outros escritores.

Rita, a última mulher do título, protagoniza os episódios mais importantes da trama.

Acostumada com as asperezas da rua, onde costuma ganhar a vida vendendo o corpo, Rita encontra no cafetão Ratto o alicerce. Como as histórias de amor não costumam ter finais felizes, logo surge um obstáculo.

As coisas caminhavam bem, sem maiores conflitos, até o dia que a polícia notou que ele e o Japa prosperavam. Certa noite, sozinho em um beco escuro, sem possibilidade de pedir auxílio, Ratto foi abordado por um policial.

– Proxenetismo, aliciamento e corrupção de menores, formação de quadrilha. Você sabe o que isso significa, seu ratinho de merda? Você vai passar o resto da vida atrás das grades.

Ratto engoliu em seco e perguntou à voz miúda:

– O que nós podemos fazer para nada disso acontecer?

– Nós, não. Você. Te espero amanhã, nessa mesma hora, com cinquenta por cento da grana que tiraram no mês passado. Se eu perceber que estão tentando me enganar, vai ter sido a última vez. 


Toda a estrutura da narrativa está sintetizada nessa cena. O sócio de Ratto, conhecido como Japa, um advogado de porta de cadeia, vive bêbado 24 horas por dia. Eles costumam dividir a féria mensal, depositando uma parte em conta bancária (que é esvaziada de uma hora para outra, deixando Ratto sem um tostão).

Como Ratto não quer se tornar presa dos policiais, resolve desaparecer de cena. Aluga um quarto em um hotel vagabundo na Ladeira dos Tabajaras, tomando o maior cuidado para não chamar a atenção.

Sentindo a falta do parceiro, e temendo que alguma desgraça tenha acontecido, Rita resolve procurá-lo. Suas incursões na Lapa e em Copacabana, na Cinelândia e na Avenida Atlântica descrevem um Rio de Janeiro mítico, onde o submundo e a malandragem reinam. Infelizmente, essa é uma falsa impressão. No embate entre a transgressão e a corrupção, alguns elos da corrente costumam apresentar corrosão a todo instante. Isso significa que o leitor precisa acompanhar, ao longo do texto, várias mortes violentas. O mistério se adensa e fica difícil determinar o que acontecerá. A curiosidade faz com a leitura não seja interrompida.  

Nas escaramuças entre gato e rato, o desejo de destruição se apresenta como abismo. Enquanto Ratto se esconde – mas não de Rita ou de Espinosa, Wallace (esse é o nome do policial) está à espreita, preparando o bote final. E que não demora a acontecer. Nas histórias em que os marginalizados combatem as instituições, apesar do resultado favorável em algumas batalhas, o desfecho da guerra se torna previsível.

Uma onda maior que as demais fez Rita dar meia-volta e retornar com passos mais rápidos, voltando a cabeça repetidamente para trás. Em algum momento, trombou com um homem. No lado esquerdo as ondas passavam molhando a mureta; à direita, apenas a imensa pedra escura que subia dezenas de metros acima de seu corpo miúdo. Não tinha como fugir.

– Wallace manda lembranças – o homem disse.

Rita se desesperou e olhou para todos os lados à procura de Ratto, mas ele não estava lá.   


Luiz Alfredo Garcia-Roza